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Somos luzes! Eu sou luz! Você é luz!

A compreensão exata do ser quem somos poderia levar o mundo a outro patamar de existência. Fazemos aquilo do que acreditamos ser capazes e o mundo nada mais é que um reflexo do cremos ser capazes de fazer.

Todos os que conseguiram qualquer vitória, de qualquer tamanho, o fizeram primeiro em suas mentes, acreditando. Sonhar não concretiza objetivos, mas acreditar, sim. Quem sonha espera, quem acredita des-espera e faz. Traça metas, elenca tarefas.

Que aconteceria – conosco e com o mundo inteiro! – se todos decidíssemos acreditar nas palavras de Jesus?:
“Vós sois a luz do mundo; não se pode esconder uma cidade edificada sobre um monte; Nem se acende a candeia e se coloca debaixo do alqueire, mas no velador, e dá luz a todos que estão na casa. Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai, que está nos céus”.

Se acreditamos em algumas palavras de Jesus, como a de que somos filhos de Deus (Jo 1, 12-13); a de que comemos seu corpo quando partimos o pão na Eucaristia (Mt 26, 26) e tantas outras informações bíblicas, porque não acreditamos que, de fato, nós somos luz? Somos oriundos da luz e como poderia provir da luz algo que não fosse luz? Somos filhos do amor? Como poderia ter origem no amor algo que não fosse amor?

É preciso parar de fugir daquilo que essencialmente somos e passar a aceitar esse dom maior que é o de sermos muito melhores do aparentamos ser. É preciso deixar que os raios maravilhosos da amorosidade brotem de nossos poros e façam bem a todos. Deixemos gotas de delicadeza, gentileza e bondade escorrem por nossa pele.
Somos luzes! Eu sou luz! Você é luz! Ilumine! Iluminemos! Iluminemos todos os mundos possíveis – a família, o trabalho, a escola, a política, o esporte…TODOS! – para que o mundo em que vivemos também seja iluminado.

Abraço de bom dia. Viaja comigo nessa viagem no dia da assunção de Nossa Senhora. Maria foi assumida por Deus, mas antes ela mesma assumiu ser divina. Aceite ser divino você também.

Lafaiete Marques Ciara

A vigilância e a espera ativa

(Homilia 19º DTCC)

A vigilância e a espera ativa

Com a Liturgia do 19º Domingo do Tempo Comum (Ano C), refletimos sobre a vigilância, a pobreza e a busca da verdadeira sabedoria para vivermos a vocação, como discípulos missionários do Senhor.

A primeira Leitura (Sb 18,6-9) retrata o primeiro século, e o autor tem a preocupação da manutenção da firmeza e pureza da fé judaica. A comunidade deve ser vigilante, discernindo entre os valores efêmeros e os valores duradouros.

Se a comunidade viver a fidelidade a Javé, terá assegurada a liberdade e a paz. Inevitavelmente o alcance da felicidade passa pelo caminho da fidelidade aos propósitos de Deus, e se faz necessária uma busca atenta. Vigiar, portanto, é “fazer exatamente o que Deus quer de cada um de nós”.

Na segunda Leitura (Hb 11,1-2;8-19), o autor dirigindo-se à comunidade, marcada pelo cansaço, tédio, desinteresse e perda da generosidade inicial, apresenta Abraão e Sara como modelos de fé para todo aquele que crê, independentemente de época.

É preciso aprofundar a vocação e não ceder ao desalento, ao retrocesso, à acomodação. A Carta é um estímulo, uma revitalização da experiência de fé. É preciso manter vivos os aspectos básicos da vida cristã: a fé e a  perseverança.

Caminhar com fé, não obstante a nossa finitude, nossas limitações, nossos momentos difíceis, nosso pecado. Viver a fé apontando para a vida plena que Deus prometeu para quem com Ele caminha e vai ao Seu encontro. Ao mesmo tempo em que com Ele caminhamos, vamos ao Seu encontro como peregrinos.

Nem tanta euforia sem fundamento, tão pouco o desânimo total, será a vida daquele que a fé professa.

Na passagem do Evangelho (Lc 12,32-48), Jesus alerta aos discípulos sobre a necessária vigilância, acolhendo os dons de Deus, para que sejam solícitos em responder aos Seus apelos, empenhando-se decididamente na construção do Reino.

É preciso estar sempre vigilante a espera da vinda do Senhor. Comprometer-se com a construção do Seu Reino deve se constituir no nosso verdadeiro tesouro.

Viver na pobreza, que não é sinônimo de miséria. A pobreza consiste no despojamento para que nos tornemos disponíveis e acolhedores do dom de Deus, para nos colocarmos solidariamente em favor daqueles que nada têm.

As três Parábolas nos convidam à vigilância, porque é incerta a hora em que o Senhor virá. E enquanto isto a melhor atitude é nos colocarmos a serviço da comunidade.

Evidentemente, quanto maior a confiança depositada, maior será a responsabilidade diante de Deus e a cobrança que Ele nos fará.

Não nos é permitido distração, mas constante vigilância ativa. Ser cristão as vinte e quatro horas do dia.

Questionemo-nos:

–  De que modo vivemos a vigilância?

–  O que Abraão e Sara têm a nos ensinar para vivermos a fé hoje?

–  Qual é o nosso tesouro?

–  Quais são os valores que motivam a nossa vida?

–  Somos capazes de arriscar tudo pelo Reino de Deus?

–  Como exercemos, na Igreja, os ministérios e serviços que nos são confiados?

