A Palavra do Bispo

Mensagens e publicações do bispo diocesano, Dom Otacilio Ferreira de Lacerda.

A Glória é precedida pela Cruz – Homilia – Segundo Domingo do Tempo Quaresmal – Ano B

O segundo Domingo da Quaresma (ano B), identificado como “O Domingo da Transfiguração do Senhor”, é um convite a escutarmos a voz do Filho Amado, e maior obediência à vontade de Deus, na Força do Espírito.

A passagem da primeira Leitura (Gn 22,1-2.9a.10-13.15-18), fala-nos de Abraão e do sacrifício de seu filho Isaac.

O autor Sagrado nos revela um Deus que ama com Amor intenso e eterno; que revigora nossa serenidade e esperança; um Deus que não quer sacrifícios de vidas humanas, mas que todos tenham vida e vida plena.

Muitas vezes, as provações acontecem em nossa vida; e são elas ocasião para testemunharmos nossa fidelidade e revelarmos o que se passa no mais profundo de nosso coração.

Assim nos fez aprender Abraão, que não pouparia seu filho único, amado e herdeiro. Parecia que Deus iria destruir os próprios sonhos que ajudou a criar, no entanto, não é esta a mensagem, pois se Deus algo nos tira, é para nos dar algo ainda melhor.

A prontidão da resposta de Abraão revela um homem que entrega, confia, obedece…

Sua obediência foi fonte de Bênção para todas as nações, e da mesma forma, será pelo nosso sim às coisas divinas, fazendo-nos  instrumentos da Bênção Divina para o outro.

Abraão nos ensina a confiar além da incompreensão. Com isto, é possível questionar qual a atitude que temos diante dos Mistérios de Deus em nossa vida.

Além da compreensão de tudo que somos incapazes, é preciso antes confiar e entregar-se, como Abraão, nas mãos da Divina Providência, que tudo sabe e tudo pode.

Tudo isto leva ao questionamento de nossa vida cristã, nossa fidelidade aos desígnios de Deus., de modo que a sua atitude nos convida rever nossas prioridades: fazer de Deus o valor máximo, a prioridade fundamental de nossa vida.

Não podemos servir a “deusinhos” e aos ídolos sedutores de tantos nomes, mas tão somente ao Deus Vivo e Verdadeiro, o Deus bíblico revelado por Jesus.

Deste modo, as qualidades de Abraão nos ajudam no Itinerário Quaresmal, na busca e prática da conversão necessária, para que possamos celebrar uma frutuosa e alegre Páscoa do Senhor.

Com ele, aprendemos a crer, contra toda falta de humana esperança, e também que a obediência a Deus não é sinônimo de escravidão, mas garantia de vida, prosperidade, felicidade e realização.

Com a passagem da segunda Leitura (Rm 8,31b-34), é fortalecida a nossa espiritualidade cristã, que consiste em percorrer o caminho do amor a Deus e aos irmãos: enfrentar os sofrimentos, fazer as renúncias necessárias, suportar as incompreensões e perseguições e, sobretudo, não perder a esperança no triunfo final.

O discípulo de Jesus sabe que sua esperança não é uma ilusão, pois se relaciona com um Deus que ama a todos com Amor intenso, imenso e eterno, e por isto, mantém a serenidade, a confiança e a esperança, marcando assim, todo o seu existir.

Na aparente orfandade, ouve no mais íntimo de si mesmo: “Não tenhais medo”, pois o Amor de Deus veio ao nosso encontro por meio de Jesus, que por nós viveu um Amor, profundo, radical e total: um Amor vitorioso que passou pela Cruz para ser vencedor.

Com a passagem do Evangelho (Mc 9,2-10),  refletimos sobre o Projeto Messiânico, que se realizará pela Cruz: com renúncias, o carregar da cruz no seguimento, escuta e obediência.

Poderiam indagar os próprios discípulos: “Vale a pena seguir alguém que nos oferece a morte na Cruz?”

O Evangelista, retratando a Transfiguração, nos assegura que sim, pois ela é um sinal antecipado da vitória, do triunfo glorioso da Ressurreição.

Assim compreendido, a Transfiguração no Monte é uma teofania – uma manifestação da força e onipotência divina que venceu a morte: não ficará morto para sempre o Filho Amado que nos amando, amou-nos até o fim.

Contemplemos algumas imagens que nos oferecem interessantes paralelos entre o Antigo e o Novo Testamento:

– O rosto transfigurado e as vestes brancas de Jesus lembram o resplendor de Moisés ao descer do Sinai, após o encontro com Deus em que receber as Tábuas da Lei;

– A nuvem na Bíblia sempre representa uma forma de falar da presença de Deus;

– Moisés e Elias, a Lei e a Profecia que se realizam;

– O temor mencionado revela a Onipotência Divina;

– As tendas lembram um novo Êxodo – passagem da escravidão à liberdade;

– Jesus é o novo Moisés, com Ele uma Nova e Eterna Aliança;

– A roupa branca também sinaliza a Ressurreição: a Cruz não terá e não será a palavra final.

O discípulo missionário do Senhor jamais poderá deixar se entorpecer por certo tipo de “anestesia espiritual”, que nos torna indiferentes diante dos outros.

No caminho de fidelidade a Jesus, não podemos esmorecer, fracassar, fugir ou abandonar a cruz que Ele nos ofereceu para ser carregada quotidianamente com renúncias necessárias.

Dando mais um passo em nosso itinerário quaresmal, ao ouvir a Palavra proclamada, seja acolhida no alto da montanha e na planície vivida.

Seja purificado o olhar de nossa fé, para que vejamos, além da transitoriedade da dor e do sofrimento, os sinais maravilhosos da Glória Celeste, e assim poderemos no final deste itinerário quaresmal, celebrar o transbordamento da alegria Pascal, a Ressurreição do Senhor.

Postado por Dom Otacilio F. Lacerda : http://peotacilio.blogspot.com/2020/03/a-gloria-e-precedida-pela-cruz.html

Evangelização e acolhida do sopro do Espírito

“Ai de mim se seu não evangelizar” (1 Cor 9,16).

A Evangelização na cidade tem inúmeros e grandes desafios, de modo que, tão somente abertos à acolhida do sopro do Espírito, se é capaz de dar respostas sólidas aos mesmos, enfrentando-os na planície do quotidiano, atentos à voz do Filho Amado que precisa ser escutado.

Abertos a este sopro, a Igreja precisa multiplicar ações diante da violação da dignidade da pessoa humana e na profética defesa da vida, desde a concepção até o seu declínio natural.

Seremos assim uma Igreja mais viva, participativa, dinâmica, renovada e com fortalecimento dos ministérios e o surgimento de novos.

Permanece forte o apelo da Conferência de Aparecida (2007), para a conversão das estruturas paroquiais e serviços, bem como de todos que se encontram inseridos e comprometidos com a evangelização.

Abertos ao Sopro do Espírito, é mais do que emergente a multiplicação do trabalho e iniciativas diversas para a santificação e solidificação da família, que passa por sérios momentos de desestruturação por diversos motivos (inúmeros são os ventos e tempestades enfrentados pela mesma).

