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Por que as imagens são cobertas no final da quaresma?

A tradição de cobrir os santos nos últimos dias da Quaresma é muito antiga. Para entendê-la é preciso primeiro entender o que significam as imagens dos santos numa igreja.

Quando entramos na Igreja e vemos as imagens, recordamos o mistério da Comunhão dos Santos: nós formamos com Eles, que já estão glorificados com Cristo Ressuscitado, a única Igreja que é Igreja Triunfante (que está nos céus), Igreja padecente (no Purgatório) e Igreja militante (nós na Terra). As imagens são, pois, uma mensagem de alegria: anunciam para nós essa consoladora e alegre verdade da fé de que estamos unidos à vitória daqueles que viveram antes de nós e – como nós – seguiram a Jesus.

Quando cobrimos os santos na quaresma, poucos dias antes da Semana Santa, queremos lembrar que, antes de viverem o mistério da glória com Cristo, passaram pelo mistério da dor, dos sofrimentos e da morte de Jesus. Os santos não são cobertos como sinal de luto, mas sim como sinal do mistério de “solidariedade” e união profunda ao mistério da Paixão do Senhor. Nós os cobrimos, dando um ar “pesante” ao espaço litúrgico, nada alegre, pois agora é tempo de pensar na Paixão do Senhor.

Isso fica ainda mais claro quando na Vigília Pascal vemos cair os panos roxos e volta a alegria pois, no lugar daquela cor pesada e triste, aparecem de novo as imagens coloridas e bonitas, sinais de quem venceu com Cristo, tendo passado pela sua cruz em união à Dele.

Cobrir e descobrir os santos, então, nos remete ao Mistério Pascal, que é mistério de morte e ressurreição, de sofrimento e de alegria, de perda e de vitória. Cobrir os santos é linguagem simbólica muito expressiva, que tem sido recuperada em muitas Comunidades Cristãs, que estão se conscientizando do valor e da necessidade do simbolismo na caminhada humana.

Também conhecido como “Velatio“, este costume de cobrir as imagens das Igrejas com tecido roxo durante a Quaresma, é para que os fiéis não “se distraiam” com os Santos e que a sua devoção deve estar fundamentada no Mistério Pascal de Cristo, ou seja, na Sua paixão, morte e ressurreição.

Assim, cobrindo-se todas as imagens dos Santos e os crucifixos, surge com maior evidência o que há de essencial nas igrejas: o altar, onde se opera e atualiza o Mistério Pascal de Cristo, por seu Sacrifício incruento.

A rubrica no Missal Romano, 2ª edição típica, no sábado da IV semana da Quaresma (pág. 211, em português) e também a contida na Paschalis Sollemnitatis: A Preparação e Celebração das Festas Pascais, nº 26, nos ensina que:

“o uso (costume) de cobrir as cruzes e as imagens na igreja, desde o V Domingo da Quaresma, pode ser conservado segundo a disposição da Conferência Episcopal. As cruzes permanecem cobertas até ao término da celebração da Paixão do Senhor na Sexta-feira Santa; as imagens até ao início da Vigília Pascal”.

 

Fonte: paroquiasantana.org.br (com adaptações)

 

Se o desperdício não morrer… a vida não brotará

Busco inspiração no Evangelho de João, mais exatamente na narrativa do encontro entre Jesus e a Samaritana na fonte, na nascente, digo no poço de Jacó para um alerta relativo ao Dia Mundial da Água, comemorado anualmente em 22 de março. Se no texto bíblico a graça da salvação é comparada por Cristo com a Água da Vida, só isso já elevaria a nossa preocupação com o que fazemos com o precioso líquido, sem o qual definhamos, secamos… sem o qual não há vida neste planeta água chamado Terra.

Diante da atual campanha da fraternidade que nos leva a refletir sobre a fraternidade e políticas públicas, o tema ganha uma dimensão agigantada e urgente. Já que muitos de nós, só nos lembramos da responsabilidade individual com as fontes, com a natureza em si – dons que recebemos do Criador – quando a escassez nos assusta. Assim, sob o foco do “serás libertado pelo direito e pela justiça”, cabe lembrar que o direito de todo cidadão é apenas um dos lados do conjunto que nos leva à justiça, à democracia e à liberdade numa vida em sociedade.

Mergulhemos então, novamente na Água da Vida! Conhecido como “príncipe dos pregadores”, Charles H. Spurgeon um destacado evangelista cristão do século 19, em um de seus sermões diria que “a Graça de Deus no mundo mental e espiritual é exatamente o que a água é no mundo natural”. A analogia usa o elemento essencial para a vida no mundo natural, para facilitar o entendimento do que a Graça Divina é para o ser humano.

Refletindo sobre a cena da Samaritana diante da fonte da Água da Vida, Spurgeon dizia que o ser humano, depende da água já que parte de seu corpo físico é formado por ela e, sem ela é pó. No entanto, já sabemos que mesmo assim, em certas ocasiões pode até negligenciá-la, desperdiçá-la, poluí-la, secá-la, crucificá-la quando alaga nossas casas. Em outras ocasiões a água é uma necessidade imperativa. Devemos beber ou morrer.

O famoso pregador, dizia que a Graça de Deus é como a água em nada menos do que em oito sentidos. O principal é que sacia a sede. No entanto o ser humano é tão tolo que não sabe, o que seu corpo e seu espírito necessitam, mas ele sente que precisa de algo… Se tem conhecimento exato ou não de suas necessidades, o fato é que levado por tantos outros interesses, costumamos deixar de lado tanto a Graça quanto a Água. Desperdiçamos, usamos com ganância, sem respeito às leis da natureza e as regras do meio ambiente em que vivemos.

Mas não estamos aqui eternamente. Se a chance de receber a Graça de Deus, para nós tem tempo curto, penso que as fontes de água deste planeta Terra, podem acabar se secando para nós. Exagero? Não seria nada cristão pensar assim. Isso nos leva a não compartilhar, a não pensar que depois de nós, outros vão precisar do poço, da nascente, da fonte de H²O.

No ano passado, a ONU – Organização das Nações Unidas, focou as reflexões sobre o Dia Mundial da Água, no uso de soluções baseadas no próprio meio ambiente para resolver problemas de gestão dos recursos hídricos. Com a campanha “A resposta está na natureza”, reforçou estratégias de preservação e restauração ambiental para proteger o ciclo da água e melhorar a qualidade de vida da população.

Segundo dados da ONU, o uso doméstico da água doce representa apenas 10% do consumo total, e a proporção de água potável que é bebida pela população equivale a menos de 1%. Por outro lado, a agricultura é responsável por 70% do consumo de recursos hídricos — a maior parte vai para a irrigação das plantações. O que aumenta em áreas com maior densidade populacional e falta d’água. O campo é seguido pela indústria, que responde por 20% da água utilizada em atividades humanas.

Com as transformações do clima e a manutenção de padrões insustentáveis de produção e extração de minérios, a poluição e a desigualdade na distribuição vão se agravando, bem como os desastres associados à gestão da água.
Hoje, 1,9 bilhão de indivíduos vivem em áreas que poderão ter escassez severa de água. Até 2050, o número pode chegar a cerca de 3 bilhões. Aproximadamente 1,8 bilhão de pessoas já são afetadas pela degradação da terra e pelo fenômeno conhecido como desertificação.

O território brasileiro contém cerca de 12% de toda a água doce do planeta. Ao todo, são 200 mil microbacias espalhadas em 12 regiões hidrográficas, como as bacias do São Francisco, do Paraná e a Amazônica (a mais extensa do mundo e 60% dela localizada no Brasil). É um enorme potencial hídrico, capaz de prover um volume de água por pessoa 19 vezes superior ao mínimo estabelecido pela ONU. Apesar da abundância, os recursos hídricos brasileiros não são inesgotáveis. O acesso à água não é igual para todos. As características geográficas de cada região e as mudanças de vazão dos rios afetam a distribuição.

Dito isso, creio que os leitores já encontraram a justificativa do título que usei para este artigo, que faz uma referência a outro trecho do Evangelho de (João 12:23-25). Ele fala da necessidade do grão de trigo, morrer ao cair na terra, para poder germinar e contribuir com uma nova vida. Assim, peçamos a Deus que nos ajude a enterrar o desperdício de água, que deixando o desperdício na terra frutifiquemos mais estratégias de restauração e preservação ambiental. Que ao sepultar o costume do desperdício deixemos germinar a proteção ao ciclo da água da qualidade de vida.

Evandro José de Alvarenga é Jornalista –
Vereador em Guanhães e oficineiro voluntário no CRAS

ANITTA

Vivemos, há certo tempo, um período de músicas de gosto (muito) duvidoso; são letras e sons passageiros. Tocam praticamente 24 horas por alguns meses, depois caem no esquecimento. Rapidamente viram peça de museu digital, afinal, o bom tempo dos LPs e fitas K7 ficou para trás. Agora, tudo é eletrônico. Nessa onda, um nome surgiu, se destacou e está, com frequência, lançando novas composições. É a cantora Anitta. Seis anos atrás, ela lançou seu primeiro trabalho na internet. Apenas o vídeo oficial, nesse período, foi visto mais de 100 milhões de vezes, equivalente à população do Egito. Um ano depois, o segundo material lançado registrou aumento de 50% em acessos, alcançando 150 milhões de visualizações, a soma das populações russas e uruguaias. Em 24 meses, 250 milhões de cliques para Anitta, número superior ao povo brasileiro.

Você deve estar pensando: o jornal da Diocese de Guanhães trazendo um artigo sobre Anitta? Calma! Não pretendo escrever sobre as “músicas”, nem cirurgia plástica ou a vida pessoal de Larissa de Macedo Machado (nome de nossa personagem). A proposta é outra e é – na nossa ótica – mais interessante.