–  Como testemunhamos a Sabedoria Divina para que sejamos, de fato, luz do mundo?

Concluindo, rezemos para que sejamos enriquecidos pela Sabedoria Divina, e de modo especial, por todos pais e mães para que eduquem os filhos e filhas na fé, como seus primeiros catequistas. Não lhes faltem ousadia, confiança, compromisso, solidariedade, fé, esperança e caridade.

Que nossos pais, e todos nós não tenhamos medo, como pequeninos do rebanho do Senhor, pois o caminho a ser trilhado é desafiador, mas não podemos desistir. Somente assim irradiaremos a única Luz da fé que penetra e transforma toda realidade, como nos exortou o Papa Francisco em sua Encíclica “Lumen Fidei”.

+ Dom Otacilio Ferreira de Lacerda – Bispo eleito de Guanhães.

“Buscai as coisas do alto” – (Homilia do 18º Domingo do Tempo Comum – Ano C)

A Liturgia do 18º Domingo do Tempo Comum (Ano C) nos convida a refletir sobre nossa atitude frente aos bens deste mundo. Não podemos fazer deles deuses, a tal ponto de determinar nossa vida. É preciso usar as coisas que passam e abraçar as que não passam, as coisas do alto, as coisas celestiais e não as terrenas.

A passagem da primeira Leitura nos apresenta uma passagem do Livro do Eclesiastes (1,2; 2,21-23) que, por seu caráter sapiencial, nos faz pensar, rever nossa conduta, questionando nossas falsas seguranças e saberes:

“Não é um Livro onde se vão procurar respostas, mas onde se denuncia o fracasso da sabedoria tradicional e onde ecoa o grito de angústia de uma humanidade ferida e perdida, que não compreende a razão de viver”. (1)

A mensagem é explícita: somente Deus dá sentido à nossa existência. A vida somente pelos bens materiais conduz à falência, quem vive por si e para si não encontra saída e sentido para sua vida. É preciso o humilde reconhecimento de nossa impotência diante da onipotência divina, que se manifesta como misericórdia, amor, bondade, alegria, vida e paz.

Não podemos colocar a nossa esperança em coisas falíveis e passageiras: “A nossa caminhada nesta terra está, na verdade, cheia de limitações, de desilusões, de imperfeições; mas nós sabemos que esta vida caminha para a sua realização plena, para a vida eterna: só aí encontraremos o sentido pleno do nosso ser e da nossa existência”. (2)

A passagem da segunda Leitura é mais uma passagem da Carta de Paulo aos Colossenses (Cl 3,1-5.9-11) que nos convida, como homens novos pelo Batismo, a abandonar os falsos deuses, identificando-nos com Cristo que nos basta para a nossa Salvação.

A comunhão vivida entre nós com o Cristo Ressuscitado exige que tenhamos esta identificação, como o próprio Paulo dirá em outra passagem aos Gálatas – “eu vivo, mas não eu, é Cristo que vive em mim “(Gl 2, 20) e aos Filipenses –“Tenhamos em nós os mesmos sentimentos e pensamentos de Cristo Jesus “ (Fl 2,10). E nisto consiste buscar as coisas do alto, as coisas celestiais.

Vivendo o Batismo, renascemos a cada dia como homem novo, e assim verão Cristo em nós. O batizado revela a face de Cristo para o mundo, por seus pensamentos, palavras e ação.

A passagem do Evangelho (Lc 12,13-21) nos apresenta a “Parábola do rico insensato”, cuja mensagem é essencial para nossa vida: o perigo de uma vida voltada apenas para os bens materiais.

Jesus não é contra a riqueza, e tão pouco contra o progresso e o crescimento do nível de vida. O perigo é torna-se rico para si mesmo tão apenas, deixando-se aprisionar pelo dinheiro. A vida de uma pessoa e o seu valor real não são medidos por suas riquezas.

A lógica do Reino é diferente da lógica do mundo – é preciso usar as coisas e não ser usado por elas. O acúmulo de bens sempre pode levar ao esquecimento do outro, inclusive de Deus, da família, dos irmãos da comunidade…

A ambição e o egoísmo esvaziam o coração humano do essencial e, deste modo, é preenchido daquilo que não lhe dá sentido, incorrendo num consumismo com consequências empobrecedoras, tornando-nos escravos da lógica do lucro que escraviza e não nos faz verdadeiramente felizes.

A ânsia da ascensão social pode conduzir ao declínio, ao esvaziamento, ao desmoronamento da vida pessoal e da própria família, de todos com os quais se convive.

Em nome do acumular cada vez mais, quantas famílias são sacrificadas e privadas do mínimo essencial para sua dignidade e felicidade! É o perigo da deificação da riqueza, tornar os bens como deuses (aqui a idolatria encontra campo fértil). É preciso tomar cuidado com os falsos deuses não deixando que o acessório, o transitório nos distraia e nos afaste do fundamental para a nossa vida.

Concluindo, é preciso que nos libertemos deste desejo de acumulação que nos torna cegos e indiferentes às necessidades do outro, e abramos horizontes na perspectiva da partilha e da solidariedade, do desapego e da liberdade diante das coisas terrenas, pautando a nossa vida pelos valores eternos que jamais passam.

Reflitamos:

– Quais são as nossas falsas e verdadeiras riquezas?

– De quais devemos nos esvaziar?

– De que modo avaliamos a nossa vida, ou seja, atrás do que corremos, nos consumimos?

– De que modo trabalhamos sem a perda do sentido da vida?

– O que nos preenche e nos dá alegria?

