Artigos

Presidente da CNBB analisa riscos de interpretação em julgamento da ADO 26

O arcebispo de Belo Horizonte (MG) e presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em artigo intitulado “Conflito Interpretativo” aponta riscos de interpretação no julgamento no Supremo Tribunal Federal da Ação de Inconstitucionalidade por Omissão (ADO 26) e da tramitação de Projeto de Lei 632/2019, no Senado Federal, para alterar a Lei 7.716/1989. Para o presidente da CNBB: “desconsiderar valores éticos e morais que estão acima de ideologias é um perigoso equívoco. É gerar grave conflito interpretativo”.

Acompanha, a seguir, a íntegra do artigo.

Conflito interpretativo

Tudo se desdobra em consequências para a vida: da caneta com a qual o juiz assina à atitude do cidadão. Por isso mesmo, a interpretação das diversas realidades é um constante desafio para o ser humano, exercício que vai muito além da simples manifestação de opinião. Interpretar os fatos e as situações é atividade exigente, requer a consciência sobre os impactos desse ato na vida das pessoas. É muito importante perceber que a emissão de juízos adquire ainda mais poder para gerar sérias consequências no contexto atual com as facilidades das redes sociais.
O reconhecimento de que não somos “donos da verdade” favorece em muito o acerto na tomada de decisões. É atitude humilde reconhecer-se suscetível a estreitamentos que podem levar ao distanciamento da verdade e, consequentemente, ao inadequado tratamento da realidade. Redobrar a atenção no exercício de se formular interpretações é necessário para evitar as costumeiras irracionalidades que promovem polarizações e outras obscuridades, entraves para a civilidade. De interpretações equivocadas nascem decisões que estão a serviço de interesses pouco nobres, desdobrando-se em manipulações, no enfraquecimento de instituições, na submissão a ideologias perversas que passam por cima de valores e princípios inegociáveis.
É responsabilidade de cada cidadão, particularmente dos que têm o dever de formular interpretações com ampla repercussão social, evitar o acirramento de conflitos a partir de suas decisões. A sociedade brasileira, de um modo geral, perde muito quando embates desnecessários são estabelecidos, com repercussões negativas para a vida de todos, principalmente dos que são mais pobres e indefesos. E torna-se importante sublinhar: conhecer profundamente o universo legislativo, as teorias e as técnicas de diferentes áreas do saber, não garante acerto no ato de interpretar a realidade, que exige, principalmente, sensibilidade.
A falta de sensibilidade e empatia no ato de interpretar, mesmo quando se domina elementos legislativos e técnicos de diferentes áreas do saber, tem provocado conflitos. Muitos avanços são impedidos, particularmente por não se encontrar respostas aos problemas. Tudo se contamina, ainda mais, com decisões judiciais, executivas, operacionais e existenciais nos parâmetros de estreitamentos que causam dó e a dor de amargar os prejuízos de ignorâncias e incompetências. Formular pareceres sobre determinado tema, de modo insensível às suas repercussões, aprisiona entendimentos e reflexões. Impede a sociedade de avançar rumo a novos patamares de desenvolvimento.
Conquistas científicas, condições ambientais favoráveis e avanços tecnológicos, sozinhos, não são suficientes para promover o bem de toda a sociedade. Escolhas lúcidas e assertivas, frutos da consciência tocada pela clarividência, é que permitem passos novos rumo aos progressos esperados pela humanidade. Sem luz na consciência, o ser humano naufraga em interpretações “estreitas”. E com o seu poder de decisão, passa a impor uma visão equivocada sobre a verdade, o que alimenta disputas.
A partir dessa constatação, a Igreja Católica, especialmente por sua Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), dedica especial atenção a um assunto de relevância para a sociedade: trata-se do julgamento no Supremo Tribunal Federal da Ação de Inconstitucionalidade por Omissão (ADO 26) e da tramitação de Projeto de Lei 632/2019, no Senado Federal, para alterar a Lei 7.716/1989.
Há um risco de interpretações equivocadas nesses processos. A Igreja Católica, em seus princípios éticos e morais, reafirma a importância do acolhimento solidário e respeitoso de toda pessoa. Não admite qualquer tipo de discriminação. Em fidelidade à sua Doutrina, tem também o dever de informar e orientar os seus fiéis sobre o matrimônio e a família na perspectiva cristã. Essa missão não pode ser considerada ofensa a pessoas ou grupos. Nesse sentido, a CNBB, em comunicado, pede mais clareza nos processos em curso no Judiciário, para que limites de intepretação não provoquem ataques a valores intocáveis, baseados na fé.
Espera-se que as autoridades competentes se reconheçam como peregrinos que buscam a verdade – e não os “donos da verdade”. Assim, percebam que a liberdade religiosa, garantida na Constituição Federal, pressupõe preservar códigos morais com raízes na fé. Desse modo, poderão respeitar a liberdade religiosa em decisões judiciais relacionadas à criminalização da homofobia. E sempre é oportuno reafirmar: a Doutrina da Fé Católica não semeia a violência, mas partilha um código de condutas comprometido com a promoção da vida, em todas as suas etapas, da concepção ao declínio com a morte natural. Desconsiderar valores éticos e morais que estão acima de ideologias é um perigoso equívoco. É gerar grave conflito interpretativo.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte
Presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB)

Corpo de Cristo: Corpo Humano

“Jesus acolheu as multidões, falava-lhes do Reino de Deus e curava todos os que precisavam” (v. 11).

O dia de “Corpus Christi”, tradicionalmente celebrado na quinta-feira depois da Trindade, é festa do Deus feito carne e sangue humano, é festa cristã da humanidade de Deus, da divindade do ser humano.Esta festa revela mil riquezas que deveriam ser realçadas no diálogo com a humanidade, afinal, o Corpo de Deus é, por Cristo, o ser humano inteiro, a humanidade completa; é festa cristã, mas que quer ser universal, a festa de todos aqueles que desejam vincular-se entre si, de um modo concreto, partilhando o pão, bebendo juntos o vinho da vida, em alegria e esperança, dispostos a colocar suas vidas a serviço da vida.

Festa do Corpo de Jesus e de todos os corpos; festa do pão e do vinho, frutos da terra e da comunhão de todos os seres. A Terra é um grande organismo vivento; o Universo, com suas estrelas e galáxias, é um corpo imenso. Corpo sagrado, porque habitado pela presença divina.