Aos sete anos de idade, a garota católica era membro de uma equipe de liturgia; com 11, usava a mesada para estudar inglês e ganhou uma bolsa de estudos para fazer dança de salão; aos 16, estudante de curso técnico de administração, quando estudou marketing e foi estagiária da Vale. O que a maioria de nós fazia aos sete, 11, 16, 25 anos (idade da cantora)? O que a maioria da galera da geração atual faz? Naturalmente poucos ou poucas terão os mesmos resultados de Anitta, contudo a estrela é um exemplo de empreendedorismo.

Cantores, atores e atletas têm empresários, pessoas influentes, responsáveis por gerenciar suas carreiras, cuidar da imagem, regular qualquer coisa a respeito da celebridade. Anitta é empresária de Anitta. Mas, enganam-se quem pensa nela apenas como uma voz atrás dos microfones. Ela é garota propaganda de marca de automóveis, tem seus próprios negócios cuida, através de sua empresa, de astros e estrelas. Tirando os trabalhos de gosto duvidoso, não há como negar: trata-se de uma jovem empreendedora.

Meses atrás, um fato (na época, curioso) chamou minha atenção. Anitta foi convidada para palestrar em Harvard, nos Estados Unidos, uma das principais universidades do planeta, onde graduou em direito o ex-presidente norte-americano, Barack Obama. Meu susto e estranheza, confesso, movidos por desconhecimento e preconceito, deram lugar a uma surpresa muito agradável e uma lição: não mais julgar o conteúdo apenas pela embalagem ou vice-versa. A brasileira, dentro de uma das maiores instituições de ensino do mundo, não só deu show (trocadilho inevitável), como falou aos estudantes em inglês fluente. Reforço: as músicas dela não me agradam nem um pouco, contudo, sou admirador da visão empreendedora e do profissionalismo de Anitta.

Juliano Nunes, jornalista

Homilia do 1°Domingo da Quaresma – Ano C

HOMILIA do 1º Domingo da Quaresma/Ano C

Liturgia da Palavra

1ª Leitura: Dt 26,4-10
Salmo: 90
2ª Leitura: Rm 10, 8-13
Evangelho: Lc 4,1-13

* 1 Repleto do Espírito Santo, Jesus voltou do rio Jordão, e era conduzido pelo Espírito através do deserto. 2 Aí ele foi tentado pelo diabo durante quarenta dias. Não comeu nada nesses dias e, depois disso, sentiu fome. 3 Então o diabo disse a Jesus: «Se tu és Filho de Deus, manda que essa pedra se torne pão.» 4 Jesus respondeu: «A Escritura diz: ‘Não só de pão vive o homem’.» 5 O diabo levou Jesus para o alto. Mostrou-lhe por um instante todos os reinos do mundo. 6 E lhe disse: «Eu te darei todo o poder e riqueza desses reinos, porque tudo isso foi entregue a mim, e posso dá-lo a quem eu quiser. 7 Portanto, se te ajoelhares diante de mim, tudo isso será teu.» 8 Jesus respondeu: «A Escritura diz: ‘Você adorará o Senhor seu Deus, e somente a ele servirá’.» 9 Depois o diabo levou Jesus a Jerusalém, colocou-o na parte mais alta do Templo. E lhe disse: «Se tu és Filho de Deus, joga-te daqui para baixo. 10 Porque a Escritura diz: ‘Deus ordenará aos seus anjos a teu respeito, que te guardem com cuidado’. 11 E mais ainda: ‘Eles te levarão nas mãos, para que não tropeces em nenhuma pedra’.» 12 Mas Jesus respondeu: «A Escritura diz: ‘Não tente o Senhor seu Deus’.» 13 Tendo esgotado todas as formas de tentação, o diabo se afastou de Jesus, para voltar no tempo oportuno.

*4,1-13: Cf. nota em Mc 1,12-13 e em Mt 4,1-11. Lucas inverte a ordem das duas últimas tentações, porque em Jerusalém (Templo) é que acontecerá a suprema tentação e a vitória final sobre ela.

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral

* Comentário: Jesus resiste à tentação

Quaresma, quadragésimo dia antes da Páscoa. Na Igreja das origens, era o tempo de preparação para o batismo na noite pascal. Aprendia-se o Credo. Por isso, a 1ª leitura de hoje cita o “credo do israelita”. Ao oferecer as primícias da terra, na primavera (= março-maio, na Palestina), o israelita se lembrava dos quarenta anos passados no deserto, sob a firme condução de Javé Deus, conclusão da peregrinação iniciada por Abraão nas origens do povo. Para ser liberto da escravidão, Israel atravessou o deserto durante quarenta anos, tempo de uma geração: o povo saiu renovado. Tudo isso, o israelita o recordava anualmente ao oferecer suas primícias a Deus.

O cristão, ao apresentar-se diante de Deus, seja na comunidade reunida em assembléia, seja no silêncio de seu coração, recorda uma outra libertação: a que libertou Jesus da morte e o fez passar para a glória, a “passagem” não do anjo exterminador, mas do Cristo, que significa também nossa passagem da morte para a vida. “Jesus é o Senhor… Deus o ressuscitou dos mortos” (Rm 8,10; 2ª leitura). Para poder proclamar esta fé, na noite do “novo dia”, Páscoa, o cristão passa um “tempo de quarentena”, para sair completamente renovado.

Também Jesus passou por um “tempo de quarentena” (evangelho). Reviveu toda a história do povo. Conheceu a tentação da fome (cf. Nm 14), mas recordou o ensinamento de Deus: “Não se vive só de pão” (Dt 8,3). Conheceu a tentação do bezerro de ouro, ou seja, de adorar um falso deus, que fornecesse riqueza (cf. Ex 32); mas respondeu, com a palavra de Deus: “Só a Deus adorarás” (Dt 6,13). Conheceu a tentação mais refinada que se pode imaginar, a de manipular o poder de Deus para encurtar o caminho; mas a experiência de Israel, resumida em Dt, lhe oferece novamente a resposta: “Não tentarás o Senhor, teu Deus” (Dt 6,16). Jesus venceu o tentador no seu próprio terreno, o deserto, onde moram as serpentes e os escorpiões, onde Deus provou Israel, mas também Israel tinha colocado o próprio Deus à prova (Sl 95[94],9). Jesus não tentou Deus, mas venceu o tentador. Pelo menos por enquanto, pois a grande tentação ficou para “a hora determinada” (cf. Lc 22,3.31.39).

Em Lc, Jesus é o grande orante, o modelo do fiel. Jesus resistiu à tentação de tentar Deus: sinal de sua imensa confiança no Pai. Ele professa a fé no único Deus como regra de sua vida. Ele se alimenta com a palavra que sai da boca do Altíssimo. Nossa quaresma deve ser um estar com Jesus no deserto, para, como ele, dar a Deus o lugar central de nossa vida. Como ele, com ele e por ele, pois é dando a Jesus o lugar central, que o damos a Deus também. Neste sentido, a quaresma é realmente “ser sepultado com Cristo”, para, na noite pascal, com ele ressuscitar.

Lc traz as tentações em ordem diferente de Mt (cf. ano A). Em Mt, o auge é a tentação de adorar o demônio; em Lc, o “transporte” para Jerusalém. Ora, todo o evangelho de Lc é uma migração de Jesus para Jerusalém, e a tentação decisiva será a “tentação de Jerusalém”. Jesus resistirá a esse ataque decisivo, na mesma cidade de Jerusalém. Assim, as tentações prefiguram o caminho de Jesus. Por isso é tão importante que nós nos unamos a ele neste “tempo de quarenta”, em espírito de prova de nossa fé e vida.

É isso que lembra a oração do dia: tornar nossa vida conforme à do Cristo. O salmo responsorial é o Sl 91 [90], que inspirou o Satanás para a terceira tentação, mas que também contém em si a resposta ao Satanás: a ilimitada confiança em Deus.

Do livro “Liturgia Dominical”, de Johan Konings, SJ, Editora Vozes

Mensagem: Treinamento de fé

Devidamente desacelerados do Carnaval, celebramos o 1º domingo da Quaresma. Aos mais velhos, “Quaresma” lembra jejum e penitência. Mas Isaías diz que Deus não se alegra com uma cara abatida. Talvez devamos encarar a Quaresma sob outro ângulo: como treinamento da fé. Em que acreditamos, afinal? Por qual convicção colocamos a mão no fogo, resistimos a provações, empenhamos a nossa vida?

Na sua origem, a Quaresma era o tempo de preparação dos catecúmenos para receber o batismo na noite pascal. Neste sentido, a 1ª leitura nos lembra o “credo” que o antigo israelita pronunciava na hora de oferecer os primeiros frutos de sua terra: o povo foi salvo por Deus. A 2ª leitura lembra o credo do cristão (que o batizando com toda a comunidade pronunciava na noite pascal): nossa salvação pela fé em Jesus Cristo. O evangelho mostra este credo em ação: Jesus dá o exemplo de adoração exclusiva a Deus. Jesus foi posto à prova. O diabo lhe sugeriu que transformasse pedras em pão, dominasse o mundo, deslumbrasse o povo … Mas Jesus preferiu fazer de sua vida um grande ato de adoração a Deus. E o diabo o deixou até a hora da grande provação – a hora da paixão e morte.

A Quaresma é uma subida à Páscoa, como os israelitas subiam a Jerusalém para oferecer suas ofertas e como Jesus subiu para oferecer sua vida. Nossa subida à Páscoa está sob o signo da provação e comprovação de nossa fé. Encaminhamo-nos para a grande renovação de nossa opção de fé. Se, nos primeiros tempos da Igreja, a Quaresma era preparação para o batismo e a profissão de fé, para nós é caminhada de aprofundamento e renovação de nossa fé. Pois uma fé que não passa por nenhuma prova e não vence nenhuma tentação pode se tomar acomodada, morta. Ora, a renovação de nossa opção de fé não acontece na base de algum exercício piedoso ou cursinho teórico. É uma luta, como foi a tentação de Jesus no deserto, ao longo de quarenta dias. A fé se confirma e se aprofunda em sucessivas decisões, como as de Jesus, quando resistia com firmeza e perspicácia às tentações mais sutis: riqueza, poder, sucesso.