Concluo citando mais uma vez Santa Teresa D’Avila e Santa Teresa dos Andes, respectivamente:

“Nada te perturbe, nada te espante, tudo passa, Deus não muda, a paciência tudo alcança; quem a Deus tem nada lhe falta: só Deus basta.”

“Só Deus nos basta para sermos felizes. Apalpo a cada instante o que é ser toda de Deus e parece-me que, se agora me fosse necessário passar pelo fogo para consagrar-me a Ele, não titubearia em fazê-lo, pois todos os sacrifícios desaparecem diante da felicidade de possuir a Deus só”.

(1) cf. www.dehonianos.org.br

(2) Idem.

Dom Otacilio Ferreira de Lacerda – Bispo eleito para a Diocese de Guanhães

FORMAÇÃO PRESBITERAL E A BUSCA DA FELICIDADE

FORMAÇÃO PRESBITERAL E A BUSCA DA FELICIDADE

Encontrei a Felicidade e ela me encontrou: quando eu andava na escuridão. A VERDADE me amou para que eu pudesse amá-la e entender os seus mistérios. Tal VERDADE me conduz à felicidade e me move em meio às diversidades situacionais. (Anderson Alves).

Na caminhada de formação presbiteral deparamo-nos com várias pessoas e também, com diferentes ideologias. A partir do mandato de Jesus: “Ide!”, somos convidados a uma meditação que provocará em nós uma revisão de vida. Desta reflexão, brota a necessidade de seguir sempre, de palmilhar os tortuosos caminhos, de anunciar sempre, de bradar aos quatro cantos a Boa Nova de Cristo Jesus Nosso Senhor. Para que este ato missionário surta efeitos, dê bons frutos, é imprescindível que estejamos de acordo com os desígnios de Deus, que é princípio e autor da Felicidade.

Sendo assim, a Igreja nos orienta através do novo documento para a formação presbiteral Ratio Fundamentalis, que o seminarista deve ser formado nas seguintes dimensões: Humana, Intelectual, Espiritual e Pastoral. A formação presbiteral se distingue duas fases: Inicial e Permanente. A Fase inicial está articulada em quatro etapas: Propedêutico, Filosofia, Teologia e Pastoral.

Na etapa inicial da formação os estudos filosóficos e teológicos não são os únicos a serem avaliados no caminho já percorrido pelo vocacionado ao ministério ordenado. Pois, cada etapa contribui para o crescimento vocacional. O período formativo é um tempo de prova, amadurecimento e sobretudo de discernimento, para assim conseguir chegar ao ministério ordenado de maneira convicta e feliz.

Já a formação permanente é um longo caminho em que o presbítero vai se configurando a Cristo Jesus: acolher os pequeninos, dispensar os sacramentos, acolher e escutar a todos, zelar pela vida espiritual da porção do povo de Deus à ele confiado. A partir dessa configuração o presbítero é convidado a se entregar cotidianamente e ajustar o seu ser inteiramente ao ser do Bom Mestre de Nazaré que é Cabeça, Pastor, Servo e Esposo da Santa Igreja.

Na conversão de Santo Agostinho, modelo para todo presbítero, percebe-se que a perseverança e a inquietação sempre fizeram parte do seu percurso vocacional. Em nossa caminhada de discernimento não é diferente, buscamos sempre a felicidade e a realização pessoal, que nos provoca inquietações. Porém, esse inquietar-se não deve se restringir apenas ao tempo de Seminário, ao tempo de formação, deve se estender por todo o tempo, por toda a vida. A ordenação, imposição das mãos do Bispo, não é como um passe de mágica que transforma e apaga no neo-sacerdote as fraquezas, as dúvidas, as incertezas, os vícios, ela confere sim poder que homem nenhum tem sobre a terra, parafraseando Santo Ambrósio “a dignidade do padre sobreleva à dos reis como o ouro ao chumbo.” É preciso que o presbítero esteja sempre com o coração ardendo de amor por Cristo Jesus, nossa Felicidade. Para alcançar a Felicidade e a realização pessoal é necessário curvarmos, num ato de humilhação, sempre nos voltarmos para Deus, suplicar seu patrocínio, suplicar sua graça, implorar pelo seu perdão e é imprescindível, que diariamente o padre se digne a dar o seu SIM a Deus.

Tomemos novamente como exemplo Santo Agostinho, que nos desperta na caminhada vocacional com seu exemplo de vida, principalmente na etapa inicial de nossa formação, que exige de nós disciplina para crescermos na fortaleza, no ânimo e nas virtudes humanas, para assim atingirmos uma sólida maturidade e sermos felizes na vocação ao ministério ordenado.

Ao direcionar nossa atenção para a essência humana, nos deparamos com uma infindável carência, uma busca constante, uma infelicidade profunda, pois o homem só confia em si próprio, a sua esperança está depositada sobre si mesmo. O homem retirou Deus de sua vida e se colocou no lugar d’Ele. O homem é seu próprio deus. O antropocentrismo impera!

