A Palavra do Bispo

Mensagens e publicações do bispo diocesano, Dom Otacilio Ferreira de Lacerda.

Mais que comemorar, celebrar

Quase diariamente temos a graça de celebrar o aniversário de pessoas queridas.
E, nem sempre temos a palavra certa para expressar o que elas significam para nós…
Também, muitas vezes vemos um aniversário passar, sem nada celebrar, sem a graça do dom da vida ser colocada no Altar do Senhor.
Aniversário…
Comemorar, festejar com quem se tece a teia da vida.
Celebrar o dom da vida, que por Deus foi criada, porque antes pensada e desejada.
Aniversário…
Mais que comemorar, celebrar.
Voltar-se para a Divina Fonte da vida e ver como se tem vivido,
Como presente e graça de Deus, desde a concepção.
Silenciar por um instante e mergulhar dentro de si,
Rever o caminho feito, acenar para novos horizontes…
Aniversário…
Mais que comemorar, celebrar.
Perceber que a vida não consiste apenas em contemplar sucessões,
Como as belas fases da lua ou as estações ao longo de um ano.
A vida jamais pode ser uma sucessão casual de dias…
A cada instante, é preciso sentir o coração pulsar,
Com anseio de vida, amor, ternura e amizade.
Mas, ainda que não se possa ouvi-lo, pelas múltiplas solicitações e inquietações quotidianas,
Lá ele está em pulsação incessante, garantindo a vida, suave e querida presença.
Aniversário…
Acontecimento que não pode passar despercebido, esquecido, indiferente;
Um dia tão especial, desde o momento em que o Senhor a vida concebeu, para que cada um
Trouxesse ao mundo suas marcas, seu jeito próprio de ser, para a vida de todos  enriquecer.
Aniversário…
Mais que comemorar, celebrar.
Um dia para receber parabéns e fazer de cada voto um impulso para a novidade,
Renovando e reavivando sonhos para a solidificação da sã esperança,
Conservando a alma límpida e transparente, sem ocultar a beleza interior possuída.
Aniversário…
Mais que comemorar, celebrar.
Dia oportuno para se perceber a possibilidade de novas conquistas,
Sem lamentar as perdas, alegrando-se mais com que se possa alcançar,
Afastando toda tristeza ou qualquer sentimento negativo que sequestre as forças.
Aniversário…
Mais que comemorar, celebrar.
Vibrar e agradecer a Deus, que faz cada pessoa única,
Com marcas indeléveis e singulares, irrepetíveis,
Porque cada criatura é uma obra prima Sua.
Aniversário…
Abrir-se ao sopro do Espírito, revitalizar-se e renovar-se,
Selar indispensáveis amizades, n’Aquele que é a Divina Fonte da amizade, Jesus.

Vigilância ativa e perseverança na fé Homilia – (Homilia 33ºDTCC)

Vigilância ativa e perseverança na fé

 “É permanecendo firmes que ireis ganhar a vida!” (Lc 21,19)

Na proximidade do final do Ano Litúrgico, a Liturgia do 33º Domingo do Tempo Comum (Ano C) nos convida a refletir sobre o sentido da História da Salvação e para onde Deus nos conduz: um mundo marcado pela felicidade plena e vida definitiva.

É preciso renascer em nós a esperança, para que dela brote a coragem para o enfrentamento das dificuldades, provações próprias na construção do Reino de Deus.

A primeira Leitura (Mal 4,1-2) retrata o período pós-exílio, uma realidade marcada pelo desânimo, apatia e falta de confiança. O Profeta Malaquias (“o meu mensageiro”) convoca o Povo de Deus à conversão e à reforma da vida cultual, pois vivendo a fidelidade aos Mandamentos da Lei Divina reencontrará a vida e a felicidade.

Seu anúncio sobre o Dia do Senhor é uma mensagem de confiança e esperança. Virá o Sol da Justiça. Este Sol é o próprio Jesus que brilha no mundo e insere a humanidade na dinâmica de um mundo novo, que consiste na dinâmica do Reino.

Numa situação difícil vivida pelo povo, é preciso viver a espera vigilante e ativa, reconhecendo a presença de Deus que intervém e comunica Sua força e poder. É preciso fortalecer a esperança, vencendo todo medo que paralisa.

A segunda Leitura (2 Ts  3,7-12) nos fala da vida futura e definitiva, que deve ser esperada sem preguiça e comodismo. A comunidade não pode cruzar os braços, tão pouco “viver nas nuvens”, assim como não pode perder tempo com futilidades, e nada de útil fazer.

É forte a mensagem dirigida à comunidade: não há lugar para parasitas que vivam à custa dos demais, o que se caracterizaria em consumidores.