Precisamos de treinamento em nossa opção por Deus. Antigamente, esse treinamento consistia no jejum, na mortificação corporal. Mas em nossa situação da América Latina, empobrecida e desigual, o treinamento da opção da fé se realiza sobretudo na sempre renovada opção pelos pobres e excluídos, no adestramento para a solidariedade cristã. A Campanha da Fraternidade nos treina para colocar nossa fé em prática. Adestra-nos para enfrentar os demônios de hoje, a tentação da idolatria da riqueza, da dominação, da discriminação, da competição. Exercitamos a nossa opção de fé, praticando-a na solidariedade fraterna, para, com Jesus, chegar à doação da própria vida, na hora da grande prova. Quem não se exercitar, talvez não saberá resistir.

Do livro “Liturgia Dominical”, de Johan Konings, SJ, Editora Vozes

Políticas públicas a caminho de um Reino para todos

1. A Campanha da Fraternidade (CF) traz para ser iluminado pela fé mais um tema de vital importância para o país: Políticas Públicas. Dentro do espírito que sempre caracteriza a CF, a Igreja propõe que busquemos soluções que construam uma sociedade para todos e não somente para quem tem fé.

2. Políticas Públicas dizem respeito ao modo como o Estado pensa, estrutura e age em relação determinados temas. O Estado é uma sociedade política, formada pelo conjunto dos cidadãos. Em um sistema democrático como o nosso, as manifestações de vontade dos cidadãos se dão indiretamente, através dos representantes eleitos – vereadores, prefeitos, deputados, senadores, governadores e presidente -, ou diretamente nas Audiências Públicas, Conselhos da Comunidade, Conferências, Fóruns e reuniões e em todas as entidades da Sociedade Civil Organizada. Assim, pode-se dizer, as Políticas Públicas refletem o pensamento da maioria das pessoas que efetivamente participaram de sua construção. Elas são o modo como o conjunto dos cidadãos decide cuidar de cada assunto, opção política que orienta as ações a serem executadas pelos governos.

3. Segundo o Texto Base da CF-19, número 10, as Políticas Públicas igualam-se às obras de misericórdia: “nos recordam que a nossa fé se traduz em atos concretos e quotidianos, destinados a ajudar o nosso próximo no corpo e no espírito e sobre os quais havemos de ser julgados: alimentá-lo, visitá-lo, confortá-lo, educá-lo”. São uma oportunidade de “acordar a nossa consciência, muitas vezes adormecida perante o drama da pobreza, e de entrar cada vez mais no coração do Evangelho, onde os pobres são os privilegiados da misericórdia divina.” A Igreja não hesita em dizer que “é tarefa de todo o cristão participar na elaboração e concretização de ações que visem melhorar a vida de todas as pessoas.
4. Com o lema “Serás libertado pelo direito e pela justiça (Is 1.27)” a CF nos lembra que a Bíblia trata o direito como ordem social justa, mas nem sempre é respeitada. O direito é o sistema de normas, regras e leis que atuam na vida concreta das pessoas. Já a justiça é o fundamento e objetivo do direito. Justiça é a motivação interior profunda que nos anima a praticar o direito.

5. Para Jesus a situação é ainda mais radical. Em diálogo com seus discípulos em Mateus 5, 20, diz que essa justiça é fidelidade ao que Deus espera de nós. Ele diz que “se a vossa justiça não ultrapassar a dos escribas e fariseus, de modo algum entrareis no Reino dos céus”. A comunidade cristã precisa promover Políticas Públicas que ultrapassem e aprofundem as ações de inclusão humana, proteção aos desvalidos e distribuição de renda praticadas sem a luz da fé.

6. Na prática a CF-2019 anima as comunidades a tornarem concreta na vida a ordem de Jesus a todos os cristãos: serem sal e luz do mundo. Não é possível concretizar a CF sendo alheios ao que acontece nas comunidades, mas também não se concretiza sendo e fazendo igual ao que hoje se faz. Por isso a CF também é convite a conversão, pois ajuda a buscar no mundo real os sinais da falta da fé e transformá-los.

7. O lugar de atuação do cristão, no contexto das Políticas Públicas, é onde essas políticas são definidas e executadas. Por isso o Texto Base diz que “ao reconhecer que a fraternidade exige Políticas Públicas e que elas são condicionantes para se viver em fraternidade, a Igreja Católica, através da Campanha, nos desafia a testemunhar a justiça participando efetivamente da política, quer seja defendendo, exigindo ou construindo Políticas Públicas que assegurem a vida e a dignidade das pessoas”.

8. Concluindo, a forma mais eficaz e próxima que temos para tornar concreta nossa participação nessa CF é buscar informações e participar dos Conselhos existentes no município, efetivamente participar de Audiências públicas e outros Fóruns onde as discussões são realizadas em vista da tomada de decisões que afetam a vida de toda a comunidade. E apoiar quem participa, pois já dizia o Pe. Vitor, na Rádio Aparecida: quem ajuda na pregação tem merecimentos de pregador. Portanto, quem apóia aqueles que participam tem merecimentos de participante.

Lafaiete Marques Ciara
lafamarques@gmail.com

Política, a arte do diálogo

A boa política é uma “forma eminente de caridade”, ensina o Papa Francisco.  É o caminho fundamental para se construir a cidadania, realizar obras. Uma verdade que precisa tocar o coração de todos, sobretudo dos que se candidatam e são escolhidos pelo povo para o exercício do poder. Mesmo que muitos interesses estejam envolvidos nas discussões políticas, é dever de quem representa o povo permanecer firme na defesa de seus representados, sem se deixar seduzir pelos objetivos de grupos com ambições pouco nobres. A política exige respeito a referências inegociáveis, ancoradas na liberdade e no compromisso com o bem comum. Nesse sentido, a meta de quem exerce o poder deve ser promover a dignidade humana, em profundo respeito à justiça.

A verdadeira política é arte que se vale do diálogo para encontrar as soluções mais adequadas ao bem comum, a partir da argumentação, de compreensões lúcidas sobre a realidade. Oportuno lembrar que a arte tem força para elevar a compreensão humana a novos patamares. Por isso mesmo, o exercício da política, enquanto arte, deve contribuir para que a sociedade avance  rumo a novas conquistas civilizatórias. O interesse tem que ser o bem comum. É isso o que se espera dos representantes eleitos pelo povo. E que não percam a clareza de que o parlamento, em nível federal, estadual ou municipal, é a casa do povo, onde seus representantes estão reunidos, para servi-lo. Assim, a configuração de “bancadas”, para a defesa de interesses muito particulares de alguns segmentos, não raramente contrários ao bem, à justiça e à verdade, é algo incompatível com a boa política.

O exercício do poder exige qualificado debate sobre os diferentes anseios dos diversos segmentos da sociedade, processo indispensável para a construção de entendimentos acertados. É fundamental dialogar no contexto político, com a imprescindível capacidade para reconhecer os clamores do cidadão comum, particularmente dos mais pobres. Compreende-se que ser parlamentar é tornar-se porta-voz, principalmente, dos que sofrem. Na contramão desse sentido, o exercício da representação é de duvidosa qualidade e incapaz de promover melhorias, pois, quando a política é exercida de modo equivocado, contribui para que as riquezas sejam dilapidadas a partir de crimes ambientais e humanitários, em vez de convertidas em benefícios para a vida no planeta. Seja meta dos que ocupam cargos nas instâncias do poder a promoção do desenvolvimento integral, com respeito à natureza, aos valores culturais e religiosos, dentre tantos outros.

Não é tarefa fácil exercer a boa política. Por isso, ante às complexidades e exigências, muitos se afastam dessa responsabilidade. Os estreitamentos ideológicos, por exemplo, também agravam a aversão ao universo político. Mas essas distorções só podem ser corrigidas a partir da arte de dialogar. Assim é que se vencem barreiras e se constroem entendimentos, criando novos marcos regulatórios capazes de revisar legislações inadequadas, que atendem somente a interesses pouco nobres, fontes de crimes ambientais e humanitários.

A política como arte do diálogo é capaz de elevar o exercício da cidadania, reconhecendo que o bem coletivo é a meta central a ser buscada por todos. Dialogar é dinâmica que promove correções, possibilitando aos representantes do povo atuar, cada vez mais, de modo coerente com os anseios de seus representados. Estejam todos abertos ao diálogo, sem medos, preconceitos, para que ocorram os intercâmbios necessários de ideias. Particularmente, os políticos possam ouvir instituições que mereçam respeito, por terem credibilidade e, assim, desenvolver trabalhos comprovadamente importantes para a população, especialmente para os mais pobres.

Fazer com que a política se torne, cada vez mais, a arte do diálogo, exige dos representantes do povo disposição para o exercício da humildade e da generosidade. Abertura para a escuta, sem se apegar a interesses egoístas e cartoriais. Que os políticos renovem a disposição para dialogar, evitando descompassos e, assim, permaneçam firmes na busca pelo bem de todos.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo

Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte

“DÍZIMO, a minha pequena parte fortalece toda a Comunidade”.

Para o sociólogo Émile Durkheim em “Lições de Sociologia”, o dízimo teria origem no pensamento mítico, primeiramente como sacrifícios e ofertas aos deuses e divindades para obter “permissão” divina para o bom cultivo de bens mundanos, seja na pesca, coleta, agricultura, etc. Transmutou-se em dízimo em certas religiões, e por fim, transmutou-se em impostos, que seria a versão secular do dízimo.

Dízimo sob a ótica Protestante: A primeira menção de dízimo na Bíblia está registrado no livro Gênesis, capítulo 14, referindo-se a uma atitude voluntariosa de Abraão, ora Abrão, quando depois de uma guerra, ele “deu o dízimo de tudo” a um sacerdote de quem pouco se sabe, chamado Melquisedeque. Um segundo relato, ainda pré Mosaico, é registrado sob a forma de promessa voluntária. Após uma noite em que teve um sonho que julgou revelador, Jacó, neto de Abraão, também comprometeu-se voluntariamente a dar dízimos – “oferecerei o dízimo de tudo que me deres” – caso Deus o guardasse e protegesse.