Sendo assim, o processo de conversão é de máxima importância. Pois somente no inclinar-se para Deus conseguiremos a realização completa, pelo qual não tem outro caminho que o ser humano possa encontrar a satisfação de suas aspirações mais profundas. Deus não se impõe, Ele deixa os homens livres para que vá ao Seu encontro. Se deixando encontrar por aqueles que o procuram de coração sincero. Em Santo Agostinho, Deus é o princípio de tudo, e em nossa caminhada vocacional também temos que ter Deus como princípio norteador. Em Confissões, exterioriza isso muito bem:

“Eu nada seria, meu Deus, nada seria em absoluto se não estivesses em mim; talvez seria melhor dizer que eu não existiria de modo algum se não estivesse em ti, de quem, por quem e em quem existem todas as coisas? Assim é, Senhor, assim é. Como, pois, posso chamar-te se já estou em ti, ou de onde hás de vir a mim, ou a que parte do céu ou da terra me hei de recolher, para que ali venha a mim o meu Deus, ele que disse: Eu encho o céu e a terra? (AGOSTINHO Hipona” (1996, p.282) .

Desta forma, a caminhada vocacional é um chamado, um chamado diário, um sim renovado a cada momento, nas pequenas circunstâncias da vida, em meio às turbulências da época. É neste mundo contemporâneo, marcado pelas instabilidades, que somos chamados e desafiados a mergulhar profundamente na contemplação da pessoa de Jesus Cristo, pastor e guia do povo de Deus.

Devemos, pois, voltar os nossos olhos, voltar a nossa vida, depositar a nossa fé e a nossa confiança no “Bom Mestre de Nazaré”, exteriorizar essa paixão cumprindo o Seu mandato de estar sempre em saída, sem moradia fixa, sempre disposto a sair na direção daqueles que mais precisam. Assim, Ruben Alves recorda: “O segredo é não correr atrás das borboletas. É cuidar do jardim para que elas venham até você”. No entanto, a realização vocacional é uma busca contínua, é um cuidar do interior, é cuidar deste jardim, é ser sujeito de sua formação. Sabendo que mesmo tendo ramos embaraçosos, a Felicidade plena e a realização encontram-se na identificação do Infinito – Deus. Pois o ser humano é um ser finito e encontra, em Deus, a Verdadeira Felicidade.

REFERÊNCIAS 
AGOSTINHO, Santo. Soliquoquios; A Vida Feliz. 1ª edição, São Paulo: Paulus, 1998- Coleção Patrística.
AGOSTINHO, Santo. Confissões: 24ª edição, Tradução: J. Oliveira Santos e A. Ambrósio de Pina, editora: Vozes, Petrópolis, 2009.
BROWN, Peter. Santo Agostinho: uma biografia. Trad. de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Record, 2005.
PESSANHA, J. A. M. Vida e obra. In: AGOSTINHO, Santo. Confissões. Tradução de J. Oliveira Santos e A. Ambrósio de Pina. São Paulo: Nova Cultural, 1996. Coleção Os Pensadores.
Disponivel,em:<http://www.clerus.va/…/O%20Dom%20da%20Voca%C3%A7ao%20Presbi…>Acessado em: 02 de Agosto. 2018.

Anderson Alves

Seminarista da Diocese de Guanhães

Curso de Teologia

Homilia do 17º Domingo do Tempo Comum – Dom Otacilio

(Homilia 17º Domingo Tempo Comum – Ano C)

LITURGIA DA PALAVRA

I Leitura: Gênesis 18, 20-32
Salmo: 137/138
II Leitura: Colossenses 2,12-14
Evangelho: Lucas 11,1-13

“Mestre, ensina-nos a rezar”

A Liturgia da Palavra do 17º Domingo do Tempo Comum (Ano C) nos convida à reflexão sobre o tema da Oração sincera, pura, dialogal, confiante e frutuosa, que nos coloca numa relação filial para com Deus e de irmãos entre nós.

A primeira Leitura (Gn 18,20-32) nos apresenta Abraão como alguém que sabe fazer da Oração um verdadeiro diálogo com Deus. Colocando-se diante d’Ele com ousadia e confiança, apresentando suas inquietações, dúvidas, anseios, procurando captar Sua vontade para a humanidade.

A passagem é uma catequese sobre o peso que o justo e o pecador têm diante de Deus; revela-nos a misericórdia divina que é maior do que a vontade de castigar. A vontade que Deus tem de salvar é infinitamente maior do que a vontade de perder: Deus está sempre pronto a nos salvar. É preciso que nos abramos à Sua vontade.

Abraão nos ensina que é possível dialogar com Deus numa forma familiar, confiante, insistente e ousada. Revela-nos um Deus que veio ao encontro da humanidade, entrou em sua tenda, sentou-se à sua mesa, criando vínculos de comunhão, e ainda mais, realizando os sonhos daquele que O acolhe.

Com o pai da fé, aprendemos que Deus é alguém com quem se pode dialogar, com amor e sem temor; com uma Oração que brota de um coração humilde, reverente, respeitoso, confiante, ousado e cheio de esperança.

Abraão não repete palavras vazias e gravadas, sem ressonância na própria vida, mas estabelece com Deus um diálogo espontâneo e sincero.

A segunda Leitura, embora não se relacione diretamente ao tema, nos apresenta Jesus Cristo e Sua centralidade na vida de quem crê. Por Ele podemos dirigir ao Pai a nossa Oração, em comunhão com o Espírito Santo, e seremos ouvidos.

Jesus, no Evangelho (Lc 11,1-13), também nos ensina a rezar, de modo que a Oração daquele que crê deve ser um diálogo confiante, como uma criança em relação ao pai.

Para Jesus a Oração é o espaço do encontro pessoal e íntimo com o Pai e o momento fundamental para o discernimento de Sua Vontade, de Seu Projeto a ser realizado.