O Espírito Santo também conduz no fortalecimento da dimensão missionária da Igreja – urge ir ao encontro dos católicos afastados, mas sem se esquecer de enraizar e solidificar os que nela já estão participando, fortalecendo laços sinceros de amizade, comunhão e solidariedade, superando toda e qualquer forma de anonimato numa bela e alegre atitude de acolhida mútua, que vai muito além de um seja bem-vindo!

Este mesmo Sopro nos pede mais ousadia nos meios de comunicação social, para que possamos comunicar a todos a Boa-Nova do Evangelho em novos areópagos, chegando às escolas, às universidades, ao mundo do trabalho, às instâncias de decisões que afetam substancialmente a vida do Povo de Deus. A Comunicação não pode ficar restrita ao espaço de nossas salas e Igrejas.

Também nos inquieta e nos desinstala para que nos empenhemos na transformação da sociedade, com a superação da apatia e indiferença diante da política, não perdendo a esperança, não permitindo apagar a chama profética que todo batizado recebe no dia de seu Batismo, para ser sal da terra e luz do mundo.

Deste modo, não ficaremos indiferentes diante da necessária inclusão social em todas as suas formas e dimensões, como expressão da evangélica opção preferencial pelos pobres, que jamais pode ser esquecida pela Igreja, na fidelidade à prática de Jesus na realização do Reino de Deus.

E, assim, sempre atentos a estes sopros, edificaremos uma Igreja do anúncio, testemunho, serviço e diálogo, tendo em conta as urgências que as Diretrizes da Igreja do Brasil nos apresentam (Doc. 102 – 2015-2019).

Com a abertura e acolhida do sopro do Espírito, cresçamos na  fidelidade à Palavra do Senhor, com aquela inquietante preocupação do Apóstolo Paulo, que deve ser de todos nós: “Ai de mim se seu não evangelizar” (1 Cor 9,16).

“Não nos deixeis cair em tentação” – Homilia do Primeiro Domingo da Quaresma- Ano B

No 1º Domingo da Quaresma (Ano C), repensamos nossas opções de vida, tomando consciência das tentações que nos impedem de viver a vida nova que um dia recebemos em nosso Batismo.

A passagem da primeira Leitura (Dt 26,4-10) retrata a tentação do Povo de Israel de ceder à idolatria, adorando falsos deuses.  É preciso que eliminemos os falsos deuses que nos afastam do verdadeiro Deus, do contrário, as marcas do orgulho, da autossuficiência, do egoísmo, da desumanidade, da desgraça e da morte, deixarão suas marcas.

Essencialmente é um texto anti-idolátrico, em que anuncia a vida e felicidade somente encontrada em Deus. A tentação do abandono do Senhor para adoração das divindades das populações da nova terra, das divindades da Natureza, é um constante perigo.

Encontramos neste trecho uma solene profissão de fé, inserida numa Liturgia de Ação de Graças pelos dons da terra e a oferta das primícias dos frutos das colheitas; possibilitando-nos refletir quais são os falsos deuses que podem tomar o lugar do Deus vivo e verdadeiro: o dinheiro, o poder, o êxito social ou profissional, a ciência ou a técnica, os partidos, líderes e suas ideologias ou quaisquer outras coisas que se sobreponham a Deus e até mesmo que levem a d’Ele prescindir.

Reflitamos:

– Quando se prescinde de Deus que futuro é reservado para a humanidade?
– Quais são os deuses da pós-modernidade que seduzem e afastam a pessoa do encontro e relação com o Verdadeiro Deus da Vida, que a Sagrada Escritura nos  apresenta?

Na passagem da segunda Leitura, (Rm 10, 8-13), o Apóstolo Paulo nos fala da Salvação como dom de Deus e compromisso nosso.

A salvação não é uma conquista humana, mas dom gratuito de Deus que, na Sua bondade, quer salvar a todos. Também afirma que o Evangelho de Jesus é a força que congrega e salva aquele que crê (judeus e pagãos), pois Deus quer salvar a todos, indistintamente (v. 11-12);

Reflitamos:

– Quais são as divisões existentes em nossas famílias e comunidades? O que as provocam?

– Como tornar nossa comunidade mais fraterna, mais próxima do que Jesus quer para Sua Igreja?

– Como tornar, de fato, a comunidade um lugar da adesão à fé na pessoa de Jesus?

A passagem do Evangelho (Lc 4, 1-13) retrata de forma catequética, e não de forma jornalística, as tentações enfrentadas por Jesus no deserto (deserto como lugar da privação, dos desafios, da tentação): ter, poder e ser, que são as tentações fundamentais de toda pessoa.

A primeira tentação é um não à riqueza/acúmulo, a segunda um não ao poder/dominação e a terceira um não ao êxito fácil.

Jesus recusou terminantemente o caminho do materialismo (poder, domínio, êxito fácil), do contrário, trairia o Plano de Deus, que se realiza pela partilha, serviço e doação da própria vida com simplicidade e amor.

Os discípulos missionários de Jesus devem fazer o mesmo caminho por Ele vivido e proposto: o egoísmo cede lugar para a partilha; o autoritarismo para o serviço; o espetáculo/sucesso para a vida plena.

O discípulo missionário terá que decidir entre a obediência ao Pai e o serviço ao  próximo ou a sedução às tentações.

Aqui devem ser lembradas as palavras do Bispo Santo Agostinho: –“Como vencer se não combater, como combater se não formos tentados. Se n’Ele somos tentados, com Ele também venceremos” E ainda: “O Senhor poderia impedir o demônio de aproximar – se dele; mas, se não fosse tentado, não te daria o exemplo de como vencer na tentação”.

Com o Pão da Palavra e com o Pão da Eucaristia, podemos vencer quaisquer tentações que venham a nos afastar do Projeto de Vida que Deus tem para nós. Se alimentados por Deus, vencemos; do contrário, sucumbimos e perdemos a alegria e o sentido do próprio existir.

As tentações enfrentadas por Jesus não são uma página virada, mas um desafio a ser vivido e enfrentado por todo aquele que deseja segui-Lo, ontem, hoje e sempre.

Reflitamos:

– De que modo estas tentações se manifestam hoje nos espaços em que vivemos, dentro e fora da Igreja?

– Nesta Quaresma, como nos alimentarmos melhor da Palavra e da Eucaristia?

Dando os primeiros passos no itinerário Quaresmal, entremos com Jesus na travessia do deserto de nossa vida.

Acolhamos, pois, a Salvação como dom de Deus, dando nossa resposta com liberdade, responsabilidade e maturidade, pois nisto consiste a vida cristã: corresponder cada vez mais e melhor aos desígnios de Deus e ao Seu Projeto de Amor, dando a Deus e ao nosso próximo o melhor que podemos.

É preciso revitalizar a fé, quotidianamente, para que não sucumbamos às tentações que nos afastem do Projeto Divino. É preciso viver uma fidelidade límpida, superando toda infidelidade à Palavra de Deus, rompendo com o pecado, como criaturas novas pela graça batismal.