Posteriormente, a lei Mosaica previa um imposto de dez por cento (dízimas) dos animais e colheitas recolhidos uma vez ao ano, registrado em Levítico 27. Há também um aspecto mais abrangente desse imposto, relatado em Deuteronômios 14, onde percebem-se alguns aspectos que não foram explicitados em Levítico, como: razão de culto, interação familiar e auxílio a classe sacerdotal. Também está registrado no contexto, que a cada três anos, esses dízimos deveriam ser instrumentos de auxílio social, notadamente para os levitas, estrangeiros, órfãos e viúvas.

Os próprios sacerdotes, devido a um afroxamento no rigor de cumprir a Lei e desvios na conduta dos homens que cuidavam do serviço sacerdotal, foram avisados e amaldiçoados por Deus, no ministério do profeta Malaquias. E foram advertidos que se não mudassem de comportamento em relação às ofertas e ao dízimo, Deus tornaria as suas bênçãos em maldição e mandaria o anjo do Senhor para preparar os Seus caminhos a fim de que viesse Jesus Cristo com uma nova doutrina.

Desde a Reforma as igrejas protestantes tradicionais creêm que sob a Graça o dízimo não é válido visto que o Sacrifício de Cristo cumpriu a Torá, houve o fim do templo, e a crença no sacerdócio universal anulava a existência de uma casta sacerdotal. As igrejas protestantes tradicionais (reformadas, luteranas, anabatistas) utilizam-se várias formas para a manutenção, como subscrições, ofertas voluntária e em alguns casos fundos estatais. Mas mesmo assim a prática do dízimo é empregada hoje por várias denominações pentecostais ou neo-pentecostais, principalmente na América Latina.

Dízimo no Catolicismo Brasileiro: No Brasil o dízimo voltou a ser implantado pela CNBB na Igreja Católica após 1969, quando o sistema de pagamento de taxas pelos serviços prestados pela Igreja haviam sido consideradas “pastoralmente inadequadas”. Por essa sugestão, os dízimos não tinham sentido meramente monetário, mas centravam-se em atender às necessidades das dimensões social, religiosa e missionária assumidas pela Igreja.

Desde então não se utilizava mais a estipulação de porcentagem da renda dos adeptos, mas uma doação de compromisso de acordo com a sua possibilidade e disposição, uma proposta de participação do fiel na Igreja. Todavia, a maioria das paróquias não possuía esta prática implementada.

O Papa Bento XVI extinguiu o termo “dízimos” do quinto Mandamento da Igreja, conforme Compêndio do Catecismo da Igreja Católica por ele promulgado em 28 de junho de 2005 e republicado pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. O Quinto Mandamento agora é assim: “Atender às necessidades materiais da Igreja, cada qual segundo as próprias possibilidades”.

Deve-se considerar que a intitulada “pastoral do dízimo”, cuja expansão verificou-se nos últimos anos, num ato simplório, reduzira o antigo termo “dízimos” para o singular “dízimo”, que não encontrava outro significado senão a décima parte.

OBS.: Mês próximo continuamos nossa Partilha. Dízimos e Dízimo. Para que o meu Dízimo?

Enviado por Diác Edmilson Candido
PATORAL DO DÍZIMO DIOCESANO

O ESPÍRITO SANTO E A POLÍTICA – Diego de Lima Dias

 

 

O ESPÍRITO SANTO E A POLÍTICA

Aurea Marin Burocchi*
Belo Horizonte, MG
Diego de Lima Dias**
Santos Dumont, MG

Introdução

Esta reflexão surge num momento particular da história do país. Estamos vivendo em meio a polarizações de grupos políticos e ideológicos que estão carreando emoções e manifestações que estão dividindo grupos – familiares, de amigos, de trabalho e até eclesiais. Fenômeno preocupante e inédito na sociedade brasileira que, aparentemente, é acolhedora de posições diferenciadas.1

Embora o mito da sociedade brasileira miscigenada, pacífica e não racista possa ser uma ingenuidade que muitas vezes se mostra inválido e hipócrita, certamente o surgimento de conflitos aparentemente insolúveis, tendo por pano de fundo partidos políticos, não eram esperados pela maioria da população. Nem o era o cenário de corrupção que envolve políticos, cifras astronômicas e grandes empresas públicas e privadas; isto mostra a que nossos representantes eleitos pelo povo se dedicam no cumprimento dos seus mandatos.

Se as religiões, de modo geral, e também o Cristianismo pregam a tolerância, a abertura ao outro, o diálogo, o respeito, o que justifica o posicionamento de também “cristãos” em posturas tão opostas2 e em atividades tão condenáveis? A honestidade foi banida da face da terra? O diálogo foi excluído das relações interpessoais? O respeito por posições e opiniões diferentes não encontra mais lugar? Se inexistem abertura ao outro e respeito pelo seu ser diferente, como falar de amor e comunidade? Se não há compromisso ético, como falar de bem-comum e, portanto, de política?

Mais que buscar causas da atual situação ou acusar este ou aquele grupo, nossa proposta é refletir sobre a relação entre o Espírito Santo e a vida política. Qual a ação do Espírito nos homens? Quem é o ser político tomado pelo Espírito?

As indagações, as revoltas e a capacidade de tornar a teologia mais próxima da vida foram os principais combustíveis deste insight. Trazer a teologia para a vida e fazê-la com amor foi a pauta recorrente desta reflexão, afinal, como já disse Bruno Forte:

A teologia não é um aristocrático amor pela sabedoria reservado a poucos adeptos ao trabalho, ela é muito mais “a sabedoria do amor”: o esforço de levar à palavra o vivido pela caridade. A teologia cristã deve dizer o amor; e porque o Amor se disse a nós na vida de Jesus de Nazaré, Senhor e Cristo, a teologia cristã deve narrar o amor, narrando o mistérioda Páscoa, o evento pascal (Burocchi, 2008).

1. O Espírito Santo e a política

Relacionar a política com o Espírito Santo não foi fácil, pois as bibliografias disponíveis de Pneumatologia, além de serem limitadas, não fazem menção direta a este assunto. Desistir da empreitada não foi opção.

Afinal, parar não é obra do Espírito! Serviram de inspiração e fundamentação os textos bíblicos, filosóficos e teológicos.

1.1 Existe relação entre o Espírito Santo e a vida política?

É de fundamental importância compreender como o Espírito age na vida prática dos seres humanos e como, na atual conjuntura, se torna mais que necessário não dissociá-los. Atualmente há uma grande rejeição popular em relação à política. Isso decorre da pseudocompreensão do significado desta, que é fundamental para a vida humana. Há uma tendência geral de associar apenas o político eleito com política. Os escândalos de corrupção também colaboram para intensificar a aversão pelo tema.

Com o avanço das interações sociais pela internet, aparece uma grande massa que se propõe a discutir o assunto conforme seus interesses pessoais, muitas vezes de forma muito superficial e alienante, além de profundamente indisposta a contribuir efetivamente para a realização do bem comum. Sua filosofia é “deixa a vida me levar, vida levaeu”.3 Na vida cotidiana, é este, geralmente, o grupo que mais paga o preço pelas escolhas da maioria que abraçou o discurso de uma minoria gananciosa e corrupta.

Somam-se a este um grupo perigoso aqueles que, na época de eleições, vestem camisas, chapéus, bandeiras partidárias e compram ideias sem ao menos questioná-las. Estes ficam em evidência só em épocas eleitorais, pensando que sua participação política se restringe a eleger o nome mais afim, normalmente imposto pelas empresas que fabricam dados fictícios em pesquisas manipuladas. Infelizmente, eles não se dão conta de que participam do grupo daqueles sobre os quais pesam os preços da cesta básica, da conta de luz, do aluguel, dos remédios e de uma vida limitada pelo salário mínimo. O envolvimento deles é momentâneo e manipulado por uma estratégia de marketing coletivo. Este grupo tem como lema: “eu adoro a minha televisão. Ela me conta as coisas como elas são. Se as coisas vão mal, é só mudar de canal”.4

Há também o grupo dos “conscientes do mal”, que se ufanam por terem do seu lado a “desgraça dos inconscientes”, que favorecem e legitimam com seus votos ou seu silêncio a permanência da hegemonia corrupta. São os que “comem o caviar enquanto uns só ouviram falar”.5

Há, enfim, um grupo de pessoas conscientes, dispostas a lutar, discutir e reivindicar ideais coletivos de justiça, saúde, educação e ações de transformação do espaço público, provando que a política está viva em suas vidas. Estes são como “mosca na sopa”,6 pois vivem atrapalhando, com seu zumbido e impertinência, os que querem tomar a sopa sem dividir.

1.2 Mas o que é política?

A palavra vem do termo grego pólis, que significa cidade. Na pólis grega, destacavam-se dois pontos: a acrópole, local mais alto onde eram construídos o templo e o ponto estratégico de defesa; e a ágora, praça principal onde aconteciam a interação, o comércio e onde os cidadãos tinham a possibilidade de debater os assuntos da cidade e resolver os problemas legais. Assim, política significa a administração da vida da cidade, trata dos assuntos relativos a todos os cidadãos, é expressão da participação e responsabilidade daqueles que são destinados à atuação pública. Para os gregos, é vocação de todo cidadão a) vida pública, ou seja, fazer política é a forma de garantir direitos, discutir os deveres, executar as leis e defender a vida.

