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Títulos de Nossa Senhora em nossa Diocese, e uma compreensão da pessoa de Maria

A vinculação de Maria com o mistério de Cristo leva a teologia a explicitar cada vez mais o importante papel da Virgem Mãe na história da Salvação. Ensina São Luís Grignion de Montfort que Deus quis servir-Se de Maria na Encarnação como o mais perfeito meio para o Verbo vir até nós e operar a Redenção. Esta vinculação de Maria com todo o mistério de Cristo – o mistério de seu ser e de sua missão – levou a teologia a explicitar cada vez mais a persuasão de que a Virgem Mãe ocupa um lugar importantíssimo na história da Salvação. E por esta razão a Igreja A coloca numa posição de superioridade com relação a todos os Santos, prestando-Lhe o culto de hiperdulia. Em inteira consonância com o ensinamento dos Papas e dos Doutores, cantam os fiéis na Espanha e na Hispano-América um hino muito antigo, nascido da piedade popular, cujo estribilho diz: “Maior que Vós, só Deus, só Deus…

Nesse artigo abaixo, relembramos a pessoa de Maria como grande colaboradora com o mistério da salvação e pelo fato de várias paróquias de nossa diocese celebrar Nossa Senhora nesse mês de agosto, tendo referencia maior, o dogma da Assunção celebrado no dia 15. segue os inúmeros títulos celebrados em nossa diocese: Nossa Senhora da Pena (Rio Vermelho), Nossa Senhora Mãe dos Homens (Materlândia), Nossa Senhora do Rosário (Sabinópolis), Nossa Senhora do Patrocínio (Virginópolis), Nossa Senhora do Amparo (Braúnas), Santa Maria Eterna (Santa Maria do Suaçuí) Nossa Senhora do Pilar (Morro do Pilar), Nossa Senhora do Porto (Senhora do Porto) e Nossa Senhora da “Glória ou Assunção” (Divinolândia de Minas).  Nessa oportunidade de celebrar Maria, transpomos abaixo esse belo artigo do Frei Jonas, na Revista Pastoral.

Boa leitura!

 

Maria de Nazaré: aspectos bíblicos, eclesiais e devocionais

Introdução

São incontáveis as vozes que diariamente dizem “Ave, Maria!”. Saudando a Mãe de Jesus, cada uma delas traz presentes as Sagradas Escrituras, por meio das palavras do anjo (cf. Lc 1,28) e de Isabel (cf. Lc 1,42), como também traz o senso eclesial do papel materno-messiânico de Maria e um pedido pela sua contínua intercessão pelo povo de Deus em peregrinação. Tudo isso numa singela oração, uma das primeiras que aprendemos, a qual, não obstante sua simplicidade, apresenta a Virgem Maria em seus aspectos mais fundamentais.

Esses aspectos fundamentais, que nos dão a conhecer a Mãe de Jesus, devem estar bem unidos uns aos outros. Parece desnecessário dizer isso, mas existe o perigo de que “um falso exagero, como também de [uma] demasiada pequenez de espírito” (LG 67) venham a dividir a Virgem em “três Marias”, ou seja, a Maria encontrada nos evangelhos, a que encontramos nas definições dogmáticas e nas elaborações teológicas e, por último, a Maria venerada pela piedade popular (BALIC, 1973, p. 174).

Tal divisão é insustentável quando tomamos o texto que é a base de nossa mariologia contemporânea, o Capítulo VIII da Lumen Gentium, intitulado “A Bem-Aventurada Virgem Maria, Mãe de Deus, no mistério de Cristo e da Igreja”. Nesse texto do magistério da Igreja, não encontramos uma divisão da pessoa de Maria, mas uma progressão no conhecimento de sua pessoa e missão, partindo da “economia da salvação” presente nas Escrituras, passando pelas questões mariológicas relevantes ao nosso tempo e concluindo com as orientações sobre o culto mariano e a contemplação de Maria como um sinal de esperança e de consolação.

Na trilha metodológica da Lumen Gentium, queremos apresentar nossa reflexão mariana, destacando alguns aspectos bíblicos da fisionomia de Maria, para depois vermos como se harmonizam com os dogmas relacionados a ela e, por último, como todo esse conjunto “deságua num rio de afeto” à Virgem traduzido pela piedade popular.

  1. Aspectos bíblicos

É comum escutarmos que as Sagradas Escrituras falam pouco de Maria. De fato, quantitativamente falam muito pouco e, no pouco que falam, não nos trazem detalhes sobre sua pessoa, como aparência, costumes cotidianos e datas significativas. Contudo, nesse pouco que nos é transmitido, encontramos excepcional densidade que relaciona a Mãe de Jesus com a história da salvação, pensada, sobretudo, a partir da encarnação – Páscoa – Pentecostes (VALENTINI, 2007, p. 21). Assim, “Maria, que entrou intimamente na história da salvação, de certo modo reúne em si e reflete as maiores exigências da fé […]” (LG 65).

Por ela reunir em si e refletir as exigências da fé é que lançamos o olhar ao Antigo Testamento não procurando a pessoa Maria de Nazaré, mas os contornos de sua espiritualidade, que é a espiritualidade do povo de Deus, vivida, sobretudo, na história das mães de Israel e de outras corajosas mulheres que não hesitaram em pôr a própria vida em risco por causa da Aliança que Deus fez com seu povo e que deve ser mantida. Nesse sentido, falamos de prefigurações marianas do Antigo Testamento: imagens retiradas desse conjunto textual que servem para compreendermos a espiritualidade de Maria de Nazaré enquanto Filha de Sião e enquanto a Nova Jerusalém em atitude de acolhimento ao seu Messias libertador.

Mas por que os textos bíblicos não se dedicaram a falar mais de Maria, deixando essas poucas informações, na maioria encontradas nos chamados “Evangelhos da Infância”, ou seja, nos dois primeiros capítulos de Mateus e Lucas? Não podemos nos esquecer de que as primeiras comunidades tiveram um desafio muito grande: explicar como Aquele que morreu da forma mais humilhante é o Senhor da glória. Isso constitui um objeto prioritário na explicitação de sua fé, de modo que a figura de Maria está a serviço dessa proclamação do Crucificado como o Senhor vivo e presente na comunidade e na história.

Nesse sentido, Maria é a imagem do povo de Deus que professa Jesus como o Messias, o ungido de Deus Pai com a força do Espírito Santo. Enquanto imagem do povo em atitude de abertura/acolhimento, ela aponta para um mistério maior que sua vida: “a Palavra se fez carne e veio morar entre nós” (Jo 1,14). Maria é a testemunha privilegiada de que essa Palavra se fez carne, pois se fez verdadeiramente humano em seu ventre. Ela é chave privilegiada de contemplação da humanidade de Jesus, garantindo-nos que ele nasceu, entrou em nossa história, se fez um de nós, com exceção do pecado.

À luz desse testemunho messiânico de Maria no Novo Testamento, gostaríamos de destacar brevemente três dimensões: Maria concebe Jesus na força do Espírito Santo, sua condição de mulher pobre em Nazaré e sua fé no Deus de Israel.

O Novo Testamento reconhece em Jesus o Messias, o Cristo de Deus Pai, pois ele é, por excelência, o ungido de Deus Pai com o Espírito Santo. Sendo assim, sua entrada na história da humanidade, como humano, é evento pneumatológico. É na força do Espírito Santo que Maria concebe Jesus. Essa afirmação está em consonância com todos os evangelhos que apresentam Jesus como Aquele que está “cheio do Espírito Santo”. É curioso observar que aquele que foi concebido pelo Espírito Santo também ressuscita no poder do Espírito Santo. Desse modo, Maria é apresentada como a terra virginal do paraíso que, sob a sombra do Altíssimo, concebe um novo mundo, uma nova criação em Jesus, seu filho.

A relação de Maria com o Espírito Santo apresenta uma singularidade toda nova, contudo essa realidade não a retira da história concreta de seu tempo. A mãe do Messias, marcada pelo Espírito Santo, é uma jovenzinha da cidade de Nazaré. Lembrar a cidade de Nazaré não é mera curiosidade quanto ao lugar de origem de Maria, mas informação que acentua a opção preferencial de Deus pelos pobres, pois essa cidade, que nem sequer existia no mapa de seu tempo, era marcada profundamente pela pobreza. Tanto que, ao levarem Jesus ao templo, Maria e José oferecem um par de pombinhos (cf. Lc 2,24), o sacrifício oferecido pelos pobres segundo o livro do Levítico (cf. Lv 12,8).