Jesus venceu as tentações para nos ensinar também a vencê-las. Com Ele, e somente com Ele, faremos a travessia do deserto, alcançando a outra margem, no encontro definitivo.

Vivendo a cada dia a configuração ao Senhor, em Sua Vida, Paixão e Morte, com renúncias necessárias, desapego de si mesmo, tomando a cruz de cada dia, com Ele também Ressuscitaremos.
Ao rezar o “Pai Nosso”, façamos com mais ardor esta súplica: “… O Pão nosso de cada dia nos dai hoje…” “… e não nos deixeis cair em tentação”.

Alimentados pelo Pão da Palavra e da Eucaristia, e somente assim, podemos vencer as tentações que impeçam o Reino de Deus acontecer, como também a verdadeira santificação do nome de Deus.

Oremos:

“Dai-nos força para resistir à tentação, paciência na tribulação,
e sentimentos de gratidão na prosperidade. Amém.”

Libertos pelo Senhor para amar e servir – VI Domingo do Tempo Comum Ano B – Homilia

“Jesus, cheio de compaixão, estendeu a mão, tocou nele e disse:

 “Eu quero: fica curado!”. No mesmo instante 

a lepra desapareceu e ele ficou curado.”

(Mc 1, 41-42)

Com Liturgia do 6º Domingo do Tempo Comum (ano B), vemos a ação de Deus, que Se revela pleno de Amor, bondade e ternura, através de Sua ação que acolhe, cura, liberta e integra a todos na vida da comunidade.

A vontade de Deus é que se supere toda forma de discriminação e marginalização, e a comunidade deve empenhar-se, com sabedoria e coragem, para que isto se torne uma realidade.

A passagem da primeira Leitura (Lv 13, 1-2.44-46) nos apresenta “a lei da pureza”, e uma visão deturpada de Deus que leva à invenção de mecanismos que discriminam, rejeitam e excluem em nome de Deus, numa total marginalização.

Dentre as impurezas, a lepra era considerada a mais grave, de modo que quem por ela fosse acometido, deveria ser segregado e afastado da convivência diária com outras pessoas, e tal medida tinha uma intenção higiênica e também para evitar o contágio.

Mais grave ainda, era considerado um pecador, amaldiçoado por Deus e indigno de pertencer à comunidade do Povo de Deus e não podia ser admitido nas assembleias em que Israel celebrava o culto na presença do Deus Santo.

Na passagem da segunda Leitura (1Cor 10,31-11,1), o Apóstolo Paulo, na fidelidade ao Senhor, nos apresenta Jesus Cristo, modelo de obediência, doação, Amor  e serviço em favor da libertação de todos, e o cristão deve o mesmo fazer.

Com o Apóstolo, aprendemos que o cristão é livre em tudo aquilo que não atenta contra a sua fé e contra os valores do Evangelho, mas pode prescindir de direitos para um bem maior, que é o amor aos irmãos.

A Lei do Amor se sobrepõe a tudo, inclusive aos direitos de cada um, e assim não nos tornamos obstáculo nem para a glória de Deus, nem para a salvação de nossos irmãos.

Ao amor tudo deve ser subordinado, fazendo de nossa própria vida um dom, uma oferenda agradável a Deus.

Na passagem do Evangelho (Mc 1,40-45) ao curar o leproso, Jesus inaugura um novo modo de relacionamento, destruindo o triste mecanismo de marginalização que exclui estes do convívio social e da própria comunidade.

Jesus, com palavras e ação, cura e integra a todos na comunidade do Reino, sem jamais compactuar com a discriminação, exclusão, racismo ou qualquer outra forma de marginalização.

Sua ação é expressão de um Deus cheio de Amor que vem ao encontro de nossa humanidade, de nossa condição pecadora e enferma, para nos curar e nos redimir. Jesus toma para Si nossas dores e sofrimentos.

Também revela, com Sua ação, que o Reino de Deus chegou, completou-se o tempo esperado, são tempos novos inaugurados pela presença e ação de Jesus: a cura do leproso revela o Amor de Deus que cura, liberta, integra e impulsiona para o testemunho.

O leproso curado começou a pregar e a divulgar sobre o acontecido, a sua cura. Com isto, o Evangelista sugere que aquele que experimentou o poder integrador e salvador de Jesus se converte, necessariamente, em profeta e testemunha do amor e bondade divina: um discípulo missionário do Reino.

Oportunas as palavras da Igreja, para refletirmos sobre a íntima união da Igreja com toda a família humana:

“As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo; e não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco no seu coração. 

Porque a sua comunidade é formada por homens, que, reunidos em Cristo, são guiados pelo Espírito Santo na sua peregrinação em demanda do Reino do Pai, e receberam a mensagem da salvação para a comunicar a todos. Por este motivo, a Igreja sente-se real e intimamente ligada ao gênero humano e à sua história”. (1)

Reflitamos:

– Quais são as enfermidades que ainda hoje levam à exclusão e à marginalização?

– Até que ponto nossa ação também acolhe, liberta e integra na comunidade e na sociedade?

– De que modo os marginalizados e excluídos se abrem para a acolhida e integração na comunidade e na sociedade?

– Como vivemos a fidelidade ao Senhor, tendo d’Ele mesmos pensamentos e sentimentos?

– Como expressamos em nossa vida o amor, a ternura e a bondade de Deus para com o nosso próximo?

– Sabemos renunciar a direitos pessoais por bem maiores em favor de outros?

Como Igreja missionária, na fidelidade ao Senhor, também saibamos acolher, perdoar, integrar a todos na vida da comunidade e, com alegria, participar da construção do Reino.

Acolhidos, amados e curados para acolher, amar e curar num círculo que não pode se fechar, interromper.

(1) Constituição Pastoral Gaudium Et Spes  sobre a Igreja no mundo atual  (n.1).

Postado por Dom Otacilio F. Lacerda em:

http://peotacilio.blogspot.com/2020/02/libertos-pelo-senhor-para-amar-e-servir.html

O particípio e o infinitivo da vida do Presbítero – VI Domingo do Tempo Comum do Ano B

“Irmãos, cuidai cada vez mais de confirmar a vossa vocação e eleição. Procedendo assim, jamais tropeçareis. Desta maneira vos será largamente proporcionado o acesso ao reino eterno de Nosso Senhor e Salvador, Jesus Cristo” (2Pd 1,10-11)

Na Liturgia do 6º Domingo do Tempo comum (ano B), a primeira Leitura (Lv 13,1-2.44-46) e o Evangelho (Mc 1,40-45) retratam a dramática situação de quem era acometido pela lepra, doença até então conhecida para caracterizar todo tipo de sofrimento relativo à pele, que deforma a aparência da pessoa. Era o que havia de mais grave sobre “impureza”.

À luz da Palavra proclamada, como conceber o Ministério Presbiteral, para que seja a expressão da misericórdia divina?

Refletindo, vi uma estreita relação, que agora começo a desenvolver:

Contemplamos o Amor de Deus que a todos acolhe sem excluir ninguém do Seu convívio, da Sua bondade. Deus não exclui, ao contrário integra a todos na comunhão mais que querida. Esta foi a ação de Deus no Antigo e no Novo Testamento através da prática do Amor Encarnado, Jesus Cristo.

