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O ESPÍRITO SANTO E A POLÍTICA – Diego de Lima Dias

 

 

O ESPÍRITO SANTO E A POLÍTICA

Aurea Marin Burocchi*
Belo Horizonte, MG
Diego de Lima Dias**
Santos Dumont, MG

Introdução

Esta reflexão surge num momento particular da história do país. Estamos vivendo em meio a polarizações de grupos políticos e ideológicos que estão carreando emoções e manifestações que estão dividindo grupos – familiares, de amigos, de trabalho e até eclesiais. Fenômeno preocupante e inédito na sociedade brasileira que, aparentemente, é acolhedora de posições diferenciadas.1

Embora o mito da sociedade brasileira miscigenada, pacífica e não racista possa ser uma ingenuidade que muitas vezes se mostra inválido e hipócrita, certamente o surgimento de conflitos aparentemente insolúveis, tendo por pano de fundo partidos políticos, não eram esperados pela maioria da população. Nem o era o cenário de corrupção que envolve políticos, cifras astronômicas e grandes empresas públicas e privadas; isto mostra a que nossos representantes eleitos pelo povo se dedicam no cumprimento dos seus mandatos.

Se as religiões, de modo geral, e também o Cristianismo pregam a tolerância, a abertura ao outro, o diálogo, o respeito, o que justifica o posicionamento de também “cristãos” em posturas tão opostas2 e em atividades tão condenáveis? A honestidade foi banida da face da terra? O diálogo foi excluído das relações interpessoais? O respeito por posições e opiniões diferentes não encontra mais lugar? Se inexistem abertura ao outro e respeito pelo seu ser diferente, como falar de amor e comunidade? Se não há compromisso ético, como falar de bem-comum e, portanto, de política?

Mais que buscar causas da atual situação ou acusar este ou aquele grupo, nossa proposta é refletir sobre a relação entre o Espírito Santo e a vida política. Qual a ação do Espírito nos homens? Quem é o ser político tomado pelo Espírito?

As indagações, as revoltas e a capacidade de tornar a teologia mais próxima da vida foram os principais combustíveis deste insight. Trazer a teologia para a vida e fazê-la com amor foi a pauta recorrente desta reflexão, afinal, como já disse Bruno Forte:

A teologia não é um aristocrático amor pela sabedoria reservado a poucos adeptos ao trabalho, ela é muito mais “a sabedoria do amor”: o esforço de levar à palavra o vivido pela caridade. A teologia cristã deve dizer o amor; e porque o Amor se disse a nós na vida de Jesus de Nazaré, Senhor e Cristo, a teologia cristã deve narrar o amor, narrando o mistérioda Páscoa, o evento pascal (Burocchi, 2008).

1. O Espírito Santo e a política

Relacionar a política com o Espírito Santo não foi fácil, pois as bibliografias disponíveis de Pneumatologia, além de serem limitadas, não fazem menção direta a este assunto. Desistir da empreitada não foi opção.

Afinal, parar não é obra do Espírito! Serviram de inspiração e fundamentação os textos bíblicos, filosóficos e teológicos.

1.1 Existe relação entre o Espírito Santo e a vida política?

É de fundamental importância compreender como o Espírito age na vida prática dos seres humanos e como, na atual conjuntura, se torna mais que necessário não dissociá-los. Atualmente há uma grande rejeição popular em relação à política. Isso decorre da pseudocompreensão do significado desta, que é fundamental para a vida humana. Há uma tendência geral de associar apenas o político eleito com política. Os escândalos de corrupção também colaboram para intensificar a aversão pelo tema.

Com o avanço das interações sociais pela internet, aparece uma grande massa que se propõe a discutir o assunto conforme seus interesses pessoais, muitas vezes de forma muito superficial e alienante, além de profundamente indisposta a contribuir efetivamente para a realização do bem comum. Sua filosofia é “deixa a vida me levar, vida levaeu”.3 Na vida cotidiana, é este, geralmente, o grupo que mais paga o preço pelas escolhas da maioria que abraçou o discurso de uma minoria gananciosa e corrupta.

