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A proteção de menores

Em outubro, mês em que se celebra o dia das crianças, acompanhamos tristes notícias de violência e abuso contra crianças e vimos também calúnia, como no caso do auxiliar de educação física Hudson Nunes de Freitas, de 22 anos, que foi investigado por suspeita de estupro de vulnerável nas dependências de um colégio de BH. E ainda, os acusadores que inicialmente se declararam vítimas de abuso sexual de Antonio Molina, expulso do estado clerical pelo Vaticano, recentemente se retrataram perante os tribunais de El Salvador; outra vítima de calúnia.

A Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp) registrou que, a cada 24 horas, pelo menos oito ocorrências de abuso sexual contra crianças e adolescentes de até 14 anos e pessoas mentalmente ou fisicamente incapazes de oferecer resistência a esse tipo de violência são registradas em Minas Gerais. Isso sem mencionar as situações em que o silêncio da vítima, seja por ameaça ou vergonha, impede a polícia de agir.

Os estupros de vulneráveis, muitas vezes, são cometidos por pessoas próximas ou algum familiar, tanto homens como mulheres, ou alguém que trabalhe com esportes, educação ou até com religião de variados cultos. Apesar de alguns maliciosos associarem pedofilia à igreja (padres e celibato), a violência que crianças vêm sofrendo é uma realidade “extra murus” da Igreja Católica. Afeta a igreja, pois os membros dela estão inseridos no mundo e por isso expostos a todo mal. A igreja está inserida neste contexto social, contudo, é um mal da sociedade e não da Igreja. Os agressores são tanto homens como mulheres e as vítimas meninos ou meninas.

É dever da Igreja, ao defender a dignidade da Pessoa Humana, combater esse tipo de violência – a começar de dentro. Por isso mesmo foi realizado o Encontro sobre proteção de menores e adultos vulneráveis entre os dias 21 e 24 de fevereiro de 2019. Os padres têm acesso ao mais íntimo de nossos irmãos, não por suas qualidades, mas em virtude do sacramento da confissão e do zelo pastoral de orientar espiritual o povo confiado a nós e aqueles que nos procuram. Digo isso para que entenda que sabemos o quanto meninos e meninas sofrem por serem violentadas por algum familiar (pais, padrastos, madrasta, primos, tios, padrinhos entre outros), vizinho, amigo da família e outros.

A igreja não pode ser hipócrita e fechar os olhos a essa triste realidade que ceifa nossos pequeninos (Mt 18,6) e a sociedade também não pode ser hipócrita e estigmatizar a Igreja e o celibato dos padres – atribuindo-lhes a exclusividade de tal aberração -, fechando os olhos a homens e mulheres casados que destroem a infância e adolescência das vítimas apesar de serem desimpedidos do celibato.

É preciso conversar, mas não de forma pejorativa. Orientar, por exemplo, sobre a inadequação de ter os órgãos genitais tocados por outras pessoas. Explicar que criança não namora, nem de brincadeira. Alertar que existem áreas no corpo que ninguém pode tocar ou nelas encostar, mas é importante que seja dito na linguagem da criança.

Não se devem fechar os olhos para ninguém; deve-se exigir que todas as instituições façam o mesmo. Se bem que muitas famílias não tenham coragem de denunciar algum dos seus. O Papa Francisco já acionou a “tolerância zero” para padres e bispos que cometerem tal desvio – e outros – ou de alguma forma acobertarem conforme consta na Carta Apostólica Motu próprio “Como uma Mãe amorosa” você entenderá melhor.

Pe Bruno Costa Ribeiro,
assessor da Pastoral Familiar e PASCOM

Um coração missionário: A alegria de Evangelizar

“Ide vós também para a minha vinha”
(Mt 20,7)

O coração humano é respeitado por ser o lugar onde residem as qualidades morais de um indivíduo, ou seja, os sentimentos e as emoções. No coração missionário não é diferente. Neste pequeno órgão muscular encontramos o governo, onde o chamado de Deus faz sentido: “Ide vós também para a minha vinha” (Mt 20,7). Na missão somos convidados “a entrar, fechar a porta e a orar ao Pai. Este que vê a sinceridade nos recompensará” (Mt 6, 6-8). O missionário tem a arte de dirigir o espírito que o impulsiona a calçar as sandálias da missão. Como nos diz George Peters: “O mundo está muito mais preparado para receber o Evangelho do que os cristãos para propagá-lo”. Daí que, para o missionário, não existe o perto ou o longe, mas a vontade de evangelizar.