Aristóteles, filósofo grego do século IV a.C., compreendia a política como forma de alcançar a felicidade. Ele definia o homem como zoon politikon (animal político), ou seja, um ser por excelência relacional, que traz na sua essência a necessidade de interagir para viver e executar duas virtudes indissociáveis que são a base para a vida do cidadão: a justiça e a amizade. O termo amizade (philia) deve ser entendido no sentido mais amplo da palavra, como a concordância entre as pessoas da qual resulta o companheirismo. Daí a importância da educação na formação ética dos indivíduos, porque os prepara para viver em comunidade.
Se a cidade é a associação dos iguais, a justiça é o que garante o princípio da igualdade. Justiça, para Aristóteles, é dar a cada qual o que lhe é devido, ou seja, quem precisa de mais deve receber mais, e quem carece de menos, menos. Isso é fazer justiça entre desiguais, pois só assim é possível garantir equidade. Logo, a cidade deve impedir a má distribuição das riquezas e das oportunidades e punir quem se comporta com injustiça.

Pode-se concluir que no conceito de política não cabe a corrupção. Infelizmente, não compreender isso tem levado os políticos a dedicarem-se aos próprios interesses e o povo a identificar política com a corrupção.

Por isso, não é difícil escutar: “odeio política!!!”

1.3 Criando políticos

Partindo da concepção de política e dos ideais aristotélicos acima mencionados e analisando a história humana, não é difícil constatar que vários povos e diferentes culturas em diferentes épocas buscaram e buscam a efetivação da verdadeira política. Esse tema está atrelado à história dos homens, aparece nas diversas manifestações artísticas, nas melhores obras da literatura clássica, medieval, moderna e contemporânea. Aparece também com grande destaque nas religiões, inclusive na judaico-cristã.

A própria Bíblia, como registro da experiência religiosa de um povo, nos textos tanto do Antigo como do Novo Testamento, está toda permeada de narrativas políticas. Inclusive, é nas experiências de organização, participação, discussão, lutas, busca por direitos e deveres que o povo vai, paulatinamente, identificando a presença, a força e a imagem de seu Deus. Tal constatação é possível ser feita do primeiro ao último livro. Se a Bíblia fala da relação de um povo com seu Deus e a política trata das relações humanas, seria impossível falar de Deus sem tratar das interações sociais.

No Gênesis, o relato da criação do mundo e dos seres humanos apresenta a imagem de Deus em profunda relação com suas criaturas. O autor sagrado evidencia que Deus cria seres relacionais (Gn 1,28), não deseja que o homem esteja só (Gn 2,18), por isso, cria um ser semelhante para estar em relação com ele (Gn 2,20-24). Ao homem Deus concede o sopro de vida, 7,רוַּה tornando-o um ser vivente (Gn 2,7), que tem a força para dominar, multiplicar, habitar e cuidar da terra e de todos os seres criados. Ao dar vida aos homens e mulheres, Deus, que se revela como relação, cuidado e organização, torna o ser humano um ser político e convida-o a participar da obra de criação constante da vida, do mundo e da história. O homem é chamado a ser com o mundo aquilo que Deus Trindade8 é: relação, união, amor, comunidade.

O primeiro presente que Deus dá ao homem é a vida, por meio da ruah, entendida no Antigo Testamento “como vento, sopro do ar, é a força viva do homem, princípio da vida-respiração, sede de conhecimento e dos sentimentos, força de vida de Deus, pela qual ele age e faz agir’’ (Congar, 2005, p. 17). Deus cria o homem para a vida em comunidade e aparece na Sagrada Escritura sempre atuando a favor do seu povo. Esse Deus que quer se relacionar não abandona os seus quando o ser humano não corresponde ao seu desígnio e o equilíbrio, a liberdade e a unidade são rompidos. Se pelo sopro de vida faz viver, a ruah também faz desaparecer “os que cultivam a injustiça” (Rivas, 2001, p. 14).

O mesmo sopro (Espírito) de vida dispensado ao homem na criação várias vezes aparece nos clamores dos oprimidos e desfavorecidos. Os salmos são expressões desse clamor por justiça e liberdade (Sl 2; 18; 21; 45; 72; 101; 110). Os juízes e os profetas são apresentados como aqueles que são despertados pelo Espírito para promover o direito e denunciar as iniquidades a que são submetidos os pobres. Há a consciência de que o rei deveria governar o povo com equidade (Sl 72,1); o rei davídico deveria ser um modelo de justiça para com os humilhados (2Sm 8,15), como foram Davi e Josias (Jr 22,15ss).

O Antigo Testamento apresenta um Deus que atua na história do povo eleito e não se identifica com nenhum tipo de política de exclusão e marginalização, um Deus que promete enviar o Messias para restabelecer no mundo o direito e a justiça (Is 7) (cf. CODINA, 1997). Os textos do Antigo Testamento anunciam que “irá chegar um novo dia, um novo céu, uma nova terra, um novo mar… E neste dia os oprimidos, numa só voz, a liberdade irão cantar”.9

2. A vida do Messias político

No Novo Testamento, Deus continua presente na vida de seu povo. Agora encarnado em uma realidade histórica (Mt 1,1ss), pela ação do Espírito Santo (Mt 1,18; Lc 1,35), aquele que gera a vida (Gn 2,7), o Pai, se dá na vida do Filho que, por sua vez, nos dá a conhecer o Pai: “O meio histórico central da revelação cristã é Jesus de Nazaré” (Haight, 2004, p. 91).

2.1 Jesus, um modelo para o político

Como um ser humano que convive com pessoas e constrói relacionamentos, Jesus, do seu nascimento até a hora de sua morte e ressurreição, potencializou todas as relações que viveu, pode-se dizer, num certo sentido, a vida política,10 e assim revelou o Pai. O Filho de Deus foi contra todo tipo de injustiça, indiferença e miséria que não geram vida, mas escravidão (At 10,34-38). Ele se identificou com os pobres (Mt,25), dirigindo-lhes sua mensagem (Lc 4,18). Esteve do lado dos que lutavam por saúde (Mt 8,16; Lc 8,43-47), tocou-os e os curou.

Reuniu um grupo de amigos, valorizando as amizades (Jo 11,4). Identificou e denunciou as contradições das autoridades (Mc 12, 38-44; Lc 11,37-39). Com todos, viveu a partilha (Mc 6,41). Acusou e recusou todo legalismo que gerava excluídos (Lc 13,10-17) e propôs novos preceitos de vida (Mc 12,30-31), colocando o ser humano e suas necessidades como parâmetros para novos relacionamentos, uma sociedade sadia.

Por tudo isso, pode-se dizer que “Jesus estava implicado nas questões políticas do seu tempo” (Rohden, 2001, p. 38). Ele se preocupava com o bem-estar do povo e dedicou o seu ministério ao anúncio da Boa Nova do Reino de Deus, reino de paz e justiça, onde todos têm suas necessidades básicas satisfeitas, gozam de liberdade e convivem com os irmãos na comunhão de vida e do pão. Legalismo, ritualismo, despotismo e qualquer forma de opressão não têm lugar no Reino que ele proclama ter chegado (Lc 17,21).

Nisso tudo Jesus comunicou o Pai. Sua vida foi doação constante de si à sua comunidade. Nas relações cotidianas, Ele comunicou o amor do Pai de modo concreto aos homens (Jo 15,12; Jo 13,12), ou seja, Jesus foi o modelo do homem político cheio do Espírito Santo. Viver a radicalidade do Amor foi a sua política. E, até a hora de sua morte, Ele viveu intensamente, revelando o Pai que quer que estejamos em comunhão consigo e deseja incluir-nos no seu projeto de amor.

Morrendo, Jesus entregou o seu Espírito como legado aos seus seguidores e herdeiros (Jo 19,30). Pode-se dizer que toda ação de Jesus é também ação do Espírito (1Cor 12,3), no sentido que ele está cheio do Espírito Santo e uma vez que o sentido de sua vida foi gerar vida. E, cumprindo sua promessa, quando chegou o tempo, o Paráclito se manifestou para que todos aqueles que aderissem à sua palavra pudessem agir pelo mesmo Espírito, como nos relata o autor de Atos:

1.Chegando o dia de Pentecostes, estavam todos reunidos no mesmo lugar. 2.De repente, veio do céu um ruído, como se soprasse um vento impetuoso, e encheu toda a casa onde estavam sentados. 3.Apareceulhes então uma espécie de línguas de fogo que se repartiram e pousaram sobre cada um deles. 4.Ficaram todos cheios do Espírito Santo e começaram a falar em línguas, conforme o Espírito Santo lhes concedia que falassem. Os que receberam a sua palavra foram batizados. E naquele dia elevou-se a mais ou menos três mil o número dos adeptos […].

42.Perseveravam eles na doutrina dos apóstolos, na reunião em comum, na fração do pão e nas orações. 44.Todos os fiéis viviam unidos e tinham tudo em comum. 45.Vendiam as suas propriedades e os seus bens e dividiam-nos por todos, segundo a necessidade de cada um. 46.Unidos de coração, frequentavam todos os dias o templo. Partiam o pão nas casas e tomavam a comida com alegria e singeleza de coração, 47.louvando a Deus e cativando a simpatia de todo o povo. E o Senhor cada dia lhes ajuntava outros que estavam a caminho da salvação (At 2,1-4.42.44-47).

Aquele sopro de vida, aqui compreendido como Espírito que deu vida e ânimo às criaturas, imagem e semelhança do seu Criador, suscitou profetas, reis e sábios, que estava presente quando o Pai ressuscitou Jesus, está hoje suscitando homens e mulheres que promovem a vida, a liberdade e a justiça. Se o Espírito é aquele que transforma, muda, impulsiona e gera a novidade, torna-se de fundamental importância percebê-lo também na política. Mas, como identificar os sinais do Espírito na atual vida política?

2.2 A “política” da Trindade é a relação 

É preciso, primeiramente, afirmar mais uma vez que política não é corrupção. A primeira gera comunhão, organização, cuidado, a segunda gera sempre maldição, exclusão e negação da vida. A política é boa, expressa a eficiência do poder público e das leis em prol do ser. A corrupção gera sempre burocracia desnecessária e lentidão na execução de tudo que deveria transmitir o amor e o interesse de uma comunidade de pessoas em prol do bem comum. Uma sempre gera comunhão, a outra sempre expressa “o grito de um povo que sofre e pede justiça, liberdade e respeito aos direitos mais fundamentais do homem e dos povos” (Puebla, n. 87).