Há uma exortação à responsabilização de todos, porque o Reino de Deus começa aqui e agora e a todos compromete. Não é a evasão do mundo:

“…Jesus de Nazaré não traz uma plenitude totalmente pronta. Não em uma intervenção mágica que desresponsabiliza o homem. É verdade que chegou a plenitude prometida, mas espera ser completada. É um dom, mas simultaneamente uma conquista”. (1)

A passagem do Evangelho (Lc 21, 5-19) retrata a aproximação do final da caminhada de Jesus para Jerusalém. E no Templo de Jerusalém que realiza o Seu último discurso público acerca do cumprimento da Sua vida e da História inteira.

Na fidelidade ao Senhor, a Igreja, na realização de sua missão, também poderá sofrer dificuldades e perseguições, mas precisa manter-se confiante e perseverante.

Podemos falar em três tempos:

 O tempo da presença de Jesus e Sua missão, seguido da destruição do Templo alguns anos mais tarde;

 O tempo da missão da Igreja;
– O tempo da vinda do Filho do Homem.

Enquanto aguardamos a segunda vinda do Senhor, Ele nos alerta para que não nos deixemos enganar por falsos pregadores (21,8); haverá catástrofes, terremotos, fome, epidemias (21,10-11), mas ainda não será o fim do mundo; assim como as perseguições serão inevitáveis para os que n’Ele crerem (21,12).

Por causa do Nome do Senhor Jesus, Seus discípulos serão levados aos tribunais e às “sinagogas”, na presença de reis e lançados nas prisões. Mas contarão sempre com a força de Deus para enfrentar os adversários e as dificuldades.

“Quem segue a Cristo poderá encontrar dificuldades, mesmo no seio da própria família; aderir a Jesus, de fato, muitas vezes comporta uma ruptura com as próprias tradições, e conflitos com o ambiente de onde se provém, a ponto de incorrer na denúncia dos próprios familiares (21,16-17). (2)

Nesta vigilância ativa e no testemunho dado é que a comunidade vivificará a fé, reencontrará a intimidade com Jesus, superará todo medo e alcançará a vida eterna plena e feliz: “É permanecendo firmes que ireis ganhar a vida!” (21,19).

“A coragem de resistir sob a pressão do mundo (mesmo para nós hoje) é condição importante para sermos verdadeiros discípulos de Jesus, dispostos a segui-Lo até a Cruz. É aí que Cristo reina! Assim nos preparamos para a Solenidade de Cristo Rei” .(3)

Considerando que “Toda a Igreja é missionária, em virtude da mesma caridade com que Deus enviou Seu Filho para a Salvação de todos os homens. E única é sua missão, a de se fazer próxima de todos os homens e todos os povos, para se tornar sinal universal e instrumento eficaz da paz de Cristo (RdC 8)” (4), ao término de mais um Ano Litúrgico, é tempo de avaliarmos e projetarmos uma nova caminhada.

Reflitamos:

 Qual foi o testemunho de fé que demos ao longo desta caminhada litúrgica?

 Tenho permanecido firme na fé, ou tenho vacilado em alguns momentos?

 Diante das dificuldades que marcam a vida de cada um e da história, qual confiança tenho em Deus para enfrentá-las?

 Qual esperança cultivo no coração?

 Como estou preparando a segunda vinda do Senhor?

 Quais os reais compromissos com o Reino que multiplico como expressão de uma vigilância ativa?

 Como tenho consumido o tempo na espera do Senhor que vem?

Oremos renovando nosso compromisso diante de Deus para que permaneçamos firmes na fé, e um dia alcancemos a vida eterna:

“Ó Deus, princípio e fim de todas as coisas,

Que reunis a Humanidade no Templo vivo do Vosso Filho,

Fazei que através dos acontecimentos,

Alegres e tristes deste mundo,

Mantenhamos firme a esperança do Vosso Reino,

Com a certeza de que, na paciência,

possuiremos a vida. Amém.”  (5)

+Dom Otacilio Ferreira de Lacerda

Bispo Diocesano de Guanhães 

 

(1) – Missal Dominical – pp. 1295-1296.

(2) (3) – Lecionário Comentado – p. 807.
(4) – Missal Dominical – p. 1296.
(5) – Lecionário Comentado – p. 809.

” Sofremos o amor perdido”

Disse o Senhor na passagem do Evangelho (Lc 21,5-19) proclamada no 33º Domingo do Tempo Comum (ano C): “Sereis entregues até mesmo pelos próprios pais, irmãos e amigos. E eles matarão alguns de vós” (Lc 21, 16).