A alegria do evangelizador é proporcionar vida para todos (Jo 10,10). Por isso, o que é outorgado ao missionário não é uma concessão, nem uma simples característica que a Igreja lhe oferece, mas sua autenticidade de ser. Daqui se entende as palavras de Jesus, quando diz: “Ide por todo o mundo e fazei discípulos meus” (Mt 28, 19). As palavras Bill Gothard asseveram: “Uma mensagem preparada numa mente alcança uma mente; uma mensagem preparada numa vida alcança uma vida”. Jesus é a mensagem e a vida, o Evangelho por excelência (Mc 1,1). O missionário é aquele que entende o verdadeiro sentido das palavras do Mestre: “Ide vós também para a minha vinha” (Mt 20,7).

São Paulo VI, declara: “Jesus é o primeiro e maior evangelizador, que incessantemente nos envia a anunciar o Evangelho do amor, com a força do Espírito Santo (EN, 7). Eis, pois, que a alegria do missionário tem como segurança as palavras do Senhor: “não tenham medo” (Mt 28,5). O sentimento de júbilo do evangelizador rejuvenesce com os sinais da vitória do ressuscitado, estimulando a graça da conversão, mantendo viva a esperança que não decepciona. O que define o arauto do Senhor não são as circunstâncias dramáticas da vida, nem os desafios da sociedade ou as tarefas que deve empreender, mas todo o amor recebido do Pai, graças a Jesus Cristo pela unção do Espírito Santo (DA 14). O Evangelho é sua segurança.

O Papa Francisco nos assegura que a missão nos oferece uma alegria contagiante, porque põe em prática a certeza do “caminho, verdade e vida” (Jo 14,6), que é o próprio Jesus. O Documento de Aparecida nos diz: “a alegria do missionário, baseia-se no amor do Pai, na participação no mistério pascal de Jesus Cristo que, pelo Espírito Santo, faz-nos passar da morte para a vida, da tristeza para a alegria, do absurdo para o sentido profundo da existência, do desalento para a esperança. Esta alegria não é um sentimento artificial provocado num estado de ânimo passageiro (DA 17). O amor do Pai, revelado em Cristo, nos convida a entrar no seu Reino. Ele nos ensinou a orar dizendo “Abba, Pai” (Rm 8,15; Mt 6, 9). Nisto consiste a fé que nos leva à missão. “Quanto mais próximos estivermos d’Ele mais nos tornaremos missionários e com maior intensidade”. Assim nos assegura Henry Martin. Seja um apaixonado pela missão. Seja missionário de Jesus Cristo em sua comunidade paroquial, com sua família, em seu trabalho, vida social, onde estiver. Ouça as palavras de Jesus agora: “Ide vós também para a minha vinha” (Mt 20,7). Pense nisso.

Côn. Dr. Manuel Quitério de Azevedo
Prof. do Seminário de Diamantina e da PUC – MG
Membro da Academia de Letras e Artes de Diamantina-MG
Membro da Academia Marial – SP

Padre Vanildo de Paiva: estar com os Papas é um ato de fé

ESTAR COM OS PAPAS: UM ATO DE FÉ

Não me proponho aqui discutir o dogma da infalibilidade papal, proclamado em 1870 pelo Concílio Vaticano I, nem tampouco avaliar os 264 papas que sucederam ao apóstolo Pedro, escolhido pelo próprio Cristo como primus inter pares, isto é, o primeiro entre os discípulos, com a missão de conduzir a sua Igreja e confirmar na fé os irmãos que, doravante, se uniriam aos demais (cf. Lc 22,32). Lugar de juiz pertence a Deus! No entanto, não é difícil perceber, mesmo numa releitura rápida da história da Igreja que, não obstante a Igreja seja assistida pelo Espírito Santo e nenhum mal possa contra ela (cf. Mt 16,18), o lado humano de seus líderes (e de todo o povo!), vez ou outra, coloca obstáculos à ação de Deus.

Conviver com a vulnerabilidade dos papas sempre foi um desafio para os cristãos e o mundo, o que não significa que não possam ser infalíveis quando se pronunciam ex cathedra ou em comunhão com os demais bispos a respeito da fé e da moral cristã católica (cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 891). Faz parte da humildade de um chefe supremo da Igreja reconhecer seus limites e saber que precisa do discernimento do Alto até mais que do que os fiéis, pela grandeza de suas incumbências. É como disse o papa emérito Bento XVI, em julho de 2005, por ocasião do lançamento de seu livro Jesus de Nazaré: “O papa não é um oráculo, é [somente] infalível em situações raríssimas”.

Ou mesmo nosso querido papa Francisco, quando um jornalista o questionou o porquê de ele falar muito sobre os pobres, mas relativamente pouco sobre a classe média: “Você está certo. É um erro meu não pensar nisso”, e “você está me falando sobre algo que preciso fazer. Preciso ir mais fundo nisso”. Não é à toa que ele sempre pede ao povo que reze por ele!

