A Palavra do Bispo

Mensagens e publicações do bispo diocesano, Dom Otacilio Ferreira de Lacerda.

Amar como Jesus Ama: desafio e missão – Homilia – V Domingo da Páscoa – Ano C

Amar como Jesus Ama: desafio e missão

“Vede como eles se amam” (Tertuliano)

A Liturgia do 5º domingo da Páscoa (Ano C) nos convida a aprofundar a vivência do essencial do cristianismo: a prática do Mandamento do Amor – “Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei” (já anunciado no Livro do Levítico 19,18-34 e Dt 10,19).

A vida cristã tem esta marca que garante sua autenticidade: a capacidade de amar até o extremo, no dom total da própria vida.

A passagem da primeira Leitura (At 14,21b-27) retrata o fim da primeira viagem missionária de Paulo e Barnabé.

A missão do anúncio e do testemunho do Ressuscitado tem traços fundamentais que podem ser assim sintetizados:

– O entusiasmo necessário para vencer os perigos e as dificuldades para o anúncio da boa nova;

– Ter palavras de consolação para fortalecer a fé da comunidade confiada;

– O necessário apoio mútuo; a Oração e a consciência de que a missão não é obra puramente humana, mas de iniciativa divina, tendo Deus como autor autêntico da conversão, sob a ação e iluminação do Espírito Santo.

A passagem da segunda Leitura (Ap 21, 1-5a) nos apresenta a missão de construirmos um novo céu e uma nova terra, que é a meta última de nossa história.

A visão do autor – “Jerusalém que desce do céu” – retrata a realidade de que o novo céu e a nova terra têm origem divina e possibilita nossa resposta, nossa participação.

Discípulos do Ressuscitado, esperamos e nos comprometemos com a Jerusalém Celeste tornando o mundo mais fraterno, mais justo e solidário, a meta da harmonia e da felicidade sem fim. Não haverá mais dor, luto, morte e sofrimento.

A partir desta fé inaugura-se um relacionamento que transforma a si mesmo e todos os que estão em sua volta, culminando até na renovação de todas as estruturas geradoras de lágrimas, dor, sofrimento e luto.

O amor e a alegria de sermos partícipes na construção do Reino devem estar presentes em nossas comunidades. Isto ocorre quando os ministérios diversos são postos a serviço da comunidade, e não nos servimos dela para qualquer outro objetivo. A grandiosidade está no servir à comunidade e não o contrário.

Somente no amor vivido é que reconhecerão que somos discípulos do Ressuscitado, e esta passa a ser para sempre a nossa identidade, de modo que nossa identidade não é uma filosofia, tão pouco a prática de ritos em si mesmo, mas a intensidade e profundidade do como e do quanto amamos.

A Ressurreição de Jesus Cristo nos convoca a nossa própria renovação, bem como de todas as estruturas do mundo, para que seja a expressão de uma Aliança que deu certo. Ter nos amado e nos amado até o fim, não foi em vão.

Esta missão é explicitada na passagem do Evangelho (Jo 13,31-33a.34-35) em que, num contexto de despedida dos Seus discípulos, Jesus deixa o Novo Mandamento do Amor.

Trata-se de um momento muito solene, e não havia possibilidade para conversas inúteis, porque se aproximava o fim, e era preciso recordar aos discípulos o mais fundamental na proposta cristã: o Mandamento do Amor.

A medida do amor fraterno é Ele próprio, o Amor de Cristo – “como Eu vos amei” (Jo 13,34). Portanto, o amor não consiste numa ideia, e tão pouco pode ser reduzido a qualquer sentimento, mas um autêntico movimento de entrega que faz o outro viver, porque gera vida.

Amemos como Jesus nos ama, porque isto é a exigência fundamental para aquele que n’Ele crê.  O Mandamento do Amor é a expressão máxima da vida cristã.

A comunidade será para o mundo um sinal do Deus vivo e que ama a humanidade.

Ser discípulo é testemunhar o Amor de Deus na fidelidade, acolhida, serviço, entusiasmo, generosidade, partilha…

“Nisto conhecerão todos que sois os meus discípulos: se vos amardes uns aos outros.” Segundo Tertuliano, autor sagrado, os primeiros cristãos tomaram tão a sério estas Palavras do Senhor, que os pagãos exclamavam admirados «Vede como eles se amam!» (cf. Jo 15, 12.13.17; 1 Jo 2, 8; Mt 22, 39; Jo 17, 23; Act 4, 32).

Reflitamos:

– De que modo vivemos o Novo Mandamento do Amor que o Senhor nos ordenou?

– Somos uma comunidade onde o amor é o nosso distintivo?

– Nossas relações dentro da comunidade são marcadas pelo amor fraterno?

– Somos uma comunidade missionária, indo ao encontro daqueles que não conhecem ainda a Boa Nova do Ressuscitado?

– Quais são os sinais que expressam nossos compromissos na construção de um novo céu e uma nova terra?

– Ao virem nossas comunidades, as relações entre os que dela participam e outras manifestações, os que dela não participam dirão – “vede como eles se amam”?

Eis o desafio, eis a nossa missão. Um longo caminho já fizemos, sem nos esquecermos de que somos a Igreja do Ressuscitado, uma Igreja santa e pecadora, somos convidados a viver a religião do amor, a amar como Deus ama, como aprendemos com o Filho, iluminados e inflamados pelo Fogo do Espírito.

Quando não perdemos a meta da Jerusalém Celeste, não nos perdemos também no caminho.

É tempo de amar como Jesus ama; somente assim nossa vida terá sentido e a alegria Pascal transbordará verdadeiramente em nosso coração. Aleluia!

 Dom Otacilio F. Lacerda

A voz do Bom Pastor – Homilia 4º Domingo da Páscoa – Ano C

“Eu sou o Bom Pastor. Conheço as minhas ovelhas,

e elas me conhecem,  assim como o Pai me conhece

e Eu conheço o Pai. Eu dou minha vida pelas ovelhas.”

(Jo 10, 14-15)

Com a Liturgia do 4º Domingo da Páscoa (ano B), celebramos o dia do Bom Pastor, que é Jesus Cristo, como vemos evocado pelo Profeta Ezequiel (Ez 34).