Celebremos nosso corpo, tão maravilhoso e vulnerável! Cuidemos do corpo, sem torturá-lo com nossas obsessões, sem submetê-lo à escravidão de nossas modas e medos! Respeitemos como sagrado o corpo do outro, sem explorá-los! Sintamos como próprio o corpo do faminto, do violentado, do refugiado, da mulher violada, maltratada, assassinada… É nosso corpo; é o Corpo de Jesus; é o Corpo de Deus.O corpo humano está, portanto, no centro da revelação cristã, pois se trata de algo assumido pelo mesmo Deus na Encarnação de seu Filho Jesus Cristo, que se faz corpo humano e habita entre nós.

Este gesto divino eleva e engrandece a corporeidade humana e a resgata para sempre, já que a divindade abraça a carne, acolhendo sua fragilidade para dentro de Si mesmo.Deus se revela encarnando-se, assumindo um Corpo que sente, que vibra, que tem prazer e que sofre, uma carne que treme, vulnerável ao frio e ao calor, à fome e à sede. Corpo que comunga com nossa mortalidade, padecendo dor, agonia e morte, sendo sepultado entre as trevas da terra como toda criatura.Frente a um contexto social e político que faz opção clara em favor da morte, os(as) seguidores(as) de Jesus proclamam em alta voz seu compromisso em favor da vida. É uma incoerência tremenda realçar o espírito da festa de Corpus Christi quando corpos são violentados, multidões são expostas à fome e miséria, pessoas e grupos são excluídos por preconceito, intolerância…Sim, “Corpo de Deus”! Deus é como o pulsar íntimo, a energia originária, a criatividade inesgotável, a possibilidade infinita, a força do bem, a comunhão universal, a Presença plena em cada ser humano, numa eterna evolução; Deus é infinitamente “mais” que a soma de todos os corpos que compõem a humanidade. Somos n’Ele. Ele é em nós, infinitamente mais que um Tu separado. Toma corpo no trigo que se transforma em pão ou na vinha que floresce nos campos e se transforma em vinho; corpo que se faz alimento e alegra o coração, na promessa de nos reconduzir às entranhas do amor do mesmo Deus.Jesus fez do universo seu corpo e se faz pão e vinho para nós. O pão suscita e cria Corpo…; Jesus não anuncia uma verdade abstrata, separada da vida, uma pura lei social, princípio religioso… Ao contrário, Jesus, Messias de Deus, é corpo, isto, é, vida expandida, sentida, compartilhada. O Evangelho nos situa desta forma no nível da corporalidade próxima: Jesus é corpo que quebra distâncias, acolhe o diferente e cria comunhão. Podemos dizer que Jesus desencadeia um “movimento corporal humanizador”; por isso, Ele se faz alimento que a todos sustenta, criando uma comunhão corpórea universal, pois ninguém está excluído.Sabemos que o corpo é identidade e comunhão, individualidade e comunicação, a vida inteira alimentada pelo pão.

A antropologia de Jesus não é dualista, que separa corpo e alma. A festa do Pão divino está nos revelando que corpo não é aquilo que se opõe à alma, exterioridade da pessoa, mas pessoa e vida inteira.Corpo é o mesmo ser humano enquanto comunicação e crescimento, exigência de alimento e possibilidade de morte: fragilidade e grandeza de alguém que pode viver o encontro com o outro, partilhando sua vida e suas energias, criando assim um “corpo” mais alto (comunhão) com todos.Nesse sentido, a Eucaristia se revela como centro da vivência cristã. A transformação das relações humanas se dá através do partir o pão e do passar o cálice de vinho; como o pão é um, comer desse pão nos faz todos um.

A Eucaristia faz de todos nós Corpo de Cristo. Daí o interesse da primitiva Igreja em que, na Eucaristia, todos comungassem do mesmo pão partido, com a finalidade de fazer visível essa unidade de todos.Ao dizer “tomai e comei, isto é meu corpo”, Jesus vem ao nosso encontro como alimento; não vive para impor-se sobre os outros ou explorá-los, mas, pelo contrário, para oferecer sua vida em forma de alimento, a fim de que todos se alimentem e cresçam com Sua vida.Tudo isto se expressa e se oferece em contexto de refeição entre amigos(as): não exige obediência, não impõe sua verdade, não se eleva acima dos outros, mas, em gesto de solidariedade suprema, se atreve a oferecer-lhes seu próprio corpo, convidando-os a partilhar o pão. Este oferecimento de Jesus só tem sentido para aqueles que interpretam o corpo messiânico, como fonte de humanidade dialogal, gratuita, expansiva…Assim fizeram seus(suas) seguidores(as): após a Ressurreição, Jesus foi “reconhecido ao partir o pão”; foi reconhecido não porque estava no templo ou ensinava na sinagoga, mas porque partia o pão nas casas.

Por isso, no primeiro dia da semana, reuniam-se todos nas casas, oravam juntos, recordavam a mensagem de Jesus, comiam o pão, bebiam o vinho e a Vida ressuscitava. A isso chamavam, ‘ceia do Senhor” ou “fração do pão”. Tudo era muito simples e despojado.Segundo os relatos dos Evangelhos, durante sua vida pública, Jesus transitou por muitas refeições, propôs a grande mesa da inclusão e, para culminar, organizou com seus amigos mais próximos uma ceia de despedida e de esperança. Ali, ao partir o pão e passar o cálice, pediu que se recordasse dele toda vez que comessem ou bebessem juntos, reavivando a esperança de construir o mundo que todos esperavam. Eles se transfigurariam e o mundo se transformaria em Comunhão toda vez que este gesto fosse repetido.Para isso, é preciso recuperar o lugar e o sentido da Eucaristia, para que não seja um rito puramente cultual. Para muitos cristãos, ela não é mais que uma obrigação e um peso que, se pudessem, tirariam de cima deles.

A Eucaristia acabou se convertendo em uma cerimônia rotineira, que demonstra a falta absoluta de convicção e compromisso. A Eucaristia era, para as primeiras comunidades cristãs, o ato mais subversivo que podemos imaginar. Os cristãos que a celebravam se sentiam comprometidos a viver o que o sacramento significava. Eram conscientes de que recordavam o que Jesus tinha sido durante sua vida e se comprometiam a viver como Ele viveu.Séculos depois, a simples refeição foi se complicando. A casa se converteu em templo, a refeição em “sacrifício”, a mesa em altar, o convite em obrigação, o rito em pompa, a partilha em exclusão…A festa de “Corpus Christi” pode ser ocasião privilegiada para voltarmos ao mais simples e pleno, para além dos cânones, rubricas e indumentárias que não tem nada a ver com Jesus. Basta nos reunir em um lugar qualquer, para recordar Jesus, compartilhar sua palavra, tomar o pão e o vinho, ressuscitar a esperança e alimentar o sonho do Reino.Essa é a Missa verdadeira, a verdadeira missão.