Depois, é necessário observar o movimento do Espírito. Deus-Trino na sua infinita bondade quer em todas as suas obras e movimentos revelar-Se.

Aprouve a Deus, na sua bondade e sabedoria, revelar-se a Si mesmo e dar a conhecer o mistério da sua vontade (cf. Ef 1,9), segundo o qual os homens, por meio de Cristo, Verbo encarnado, têm acesso ao Pai no Espírito Santo e se tornam participantes da natureza divina (cf. Ef 2,18; 2Pd 1,4) (DV, 2).

Em diferentes momentos da história, a iniciativa é sempre dele de se comunicar a nós. Conhecemos o mundo do Pai e do Filho pela ação do Espírito que nos abre o acesso a Deus.

O espírito (ruah) é, já no Antigo Testamento, princípio de vida, que franqueia o acesso ao novo e faz a unidade do processo vital vindo, como vem, do Deus vivo (cf. Gn 1,2; Sl 33,6 e 104,29s, Sb 1,7; 7,22-8,1). Ao Espírito se liga a inspiração dos profetas, que suscitam futuro na história de Israel e chamam constantemente o povo à fidelidade à aliança (cf., por exemplo, Nm 11,25; 24,2; 27,18; 1Sm 10,6; 19,24; Is 61,1; Ez 2,2; 3,24; Zc 7,12: cf. 1Pd 1,11 e 2Pd 1,21). O tempo messiânico é esperado como tempo da efusão do Espírito, portadora do futuro escatológico e da vida nova com o Deus vivo (cf., por exemplo, Is 11,2; 32,15ss; 42,1; Ez 11,19; 18,31; 37, 27; 37,1-14; Gl 3,1s etc.), assim como o tempo do exílio é, por contraste, marcado pela ausência do Espírito, tempo em que o futuro parece fechado e Israel desagregado (cf., por exemplo, a meditação sobre a história de Israel em Is 63,7-64,11, em particular 63,10). O mesmo Espírito é denominado “Espírito de Santidade” (Sl 51,13; Sb 9,17), expressão vertida pelos Setenta por “Espírito Santo” (Cf. Dn 5,12; 6,3; Sb 1,5; 7,22) com um adjetivo que se refere à mais íntima característica do Deus vivo (cf. Os 11,9; Sl 99,3 etc.) (Forte, 1987, p. 112-113).

Segundo Forte, o Espírito tem duas funções: abre o mundo de Deus ao mundo dos homens e unifica o dividido. O Espírito que esteve presente na criação habitou o Verbo encarnado e conduziu sua missão. Conforme Burocchi:

Os testemunhos das primeiras comunidades fixados nos escritos do Novo Testamento apresentam o Espírito como integrante da Trindade, principalmente nos eventos que marcam sua missão: concepção virginal de Maria, batismo de Jesus, nas obras que Jesus de Nazaré vai realizando por onde passa, na sua jornada terrena e, especialmente, na sua Paixão, Morte na Cruz e Ressurreição (Burocchi, 2008, p. 173).

O Espírito Santo “age em toda a vida e obra de Jesus”, abrindo “o mundo de Deus ao mundo dos homens e a história humana à história Trinitária, e ao mesmo tempo o que une os dois mundos e constitui a unidade dos homens no amor do Pai e do Filho” (Forte, 1987, p. 113-114). Este Espírito que é amor, vinculum caritatis entre o Pai e o Filho, protagoniza a “unidade dos crentes no espaço e no tempo, à imagem da unidade Trinitária” (Forte, 1987, p. 133). O mesmo Espírito Santo une também o passado e o presente, atualizando os eventos salvíficos, ao fazer memória do mistério vivido e celebrado. E, ainda, no espaço ele une os crentes entre si, como princípio de unidade da Igreja, por isso, ele é Espírito de comunhão, pois realiza a unidade de todo o Corpo de Cristo.

Na história do Espírito, o Espírito revela-se a nós na história, desde o princípio, como a ruah, princípio de vida, inspiração, vínculo, unidade, atualização e comunhão. Uma vez que é o Espírito que nos abre ao conhecimento do Pai e do Filho e, assim, nos permite adentrar no interior da relação entre Amante e Amado, é ele quem nos dá acesso à “política” trinitária, à relação por excelência.

O homem, imagem do Deus Triuno, reflete a imagem do seu Criador que é relação. Ou seja, o homem está profundamente marcado pela necessidade da relação, não é uma solidão incomunicável da substância individual – o ser em si – mas é, como a Trindade, pessoa-relação, um ser “com” os outros, aberto à comunhão no amor: “originariamente, no mais profundo do seu ser criatural, marcado pelo sinal do eterno Amado, o homem precisa do outro! No realizar-se dessa constitutiva chamada à ‘companhia da vida’, o homem revela em si a presença do Espírito Santo” (Forte, 1987, p. 172).

A Trindade é, em si mesma, relação. O Pai quis comunicar-se com a humanidade desde a criação e consumou sua união com o mundo na entrega gratuita do Filho, imagem perfeita do Pai, que se encarnou na história, sofreu a paixão, morreu e ressuscitou. Em tudo isso o Espírito esteve presente. Este Espírito que pairou sobre as águas primordiais, que falou pelos sábios e profetas e que pela sua força o Pai ressuscitou Jesus e animou os discípulos, infundindo-lhes a coragem para assumir e testemunhar o Ressuscitado continua atuando no mundo em todas as relações que sinalizam o Amor.

Como ensina Leonardo Boff no livro A Santíssima Trindade é a melhor comunidade, “Deus não é solidão. É comunhão de três pessoas divinas. Portanto, a Primeira e a Última realidade é relação é extravasamento de si mesmo, é vida e amor” (p. 13). O Deus Triuno é relação de amor na sua intimidade e relaciona-se com o mundo, amando os viventes, estabelecendo o arquétipo da perfeita política. E por que quis Deus revelar-se relacional-político? Para que o ser humano se humanize! Bem já ensinou MURAD:

A revelação de Deus não é dirigida à pessoa para que esta saiba mais, mas para que seja de outra maneira, que atue melhor e viva em um nível mais humano. A verdade da revelação transforma a existência humana. E a fé nesta revelação, longe de desviar a mente daquilo que seria temporal e efêmero em favor do pretenso necessário e eterno, “orienta a mente para soluções plenamente humanas” diante dos problemas históricos. (GS 11) Quem acolhe a revelação cristã tem uma indispensável tarefa: traduzi-la numa verdade transformadora da história para que o processo comunicativo, iniciado por Deus, chegue à sua plenitude (Murad, 1994, p. 19).

3. Testemunhas da “política” trinitária pela força do Espírito 

O Paráclito continuamente suscita formas de “não somente auscultar, mas discernir os sinais dos tempos” (GS 4; 11; e 44), talvez por isso a política seja o modo mais ecumênico de se falar da presença do Espírito no mundo. Em “tempos líquidos’’, segundo Zigmunt Bauman,11 quando as relações se tornam cada vez mais vazias e os sentimentos estimulam a satisfação do prazer imediato, é urgente que os homens e as mulheres reaprendam a viver e a relacionar-se uns com os outros. E, por ser “templo do Espírito” (1Cor 6,19), é papel do cristão testemunhar a força deste, pois é ele que dá vida às relações cotidianas, onde deve brilhar a ética do: amar uns aos outros sem nenhum tipo de exclusão ou condição, assim como a Trindade nos ensina. O cristão é responsável também pelo universo: ele se relaciona com toda a criação através das suas decisões pessoais, das escolhas coletivas e da política que faz.

Através dos documentos que compõem a Doutrina Social da Igreja, esta se empenha por, progressivamente, refletir a respeito das relações humanas, por isso, é recorrente sua preocupação com a vida política em vista da promoção da dignidade humana. Em 1891, o Papa Leão XIII inaugurou uma nova fase do comprometimento da Igreja com a vida social, com a encíclica Rerum Novarum. Após esta, Pio XI em 1931, publicou a Quadragesimo Anno, reafirmando a preocupação eclesial com o ser humano e, na sequência, outros papas também o fizeram. João XXIII publicou, em 1961, a Mater et Magistra; Paulo VI, a encíclica Populorum Progressio, em 1967, e a carta apostólica Octagesima Adveniens; em 1971; João Paulo II publicou três encíclicas sociais: Labores Exercens (1981), Sollicitudo Rei Socialis (1987) e, finalmente Centesimus Annus em 1991. Na mesma tradição, Bento XVI publicou a Caritas in Veritate, em 2009; e, por fim, Francisco brindou a comunidade cristã e não cristã em 2015, na Solenidade de Pentecostes, com a encíclica Laudato Si’.

Vários outros documentos reservam partes significativas para o tema da política. O documento do Concílio Vaticano II, que trata sobre a Igreja no mundo de hoje, a Constituição Pastoral Gaudium et Spes, reserva o capítulo IV todo para a política e afirma:

Natureza e fim da comunidade política. Os indivíduos, as famílias e os diferentes grupos que constituem a sociedade civil têm consciência da própria insuficiência para realizar uma vida plenamente humana e percebem a necessidade duma comunidade mais ampla, no seio da qual todos conjuguem diariamente as próprias forças para cada vez melhor promoverem o bem comum. E por esta razão constituem, segundo diversas formas, a comunidade política. A comunidade política existe, portanto, em vista do bem comum; nele encontra a sua completa justificação e significado e dele deriva o seu direito natural e próprio. Quanto ao bem comum, ele compreende o conjunto das condições de vida social que permitem aos indivíduos, famílias e associações alcançar mais plena e facilmente a própria perfeição (GS, n. 74).