Na passagem da primeira Leitura (At 4, 8-12), os discípulos são testemunhas do Ressuscitado, com o selo do Espírito Santo, que garante o êxito no aparente fracasso da Cruz por Jesus proposto, de modo que nada pode calar nem parar a missão da Igreja, porque o Espírito Santo está com ela, e é Ele quem anima nessa missão e dá coragem para o enfrentamento das oposições pelas forças de opressão que recusam esta Proposta.

É missão da Igreja comunicar ao mundo a Salvação que vem somente de Jesus, cabe aos discípulos levar esta Proposta libertadora a todos.

Jesus é a pedra base deste Projeto de vida nova e plena, e os discípulos são testemunhas desta salvação que Ele vem nos oferecer.

Há muito que ser feito ainda para que a Boa-Nova do Reino seja anunciada e vejamos sinais de uma nova realidade, porque ainda vemos genocídios, atos bárbaros de terrorismo, guerras religiosas, o avassalador capitalismo selvagem e suas vítimas multiplicadas.

Assim como foi com Pedro, hoje a Igreja precisa ter um anúncio corajoso e coerente, acompanhado do testemunho, confiante na presença do Espírito de Jesus Ressuscitado, e assim, nos momentos de crise, desânimo ou frustração, tomar consciência desta presença amorosa, que renova a nossa esperança para o necessário testemunho da fé n’Ele.

Com a passagem da segunda Leitura (1Jo 3,1-2), refletimos sobre nossa filiação divina e a exigência, portanto, de viver conforme esta filiação: uma vida cristã autêntica, marcada pela vivência dos Mandamentos divinos, em esforço contínuo na procura da perfeita coerência entre o que se crê e o que se vive.

Refletimos sobre a bondade, a ternura e a misericórdia e o amor que Deus tem para conosco, e a possibilidade de alcançarmos a vida eterna, contemplando a face de Deus: para alcançar a meta da vida definitiva, é preciso escutar o chamamento de Deus, acolhendo o dom que Ele nos oferece, e vivendo de acordo com a vida nova proposta.

Na passagem do Evangelho (Jo 10,11-18), temos a apresentação de Jesus como o Bom Pastor, num contexto de polêmica entre Jesus e alguns líderes judaicos (principalmente os fariseus):

“Jesus denuncia a forma como esses líderes tratam o povo: eles estão apenas interessados em proteger os seus interesses pessoais e usam o povo em benefício próprio: são, pois ‘ladrões e salteadores’ (Jo 10,1.8.10) que se apossam de algo que não lhes pertence e roubam ao seu povo qualquer possibilidade de vida e de libertação”. (1)

Jesus, ao contrário dos líderes de Seu tempo, é um Pastor diferente e único: ama e entrega Sua vida por amor ao rebanho, generosamente.

As ovelhas somos nós, que experimentamos este amor destinado a todos universalmente e incondicionalmente. Este amor nos faz semelhante a Deus, pois, quando amamos, nos assemelhamos a Deus, porque Deus é amor.

Jesus, o Bom Pastor, conhece a cada um de nós, conhece e nos chama pelo nome. Conhece nossos medos, angústias e frustrações. Cuida de cada um de nós com admirável e indizível amor.

Jesus é o Bom Pastor do rebanho porque  “Ele não está apenas interessado em cumprir o contrato, mas em fazer com que as ovelhas tenham vida e se sintam felizes. A Sua prioridade é o bem das ovelhas que lhe foram confiadas. Por isso, Ele arrisca tudo em benefício do rebanho e está até, disposto a dar a própria vida por essas ovelhas que ama. N’Ele as ovelhas podem confiar, pois sabem que Ele não defende interesses pessoais, mas os interesses de Seu rebanho” (2).

Nosso Pastor por excelência é Jesus Cristo, mas precisamos ter cuidado com outros “pastores”, que nos arrastam e condicionam nossas escolhas.

Reflitamos:

– O que nos conduz e condiciona as nossas opções?

– Jesus Cristo é de fato o nosso Bom Pastor?

– conhecemos e somos atentos à voz do Bom Pastor?

A Liturgia do Bom Pastor é propícia para rezarmos a Jesus, o Bom Pastor, para que nos envie pastores segundo o Seu coração; que sejam Seus imitadores, em absoluta e incondicional fidelidade, com mesmos pensamentos e sentimentos.

Rezemos pelo Papa e por todos aqueles que conduzem a Igreja, para que, conduzidos pelo Espírito, sejam para o rebanho a Voz do Bom Pastor, e também para que o rebanho não se perca por falta de pastores, ouvindo Sua Voz e procurando viver no zelo e fidelidade ao Senhor:

“A colheita é grande, mas os trabalhadores são poucos. Pedi, pois, ao Senhor da colheita que mande trabalhadores para sua messe (Lc 10, 2).

Renovemos a alegria de pertencermos ao rebanho do Senhor, pois Ele nos conduz aos verdes prados e água cristalina, pois Deus nos ama e quer sempre o melhor para nós. Entretanto, Ele também quer o melhor de nós, pois nos ofereceu, por amor, o que de melhor possuía: Seu próprio Filho, que do Pai nos enviou o Espírito, para que órfãos e abandonados não ficássemos, e amados nos sintamos e para sempre o sejamos.

Atentos ao apelo do Papa, construamos uma Igreja em saída, ao encontro das ovelhas feridas e distantes, que ainda não tiveram a graça de ouvir a Palavra do Bom Pastor e de Sua Igreja:

Tenho ainda outras ovelhas que não são deste redil: também a elas devo conduzir; elas escutarão a minha voz, e haverá um só rebanho e um só Pastor.” (Jo 10, 16)

Que a Voz do Bom Pastor, a Voz do Amado, penetre nossos ouvidos e alcance as entranhas de nosso coração, para que jamais nos afastemos de Seu rebanho.

(1) (2) www.Dehonianos.org/portal

“Ele está no meio de nós!” Aleluia! – Homila III Domingo de Páscoa Ano C

“Ele está no meio de nós!” Aleluia!