Texto bíblico: Lc 9,11-17

Na oração: Na sua comunidade, a celebração eucarística gera maior amor e compromisso em favor dos mais pobres ou se limita a ser um simples rito religioso obrigatório?- Quais iniciativas concretas sua comunidade poderia fazer para que a participação na Eucaristia seja mais ativa e dinâmica?- Sendo constituída por seguidores(as) de Jesus, como sua comunidade poderia se comprometer mais para levar aos outros o pão cotidiano, o pão do amor e da esperança, o pão do evangelho do Reino?

Pe. Adroaldo Palaoro sj

Como identificar sinais de que o relacionamento pode se tornar abusivo?

Como é gostoso se apaixonar, namorar, ter alguém. Nós, seres humanos temos inúmeras necessidades, e uma delas é a de se relacionar. Temos necessidade de nos relacionarmos amorosamente e, se possuímos marcas ou feridas na nossa história, corremos o risco de nos cegar diante de atitudes abusivas e viver a dor de uma escravidão.

E aqui está a questão, uma relação abusiva em que, normalmente, a “vítima”, não consegue perceber que está vivendo uma relação adoecida, devido a toda trama e domínio que o abusador consegue exercer sobre ela.

Vale ressaltar que este é um assunto muito singular para se tratar de forma generalista, por isso, me limitarei a apenas pontuar as possíveis formas de relação abusiva que existem hoje, para que você leitor tenha um pouco mais de clareza e conhecimento sobre o assunto.

Existem cinco tipos de relações abusivas: a física, verbal, financeira, emocional e tecnológica. A mais antiga e falada é a física, que deu origem a lei “Maria da Penha”, quando a pessoa abusada é uma mulher.

No entanto, o abuso físico não se dá apenas em mulheres, mas também em homens, e tem muita mulher batendo em homem por aí. Esta relação se dá quando o abusador quer impor sua vontade, condições e escolhas de forma agressiva, fisicamente.

O abuso verbal acontece quando um dos parceiros, com grande frequência, profere palavras pejorativas que diminuam e desencorajem o outro. Esta relação amarra sua vítima de tal forma que, normalmente, ela passa a acreditar na fala do abusador e paralisa diante da vida. É muito triste, pois gera também uma confusão sobre a verdadeira identidade, gerando pensamentos como: Ele tem razão, eu sou incompetente mesmo, não consigo fazer nada certo. E assim, o encorajamento de enfrentar a vida vai ficando paralisado e enfraquecido.

A dependência financeira, como o nome mesmo diz, está ligada ao dinheiro. O abusador(a) passa a administrar a conta bancária do parceiro(a), retendo todo o seu dinheiro, ficando com os cartões e dando apenas aquilo que julga ser necessário. Outra forma é quando o abusador não deixa nem mesmo seu parceiro trabalhar, o convencendo de que não é necessário, gerando assim, total dependência daquele que possui o dinheiro, o que, futuramente, pode vir a desenvolver, juntamente a dependência financeira, uma relação de abuso verbal.

A relação abusiva emocional é bastante comum em nosso meio, porém, não tão fácil de ser identificada. Aqui o abusador, com o passar o tempo, começa a restringir de forma bem sutil seus relacionamentos. Começa afastando os amigos de seu parceiro, normalmente com histórias de que eles na verdade não gostam dela, que têm inveja e que apenas ele de fato quer o seu bem. Posteriormente, inicia o processo de distanciamento da família e familiares, de forma que, ao final, o abusador consiga ter a atenção plena de seu parceiro, de maneira que somente ele passe a ser o foco da vítima. Aqui abro parênteses, pois este tipo de abuso não se restringe apenas à relação afetiva, mas tem acontecido muito em amizades, onde se vê este fechamento entre duas pessoas.

Por fim, temos uma nova forma de relação abusiva, que é a tecnológica, na qual o abusador, monitora todos os acessos virtuais de seu parceiro, whatsapp, redes sociais, e-mails, e demais plataformas de acesso ao mundo virtual. Podendo até mesmo bloquear os contatos de seu parceiro.

No entanto, um segredo que desejo revelar a você leitor, após ler todas estas possibilidades de abuso é que, numa relação abusiva, seja qual for, você é convocado a olhar para o abusador como de fato ele é, mesmo que seja difícil, enxergar a verdade que habita nele. E sabe qual é? Na maioria das vezes, se trata de uma pessoa insegura e medrosa, que usa deste tipo de força e comportamento para se esconder.

Você, sendo vítima, tem muito mais força que o abusador. Coragem! Esteja sempre atento(a) e pronto para encerrar esta relação abusiva, pois os relacionamentos existem para serem vividos de forma saudável.

*Aline Rodrigues é psicóloga,
especialista em saúde mental,
e missionária da Comunidade Canção Nova.
Atua com Terapia Cognitiva Comportamental;
no campo acadêmico, clínico e empresarial.

Homilia na Solenidade da Santíssima Trindade

Solenidade da Santíssima Trindade

Liturgia da Palavra:
I Leitura (Pr 8,22-31
Salmo 8
II Leitura Rm 5,1-5
Evangelho: Jo 16,12-15)

A Salvação em Cristo – A Obra do Espírito Santo – O Amor de Deus

Na Liturgia da Solenidade da Santíssima Trindade a Igreja se coloca diante do mistério do Amor de Deus, diante do qual cabe ao homem o silêncio e a contemplação. Na Segunda Leitura, São Paulo afirma que por meio da Salvação realizada pela Morte e Ressurreição de Cristo, todos têm acesso à presença e à graça de Deus. Já no Evangelho, Jesus afirma que a Obra do Espírito Santo é a de recordar aos discípulos as suas próprias Palavras, fazendo-os compreenderem e viverem o que Ele mesmo os ensinou. Por sua vez, a Leitura aos Romanos afirma que o Amor de Deus foi derramado no coração dos fiéis, por meio do Espírito Santo que lhes foi doado, como fruto da Salvação operada, por meio da morte e ressurreição de Cristo.