Somam-se a este um grupo perigoso aqueles que, na época de eleições, vestem camisas, chapéus, bandeiras partidárias e compram ideias sem ao menos questioná-las. Estes ficam em evidência só em épocas eleitorais, pensando que sua participação política se restringe a eleger o nome mais afim, normalmente imposto pelas empresas que fabricam dados fictícios em pesquisas manipuladas. Infelizmente, eles não se dão conta de que participam do grupo daqueles sobre os quais pesam os preços da cesta básica, da conta de luz, do aluguel, dos remédios e de uma vida limitada pelo salário mínimo. O envolvimento deles é momentâneo e manipulado por uma estratégia de marketing coletivo. Este grupo tem como lema: “eu adoro a minha televisão. Ela me conta as coisas como elas são. Se as coisas vão mal, é só mudar de canal”.4

Há também o grupo dos “conscientes do mal”, que se ufanam por terem do seu lado a “desgraça dos inconscientes”, que favorecem e legitimam com seus votos ou seu silêncio a permanência da hegemonia corrupta. São os que “comem o caviar enquanto uns só ouviram falar”.5

Há, enfim, um grupo de pessoas conscientes, dispostas a lutar, discutir e reivindicar ideais coletivos de justiça, saúde, educação e ações de transformação do espaço público, provando que a política está viva em suas vidas. Estes são como “mosca na sopa”,6 pois vivem atrapalhando, com seu zumbido e impertinência, os que querem tomar a sopa sem dividir.

1.2 Mas o que é política?

A palavra vem do termo grego pólis, que significa cidade. Na pólis grega, destacavam-se dois pontos: a acrópole, local mais alto onde eram construídos o templo e o ponto estratégico de defesa; e a ágora, praça principal onde aconteciam a interação, o comércio e onde os cidadãos tinham a possibilidade de debater os assuntos da cidade e resolver os problemas legais. Assim, política significa a administração da vida da cidade, trata dos assuntos relativos a todos os cidadãos, é expressão da participação e responsabilidade daqueles que são destinados à atuação pública. Para os gregos, é vocação de todo cidadão a) vida pública, ou seja, fazer política é a forma de garantir direitos, discutir os deveres, executar as leis e defender a vida.

Aristóteles, filósofo grego do século IV a.C., compreendia a política como forma de alcançar a felicidade. Ele definia o homem como zoon politikon (animal político), ou seja, um ser por excelência relacional, que traz na sua essência a necessidade de interagir para viver e executar duas virtudes indissociáveis que são a base para a vida do cidadão: a justiça e a amizade. O termo amizade (philia) deve ser entendido no sentido mais amplo da palavra, como a concordância entre as pessoas da qual resulta o companheirismo. Daí a importância da educação na formação ética dos indivíduos, porque os prepara para viver em comunidade.
Se a cidade é a associação dos iguais, a justiça é o que garante o princípio da igualdade. Justiça, para Aristóteles, é dar a cada qual o que lhe é devido, ou seja, quem precisa de mais deve receber mais, e quem carece de menos, menos. Isso é fazer justiça entre desiguais, pois só assim é possível garantir equidade. Logo, a cidade deve impedir a má distribuição das riquezas e das oportunidades e punir quem se comporta com injustiça.

Pode-se concluir que no conceito de política não cabe a corrupção. Infelizmente, não compreender isso tem levado os políticos a dedicarem-se aos próprios interesses e o povo a identificar política com a corrupção.

Por isso, não é difícil escutar: “odeio política!!!”

1.3 Criando políticos

Partindo da concepção de política e dos ideais aristotélicos acima mencionados e analisando a história humana, não é difícil constatar que vários povos e diferentes culturas em diferentes épocas buscaram e buscam a efetivação da verdadeira política. Esse tema está atrelado à história dos homens, aparece nas diversas manifestações artísticas, nas melhores obras da literatura clássica, medieval, moderna e contemporânea. Aparece também com grande destaque nas religiões, inclusive na judaico-cristã.

A própria Bíblia, como registro da experiência religiosa de um povo, nos textos tanto do Antigo como do Novo Testamento, está toda permeada de narrativas políticas. Inclusive, é nas experiências de organização, participação, discussão, lutas, busca por direitos e deveres que o povo vai, paulatinamente, identificando a presença, a força e a imagem de seu Deus. Tal constatação é possível ser feita do primeiro ao último livro. Se a Bíblia fala da relação de um povo com seu Deus e a política trata das relações humanas, seria impossível falar de Deus sem tratar das interações sociais.