Com a Liturgia do terceiro Domingo da Páscoa (Ano B), refletimos sobre o modo de testemunhar o Cristo Ressuscitado; a dinâmica da Vida Nova que brota da experiência da Ressurreição na vida dos discípulos; e o testemunho de que Ele está Vivo.

Jesus Ressuscitado é o centro da comunidade reunida; sempre presente no caminho e na missão do discípulo, e é necessário coragem para testemunhar e anunciar a Palavra do Ressuscitado.

É o que vemos na primeira leitura (At 3,13-15.17-19): o realizar desta missão se dará pelo testemunho dado diante do mundo, com a pregação e ações concretas. Com estas atitudes, poderão ter aceitação, rejeição e até mesmo sofrer perseguição.

A pregação dos Apóstolos é um convite ao arrependimento, à conversão, à fé em Jesus Cristo, acolhendo Sua Pessoa e a Boa-Nova do Reino por Ele iniciado.

A conversão implica na superação do egoísmo, do orgulho, do comodismo, da autossuficiência, do individualismo, da indiferença…

O testemunho dos discípulos será a grande manifestação da Vida do Ressuscitado. Somente com uma vida marcada pela doação e entrega total, trilhamos o caminho para o alcance da Vida Eterna. Eis o autêntico caminho da vida cristã.

Reflitamos:

– A minha vida e meus gestos testemunham o Cristo Vivo, Ressuscitado?

– Quais os sinais que manifestam a presença do Ressuscitado na minha comunidade?

– Quais são os apelos de conversão que ressoam fortemente no mais profundo de mim e da minha comunidade?

Na passagem da segunda leitura (1 Jo 2,1-5a), refletimos sobre a comunidade que reconhece a sua fragilidade e não se desespera, pois bem sabe que tem o Defensor, o Advogado, o Paráclito.

Os membros da Comunidade cultivam uma intimidade profunda com Deus, na escuta, acolhimento e vivência de Sua Palavra, reconhecendo a condição da realidade pecadora inerente à criatura humana, sem jamais desistir do caminho da Salvação, num permanente amadurecimento e crescimento da coerência entre a fé e a vida.

A comunidade deve estar sempre atenta para o não abandono do amor fraterno, por isso a necessária vigilância para uma vida de santidade se faz necessária, com renúncia ao pecado e aberta à proposta de Salvação que Deus nos oferece.

Reflitamos:

– Qual é a profundidade do meu relacionamento com Deus?

– Como cultivo minha amizade e familiaridade com Deus?

– Como sinto Sua proximidade no dia a dia?

– Sinto a presença do Espírito que assiste, acompanha, orienta e fortalece a vida da Igreja?

– Qual é a coerência que há entre a fé que professo e a minha vida?

Na passagem do Evangelho (Lc 24,35-48), os discípulos, na escuta da Palavra e na partilha do Pão, sentem e reconhecem a presença do Ressuscitado.

Somente no amor e na fraternidade, a comunidade é capaz de enxergar e tornar visível a presença do Ressuscitado.

A Ressurreição é a prova de que Deus dá razão a Jesus e que Seu Amor é mais forte que a morte.

A comunidade crê n’Aquele que foi rebaixado pelos injustos, desceu à mansão dos mortos, foi reerguido por Deus, mostrado glorioso aos que n’Ele acreditam.

Na intimidade Eucarística, Ele nos dirige Sua Palavra e nos dá o Seu Corpo e Sangue: Verdadeira Comida e Verdadeira Bebida.

Crer na Ressurreição é a grande força que move a ação da comunidade, pois ela é, na exata medida, a vitória do Projeto de Jesus.

A Ressurreição é um fato real, mas não pode ser provado cientificamente. A comunidade teve que percorrer um longo e difícil caminho para o reconhecimento da presença de Jesus Vivo e Ressuscitado. Foi inevitável a dúvida, a incerteza, o medo, a fragilidade… até  que pudesse passar da incredulidade à fé.

Somos uma comundiade com a presença do Ressuscitado que nos traz a verdadeira paz; comunica-nos o “shalom”: harmonia, serenidade, confiança, a vida plena.

A comunidade deve crescer no amor mútuo, na fraternidade, tornando visível a presença do Ressuscitado.

A ação do discípulo é a continuidade da missão do próprio Jesus. Ele continua a obra redentora do Salvador, d’Aquele que foi morto e Ressuscitado.

Reflitamos:

– Qual é o caminho para a descoberta e o encontro com o Ressuscitado?

– Temos sentido a presença do Ressuscitado através da Palavra Proclamada, ouvida, acolhida e vivida?

– Jesus Ressuscitado tem a centralidade em nossa comunidade?

Observando os Mandamentos divinos, Deus Se torna uma Verdade em nós. Portanto, amemos a Deus e acreditemos no Filho amado! Escutemo-Lo, pois Ele venceu o mundo! A vida venceu a morte.  Contemos com a presença e ação do Espírito Santo. Amém Aleluia!

Dom Otacilio F. Lacerda

A Fé no Ressuscitado é missão de paz! Segundo Domingo Tempo pascal – Ano C

A Liturgia do 2º Domingo da Páscoa (ano C), também chamado de Domingo da Misericórdia, nos convida a refletir sobre o papel da comunidade cristã como lugar privilegiado do encontro com Jesus Cristo Ressuscitado (na Palavra proclamada, no amor vivido, no pão partilhado e no corajoso testemunho dado).

Na passagem da primeira leitura (At 5,12-16),  temos a confirmação da missão salvadora continuada pela comunidade, apresentando a proposta redentora da humanidade a partir de Jesus Cristo.

A pequena passagem enfatiza a atividade miraculosa dos Apóstolos, pois ela é continuadora da missão do Ressuscitado com o mesmo poder – “pelas mãos dos Apóstolos realizavam-se muitos milagres e prodígios entre o povo”.

Os sinais feitos pela comunidade revelam a presença libertadora e salvadora de Deus, que deseja vida plena para todos. Os gestos de amor, de partilha e de reconciliação são os maiores e belos sinais que uma comunidade que crê pode realizar.