A Segunda Leitura aos Romanos tem início com uma afirmação do apóstolo Paulo que é fundamental para a vivência da Fé e contribui para a compreensão do Mistério da Trindade. Ele afirma que, por meio de Nosso Senhor Jesus Cristo, todos têm acesso à graça de Deus, ou seja, são inseridos na vida e comunhão divinas. De fato, Jesus oferece a sua vida fim de que a humanidade, incapaz de superar o pecado e, sobretudo a morte, pudesse ser inserida, uma outra vez, na comunhão divina. Esse dom da salvação em Cristo é oferecido gratuitamente à todos sem exceção, de modo que todos sejam acolhidos na grande família dos filhos e filhas de Deus. Pois, Ele oferece o Seu Filho para o perdão dos pecados dos homens, quando esses ainda eram pecadores, a fim de romper o muro que os separava. Sendo assim, por meio da morte e ressurreição de Cristo toda a humanidade é reconciliada com Deus, chamada à uma vida de profunda comunhão e intimidade com Ele. Um processo que teve seu início da Cruz de Cristo e continua a acontecer na vida de todos os que se abrem à graça que o Senhor continuamente derrama nos corações daqueles que com Ele vivem.

A palavra do apóstolo abre o caminho de salvação que os fiéis são chamados a trilhar, ou seja, apresenta uma estrada de seguimento para todos os que abraçam Cristo, por meio da profissão de Fé. Algo que se realiza no dia a dia da vida dos cristãos, como o próprio Paulo afirma, quando indica que as tribulações serão superadas, pela esperança que os mesmos trazem em seus corações. Tal esperança se baseia na experiência que cada um faz da Salvação em Cristo, isto é, no fato de reconhecerem a graça alcançada pela entrega de Cristo na Cruz. Ele veio para salvar a humanidade e oferecer à mesma o caminho de volta para a Casa do Pai, algo não mais restrito à uns poucos, mas oferecido gratuitamente a todos. Desse modo, por meio da Salvação realizada pela Cruz de Cristo a humanidade reconhece o Amor do Pai e recebe o Dom do Espírito, que deve agir no corações dos fiéis, tornando-os verdadeiras testemunhas da Ressurreição.

Os discípulos são enviados pelo Senhor como testemunhas de sua ressurreição, sinais claros do Reino e do Amor do Pai no mundo. Algo que somente podem realizar quando auxiliados pela força e pela presença do Espírito Santo, que é Aquele que recordará aos seus corações as Palavras do Mestre. Esta é a obra do Espírito, segundo o texto do Quarto Evangelho, ou seja, Ele é apresentado como Aquele que deve recordar aos cristãos as Palavras de Jesus, fazendo-os compreenderem a sua Missão e como deve ser o seu Testemunho. De fato, no Evangelho, Jesus afirma que o Espírito Santo conduzirá os discípulos à plena Verdade, não algo novo, mas, à compreensão plena de tudo o que Ele mesmo os comunicou. Sendo assim, graças à ação do Espírito Santo, os fiéis serão capazes de compreenderem a salvação realizada pela morte de Cristo e a sua ressurreição. Um evento que marca o início de um tempo novo, pleno da graça e da ação de Deus na vida de seus filhos e filhas.

O Espírito é envidado aos fiéis como o Dom da graça divina, apresentado como Aquele que conduzirá a comunidade dos discípulos à compreensão plena do mistério da salvação. Ele acompanhará os discípulos em seu caminho de seguimento do Senhor, tornando os seus corações capacitados para a Missão e o Testemunho. De fato, as Palavras de Jesus no Evangelho indicam que a obra do Espírito é necessária, a fim de que os discípulos possam sair de sua incompreensão, rumo ao entendimento pleno das Palavras e gestos de Jesus. De modo que sejam transformados em testemunha vigorosas da salvação realizada por meio de Sua morte e ressurreição. Sendo assim, somente por meio da acolhida de tão grande dom é que a comunidade dos discípulos poderia sair de sua apatia e medo, para assumir a Missão a ela confiada pelo próprio Jesus.

Segundo São Paulo aos Romanos, o Amor de Deus foi derramado no coração dos fiéis, por meio do Espírito Santo que receberam. Isto é, são inseridos na vida divina, pela graça do Espírito que a todos comunica o Amor do Pai manifestado na morte e ressurreição de Cristo, Desse modo, o apóstolo Paulo, dirigindo-se aos Romanos, reconhece que a humanidade inteira é inserida na comunhão profunda com o Pai, por meio de Cristo. De fato, em sua entrega na Cruz, sinal claro do Amor de Deus, todos são feitos filhas e filhos de Deus, isto é renascem para uma vida nova, fruto do amor divino. Uma obra do Espírito que continua a agir no coração dos fiéis, que são gradativamente mergulhados no mistério do Amor divino, que se derrama por meio de Cristo.

O fiel cristão deve se entender como filho do Amor, não somente por ter nascido em Cristo, como nova criatura, mas também, por receber gratuitamente do amor do Pai todos os dias. Desse modo, segundo São Paulo, o Espírito Santo é o que une e, ao mesmo tempo, conduz os filhos e filhas de Deus a fazerem a experiência profunda do Seu Amor. De fato, o Espírito é Aquele que, ao tocar os corações dos fiéis, desperta neles a verdade do Amor divino, de modo que todos sejam conduzidos por esse mesmo amor. Sendo assim, a filiação divina, dom gratuito do Amor de Deus, traz em si também uma vocação e missão, ou seja, implica num compromisso que deve ser assumido por todos. Os cristãos formados na escola do Amor do Pai são convidados a serem missionários deste mesmo divino Amor. De maneira especial, por meio de suas palavras e ações, sendo capaz de tocar a vida dos homens e mulheres com os gestos concretos de solidariedade e compaixão, frutos do Amor que recebeu do Pai, por meio da ação do Espírito que a todos foi dado.

Que a liturgia da Solenidade da Santíssima Trindade possa tocar nos corações de todos, a fim de que sejam capazes de reconhecer o gesto do Amor divino que em Cristo reconciliou o mundo consigo e a todos adotou como filhos e filhas. De modo que, cada fiel, mergulhado no Amor de Deus, derramado nos corações por meio do Espírito Santo, tornem-se sinais e testemunhas concretas do amor solidário e compassivo de Cristo.

Pe. Andherson Franklin Lustoza de Souza

Diocese de Cachoeiro de Itapemirim/ES.

Namorar pra quê?

Em quase todos os países, o dia dos namorados é comemorado no dia de São Valentim, o padroeiro dos namorados, em 14 de Fevereiro. Por aqui ficou famoso o dia 12 de Junho, uma comemoração criada no meio do século passado.  A data tem relação com a véspera de 13 de Junho, dedicado a Santo Antônio, que na cultura popular é casamenteiro. Mas a proposta partiu de publicitários, com o objetivo de aquecer a vendas em um mês onde elas tradicionalmente eram reduzidas.