Também Maria foi uma mulher de fé (cf. Lc 2,45). Acreditou na palavra de Deus expressa na tradição de Israel, na palavra do anjo, acreditou em seu Filho e, mesmo depois de sua morte e ressurreição, está reunida, na comunhão da Igreja nascente, em oração. E na condição de mulher de fé, fez de toda a sua vida uma oração inserida no seu cotidiano de mãe e esposa, de mãe de um jovem perseguido e morto na forma humilhante da cruz, de uma seguidora do próprio Filho à espera do Espírito Santo.

Poderíamos elencar outros elementos que o Novo Testamento tem para nos oferecer, contudo esse breve elenco de elementos nos remete ao que queremos destacar dos textos neotestamentários: em Maria não há dicotomia entre fé e vida, entre o Espírito de Deus e a história da humanidade; entre sua profunda comunhão com Deus em sua intimidade e a profunda comunhão com Deus na fraternidade do movimento de Jesus. Maria é a mulher toda de Deus na história concreta da humanidade.

  1. Aspectos eclesiais

A Igreja conservou essa discreta singularidade de Maria, encontrada no Novo Testamento, de diferentes modos, desde pinturas até o culto mariano. Contudo, o lugar em que mais se concentra a percepção eclesial dessa singularidade são os dogmas relacionados a Maria.

São quatro os dogmas que se relacionam com sua pessoa, a saber: maternidade divina, virgindade perpétua, imaculada conceição e assunção ao céu. Todos eles estão intimamente ligados pela profissão de fé em Jesus como o Filho de Deus. Vejamos o primeiro dogma.

Em 431, o Concílio de Éfeso se ocupou em esclarecer a forma como a humanidade e a divindade de Jesus se relacionam em sua pessoa. Compreende-se que Jesus é todo humano e todo divino, sem que primeiro fosse humano e depois a divindade pousasse sobre sua humanidade como que num templo. Logo, podemos dizer que Maria é verdadeiramente Mãe de Deus “segundo a carne” assumida pelo Verbo.

Mas como Maria viveu essa real maternidade? Existe uma singularidade nela? Essa singularidade é a virgindade perpétua de Maria, que, num sentido mais profundo da afirmação, nos diz que Maria viveu totalmente consagrada ao projeto de Deus Pai, em nada incorrendo em qualquer forma de idolatria; ela é uma criatura totalmente de Deus. Sendo toda de Deus, sua vida é de total abertura à ação do Espírito Santo, e por essa acolhida ao Paráclito é que professamos, com o Credo Niceno-Constantinopolitano, que o Verbo “se encarnou pelo Espírito Santo no seio da Virgem Maria”. Sua virgindade corporal e espiritual (ausência de qualquer idolatria) foi consagrada com a maternidade do Verbo; logo, sua virgindade não é algo periférico ou instrumental, mas uma dimensão visceral do seu ser, de modo que o Concílio de Constantinopla II, em 553, irá nos dizer, em conformidade com o que a grande Igreja já dizia, que a Mãe de Jesus é a “sempre-virgem (aei-parhenos) Maria”.

Quando falamos de virgindade, é sempre muito importante deixar claro que a virgindade é um dom de Deus e uma resposta humana que implica uma atitude de abertura amorosa e liberdade psicológica, pois do contrário seria endurecimento de coração e algum tipo de patologia.

Maria é a maior e melhor expressão da virgindade, porque esta é vivida na fecundidade do Espírito Santo. Desse modo, sua virgindade está a serviço da ação do Espírito, que nos atesta a dupla origem de Jesus: a divina, na condição de “Verbo do Pai” (Jo 1,18), e a humana, pois nos referimos a alguém “nascido de mulher” (Gl 4,4). A maternidade virginal de Maria é radical consagração a Deus Pai, na história da salvação centrada em Jesus Cristo, a serviço e na força do Espírito Santo.

Ao dizermos que Maria é radicalmente consagrada a Deus, podemos incorrer em grave erro: não reconhecer a iniciativa de Deus em direção a ela. Criação, salvação e santificação são sempre uma ação de Deus em direção à humanidade, um transbordamento de seu amor que atinge todo o universo, numa clara manifestação da sua bondade e gratuidade. Toda a criação está marcada pela graça desde os primórdios. Logo, a graça é anterior ao pecado. E como expressão do primado da graça de Deus é que a Igreja afirma, com o dogma da Imaculada Conceição de Maria, proclamado por Pio IX em 1854, que, em virtude da encarnação do Verbo, Maria foi preservada do pecado original, ou seja, “foi redimida de modo mais sublime” (LG 53), para acolher no seu seio o Filho de Deus e para testemunhar a redenção universal de todos os fiéis, recebendo por graça a “redenção preventiva”. Podemos dizer, então, que a Imaculada Conceição “é o triunfo unicamente da graça de Deus: sola gratia” (LAURENTIN, 2016, p. 173).

Mas tal triunfo se encerra com a morte de Maria? Qual foi o destino último daquela que nos trouxe o Salvador? Uma das primeiras vozes na Igreja a se perguntar sobre o fim da vida terrena de Maria foi o bispo de Salamina, santo Epifânio, numa carta do ano de 377 (LAURENTIN, 2016, p. 76 e 90). A partir dessa pergunta inicial, a Igreja foi tomando maior consciência de que Maria foi a primeira pessoa a ser assumida pelo poder da ressurreição de Cristo (cf. Fl 3,10) e de um modo singular, sendo totalmente assumida por Deus, em toda a sua realidade de pessoa, ou seja, assumida por Deus em “corpo e alma”. Com isso, Maria não fica separada da vida concreta de nossa história, mas se torna nossa companheira na caminhada como um sinal de esperança em Deus. É o que o documento de Puebla nos diz: “Maria, por sua livre cooperação na nova aliança de Cristo, é junto a Ele protagonista da história. Por esta comunhão e participação, a Virgem Imaculada vive agora imersa no mistério da Trindade, louvando a glória de Deus e intercedendo pelos homens” (CNBB, n. 293).

Assim, em 1950, Pio XII proclama que “a imaculada [Mãe de Deus], sempre virgem Maria, completado o curso da vida terrestre, foi assumida em corpo e alma na glória celeste” (DENZINGER; HÜNERMANN, n. 3.903).

Resumindo a questão dos dogmas relacionados a Maria, é mister evidenciar que os dogmas da Maternidade Divina e da Virgindade Perpétua relacionam-se diretamente com a pessoa de Jesus e sua missão messiânico-soteriológica; logo, são dogmas cristológicos e, num segundo momento, marianos. Já os dogmas proclamados por Pio IX e Pio XII são mais específicos em seus enunciados sobre a pessoa, o papel e o destino de Maria, mas não deixam de falar sobre algo que é comum a todos nós, pois todos, pelo batismo, somos resgatados pela graça original e nos é dada a condição de filhos e filhas de Deus, destinados à salvação na glória celeste (PERRELLA, 2003, p. 56). Neste sentido é que falamos que o dogma da Imaculada Conceição é um dogma mariano e soteriológico e que o dogma da Assunção de Maria é mariano e escatológico.

  1. Aspectos devocionais

Só houve um desenvolvimento dogmático em torno da Mãe de Jesus porque, primeiramente, compreender o papel de Maria na história da salvação é uma forma de compreender Jesus como o Messias e o Filho de Deus. Mas também porque, no coração da Igreja, se foi desenvolvendo um verdadeiro amor para com a Mãe de Jesus, amor que se traduziu em expressões de devoção.

Tal devoção mariana e popular ganhou grande impulso, sobretudo, depois do Concílio de Éfeso, mas já antes temos elementos importantíssimos dessa relação de devoção à Mãe de Jesus. É o que inferimos quando deparamos com o afresco da Virgem e o Menino Jesus, pintado nas catacumbas de Priscila, em Roma, de aproximadamente 150 d.C. Ou ainda com a oração Sub tuum praesidium (“Sob a vossa proteção”), datada do final do século III ou início do século IV.

Nesses simples exemplos elencados, temos dois elementos característicos de toda piedade mariana do primeiro milênio da Igreja: a imagem de Maria sempre unida a seu Filho e a sua intercessão na Igreja.

Ambos parecem ser de uma obviedade muito grande, mas merecem ser destacados a par de expressões piedosas pouco salutares que encontramos nos dias de hoje. No primeiro milênio do cristianismo, Maria era sempre representada com Jesus, com raras e pontuais exceções. Pensar Maria sempre unida a seu Filho é entendê-la no seu papel materno-messiânico, encontrado nos evangelhos e na proclamação de Maria como Theotokos (431). Ela é toda relativa a Jesus, mostrando-o como o “caminho, a verdade e a vida” (Jo 14,6). Tal compreensão contrasta com afirmações surgidas a partir da Idade Média segundo as quais Maria seria como que uma segunda instância de salvação, em que a Mãe bondosa bloqueia a ira do Filho enquanto juiz terrível. Ou como alguém que mereça os mesmos louvores (não adoração) dirigidos a seu Filho, recebendo um culto todo paralelo à liturgia, muitas vezes mesclado de superstições.