Reflitamos:

– Como testemunhamos a força do Ressuscitado dentro e fora da Igreja?

– Quais são os sinais do Ressuscitado em nossa comunidade?

A segunda leitura (Ap 1,9-11a.12-13.17-19), escrita num contexto de dramática perseguição aos cristãos pelo Império romano, é um convite à perseverança na fé.

Do Ressuscitado, o Vencedor, vem a força para a comunidade continuar o seu caminho e testemunho.

Jesus é o “Filho do Homem”, o Senhor da história. Ele esteve morto, voltou à vida, e agora é o Senhor da vida que derrotou a morte (Ap 1,18), de modo que os cristãos não têm nada a temer.

A comunidade testemunhando o Ressuscitado vencerá todo medo e perseguição, e esta é a grande mensagem de João em seu livro, que não foi escrito para intimidar aquele que crê, muito ao contrário, escrito para encorajar no bom combate da fé. Um livro para ser lido e compreendido somente por quem tem fé e deseja testemunhar o Ressuscitado até o fim.

Na realização da missão evangelizadora, é preciso passar do pessimismo à esperança. O mundo precisa de mensagem de esperança e de compromisso com uma nova realidade, um novo céu e uma nova terra.

Reflitamos:

– Quais são as dificuldades que encontramos no testemunho da fé?

– Quais são as mensagens de esperança que temos a oferecer para o mundo?

– Onde e quando renovamos nossas forças para não sucumbirmos diante das dificuldades que possamos encontrar na vivência da fé?

Na passagem do Evangelho (Jo 20,19-31),  Jesus Se manifesta vivo e ressuscitado, e Se apresenta como o centro da comunidade cristã, comunicando a paz (plenitude de bens), comunicando o Espírito para que os Apóstolos continuem a Sua missão.

A mensagem explicita a centralidade de Cristo na comunidade e esta por sua vez, é a testemunha credível da vida do Ressuscitado no encontro com o amor fraterno, com o perdão dos irmãos, com a Palavra proclamada, com o Pão de Jesus partilhado e os compromissos com a justiça e a vida nova renovados.

O Ressuscitado rompendo as portas fechadas, onde os Apóstolos se encontram por medo dos judeus, disse-lhes: “A paz esteja convosco”. Nada mais pode impedir a ação do Ressuscitado.

É o primeiro dia da semana, é o tempo da nova criação alcançada pelo Ressuscitado, por isto guardamos o domingo como o Dia do Senhor, para adorá-Lo e encontrá-Lo, de modo especial na comunidade, quando a Palavra é proclamada e o Pão é partilhado: Cristo presente na comunidade de modo especialíssimo na Palavra e na Eucaristia.

Na primeira parte, Jesus saúda com o “shalom”: harmonia, serenidade, tranquilidade, confiança, plenitude dos dons à comunidade, de modo que a ela nada falta, pois o Ressuscitado Se faz presente.

E, a comunidade será portadora desta Boa Nova, empenhada na tríplice harmonia dos seres humanos com o Criador, com a própria criatura e com o cosmos.

Os Apóstolos são instrumentos da paz, da vida nova, da comunhão a ser vivida com Deus e com o próximo: shalom!

Quando reaprende a amar, a comunidade capacita-se para a missão de paz, e então se torna sal da terra, luz do mundo e fermento na massa.

A não vivência ou a recusa do amor impede que a paz aconteça… Paz que nos é dada como dom divino, compromisso humano inadiável…

Acolhendo o “sopro da misericórdia divina”, a comunidade não terá o que temer, porque não é enviada sozinha, mas com a força e a vida nova que nos vem do Santo Espírito – “E Jesus soprou sobre eles e disse-lhes: recebei o Espírito Santo”.

A segunda parte é o itinerário da profissão de fé feito por Tomé, ausente na primeira vez em que Jesus apareceu aos Apóstolos, e depois, quando presente, faz a grande profissão de fé: ”Meu Senhor e meu Deus”.

Tomé é proclamado bem-aventurado porque viu e tocou as Chagas gloriosas do Ressuscitado, e Jesus nos diz que felizes são aqueles que creram sem nunca terem visto, nem tocado (Jo, 20-29).

Tomé toca exatamente onde nascemos e nos nutrimos: no coração de Jesus, do qual jorrou Sangue e Água: Batismo e Eucaristia.

Esta é uma mensagem essencialmente catequética que nos convida a renovar hoje e sempre a nossa fé: somos felizes porque cremos sem nunca ter visto nem tocado.

A experiência vivida por Tomé não foi exclusiva das primeiras testemunhas do Ressuscitado, e pode ser vivida por todos os cristãos de todos os tempos.

Hoje, somos convidados a fazer esta mesma experiência.

Reflitamos:

– Creio na presença de Jesus Ressuscitado na vida da Igreja?

– Sinto a presença e ação do Ressuscitado em minha vida?

– Jesus Ressuscitado possui centralidade em minha vida?

– Jesus Ressuscitado ocupa o lugar central em minha comunidade?

– Como vivo a missão, por Ele, a mim confiada?

– Tenho acolhido o sopro do Espírito na missão vivida?

– O que tenho feito para que a paz, mais que sonho e desejo, se torne realidade?

– O Domingo é, de fato, para mim o Dia do Senhor, do encontro com o Ressuscitado, para escutá-Lo na comunidade, reconhecê-Lo e comungá-Lo quando Ele Se dá no Pão partilhado, na Eucaristia?

– Como tenho prolongado, em minha vida quotidiana, a ação e vida do Ressuscitado, a Eucaristia celebrada?

Com a Ressurreição do Senhor, nosso coração transborda de alegria.

Oremos:

“Ó Pai, que no Dia do Senhor

Reunis o Vosso Povo para celebrar

Aquele que é o Primeiro e o Último,

O Vivente que venceu a morte,

Dai-nos a força do Vosso Espírito,

Para que, quebrados os vínculos do mal,

Vos tributemos o livre serviço

Da nossa obediência e do nosso amor,

Para reinarmos com Cristo na glória eterna.

Amém”.

“A paz esteja convosco”. Aleluia!