Jesus acolhe com Amor: toca, cura, liberta, renova, restaura, reintegra aquele homem acometido de terrível mal que o condenava como pecador, marginalizado, amaldiçoado, excluído, indigno, fora da Bênção de Deus, numa palavra, um pecador maldito.

A prática de Jesus confirma a lógica de Deus que não marginaliza ninguém, e bem diferente é a lógica humana, que de modo geral vai noutro sentido.

Jesus com Sua prática Se contrapõe àquilo que em nome de Deus cria mecanismos de rejeição, exclusão e marginalização.  Ele é a manifestação da compaixão, do Deus cheio de Amor.

O gesto de Jesus revela Amor e solidariedade. Com a cura do leproso, e outros sinais é a certeza de que o tempo se completou, o Reino de Deus se faz presente no meio dos homens, sem racismos, exclusões.

A cura do leproso é a chegada de um novo tempo inaugurado por Jesus, que toma para Si as dores e sofrimentos de toda a humanidade.

Note-se que o leproso curado ao ser enviado ao templo para confirmar a sua cura, imediatamente se põe a anunciar as maravilhas alcançadas.

Também o Apóstolo Paulo fez o caminho de conversão. De ser escolhido amado e enviado por Deus. Sua vida nos ensina que Jesus é modelo de obediência e entrega, e o tem como fonte de vida. Assim deve fazer todo cristão. Para o Apóstolo o amor por Jesus torna tudo relativo e Ele é a fonte da mais madura liberdade.

Paulo, pelo amor que tudo subordina, faz da própria vida um dom. Assim deve ser a vida do discípulo missionário do Senhor. Assim deve acontecer com todo aquele que se sente acolhido, amado, tocado, curado, perdoado, liberto pela ação misericordiosa de Deus: tornar-se um alegre discípulo missionário do Reino.

Ofereço ao leitor uma pequena citação para aprofundamento:

“O texto do Evangelho nos diz que ‘no mesmo instante o deixou a lepra’, o poder curador de Deus passa através de um simples contato humano. Bastou um gesto corajoso do Filho de Deus para restituir a vida a um homem desesperado. Jesus sabe que isto servirá de testemunho (v.44) e o leproso curado não pode calar o amor que lhe restituiu a vida (cf. v. 45).”

Todo Presbítero, é por excelência o homem que experimentou o particípio do Amor de Deus e é chamado para prolongar tantas maravilhas em infinitivos infinitos.

O Padre é alguém que foi chamado por Deus; acolhido, escolhido, amado, curado, tocado, formado, ordenado, consagrado, enviado…

E quais são os infinitivos da vida de um Presbítero?

– Assim foi como acolhido, acolher cada irmão e irmã, sem nenhuma discriminação ou preferência.

– Assim como escolhido, ajudar o Povo de Deus a perceber o quanto também Deus os escolheu para produzir frutos saborosos nesta Vinha que é a própria Igreja, com podas necessárias, como bem nos fala o Evangelho de São João (Jo 15).

– Assim como foi por Deus amado, é o Ministro do Amor por excelência. Se não comunicar e não testemunhar o amor está condenado a viver um Ministério sem vida, alegria, sabor, graça e sentido.

– Assim como foi curado, e o é todos os dias, em cada Eucaristia é o Ministro da cura de tantos males que roubam a alegria e a vida do rebanho a ele confiado.  Ministro da cura por excelência, Ministro da cura porque comunicador da vida nova do Espírito.

– Assim como foi tocado um dia por um amor em forma de chama, deve a todos tocar, com sua palavra e gestos, a vida de cada membro da comunidade. Não poderá ser o gélido toque de quem não crê; nada espera e não ama de verdade, sem nenhum outro interesse a não ser o pleno cumprimento da Lei.

Teve a graça de ser formado, teve a graça de aprofundar a sabedoria como saber, soma de conhecimentos, mas tem que ser formado na sabedoria como sabor; sabor de vida, ternura, dignidade, perdão, paz, fraternidade, comunhão. Há a sabedoria do saber, mas há a sabedoria do sabor, na qual os pequenos são preciosos mestres.

Ordenado e com o Sacramento sem nenhuma tentação de prestígio, poder, sucesso, riqueza. Ordenado para arrebanhar, conduzir, santificar, ensinar, governar. Conduzir o rebanho para verdes pastagens, como homem do Banquete Eucarístico e da Palavra que fortalece, orienta e ilumina.

Consagrado e enviado. Tem uma missão especial. Enviado para comunicar a semente do verbo, espalhar Boa Nova do Evangelho em tantos corações. Enviado para que ensine e ajude a humanidade a viver tudo o que Jesus nos ensinou (Mc 16, 19)

O Padre é para a comunidade um alegre testemunho de quem foi também por Deus amado e curado.

Que a comunidade vendo assim o presbítero, também se sinta amada e encorajada a fazer o mesmo caminho, celebrando devotamente a Eucaristia, e numa autêntica devoção a Nossa Senhora, cresça cada vez mais a solidariedade para com o povo, em suas dores e sofrimentos.

Assim fez Jesus para com o leproso, assim haverá de fazer todo discípulo Seu, e de modo especial aquele a quem Ele chamou para ser Presbítero de Sua Igreja.

O Presbítero é alguém que se sente amado para amar muito mais do que para ser amado, ou seja, antes de querer ser amado tem que amar na mais bela e fecunda expressão do Mandamento que nosso Senhor nos deixou: amar a Deus e ao próximo como Ele nos amou.

Postado por Dom Otacilio F. Lacerda

http://peotacilio.blogspot.com/2020/02/o-participio-e-o-infinitivo-da-vida-do.html

Jesus: Sua Palavra e ação nos libertam- Homilia para o Quarto Domingo do Tempo Comum (Ano B) – Dom Otacilio F de Lacerda


“O que é isso? Um ensinamento novo, dado com autoridade…

Ele manda até nos espíritos maus, e eles obedecem!”

Com a Liturgia do 4º Domingo do Tempo Comum (ano B), refletimos sobre o Projeto de liberdade e vida plena que Deus tem para a humanidade, que se contrapõe aos projetos marcados pelo egoísmo, escravidão de toda forma e morte.

Tendo iniciado um novo Ano Litúrgico, à luz do Evangelho de São Marcos, somos convidados a seguir, cada vez mais de perto e decididamente, o Senhor, que nos chamou e nos enviou a viver a vida nova que nos foi concedida pela graça do Batismo.

Na passagem da primeira Leitura (Dt 18,15-20), temos a experiência profética de Moisés, e, com isto, vemos que o Profeta é alguém escolhido por Deus, por Ele chamado e enviado para comunicar a Sua Palavra viva à humanidade e ser sinal da presença divina.

A missão do Profeta, um escolhido de Deus, consiste, portanto, em transmitir a mensagem de Deus, e se faz necessário ouvir os Profetas que verdadeiramente falam em nome de Deus, em todo o tempo, uma vez que haveremos de prestar contas se fecharmos os ouvidos e o coração ao Seu Projeto, comunicado por estas vozes que jamais se calaram, e jamais se calarão.