O que desejo, no entanto, é chamar a atenção para outro aspecto, talvez mais relevante que os debates sobre privilégios papais: a importância de caminharmos como Igreja e com a Igreja, o que inclui estar com nossos papas. A Igreja, antes de ser uma instituição humana, é um mistério de fé. Nascida do lado aberto do divino Esposo pendente na cruz (cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 766), ela permanece no mundo até a sua vinda definitiva como sinal e instrumento a serviço da salvação da humanidade. “Creio a Igreja santa”: é a maneira que o Símbolo dos Apóstolos encontrou para dizer que, mais do que nas obras da instituição, cremos no mistério da Igreja como dom do Alto e assistida pelo Espírito (cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 750). Essa Igreja não se reduz à sua hierarquia, mas é a comunidade dos iniciados na fé cristã, Povo de Deus chamado a testemunhar os valores do Evangelho e conduzido por aqueles pastores colocados à sua frente pelo próprio Jesus, o Pastor dos pastores.

A caminhada do Povo de Deus nunca foi feita sem sobressaltos. E mais uma vez recorremos à história para recordar o quanto já titubeamos nessa trajetória bimilenar. Assim será até o fim, pois o caminho ainda não é o horizonte nem o mar ainda é o ancoradouro. O Reino definitivo inaugurado pelo Senhor supera em muito a própria Igreja, mas conta com ela para sua chegada a cada coração humano e ao cerne de cada cultura e sociedade, para que ali comece, no passageiro, o que se anuncia como definitivo para além da história. Querer uma Igreja perfeita é perder a noção de que ela é ponte e não porto!

Nesta nossa trajetória, quis o Senhor que tivéssemos à nossa frente as figuras dos papas como sinais a apontar a direção e garantia da unidade do povo em marcha. Como uma só família irmanada no amor do Cristo, um pai (papa) nos é dado como testemunha de fé e memória do Evangelho. Suas palavras e ensinamentos – e, sobretudo, o seu modo de vida! – sempre atentos às demandas de cada época, são para nós indicações preciosas de como viver, no hoje da vida, a Palavra divina que dá a vida e liberta todo ser humano. Estar com os papas, portanto, é estar com a própria Igreja de Jesus Cristo, na tentativa de fidelidade ao seu projeto. É ter diante de nós a autoridade legitimamente constituída, querida por Jesus, a quem devotamos o obséquio do nosso respeito e a sinceridade de nosso amor.

O papa Francisco é o autêntico sucessor de Pedro, como o foram os outros papas. Seu agir, profundamente enraizado nos Evangelhos é, para nós, memória do agir de Jesus Cristo e apelo contínuo à conversão. Seu olhar misericordioso e atento às dores das minorias e aos clamores dos mais pobres e sofredores é a resposta de Deus a uma humanidade marcada pela dor e pela carência de afetos que curam. Suas palavras simples e profundas chegam muito depressa aos corações daqueles aos quais ninguém quer dirigir a voz. Mas seu profetismo também ecoa em nossas consciências adormecidas e mal acostumadas à indiferença pelo ser humano e pela casa comum da criação. Sua denúncia da idolatria – a mesma feita por Jesus – incomoda a todos nós, especialmente àqueles que há muito se renderam ao capital e a seu séquito de ídolos que ferem a dignidade humana. Por isso, ele é perseguido, do mesmo modo que Jesus o foi até à morte escandalosa na cruz, punição definitiva aos rebeldes e agitadores sociais.

Infelizmente, até mesmo católicos acusam-no de “esquerdista”, “comunista”, “progressista” e tantos outros chavões descontextualizados e vorazmente repetidos, os quais, no fundo, encobrem a única e mesma verdade: a vergonha que seus opositores sentem por não darem conta de amar como ele ama, isto é, de amar como Jesus amou! O escândalo que Francisco provoca não é primeiramente contra a ortodoxia (correta doutrina) da Igreja, mas por apresentar uma ortopráxis (correta ação) profundamente evangélica, coisa há muito esquecida pelos que querem defender a “cátedra de Moisés” contra a insurreição do amor que clama que “o sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado” (Mc 2,27). Então ele é um santo? Certamente está a caminho, como deveríamos também estar! Ele não erra? Igualmente a seus predecessores e a todos nós, tem suas falhas, das quais não se abstém de reconhecer e de se retratar.