Comércio ou devoção, o fato é que esta data já faz parte de nossa cultura. Ainda que movimente cifras milionárias, não tenho receio em dizer que o namoro não anda “essa coisa toda”. Está desfigurado e pouco valorizado como tempo de conhecimento e cultivo de uma amizade que aponta para o casamento. Muita propaganda, muita música falando de amor, mas na prática…

Um dia de grande oportunidade para uma boa reflexão. Há muita gente namorando, mas pouca gente se conhecendo de verdade. Talvez o namoro esteja sendo artificial e com a preocupação de se impressionar um ao outro, pouco dispostos a se conhecerem de verdade. Talvez esteja agitado demais com a rotina dos barzinhos, festas e casas de amigos, não sobrando tempo para uma conversa olho no olho. Ou ainda, os poucos momentos a sós podem estar servindo unicamente para a entrega imatura de seus corpos, sem compromisso verdadeiro e sem respeito ao projeto de Deus. Desenvolvem namoros “xoxos” que se arrastam para lugar nenhum.

Para onde caminha seu namoro?

Somente o conhecimento, fruto da convivência baseada no diálogo sincero, capaz de expor todos os sentimentos, quase um “virar ao avesso” de um namorado diante do outro é capaz desenvolver o amor que São Paulo nos exorta na carta aos Efésios, aquele de se entregar um pelo outro tal como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela.

É hora de colocar o namoro na balança e avaliar se ele tem se baseado no diálogo sincero. Quantas vezes vocês têm falado de suas vidas, sentimentos, projetos, inseguranças e medos? Já questionaram o caminhar do próprio namoro? Até mesmo um ateu sabe que sem diálogo o namoro não vai a lugar algum. O filósofo existencialista Nietzsche dizia que a pergunta mais importante a ser feita a quem pensa em casamento é se continuará a ter prazer em conversar com o cônjuge até a velhice. Já pensou que várias características externas de seu namorado (ou namorada) vão se alterar nos próximos anos?  Sua fisionomia vai mudar, as rugas vão chegar, o ânimo para as baladas vai se reduzir. Nem se sabe se terão dinheiro e saúde para tudo o que planejam viver. A característica que os atraiu poderá não mais existir. Mas se foram atraídos por algo interior ou se deixaram conhecer para criar uma verdadeira amizade, o relacionamento não se enfraquecerá sob os efeitos do tempo. O amor baseado na amizade, fruto do conhecimento constante, cresce na mesma medida que nosso exterior envelhece.

O que mantém vocês namorando?

 Além das comemorações, dos presentes, dos beijos e abraços, use também este dia para fazer duas perguntas. Se estão cultivando, de verdade, uma amizade baseada no conhecimento e se sabem para onde caminham. Se uma das respostas for não (mais ainda se as duas forem não!) é hora de tomar atitude. Ou investe seu tempo na construção de uma casa sobre a rocha ou interrompe a construção de uma casa sobre a areia, pois o desabamento poderá ser mais traumático. Namoro não é brincadeira. Feliz dia dos namorados! Feliz construção de uma família!

 

André Parreira

Autor de vários livros sobre namoro, matrimônio e família.

 

A sacralidade do Espaço Celebrativo

Percepções teológico-litúrgicas

Quando nos preparamos para edificar um espaço, as primeiras questões giram em torno da sua destinação. Perguntarmo-nos sobre o uso de uma construção implica considerar as relações que nela serão constituídas. Tratando-se de uma igreja ou capela, a resposta parece ser muito simples: é casa de Deus, um lugar para nos encontrarmos com ele. No entanto, o que isso significa do ponto de vista judaico-cristão e, mais especificamente, católico romano?

Para responder satisfatoriamente essas indagações é preciso voltarmos nosso olhar para as celebrações que se desenvolverão no ambiente a ser edificado. As celebrações não são outra coisa
senão um feixe de relações significativas para o sujeito que as realiza. No caso, o sujeito imediato é a Igreja concretizada numa comunidade reunida em assembleia. O sujeito mediado é Cristo que se manifesta no corpo da Igreja congregada. As relações das quais Cristo é sujeito são relações filiais e
também fraternas.

A tradição orante da Igreja nos ajuda a perceber de maneira profunda e adequada o sentido espiritual das celebrações cristãs, o que é determinante para projetar e construir um espaço celebrativo.

No 6º Domingo da Páscoa, depois que os dons do pão e vinho são apresentados e a mesa é preparada, aquele que preside reza, diante dos irmãos e voltado para o Pai: “Suba até vós, ó Deus, as nossas preces com estas oferendas para o sacrifício, a fim de que purificados por vossa bondade, correspondamos cada vez melhor aos sacramentos do vosso amor”.

A frase “preces com estas oferendas para o sacrifício” indica a ação ritual que está em jogo na missa inteira, mas sobretudo a anáfora. É a prece eucarística realizada sobre as oferendas – pão e vinho
– que converterá tais elementos em sacramento da vida entregue de Jesus (= sacrifício). O corpo e sangue do Senhor serão identificados com o pão e vinho somente depois de “eucaristizados”.

A oração sobre as oferendas os denominará “sacramenta pietatis”, que foi traduzido para o português do Brasil por “sacramentos do vosso amor”. Piedade em latim pode significar várias coisas e, dentre elas, destacase amor filial, isto é, amor dedicado aos pais. A prece eucarística é a magna expressão do da relação amorosa que Jesus Cristo, morto e ressuscitado, tem com o Pai. Nela e por ela, a obra da nossa redenção, isto é, sua oblação pascal, tornam-se atuantes no corpo da Igreja em oração.

A oração sobre as oferendas é concluída com uma súplica “purificados por vossa bondade, correspondamos melhor aos sacramentos do vosso amor”. A relação filial que os ritos eucarísticos providenciam no corpo de Cristo tem um impacto não apenas no pão e vinho sobre o altar, mas também
– e sobretudo – naqueles que as oferendas simbolizam, isto é, os fiéis.

Quem celebra a eucaristia deve se apropriar, adaptar e acomodar (verbo latino aptare, traduzido por corresponder) à relação que se desenrola entre Cristo e o Pai, isto é, a vida no amor filial. Este tipo de existência corresponde ao que chamamos de “vida no Espírito”. Mas esta vida segundo o Espírito de Cristo implica reconhecer aosoutros que oferecem conosco o sacrifício de louvor – como bem afirma o Canon Romano – de irmãos e irmãs. O amor filial de Cristo é que funda a fraternidade eclesial e também universal.