No Gênesis, o relato da criação do mundo e dos seres humanos apresenta a imagem de Deus em profunda relação com suas criaturas. O autor sagrado evidencia que Deus cria seres relacionais (Gn 1,28), não deseja que o homem esteja só (Gn 2,18), por isso, cria um ser semelhante para estar em relação com ele (Gn 2,20-24). Ao homem Deus concede o sopro de vida, 7,רוַּה tornando-o um ser vivente (Gn 2,7), que tem a força para dominar, multiplicar, habitar e cuidar da terra e de todos os seres criados. Ao dar vida aos homens e mulheres, Deus, que se revela como relação, cuidado e organização, torna o ser humano um ser político e convida-o a participar da obra de criação constante da vida, do mundo e da história. O homem é chamado a ser com o mundo aquilo que Deus Trindade8 é: relação, união, amor, comunidade.

O primeiro presente que Deus dá ao homem é a vida, por meio da ruah, entendida no Antigo Testamento “como vento, sopro do ar, é a força viva do homem, princípio da vida-respiração, sede de conhecimento e dos sentimentos, força de vida de Deus, pela qual ele age e faz agir’’ (Congar, 2005, p. 17). Deus cria o homem para a vida em comunidade e aparece na Sagrada Escritura sempre atuando a favor do seu povo. Esse Deus que quer se relacionar não abandona os seus quando o ser humano não corresponde ao seu desígnio e o equilíbrio, a liberdade e a unidade são rompidos. Se pelo sopro de vida faz viver, a ruah também faz desaparecer “os que cultivam a injustiça” (Rivas, 2001, p. 14).

O mesmo sopro (Espírito) de vida dispensado ao homem na criação várias vezes aparece nos clamores dos oprimidos e desfavorecidos. Os salmos são expressões desse clamor por justiça e liberdade (Sl 2; 18; 21; 45; 72; 101; 110). Os juízes e os profetas são apresentados como aqueles que são despertados pelo Espírito para promover o direito e denunciar as iniquidades a que são submetidos os pobres. Há a consciência de que o rei deveria governar o povo com equidade (Sl 72,1); o rei davídico deveria ser um modelo de justiça para com os humilhados (2Sm 8,15), como foram Davi e Josias (Jr 22,15ss).

O Antigo Testamento apresenta um Deus que atua na história do povo eleito e não se identifica com nenhum tipo de política de exclusão e marginalização, um Deus que promete enviar o Messias para restabelecer no mundo o direito e a justiça (Is 7) (cf. CODINA, 1997). Os textos do Antigo Testamento anunciam que “irá chegar um novo dia, um novo céu, uma nova terra, um novo mar… E neste dia os oprimidos, numa só voz, a liberdade irão cantar”.9

2. A vida do Messias político

No Novo Testamento, Deus continua presente na vida de seu povo. Agora encarnado em uma realidade histórica (Mt 1,1ss), pela ação do Espírito Santo (Mt 1,18; Lc 1,35), aquele que gera a vida (Gn 2,7), o Pai, se dá na vida do Filho que, por sua vez, nos dá a conhecer o Pai: “O meio histórico central da revelação cristã é Jesus de Nazaré” (Haight, 2004, p. 91).

2.1 Jesus, um modelo para o político

Como um ser humano que convive com pessoas e constrói relacionamentos, Jesus, do seu nascimento até a hora de sua morte e ressurreição, potencializou todas as relações que viveu, pode-se dizer, num certo sentido, a vida política,10 e assim revelou o Pai. O Filho de Deus foi contra todo tipo de injustiça, indiferença e miséria que não geram vida, mas escravidão (At 10,34-38). Ele se identificou com os pobres (Mt,25), dirigindo-lhes sua mensagem (Lc 4,18). Esteve do lado dos que lutavam por saúde (Mt 8,16; Lc 8,43-47), tocou-os e os curou.

Reuniu um grupo de amigos, valorizando as amizades (Jo 11,4). Identificou e denunciou as contradições das autoridades (Mc 12, 38-44; Lc 11,37-39). Com todos, viveu a partilha (Mc 6,41). Acusou e recusou todo legalismo que gerava excluídos (Lc 13,10-17) e propôs novos preceitos de vida (Mc 12,30-31), colocando o ser humano e suas necessidades como parâmetros para novos relacionamentos, uma sociedade sadia.

Por tudo isso, pode-se dizer que “Jesus estava implicado nas questões políticas do seu tempo” (Rohden, 2001, p. 38). Ele se preocupava com o bem-estar do povo e dedicou o seu ministério ao anúncio da Boa Nova do Reino de Deus, reino de paz e justiça, onde todos têm suas necessidades básicas satisfeitas, gozam de liberdade e convivem com os irmãos na comunhão de vida e do pão. Legalismo, ritualismo, despotismo e qualquer forma de opressão não têm lugar no Reino que ele proclama ter chegado (Lc 17,21).