Por sua vez, em 2004, no Compêndio da Doutrina Social da Igreja, fruto do trabalho do Pontifício Conselho Justiça e Paz, o tema política ganhou todo o Capítulo VIII: Comunidade Política. Aqui fica muito evidente que a Igreja, fruto do Espírito, se interessa pela vida, pelo mundo e pela política.

No Brasil, os textos e temas das Campanhas da Fraternidade12 provocam a reflexão e a tomada de consciência sobre situações específicas de exclusão e de pecados contra a vida, a justiça, a dignidade humana, o meio ambiente. O homem, criatura de Deus, destinado a atuar na organização política da criação, aparece como primeiro responsável na tarefa de cuidar da casa comum. Daí o apelo das campanhas, anualmente, para mobilizar o maior número possível de pessoas, cristãs e não cristãs, em torno dos temas sociais e políticos. Só assim a Igreja, sinal visível do Espírito que atua no mundo, vai colaborando na transformação das realidades de injustiça, opressão e morte.

3.1 A constante conversão-atualização: dom do Espírito Santo

O ser humano, ungido pelo Espírito, não compactua com nenhum tipo de corrupção, alienação e má política. Ele se posiciona e age, pessoal e comunitariamente, nos assuntos que tocam a vida comum, de forma concreta:

É plenamente conforme com a natureza do homem que se encontrem estruturas jurídico-políticas, nas quais todos os cidadãos tenham a possibilidade efetiva de participar livre e ativamente, dum modo cada vez mais perfeito e sem qualquer discriminação, tanto no estabelecimento das bases jurídicas da comunidade política, como na gestão da coisa pública e na determinação do campo e fim das várias instituições e na escolha dos governantes. Todos os cidadãos se lembrem, portanto, do direito e simultaneamente do dever que têm de fazer uso do seu voto livre em vista da promoção do bem comum. A Igreja louva e aprecia o trabalho de quantos se dedicam ao bem da nação e tomam sobre si o peso de tal cargo, em serviço dos homens (GS, n. 75).

“O Deus que entregou o próprio Filho à morte por amor dos homens não pode querer o sofrimento humano!” (Forte, 1987, p. 176). Nesse sentido, pode-se dizer que pecar contra o Espírito é fomentar a indiferença política, é negar a participação dos mais pobres no que é justo, é ver a desigualdade acontecer e não agir, enfim, o pecado é isolar-se. Quem está repleto da unção do Espírito Santo não demoniza o mundo, mas atua nele, provocando verdadeiras transformações. Deus colocou no homem o sopro da vida para que ele, junto com os demais, fosse livre e feliz, afinal, a maior característica da Ruah é a liberdade.

Papa Francisco exorta, na Encíclica Laudato Si’, sobre a importância da política como princípio pelo qual os homens redescobrem que precisam uns dos outros, que todos têm responsabilidades para com os outros e o mundo, e que vale a pena ser bons e honestos.

Vivemos já muito tempo na degradação moral, baldando-nos à ética, à bondade, à fé, à honestidade; chegou o momento de reconhecer que esta alegre superficialidade de pouco nos serviu. Tal destruição de todo o fundamento da vida social acaba por colocar-nos uns contra os outros na defesa dos próprios interesses, provoca o despertar de novas formas de violência e crueldade e impede o desenvolvimento duma verdadeira cultura do cuidado do meio ambiente (LS, n. 229).

Pelas palavras do Pontífice, o amor civil e político acontece todas as vezes que não se perde a oportunidade duma palavra gentil, dum sorriso, de qualquer pequeno gesto que semeie paz e amizade, assim como uma ecologia integral é feita de simples gestos quotidianos, pelos quais quebramos a lógica da violência, da exploração, do egoísmo.

O amor, cheio de pequenos gestos de cuidado mútuo, é também civil e político, manifestando-se em todas as ações que procuram construir um mundo melhor. O amor à sociedade e o compromisso pelo bem comum são uma forma eminente de caridade, que toca não só as relações entre os indivíduos, mas também “as macrorrelações como relacionamentos sociais, econômicos, políticos”. Por isso, a Igreja propôs ao mundo o ideal duma “civilização do amor”. O amor social é a chave para um desenvolvimento autêntico: “Para tornar a sociedade mais humana, mais digna da pessoa, é necessário revalorizar o amor na vida social – nos planos político, económico, cultural – fazendo dele a norma constante e suprema do agir”. Neste contexto, juntamente com a importância dos pequenos gestos diários, o amor social impele-nos a pensar em grandes estratégias que detenham eficazmente a degradação ambiental e incentivem uma cultura do cuidado que permeie toda a sociedade (LS, n. 231).

Papa Francisco ensina que, quando alguém reconhece a vocação de Deus para intervir juntamente com os outros nestas dinâmicas sociais, deve lembrar-se que isto faz parte da sua espiritualidade, é exercício da caridade e, deste modo, ele pode amadurecer e se santificar. Nessa lógica, não é difícil reconhecer a importância da política e como é possível vivê-la desde as microrrelações até as macro. Viver a política e lutar pela sua efetiva realização entre os homes e mulheres é viver a missão que nasce em Pentecostes: anunciar o Ressuscitado.

3.2 Unidade: dom do Espírito na diversidade

Bem adverte Forte (Cf. 1987, p. 176) que toda opressão do homem pelo homem deturpa a imagem divina da qual é portador e ignora o seu Criador, pois a vocação humana é viver relações de reciprocidade na liberdade, que sejam relações justas para todos.

Trabalhar para a humanização do mundo é trabalhar para Deus, é desenvolver todo o homem em cada homem, isto é, em todos a imagem divina impressa desde a origem. Longe de ser “ópio dos povos” e “sedução dos espíritos”, o Deus que criou o homem no Espírito do amor e da liberdade é o Deus libertador, que ama na liberdade e liberta no amor, sustentando o empenho de quem quer que trabalhe pela liberdade, fazendo- o com amor… (Forte, 1987, p. 176).

Cabe à Igreja, sinal sacramental do Amor de Deus no mundo, ajudar todo o povo de Deus, Templo vivo do Espírito, a encontrar meios de discernir os sinais dos tempos, não demonizar a política e não se acovardar diante das injustiças causadas pela corrupção. Ela deve ser presença no mundo dos excluídos, pois para ter credibilidade é necessário dar testemunho da vida em Cristo.

Considerações finais

Em tempos “líquidos”, é mais que oportuna uma reflexão teológica “sólida”, com significados práticos e que correspondam aos sinais dos tempos. Grandes pensadores já advertiram sobre os problemas da reflexão filosófico-teológica que não geram sentido, tornando-se inúteis. Por isso, relacionar a vida e as relações que nela se constroem ao desígnio de Deus significa dizer que o Espírito atua no mundo potencializando a ação política.

Sobre a política, ficou evidente a compreensão de que ela é o meio pelo qual o homem tem a possibilidade de relacionar-se com os demais, lutar por seus direitos, conhecer os seus deveres, promover a justiça e construir laços afetivos. Se Deus deu aos homens o Sopro-Espírito de vida, fazendo com que eles interagissem com o mundo e com seus semelhantes, Deus mesmo quis fazer de sua criatura um ser político.

Ao tornar o ser humano cheio do Espírito de Vida, Deus lhe delegou o direito de cuidar, multiplicar, conviver, celebrar e lutar por uma terra cada vez melhor, não aceitando a miséria, a injustiça e a falta de compromisso político. Assim, Ele sempre esteve junto dos mais pobres e abandonados e hoje continua, pela força do Paráclito, atuando na boa política sempre a favor da vida, da liberdade e da justiça.

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Aurea Marin Burocchi
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Diego de Lima Dias
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Citações:

* Professora do ISTA e da PUC Minas. Mestrado, Doutorado e Pós-Doutorado em Teologia Sistemática na Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE), de Belo Horizonte.
** Graduado em Filosofia, acadêmico do curso de Bacharelado em Teologia no Instituto Santo Tomás de Aquino (ISTA). Especialista em Psicopedagogia Clínica e Institucional. Funcionário público.

1. Basta considerar as famílias onde convivem membros de diferentes confissões religiosas. Nessas famílias têm aparecido divergências e conflitos políticos – não religiosos! –, que estão levando à desconfiança e a rupturas de relacionamentos familiares. Certamente, também temos presentes os fenômenos de intolerância religiosa que têm levado a agressões de templos e pessoas. A CNBB, reunida em Aparecida no mês de abril, enviou uma Mensagem da 56ª Assembleia Geral da CNBB ao povo brasileiro sobre as eleições: “Neste ano eleitoral, o Brasil vive um momento complexo, alimentado por uma aguda crise que abala fortemente suas estruturas democráticas e compromete a construção do bem comum, razão da verdadeira política”.
2. Podemos mencionar também as posturas radicais de grupos católicos ditos “conservadores”, que se manifestam contrários à grande maioria da própria Igreja católica e seus dirigentes.
3. Deixa a vida me levar, de autoria de Serginho Meriti e Eri do Cais. Interpretada por Zeca Pagodinho que a lançou em 2002.
4. Música: Eu adoro minha televisão. Compositores: Dinho Ouro Preto, Alvin L. Faz parte do décimo primeiro álbum da banda Capital Inicial.
5. Alusão feita à música Caviar. Composição: Trio Calafrio (Luiz Grande, Barbeirinho do Jacarezinho e Mauro Diniz). Interpretada por Zeca Pagodinho.
6. Mosca na sopa, do cantor e compositor Raul Seixas, lançada em 1973. Nesta canção, o músico indica que há um vínculo estabelecido entre a mosca e a sopa por uma relação de oposição, ou seja, um é contrário ao outro. O autor utiliza esses dois elementos para representar os cidadãos brasileiros (mosca) que incomoda e perturba os governantes (sopa) e que se opõem ao regime com os movimentos pela democracia, lutas, marchas em objeção à política de interesses. PAULA, F.F. de; SÁ, L.S.B.C. Análise da Canção “Mosca na Sopa”, p. 209-216.
7. Segundo o professor Luis Heriberto Rivas, desde as primeiras noções sobre o Espírito de Deus até a revelação da Trindade, são muitas as imagens e as manifestações do Espírito Santo nos livros do Antigo e do Novo Testamento. No grego, a palavra utilizada é πνεῦμα = pneuma, no hebraico, = רוַּה ruah, e no latim, spiritus = espírito. Tais palavras são identificadas muitas vezes por “vento”, “alento”, “sopro”, “respiro”, “fôlego”, “brisa”… A compreensão de que o Espírito Santo é uma pessoa divina será alcançada somente com os escritos do Novo Testamento, mediante a reflexão da Igreja e do seu Magistério. (cf. RIVAS, L.H. O Espírito Santo, p. 9-15).
8. Vale, desde já, esclarecer que as referências feitas à Sagrada Escritura e à Trindade são interpretações pós-pascais, ou seja, é uma reflexão teológica feita a partir do evento Páscoa–Pentecostes.
9. Música Axé. Composição: Vera Lúcia Nascimento.
10. Embora, na realidade, teólogos e exegetas prefiram, acertadamente, utilizar a designação de “vida pública” para se evitar confusões com “poder político”, coisa que Jesus evitou a todo custo. Utilizamos aqui a terminologia “política” no sentido proposto no início deste artigo.
11. Sociólogo, nascido na Polônia em 1925, falecido em 2017, em várias de suas obras Bauman usa a palavra “líquido” como metáfora para designar “incerteza em relação ao futuro, fragilidade da posição social e insegurança existencial” (BAUMAN, 2004, p. 132), instabilidade do mercado de trabalho, inconsistência dos compromissos e das parcerias. Na “líquida, consumista e individualizada sociedade moderna” (Idem, p. 87), existe grande dificuldade de manterem os vínculos afetivos, sociais e familiares, constata.
12. A Campanha da Fraternidade teve início em 1962 e segue, todos os anos, com temas pertinentes.