O segundo tema que destacamos é a intercessão de Maria. Ela, voltada a Deus Pai, com o Filho e no Espírito Santo, apresenta-se como o ícone da Igreja em oração. Mergulhada no mistério de Deus, na comunhão dos santos, permanece unida a toda a Igreja de Jesus pelo laço da oração e do afeto.

A intercessão de Maria desperta em nós o impulso de repensar algumas questões que o cenário teológico atual retoma com renovado interesse. Por exemplo, o papel do Espírito Santo na oração, pois é ele quem une todos nós na oração, em diferentes tempos e lugares. Sendo ele o laço de amor que une Deus e a humanidade, podemos dizer que é com sua mediação que todos nós rezamos, pois sem o Espírito Santo nossa oração seria um gemido calado no peito, e não um lançar-se no mistério de Deus, vinculado à fraternidade eclesial. É porque Maria está unida ao Espírito Santo que ela recebe nossos pedidos de oração e reza conosco.

Pensar o Espírito Santo como Aquele que nos une a Deus e entre nós em fraternidade ajuda-nos a corrigir a excessiva ênfase dada a Maria que obscureceu o lugar, o papel e a pessoa do Espírito Santo na Igreja ocidental. Nas palavras de René Laurentin: “Foi dito muitas vezes que Maria é toda relativa a Cristo. Não foi dito o suficiente que é toda relativa ao Espírito Santo” (LAURENTIN, 2016, p. 186).

Tal destaque dado a esses dois elementos da piedade mariana do primeiro milênio não implica o desprezo a toda expressão devocional que surgiu a partir do segundo milênio. Lembremos expressões piedosas que constituíram verdadeiras “escolas de santidade”, como a oração e devoção do rosário.

A questão é que não podemos pensar uma piedade mariana desvinculada da Tradição da Igreja e das orientações recebidas do Concílio Vaticano II, orientações essas retomadas com muita propriedade e sabedoria pela Marialis Cultus, de Paulo VI. Hoje, não se pode desconsiderar, numa autêntica piedade mariana, a dimensão bíblica, assim como sua relação com a liturgia e com a sensibilidade ecumênica, à qual todos devemos estar atentos.

Outro desafio da piedade mariana é libertar Maria de imagens machistas, coloniais e triunfalistas. Recuperar sua compreensão como mulher e como irmã de todos nós, o que em nada diminui sua virgindade e maternidade eclesial.

Conclusão

O pontificado do papa Francisco nos traz grandes e necessários desafios, sobretudo o de “uma Igreja em saída”. Perguntando pela contribuição da mariologia para esse plano eclesial, deparamos com um urgente desafio: construir uma “mariologia em saída”. Felizmente, alguns significativos passos já estão sendo dados, os quais merecem todo o esforço da comunidade eclesial. Vejamos os “mais urgentes”.

Uma mariologia ecumênica: já não é possível pensar que Maria pertence apenas aos católicos latinos e ortodoxos. Ela é de toda a Igreja de Jesus. Celebrando os 500 anos da Reforma, percebemos que um passo que precisa ser mais bem trabalhado é a mariologia. Ainda estamos longe de alcançar um consenso mariológico, sobretudo em relação aos dois últimos dogmas de 1854 e 1950, mas podemos alcançar a harmonia na busca de formas comuns de expressar o mistério da encarnação, valorizando a singularidade daquela que mais profundamente o experimentou.

Uma mariologia latino-americana: merece destaque nesse empenho o trabalho de Ivone Gebara e Maria Clara L. Bingemer, com o livro Maria, mãe de Deus e mãe dos pobres. Contudo, precisamos de novas pesquisas. A figura de Maria como conquistadora, nos moldes europeus e colonialistas, ainda é muito presente, não permitindo que a força libertadora que ela traz consigo alcance com maior vigor os pobres, as mulheres e todas as vítimas da opressão em nosso chão. É preciso que em nossas Igrejas permitamos que a Virgem do Magnificat erga seus braços e cante a libertação que começou em Jesus e deve continuar como um processo sociotransformador pautado no evangelho.

Uma mariologia das bem-aventuranças: essa expressão mariológica toma como base o Evangelho de Mateus (5,1-10), percebendo Maria como uma mulher pobre no espírito, que chora, mansa, que tem fome e sede de justiça, misericordiosa, pura de coração, promotora da paz e perseguida, sempre na perspectiva do Reino de Deus. Muitas vezes nos esquecemos que Maria viveu também na perspectiva do Reino de Deus inaugurado em Jesus, o que a deixou à sombra de seus privilégios. Os privilégios de Maria se pautam na sua inegável singularidade na história da salvação, mas não a desligam dessa história, pois ela é nossa companheira de viagem na luta por um mundo mais justo para todas as pessoas.

Que cada “ave, Maria”, emergindo de um coração sincero, brote nos lábios como um desejo de seguir Jesus como ela o seguiu, de se abrir à grandeza suave do Espírito Santo como ela se abriu, de modo que o Pai receba o louvor e a ação de graças de seu povo santo e sacerdotal.

Bibliografia

BALIC, Carlo. La Chiesa e Maria Santissima. In: VAN LIERDE, Pietro Canisio G. et al. Lo Spirito Santo e Maria Santissima. Città del Vaticano: Tipografia Poliglotta Vaticana, 1973.

CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL (CNBB). Puebla: a evangelização
no presente e no futuro da América Latina. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 1979.

DENZINGER, H; HÜNERMANN, P. Compêndio dos símbolos, definições e declarações de fé e moral. São Paulo: Paulinas/Loyola, 2007.

DOCUMENTOS do Concílio Vaticano II (1962-1965). São Paulo: Paulus, 1997.

GEBARA, Ivone; BINGEMER, Maria Clara L. Maria, mãe de Deus e mãe dos pobres: um ensaio a partir da mulher e da América Latina. Petrópolis: Vozes, 1987.

LAURENTIN, René. Breve trattato sulla Vergine Maria. Cinisello Balsamo: San Paolo, 2016.

PAULO VI. Marialis Cultus. São Paulo: Paulinas, 1974.

PERRELLA, Salvatore M. Maria Vergine e Madre: la verginità feconda di Maria tra fede, storia e teologia. Cinisello Balsamo: San Paolo, 2003.

VALENTINI, Alberto. Maria secondo le Scritture: Figlia di Sion e Madre del Signore.
Bologna: EDB, 2007.

Jonas Nogueira da Costa, OFM(Ordem dos Frades Menos)

Frade franciscano, pertence à Ordem dos Frades Menores. Doutorando em Teologia Sistemática (ênfase em Mariologia) pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje). Professor no Instituto Santo Tomás de Aquino (Ista), em Belo Horizonte-MG, e no Seminário Diocesano Nossa Senhora do Rosário, em Caratinga-MG. E-mail: nogueira905@gmail.com

Fonte: http://www.vidapastoral.com.br/edicao/maria-de-nazare-aspectos-biblicos-eclesiais-e-devocionais/

Desafios no ensino remoto

É evidente que os transtornos que a pandemia do novo coronavírus tem acarretado na vida diária de toda a população – o isolamento, as dúvidas, o medo, a questão financeira e muitas incertezas quanto ao futuro –, têm preocupado as famílias.

A continuidade do cronograma escolar, por exemplo, tem se destacado, não só por evidenciar as diferenças entre o sistema público e privado, mas pela dificuldade que muitas instituições têm encontrado para dar o suporte pedagógico necessário através do sistema remoto.

Isso se explica porque tornou-se predominante um mecanismo que até então nunca tinha sido necessário para as escolas de nível básico, e com isso, tem exigido de tantas famílias um processo de adaptação e superação em diversas situações, que têm desestruturado e exigido muitas respostas que ninguém estava preparado para dar.

Diante disso, é importante destacar a educação e as novas propostas metodológicas educativas que buscam, neste período, amenizar os prejuízos que a ausência das aulas presenciais podem trazer aos alunos de nível básico. Muitos não têm maturidade, responsabilidade ou condições fundamentais para se comprometer em assistir às videoaulas ou realizar as atividades sozinhos, sendo necessário o suporte dos pais ou responsáveis, realidade que acaba exigindo deles uma reestruturação quanto ao tempo de trabalho e o auxílio aos filhos.

O papel principal dessa reestruturação é o suporte e a orientação que deve partir da escola para com os pais, explicando de forma clara e objetiva como o processo irá ocorrer, além de responder dúvidas que podem surgir ao longo do tempo, sem se esquecer que o foco é facilitar o processo de aprendizagem.