No entanto, Francisco é nosso papa! Gostando ou não gostando do seu estilo, devemos-lhe respeito e amor filial. Ele não tem errado. Mas, se ele errar, erraremos com ele; isso sempre fez parte da história da nossa Igreja, santa e pecadora. E o Espírito sempre mostrou o caminho da restauração! São João Paulo II ou Bento XVI nunca erraram? Obviamente que sim! E estávamos com eles, compreendendo que a fé exige também caminhar na penumbra muitas vezes, como devemos estar com o papa Francisco. Ou será que a nossa presunção de sabermos mais do que o papa (e de quase cem por cento dos bispos católicos do mundo que estão com ele) nos levará à vaidade de nos acharmos os donos da verdade? Afinal, acreditamos ou não que a Igreja é conduzida pelo Espírito Santo, que “sopra onde quer” (Jo 3,8)?

Pe. Vanildo de Paiva

Versos a Francisco

Do medievo ao nosso hoje
Da Igreja à sociedade
Ao de perto e ao de longe
Levar o amor, a caridade

Repelindo os desares
Compartilhando o doce bem
Vamos, Francisco,
Vem, se apresse!
O Cristo quer ir mais além!

Pois de um passado ainda presente
Ouviste a voz do grande Amor:
“Reconstrói a minha Igreja”
E atendeste ao teu Senhor

Da mesma voz se torna ouvinte:
Papa Francisco é o pedinte
De misericórdia e bondade

Quer restaurar na esperança
O povo de Deus que luta e cansa
Ansiando piedade

Vamos, Francisco, juntos todos
Com pobreza, paz e rogos
De Assis ao mundo, a Deus

Com Francisco, o nosso papa
Sendo Cristo, o guia, o mapa
Vem, Santo Pobre, aos pobres seus!

Mateus Alves Correia,
Seminarista da Arquidiocese de Diamantina

“É SETEMBRO, É AMARELO!”

CONVERSANDO SOBRE DEPRESSÃO

O que é
“Muita gente uma vez ou outra na vida se sente deprimida ou triste. É uma reação natural à perda, aos desafios da vida e à baixa autoestima. Mas, às vezes, o sentimento de tristeza se torna intenso, dura longos períodos e retira a pessoa da vida normal. É o mais comum dos transtornos mentais, mas é uma doença tratável. “
O texto a seguir é uma entrevista com uma jovem acometida pela doença.

Depressão significa falta de fé em Deus?

– Não. Depressão é um distúrbio mental e que pode ocorrer mesmo em pessoas de muita fé. A depressão nos deixa desesperançosos e sem ânimo; e a fé é movimento.

– Você já teve depressão?

– Sim. Estou em tratamento atualmente. A depressão pode ser média, leve ou grave. Já estive em estado grave. Hoje me mantenho em tratamento para não chegar a esse ponto novamente.
Só o tratamento ajuda?
– O tratamento tem de ser completo. Físico, mental, emocional e espiritual.
– O que você tem feito para conviver com essa doença?
– Respeito meus limites, tento fazer atividades mesmo sem vontade, falo a respeito com outras pessoas, encorajando-as a partir da minha experiência e tento brincar com a situação.
A depressão tem um motivo ou uma causa?
– Pode ter ou não. Há pessoas que se deprimem por um fator externo; outras, pela forma como elas têm de pensar e ver a vida, mas pode acontecer com qualquer pessoa.
Quando a pessoa descobre que está com depressão?
– Algumas pessoas nem descobrem. Acham que estão numa fase chata ou ruim e que vai passar. Geralmente pessoas próximas é que conseguem perceber. Eu descobri com ajuda de profissionais. Não tinha consciência da doença.
A pessoa, sem ajuda profissional, consegue se curar?
Não acho. A depressão é um distúrbio. A pessoa pode se esforçar e ficar bem por um tempo, mas curar-se, não acho.
E o que a família pode fazer nesse caso?
Apoiar, falar palavras de ânimo, fazer-se presente mesmo que em silêncio, ajudar a pessoa doente a se sentir amada.
– No Brasil, a depressão atinge 11,5 milhões de pessoas.

Há alguma forma de evitar a doença? 
– Sim. Enxergando depressão como um distúrbio da mente, encorajando as pessoas a procurar ajuda profissional; não descrever psicólogo e psiquiatra como médicos de doido.
– A pergunta “Como vai você” pode ajudar uma pessoa a falar sobre a depressão?
– Depende da forma como for realizada e se a pessoa aguarda a resposta. No automático, não rola (risos). “Como vai você?” somente como uma forma de cumprimentar, não. Mas como aproximação e interesse verdadeiro de ajudar, sim.
Do que a pessoa com depressão não precisa?
Ouvir que é falta de Deus, que a vida dela é linda, que vai passar, pra ela não dar importância.
Obs.: A pessoa com quem conversei sobre esse tema enche minha vida de graça, beleza, delicadeza e esperança.