A caminho de Jerusalém, nos ensina a força e a importância da Oração na vida dos Seus seguidores, assim como foi fundamental em todos os grandes momentos decisivos do próprio Jesus, como tão bem nos apresenta o Evangelista Lucas na Eleição dos Doze (Lc 6,12); antes do primeiro anúncio da Paixão (Lc 9,18); na Transfiguração (Lc 9,28-29); após o regresso dos discípulos da missão (Lc 10,21); na última Ceia (Lc 22,32); no Getsemani (Lc 22,40-46); na Cruz (Lc  23, 34-46).

Jesus nos ensina a Oração do Pai Nosso e nos coloca em atitude de diálogo com o Pai, como filhos, e ao mesmo tempo nos põe no caminho da realização do Seu Plano, na construção de um mundo novo, numa comunhão fraterna a ser construída quotidianamente.

Quanto ao conteúdo:

“Santificado seja o Vosso nome” – que Deus Se manifeste como Salvador aos olhos de todos, através de nossa conduta, marcada pela justiça, bondade e santidade;

“Venha o Vosso Reino” – que o mundo novo proposto por Jesus se torne uma realidade na vida da humanidade – Reino de amor, verdade, justiça e liberdade…

“O pão de cada dia” – Deus nos concede o essencial para vivermos. Oferece o pão material, mas acima de tudo o Pão espiritual. Com Deus nada nos falta. Ele nos dá o próprio Filho, o Pão da Vida que sacia a fome e a sede da humanidade: amor, alegria, perdão, comunhão, fraternidade…

“Perdão dos pecados” – sem a experiência da misericórdia divina, somos incapazes de perdoar e pedir perdão. Acolhidos pela misericórdia e por ela perdoados, para também acolher e perdoar o irmão que pecou contra nós.

“Não nos deixeis cair em tentação” – que nosso coração não seja seduzido por felicidades ilusórias e transitórias, mas que pautemos a nossa vida na busca da felicidade duradoura, eterna, a fim de que tenhamos vida plena e feliz.

A Oração do Pai Nosso, em síntese, pode ser assim apresentada:

Que Deus seja reconhecido como Deus: um Pai misericordioso e nos trata como filhos;

É um Projeto de Amor que Deus tem para a humanidade;

Três pedidos fundamentais: pão para viver; perdão para amar e liberdade para ficar de pé e pôr-se sempre a caminho.

Pode parecer estranha a afirmação, mas na Escola de Jesus aprendemos a rezar verdadeiramente, em forma e conteúdo. A Oração que Jesus ensina transforma a vida de quem a reza e põe em prática.

Não podemos repetir a Sua Oração, sem saborearmos Palavra por Palavra de seu conteúdo vital e irradiador de alegria e luz, que plenifica com a Sua vida e a Sua graça, porque feita sob a ação e presença do Espírito, dirigida confiantemente ao Pai.

Uma Oração verdadeira precisa ser essencialmente Trinitária, nos inserindo nesta comunhão intensa e profunda de Amor.

Com isto, a Oração é, em sua exata medida, um diálogo intenso, profundo com a Trindade Santa, que nos envolve pela presença e ternura divinas.

Dom Otacilio Ferreira de Lacerda

Bispo eleito da Diocese de Guanhães

Editorial: “Media Training” para padres e bispos

Em todos os momentos e lugares, uma liderança é – e tem que se conscientizar de que é – comunicadora. Isto por que a “comunicação pertence à essência da Igreja” conforme explica o extinto Pontifício Conselho para as Comunicações Sociais no Documento “Igreja e Internet”, de 2002. Desde o cristianismo primitivo o presbítero é o líder de uma comunidade local. Nos dias de hoje ele não é a única liderança mas continua sendo um referencial.

Os avanços tecnológicos e chegada da internet, o surgimento das redes sociais digitais e a mescla das mídias tradicionais (TV, rádio e jornal) com as mídias de massa transformaram tudo o que se entendia por comunicação. Tendo em vista as recorrentes transformações, sobretudo no “mundo virtual”, uma das novidades do 11º MUTICOM foi o “Media Training” para padres e bispos, um treinamento orientando a lidar com a imprensa. O pesquisador e jornalista Moisés Sbardelotto orientou clérigos a como se portar diante dos meios de comunicação em variados ambientes.

Segundo Sbardelotto, o visual, a impostação de voz, a ética nas palavras a serem usadas, a objetividade no conteúdo apresentado e as respostas convincentes sobre temas polêmicos ou complexos, tudo é levado em conta. E por isso mesmo os “padres e bispos precisam saber como lidar com este mundo da comunicação diante da mídia, especialmente com uma postura ética, representando bem a Igreja, com respeito aos valores do Evangelho”. O clero precisa entender o seu papel como liderança no ambiente midiático.

Outros pontos que devem ser observados diante da mídia, a saber: que imagem estão transmitindo, qual conteúdo publicado em redes sociais pessoais, ele fala como um representante oficial da Igreja para o público que o conhece? “O clero deve ter consciência de sua imagem e de como estão construindo sua presença na mídia para que não seja uma presença negativa, nem dúbia ou que possa gerar dúvidas entre aqueles que o seguem. Enfim, precisam ter consciência de que são figuras públicas”, disse o pesquisador e jornalista.

Sobre essa postura diante da mídia o Jornalista Gerson Camarotti, em sua fala, comentou a indispensável presença do papa Francisco na mídia com o objetivo de esclarecer a sociedade, tratando a mídia com aliada amiga mostrando a igreja para sociedade, promovendo o diálogo.