Sendo escolhido por Deus, ninguém é Profeta por escolha própria, tornando-se apenas um instrumento nas mãos de Deus, vivendo em total fidelidade a Deus e absoluto empenho no cumprir desta missão.

Por isto, o Profeta precisa estar exclusivamente a serviço de Deus, e jamais conduzir sua vida por esquemas pessoais, interesseiros e egoístas.

Oportuna são as palavras do Missal:

“O profetismo, conhecido em todo o Oriente Antigo, apresenta na Bíblia aspectos originais de que Moisés e Elias continuam a ser modelos. Como dantes, também hoje continua a haver Profetas. O critério da sua autenticidade é a Palavra sempre viva de Deus e o seu vínculo a Jesus Cristo”. (1)

Na passagem da segunda Leitura (1 Cor 7, 32-35), o Apóstolo Paulo continua falando sobre as verdadeiras prioridades que devem marcar a vida daquele que abraçou a fé, não se deixando desviar pelas realidades transitórias, afinal, o tempo está abreviado e a figura deste mundo passa.

É nítida a pretensão do Apóstolo de apresentar, a quem professa a fé no Senhor, uma proposta de vida com equilíbrio, sabendo discernir entre as coisas que passam e as que são eternas, que consiste num aprendizado permanente na definição das escolhas, numa vida marcada pela generosidade, alegria e doação.

Seja qual for nossa vocação e condição de vida, devemos nos unir ao Senhor com um coração indiviso.

Na passagem do Evangelho (Mc 1,21-28), vemos a ação de Jesus, o Filho de Deus, que vem cumprir o Projeto de libertação.

Depois de apresentar o chamamento dos discípulos, o Evangelista apresenta uma jornada ministerial do Senhor, com Sua autoridade revelada no ensino e diante dos “espíritos impuros”.

Com Sua Palavra e ação, Jesus renova aqueles que O acolhem e acreditam em Sua Palavra, tornando-os verdadeiramente livres do egoísmo, do pecado e da própria morte.

A ação de Jesus faz suscitar a interrogação daqueles que O viram ensinar e expulsar os demônios: “Que vem a ser isto? Uma nova doutrina e com que autoridade!”. Também nós devemos nos perguntar “quem é Jesus para nós?”

Jesus veio nos libertar de tudo o que nos faça “prisioneiros” e nos roube a vida e a alegria de viver. Com Sua Palavra e ação, Jesus nos revela que Deus não desistiu da humanidade, e quer conduzi-la à vida plena e feliz.

Seus seguidores não poderão cruzar os braços, continuando a Sua missão na luta contra os “demônios” de tantos nomes, que roubam a vida e a liberdade das pessoas.

Ser discípulo consistirá em percorrer o mesmo caminho que Ele percorreu, lutando até o fim, em total doação da vida para que tenhamos um mundo mais humano, mais livre, mais solidário, mais justo e mais fraterno; sendo assim é inconcebível que os discípulos cruzem os braços, de olhos voltados para o céu.

Há um mundo a ser transformado e, como Igreja em saída (como tem insistido o Papa Francisco), não podemos ficar fechados em nossas sacristias, mas assumir corajosamente, com a força do Espírito, com sabedoria e criatividade, a dimensão missionária, elemento constitutivo da Igreja, presença nas mais diversas realidades, em incansável empenho para a transformação das realidades:  familiar, social, política, econômica, cultural, do trabalho e da comunicação.

O discípulo de Jesus, com Sua Palavra e presença, luta na libertação de todos os demônios que desfiguram as pessoas, para que estabeleçamos relações mais fraternas.

Nem sempre isto se dá de modo tranquilo, porque pode gerar conflitos, divisões, sofrimentos, incompreensões, perseguições, mas vale a pena, porque é fiel Aquele que prometeu jamais nos desamparar, jamais nos deixar órfãos na missão por Ele confiada, afinal nos comunicou o Seu Espírito, que nos assiste em todos os momentos.

O discípulo de Jesus é alguém que embarcou nesta aventura de amor que dá sentido à vida, o que nos torna cúmplices e instrumentos nas mãos de Deus, para que construamos um mundo novo, de homens e mulheres livres e felizes.

Com o coração seduzido e inflamado por Aquele que voltou para nós o Seu olhar de amor e nos chamou pelo nome, não há como voltar atrás.

Quem pelo Senhor sentiu-se amado, já não pode mais viver sem o Seu Amor, a Sua Palavra e presença.

(1) Missal Quotidiano, dominical e ferial – Paulus – Lisboa – p. 1177

Postado por Dom Otacilio F. Lacerda em :

http://peotacilio.blogspot.com/2020/02/jesus-sua-palavra-e-acao-nos-libertam.html

O chamado divino e a nossa resposta – Homilia – Segundo Domingo do Tempo Comum ( Ano B)

Deus nos chama para que anunciemos a

Sua Palavra e não a nós mesmos, porque

nisto consiste a vocação do Profeta…

A Liturgia do 2º Domingo do Tempo Comum (ano B) nos convida a refletir sobre o chamado que Deus faz a cada um de nós, e a resposta esperada expressa em total disponibilidade, acolhendo também os desafios próprios daquele que se propõe a responder a este chamado.

A passagem da primeira Leitura (1 Sm 3,3b-10.19) nos apresenta o chamado que Deus fez a Samuel e a sua resposta, após quatro vezes ter ouvido o chamado.

A passagem nos revela que o chamamento é sempre uma iniciativa de Deus, que vem ao encontro da pessoa e o chama pelo nome, e o que Ele espera é uma atitude de total disponibilidade a este chamado.

Os primeiros capítulos do Livro, como o da Liturgia, retratam a fase pré-monárquica vivida pelo Povo de Deus com a experiência das tribos. É o início da sedução pela monarquia, e Samuel aparece neste tempo um tanto quanto caótico.

Destacam-se na passagem cinco pontos marcantes:

1 – A vocação é sempre uma iniciativa de Deus;

2 – Samuel foi chamado por Deus enquanto estava deitado, presumivelmente durante a noite, ou seja, é no momento do silêncio e da tranquilidade e da calma, que podemos ouvir a voz de Deus. A voz divina é mais audível quando o coração e a mente abandonam a preocupação com os problemas diários, e se tem maior possibilidade de entender os apelos de Deus.

3 – Samuel tem dificuldade de identificar a voz de Deus em meio a tantas vozes e diversos apelos que nos chamam a atenção e nos atraem: há a voz de Deus e outras vozes sempre em nossos ouvidos.

4 – O papel de Eli na descoberta vocacional do jovem Samuel. Muitas vezes as pessoas com quem convivemos têm um papel decisivo na descoberta de nossa vocação.

5 – A disponibilidade de Samuel de embarcar no desafio profético, ou seja, ser uma voz humana de Deus no mundo.