Luís Carlos Pinto
Professor de Educação Básica

O que é o Ano Litúrgico, e o Ano Civil

 

CONVERSANDO SOBRE LITURGIA
Artigo I

O Ano Civil nos traz uma ideia de círculo, ou podemos até dizer, que ele é circular e cíclico, ou seja, repete-se constantemente em suas datas. Vai marcando a história da humanidade, sua evolução e progresso; lutas, fracassos e conquistas. E dentro dessa história circular, o ser humano vai se preenchendo, e se desgastando, geração após geração.
Querendo ou não, o tempo civil é inexorável, faz avançar a história à custa do envelhecimento e do desgaste, e encomenda o fim dos seres humanos, cuja maioria passa por ele no anonimato.
O Ano Litúrgico não se identifica com o Ano Civil nem a ele se submete. Corre paralelamente a ele ao determinar todas as celebrações litúrgicas, mas não coincide com suas datas. Tem um sentido diverso e um ritmo próprio, como se o Ano Civil servisse apenas de pista para o Ano Litúrgico.
De fato, o Ano Litúrgico é uma intervenção de Deus dentro da história humana. Relembra tudo o que Deus já realizou por nós, pela salvação, e atualiza essas ações de Deus em favor de cada geração. Mais do que construir uma história própria, o Ano Litúrgico marca o tempo próprio de Deus dentro da história da humanidade, sempre em busca do ser humano para salvá-lo da destruição inevitável que o tempo civil lhe causa. Por isso, a melhor imagem para entender o Ano Litúrgico não é o círculo repetitivo, mas a espiral ascendente que jamais repete o mesmo círculo.
Uma espiral salvífica que parte do Alfa da criação e vai girando para o alto em direção ao Ômega da nova criação em Cristo Ressuscitado. Assim, Deus nos salva dentro de nossa história e nos salva da nossa história, daquilo que ela traz de degeneração e morte.
O Ano Litúrgico é essa espiral ascendente de salvação que liberta o ser humano de seu destino fatídico e o leva em direção à comunhão com a vida divina e eterna. Por isso, cada Ano Litúrgico, mesmo celebrando as mesmas datas, atualiza uma nova intervenção da graça redentora da Santíssima Trindade em favor do seu povo caminhante.
O início do Ano Litúrgico não é o 1º de janeiro, mas no 1º Domingo do Advento, que nunca cai na mesma data do Ano Civil. O Ano Litúrgico se encerra na Festa de Cristo Rei, 34º Domingo do Tempo Comum, anterior ao Primeiro Domingo do Advento.
Nas próximas edições: estrutura do Ano Litúrgico e como é desenvolvido em seu percurso.

Michel Hoguinele
hoguinelle@hotmail.com

“Sal, luz e fermento”. A tarefa dos leigos na missão da Igreja


Quando se fala da missão da Igreja, corre-se o risco de pensar que se trata dos que falam do altar. Muitos de nós conhecemos a palavra missão, associando-a a uma pessoa (muitas vezes um padre de batina) que vinha às nossas comunidades para pregar sermões. Será mesmo essa a tarefa deixada por Cristo aos seus discípulos? Ao longo dos anos nossa Mãe Igreja vem nos educando na fé e fazendo-nos descobrir que essa tarefa ou missão tem de ser realizada por todos os que constituem a Igreja, comunidade eclesial.
Aos leigos, corresponde uma parcela concreta dessa missão. O Concílio Vaticano II já nos deu algumas orientações precisas. Os fiéis correntes – lê-se na Constituição Lumen Gentium – “são chamados por Deus para contribuir, como fermento, para a santificação do mundo, no exercício das suas tarefas, guiados pelo espírito evangélico, e assim manifestam Cristo aos que com eles convivem, principalmente com o testemunho de sua vida e com o fulgor de sua fé, esperança e caridade”. E mais adiante: “Os leigos estão particularmente chamados a tornar presente e operante a Igreja nos lugares e condições onde ela não pode ser sal da terra senão através deles”. Quer dizer que, em um hospital, a Igreja não está presente só pelo capelão: também atua por meio dos fiéis que, como médicos e enfermeiros, procuram prestar bom serviço profissional e esmerada atenção humana aos doentes. Em um bairro, a igreja será sempre um ponto de referência indispensável, mas o único modo de chegar aos que não a frequentam, será por meio de outras famílias.
É lá, em todos os setores da sociedade, que nós, cristãos leigos e leigas, somos chamados a ser esta presença que toca nos corações, que leva algo novo e provoca mudança e que transforma. É a missão de todos os cristãos leigos e leigas ser sal, agindo em pequenas quantidades, mas dando o sabor necessário; luz que traz a esperança de um novo caminho possível e fermento que penetra e provoca a abertura ao novo, que se deixa ser transformado. A missão, portanto, não é uma atividade a mais da Igreja, constitui a própria essência da Igreja, de todos os batizados vivenciando a ordem do Mestre: “Ide por todo o mundo e levai a Boa Nova a toda criatura”.
Portanto, nossa missão é levar a mensagem de Cristo a todas as realidades terrenas – família, trabalho , atividades socia – e, com a ajuda da graça divina, convertê-las em oportunidade de encontro com Deus e com os Homens. Sejamos esses elementos fundamentais, levando sabor, esperança e transformação.