Retomo um trecho do Sermão do Papa e Doutor da Igreja, São Gregório Magno (séc. VI):

“Nós sofremos menos pelos males causados por estranhos, porém nos são mais cruéis os tormentos que sofremos da parte daqueles em cujo amor confiávamos; porque, além do tormento do corpo, sofremos o amor  perdido, eis por que de Judas, Seu traidor, diz o Senhor pelo salmista:

Na verdade que, se o ultraje viesse de um inimigo meu, teria sofrido com paciência; e se a agressão partisse daqueles que me odeiam, poderia ter-me salvo deles; mas tu, meu companheiro, meu guia e meu amigo; com quem me entretinha em doces colóquios, que andávamos juntos na casa de Deus’.

E novamente: ‘Até o próprio amigo em quem eu confiava, que partilhava do meu pão, levantou contra mim o calcanhar’. Como se de seu traidor dissesse claramente: ‘sua traição me é tanto mais dolorosa quanto mais íntimo me parecia ser aquele de quem a sofri’”.

São Gregório retrata possíveis experiências que possamos já ter vivido. Podemos já sofrido por um amor perdido, como assim vivenciou Nosso Senhor, em relação à traição de Judas, a quem tanto amou, e não foi correspondido, e nem por isto deixou de amá-lo. Quem mais poderia amá-lo e nos amar tanto assim?

Quanto ainda temos que nos converter e amadurecer para amar, incondicionalmente, como Jesus nos ama?

Findando mais um Ano Litúrgico, ainda temos um longo aprendizado na prática do Mandamento Maior do amor a Deus, que se expressa no amor ao próximo, para que O coroemos e O glorifiquemos como Senhor de nossa vida e de todo o Universo.

(1) Lecionário Patrístico Dominical – Editora Vozes – 2013 – P.755

Postado por Dom Otacilio F. Lacerda

https://peotacilio.blogspot.com/2019/11/sofremos-o-amor-perdido-33dtcc.html

Cremos na Ressurreição da carne e na vida eterna – Homilia do 32° Domingo Comum

Cremos na Ressurreição da carne e na vida eterna

Com a Liturgia do 32º Domingo do Tempo Comum (ano C), refletimos sobre o horizonte da humanidade: uma vida que nunca se acaba, plena, total e nova: a vida eterna.

Na passagem da primeira Leitura do Segundo Livro do Macabeus (2 Mac 7,1-2.9-14), refletimos sobre o testemunho de sete irmãos que deram a vida pela fé, movidos pela certeza de que Deus reserva a vida eterna àqueles que percorrem, com fidelidade, os caminhos por Ele propostos.

O texto nos fala do martírio de uma mãe e dos seus sete filhos, que se recusaram a violar a fé e as tradições judaicas, e por isto, foram mortos.

“Os sete irmãos tiveram a coragem de defender a sua fé até a morte, porque acreditavam que Deus lhes devolveria, outra vez a vida, uma vida semelhante àquela que lhes ia ser tirada. O Deus criador tem, de acordo com a catequese aqui feita, o poder de ressuscitar os mártires para a vida eterna”. (1)

Havia um contexto de perseguição contra os judeus, feita por Antíoco IV Epifanes (175-164a.C.). Muitos judeus, ao manterem vivas as suas tradições, foram cruelmente perseguidos e mortos.

Com isto, temos pela primeira vez a doutrina da ressurreição explicitamente apresentada na Bíblia. Esta verdade será desenvolvida e culminará com a Ressurreição de Jesus Cristo.

A mensagem catequética nos convida a não ficarmos paralisados pelo medo, renovando compromissos com a justiça e a verdade e nossa coragem e força para o testemunho da fé.

Reflitamos:

– Quais os valores pelos quais consumimos a nossa vida, ou seja, que acreditamos e pelos quais somos capazes de morrer?

– Somos capazes de defender com a própria vida as verdades de nossa fé?

– Somos capazes de lutar contra a corrente, se preciso for, pelos valores significativos para a nossa vida de fé?

Na segunda leitura, ouvimos a passagem da Segunda Carta de Paulo aos Tessalonicenses (2 Ts 2,16-3-5), e temos um convite para que a comunidade mantenha um diálogo e comunhão com Deus, na espera da segunda vinda gloriosa de Cristo, e, com ela, a vida nova a nós reservada.

Deste modo, a comunidade precisará estar atenta e orante, a fim de que seja fiel ao Evangelho e anuncie a todos a Boa-Nova da Salvação, rezando também uns pelos outros:

“O cristão nunca é uma pessoa isolada, mas o membro de uma família de irmãos, chamados a viver no amor, na partilha, na entrega da vida, como membros de um único corpo – o Corpo de Cristo”. (2)

Na espera da segunda vinda do Senhor, a comunidade viverá o processo de salvação em dois planos: o primeiro de que a Salvação é dom de Deus, e o segundo exige esforço de fidelidade de todos nós.