Projetar e construir uma nova Igreja ou reformar espaços já erigidos deve vislumbrar o amor filial de Cristo que se verifica na mediação ritual da assembleia. Deve dar condições para que os fiéis possam participar da intimidade trinitária que se derrama sobre em seus corações. E, por sua vez, deverá também favorecer a fraternidade consequente a este mesmo amor.

Pe. Márcio Pimentel – mestre em Liturgia
Paróquia São Sebastião e São Vicente – Arquidiocese de Belo Horizonte

Fonte: http://arquidiocesebh.org.br

SOLENIDADE DE PENTECOSTES

Homilia de Domingo 09.06.2019

Jesus ressuscitado está vivo na comunidade 

1ª Leitura: At 2,1-11
Salmo: 103
2ª Leitura: 1Cor 12,3b-7.12-13

Evangelho:  João 20, 19-23

-* 19 Era o primeiro dia da semana. Ao anoitecer desse dia, estando fechadas as portas do lugar onde se achavam os discípulos por medo das autoridades dos judeus, Jesus entrou. Ficou no meio deles e disse: «A paz esteja com vocês.» 20 Dizendo isso, mostrou-lhes as mãos e o lado. Então os discípulos ficaram contentes por ver o Senhor. 21 Jesus disse de novo para eles: «A paz esteja com vocês. Assim como o Pai me enviou, eu também envio vocês.» 22 Tendo falado isso, Jesus soprou sobre eles, dizendo: «Recebam o Espírito Santo. 23 Os pecados daqueles que vocês perdoarem, serão perdoados. Os pecados daqueles que vocês não perdoarem, não serão perdoados.» * 19-23: O medo impede o anúncio e o testemunho. Jesus liberta do medo, mostrando que o amor doado até à morte é sinal de vitória e alegria. Depois, convoca seus seguidores para a missão no meio do mundo, infunde neles o Espírito da vida nova e mostra-lhes o objetivo da missão: continuar a atividade dele, provocando o julgamento. De fato, a aceitação ou recusa do amor de Deus, trazido por Jesus, é o critério de discernimento que leva o homem a tomar consciência da sentença que cada um atrai para si próprio: sentença de libertação ou de condenação.

COMENTÁRIO  HOMILÉTICO

A Igreja, o Espírito e a unidade

Pentecostes é a plenificação do Mistério pascal: a comunhão com o Ressuscitado só é completa pelo dom do Espírito, que continua em nós a obra do Cristo e sua presença gloriosa. A liturgia de hoje acentua a manifestação histórica  do Espírito no milagre de Pentecostes (1ª leitura) e nos carismas da Igreja (2ª leitura), sinais da unidade e paz que o Cristo veio trazer. Isto, porque a pregação dos apóstolos, anunciando o Ressuscitado, supera a divisão de raças e línguas, e porque a diversidade de dons na Igreja serve para a edificação do povo unido, o Corpo do qual Cristo é a cabeça. Ambos estes temas podem alimentar a reflexão de hoje.

No antigo Israel, Pentecostes era uma festa agrícola (primícias da safra, no hemis­fério setentrional). Mais tarde, foi relacionada com o evento salvífico central da Alian­ça mosaica: ganhou o sentido de comemoração da proclamação da Lei no monte Sinai. Tornou-se uma das três grandes festas em que os judeus subiam em romaria a Jerusa­lém (as outras são Páscoa e Tabernáculos). Foi nesta festa que aconteceu a “explosão” do Espírito Santo, a força que levou os apóstolos a tomarem a palavra e a proclamarem, diante da multidão reunida de todos os cantos do judaísmo, o anúncio (“querigma”) de Jesus Cristo. Seria errado pensar que o Espírito tivesse sido dado naquele momento pela primeira vez. O evangelho (de João) nos ensina que Jesus comunicou o Espírito no próprio dia da Páscoa. O Espírito está sempre aí. Mas foi no dia de Pentecostes que esta realidade se manifestou ao mundo. Por isso, ele aparece em forma de línguas, ope­rando o milagre das línguas e reparando a “confusão babilônica” (cf. vigília) (15).

A essa proclamação universal aludem o canto da entrada (opção I), a oração do dia e a 1ª leitura. O Espírito leva a proclamar os magnalia Dei em todas as línguas. O conteúdo desta proclamação, já o conhecemos dos domingos anteriores: é o querigma da ressurreição de Jesus Cristo. Novamente, o Sl 104[103] comenta este fato (salmo responsorial ).

A 2ª  leitura mostra, por assim dizer, a obra “intra-eclesial” do Espírito: a multifor­midade dos dons, dentro do mesmo Espírito, como as múltiplas funções em um mesmo corpo. Paulo chama isto de “carismas”, dons da graça de Deus; pois sabemos muito bem que tal unidade na diversidade não é algo que vem de nossa ambição pessoal (que, nor­malmente, só produz divisão). É o Espírito do amor de Deus que tudo une.

No evangelho encontramos a visão joanina da “exaltação” de Jesus: é a realidade única de sua morte, ressurreição e dom do Espírito, pois sua morte é a obra em que Deus é glorificado, e seu lado aberto é a fonte do Espírito para os fiéis (Jo 7,37-39; 19,31-37; cf. vigília). Assim, no próprio dia da ressurreição, Jesus aparece aos seus para lhes comunicar a sua paz (cf. 14,27) e conceder o dom do Espírito, para tirar o pecado do mundo, ou seja, para que eles continuem sua obra salvadora (cf. 1,29.35).

Este Espírito do Senhor exaltado é o laço do amor divino que nos une, que trans­forma o mundo em nova criação, sem mancha nem pecado, na qual todos entendem a voz de Deus. É essa a mensagem da liturgia de hoje. O mundo é renovado conforme a obra de Cristo, que nós, no seu Espírito, levamos adiante. Neste sentido, é a festa da Igreja que nasceu do lado aberto do Salvador e manifestou sua missão no dia de Pente­costes. Igreja que nasce, não de organizações e instituições, mas da força graciosa (“ca­risma”) que Deus infunde no coração e nos lábios. A festa de hoje nos ajuda a entender o que é renovação carismática: não uma avalanche de fenômenos estranhos, mas o es­pírito do perdão e da unidade que ganha força decisiva na Igreja. O Espírito Santo é a “alma” da Igreja, o calor de nossa fé e de nossa comunhão eclesial. A antiga seqüência Veni Sancte Spiritus expressa isso maravilhosamente, e seria bom pôr os fiéis, median­te canto ou recitação, novamente em contato com esse rico texto.