Nisso tudo Jesus comunicou o Pai. Sua vida foi doação constante de si à sua comunidade. Nas relações cotidianas, Ele comunicou o amor do Pai de modo concreto aos homens (Jo 15,12; Jo 13,12), ou seja, Jesus foi o modelo do homem político cheio do Espírito Santo. Viver a radicalidade do Amor foi a sua política. E, até a hora de sua morte, Ele viveu intensamente, revelando o Pai que quer que estejamos em comunhão consigo e deseja incluir-nos no seu projeto de amor.

Morrendo, Jesus entregou o seu Espírito como legado aos seus seguidores e herdeiros (Jo 19,30). Pode-se dizer que toda ação de Jesus é também ação do Espírito (1Cor 12,3), no sentido que ele está cheio do Espírito Santo e uma vez que o sentido de sua vida foi gerar vida. E, cumprindo sua promessa, quando chegou o tempo, o Paráclito se manifestou para que todos aqueles que aderissem à sua palavra pudessem agir pelo mesmo Espírito, como nos relata o autor de Atos:

1.Chegando o dia de Pentecostes, estavam todos reunidos no mesmo lugar. 2.De repente, veio do céu um ruído, como se soprasse um vento impetuoso, e encheu toda a casa onde estavam sentados. 3.Apareceulhes então uma espécie de línguas de fogo que se repartiram e pousaram sobre cada um deles. 4.Ficaram todos cheios do Espírito Santo e começaram a falar em línguas, conforme o Espírito Santo lhes concedia que falassem. Os que receberam a sua palavra foram batizados. E naquele dia elevou-se a mais ou menos três mil o número dos adeptos […].

42.Perseveravam eles na doutrina dos apóstolos, na reunião em comum, na fração do pão e nas orações. 44.Todos os fiéis viviam unidos e tinham tudo em comum. 45.Vendiam as suas propriedades e os seus bens e dividiam-nos por todos, segundo a necessidade de cada um. 46.Unidos de coração, frequentavam todos os dias o templo. Partiam o pão nas casas e tomavam a comida com alegria e singeleza de coração, 47.louvando a Deus e cativando a simpatia de todo o povo. E o Senhor cada dia lhes ajuntava outros que estavam a caminho da salvação (At 2,1-4.42.44-47).

Aquele sopro de vida, aqui compreendido como Espírito que deu vida e ânimo às criaturas, imagem e semelhança do seu Criador, suscitou profetas, reis e sábios, que estava presente quando o Pai ressuscitou Jesus, está hoje suscitando homens e mulheres que promovem a vida, a liberdade e a justiça. Se o Espírito é aquele que transforma, muda, impulsiona e gera a novidade, torna-se de fundamental importância percebê-lo também na política. Mas, como identificar os sinais do Espírito na atual vida política?

2.2 A “política” da Trindade é a relação 

É preciso, primeiramente, afirmar mais uma vez que política não é corrupção. A primeira gera comunhão, organização, cuidado, a segunda gera sempre maldição, exclusão e negação da vida. A política é boa, expressa a eficiência do poder público e das leis em prol do ser. A corrupção gera sempre burocracia desnecessária e lentidão na execução de tudo que deveria transmitir o amor e o interesse de uma comunidade de pessoas em prol do bem comum. Uma sempre gera comunhão, a outra sempre expressa “o grito de um povo que sofre e pede justiça, liberdade e respeito aos direitos mais fundamentais do homem e dos povos” (Puebla, n. 87).

Depois, é necessário observar o movimento do Espírito. Deus-Trino na sua infinita bondade quer em todas as suas obras e movimentos revelar-Se.

Aprouve a Deus, na sua bondade e sabedoria, revelar-se a Si mesmo e dar a conhecer o mistério da sua vontade (cf. Ef 1,9), segundo o qual os homens, por meio de Cristo, Verbo encarnado, têm acesso ao Pai no Espírito Santo e se tornam participantes da natureza divina (cf. Ef 2,18; 2Pd 1,4) (DV, 2).

Em diferentes momentos da história, a iniciativa é sempre dele de se comunicar a nós. Conhecemos o mundo do Pai e do Filho pela ação do Espírito que nos abre o acesso a Deus.