Madalena Santos Pires
(Da Equipe de Articulação do CNLB/ CDL- Guanhães)

Santa Teresinha – a Santa Padroeira das Missões a Santa das coisas do amor!


No dia 01 de outubro, mês Missionário, celebra-se Santa Terezinha do Menino Jesus, a santa carmelita, mesmo com sua vida contemplativa, tornou-se a Padroeira das Missões.
Teresa viveu 24 anos. Pouco! Muito! Aliás, muitíssimo! Talvez uma das maiores histórias de intimidade com Deus. Sua fé cresceu à medida que descobriu o Amor. Minutos antes de morrer, dia 30 de setembro de 1897, Teresinha disse: “Meu Deus, eu vos amo”. Foi o Amor que a recebeu na eternidade. Sem amor não existe missão.
Teresinha é referência missionária. Não andou muito. Não foi pra lá e pra cá. Quase nada, mas saiu. Saiu dela. Amou. O amor é sempre missionário porque não é egoísta. O amor rompe muros, barreiras, discursos violentos. O amor invejoso não é amor. O amor individualista não é amor. É mentira. É farsa. É máscara. O amor só é amor quando olha para fora.
Teresinha foi buscando uma fé madura. Um seguimento verdadeiro a Jesus. Escreveu. Fez das provações uma escola. Das provocações, uma pedagogia. Da vida, missão.
A jovem Teresa faz lembrar aquilo que o querido Papa Francisco nos pede: “Ser uma Igreja em saída”: sair! Sair para tudo que é lugar, mesmo dentro da própria casa. Sair, experimentar, desejar, provar; o louco desejo missionário que mora no nosso coração. Enquanto existir ardor missionário, o Amor de Teresa continuará vivo, sobrevivente, esplêndido.

Pe. Hermes F. Pedro

Pároco da Paróquia São Miguel e Almas 

15 razões porque sou dizimista

1. Sou dizimista porque o dízimo é uma lei do Senhor. “Porás à parte o dízimo de todo fruto de tuas semeaduras, de tudo o que o teu campo produzir cada ano.” (Deut 14,22).

2. Sou dizimista porque o dízimo é santo e pertence a Deus. “Todos os dízimos da terra, tomados das sementes do solo ou dos frutos das árvores, são propriedade do Senhor: é uma coisa consagrada ao Senhor. Se alguém quiser resgatar alguma coisa de seus dízimos, ajuntará uma quinta parte.” (Lev 27,30-32).

3. Sou dizimista porque tudo vem das mãos de Deus “Quem sou eu, e quem é meu povo, para que possamos fazer-vos voluntariamente estas oferendas? Tudo vem de vós e não oferecemos senão o que temos recebido de vossa mão.” (I Cron 29,14

4. Sou dizimista porque tudo pertence a Deus. “A prata e ouro me pertencem – oráculo do Senhor dos exércitos.” (Ag 2,8)

5. Sou dizimista porque o dízimo é o segredo para estar em paz com Deus. “Honra ao Senhor com teus haveres, e com as primícias de todas as tuas colheitas: então, teus celeiros se abarrotarão de trigo, e teus lagares transbordarão de vinho.” (Prov 3,9-10)

6. Sou dizimista porque dízimo torna participante da casa de Deus. “Comerás na presença do Senhor, teu seu nome, o dízimo de teu trigo, de teu vinho e de teu óleo, bem como os primogênitos de teu rebanho grande e miúdo, para que aprendas a temer o Senhor, teu Deus, para sempre.” (Deut 14,23)

7. Sou dizimista porque meu salário não será pago em bolsa furada. “Semeais muito e recolheis pouco; comeis e não vos saciais; bebeis e não chegais a apagar a vossa sede; vestis, mas não vos aqueceis; e o operário guarda o seu salário em saco roto!” (Ag 1,6)

8. Sou dizimista porque é errado não entregar o dízimo. “Pode o homem enganar o seu Deus? Por que procurais enganar-me? E ainda perguntais: Em que vos temos enganado? No pagamento dos dízimos e nas ofertas. Fostes atingidos pela maldição, e vós, nação inteira, procurais enganar-me.” (Mal 3,8-9)

9. Sou dizimista porque amo a obra de Deus. “E disse-lhes: Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura…” (Mc 16,15)