Reflitamos:

– Temos consciência e que nossas vitórias e conquistas não se devem apenas de nossos esforços, méritos e qualidades, mas como expressão da graça e bondade divinas?

– Como estamos preparando a segunda vinda gloriosa do Senhor?

– Qual a profundidade e intensidade de nossa oração e confiança na força divina?

– Como enfrentamos medo e desânimo na missão evangelizadora?

– rezamos uns pelos outros em expressão de comunhão e solidariedade?

Com a passagem do Evangelho de Lucas (Lc 20,27-38), refletimos sobre a ressurreição e a realidade última que nos espera nos céus.

A passagem retrata os últimos dias antes da morte de Jesus, e as grandes controvérsias d’Ele com as autoridades judaicas. Neste caso, trata-se dos saduceus que formavam um grupo aristocrático, recrutado entre os sacerdotes da classe superior.

Conservadores, enquanto política, e de bom entendimento com a dominação romana; de modo que pretendiam manter a situação, para não ver comprometidos os benefícios políticos, sociais e econômicos que desfrutavam.

Apoiando-se na “Torah”, não aceitavam a ressurreição dos mortos. A questão colocada para Jesus tinha como objetivo a ridicularização da crença na ressurreição e do próprio Jesus.

Não se trata de pensar a vida eterna com as categorias que marcam a nossa existência finita e limitada; a existência de ressuscitado é plena, total e nova. Como será não pode ser descrita, mas, no horizonte de quem crê, encontra-se a Ressurreição:

“A nossa capacidade de compreensão deste mistério é limitada, pois estamos a contemplar as coisas e classificá-las à luz das nossas realidades terrenas; no entanto, a ressurreição que nos espera ultrapassa totalmente a nossa realidade terrena” (2)

Na segunda parte da resposta, remetendo-se ao Livro do Êxodo, Jesus fala que o Deus, a quem se deve amar e servir, é o Deus dos vivos e não dos mortos, e todos devem viver para Ele (Lc 20,37-38).
Deste modo, após a morte, nos encontraremos com o Deus vivo; e assim, a ressurreição é a esperança que dá sentido a toda a caminhada do cristão.

A fé cristã torna a esperança da ressurreição uma certeza absoluta, pois Cristo ressuscitou, e quem com Ele se identificar, nascerá com Ele para a vida nova e definitiva:

“A ressurreição não é a revivificação dos nossos corpos e a continuação da vida que vivemos neste mundo; mas a passagem para vida nova onde, sem deixarmos de ser nós próprios, seremos totalmente outros… É a plenitudização de todas as nossas capacidades, a meta final do nosso crescimento, a realização da utopia da vida plena” (3).

Urge caminhar, confiantes e alegres, rumo à nova realidade, ainda que tenhamos as dificuldades, sofrimentos, dores… A fé na Ressurreição nos dá coragem para enfrentarmos as forças da morte que dominam o mundo, convictos de que cada ser humano que vem ao mundo é, verdadeiramente, “um pedaço de eternidade”:

“Cada ser humano será para sempre ‘ele’ e não um outro. Cada ser humano viverá para sempre, enraizado no amor eterno de Deus. Pela Sua ressurreição, Jesus abri-nos o caminho da nossa própria vida em plenitude em Deus.

A fé na Ressurreição e o enraizamento no amor de Deus nos credencia para o bom combate, e nos prepara para a glória futura, na espera do Senhor que veio, vem e virá, gloriosamente” (4).

Renovemos nossa coragem e fidelidade aos planos de Deus, movidos pelas verdades de nossa fé que professamos ao rezar o Credo nas Missas e celebrações:

“Creio em Deus-Pai, todo-poderoso…”

+ Dom Otacilio Ferreira de Lacerda – Bispo Diocesano de Guanhães.

Fonte de pesquisa e citações (1) (2) (3) (4): www.dehonianos.org

A DOR DA SAUDADE

Há dores que podem ser aliviadas ou até mesmo evitadas;

Desnecessário nominá-las, pois bem as conhecemos.

Há, porém, dores que não têm como serem evitadas.

Uma delas, a mais cortante de todas: a dor da ausência.

Dor da ausência tão forte que nos consome vorazmente

A da ausência de quem partiu, sempre cedo demais.

Cedo demais, que não se explica pelo tempo pouco vivido,

Cedo demais, porque nunca preparados estamos.

Queremos que esteja sempre ao nosso lado quem amamos,

Mas todos partem; todos um dia partimos, inexoravelmente.

Ó dor suprema da ausência, que corta a alma de quem ama

Como navalha cortante, como que sangrando ininterruptamente.