O espírito (ruah) é, já no Antigo Testamento, princípio de vida, que franqueia o acesso ao novo e faz a unidade do processo vital vindo, como vem, do Deus vivo (cf. Gn 1,2; Sl 33,6 e 104,29s, Sb 1,7; 7,22-8,1). Ao Espírito se liga a inspiração dos profetas, que suscitam futuro na história de Israel e chamam constantemente o povo à fidelidade à aliança (cf., por exemplo, Nm 11,25; 24,2; 27,18; 1Sm 10,6; 19,24; Is 61,1; Ez 2,2; 3,24; Zc 7,12: cf. 1Pd 1,11 e 2Pd 1,21). O tempo messiânico é esperado como tempo da efusão do Espírito, portadora do futuro escatológico e da vida nova com o Deus vivo (cf., por exemplo, Is 11,2; 32,15ss; 42,1; Ez 11,19; 18,31; 37, 27; 37,1-14; Gl 3,1s etc.), assim como o tempo do exílio é, por contraste, marcado pela ausência do Espírito, tempo em que o futuro parece fechado e Israel desagregado (cf., por exemplo, a meditação sobre a história de Israel em Is 63,7-64,11, em particular 63,10). O mesmo Espírito é denominado “Espírito de Santidade” (Sl 51,13; Sb 9,17), expressão vertida pelos Setenta por “Espírito Santo” (Cf. Dn 5,12; 6,3; Sb 1,5; 7,22) com um adjetivo que se refere à mais íntima característica do Deus vivo (cf. Os 11,9; Sl 99,3 etc.) (Forte, 1987, p. 112-113).

Segundo Forte, o Espírito tem duas funções: abre o mundo de Deus ao mundo dos homens e unifica o dividido. O Espírito que esteve presente na criação habitou o Verbo encarnado e conduziu sua missão. Conforme Burocchi:

Os testemunhos das primeiras comunidades fixados nos escritos do Novo Testamento apresentam o Espírito como integrante da Trindade, principalmente nos eventos que marcam sua missão: concepção virginal de Maria, batismo de Jesus, nas obras que Jesus de Nazaré vai realizando por onde passa, na sua jornada terrena e, especialmente, na sua Paixão, Morte na Cruz e Ressurreição (Burocchi, 2008, p. 173).

O Espírito Santo “age em toda a vida e obra de Jesus”, abrindo “o mundo de Deus ao mundo dos homens e a história humana à história Trinitária, e ao mesmo tempo o que une os dois mundos e constitui a unidade dos homens no amor do Pai e do Filho” (Forte, 1987, p. 113-114). Este Espírito que é amor, vinculum caritatis entre o Pai e o Filho, protagoniza a “unidade dos crentes no espaço e no tempo, à imagem da unidade Trinitária” (Forte, 1987, p. 133). O mesmo Espírito Santo une também o passado e o presente, atualizando os eventos salvíficos, ao fazer memória do mistério vivido e celebrado. E, ainda, no espaço ele une os crentes entre si, como princípio de unidade da Igreja, por isso, ele é Espírito de comunhão, pois realiza a unidade de todo o Corpo de Cristo.

Na história do Espírito, o Espírito revela-se a nós na história, desde o princípio, como a ruah, princípio de vida, inspiração, vínculo, unidade, atualização e comunhão. Uma vez que é o Espírito que nos abre ao conhecimento do Pai e do Filho e, assim, nos permite adentrar no interior da relação entre Amante e Amado, é ele quem nos dá acesso à “política” trinitária, à relação por excelência.

O homem, imagem do Deus Triuno, reflete a imagem do seu Criador que é relação. Ou seja, o homem está profundamente marcado pela necessidade da relação, não é uma solidão incomunicável da substância individual – o ser em si – mas é, como a Trindade, pessoa-relação, um ser “com” os outros, aberto à comunhão no amor: “originariamente, no mais profundo do seu ser criatural, marcado pelo sinal do eterno Amado, o homem precisa do outro! No realizar-se dessa constitutiva chamada à ‘companhia da vida’, o homem revela em si a presença do Espírito Santo” (Forte, 1987, p. 172).

A Trindade é, em si mesma, relação. O Pai quis comunicar-se com a humanidade desde a criação e consumou sua união com o mundo na entrega gratuita do Filho, imagem perfeita do Pai, que se encarnou na história, sofreu a paixão, morreu e ressuscitou. Em tudo isso o Espírito esteve presente. Este Espírito que pairou sobre as águas primordiais, que falou pelos sábios e profetas e que pela sua força o Pai ressuscitou Jesus e animou os discípulos, infundindo-lhes a coragem para assumir e testemunhar o Ressuscitado continua atuando no mundo em todas as relações que sinalizam o Amor.