Para que a parceria escola/família aconteça de forma eficaz, é muito importante que as funções sejam estabelecidas, visto que a educação é uma ciência que exige preparo, disciplina e planejamento. Ou seja, o papel do professor e da escola é oferecer um suporte técnico, profissional sobre os conceitos e conteúdos trabalhados durante as aulas, enquanto os pais irão auxiliar os filhos e os professores com um retorno sobre a experiência em casa, para que seja construída uma aprendizagem significativa e os laços afetivos não se percam. Quando os pais “assumem” o lugar do professor outros fatores vêm à tona, como as questões afetivas, emocionais, de autoridade, que, se não forem bem administradas, podem atrapalhar o processo de aprendizagem.

Essa realidade de ensino remoto é totalmente nova e por isso ainda existem muitas lacunas, muitas falhas por parte dos pais, da escola, do governo e do sistema educacional em si, pois não estavam preparados para essa situação, principalmente, por vir como um método educacional predominante e não como um mecanismo complementar às aulas presenciais.

Por isso, é interessante que os pais estruturem, junto a seus filhos, uma rotina de estudos, para que os estudantes possam desenvolver a autonomia necessária na prática escolar e, consequentemente, para que consigam administrar bem o tempo, já que muitos pais também estão trabalhando de casa.

O mais importante de todo esse processo é integrar a criança e dar a ela a responsabilidade de construir, junto com os pais, essa rotina, tendo consciência de que para que tudo funcione bem, ela também precisa fazer a sua parte e com isso, pouco a pouco ir amadurecendo em seu protagonismo, no processo de ensino e aprendizagem.

Aline Tayná de Carvalho Barbosa Rodrigues
é Psicóloga Escolar no Instituto Canção Nova
em Cachoeira Paulista (SP).

Quaresma: um olhar para si, para Deus e para o outro

O título sugestivo tem a intenção de chamar a atenção para uma discussão polarizada nos palcos da internet, acerca da Campanha da Fraternidade Ecumênica 2021 (CFE 2021). Sem entrar nos méritos da discussão acalorada, movida e alimentada por visões ideológicas, é preciso compreender o que é a Campanha e qual a sua importância justamente no Tempo Quaresmal.

A Quaresma é um tempo oportuno e favorável de conversão, tempo de uma revisão de vida, de matar em nós o homem velho para ressuscitar, na Páscoa do Senhor, um homem novo.

Toda espiritualidade quaresmal se baseia na experiência do Êxodo, da saída da escravidão para a libertação plena em Cristo, a vida nova, e nesse caminho, somos convidados a três observâncias: jejum, oração e esmola, que nos ajudarão a olharmos para si, para Deus e para o outro.

Para vivermos realmente a conversão do Tempo Quaresmal, é preciso viver essas observâncias de maneira integral.

Não é saudável apenas um espiritualismo, uma quaresma só de penitência, sem oração, ou sem a caridade. Também só a oração, sem a penitência e a caridade, gera uma espiritualidade apenas vertical, desencarnada, etérea, o que não é uma experiência genuinamente cristã. Uma quaresma com rigorosas penitências e horas de oração, sem a caridade, também não é conversão.

A verdadeira experiência de fé nos leva a uma intimidade com Jesus na oração constante e profunda, e pela penitência nos ajuda a dominar os instintos e a aprender a depender de Deus em sua providência, e tudo isso desemboca na caridade operante, que nos impulsiona a tocar as realidades desse nosso mundo sofrido.

Não é possível se dizer seguidor de Jesus Cristo, Amor encarnado, cerrando os olhos para o sofrimento do outro, num mundo marcado pela violência, pela exclusão, pela pobreza, escravidão e pela indiferença.

A Campanha da fraternidade é justamente um desejo que brota no coração da Igreja no Brasil da vivência concreta e eficaz da observância da caridade, e assim entendida, pode fazer um bem enorme, nos ajudando no processo de conversão.

A Campanha nasceu com Dom Eugênio Sales, figura preclara do episcopado brasileiro, junto a um grupo de padres na Arquidiocese de Natal, depois foi se alargando sendo assumida pela CNBB, tendo como incentivadores bispos nobres, com uma aguçada sensibilidade social, como Dom Hélder.

O desejo da campanha, em sua raiz, é justamente voltar os olhos para os nossos irmãos mais necessitados, e, de maneira concreta, lutar para que tenham vida. A cada ano ela traz um tema de relevância social, e um lema bíblico como inspiração.

Uma coisa é a caridade que podemos fazer dando o pão a um irmão faminto. Tal atitude é de um valor extremo se movido pelos sentimentos de Cristo, no desejo de servi-Lo nos mais pobres.

De igual valor espiritual, e de maior abrangência é a luta pelos direitos dos excluídos, por políticas públicas capazes de combater a situação de miséria, de opressão, e a formação da consciência do povo de Deus quanto a realidade circundante.

O Santo Padre, em sua última encíclica, Fratelli Tutti, que Dom Walmor, presidente da CNBB, sugeriu como documento oportuno junto ao texto-base também para a CFE 2021, desenvolve amplamente, de modo mais contundente nos números 163-169, a caridade social. O Papa Francisco deseja despertar em nós a consciência que “o amor ao próximo é realista e não desperdiça nada que seja necessário para uma transformação da história que beneficie os últimos” (FT, 165)

É bom e justo darmos pão a quem tem fome, mas é igualmente bom e imperioso que perguntemos pelas causas da pobreza. A caridade que se faz ao irmão é importante, mas a caridade que se faz para o bem comum também tem seus méritos, e é esse o intento da Campanha da Fraternidade, aproveitando e unindo forças para o mesmo objetivo.

Nesse ano em que a CFE se propõe ao diálogo, produziu um texto-base pelo CONIC para orientar os desdobramentos e discussões acerca do tema.

Embora possa haver ideias indigestas presentes no texto, encontramos uma riqueza muito maior que são as provocações a um olhar mais acurado para o mundo que nos circunda, com situações que não fazem parte do projeto de Deus, como já citado, a violência, a exclusão, a corrupção, a economia desumana, entre outras.

Podemos, desde que com muito respeito e com bom embasamento, tecer críticas aos pontos que são divergentes da fé católica, de modo que estas, devidamente embasadas, sejam feitas com respeito e ouvidas, já que a CFE se dispõe ao diálogo.
Seria um contratestemunho atacar aqueles que expõem pontos de vista diferentes, fechando-se ao diálogo.

Há alguns exaltados, dum lado e de outro, que dão testemunho da necessidade da conversão ao diálogo dentro da Igreja. É inadmissível a forma belicosa como certos grupos expõem seu ponto de vista, desrespeitando os senhores bispos e a CNBB, tentando boicotar a coleta solidária, que serve justamente para os projetos caritativos tanto da Diocese quanto a nível nacional.

Bradam a reivindicação de uma quaresma como tempo de conversão. Mas um espiritualismo vazio, que é incapaz de olhar com amor as realidades sofridas desse mundo, não tem valor. Quaresma não é só tempo de oração, é tempo de ação também, duma caridade viva e operante, capaz de sofrer com os que sofrem, de sentir com o outro.

Vivamos bem essa quaresma. Rezemos mais e melhor, vivendo um encontro com Jesus na oração. Entrando, pela oração, no Coração de Jesus, vejamos quanta dor sente o Bom Deus pelos seus filhos que padecem nas situações extremas da vida.

Façamos nossas penitências de maneira frutuosa, não pelo gosto da penitência, mas pela via pedagógica da mesma.

Ao abster da carne, lembremos de quantos passam fome, sem o básico para sobrevivência. Ao tirarmos uma refeição, lembremos de quantos reviram latas de lixo procurando algo para satisfazer um pouco da fome.

Ao nos propormos acordar alguns minutos mais cedo, ou tomar banho gelado, lembremos de quantos não tem teto nem acessibilidade a água potável. E que toda essa espiritualidade tão importante desemboque numa caridade operante, fazendo o que está ao nosso alcance, estendendo as mãos para aqueles que precisam de nós, oferecendo nossa presença àqueles que não precisam só de bens materiais, mas da nossa presença fraterna, rezando pela conversão dos pecadores, a começar pela própria conversão, rezando pela unidade dos cristãos em torno da Verdade que é Cristo, presente na Igreja.

Além dessas ações, na medida do possível, lutemos pela promoção social, pelos direitos dos que estão à margem.

É inútil a Campanha da Fraternidade, se a levantamos como bandeira ideológica e esvaziamos o sentido da quaresma. Mas é muito útil, se a consideramos como um braço das observâncias quaresmais, que é a caridade social.