Ninguém pode impedir a ação do Ressuscitado:

Alegremo-nos! Aleluia!

Fonte de pesquisa: www.Dehonianos.org/portal

Páscoa do Senhor: Muito mais que sete verbos…

Quando o Domingo de Páscoa celebramos,
Sete verbos aprendemos para conjugação,
Nos tempos Pretérito, Presente e Futuro.
Para quem acredita no Mistério da Ressurreição:
Sete Verbos:
Amar, correr,
ver,  acreditar, anunciar,
testemunhar e buscar.
Amar é o primeiro verbo da Palavra Proclamada.
Amar a Deus com toda alma, força e entendimento;
Amar como resposta primeira, por Ele esperada;
Amar sempre, em íntimo e estreito relacionamento.
Amar, critério que se impõe para todo o seguidor Seu.
Amor puro, sincero, fiel, confiante, verdadeiro;
Amor que, do lado trespassado, Sangue e Água verteu;
Água para o renascimento, Sangue que nos Redime e Alimenta.
Correu Maria Madalena para contar aos discípulos
O que ainda não houvera compreendido.
A pedra fora retirada do túmulo:
Tiraram o Senhor do túmulo e não sabemos onde O colocaram”.
Correram os dois discípulos: Pedro e o discípulo que Jesus amava.
Ainda que chegando primeiro e pelo Senhor amado, não entra.
Quem ama sabe o seu lugar e humildemente sabe esperar;
Contemplando os sinais da Ressurreição, “Ele viu e acreditou”.
Ver é o terceiro verbo a ser conjugado.
Ver com olhos da alma, olhos do coração;
Ver como o pôde fazer o discípulo amado;
Ver nas aparências da ausência, a Ressurreição.
Acreditar na Vitória da Vida sobre a Morte.
Acreditar que a palavra última a Deus pertence,
E ao mundo foi alcançada nova e eterna sorte.
Acreditar que Sem Ele ninguém vence.
Anunciar que Ele Reina, Ele Vive, porque Ele é O Senhor.
Anunciar que n’Ele está nossa Esperança e Salvação.
Anunciar que, da Humanidade, Ele é o único Redentor,
Mas que não dispensa nossos compromissos e participação.
Testemunhar, como Pedro, com a palavra e a vida,
Que a prepotência humana cedeu à divina onipotência.
Testemunhar que a humanidade decaída foi reerguida.
Testemunhar sem medo, recuos, omissão ou displicência.
Buscar as coisas do alto, por Paulo, somos exortados.
Buscar os valores do Reino, as coisas celestiais:
Verdade, Amor, Justiça e Liberdade, entrelaçadas.
Quem busca as coisas divinas não se cansa jamais!
Esperá-Lo na glória futura, que há de se manifestar.
O céu é possível para quem souber amar,
Em espera vigilante e ativa, haveremos de estar,
Em espera alegre, confiante, sem desesperar!
São sete verbos, mas são muito mais que apenas sete verbos,
Porque que nos fazem aprendizes do Amado Eterno Verbo.
Sete verbos: Amar, correr, ver, acreditar, anunciar, testemunhar,
Buscar as coisas do alto, a glória esperar e alcançar.
Conjugá-los, em todos os momentos e circunstâncias,
Refaz nossa vida, acenando o Paraíso possível.
Conjugá-los e vivê-los em todas as instâncias,
Mundo novo é possível, porque por Deus crível.
Se, na Quaresma, contemplamos o Incrível Amor,
Na Páscoa, podemos dizer, sem hesitações e temores:
Ó Eterno e Incrível Amor! Que maravilha de Amor!
Que nos faz, com Ele e n’Ele, mais do que Vencedores!
São sete verbos… Mas muito mais que sete verbos,
Porque nos fazem aprendizes 
do Amado e Eterno Verbo.
Aleluia! Aleluia! Aleluia!
PS: Liturgia da Palavra – At 10, 34.37-43; Sl 117; Cl 3,1-4; Jo 20,1-9

Celebremos a Vigília Pascal ( Ano C)

Para bem celebrar a Vigília Pascal, a antiquíssima Vigília, a Mãe de todas as Vigílias, sejamos enriquecidos pelo Sermão de São João Crisóstomo (séc. IV) – (Este texto pertencente a Liturgia Bizantina era lido no princípio da Celebração).

“Que todo o homem piedoso e amante de Deus goze desta bela e luminosa Solenidade. Que todo o servo fiel participe da alegria do Seu Senhor. Que quem se esforçou por jejuar receba agora o salário que lhe corresponde.

Quem trabalhou desde a terceira hora que celebre esta festa com gratidão. Se alguém só chegou à sexta hora que não duvide, pois não perderá nada. E, se alguém se atrasou até a nona hora, que não se sinta vergonha pela sua tibieza porque o Senhor é generoso e dá ao último o mesmo que ao primeiro…

Saboreai todos o banquete da fé. Saboreai todos as riquezas da misericórdia. Que ninguém se queixe pela sua pobreza, pois apareceu o nosso Reino comum. Que ninguém se lamente pelos seus pecados, pois da tumba brotou o perdão. Que ninguém tema a morte, já que a morte do Salvador nos libertou…

Cristo Ressuscitado de entre os mortos tornou-Se como primícias dos que morreram. A Ele a glória e o poder pelos séculos dos séculos. Amém”

Ao participar da Vigília Pascal, sintamos, aos poucos, o crescimento da alegria que haverá de ser transbordante com a Ressurreição do Senhor.

Também, aos poucos, a escuridão ceda lugar à luminosidade do Mistério central de nossa fé: a Ressurreição do Senhor; então, cantaremos exultantes de alegria o Aleluia Pascal.

Fonte: Missal Quotidiano e Dominical – Editora Paulus – Lisboa – 2012 – p.560

Domingo de Ramos e da Paixão do Senhor (Ano C)

 “Contemplemos e fiquemos abismados diante da mais bela História do Amor de Deus por nós:
Jesus Cristo, 0 Filho Amado do Pai.”

Com a Santa Missa do Domingo de Ramos e da Paixão do Senhor, iniciamos a Semana Santa, que culminará na Ressurreição do Senhor.