Dor que sentimos quando ao despedir sem despedir

Porque não irá, quem no coração lugar especial ocupou.

Parte para o horizonte da eternidade, que cremos ser o céu,

Onde os que perseveram no Amor de Deus vivem para sempre.

Partem, mas ficam no espaço estreito e apertado do peito;

Serão inevitáveis as lembranças, a saudade, o santo desejo…

Santo desejo de um dia na outra margem também nos encontramos.

A dor da saudade enfim curada, porque como Anjos reencontrados.

E, na plenitude do amor, também envolvidos e acolhidos,

Já não há mais dor, nem luto, nem lágrimas, nem morte nem pranto.

Morte de quem amamos é assim: o dia do nascimento para quem parte,

O dia do outro nascimento para quem fica: a dor da saudade.

É ela, uma dor que nos consome e nos consumirá,

Diretamente proporcional ao amor vivido, silenciosamente crescerá…

Que a fé na Ressurreição, que a Palavra do Senhor nos console, pois

Para os que n’Ele creem e vivem para sempre viverão.

Ele também partiu e conosco está: moradas para quem partiu,

Para nós que também partiremos, foi nos preparar. Aleluia.

Postado por Dom Otacilio F. Lacerda  em

https://peotacilio.blogspot.com/2019/11/a-dor-da-saudade.html

Catequese permanente, frutos abundantes

O tema da iniciação à vida cristã e a necessária catequese permanente, que nos possibilita um crescimento constante mais do que desejável, é de extrema pertinência.

Sabemos, porém, que o caminho de fé feito pela comunidade tem momentos diversos, como nos ilumina as palavras do Apóstolo Paulo aos Romanos:

”Nós nos gloriamos também nas tribulações, sabendo que a tribulação produz a perseverança, a perseverança a virtude comprovada, e a virtude comprovada a esperança. E a esperança não decepciona porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Rm 5,3-5).

Urge buscar novos caminhos de evangelização, sobretudo para a desafiante realidade da família, que deve estar inserida num processo permanente de formação catequética.

Ainda que muitas sejam as dificuldades, mas não podemos esmorecer. Tribulações suportadas, e enfrentadas na perseverança, acompanhada da esperança, um novo horizonte para a família e para o mundo é possível, porque o amor de Deus é sempre derramado abundantemente em nossos corações pelo Espírito Santo que anima e conduz à Sua Igreja.

Em comunhão com a Igreja do Brasil, cremos que a família é local privilegiado para que se incentive a iniciação à vida cristã, como muito bem expressa as Diretrizes da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil (Doc. 94, n 40):

“Há um grande desafio que questiona a fundo a maneira como estamos educando na fé e como estamos alimentando a experiência cristã. Trata-se, portanto, de desenvolver, em nossas comunidades, um processo de iniciação à vida cristã que conduza a um encontro pessoal, cada vez maior com Jesus Cristo […] É preciso ajudar as pessoas a conhecer Jesus Cristo, fascinar-se por Ele e optar por segui-Lo”.

Neste processo de catequese permanente é preciso que a família seja, de fato, o santuário da vida, e nela tenhamos momentos fecundos de silêncio orante para que escutemos e façamos a Palavra florescer.

Quanto mais verdadeiro for nosso encontro com o Senhor, e quanto maior for nosso fascínio por Ele, maior será nosso empenho, dedicação e busca de caminhos, para que continuemos lançando as sementes do novo de Deus, que é sempre o melhor que está por vir.

Sentindo-nos amados por Deus Uno e Trino, fonte inesgotável de Amor, maior necessidade de  sentiremos de corresponder ao Seu Amor.

De fato, amor exige amor, e amor fiel, que suporta as tribulações na perseverança, com a semente da esperança germinada com amor e fé.

Postado por Dom Otacilio F. Lacerda

https://peotacilio.blogspot.com/2019/10/catequese-permanente-frutos-abundantes.html

” Senhor, fazei de nós instrumentos da Vossa paz…”

“Senhor, fazei de nós instrumentos da Vossa paz…”

Retomemos a oração conclusiva da Mensagem do Papa Francisco,  para o 52º Dia Mundial das Comunicações Sociais, que teve como Lema “A verdade vos tornará livres” (Jo 8, 32), e como tema: – “Fake news e jornalismo de paz”. 

Inspirada na conhecida oração franciscana:

“Senhor, fazei de nós instrumentos da Vossa paz.

Fazei-nos reconhecer o mal que se insinua em uma comunicação que não cria comunhão.

Tornai-nos capazes de tirar o veneno dos nossos juízos.

Ajudai-nos a falar dos outros como de irmãos e irmãs.