É bom podermos oferecer pão a quem tem fome, melhor ainda é oferecer condições dignas para que não exista entre nós famintos.

Que a Virgem Maria e São José, cujo ano celebramos, nos ajudem a trilhar um caminho de conversão, a voltar o nosso coração todo para Cristo, e, cheios dos seus sentimentos, olharmos afetiva e efetivamente pelos preferidos do Reino, sempre em comunhão com a Santa Mãe Igreja, e em obediência ao trono de Pedro, ocupado hoje pelo Papa Francisco.

Alisson Sandro Anacleto da Silva
Seminarista da Diocese de Guanhães

Mística do Natal: um encontro transformador

O ciclo do Natal, que compreende o Advento e o Tempo do Natal, até o batismo do Senhor, é um tempo precioso e pedagógico da liturgia, que nos educa na espera, na alegria do Natal e no caminho a ser trilhado a partir desse encontro maravilhoso com o Emanuel.

O Advento é um caminho de espera. Tal afirmativa tem uma conotação ambígua, já que “espera” tem um tom passivo, enquanto “caminho” nos lembra de movimento. Mas é assim mesmo: o advento é um caminho de atração, Deus nos atrai a Si, o que gera uma rota de conversão, de mudança, de adaptação. Há um duplo advento: primeiro um Deus que virá, é a espera escatológica, celebrada nas primeiras semanas do Advento; a partir do dia 17 de dezembro, início da chamada semana santa do Natal, os olhares litúrgicos se voltam para a primeira vinda, para o Santo Natal propriamente dito. É um caminho didático, que nos aponta para a segunda e definitiva vinda do Senhor a partir da primeira vinda, do seu santo nascimento, nos mostrando que esse Deus que virá é um Deus-amor, próximo, amoroso, e que caminha todos os dias conosco. Temos a tentação de pensar as duas vindas como desconexas, como se o Senhor nos tivesse abandonado e voltaria apenas na parusia. Não! Ele é Deus conosco, que caminha ao nosso lado, que é nosso parceiro.

O Santo Natal é a festa para qual nos preparamos “grávidos” de esperança: Ele veio, é Emanuel. Na fragilidade da manjedoura, nos poucos panos, naquele curralinho, único lugar disponível (Lc 2,7), se manifesta o Verbo encarnado. A providência tudo governa. A santa pobreza da gruta de Belém já revelava a missão do Rei-menino: nascido em Belém, que se traduz por “Casa do Pão”, numa manjedoura, um lugar de comer dos animais, o Pão da Vida (Jo 6,35) entra na história, assume nossa fragilidade, nos assume para nos resgatar. Também a santa pobreza de Belém nos indica quem são os primeiros destinatários da Missão salvífica do Deus encarnado: os pobres, os simples, os humildes, os que estão em alguma situação extrema na vida, não necessariamente apenas material, existencial e moral também. Tudo isso representado pelos pastores (Lc 2,8-20) e pelos magos (Mt 2,1-12), sinais que a mensagem é para todos, mesmo os pagãos, preferencialmente para os pobres, paras os sofridos, para os enfermos (Mc 2,17).

Nos chama atenção as festas que são celebradas imediatamente após o Natal: Santo Estevão, Santos Inocentes e Sagrada Família. Tais celebrações demonstram como o Amor de Deus entra na história humana de uma maneira concreta, de modo que tantos voltaram sua vida para a existência daquele frágil redentor nascido em Belém.

A Epifania, como dito acima, celebra essa Salvação trazida pelo Verbo a todos os povos. A partir disso não há mais que ter a petulância de pensar que Deus é do povo, uma propriedade privada. Antes, o povo é de Deus, e é Ele, pelos seus caminhos, ordinariamente pelo sacramento da Igreja, que salva Seu povo. A Igreja é sua presença sacramental, mas não é a Salvação. É o caminho ordinário deixado pelo próprio Cristo, como entende o Concílio Vaticano II (cf. Lumen Gentium, 8), mas Deus tem os seus caminhos, que nem sempre são conhecidos, para salvar os que são Seus.

O Batismo do Senhor encerra, pois, o ciclo do Natal. Uma celebração belíssima em que, geralmente, renovamos nossas promessas batismais. Jesus, bem sabemos, não tinha pecado. O batismo de João Batista era um batismo de arrependimento e preparação para a vinda do Messias. Contudo, o próprio Messias se faz batizar (Mc 1,7-11). São Máximo de Turim, bispo, vê o batismo de Jesus como primícias (cf. Sermo 100, de Sancta Epiphania). Assim como no deserto a coluna de fogo ia à frente passando pelo mar vermelho, símbolo do nascimento do povo de Deus (Ex 13,21-22), assim Jesus santifica as águas do batismo, como o primeiro, nos indicando o caminho, para nos tornamos filhos no “Filho muito amado” (Mc 1,11).

Há um versículo marcante no Evangelho lido na Epifania que resume toda essa mística do Natal. Os magos, ao se encontrarem com o Menino e oferecerem seus presentes, eles “voltam por outro caminho” (Mt 2,12). Como os magos, também nós encontramos o Menino Deus no Natal. Esse encontro marcante precisa nos empurrar para novos caminhos, ou seja, precisamos, em cada Natal, mudar a nossa vida, nossos caminhos, nossas relações, nossa visão de mundo. O natal precisa iluminar nossa vida cristã, precisa provocar uma mudança de vida, de caminhos. Não podemos passar pelo Ciclo do Natal e voltar, depois de encontrar com o Emanuel, pelos mesmos caminhos da vida velha. O natal é isso: celebra o amor de um Deus que teve a capacidade de assumir nossa fragilidade, de se fazer um de nós. Não podemos ser insensíveis a esse amor. O convite espiritual é esse: viver todos os dias como se fosse advento, num caminho de uma conversão grávida de esperança, para que todos os dias sejam também Natal na nossa existência. É Deus conosco nos nossos caminhos, na nossa vida, na nossa história. É, portanto, essa mística do encontro transformador que deve pautar nossa vida. Começando a transformação nos pequenos gestos da vida cotidiana, fazendo o ordinário de maneira extraordinária, por causa de Cristo.

Alisson Sandro
Seminarista do 2º Ano de Teologia
Paróquia São Miguel e Almas – Diocese de Guanhães

Versos à Virgem

Quando vem a escuridão
Vem-nos desejo por clarão
Quando a noite depõe o dia
E reina logo a agonia
Não espero nem um instante
Tiro o orgulho, viro clamante
Choro, aflito aos pés eu corro
Da mãe do Perpétuo Socorro

Mas aos seus pés em queixa
A Virgem não me deixa
Me tira logo desse chão
Me estendendo a sua mão

Com a mesma delicadeza
Me cura com destreza
Vê meus escárnios diante da cruz
E ao perdão me conduz

Sendo uma mãe perfeita
Não se dá por satisfeita
Tendo o melhor filho possível
Ainda adota um desprezível

Que valerá tão grande amor
Ó, mãe do Salvador?
Já tem a sua salvação
Por que não me deixa, então?

“Porque a experiência com o Amor
Não terá o mesmo sabor
Se com o Divino Filho eu viver
Mas você, filhinho, eu perder

Renunciei à tranquilidade
Pra seguir com fidelidade
A vontade do meu Rei
Sofri, senti o abandono
Chorei, perdi o sono
Mas nunca O abandonei

E ainda na cruz em agonia
Senti ser o fim da via
Mas depois de ter-se oferecido
Meu Jesus fez um pedido
Ofereceu-me a humanidade
Eu aceitei com humildade

Assim, ainda em missão
Socorro com precisão
A quem amor me jura
E a quem me esconjura

Portanto, filho querido,
Não se dê por vencido
Quando o vinho lhe faltar
Lembre-se das bodas de Caná!

Em sua face eu vejo
O erro e o mau desejo
Mas nem tanto isso fulgura
Quanto a inefável figura
Do meu querido Jesus
Que em sua alma reluz

Saiba que é ausência de amor
Todo e qualquer pecado
Deixa-me curar sua dor
Se deixando ser amado!”

Mateus Alves Correia
1° Ano da Configuração/Teologia
Arquidiocese de Diamantina

VOCAÇÃO E MISSÃO: MODOS DE SER IGREJA

A partir do mês dedicado às vocações somos chamados a refletir sobre sua natureza, as dimensões que implicam na vida pessoal e comunitária. É sempre oportuno voltar o nosso olhar aos diversos chamados realizados na história humana, principalmente àqueles que nos relatam as Sagradas Escrituras. De modo especial, trazemos como exemplo a vocação do profeta Isaías que, em situação dificultosa pela morte do rei Ozias, percebendo-se indigno de elevado ministério a ponto de dizer a si mesmo: “Ai de mim, estou perdido! Sou um homem de lábios impuros e habito no meio de um povo de lábios impuros, meus olhos viram o rei, o Senhor dos exércitos” (Is 6, 5). Diante dessas palavras, o profeta nos leva a refletir sobre nossa condição humana de seres frágeis, pequenos, cheios de defeitos e vícios, que nos encontramos em uma comunidade imperfeita, quedada no erro e no pecado.