A Igreja, por sua unidade no Espírito, no vínculo da paz (Ef 4,3), toma-se sacra­mento (sinal operante), do perdão, da unidade, da paz no mundo, na medida em que ela o coloca em contato com o senhorio do Cristo pascal, no querigma e na práxis.

(*) Este tema lembra uma antiga lenda judaica, segundo a qual, no Sinai, a proclamação da Lei teria sido confiada aos setenta anciãos, em setenta línguas (no relato do Pentecostes cristão, o anúncio é confiado aos doze apóstolos, talvez em doze línguas). 

 

MENSAGEM

A Igreja inicia sua missão profética 

Pentecostes é o aniversário da Igreja? Sob certo aspecto, sim. A primeira comunidade tinha sido reunida por Jesus durante a sua vida. Mas o que foi tão decisivo na data de Pentecostes, depois de sua morte e ressurreição, é que aí começou a proclamação ao mundo inteiro da Salvação em Jesus Cristo, morto e ressuscitado. Para os antigos judeus, Pentecostes era o aniversário da proclamação da lei no Monte Sinai: esta proclamação constituiu, por assim dizer, Israel como povo, deu-lhe uma “constituição”. De modo semelhante, quando os apóstolos proclamam no dia de Pentecostes a salvação em Jesus Cristo, é constituído o novo povo de Deus. Não só Israel, mas todos os povos são agora alcançados, cada um em sua própria língua (1ª leitura).

Até hoje, a Igreja continua procurando alcançar todos os povos, grupos, classes e raças, numa linguagem que os atinja. Não necessariamente na linguagem que lhes agrade! Aos pobres, terá que falar uma linguagem de carinho e animação; aos ricos, uma linguagem provocadora, para descongelar seu coração. Mas, de qualquer modo, a todos ela deverá explicar na linguagem adequada – que na conversão a Cristo se encontra a salvação.

O verdadeiro milagre das línguas não consiste em dizer “Aleluia” em todas as línguas, mas em falar com clareza para todos os povos, raças e classes. Os diversos dons do Espírito Santo, de que fala a 2ª  leitura, servem exatamente para isto: para atingir as pessoas de todas as maneiras, para sermos profetas da Nova Aliança, selada por Cristo em seu próprio sangue e agora publicada para o mundo sob o impulso de seu Espírito. Como Moisés e os setenta anciãos no Sinai se tornaram porta-vozes de Deus e da antiga Aliança (*), assim agora, a partir de Pentecostes, a Igreja deve tornar-se toda profética, denunciando o que está errado e anunciando a salvação que está na fraternidade e na comunhão que Jesus veio instaurar. Assim, o Espírito de Deus renovará, pela Igreja, a face da terra (cf. salmo responsorial).

(*) Lembra uma antiga lenda judaica, que conta como, no Sinai, a proclamação da Lei teria sido confiada aos setenta anciãos, em setenta línguas (só que agora os setenta anciãos são os doze apóstolos).

franciscanos.org.br

 

 

 

                    O Espírito Santo e a Igreja

 

A palavra “espírito”, em hebraico, é “ruah”,  e traz a  ideia de “vento” –, é Deus, que fala, ouve, movimenta e, sobretudo, ama. Portanto, o Espírito não é simplesmente algo de Deus inanimado em nós, mas é Pessoa d’Ele que habita em e na nossa intimidade. O Espírito é o Paráclito, Advogado, sobretudo é amigo íntimo. Nas origens do cristianismo, deu-se aquilo que ficou conhecido como Pentecostes: um vento forte perpassou a comunidade cristã primitiva e todos os seguidores de Jesus sentiram-se abalados, sacudidos, envolvidos num clima de entusiasmo, de euforia, de alegria escatológica. Nasceu aí a esperança inaudita de um retorno imediato do Senhor, presente em ações.

Para nos basearmos na essência do Espírito Santo, firmamos aqui na seguinte afirmação: “Desde o nascimento da Igreja, é Ele quem dá a todos os povos o conhecimento do verdadeiro Deus; e une, numa só fé, a diversidade das raças e línguas”. (PREFÁCIO – O Mistério de Pentecostes).  

Temos muitas atividades, muitos tipos de serviços, e tudo em vista do bem de todos. O Espírito, porém, é um só. Todos nós que fomos batizados no único e mesmo Espírito formamos um só corpo. É o Espírito que nos junta na unidade. Bebemos todos da mesma fonte, que é o próprio Espírito Santo.

Queridos, sem qualquer margem de dúvida, é o Espírito Santo quem promove na igreja toda a ação dinâmica missionária. É Ele quem dá a vida à Igreja. Podemos dizer que é a “difusão e evolução da Igreja”, pois a  caminhada missionária  da Igreja começa  em Pentecostes  quando o Espírito Santo entra em  suas  entranhas e a torna  viva e atuante! É a partir de Pentecostes, que a igreja começa a falar, a falar a linguagem do amor, que é uma linguagem universal, e que mesmo sendo desdobrada em vários idiomas, é a única linguagem capaz de ser compreendida pelos povos de todas as nações. A Igreja é unidade, é a defensora do amor, amor divino, provido do Pai, do Filho e do Espírito Santo!

Jamais podemos falar do Espírito, sem falar de sua dimensão missionária, podemos dizer que é falar de missão. Missão essa que, sem sombra de dúvidas, consiste em revelar a todos os homens  a vida nova que brota da ressurreição de Cristo! Eis aqui  a maior riqueza revelada, abertura a todos os povos e culturas!

E assim, com toda essa dimensão, o dia de pentecostes é dia de uma grande festa missionária, e que devemos alargar o nosso olhar para o mundo inteiro, onde a  Igreja se faz presente na pessoa de muitos missionários, homens e mulheres,  que, apesar das inúmeras dificuldades, se prontificam em doar-se em missão e a gastar a vida  na difusão do Evangelho. E também um convite a unirmos a estes missionários, no desejo  de fazer chegar a outros irmãos  a verdade que liberta!

Sabemos que os desafios de quem se entrega à missionariedade são inúmeros, mas sabemos também que o Espírito Santo anima e dá força a quem abraça a missão de  anunciar e  testemunhar o Evangelho, ponto decisivo para a história da salvação!

O Pentecostes atual da Igreja não aliena o cristão do mundo, nem o fecha no templo. Somos cristãos “em saída”, respirando e proclamando as maravilhas de Deus. Que Maria, esposa do Espírito Santo, que rezou e confortou os apóstolos à espera dele, interceda por nós e nos apoie na perseverança.