A Liturgia (Ano C) nos convida a contemplar a ação de Deus que veio ao encontro da humanidade, por meio de Jesus Cristo, que Se fez Servo, em doação total de Sua vida por amor, não fugindo do horizonte da Cruz sempre presente em Sua missão.

A passagem da primeira Leitura (Is 50,4-7) nos apresenta o terceiro Cântico de Javé, e a figura do Servo sofredor, que a fé cristã identifica perfeitamente com a Pessoa de Jesus Cristo no Mistério de Sua Paixão e Morte:

“A vida de Jesus realiza plenamente esse destino de dom e entrega da vida em favor de todos; e a Sua glorificação mostra que uma vida vivida deste jeito não termina no fracasso, mas na Ressurreição que gera vida nova” (1)

O Servo sofredor escuta, sofre, resiste e confia na intervenção de Deus que jamais abandona aqueles a quem chama. O Profeta tem convicção de que não está só, e que a força de Deus é sempre mais forte do que a dor, o sofrimento e a perseguição, e que jamais ficará decepcionado.

Reflitamos:

– Temos coragem de fazer da nossa vida uma total entrega ao Projeto de Deus, no compromisso de libertação de tudo que seja sinal de morte e opressão?

– De que modo vivemos a vocação profética que Deus nos concedeu pela graça do Batismo?

– Temos confiança na força de Deus, como o Servo sofredor que é o próprio Senhor?

O Apóstolo Paulo, na passagem da segunda Leitura (Fl 2, 6-11), nos apresenta o exemplo de Jesus Cristo que viveu obediência, fidelidade e amor total ao Pai por amor à humanidade.

Embora a comunidade de Filipos, gozando de afeto especial do Apóstolo, seja entusiasta, generosa e comprometida, é exortada a aprofundar sua prática de desprendimento com maior humildade e simplicidade, como pode acontecer com toda comunidade que adere ao Senhor.

Paulo nos apresenta, portanto, numa breve e densa passagem, a missão de Jesus:

“Em traços precisos, o hino define o ‘despojamento’ (‘Kenosis’)  de Cristo: Ele não afirmou com arrogância e orgulho a Sua condição divina, mas aceitou fazer-Se homem, assumindo com humildade a condição humana, para servir, para dar a vida, para revelar totalmente aos homens o Ser e o amor do Pai.

Não deixou de ser Deus, mas aceitou descer até aos homens, fazer-Se servidor dos homens, para garantir vida nova para os homens. Esse ‘abaixamento’ assumiu mesmo foros de escândalo: Jesus aceitou uma morte infamante – a Morte de Cruz – para nos ensinar a suprema lição do serviço, do Amor radical, da entrega total da vida” (2).

Em consequência disto, Deus o fez “Kyrios” (Senhor), para reinar sobre toda a terra e sobre toda a humanidade.

A comunidade dos seguidores de Jesus haverá de fazer sempre este mesmo caminho de despojamento, amor, doação e fidelidade total a Deus, para alcançar a glória da eternidade.

A passagem do Evangelho (Lc 22,14-23,56) nos apresenta a Paixão de Nosso Senhor Jesus. Com Lucas, o terceiro Evangelista, contemplamos a Paixão de Jesus: uma vida feita dom e serviço, culminando na morte de Cruz, em que revela o Amor de Deus que nada guarda para Si, que Se faz um dom total para que sejamos redimidos.

A mensagem central: a morte de Jesus é a consequência lógica do anúncio do Reino, que provocou tensões, resistências pelos que detinham o poder religioso, econômico, político e social do Seu tempo.

A morte de Jesus é o culminar de Sua vida: “é a afirmação última, porém, mais radical e mais verdadeira (porque marcada com Sangue), daquilo que Jesus pregou com Palavras e com gestos: o amor, o dom total, o serviço” (3).

Sua morte deve ser entendida no contexto do que foi a Sua vida. Sendo assim, o Seu projeto libertador entrou em choque com as autoridades de Seu tempo: as autoridades políticas e religiosas se sentiram incomodadas com Sua denúncia, palavra e ação.

Em Sua morte na Cruz, aparece o Homem Novo, modelo para todo aquele que ama radicalmente e que faz de sua vida um dom de si para todos.

O Evangelista acentua alguns aspectos: a ceia como dom total de Jesus; a atitude de serviço (Lc 22,24-27); Deus não abandona Jesus, com a presença do anjo, quando Ele derrama “suor de sangue” (Lc 22, 42-44); Deus vem ao nosso encontro e manifesta Sua presença em gestos de bondade, revelando a misericórdia divina; somente Lucas menciona Simão de Cirene para levar a cruz de Jesus atrás d’Ele (Lc 23,26), os demais mencionam a solicitação apenas de Simão de Cirene para levar a cruz de Jesus (Mt 27,32; Mc 15,21).

Contemplemos a Paixão e Morte de Jesus como a concretização do amor de Deus, que veio ao nosso encontro, assumiu nossos limites, experimentou a fome, o sono, o cansaço, venceu as tentações, tremeu perante a morte, suou sangue antes de aceitar a vontade do Pai:

“…estendido no chão, esmagado contra a terra, atraiçoado, abandonado, incompreendido, continuou a amar. Desse amor resultou vida plena, que Ele quis repartir conosco até o fim dos tempos: esta é a mais espantosa história de amor que é possível contar; ela é a boa notícia que enche de alegria o coração dos crentes. Por isto, Dante definiu São Lucas como o ‘escriba da misericórdia divina’”. (4)

Que a celebração da Semana Santa, rica em espiritualidade, repleta de ritos significativos, renove nosso apaixonamento por Jesus, assim como Ele foi um apaixonado de Deus Pai, com a força e presença do Espírito Santo, em todos os momentos.

Contemplemos a misericórdia de Deus, na ação e Pessoa de Jesus, e sejamos misericordiosos como o Pai (Lc 6,36).

(1) (2) (3) (4) www.dehonianos.org.br

A Quaresma e a“escala da perfeição”- V Domingo da Quaresma Ano C.