Nessa mesma ótica, salta-nos ao coração a esperança de que Deus ainda acredita no humano, apesar de suas desventuras, da sua fragilidade. É nesse sentido que o mensageiro de Iahweh vai em direção a Isaías para tornar-lhe apto à missão que irá realizar. Ser anunciador dos desígnios divinos, o de ser porta-voz do Altíssimo. Eis a nossa esperança, de sermos capacitados por Deus para uma nova e urgente missão, pois assim nos alerta o adágio: “Deus não escolhe os capacitados, mas capacita os escolhidos”. Com isso, refrigera nosso espírito as palavras do Serafim: “Olha, isto tocou em teus lábios: a culpa está sendo tirada, e teu pecado, perdoado” (Is 6, 7). Contudo, nos surge uma indagação se, de fato, somos dignos do que está sendo ofertado. Ao mesmo tempo, é um chamado do Ser de Deus a cada pessoa, assim como ocorreu com o profeta.

Deus questiona a si mesmo na busca em saber quem enviaria em missão. E diante de sua experiência, e já ansioso e receoso por ela, o profeta exclama: “Eis-me aqui, envia-me” (Is 6, 8). Quem tem disposição é ágil na resposta aos desígnios de Deus, não espera um outro momento que pensa ser oportuno. A hora é agora, nesse momento!

A dimensão profética perpassa toda a nossa vida cristã. Em todas as formas de vocação oriunda do projeto do Deus Trindade, é sinal profético. Ademais, implica a nossa liberdade em responder e corresponder a esse propósito. Ser marido e mulher; ser solteiro; religioso e religiosa, padre; carpinteiro, pedreiro; motorista ou qualquer outra, é sinal do amor de Deus no mundo.

No princípio de nossa existência, como nos relata no livro do Gênesis, fomos feitos do amor e para o amor. É para sermos expressão de Deus-Amor no mundo. Que nossa vida seja assim realizada. Vocação acertada é vida feliz, dizia o arcebispo emérito de Diamantina, Dom João Bosco. E a nossa felicidade está em fazer a vontade daquele que nos escolheu.

A vocação por excelência está na busca pela santidade. O coração do livro do Levítico está em expressar a importância do ser santo por Deus o ser – “Sede santos, porque eu, vosso Deus, sou santo” (Lv 19, 2). O modelo vivo de Santidade encarnada está na própria Pessoa de Jesus Cristo. Todo discípulo é exortado a seguir seus passos. E ser santo é levar em consideração o modo de viver (modus vivendi). Não será por abstrações que poder-se-á vislumbrar a beleza da santidade, mas a partir do modo simples de viver a própria vocação. É o que exprime a teologia paulina, agir “como convém a santos” (Ef 5, 3).

Mas como ser santo? Ela se manifesta por meio da caridade, da capacidade de ser fraterno com o outro, por meio da solidariedade no bem. Se constitui no agir ético e moral respaldados em nossos valores cristãos. Em certa medida, é sermos uma Igreja audaz na proclamação da Boa-Nova (Good-News). É ser uma Igreja dispensadora da misericórdia de Deus ao mundo sem reservas. É tornarmo-nos verdadeiros dispensadores das graças de Deus pelo poder do Espírito Santo. É formarmo-nos enquanto um “corpo evangelizador” (Dom Darci José), que conduz à vida, à responsabilidade, ao respeito, que pratica o bem-comum. Nesse interim, já dizia o Papa Francisco na Evangelii Gaudium de que a missão de evangelizar é “dever da Igreja” (nº 110). Mas quem é a Igreja? Somos cada um de nós batizados em Cristo, que nos tornamos sinal e odor de Deus no mundo, a começar em nossas famílias – “Assim também vós já agora sois o bom odor de Cristo” (AMBRÓSIO, 2019, p. 70).

Diante do nosso senso ou “instinto da fé” levamos a esmo tudo aquilo que cremos expressos em nossa vocação. É o “sensos fidei que [nos] ajuda a discernir o que vem realmente de Deus” (EG, 119). E é por isso que não há e não pode haver separação entre vocação e missão. Ambas estão intrinsecamente ligadas. A nossa missão, dentre tantas formas de expressão, consiste acima de tudo na salvação de si e dos outros. Assim como se vive a fé em comunidade, da mesma maneira requer do crente uma postura de responsabilidade para com a salvação de outrem. Nos diversos modos de ação eclesial, enquanto Igreja, Povo de Deus, sejamos e tenhamos a felicidade em “partilhar os dons da salvação” (cf. Ef 4, 4-6).

Em todas as circunstâncias da nossa vida, a nossa primeira missão é testemunhar Àquele que foi testemunha do amor de Deus, Jesus Cristo. Em qualquer condição vocacional que nos encontrarmos, que seja feita a sua Vontade. Pois o nosso alimenta seja, assim como foi para o Cristo, fazer a vontade daquele que nos enviou – “O meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou e levar a termo sua obra” (Jo 4, 34). Que nossa vocação seja a nossa missão em fazer acontecer o Reinado de Deus em nós e no mundo.

Sem. Valmir Rodrigues Pereira
Terceiro ano da Configuração
Diocese de Diamantina-MG

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BÍBLIA SAGRADA. 2ª ed. Brasília: CNBB, 2019.
FRANCISCO, Papa. Evangelii Gaudium. Exortação apostólica. São Paulo: Loyola, 2013. (Documentos da Igreja).
AMBROSIO, Santo. Os Sacramentos e os Mistérios: iniciação cristã na Igreja primitiva. Rio de Janeiro: Vozes, 2019. (Coleção Clássicos da Iniciação Cristã).
COMPÊNDIO DO VATICANO II. Lumen Gentium. In:_______. Constituições decretos, declarações. 30ª ed. Rio de Janeiro: Vozes, 1968. p. 39-117.

 

A Independência da nação se faz com os valores de sua população

A frase acima abriu o desfile de 7 de setembro, em Sabinópolis, realizado pelas escolas públicas do município. Todo ano é escolhido, pelos organizadores, um tema necessário à reflexão e a revisão de atitudes em todos os participante e cidadãos presentes no evento.

Por tudo o que vivenciamos na vida política, social, familiar, profissional e pessoal a escolha desse tema visou o resgate dos VALORES, tão fundamentais na vida de qualquer pessoa ou nação.

Segundo o dicionário Aurélio, Valores são as normas, princípios ou padrões sociais aceitos ou mantidos por indivíduo, classe, sociedade etc. Diante disso urge perguntar: Que valores você preza, aceita, mantém?

Condenamos a corrupção dos políticos, mas será que agimos corretamente em todas as coisas que fazemos?

Uma escola fez a seguinte frase:

CARÁTER: não se diz que tem, se mostra com atitudes.

Honre seus compromissos
Diga a verdade
Seja fiel
Preserve a vida
Seja ético
Seja bom
Pense positivo
Ajude
Respeite
Seja compassivo
Responsabilize-se
Seja solidário
Reconheça boas intenções
Perdoe
Agradeça
Cumpra sua obrigação
Desempenhe bem sua função
Deseje o bem.

Se cada um fizer a sua parte, faremos deste país uma grande nação, sem corrupção, poluição, devastação, violência e enganação. É preciso diminuir a distância entre o que se fala e o que se faz, de tal forma que nossa fala seja nossa ação. Assim se constrói a independência de uma nação.

Regina Coele Barroso Queiroz Santos,
de Sabinópolis  – butibarroso@yahoo.com.br

( publicado na Folha Diocesana, setembro de 2015)

TRÊS PROFETAS DOS NOSSOS TEMPOS

Celebramos no dia 27 de agosto o fim da trajetória terrena de três pessoas admiráveis que muito marcaram os meus caminhos e com certeza os caminhos de muita gente boa.

Dom Hélder Câmara nos deixou em 27 de agosto de 1999. Dom Luciano Mendes de Almeida encerrou a sua esplêndida presença entre nós, no mesmo dia e mês de 2006. Dom José Maria Pires foi em busca de sonhos e utopias em 27 de agosto de 2017.

Os três, mais do que amigos, foram irmãos e ajudaram a construir o momento luminoso da Igreja no Brasil em que bispos – e aqui cabe lembrar mais uma vez Pedro Casaldáliga, que era também irmão dos três – religiosas e religiosos, militantes leigas e leigos buscaram seguir a vida, o testemunho e os ensinamentos de Jesus. Tempos em que floresceram as Comunidades Eclesiais de Base, as Pastorais comprometidas com a vida, os grupos de Fé e Política, os movimentos ecumênicos.