10. Sou dizimista porque quero ser abençoado “… dai, e dar-se-vos-á. Colocar-vos-ão no regaço medida boa, cheia, recalcada e transbordante, porque, com a mesma medida com que medirdes, sereis medidos vós também.” (Lc 6,38)

11. Sou dizimista porque Jesus ensinou sobre o valor do dízimo. “Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! Pagais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho e desprezais os preceitos mais importantes da lei: a justiça, a misericórdia, a fidelidade. Eis o que era preciso praticar em primeiro lugar, sem contudo deixar o restante.” (Mt 23,23)

12. Sou dizimista porque não sou avarento. “Porque a raiz de todos os males é o amor ao dinheiro. Acossados pela cobiça, alguns se desviaram da fé e se enredaram em muitas aflições.” (ITm 6,10)

13. Sou dizimista porque meu tesouro está nos céus “Não ajunteis pra vós tesouros na terra, onde a ferrugem e as traças corroem, onde os ladrões furam e roubam. Ajuntai para vós tesouros no céus, onde não os consomem nem as traças nem a ferrugem, e os ladrões não furam nem roubam. Porque onde está o teu tesouro, lá também está teu coração.” (Mt 6,19-21)

14. Sou dizimista porque minha descendência não irá mendigar pão. “Fui jovem e já sou velho, mas jamais vi o junto abandonado, nem seus filhos a mendigar o pão.” (Sl 36,25)

15. Sou dizimista porque terei que prestar contas dos bens de Deus colocados em minhas mãos. “Ele chamou o administrador e lhe disse: que é que ouço dizer de ti? Presta conta da tua administração, pois já não poderás administrar meus bens.” (Lc 16,2)

SEJA FIEL NO ATO DE DAR!
A FIDELIDADE É O TERMÔMETRO DO GRAU DE MATURIDADE DA VIDA ESPIRITUAL.

E por quê? Ela é um reflexo da própria fidelidade de Deus. O ponto fundamental da fidelidade divina é o Seu amor infinito por cada um dos Seus filhos, entre eles você. Tudo quanto Ele declarou ser sua intenção fazer, jamais deixou de se cumprir. “Vossa verdade dura de geração em geração, tão estável como a terra que criastes” (Sl 119,90). Mesmo diante das infidelidades do Seu povo, manteve firme a Aliança selada primeiro no Sinai, e depois, confirmada no Calvário no Sangue precioso de Jesus Cristo.

Uma das áreas mais difíceis de praticar a fidelidade, é a financeira. Não basta compreender o valor do dízimo e das ofertas, também é necessário exercitá-lo e ser fiel por toda a vida, em todas as circunstâncias. Os bens colocados em suas mãos pertencem a Deus, daí: “o que se exige dos administradores é que sejam fiéis.” (1Cor 4,2)

ideeanunciai.wordpress.com,
enviado por Diácono Edmilson Candido

A ignorância das Escrituras é ignorância de Cristo

Antes do Concílio Vaticano II a Bíblia era tida como tão sagrada a ponto de ser inacessível, hoje está nas mãos da grande maioria dos cristãos; isto graças a constituição “Dei Verbum” que estimulou e tornou possível esta realidade. No entanto para aqueles que tentam lê-la sem nenhuma orientação, a confusão é certa. O resultado é uma “leitura ao pé da letra”, com consequências desastrosas, visto que a Palavra de Deus está contida na Sagrada Escritura mas revestida da cultura semita (cultura judaica).

É preciso, ainda, considerar os estilos literários, com suas distintas chaves de interpretação, pois “A verdade é apresentada e expressa de maneiras bem diferentes nos textos de um modo ou outro históricos, ou proféticos, ou poéticos, bem como em outras modalidades de expressão. Ora, é preciso que o intérprete pesquise o sentido que, em determinadas circunstâncias, o hagiógrafo, conforme a situação de seu tempo e sua cultura, quis exprimir e exprimiu por meio de gêneros literários então em uso” (DV 12).

A Bíblia é, portanto, veículo da Palavra de Deus. No entanto os textos bíblicos são frutos das suas respectivas épocas, histórias e contextos sociais e econômicos. Precisam ser interpretados a fim de que se tenha condição necessária para uma boa interpretação da mensagem. Seja qual for nosso conhecimento da Escritura somos sempre questionados pelo texto. Do contrário caímos no fundamentalismo.

A leitura fundamentalista parte do princípio de que a Bíblia, sendo Palavra de Deus inspirada é isenta de erro, deve ser lida e interpretada literalmente em todos os seus detalhes. Ela se opõe à utilização de qualquer método para a interpretação da Escritura. Esse tipo de leitura faz com que a Bíblia deixe de ser “veículo” da Palavra de Deus e passa a ser instrumento supersticioso.