Quaresma, tempo favorável para penitência e privações, mas, sobretudo, tempo de conversão e regresso às fontes evangélicas, com início na Quarta-feira de Cinzas até o início da Missa de Quinta-feira Santa, Ceia do Senhor.

Na Quaresma, toda a Igreja é chamada à libertação das amarras do pecado e de tudo a que ele conduz; com o afastamento dos obstáculos que estorvam o caminho para Deus e para o encontro fraterno com os outros, com as necessárias renúncias.

“A Quaresma convida-nos a levar a sério o chamamento e as advertências de Deus, os ensinamentos e o exemplo de Cristo, a fé e a esperança no Reino futuro” (1)

É como um longo retiro espiritual, em que somos chamados a viver maior fidelidade e fervor no cumprimento dos compromissos religiosos, e nos exercícios quaresmais (oração, jejum e esmola).

Vejamos o que nos diz o Papa São Leão Magno (séc V) em seu Sermão 6 sobre a Quaresma:

“Porque, embora os homens renasçam para a vida nova principalmente pelo Batismo, todos necessitamos de nos renovar cada dia das manchas da nossa condição pecadora, e não há ninguém que não tenha que ser cada vez melhor na escala da perfeição, devemos esforçar-nos para que ninguém se encontre sob o efeito dos antigos vícios no dia da redenção. Por isso, nestes dias, é preciso por especial solicitude e devoção em cumprir as coisas que os cristãos devem realizar em todo o tempo” .

Deste modo, temos um caminho a seguir, e a Liturgia Dominical da Quaresma tem riqueza própria para ser devidamente celebrada e vivida:

“Cristo precede-nos e acompanha-nos. Ele venceu Satanás, superando as suas tentações (primeiro domingo dos três anos) e mostra a Sua glória para animar os Seus discípulos no árduo caminho da fé (segundo domingo dos três anos). Ele é a fonte de água viva, a luz que devolve a vista aos cegos e a vida aos mortos (Ano A). Messias crucificado, força e sabedoria de Deus, oferece a salvação aos que recorrem a Ele e, da Cruz, atrai todos os homens a Si (Ano B). Revela a paciência e a infinita misericórdia do Pai que, com os braços abertos, acolhe os Seus filhos pródigos e convida para a festa do regresso os filhos que ficaram em casa (Ano C)” (2).

Seja, portanto, a Quaresma, com sua riqueza, pelos textos sagrados na Liturgia proclamados, pelas orações próprias da Missa e Prefácios, como Bênção Solene e Orações sobre o Povo, Tempo favorável, para que nos empenhemos cada vez mais, nos progressos na “Escala da perfeição”, como tão bem expressou o Papa São Leão Magno.

Enriquecidos pela beleza da Liturgia, e procurando encarná-la em nosso quotidiano, nos mais diversos âmbitos, estaremos nos preparando, intensa e profundamente, para uma Páscoa de frutos abundantes.

(1) (2) – Missal Quotidiano Dominical e Ferial – Editora Paulus – Lisboa – 2012 – pp.269-270

“Vá e não peques mais” – Homilia V Domingo da Quaresma – Ano C

No 5º Domingo da Quaresma (Ano C), a Liturgia da Palavra da Santa Missa nos convida a nos pormos de pé, vivendo de maneira diferente, acolhendo a Palavra de Jesus que foi dirigida à pecadora surpreendida em adultério: “vai e não tornes a pecar”.

É o grande convite para fortalecermos o dinamismo de conversão que iniciamos com a Quarta-feira de Cinzas, voltando-nos para um Deus que nos ama e nos desafia a romper as escravidões que nos afastam de Seu Amor e nos colocando a caminho numa vida nova, até que alcancemos a Ressurreição.

A primeira Leitura (Is 43, 16-21) é uma passagem contida no “Livro da Consolação”, que retrata um contexto de exílio na espera de um novo êxodo (séc. VI a.C.).

O Povo de Deus não podia ficar ancorado numa fuga nostálgica do passado, tão pouco ficar inerte numa saudade que não levasse a uma nova realidade, menos ainda refugiar-se com medo do presente. A lembrança do passado somente é valida quando alimenta a esperança e prepara um futuro novo. Este só será possível quando o Povo de Deus se volta para Ele em fidelidade incondicional.

Deus, de fato, é um Deus libertador que não se conforma com qualquer escravidão que roube a vida e a dignidade do homem e da mulher, e nos acompanha e nos fortalece para que lutemos contra toda forma de sujeição.

A segunda Leitura (Fl 3,8-14) é uma pequena e densa passagem em que o Apóstolo Paulo exorta os fiéis da comunidade a jogar fora todo “lixo” que impeça a mais bela descoberta de Cristo, para se viver a comunhão e a identificação com Ele.

Paulo está preso e escreve esta Carta terna e afetuosa, com palavras de gratidão e exortação à fidelidade a Cristo Jesus, para que a comunidade não se desvie pela pregação dos falsos pregadores.

Somente Cristo importa. Conhecê-Lo numa intimidade de vida, viver em comunhão com Ele, assumir o mesmo destino para Ressuscitar para uma vida nova. É preciso se apaixonar por Cristo e Sua Palavra.

O episódio descrito na passagem do Evangelho (Jo 8, 1-11) revela-nos um Deus de Misericórdia que age por meio do Filho, Jesus.

O cenário de fundo nos coloca frente a uma mulher apanhada em adultério, e de acordo com o Levítico (Lv 20,10) e o Livro do Deuteronômio (Dt 22,22-24), a mulher devia ser morta (lapidada).

Aplicar a Lei ou não, eis a questão colocada para Jesus, que é posto em face à Lei e, ao mesmo tempo, em face de uma mulher adúltera.

Jesus não rejeita a Lei, pede tão apenas que escribas e fariseus se voltem para sua própria vida antes de olhar a mulher e de sentenciar a condenação.

Que se vejam “no espelho” e também vejam quão pecadores também o são. E, assim, a partir dos mais velhos retiram-se.

A ação de Jesus diante da questão posta revela que a Misericórdia Divina não condena, não elimina, não julga e não mata.