O Profeta não é Profeta pelo desejo próprio, mas pelo desejo de Deus que o chamou pelo nome e o enviou para uma missão própria: Deus nos chama para que anunciemos a Sua Palavra e não a nós mesmos, porque nisto consiste a vocação do Profeta, por isto precisará de tempo de recolhimento, espaço para a Oração, para a intimidade com Deus, para a descoberta do querer de Deus a seu respeito.

Na passagem da segunda Leitura (1 Cor 6,13c15a.17-20),     o  Apóstolo escrevendo à Comunidade de Corinto exorta para que seus membros, tendo vida nova que vem de Deus, vivam uma vida correta em atitudes e hábitos, e não uma vida dissoluta e que contratestemunhe a fé professada.

A cidade de Corinto era uma cidade nova e muito próspera, com características próprias de uma cidade portuária.

A comunidade, por sua vez, formada por pessoas de origem grega e humilde, com o perigo de corromper-se numa moral dissoluta.

Neste contexto, Paulo escreve às comunidades sobre as exigências para todo aquele que aderiu a Jesus Cristo, de modo que a este tudo é permitido, mas nem tudo convém (1 Cor 6, 12).

Como batizados, nos tornamos membros de um só Corpo (Cristo) e, consequentemente, membros do Espírito Santo, com novos pensamentos, ações e comportamentos.

Deste modo, glorificaremos a Deus pelo culto e pela própria vida, pelos pensamentos, palavras e ações; não poderemos separar o culto e o louvor da vida concretamente, vivendo e testemunhando o que fala e professa no quotidiano. Deus nos chama e espera de nós uma resposta coerente, com comportamento também coerente ao compromisso batismal.

O verdadeiro culto é a adesão incondicional a Jesus Cristo e ao Seu Projeto de vida plena para todos nós, numa vida marcada pelo amor, entrega, doação e respeito pelo outro.

Somente assim agirá quem assumir plenamente a proposta de uma vida nova, em total liberdade e fidelidade, e para tanto, haverá uma necessária contínua conversão a Cristo e aos Seus valores, que são os valores do Evangelho.

Na passagem do Evangelho (Mc 1,35-42), temos o chamado dos primeiros discípulos de Jesus, ou seja, daqueles que são capazes de reconhecer no Cristo que passa o Messias esperado, o Messias Libertador.

Interessante a postura de João que apresenta Jesus, o Cordeiro de Deus, para os Seus discípulos. João tem consciência que sua missão não é congregar à sua volta um grupo de adeptos, mas a preparação do coração dos homens para o acolhimento de Jesus e Sua proposta.

João Batista não procurou os “holofotes” para a sua própria pessoa, soube retirar-se discretamente para a sombra, para que os projetos de Deus viessem a se realizar.

Aprendemos com ele a nunca atrair sobre nós as atenções: aprendemos a ser testemunhas de Jesus e não de nós próprios, a não sermos palcos de nós mesmos.

Assim temos os primeiros discípulos que serão aqueles que seguirão no caminho de amor e entrega, com anúncio e testemunho próprio de quem encontrou Alguém que transformou todo o seu viver.

Os discípulos caminham atrás de Jesus, percorrem o mesmo caminho de amor e entrega, adotam os mesmos objetivos e colaboram prontamente na missão.

Na segunda parte, temos o diálogo de Jesus com os discípulos: chamamento e resposta.

Jesus lhes faz um convite à pergunta que a Ele dirigem – “Mestre onde moras?”, dizendo –“Vinde ver”.

André e o outro discípulo aceitaram o convite e fizeram a experiência da partilha da vida com Jesus; uma experiência tão marcante, que André passará de discípulo a testemunha, no relato da vocação de Pedro, no final da passagem do Evangelho.

Um verdadeiro encontro com Jesus nos faz necessariamente discípulos missionários d’Ele por toda a vida, de modo que será cristão aquele que acolheu o chamamento de Deus e deu a sua resposta numa adesão radical e absoluta ao Projeto divino, na realização do Reino de Deus.

Este encontro com Jesus insere-nos, inevitavelmente, numa vida comunitária, porque, uma vez feita a experiência do encontro e vida com Ele, sentimos o desejo de que todos tenham a mesma graça, porque é um encontro que muda e marca todo o nosso viver.

Reflitamos:

– Quando foi que ouvi a voz de Deus me chamar?

– tenho consciência da vocação profética que me foi confiada?

– Tenho momentos de silêncio e recolhimento para ouvir a voz de Deus e perceber quais são os Seus Planos e Projetos para que eu realize?

– Quem são os “Elis” que me ajudaram/ajudam a compreender a voz de Deus em minha vida, em meio a tantas vozes que existem no mundo?

– Qual é a história da minha vocação dentro do Plano de Deus?

Concluindo, a Liturgia nos pede uma resposta ao chamado de Deus e que ela seja como foi a de Samuel – “aqui estou”.

Urge rever nossas escolhas, renúncias e assumir as consequências de quem se pôs a caminho como discípulo missionário do Senhor, com total adesão a Ele e ao Seu Projeto, testemunhando uma vida marcada pelo amor, doação, entrega e serviço.

Um sim vivido na gratuidade e generosidade nos permitirá alcançar a verdadeira felicidade que tanto desejamos e que somente no Senhor e com o Senhor encontraremos, de modo que seremos homens e mulheres da Igreja no coração do mundo, homens e mulheres do mundo no coração da Igreja.

Na Igreja, celebramos e nutrimos a nossa fé para que na esperança de um novo céu e nova terra, vivendo a caridade, fermentemos um mundo novo, irradiando o Espírito Santo que em nós habita, e sendo sal da terra, procurando dar gosto de Deus a tudo e a todos.

Nada sem Deus, tudo com Ele, pois sem Deus somos sal sem sabor que para nada mais serve, a não ser pisado pelos homens, como o próprio Jesus disse (Mt 5,13-16).

A vida é bela quando temos gosto de Deus e damos gosto de Deus a tudo o que fazemos: das menores às maiores ações.

Postado por Dom Otacilio F. Lacerda em

http://peotacilio.blogspot.com/2020/01/o-chamado-divino-e-nossa-resposta.html

Viver o Batismo é seguir os passos de Jesus- Homilia para o Domingo do Batismo do Senhor-Ano B- Dom Otacilio 

Com a Liturgia da Festa do Batismo do Senhor (ano B), refletimos sobre a revelação de Jesus Cristo, o Filho Amado de Deus que veio ao mundo para salvar a humanidade, vivendo a nossa condição humana, igual a nós, exceto no pecado, assumindo nossa fragilidade e humanidade, para que, assim, nos libertasse do egoísmo e do próprio pecado, concedendo-nos vida em plenitude. Temos também a graça de refletir e renovar os compromissos batismais, que nos fez sacerdotes, profetas e reis.

A passagem da primeira Leitura é uma pequena passagem do “Livro da Consolação” (Is 42,1-4.6-7), nome dado convencionalmente pelos biblistas, e se refere ao primeiro Cântico do Servo de Javé.

Trata-se da fase final do Exílio, um período muito difícil vivido pelo Povo de Deus, e o Profeta anuncia a reconstrução de Jerusalém, uma cidade que a guerra reduziu às cinzas, mas Deus, na Sua infinita bondade, vai fazer voltar a reinar a alegria e a paz sem fim.