Apesar do contesto de crise nas instituições, segundo uma pesquisa de opinião realizada em fevereiro pela 143ª Pesquisa CNT/MDA, a Igreja segue perene entre as que estão no topo da pesquisas – a cada ano que é realizada – entre as que têm a maior confiança da população brasileira. O brasileiro confia nas lideranças religiosas, daí a necessidade em orientar bispos, padres e diáconos sobre como se portar diante dos meios de comunicação de massa ao conceder, por exemplo, entrevista e responder perguntas a um veículo de comunicação, seja ele rádio, TV ou jornal. É fundamental estar preparado para responder e acolher as demandas e atender a imprensa quando solicitado e assim contribuir com a Igreja.

Padre Bruno Costa Ribeiro,
diretor

Alargar horizontes

Todo processo educativo há de ter a meta de se conquistar oportunidades que alarguem os horizontes. Paga-se preço muito alto pelas estreitezas que emolduram experiências, vivência de valores e a desafiadora competência de discernimento e escolhas que podem alavancar avanços, impor retrocessos, ou mesmo a estagnação. Essa é uma questão que afeta o pai de família e o governante, o juiz e o cidadão, o político e o eleitor. Atinge a vida cotidiana e os círculos de convivência, não menos as práticas religiosas e os compromissos nas molduras ideológicas de diferentes matizes. Compreende-se, facilmente, o quanto a educação básica e inicial – da mesma forma a educação permanente -, influencia de modo determinante o processo civilizatório de qualquer grupo social, religioso, político e cultural.

Em questão está a estrutura da compreensão. Os contextos da compreensão no interior de todo processo educativo, seja aquele formal, da escola, seja aquele interno da vida familiar e também no âmbito da religiosidade, com sua força própria de imprimir dinâmicas de entendimento, são o segredo daquilo que se pode alcançar da indispensável lucidez no tratamento de temas, nos processos decisórios e nas relações estabelecidas.

Pode-se, então, constatar que práticas e dinâmicas religiosas equivocadas, ao contrário de proporcionar a conquista de amplitudes, alargar o horizonte de compreensão dos seus integrantes, podem provocar a desconexão em relação ao atendimento de demandas, ao exercício próprio de sua função. Incide de forma pífia na realidade circunstante, por desconhecimento de linguagens e também por obsoleta capacidade de dialogar e interagir com um mundo profundamente em transformação.

Não é diferente o efeito no mundo da política. Os balizamentos estreitos de concepções ideológicas, por si mesmas, impedem o alargamento de horizontes. As limitações que configuram as leituras da realidade, e as propostas pouco criativas ante os problemas, sem contar a mesquinhez no que diz respeito ao bem comum, resultam na mediocridade de escolhas legislativas e nas atuações executivas atabalhoadas. Atitudes sem força para proporcionar novos rumos civilizatórios retardam as necessárias mudanças na vida de uma sociedade e impedem a clareza na compreensão necessária para a obtenção de novas respostas, exigidas com urgência.

Esse problema atinge a vida comum dos cidadãos. Formata práticas que estreitam balizamentos e não permitem marcos civilizatórios adequados, compatíveis com o momento atual, plural, complexo, com muitas e diferentes linguagens. Não se obtém bons frutos com a produção de tantos equívocos, usos inadequados dos cargos ocupados, vaidades e convicções de se estar certo – uma incoerência com os resultados sempre aquém do esperado e exigido.

Assim, o problema da compreensão, como questão filosófica e existencial, se põe de maneira contundente. Requer muitos e urgentes investimentos sob pena de prejuízos irreversíveis ou da imposição de relevantes atrasos. Quanto maior é o problema da compreensão que incide sobre o alargamento ou o estreitamento dos horizontes, mais se observa o crescimento do autoritarismo, dos acirramentos ideológicos, de convicções ilusórias a respeito do próprio valor e das propostas medíocres, sem força de mudança. As instituições e segmentos – religiosos, educacionais, políticos, culturais – pagam um alto preço e passam a intensificar, como processo de colisão suicida, os cenários descompassados que se multiplicam. Importante é ter presente, também, que alargar horizontes não é simples questão conceitual, pois a ignorância é fator devastador em todo processo de compreensão. Alicerçados em profunda e ajustada impostação conceitual, há de se considerar a força determinante da esfera psicoafetiva existencial na mundividência do indivíduo e sua forte incidência na conduta e nas escolhas.

Alargar horizontes é um desafio a todo segmento social, envolvendo seus pares, como necessidade prioritária, em meio a uma complexa linguagem contemporânea, articulando valores e princípios inegociáveis por serem estes os alicerces sem os quais tudo desmorona ou impede de se chegar onde é preciso. Não é raro encontrar indivíduos e grupos que, por falta de compreensão adequada, banalizam processos. Entendem que determinado modo civilizatório é o melhor apenas porque corresponde à comodidade desejada, e sequer consideram a importância de valores inegociáveis. Também, não é raro encontrar quem pense estar inovando enquanto desmonta e destrói, com narrativas religiosas, culturais, existenciais e políticas. Constata-se, assim, a dimensão e o alcance que representa o desafio de sempre alargar horizontes.

Nesse sentido, encontram-se as dinâmicas da economia que também devem ser consideradas na desafiadora busca por uma sociedade justa e solidária: urgência como contraposição e superação das vergonhosas desigualdades. Paga-se muito, em todos os níveis e segmentos, pelas consequências da compreensão tacanha, que encurrala decisões e escolhas, sob a égide ilusória de que se está inovando. Na realidade, o que ocorre é um desmonte que conduzirá, adiante, ao verdadeiro caos. Urgente é investir, em diferentes modos e como compromisso de todo processo educativo, do formal ao praticado na convivialidade, na tarefa individual e comunitária, de alargar horizontes, para evitar a perpetuação de discursos que pecam por falta de coerência, de compreensão ou pelo marasmo da ausência de lucidez.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte
Presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB

Em tempos de redes sociais, como manter uma amizade real?