Referências

Axé. [S.l.], 2014. Conteúdo do Youtube. Interpretação: Banda Pj e Raiz. Disponível em <https://www.youtube.com/watch?v=j3Po-JR3t5A>. Acesso em: 23 set. 2017.
BAUMAN, Z. Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Zahar, 2004.
Bíblia Sagrada: Edição Pastoral. São Paulo: Paulus, 1990.
BOFF, L. A Santíssima Trindade é a melhor comunidade. São Paulo: Vozes, 1988.
BUROCCHI, A.M. Uma proposta de sentido para o homem de hoje na teologia trinitária de Bruno Forte. Belo Horizonte, 2008. Dissertação de Mestrado. FAJE (Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia), sob a orientação do Prof. Ulpiano V. Moro. Belo Horizonte.
CELAM. A evangelização no presente e no futuro da América Latina: conclusões – Puebla. São Paulo: Loyola, 1979.
CNBB. Mensagem da 56ª Assembleia Geral da CNBB ao povo brasileiro sobre as eleições. Aparecida, 19 abr. 2018.
CODINA, V. Creio no Espírito Santo: pneumatologia narrativa. São Paulo: Paulinas, 1997.
CONCÍLIO VATICANO II. Gaudium et Spes. Petrópolis: Vozes, 1966.
CONGAR, Y. Revelação e experiência do Espírito. São Paulo: Paulinas, 2005.
Deixa a vida me levar. Direção: Universal Music. São Paulo, 2010. Conteúdo do Youtube (3:37 min.). Interpretação: Zeca Pagodinho. Disponível em <https://www.youtube.com/watch?v=oTREAvZbmME>. Acesso em: 01 out. 2017.
Eu adoro a minha televisão. [S.l.], 2014. Conteúdo do Youtube. Interpretação: Capital Inicial. Disponível em <https://www.youtube.com/ watch?v=tqufdxfK7Ww>. Acesso em: 23 set. 2017.
FORTE, B. A Trindade como história: ensaio sobre o Deus cristão. São Paulo: Paulinas, 1987.
HAIGHT, R. Dinâmica da teologia. São Paulo: Paulinas, 2004.
LIBANIO, J.B. Introdução à vida intelectual. São Paulo: Loyola, 2001
_______. Teologia da revelação a partir da modernidade. São Paulo: Loyola, 2005.
MURAD, A. Este cristianismo inquieto. São Paulo: Loyola, 1994.
PAULA, F.F. de; SÁ, L.S.B. de C. Análise da canção “Mosca na Sopa” pela semântica de Pottier. Mimesis, Bauru, v. 36, n. 2, p. 209-216, 2015.
RIVAS, L.H. O Espírito Santo nas sagradas escrituras. São Paulo: Paulinas, 2001.
ROHDEN, C.C.S. A reflexão teológica como obra do amor. 2001. Tese de Doutorado em cumprimento parcial das exigências do Instituto Ecumênico de Pós-Graduação em Teologia, Escola Superior de Teologia para obtenção do grau de Doutor em Teologia. São Leopoldo.

 

 

 

UM SANTO DESCENDENTE DO BLUETOOTH

Quem nunca ouviu falar de Bluetooth? Bluetooth é uma norma de comunicações que permite a troca bidirecional de dados a curta distância, servindo-se de ondas de rádio UHF; tem por objetivo simplificar as conexões entre aparelhos eletrônicos, suprimindo os cabos e fios. O termo advém do apelido dado a Haraldo I, Rei da Dinamarca, que possuía um dente de cor azulada, e é uma homenagem a ele que foi o primeiro rei viking católico no século X.

O nome foi proposto pelo engenheiro Jim Kardach em 1996, como homenagem ao rei Haraldo I que reuniu os povos da Dinamarca e unificou o país. O símbolo da conexão Bluetooth são as duas primeiras letras rúnicas do nome do homenageado. Haraldo Bluetooth é o pai de Sveno I, que é o pai da princesa Astrid Svendsdotter, mãe de Sveno II, Rei da Dinamarca, que por sua vez é o pai de São Canuto IV, Rei da Dinamarca, martirizado em 1086. Dia 19 de janeiro, a Igreja celebra o martírio deste descendente do Bluetooth.

Como cristão modelar, o rei Canuto IV, acompanhado de pequeno séquito, rezava na igreja de Santo Albano, em Odense, pelo sucesso de uma expedição, quando foi surpreendido por um bando de pagãos revoltados em maior número. Os sediciosos se lançaram sobre o rei, mataram-no e a alguns dos seus, derramando sangue humano numa igreja, o que é um sacrilégio terrível e uma profanação no senso próprio do termo, que torna a igreja interditada para ofícios litúrgicos, necessitando reconsagrá-la.

São Canuto IV é padroeiro da Dinamarca e foi muito venerado em seu país até que o absolutismo, aliado ao paganismo da Renascença, criou o protestantismo, que separou a Dinamarca da Igreja. Mas essa história ainda não acabou, sobretudo não na Dinamarca, o país do BLUETOOTH, o primeiro rei viking católico.

 

Marcelo de Souza e Silva

ENTRE A CRUZ E A ESPADA?

Aos 15 de janeiro de 2019, o presidente Jair Bolsonaro assinou decreto que facilita o porte de armas. O direito à posse é a autorização para manter uma arma de fogo em casa ou no local de trabalho (desde que o dono da arma seja o responsável pelo estabelecimento comercial).

A Polícia Federal decidirá se o cidadão tem ou não direito à posse, desde que cumpridos os requisitos de efetiva necessidade: ser agente público (ativo ou inativo) do setor de segurança (agente penitenciário, por exemplo), ser militar (ativo ou inativo), residir em área rural, residir em área urbana de estados com índices anuais acima de dez homicídios por 100 mil habitantes, ser dono ou responsável legal de estabelecimentos comerciais ou industriais, ser atirador, caçador ou colecionador, devidamente registrado no Comando do Exército.

Os cidadãos que quiserem o direito à posse de armas de fogo precisarão cumprir algumas exigências: obrigatoriedade de cursos para manejar a arma; ter ao menos 25 anos; ter ocupação lícita; não estar respondendo a inquérito policial ou processo criminal; não ter antecedentes criminais nas justiças Federal, Estadual (incluindo juizados), Militar e Eleitoral.

Agora, vejamos algumas informações publicadas em jornais do país, disponíveis para quaisquer cidadãos: • 61% dos brasileiros defendem que a posse de armas seja proibida (Estadão); • O Brasil registrou 67 mil homicídios em 2017 (Valor Econômico); • Mulheres de todos os cantos do país sofrem ameaças contra a vida (Portal G1); • Em 2017, 193 mil mulheres registraram queixas de agressões em casa (Portal R7).

 Postos esses dados, cabem algumas perguntas: A circulação de armas vai aumentar; mais armas significam mais ou menos mortes? Se a maioria da população está contra a posse de armas, o decreto tem legitimidade? Houve discussão sobre o assunto no Congresso e na sociedade para tornar efetivo o decreto? A posse de armas traz melhoria para a segurança pública? O poder público está se omitindo quando assina o decreto? Haverá controle das condições psicológicas e dos antecedentes criminais de quem tem a posse de arma?

Não acho que essa discussão se encerra por aqui. Mas tenho de citar aqui textos bíblicos que nesses dias me fizeram pensar sobre a “efetiva necessidade” de um cidadão possuir uma arma de fogo em casa ou no trabalho. “Guarda a tua espada (a tua arma). Pois todos os que usam a espada, pela espada morrerão” (Mt 26,52). “Ele é a nossa paz. (…) Em sua carne, derrubou o muro de inimizade que separava os povos e quis assim formar um só homem novo, estabelecendo a paz” (Ef 2, 14-15). Eu, porém, vos digo: “Amai a vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam, e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem” (Mt 5, 44).  “Um novo mandamento vos dou: que vos ameis uns aos outros; assim como Eu vos amei; que dessa mesma maneira tenhais amor uns para com os outros” (Jo 13, 34).

Luís Carlos Pinto

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