Vós sois fiel e digno de confiança;

fazei que as nossas palavras sejam sementes de bem para o mundo:

onde houver rumor, fazei que pratiquemos a escuta;

onde houver confusão, fazei que inspiremos harmonia;

onde houver ambiguidade, fazei que levemos clareza;

onde houver exclusão, fazei que levemos partilha;

onde houver sensacionalismo, fazei que usemos sobriedade;

onde houver superficialidade, 
fazei que ponhamos interrogativos verdadeiros;

onde houver preconceitos, fazei que despertemos confiança;

onde houver agressividade, fazei que levemos respeito;

onde houver falsidade, fazei que levemos verdade. Amém.”

PS: Acesse, se desejar, e leia a mensagem na integra:

https://w2.vatican.va/content/francesco/pt/messages/communications/documents/papa-francesco_20180124_messaggio-comunicazioni-sociali.html

Ela veio trazendo vida

 

Com o Cântico de Daniel, louvemos o Senhor:

“Águas do alto céu, bendizei o Senhor!

Potências do Senhor, bendizei o Senhor!

Lua e sol, bendizei o Senhor!

Astros e estrelas bendizei o Senhor!

Chuvas e orvalhos, bendizei o Senhor!”  (Dan 3,60-64)

 

Foram, aproximadamente, cento e cinquenta pores do sol sem a sua presença.

Era por todos tão esperada, que parecia não vir mais.

No entanto, ela veio no meio do dia, timidamente, logo cessou.

E neste momento, como que para não afugentá-la,

Silêncio e Contemplação, atitudes que foram despertadas.

 

De repente, surpreendentemente, veio bem mais forte,

Ainda que por um tempo breve, bem mais densa,

Densa o bastante para arrancar um sorriso de contentamento,

Pois de tão esperada, parecia convidar a uma dança;

A todos convidava, e não houve quem ousasse reclamar.

 

Cessou novamente, bem mais rápido que o desejado.

Porém, ao virar das horas de um novo dia, ela volta suavemente.

Escutamos sobre nossos telhados, algo que há muito não ouvíamos,

No recolhimento do quarto, para as energias revigorar,

Um sono banhado com a tão esperada e necessária chuva.

 

Novo dia, o sol desponta, e numa manhã como há muito não se via

As ruas, guias e sarjetas escoavam a tão preciosa água da chuva:

Árvores, gramas, flores e toda a natureza, sendo agraciada,

Acompanhada pela alegre sinfonia dos pássaros,

Que, com canto e voos, celebram sua chegada.

 

Vinde, bendita chuva, regar campos, vales e cidades.

Represas e reservatórios, já ameaçam os últimos suspiros;

Torneiras secas, queimadas multiplicadas, insuportável umidade do ar.

Imunidades de todos nós no limite, agora tende a se recuperar.

Vinde, bendita chuva, como graça que vem do alto.

 

Vinde, bendita chuva, chorar no rosto dos muros.

Vinde correr mais ainda pelas guias e sarjetas,

Vinde, bendita chuva, para a fertilidade do campo;

Flores, frutos saborosos, em mesas fartas termos;

Fim de queimadas, o verde renascendo das cinzas.

 

Vinde, bendita chuva! Se escassa, não por culpa divina,

Mas devido à intervenção inconsequente,

Na Amazônia e em tantos outros lugares.

Pagamos o preço pelo absurdo abuso.

É tempo de novas posturas, necessária conversão.

Vinde, bendita chuva, que traz consigo um sinal para nós:

Repensar nossas atitudes de consumo da água,

Bem sagrado por Deus a nós confiado;

Reutilizá-la, reduzir o consumo, urge reaprender.

Páginas de ecologia integral, aprendamos a escrever.

                                                                          Vinde, bendita chuva!

 

 

 

 

 

 

 

 

Postado por Dom Otacilio F. Lacerda

Quanto mais próximos do Altar, maior será a exigência de Deus para conosco! (Homilia – 30° Domingo do Tempo Comum)

Quanto mais próximos do Altar, maior será a exigência de Deus para conosco!

Com a Liturgia do 30º Domingo do Tempo Comum (Ano C), refletimos sobre a nossa proximidade com o Altar e as exigências próprias no quotidiano, e também a nossa responsabilidade diante de Deus e da Comunidade.

A vivência da verdadeira religião consiste na fidelidade aos preceitos divinos, na defesa da vida, preferencialmente a defesa dos empobrecidos.

Contemplamos na Sagrada Escritura que Deus está sempre pronto para escutar e intervir na defesa dos empobrecidos, e por isto, a oração destes chega sempre aos Seus ouvidos e não fica sem resposta (1ª leitura – Eclo 35,15b-17.20-22a).