Sou um jovem, entre milhares, que está continuamente conectado e usufrui das redes sociais para se relacionar, interagir, reencontrar pessoas, trocar experiências. O Papa Francisco nos mostra que “emails, mensagens de texto, redes sociais podem ser formas de comunicação totalmente humanas. A internet pode ser usada para construir uma sociedade saudável e aberta” (Mensagem do Papa Francisco para o Dia Mundial da Comunicação Social).

Sim, é possível fazer e estreitar amizades por meio das redes sociais, contudo, sem fecharmos os olhos para os riscos, por isso, a prudência e a cautela sempre precisam estar presentes. Já me aproximei, estabeleci relacionamentos de amizade, fortaleci aquelas que já existiam, mas não posso negar que, mesmo com todos esses benefícios, a presença física continua sendo indispensável. Porque mesmo que as novas tecnologias nos aproximem a ponto de termos a sensação de quase tocarmos fisicamente, o contato direto, onde podemos olhar nos olhos, e não por uma tela, devemos abraçar, ter a presença física, primordial para que os laços de amizade se fortaleçam e se estreitem.
Corremos o risco de viver uma certa “substituição”, tentando suprir virtualmente aquilo que é indispensável fisicamente, pois somos seres com necessidade de contato, de relação e comunhão profunda.

A questão está em entendermos que os “meios” são “meios” e não fim, o objetivo final. Se temos, hoje, esses meios propícios e eficazes, que colaboram para que nossas relações de amizade cresçam, é desperdício não fazermos uso deles. Ao mesmo tempo, não podemos cair no extremo de achar que as redes sociais são suficientes para construirmos uma amizade verdadeira, pois esta sempre vai precisar ser cultivada e regada e, para isso, é preciso ir além dos cliques, visitar e estar. Que tal, pelos cliques, combinar um bom encontro com aquele amigo que, há tempo, você não vê?

Certo dia, impressionei-me ao perceber que estava me sentindo um tanto perdido, sem jeito, quando tive contato com alguns amigos que, há tempos, não estavam juntos presencialmente. É como se eu tivesse desaprendido de estar presente fisicamente. Achei estranho, fiquei incomodado com isso; então, comecei a retomar o estar com o outro, isto é, estar inteiro, até fazendo o exercício de deixar o smartphone de lado e olhar nos olhos, perguntar, escutar, falar… Gestos tão comuns, mas dos quais precisei redescobrir a riqueza e o valor.

O conceito da verdadeira e duradoura amizade não pode se perder! Amigos a gente não conquista somente baseado em cliques, aceitação de amizade no perfil, em seguimento, curtidas e compartilhamentos. Os stories me ajudam a contar minhas histórias, mas meus amigos esperam que eu as conte pessoal e presencialmente. Fazendo esses ajustes, tomando esses cuidados, preservando o essencial, penso que as redes sociais se tornam mais eficazes na arte de fazer e cultivar amizades.

* Tiago Marcon, CN

A metodologia do eu de Jesus: Uma reflexão.“Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida”(Jo 14,6)

Por diversas vezes Jesus usa a expressão eu, nos evangelhos. Solenemente, diz: “Eu e o Pai somos um” (Jo 10,30); “eu estarei convosco todos os dias” (Mt, 28, 20) e “…agora, porém, eu vou para junto daquele que me enviou” (Jo 16, 5). Assim, vamos percebendo que a enunciação eu, demonstra uma segurança na consciência, coração e sentimentos de Jesus. O eu vai identificando a personalidade, o caráter e a maneira de ser do Mestre. Essa individualidade metafísica da pessoa, oferece uma confiança, na medida que expõe a qualidade do que é, e determina ao mesmo tempo, a particularidade, pessoal, social, moral, ética, sobretudo, o habitual do ser, que o distingue das outras pessoas.

Já imaginou a situação do eu de Jesus diante daqueles que queriam apedrejar a mulher adultera, (Jo 8, 3-5), ao responder: “Quem não tem pecado atire a primeira pedra” (Jo 8, 7). O Senhor, no eu, nos brinda com suas características cognitivas, ou seja, de autoconhecimento; efetivas, de levar a efeito o ‘caminho, verdade e vida’ (Jo 14,6); volitivas, que determinam “eu vim para que todos tenham vida” (Jo 10,10) e físicas, demonstrando o conteúdo doutrinal, responsabilizando os acusadores para a “misericórdia e não sacrifício” (Mt 9, 13).

Se a fé é o fundamento da Igreja, o eu é da pessoa. A fé outorga confiança e coragem a quem crê. O eu percebe que precisa avançar na maturidade. Essa característica é uma espécie de testamento espiritual, vislumbrando a realidade desta individualidade. O eu não se determina pela maioria de respostas ou de razões convincentes. Ao eu não pertence a maioria de aplausos ou acertos, como diz o Papa Bento XVI: “A verdade (no eu), não é determinada por maioria de votos”. Jesus testemunhou isso quando disse: “Vinde a mim vós todos que estais cansados e oprimidos” (Mt 11, 28-30). Em sua condição, Jesus foi além do ser e agir. O Papa Bento XVI acrescenta: “Amor é dar ao outro o que é meu”. Assim, compreendemos o Nazareno dizendo: “Eu vim para que todos tenham vida” (Jo 10, 10). “Deus não pertence a nenhum povo em particular”, afirma o Papa Francisco. Ninguém se arrogue em dizer que o eu é algo reservado ou intocável.