Dom Hélder foi o precursor. Começou como bispo auxiliar junto às comunidades mais empobrecidas do Rio de Janeiro, e depois de forma mais visível e libertária nas periferias de Olinda e Recife. O trabalho junto aos pobres e excluídos, trabalhadores, jovens, desdobrou-se na voz que se ergueu contra os desmandos da ditadura pós-golpe de 1964; voz que cresceu e tocou corações e consciências além das fronteiras nacionais, quando a ditadura com o Ato Institucional nº 5 adentrou no trágico território dos crimes contra a humanidade, com as prisões arbitrárias, torturas, mortes, desaparecimentos.

Recordo com emoção, quando aos 16 anos em Bocaiuva recebi pelo reembolso postal e li com atenção própria dos discípulos “Revolução dentro da Paz”. Belíssimo livro com pronunciamentos de Dom Hélder. Pude muitos anos depois, como vereador em Belo Horizonte, entregar-lhe o título de Cidadão Honorário da nossa capital. Dom Hélder, já arcebispo emérito, disse-nos então que pretendia dedicar os seus últimos anos de vida à luta para erradicar a fome no Brasil.

Guardei os seus ensinamentos e o seu desejo, quando priorizamos na Prefeitura de Belo Horizonte a segurança alimentar e o nosso trabalho no Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome.

Dom José Maria Pires emergiu na minha vida e na vida de milhares de pessoas quando bispo de Araçuaí, no nosso Vale do Jequitinhonha, foi transferido para assumir a Arquidiocese de João Pessoa e tornou-se vizinho de Dom Hélder.

Os nossos primeiros encontros ocorreram nos anos 1970. Nunca me esqueci de que em uma conversa com militantes, Dom José ousou uma afirmação radicalmente evangélica. Disse que a Igreja do futuro não perguntaria às pessoas se elas acreditam em Deus e sim se elas são capazes de amar. O amor ao próximo e particularmente o amor aos pobres é o passo inicial para seguir Jesus. Militamos juntos no Movimento Nacional Justiça e Não Violência.

Tive a alegria de ver o meu filho o vereador Pedro Patrus conceder-lhe o título de Cidadão Honorário de BH em evento memorável na Câmara Municipal.

Dom Luciano foi um encontro mais recente. Ocorreu nos anos de 1980, quando assumiu a Arquidiocese de Mariana. Dom Luciano era bispo auxiliar de Dom Paulo Evaristo Arns em São Paulo. O nosso desejo e expectativa era que ele viesse a substituir o inesquecível Cardeal do Povo. Ocorre-me então uma conversa com Dazinho – este também sempre presente nos corações e lembranças dos que tiveram o privilégio de conhecê-lo. Falei com Dazinho deste meu sentimento e que a vinda de Dom Luciano para Minas frustrava as minhas expectativas. Dazinho, bem a seu feitio, disse-me que sentia e pensava de forma diferente: Muito bom que Dom Luciano venha para Minas, para aqui dar o seu testemunho e exercer o seu magistério profético.

Dazinho estava certo. Dom Luciano foi um sinal da presença de Jesus entre nós. Tivemos encontros, conversas, que me marcaram para sempre. Convidou-me para participar e dar o meu depoimento em eventos da arquidiocese. Tornou-se um consultor e conselheiro não remunerado do Ministério Desenvolvimento Social e Combate à Fome.

Dom Hélder, o Padre Hélder, o Dom da Paz, Dom José Maria, o Dom Zumbi, o bispo que assumiu a sua negritude, Dom Luciano o estadista da Igreja, que tão bem articulava o trabalho de base e suas atribuições na Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, da qual foi secretário-geral e presidente, fiéis seguidores de Jesus, anunciam com suas vidas e ensinamentos o Brasil que nós queremos.

PATRUS ANANIAS
Deputado Federal

” O Dia em que a Terra parou” . Bela reflexão de Pe Dilton

Ano de 2020 cumpre-se a “profecia” de um dos maiores compositores do século XX, Raul Seixas que, no Ano de 1977, lança para o mundo musical a letra e música “ O Dia em que Terra Parou”(gravadora Warner Music Brasil – dezembro de 1977) que nos leva a uma reflexão tão triste neste século 21.

Neste momento em que o mundo vive os seus medos no enfrentamento a uma Pandemia que já ceifou inúmeras vidas, comecei a pensar na seriedade em que todos, sem distinção, devemos nos colocar como vigilantes uns dos outros e de nós mesmos, para que, em nossas famílias e entre os nossos amigos, não venhamos a sofrer com perdas irreparáveis como, infelizmente, já tem acontecido com tantos, mundo afora.

A Terra Parou”. Mas os nossos sonhos não. A terra parou, os nossos ideais não. A terra parou, a esperança não! Pois esta nos aponta para uma Luz que não se esgota, que nos faz levantar e retomar a nossa caminhada terrena.

Essa noite eu tive um sonho de sonhador

Foi mesmo um sonho? Uma visão? Um comunicado de um Ser superior que quis fazer uso desse gênio da música para despertar a humanidade para uma atenção maior à destruição do Planeta, da Casa Comum. Destruição que, naquele ano, já apontava um caminho sem volta frente à ganância, à arrogância, ao egoísmo, à exploração dos poderosos sobre os mais pobres? Foi mesmo um sonho ou um pesadelo da triste realidade que vive a humanidade com os mesmos medos, com buscas de respostas que a levam a vaguear sem saber aonde chegar?

Maluco que sou, eu sonhei

Maluco? Penso que não. Eu diria que um pensador capaz de revelar seus sonhos, de transformá-los em letra e música que levem crianças, jovens, adultos e anciãos a refletirem sobre a realidade de suas vidas.

Com o dia em que a Terra parou
Com o dia em que a Terra parou

Então chegou o dia, ou melhor: os dias, os meses, mas que não se complete um ano esta “profecia”: A TERRA REALMENTE PAROU. Que tão logo volte a se movimentar!

Foi assim
No dia em que todas as pessoas
Do planeta inteiro
Resolveram que ninguém ia sair de casa

Assim se faz necessário. Decidiram que ninguém sairá de suas casas. Mas como? E o direito de ir e vir garantido pela Carta Magna desse País, a Constituição Federal? Se sou maior de idade, dono do “meu nariz”, responsável pelos meus atos, como não vou sair de casa? E quando se trata de grandes potências econômicas, bélicas, que têm os maiores e melhores cientistas, os maiores esquemas de seguranças do Planeta, como vão lidar com essa exigência do isolamento social? Como não sair de casa?

Como que se fosse combinado em todo o planeta

Não foi combinado em todo o planeta! Apareceu um novo coranavírus, que causa a doença COVID-19, que chegou pra dizer: “Vocês não me veem, não sabem quem eu sou, onde estou, mas sabem que, em contato comigo, já não terei o trabalho de contaminar outras cinco vítimas, dez… ou seja, vocês farão isso por mim se não ficarem em casa”.

Naquele dia, ninguém saiu de casa, ninguém

Há dias, meses que o confinamento ou isolamento social está sendo a melhor arma para enfrentarmos esse ser invisível que amedronta a toda a humanidade.

O empregado não saiu pro seu trabalho
Pois sabia que o patrão também não ‘tava lá’

De fato, o empregado não saiu pra trabalhar! Mas ele sabe que se sair e se contaminar, a sua chance de ter um tratamento digno é quase impossível, porque em muitas cidades nem Hospital tem e onde tem, pode lhe faltar o respirador mecânico e tantos outros procedimentos de saúde que podem salvar sua vida.. “O Patrão também não estava lá”…
Curiosamente eu, acompanhando os telejornais e outros meios de comunicação, vi que muitos patrões queriam que os seus empregados fossem trabalhar, mesmo ele, o patrão, não estando lá.” A ECONOMIA NÃO PODE PARAR…” A justificativa é plausível? o fato é que muitos desses empregados e patrões que saíram e não entenderam que a terra parou, pararam para sempre pois o “invisível” veio para igualar a todos.

Dona de casa não saiu pra comprar pão
Pois sabia que o padeiro também não ‘tava lá’

As necessidades básicas à sobrevivência não esperam! É preciso alimentação, remédios…Daí as padarias, super e hiper mercados, postos de combustíveis, farmácias e drogarias mantêm atendimento aos seus clientes. Muitas vezes não vai a dona de casa comprar o pão, pois, por ser de mais idade, é mais vulnerável à contaminação, deve ir, então, um filho ou aproveita a boa vontade de um vizinho e evita aglomeração. Requisitos básicos são necessários: higienizar bem as mãos com água e sabão e uso constante de álcool em gel; Máscaras são imprescindíveis, mesmo com possibilidade de repressão ao não uso pelas autoridades constituídas. Mas, e o padeiro? Ele está lá! Como disse “alguns estão se sacrificando para preservar a vida a outros.”