Vemos no Servo mencionado pelo profeta um instrumento através do qual Deus age no mundo para comunicar a salvação à humanidade:

“é alguém que Deus escolheu entre muitos, a quem chamou e a quem confiou uma missão – trazer a justiça, propor a todas as nações uma nova ordem social da qual desaparecerão as trevas que alienam e impedem de caminhar e oferecer a todos os homens a liberdade e a paz… O Servo contará com a ajuda do Espírito de Deus, que lhe dará a força de assumir a missão e de concretizá-la”

Mais tarde, este Servo será identificado como o próprio Jesus, que veio realizar esta missão, e os Seus discípulos darão continuidade a esta, não por iniciativa pessoal, mas certos de que a vocação profética é dom de Deus, e não uma iniciativa humana. É Deus quem escolhe, chama, capacita e envia para a missão e nos comunica o Seu  Espírito que nos fortalece, anima, ilumina…

A segunda Leitura é uma passagem do Livro dos Atos dos Apóstolos (At 10,34-38); a parte inicial do Querigma, em que nos é apresentado Jesus, Aquele que “passou pelo mundo fazendo o bem”, trazendo a libertação aos oprimidos.

Jesus passou pelo mundo fazendo o bem e curando todos os que se encontravam oprimidos pelo demônio e através de Seus gestos de bondade, de misericórdia, de perdão, de solidariedade e de amor, podemos ver o Projeto libertador de Deus se realizando.

Comprometidos com Jesus e com Sua missão, desde o nosso Batismo, também somos chamados o mesmo fazer, como discípulos missionários Seus.

Na segunda parte, nos fala da salvação que se destina a todos os povos da terra, com o Batismo de Cornélio, pois se trata do primeiro pagão admitido ao cristianismo por um dos Doze Apóstolos, revelando, assim, que Deus não faz acepção de pessoas, de modo que não há como disseminar discriminações por qualquer motivo.

Na passagem do Evangelho (Mc 1,7-11)temos a realização da promessa profética, e Jesus é apresentado como o Filho de Deus, o Servo de Javé, enviado pelo Pai, sobre o qual repousa o Espírito Santo, com uma missão muito concreta a ser realizada.

Temos o encontro de Jesus com João Batista, nas margens do rio Jordão, e Jesus recebe o Batismo de João (de purificação, arrependimento e perdão dos pecados), não porque necessitasse do mesmo, mas para revelar a Sua missão específica e a Sua verdadeira identidade: Jesus é o Messias anunciado pelos Profetas que Deus enviou para libertar o Seu Povo, comunicando vida plena e definitiva.

Jesus, ao receber o Batismo de João, Se solidarizou com o homem limitado e pecador, assumindo a sua condição e colocando-Se ao seu lado para sair desta situação. E neste sentido, Jesus cumpriu plenamente o Projeto do Pai.

O Que Deus espera de nós é que correspondamos ao Seu Amor, acolhendo e assumindo a Salvação que Jesus veio trazer, e este compromisso tem início com o nosso Batismo.

Inaugura-se um novo tempo para nós, para caminharmos com Jesus “que vai seguir, com toda a liberdade, o caminho de Jerusalém e nós iremos acompanhar, ao longo Ano Litúrgico, os Seus ensinamentos e redescobrir os sinais que Ele realiza.”

Concluindo: o Batismo de Jesus revela o início de Sua missão, e o nosso Batismo é a continuidade desta missão.

Vivamos o Batismo seguindo os passos de Jesus, vivendo em comunhão entre nós, tendo d’Ele mesmos pensamentos e sentimentos, como disse Paulo (Fl 2,5), vivendo na humildade e obediência incondicional a Deus, com a força do Espírito.

Fonte de pesquisa: www.Dehonianos.org/portal

Sejamos um sim a Deus e ao Seu Projeto de Salvação! Homilia – 4º Domingo do Advento do Ano B

Com a Liturgia do 4º Domingo do Advento (ano B), damos mais um passo fundamental nesta caminhada de preparação para o Natal do Senhor, e somos convidados a refletir sobre o Projeto de Salvação de Deus para todos nós.

A passagem da primeira Leitura (2Sm 7,1-5.8b-12.14a.16) nos fala da promessa da vinda do Messias, e esta expectativa messiânica se realiza com o Mistério da Encarnação de Jesus Cristo, vivenciada e nutrida por um milênio desde o Rei Davi.

Na passagem da segunda Leitura (Rm 16,25-27), o Apóstolo nos convida a refletir sobre o Projeto de Salvação que Deus tem para todos os povos, e este se realizou por meio de Jesus Cristo, que nos fez partícipes da herança por Sua vida, com Suas palavras, gestos, sobretudo com Sua Morte e Ressurreição.

A promessa messiânica realizada consistirá neste Projeto Divino com estabilidade, segurança, paz, abundância, fecundidade e felicidade sem fim. Deus vem sempre ao encontro da humanidade, ainda que alguns insistam em afirmar Sua morte com atitude de indiferença. Há que se reconhecer sempre a Sua onipotência e presença misericordiosa e libertadora.

Deste modo, não há razões para o temor do futuro. É preciso que estejamos sempre abertos e disponíveis, incondicionalmente, para realizar a vontade divina, participando de Seu Projeto de Salvação.

Na passagem do Evangelho (Lc 1,26-38), no diálogo do anjo Gabriel com Maria, contemplamos o “sim” de uma jovem para a realização do Projeto de Salvação para toda a humanidade.

De uma aldeia, de um lugar insignificante, Deus quis nascer e inaugurar uma nova história, contando com a participação de uma simples jovem, desconhecida do povo. Jesus, o Salvador, o Messias não nascerá em palácios e nem de notáveis.

Voltemo-nos para Maria: ela é cheia de graça, segundo o anjo, porque é objeto da predileção divina. “O Senhor está contigo”, significa que é vocacionada pelo Pai e conta com a ação e assistência do Espírito Santo, e a concepção de Jesus se dará por obra e ação do Espírito Santo.

Maria é amada, escolhida, e acolhe em seu coração a vontade de Deus, num diálogo sincero, aberto, sem máscaras, e coloca nas mãos do anjo mensageiro de Deus suas dúvidas, medos e incertezas.

Maria embarca numa aventura de amor, consciente, confiante e totalmente disponível, vivendo um “sim” incondicional ao Projeto de Deus com confiança plena e incontestável.

O diálogo com o Anjo possibilita também a contemplação da onipotência divina que conta, paradoxalmente, com a fragilidade humana, sintetizada de modo muito especial na figura de Maria.

Chegando ao final do Advento tomemos uma decisão que comprometa a nossa fé, intensificando momentos mais prolongados e profundos de Oração, para que possamos Deus ouvir e Sua vontade contemplar e realizar.

Mais do que nunca, Deus quer colocar Sua tenda entre os homens e mulheres, fazendo da humanidade o Seu Templo. Neste, as pedras que o constituem são homens e mulheres do “sim incondicional a Deus”. Maria é a primeira pedra viva da casa de Deus entre todos.