Com esta exposição, queremos contribuir com a ideia de que o eu precisa servir e não ser servido. A ele não compete um governo absoluto. Na vida o eu é convidado a ser caminho, erigindo pontes e alargando estradas. O eu que dialoga não pertence a nenhum povo, mas herança de quem o leva a sério. Pergunte-se com frequência. Como vai o eu? Santa Tereza D’Ávila diz-nos”: “O Senhor sempre dá oportunidade para oração quando a queremos ter.” Por isso, alarguemos a oportunidade do eu ser em nós de verdade. Nunca uses mascaras. Jamais serás aplaudido pela personalidade e caráter. Seja você de verdade. Pense nisso.

Côn. Dr. Manuel Quitério de Azevedo
Professor do Seminário Arquidiocesano de Diamantina e da PUC-MG
Membro da Academia de Letras e Artes de Diamantina

imagem: recorte do vitral do Santuário em Conceição do M Dentro

A relação de gratuidade com Deus nos ajuda a servir os outros – Catequese do Papa

Dê de graça o que você recebeu de Deus de graça

A homilia do Papa Francisco é toda sobre a gratuidade de Deus e, portanto, sobre a gratuidade a ter com os outros, seja com o testemunho seja com o serviço. O convite é, portanto, a alargar o coração para que a graça venha. A graça, de fato, não se compra. E a servir o povo de Deus, não usá-lo.

A vocação é servir, não para “usar”

A reflexão do Papa Francisco parte da passagem do Evangelho de Mateus 10, 7-13 sobre a missão dos apóstolos, a missão de cada um dos cristãos, ser enviado. Um cristão não pode ficar parado”, a vida cristã é “abrir caminho, sempre”, recorda o Papa comentando as palavras de Jesus no Evangelho: “No vosso caminho, pro­clamai: ‘O Reino dos Céus está próximo’. Cu­rai doentes, ressuscitai mortos, puri­ficai leprosos, expulsai demônios”. Esta é, portanto, a missão e se trata de uma “vida de serviço”.

A vida cristã é para servir. É muito triste quando encontramos cristãos que, no início da sua conversão ou da sua consciência de serem cristãos, servem, estão abertos a servir, servem o povo de Deus, e depois acabam usando o povo de Deus. Isto faz tanto mal, tanto mal ao povo de Deus. A vocação é para “servir”, não para “usar”.

Alargar o coração

A vida cristã é então “uma vida de gratuidade”. Ainda na passagem evangélica proposta pela Liturgia de hoje, o Senhor vai ao coração da salvação: “De graça re­ce­bestes, de graça deveis dar”. A salvação, “não se compra”, “é-nos dada gratuitamente”, recorda-nos o Papa, sublinhando que Deus, de fato, “nos salva gratuitamente”, “não nos faz pagar”. E como Deus fez conosco, assim “devemos fazer com os outros”. E precisamente esta gratuidade de Deus “é uma das coisas mais belas”.

Saber que o Senhor é cheio de dons para nos dar. Somente, pede uma coisa: que o nosso coração se abra. Quando dizemos “Pai nosso” e rezamos, abrimos o coração para que esta gratuidade venha. Não há relação com Deus fora da gratuidade. Às vezes, quando precisamos de algo espiritual ou de uma graça, dizemos: “Bem, agora vou jejuar, vou fazer uma penitência, vou fazer uma novena…”. Certo, mas tenham cuidado: isto não é para “pagar pela graça, para “adquirir” graça; isto é para ampliar seu coração para que a graça possa vir. A graça é gratuita.

Todos os bens de Deus são gratuitos – continua o Papa Francisco – mas adverte que o problema é que “o coração se encolhe, se fecha” e não é capaz de receber “tanto amor gratuito”. Não devemos negociar com Deus, recorda o Papa, “com Deus não se negocia”.

Dar gratuitamente

Depois o convite para dar de graça. E isto, sublinha o Papa, é especialmente “para nós, pastores da Igreja”, “para não vender a graça”. “Dói muito, disse, quando há pastores” que fazem negócios com a graça de Deus: “Eu faço isto, mas isto custa tanto, tanto…”. A graça do Senhor é gratuita e “você – disse – deve dá-la gratuitamente”.

Na nossa vida espiritual temos sempre o perigo de escorregar no pagamento, sempre, mesmo falando com o Senhor, como se quiséssemos dar um suborno ao Senhor. Não! A coisa não vai por ali! Não vai por esse caminho. “Senhor, se me fizeres isto, eu dou-te isto,” não. Eu faço essa promessa, mas isso alarga meu coração para receber o que está lá, gratuito para nós. Esta relação de gratuidade com Deus é a que nos ajudará depois a tê-la com os outros, seja no nosso testemunho cristão seja no serviço cristão e na vida pastoral daqueles que são pastores do povo de Deus. No caminho. A vida cristã é caminhar. Pregar, servir, não “fazer uso de”.

Sirvam e deem de graça o que receberam de graça. Que a nossa vida de santidade seja este ampliar o coração, para que a gratuidade de Deus, as graças de Deus que estão ali, gratuitas, que Ele quer nos dar, possam chegar ao nosso coração. Que assim seja.

Fonte: Vatican News

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