A proximidade do Altar pede confiança, generosidade, gratuidade, simplicidade, coerência e entrega da própria vida no bom combate da fé, como fez o Apóstolo Paulo (2ª Leitura – 2Tm 4,6- 8.16-18).

Trilhando com coragem o caminho da fé e do discipulado, Paulo tornou-se para nós modelo de crente, que nos leva a duas atitudes: reconhecimento dos nossos próprios limites e a confiança na misericórdia divina contra toda autossuficiência.

Na Parábola, da passagem do evangelho (Lc 18,9-14), Jesus revela o rosto misericordioso de Deus, por aqueles que se reconhecem pecadores, de modo que a humildade acompanhada da confiança na misericórdia de Deus nos permite ser melhores – Deus não Se preocupa tanto com nossos pecados, mas com a autenticidade de nossa amizade com Ele. Quanto mais amigos de Deus formos, menos pecadores o seremos!

 “Tende compaixão de mim porque sou pecador” (Lc 18,9-14) há de ser nossa súplica diante de Deus. De modo poético, diz Santo Agostinho, referindo-se se ao pecador público nesta passagem mencionada: “… o remorso o afastava, mas a piedade o aproximava; o remorso o rebaixava; mas a esperança o elevava”.

Se de um lado o remorso sincero dos pecados rebaixa, por outro nos aproxima e nos eleva. Lição tão difícil de aprendermos, porém indispensável…

Aprendemos que não podemos nos colocar em relação ao outro como melhor, superior, perfeito… A atitude de pequenez, para que se possa ser justificado e alcançar a misericórdia, o amor e a bondade de Deus é mais do que desejável.

No Missal Dominical, encontramos uma questionadora afirmação:

“Hoje a suficiência farisaica não é mais a observância de uma lei: toma outro nome. Em muitos ela é a convicção de que o homem pode salvar-se como homem, apelando unicamente para os seus recursos.

O homem salva o homem mediante a ciência, a política, a arte… é por isso mais do que nunca necessário que os cristãos anunciem ao mundo Cristo como Salvador. A Salvação que Ele traz não se opõe a salvação humana, mas a conduz à plenitude.

Com a celebração dos Sacramentos, especialmente da Eucaristia, os cristãos dão testemunho da necessidade da intervenção divina na vida do homem, põem-se sob a ação do Deus presente, com Seu Espírito, e fazem a experiência privilegiada da justificação obtida mediante a fé em Jesus Cristo.

Devem, por isso, estar continuamente vigilantes para não participarem dos Sacramentos com espírito farisaico”.

A proximidade do Altar significa proximidade com Deus?

Não necessariamente, e aqui o perigo que a Parábola revela.

Uma boa dose dos sentimentos do publicano, nos levará a menor farisaísmo e orações mais autênticas que agradarão ao Senhor.

Firmemos os passos na caminhada de fé, no “bom combate da fé”, alimentados pela verdadeira atitude orante, na certeza de que Jesus caminha ao nosso lado e a glória de Deus é elevada sinceramente quando não separamos o culto da vida.

Concluindo:

Quanto mais próximos do Altar,

maior será a exigência de Deus para conosco!

+ Dom Otacilio Ferreira de Lacerda – Bispo da Diocese de Guanhães.

A oração não dispensa compromissos

As mãos que elevamos aos céus

são as mesmas que na terra estendemos ao outro…

A Liturgia do 29º Domingo do Tempo Comum (Ano C) nos convida a refletir sobre a verdadeira Oração, que consiste uma relação estreita e íntima com Deus, num diálogo intenso e insistente.

A Oração, deste modo, leva-nos à compreensão do silêncio de Deus, respeito ao Seu ritmo, que não necessariamente é o nosso e, sobretudo, nos leva ao crescimento no Seu Amor.

Na primeira Leitura, ouvimos uma passagem do Livro do Êxodo (Ex 17, 8-13a) em que o autor nos apresenta uma belíssima catequese sobre a Oração como força em nossa luta quotidiana.

A Oração de Moisés é a grande intercessão em favor do povo hebreu contra os amalecitas. Enquanto Moisés mantém as mãos levantadas, há a vantagem sobre os inimigos, mas quando vencido pelo cansaço, suas mãos se abaixam, os inimigos dominam.

A Oração é importante, e deve ser perseverante, persistente. Por isto, Aarão e Hur, ao lado de Moisés, amparam-lhe as mãos e assim os hebreus vencem os inimigos.

De fato, a libertação pressupõe a Oração de Moisés e a intervenção de Deus, mas não dispensa a ação do povo. A mensagem catequética é explícita: a libertação se deve mais à ação de Deus do que aos esforços do Povo.