Deste modo, pelo sim de pessoas tão humildes e pobres, atentas à vontade de Deus, Jesus entra na História da Salvação da humanidade.

Seja concedida à Igreja, também, a fecundidade do Espírito Santo para que, a exemplo de Maria, acolha o Verbo e exulte de alegria como mãe de uma geração santa e irrepreensível na concretização da vontade divina, como instrumentos do Seu Reino.

Reflitamos:

– Qual é a minha disponibilidade de participação neste Projeto Divino de Salvação?

– Deus pode contar comigo?

– Qual a intensidade de esperança, alegria e gratidão por ser participante deste Projeto?

– Como tem sido a minha preparação para acolhida do Verbo?

– Qual é a profundidade da comunhão e sintonia com Deus e a Sua vontade em minha vida?

– Sei dar um sim incondicional para Deus para que a Sua vontade se cumpra?

Que o Natal seja a Festa da contemplação da presença do “Senhor Onipotente” em nosso meio, contando com nossa fragilidade e imperfeições, como servos inúteis que o somos.

Meditemos sobre o Sim de Maria, para que ele ressoe no mais profundo de nós:

“Eis aqui a serva do Senhor!

Faça-se em mim segundo a Tua Palavra”.

Confiança, esperança e alegria no Senhor – Homilia – Terceiro Domingo do Advento – Ano B

“João é a voz no tempo;

Cristo é, desde o princípio, a Palavra eterna.”

Ao celebrar o 3º Domingo do Advento (ano B), chamado de “Domingo da alegria”, refletimos sobre o Projeto de salvação e vida plena que Deus tem a nos oferecer.

Cremos que as trevas cederão lugar à luz, novos tempos viveremos com a vinda do Verbo que Se fez Carne em nosso meio, fez morada entre nós.

Na passagem da primeira Leitura (Is 61, 1-2a.10-11), vemos que o Profeta é ungido pelo Senhor e sobre ele repousa o Espírito Santo, sem o que sua missão seria um fracasso.

Num período muito difícil (pós-exílio), o Profeta tem a missão, ungido pelo Espírito, de anunciar um tempo novo para o Povo de Deus, suscitando a confiança e a esperança adormecidas.

São tempos muito difíceis e incertos; o povo está desanimado e sem esperança, não obstante, é preciso reconstruir Jerusalém.

O Profeta se dirige aos pobres, pacíficos, humildes, simples, piedosos, os que temem a Deus, porque é através destes que Deus reescreverá a história de amor e vida plena.

Estes, ontem e hoje, se entregam nas mãos de Deus, com fé, humildade e confiança para participarem da obra de Deus, superando toda forma de racismo, exclusão, violência, exploração, terrorismo, imperialismos, prepotências…

Também nós, pelo Batismo, precisamos viver a vocação profética e ser uma voz de Deus, um sinal vivo do Amor de Deus pelos pobres, com renovado empenho e com coragem para construirmos um mundo melhor.

É preciso corresponder à presença amorosa de Deus em nossa vida, em sérios e inadiáveis compromissos, com confiança e esperança de um novo céu e uma nova terra.

Na passagem da segunda Leitura, o Apóstolo Paulo se dirige à comunidade de Tessalônica (1 Ts 5,16-24) para que ela seja uma comunidade vigilante na espera do Senhor que virá gloriosamente, pela segunda vez.

É preciso que a comunidade seja viva, santa, seus membros irrepreensíveis, alegres, serenos, em constante atitude de louvor e adoração a Deus, porque esta é enriquecida pelos dons do Espírito Santo para enfrentar quaisquer desafios próprios da comunidade que professa a fé no Senhor.

Era uma comunidade viva, mas a formação ainda deixava algo a desejar, porque insuficientemente catequizada, devido ao contexto na qual se encontrava inserida (perseguição e provação).

Daí a mensagem de encorajamento e exortação para que a comunidade viva bem o tempo da espera, alegres na Oração, em ação de graças, de coração aberto ao Espírito sem desprezo pelos Seus dons, abrindo-se à novidade do Reino e afastando-se do mal.

A comunidade que professa a fé no Senhor é chamada a viver uma constante vigilância, a fim de que viva coerentemente os compromissos batismais. Percorrendo o caminho vigilante, confiante e mantendo viva a alegria, encontrará no final os braços amorosos de Deus.

Ela precisa orar sem cessar, dando graças a Deus em todas as circunstâncias, inclusive nas adversas, contando com a presença e ação do Espírito Santo que jamais a desampara.

Na passagem do Evangelho (Jo 1,6-8.19-28), temos mais uma vez a pessoa de João Batista, que tem a missão de preparar a humanidade para acolhida da Verdadeira Luz, Jesus, que vem trazer vida definitiva e liberdade para todos.

É o prólogo do Evangelho de João, no qual João Batista é “o apresentador” oficial de Jesus, num ambiente social muito difícil em todos os aspectos (político, religioso, econômico, social, ideológico).

Vive-se a espera do Messias libertador, e a mensagem de João incomoda as autoridades, e sua missão consiste em dar testemunho da Luz, Jesus. Não apenas o anúncio, mas o testemunho de João Batista é inquietante para os líderes religiosos judeus.

João é a voz, e é preciso que se dê atenção ao conteúdo da mensagem. João é a voz que comunica a Palavra eterna, que existiu desde sempre e por toda a eternidade, como afirmou Santo Agostinho.

Ontem e hoje, a voz de João ressoa em nosso coração:

– o que precisa ser endireitado em nossa vida?

– quais as mudanças que precisamos fazer em nível pessoal, familiar, comunitário e social para que celebremos o verdadeiro e santo Natal do Senhor?

– como vivemos a vocação profética que o Senhor nos concedeu no dia de nosso Batismo?

– Celebraremos o natal como o nascimento do Salvador, acolhendo também Sua Palavra de vida e salvação?

– Como faremos a luz de Deus brilhar mais fortemente através de nossa vida (pensamentos, palavras e obras, sem omissões)?

– Com João o que temos que rever e aprender para não nos anunciarmos, mas anunciarmos a Divina Fonte de Luz, Jesus?

Seja o Tempo do Advento para nós o tempo da “desinstalação”, o tempo de ir ao Encontro do Senhor que vem, renovando a confiança, a esperança e a alegria, para que se fortaleçam os vínculos fraternos de amor, e a vida plena, a felicidade, por Deus prometida e possível, alcançadas sejam.

Não seja o Natal uma mera lembrança de um acontecimento, mas a celebração de um fato que aconteceu, e mudou o rumo da história, porque Ele veio morar entre nós para que não caminhemos nas trevas, mas na luz, e na luz eterna vivamos.

Ontem Ele foi colocado em seu primeiro altar, lá no humilde presépio e na desconfortável manjedoura. Que Ele seja celebrado e acolhido em nossos Altares, nas Ceias Eucarísticas que celebramos, e também no altar indispensável do coração humano, em cada pessoa, onde Ele quis também fazer Sua morada.

Fonte: www.Dehonianos.org/portal

Postado por Dom Otacilio F. Lacerda

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