Ao buscarmos a palavra de Deus na Bíblia precisamos entender que “A Sagrada Escritura deve ser lida e interpretada com o mesmo Espírito com que foi escrita” (DV,12); ou seja: o mesmo Espírito que inspirou os livros santos deve iluminar os que, docilmente e com espírito de fé, se dedicam a interpretá-los. A interpretação deve ser feita a partir da fé e não contra a fé. E assim fazer a experiência do profeta que diz: “Quando encontrei tuas palavras, alimentei-me; elas se tornaram para mim uma delícia e a alegria do coração” (Jr 15,16).

Uma das formas mais apropriadas para se ter contato com a Palavra de Deus é a prática da Lectio Divina. Essa “leitura orante da Bíblia” foi exortada pelos Padres da Igreja e tem sido cultivada através dos séculos no coração da vida monástica. Atualmente se redescobriu, com grande entusiasmo entre os leigos, fruto do movimento bíblico e do Concilio Vaticano II. A partir da exortação apostólica Dei Verbum (n 25) reconheceu vivamente esta prática e, desde então, os documentos da Igreja não tem deixado de recomendá-lo.

A Lectio Divina é, basicamente, o exercício dum coração disposto ao encontro com Deus através da Sagrada Escritura. É um exercício de leitura, mas é também uma oração. Seus frutos não vêm tanto pelo acúmulo de saber sobre a Bíblia, mas da audição da voz de Jesus que, depois da sua morte e ressurreição, se realiza, se dá de forma semelhante a dos discípulos de Emaús: “E, então, abriu suas inteligências para que compreendessem as Escrituras”( Lc. 24, 45).

Este método de leitura da Sagrada Escritura realiza-se através de passos bem definidos, que podem se expressar didaticamente não só para compreendê-los melhor, mas também para praticá-los e ensiná-los. Foi o monge Guigo, em aproximadamente 1150, quem propôs estes quatro passos: leitura, meditação, oração e contemplação. Percebemos, assim, a Lectio Divina como uma escada, onde cada etapa do processo é um degrau.

O papa emérito Bento 16, na Verbum Domini, nos propõe: Começa com a leitura (lectio) do texto, que suscita a interrogação sobre um autêntico conhecimento do seu conteúdo: o que diz o texto bíblico em si? Sem este momento, corre-se o risco que o texto se torne somente um pretexto para nunca ultrapassar os nossos pensamentos. Segue-se depois a meditação (meditatio), durante a qual nos perguntamos: que nos diz o texto bíblico? Aqui cada um, pessoalmente mas também como realidade comunitária, deve deixar-se sensibilizar e pôr em questão, porque não se trata de considerar palavras pronunciadas no passado, mas no presente. Sucessivamente chega-se ao momento da oração (oratio), que supõe a pergunta: que dizemos ao Senhor, em resposta à sua Palavra? A oração enquanto pedido, intercessão, ação de graças e louvor é o primeiro modo como a Palavra nos transforma. Finalmente, a lectio divina conclui-se com a contemplação (contemplatio), durante a qual assumimos como dom de Deus o seu próprio olhar, ao julgar a realidade, e interrogamo-nos: qual é a conversão da mente, do coração e da vida que o Senhor nos pede? – Para Bento 16 a Lectio Divina tem suas consequências – Há que recordar ainda que a lectio divina não está concluída, na sua dinâmica, enquanto não chegar à ação (actio), que impele a existência do fiel a doar-se aos outros na caridade (VD, 87).

A Bíblia é um livro complexo porque composto de vários textos contraditórios e uma leitura que não seja sistemática e crítica poderá levar o leitor a uma visão passiva da vida. Para compreender bem um texto é preciso compreender o mundo do autor. Esse trabalho se chama exegese. Doutro modo caímos no fundamentalismo. Sendo assim é necessário buscar as fontes, retornar, compreendendo e superando ideologias até chegar à verdadeira intenção exercendo uma leitura espiritual da Bíblia iluminando a própria realidade.

Conforme o apóstolo Paulo “A letra mata, o Espírito dá vida” (2 Cor 3,6). “Por isso é necessário prover também a uma preparação adequada dos sacerdotes e dos leigos, para poderem instruir o Povo de Deus na genuína abordagem das Escrituras”(VD 73). De modo que cultivem a oração e a meditação da Palavra de Deus e desenvolvam uma espiritualidade centrada na Palavra e encontrem nela motivações para vivência da fé. E assim superem o alerta de São Jerônimo: “a ignorância das Escrituras é ignorância de Cristo”. A Escritura é antes de tudo Palavra de Deus. Mas não uma palavra aprisionada no passado, mas sim palavra viva que se dirige ao homem de hoje.

Pe Bruno Costa Ribeiro,
na Folha Diocesana, n 219, Setembro de 2014

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