E o guarda não saiu para prender
Pois sabia que o ladrão, também não ‘tava lá’
E o ladrão não saiu para roubar
Pois sabia que não ia ter onde gastar

O guarda não sai para prender, mas sai como que numa força-tarefa para colaborar na orientação e na assistência aos agentes de saúde no sentido de ajudar a todos na prevenção da Covid-19 que, para alguns, não passa de uma “gripezinha”, mas que ceifa vidas e mais vidas a cada dia. O ladrão, às vezes, até sai, mas também ele, muitas vezes vítima de um sistema discriminador e marginalizador perambula por aí, pois “a terra parou” e ele não se deu conta de que o vírus não faz discriminação.

No dia em que a Terra parou, eh eh
No dia em que a Terra parou, oh oh oh
No dia em que a Terra parou, oh oh
No dia em que a Terra parou

Realmente parou e continua parada! O que faço com os meus bens? E as pessoas que mais amo…não posso nem visitar? O que farei, já que não posso aumentar o meu patrimônio? De forma positiva e muito curiosa foi a terra parar e despertar em nós o sentimento de solidariedade. Ajudamos com cestas básicas, com produtos de limpeza e com outras coisas básicas para a sobrevivência de uma família…

“A terra parou”. E já não é hora de ela se movimentar novamente? A vida das pessoas já está segura para que a terra se movimente ou é preciso esperar mais um pouco? Se a preocupação primeira for a VIDA que se espere mais um pouco.

E nas Igrejas nem um sino a badalar
Pois sabiam que os fiéis também não ‘tavam lá’
E os fiéis não saíram pra rezar
Pois sabiam que o padre também não ‘tava lá’

Sabe-se que os sinos sempre foram um convite à oração, como também servem de cronômetro para os moradores de uma cidade, indicam até aquele que irá presidir uma celebração Litúrgica (Missa).

Expressam com os seus sons alegrias e até momentos tristes. E porque a terra parou os fiéis não vão à Igreja para rezar. Mas aí é que surge a oportunidade de retomarmos as pequenas comunidades cristãs já desejadas no início do cristianismo, como nos relata o Livro dos Atos dos Apóstolos “onde ali se constituía a Igreja Doméstica”.

Os fiéis não saem para rezar pois também os padres estão impedidos de estarem lá. A terra parou para todos, em pleno século 21. Ainda bem que as tecnologias, através dos meios de comunicação social, sobretudo a internet, oportunizam aos padres chegarem a essas pequenas comunidades cristãs, Igrejas Domésticas, alimentam a fé e a espiritualidade do povo cristão.

E o aluno não saiu para estudar
Pois sabia o professor também não ‘tava lá’
E o professor não saiu pra lecionar
Pois sabia que não tinha mais nada pra ensinar

O transporte parou, as instituições de ensino pararam… como expor centenas de milhares de alunos, professores, colaboradores da educação a um mal invisível e que ainda não se sabe como combatê-lo? No isolamento social, permanece o aluno, o professor…toda a comunidade escolar! Sempre há muito o que ensinar! E tanto conhecimento apenas aguarda e será histórico, porque quando a terra voltar a se movimentar trará a todos uma nova lição de vida. Esperamos, sobretudo, que o valor à vida seja a maior lição, o compromisso de todos os que sobreviverem a essa pandemia da Covid-19.

No dia em que a Terra parou, oh oh oh oh
No dia em que a Terra parou, oh oh oh
No dia em que a Terra parou
No dia em que a Terra parou
O como parou…

O comandante não saiu para o quartel
Pois sabia que o soldado também não ‘tava lá
E o soldado não saiu pra ir pra guerra
Pois sabia que o inimigo também não ‘tava lá
E o paciente não saiu pra se tratar
Pois sabia que o doutor também não ‘tava lá
E o doutor não saiu pra medicar
Pois sabia que não tinha mais doença pra curar

“A Terra parou!” Não tem comandante e nem comandado. A guerra é uma só: Lutar pela vida. Então nos descobrimos de fato como iguais. O “invisível” pegou o comandante, pegou o comandado, pegou o médico, pegou o paciente, pegou o padre, pegou o fiel, pegou o professor, pegou o aluno, pegou o rico e pegou o pobre, pegou o negro e pegou o branco…

Essa guerra é de todos! Mas “o que é o homem para dele vos lembrardes? (Salmo 8, 5). “A Terra parou”…, Raul Seixas, mas não vamos ficar aqui “…Com a boca escancarada cheia de dentes esperando a morte chegar…” como você nos falou em sua canção “Ouro de Tolo”.

Vamos, sim, continuar lutando por um mundo mais igual, mais fraterno, menos desumano e sem mediocridade. Vamos lutar contra todo poder opressor e a favor da vida, pois somente com esse propósito é que a humanidade fará com que a terra volte a se movimentar dando às pessoas a oportunidade de serem melhores umas com as outras, de cuidarem do Planeta, da Casa Comum, enfim, de respeitarem a VIDA como dom de Deus. Se assim não o fosse o próprio Filho de Deus, Jesus Cristo, não teria dito: “Eu vim para que todos tenham VIDA e a tenham em abundância” (Jo 10,10).

No dia em que a Terra parou oh yeah
No dia em que a Terra parou, foi tudo
No dia em que a Terra parou, oh oh oh
No dia em que a Terra parou
Essa noite eu tive um sonho de sonhador
Maluco que sou, acordei
No dia em que a Terra parou, oh yeah
No dia em que a Terra parou, ohh
No dia em que a Terra parou, eu acordei
No dia em que a Terra parou, acordei
No dia em que a Terra parou, justamente
No dia em que a Terra parou (eu não sonhei acordado)
No dia em que a Terra parou
No dia em que a Terra parou
No dia em que a Terra parou, oh yeah
No dia em que a terra parou

PAROU. MAS VAI VOLTAR AO SEU MOVIMENTO!
EU CREIO!
É QUESTÃO DE TEMPO…
Pe. Dilton Maria Pinto
Administrador Paroquial – Santa Maria do Suaçuí /MG.
18/06/2020

Ufa! Foi por um vírus…

 

Rápido, forte e letal, é assim que o coronavírus (covid-19) tem se apresentado desde que encontrou morada e aconchego no ser humano frágil.

Sua intromissão fez com que os governantes tomassem medidas como, por exemplo, a quarentena para os infectados e o isolamento social. Medidas tão fortes que as ruas ficaram vazias, os trabalhos cotidianos foram adaptados, passando a funcionar em casa.  Os religiosos se reinventaram no mundo virtual, preservando assim, o contato do fiel com o divino e as famílias passam a se sentir e a se cuidar mais intensamente. Vale sonhar com “um lar onde os pais ainda se amam” como canta Padre Zezinho.

O coronavírus causou e está causando no ser humano, a começar da China, nos últimos meses e agora em outros países dentre eles, o Brasil, um grande alerta, digno de reflexão, de análise do hoje e de um olhar audacioso no futuro. Hoje, a ciência tenta dialogar com o vírus, mas ele segue indiferente aos recursos existentes.  Nesse sentido, vale considerar que a partir disso o ser humano percebe o quão delicada e breve é sua vida. Ele não é um ser isolado que se basta, mas faz parte de um todo, de um grande corpo cujos membros são muitos. Mais vale agora acatar as orientações da Organização Mundial da Saúde, pois o tempo está passando e vidas sendo ceifadas. Mais vale agora a compreensão, o cuidado e a oração, pois nesta casa comum, como lembra o Papa Francisco, somos todos irmãos.

Como lição, o Mundo se recorde que todas as nações formam uma só família e que se alguma delas se exclui de estender-se à outra, estará contribuindo com a dizimação de boa parte dos membros dessa mesma família. Oxalá poder exclamar amanhã: Ufa! foi por um vírus. Sim! Por causa dele as ruas tomaram nova forma e os trabalhos se modificaram. As religiões se redescobriram e as famílias puderam se amar ainda mais. Vale o questionamento, após a pandemia, como refletir a humanidade?

Que o ser humano aprenda com este momento de confronto mundial em que a solidariedade e a união batem à porta e pedem hospedagem para que num isolamento voluntário, todos juntos, contenhamos o avanço do coronavírus, preservando também as equipes de saúde. Do contrário, será uma inesquecível tragédia.

Filipe Ferreira Coelho

23 de março de 2020.

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