A lógica divina é sempre a possibilidade de uma vida nova. De fato, o amor liberta, renova e gera esta vida nova que tanto ansiamos.

Embora nossa vida pareça, por vezes, um deserto árido, Deus se apresenta como a Fonte de Água Viva; por Seu Amor faz surgir um rio de Água Viva. A aridez do deserto é vitalizada pela intervenção divina, que nos acompanha e nunca desiste de nós, apesar de nossas infidelidades.

Somos interpelados a rever a lógica sobre a qual se organiza a sociedade, passando da eliminação sumária à reeducação e a reintegração daquele que pecou, ainda que o caminho pareça mais difícil, mais longo.

Somos desafiados a viver a lógica da misericórdia que é criativa. É preciso superar a lógica simplista – “errou, pagou…”. A lógica divina é infinitamente superior: “errou, dê conta do erro e não peques mais, e entre num caminho comunitário de conversão”.

Neste Tempo Quaresmal, somos convidados a rever também nossos pecados, e confessá-los diante da Misericórdia de Deus, sobretudo, através do Sacramento da Penitência.

Também convidados somos a cuidar melhor de nossos “telhados de vidro”, sem conivência com o pecado do outro, mas crendo que a Misericórdia Divina é a possibilidade de vida reconciliada, de vida nova para todos.

A alegria de Deus é a conversão do pecador. Deus abomina o pecado e ama o pecador. Ele não quer que ninguém se perca e naufrague no mar imenso de pecado.

É preciso que esvaziemos nossas mãos das pedras, sempre prontas para as lapidações sumárias do outro. Por vezes estas pedras se encontram em nossa língua e em nossos gestos, se nosso coração estiver cheio de rancores, ressentimentos, autossuficiência, soberba…

Libertemo-nos das pedras, revistamo-nos da Misericórdia Divina que em Cristo nos reconciliou e nos fez novas criaturas.

Caminhemos com Jeus, o rosto da misericórdia divina. Amém.

A inexplicável Misericórdia Divina nos faz novas criaturas- IV Domingo do Tempo da Quaresma – Ano C

“Irmãos, se alguém está em Cristo, é uma criatura nova.

O mundo velho desapareceu. Tudo agora é novo.” (2Cor 5, 17)

No 4º Domingo da Quaresma (Ano C) refletimos sobre o ser de Deus que é misericórdia, bondade e Amor.

Um Amor paciente, eterno, gratuito, inquebrantável, reintegrador, assim é o Amor divino que revela a lógica da misericórdia que é superior à lógica da justiça.

É o “Domingo Laetare”, Domingo da alegria, da reconciliação e da renovação, que começa a despontar em nosso coração, no horizonte que transcende a própria morte: a Ressurreição.

Na passagem da primeira Leitura (Js 5,9a.10-12), vemos que o tempo novo, a terra nova  serão frutos da reconciliação com Deus e com os irmãos (segunda Leitura – 2 Cor 5,17-21) na prática da misericórdia (Evangelho – Lc 15,1-3.11-32).

Deus tem para com a humanidade um olhar de amor, incansável e irrenunciável, não obstante a nossa pobreza, desobediência, incoerência e infidelidade.

Um olhar que confere dignidade, pertença, alegria e festa: “estávamos perdidos e fomos encontrados, estávamos mortos e voltamos a viver”.

Como discípulos missionários do Senhor, não basta ser justo, fazer tudo bem, é preciso reconciliar, reintegrar os que se perderam, eis aqui o grande desafio: não se contentar com os santos, mas santificar os não santos.

Não se afastar da corrente do Amor de Deus, de Sua misericórdia, que é a verdadeira fonte revelada por Jesus que não veio para condenar o mundo, mas veio para salvá-lo (Jo 12,47).

Este é o grande desafio: ser uma Igreja que não se constitui na comunidade dos que não erram, dos que não caem.

A Igreja é a comunidade dos pecadores que querem voltar ao Pai, dos que ajudam a retomar o caminho, não julgando e nem condenando, nem se tornando obstáculo para quem deseja a reconciliação, a graça de se tornar uma nova criatura.

Por isto, a Assembleia Eucarística é essencialmente o lugar da vivência e acolhida do perdão do Pai, que está sempre de braços abertos para nos acolher e nos envolver com laços de ternura; sempre pronto a Se entranhar no mais profundo de nós por Sua misericórdia.

Assim fez Jesus, e por isto assumiu um Amor incondicional e eterno, morrendo na Cruz, fazendo da Cruz a máxima expressão da misericórdia divina, que é sem limites.

Dando mais um passo neste Itinerário Quaresmal, nosso coração seja iluminado com o esplendor da Graça divina, renovado pela misericórdia infinita de Deus, de modo que pensemos e procuremos o que é reto e amemos a Deus de todo o coração, com toda força, alma e entendimento.

Amemos a Deus com todo o nosso ser, e a cada criatura d’Ele, como expressão do autêntico amor que tem dupla face: amor a Deus e o amor ao próximo.

Voltemos para a alegria e ternura divinas, que nascem do perdão experimentado e vivenciado. O que conta para Deus não é o passado, a lista de pecados que temos para apresentar, mas o abraço acolhedor que Ele está sempre pronto a nos dar.

Como o pai da Parábola, Deus está sempre nos esperando, e quando apontamos, ainda que distante, Ele sai correndo ao nosso encontro.

Este é o Deus que cremos e anunciamos e que Jesus nos revelou com Sua vida, doação e entrega total por Amor à humanidade, que nos comunicou a Vida Nova, enriquecendo-nos imensuravelmente pela presença de Seu Espírito.

Reflitamos:
  – Quais são os sinais de morte que precisam ser reconciliados, superados,      para que um mundo novo e um tempo novo sejam inaugurados?

– Quais são os opróbrios que nos pesam e dos quais Deus, por Sua misericórdia, quer nos libertar?

– Quais são e como são nossos olhares para as pessoas e para o mundo que clama pela acolhida e uma nova oportunidade?

Concluindo, a Misericórdia Divina se manifesta na acolhida, no Amor, no perdão, para que em Cristo sejamos uma nova criatura.

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