Deus não cruza os braços no processo de libertação do Seu Povo e a Oração se torna a grande força para o combate e a vitória:

“A conquista é dom de Deus. Se o Povo de Deus reza e confia no Senhor, o próprio Senhor combate e vence; se o Povo de Deus se apoia apenas suas forças é derrotado” (1)

Na passagem da segunda Leitura (2 Tm 3,14-4,2), aprofundamos sobre a importância da Palavra de Deus como fonte privilegiada de Oração.

O texto foi escrito para as comunidades que viviam um contexto de perseguição, da falta do entusiasmo. Era mais do que necessário a redescoberta deste entusiasmo pelo Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Era preciso retomar a fidelidade à doutrina, como grande herança dos Apóstolos, que é acompanhada pela fidelidade às Escrituras, fonte de formação e educação cristã, tornando o discípulo mais configurado ao Senhor.

Paulo exorta a uma proclamação da Palavra sem medo, sem pudores e com entusiasmo. Palavra que é oportuna para ensinar, persuadir, corrigir e formar.

Reflitamos sobre o lugar da Palavra de Deus em nossa vida, como a valorizamos e que formação procuramos para melhor compreendê-la e melhor vivê-la.

–  Preparamo-nos para bem proclamá-la, acolhê-la e vivê-la?

Na passagem do Evangelho (Lc 18,1-8), Jesus, a caminho de Jerusalém, nos exorta à prática da verdadeira Oração, como diálogo contínuo e perseverante e que nos leva à abertura do coração ao Projeto de Salvação.

Muitas são as inquietações que nos cercam em todos os âmbitos (pessoal, familiar, comunitário e social, mundial…). Por vezes não entendemos o “silêncio de Deus”. Mas aqui a grande notícia: Deus não é indiferente aos nossos sofrimentos. Porém, é preciso uma Oração feita com paciência e com perseverança, até que o Projeto de Deus se cumpra.

A Oração é sempre o momento em que nos colocamos diante de Deus, para reencontrarmos forças para perseverarmos no caminho do encontro de Seu Amor; é o abastecer para acolher e realizar, com coragem e entusiasmo, o Projeto de Salvação que Deus tem para nós.

Quando nos envolvemos pelo Amor de Deus, sabemos esperar em Sua aparente ausência, que é a mais verdadeira presença.

A Oração há de ser sempre uma atitude que brota da fé em Deus, na confiança e na perseverança. Rezarmos sempre, sem nos desencorajarmos, com a certeza de que Deus nos escuta depressa, sem tardar.

Se Deus não nos atende pode ser porque não pedimos o necessário, e nossa Oração não está devidamente sintonizada com o Seu Projeto de Vida e Salvação.

Na Parábola, vemos que “Não corresponde ao estilo de Jesus Cristo um ensinamento que induz o discípulo a forçar a vontade de Deus, para O fazer mudar de ideias e obrigá-Lo a fazer aquilo que o homem quer! Pelo contrário, a Parábola é provocatória e, para compreendermos bem, temos de entender a inversão de perspectiva”  (2)

Importante dizer que Oração não é transferência de responsabilidade para Deus. Deus fará o que a nós é impossível, e jamais nos dispensará de sinceros compromissos para que a graça seja alcançada.

“Como para Israel no deserto, também na nossa vida se trata de combater contra um adversário poderoso, que não pode ser vencido apenas com as nossas forças humanas.

A Oração constante e convicta, é sinal de quem confia na ajuda divina, ‘levanta as mãos’ (Ex 17,11) e clama continuamente (cf. Lc 18,7), tirando proveito da Palavra que escutou, convencido de que pode realizar-se.” (3)

Quando orarmos pela paz, nos empenhemos pela paz. Quando orarmos pelos pobres, multipliquemos gestos de solidariedade para com os mesmos. Quando orarmos pela paz na família, façamos sincera revisão de nossas atitudes que venham a ferir esta paz.

Toda Oração que elevamos aos céus, nos compromete, imediatamente com Deus, com o outro e conosco mesmos.

Reflitamos:

–    O que é Oração?

–    Como e para que a Oração?

–    Quais são as pessoas que nos ensinam a beleza da oração em nossa vida?

–    O que precisamos fazer para redescobrir o gosto, a beleza e a força da Oração?

–    Quais são os conteúdos de nossas Orações?

–    O que a Oração repercute em nossa vida?

Há ainda uma questão última fundamental, para nos ajudar na necessária conversão para que melhores discípulos missionários do Senhor sejamos:

“O problema, então, está na fé; temo-la, esta fé? Isto é, temos a atitude crente e confiante, para desejar fortemente aquilo que é conforme ao projeto de Deus?” (4)

(1) Lecionário Comentado – pág. 600

(2) Idem – pág. 602

(3) (4) Idem – pág. 603

Postado por Dom Otacilio F. Lacerda

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