Michel Hoguinele

Referências:

FRANGIOTTI, Roque.

CONGREGAÇÃO PARA O CULTO DIVINO. Missal Romano

SALVIANO, José. Homilia de Pentecostes. 

Homilia Dominical, BÍBLIA SAGRADA

      A catequese na era digital

                                                                                                     

“Jesus atrai a si os homens de cada geração, convocando a Igreja a anunciar o Evangelho, com um mandato que é sempre novo. Hoje, é necessário um empenho eclesial mais convicto a favor de uma nova evangelização, para redescobrir a alegria de crer e o entusiasmo de comunicar a fé.” Faz-se necessária uma reflexão da era digital e a sua interface com a Igreja na qual é interpelada pelas mudanças trazidas à sociedade que nos impelem a ações inovadoras.

É essencial educar as novas gerações para a convivência com o mundo da comunicação. Hoje, a comunicação digital faz-se presente em todos os espaços e conversas, e até na intimidade do lar. Temos que compreender as pessoas e a sociedade na qual vivemos para obter êxito na ação evangelizadora e procurar entender o mundo de hoje, sujeito a rápidas mudanças.

“Na criação do homem e da mulher e de todos os seres, Deus revelou-se como autor e comunicador da vida na sua expressão mais ampla e profunda. Comunicação é dom de Deus, é relação entre o Criador e suas criaturas. A predileção de Deus pelo ser humano e a missão que lhe confia na criação exigem do homem e da mulher uma resposta livre e uma abertura para o diálogo. Comunicar é um dom e uma responsabilidade.”

O ambiente digital não é um mundo paralelo ou puramente virtual, faz parte da realidade digital das pessoas. As redes sociais são espaços humanizadores e a internet também é o lugar da fé. Devemos abrir o nosso olhar para este mundo digital na catequese, aguçando os sentidos para uma tomada de consciência sobre este veículo importante na comunicação. É nosso dever orientar os nossos catequizandos quanto ao uso desta rede e fazer proveito dela na evangelização, formando bons comunicadores, visando o bem comum, apontando os seus benefícios e os seus malefícios, uma vez que as redes sociais digitais estão presentes na vida de grande parte dos catequizandos.

Somos todos comunicadores e a comunicação pertence à essência da Igreja. “Jesus disse aos seus discípulos: Vá pelo mundo e anuncie o evangelho a toda criatura.”

“O desafio hoje é descobrir e transmitir a mística de viver juntos, misturar-nos, encontrar-nos, dar o braço, apoiar-nos, participar desta maré um pouco caótica que pode transformar-se em uma experiência de fraternidade, em uma caravana solidária, em uma peregrinação sagrada para uma tomada de consciência sobre este veículo importante na comunicação.”

“A rede digital pode ser um lugar rico de humanidade: não uma rede de fios, mas de pessoas humanas que contribuem para fortalecer os laços de amizade.”

Fonte: Diretório de Comunicação da Igreja no Brasil, da CNBB

 Vera Pimenta

A Espiritualidade da conexão!

«Somos membros uns dos outros» (Ef 4, 25). Este é o tema da Mensagem do Papa Francisco para o dia Mundial das Comunicações Sociais para 2019.

Diz o Papa: “É necessário reconhecer que se, por um lado, as redes sociais servem para nos conectarmos melhor, fazendo-nos encontrar e ajudar uns aos outros, por outro, prestam-se também a um uso manipulador dos dados pessoais, visando obter vantagens no plano político ou econômico, sem o devido respeito pela pessoa e seus direitos”.

No evangelho de João (Jo 15,1-8) Jesus se revela como Videira Verdadeira. Por 7 vezes  no Evangelho  aparece a palavra “permanecer” – que pode também significar demorar-se, habitar, ficar, continuar… A expressão revela a intimidade de Deus com a humanidade. Quando estamos conectados a essa Videira, vivemos a comunicação íntima com Deus e com a humanidade através da seiva do Espírito que nos une.

A era tecnológica e virtual despertou para a permanente conexão. Somos um todo conectado. A humanidade vive sua integralidade e vai descobrindo nas conexões que faz o sentido da vida. Lentamente vamos crescendo nas pontes que construímos entre culturas, fronteiras, raças, ideologias, religiões, sexos… Ao mesmo tempo, como ponto de reação, vemos crescer aspectos de fundamentalismo travestidos em muros que nos separam e buscam cortar os fios que nos conectam.

A conexão mantém-se como espiritualidade, horizonte e caminho. Pela fé, estamos conectados a Jesus, o Crucificado-Ressuscitado, que nos provoca a vida de comunidade de irmãos e irmãs.

Já no Evangelho de Marcos (Mc 16,15-20), apresenta Jesus Ressuscitado dando recomendações para a missão dos 11 discípulos. Uma delas chama mais atenção: “falarão novas línguas”. É curso linguístico que Jesus quer? É saber falar  várias línguas? Talvez sim, no sentido de que a missão ultrapassa fronteiras geográficas, mas pode ser mais que isso.

Penso que “falar novas línguas” está mais para aproximação do que para distanciamento. Por isto, não se trata de linguagens “incompreensíveis”. Certos “blá- blá-blás”, travestidos de gritos da fé, que geram mais falta de comunicação. Falar novas línguas é abrir-se para a realidade tangível, que pode ser tocada.

Fico pensando nas linguagens novas desse tempo: a tecnologia, por exemplo. Não tenho dúvidas que Jesus falaria dessa “nova língua” das redes sociais, do whatsapp, das imagens…

É injusto e imoral julgar códigos linguísticos que não conhecemos apenas porque não correspondem ao nosso padrão. Há linguagens criadas por grupos afins, por tribos juvenis, por moradores de determinada região, que nada têm a ver com expressões iguais de outros locais.

“Falar novas línguas” é adentrar nesse universo com a “linguagem do amor”, com a “linguagem do silêncio”, com a “linguagem da escuta”, com a “linguagem da acolhida”. Estas linguagens sempre nos aproximam e nos unem porque quebram barreiras.

É nossa missão “falar novas línguas”. Abrir-nos à novidade dos sinais dos tempos, sempre cheios da presença de Deus que quer ser descoberto na novidade do cotidiano. Isso é ir do “like” ao “amém”.

                  Pe. Hermes F. Pedro

Curta Nossa Fanpage:

Empresas que possibilitam este projeto:

Arquivo