Como ensina Leonardo Boff no livro A Santíssima Trindade é a melhor comunidade, “Deus não é solidão. É comunhão de três pessoas divinas. Portanto, a Primeira e a Última realidade é relação é extravasamento de si mesmo, é vida e amor” (p. 13). O Deus Triuno é relação de amor na sua intimidade e relaciona-se com o mundo, amando os viventes, estabelecendo o arquétipo da perfeita política. E por que quis Deus revelar-se relacional-político? Para que o ser humano se humanize! Bem já ensinou MURAD:

A revelação de Deus não é dirigida à pessoa para que esta saiba mais, mas para que seja de outra maneira, que atue melhor e viva em um nível mais humano. A verdade da revelação transforma a existência humana. E a fé nesta revelação, longe de desviar a mente daquilo que seria temporal e efêmero em favor do pretenso necessário e eterno, “orienta a mente para soluções plenamente humanas” diante dos problemas históricos. (GS 11) Quem acolhe a revelação cristã tem uma indispensável tarefa: traduzi-la numa verdade transformadora da história para que o processo comunicativo, iniciado por Deus, chegue à sua plenitude (Murad, 1994, p. 19).

3. Testemunhas da “política” trinitária pela força do Espírito 

O Paráclito continuamente suscita formas de “não somente auscultar, mas discernir os sinais dos tempos” (GS 4; 11; e 44), talvez por isso a política seja o modo mais ecumênico de se falar da presença do Espírito no mundo. Em “tempos líquidos’’, segundo Zigmunt Bauman,11 quando as relações se tornam cada vez mais vazias e os sentimentos estimulam a satisfação do prazer imediato, é urgente que os homens e as mulheres reaprendam a viver e a relacionar-se uns com os outros. E, por ser “templo do Espírito” (1Cor 6,19), é papel do cristão testemunhar a força deste, pois é ele que dá vida às relações cotidianas, onde deve brilhar a ética do: amar uns aos outros sem nenhum tipo de exclusão ou condição, assim como a Trindade nos ensina. O cristão é responsável também pelo universo: ele se relaciona com toda a criação através das suas decisões pessoais, das escolhas coletivas e da política que faz.

Através dos documentos que compõem a Doutrina Social da Igreja, esta se empenha por, progressivamente, refletir a respeito das relações humanas, por isso, é recorrente sua preocupação com a vida política em vista da promoção da dignidade humana. Em 1891, o Papa Leão XIII inaugurou uma nova fase do comprometimento da Igreja com a vida social, com a encíclica Rerum Novarum. Após esta, Pio XI em 1931, publicou a Quadragesimo Anno, reafirmando a preocupação eclesial com o ser humano e, na sequência, outros papas também o fizeram. João XXIII publicou, em 1961, a Mater et Magistra; Paulo VI, a encíclica Populorum Progressio, em 1967, e a carta apostólica Octagesima Adveniens; em 1971; João Paulo II publicou três encíclicas sociais: Labores Exercens (1981), Sollicitudo Rei Socialis (1987) e, finalmente Centesimus Annus em 1991. Na mesma tradição, Bento XVI publicou a Caritas in Veritate, em 2009; e, por fim, Francisco brindou a comunidade cristã e não cristã em 2015, na Solenidade de Pentecostes, com a encíclica Laudato Si’.

Vários outros documentos reservam partes significativas para o tema da política. O documento do Concílio Vaticano II, que trata sobre a Igreja no mundo de hoje, a Constituição Pastoral Gaudium et Spes, reserva o capítulo IV todo para a política e afirma:

Natureza e fim da comunidade política. Os indivíduos, as famílias e os diferentes grupos que constituem a sociedade civil têm consciência da própria insuficiência para realizar uma vida plenamente humana e percebem a necessidade duma comunidade mais ampla, no seio da qual todos conjuguem diariamente as próprias forças para cada vez melhor promoverem o bem comum. E por esta razão constituem, segundo diversas formas, a comunidade política. A comunidade política existe, portanto, em vista do bem comum; nele encontra a sua completa justificação e significado e dele deriva o seu direito natural e próprio. Quanto ao bem comum, ele compreende o conjunto das condições de vida social que permitem aos indivíduos, famílias e associações alcançar mais plena e facilmente a própria perfeição (GS, n. 74).

Por sua vez, em 2004, no Compêndio da Doutrina Social da Igreja, fruto do trabalho do Pontifício Conselho Justiça e Paz, o tema política ganhou todo o Capítulo VIII: Comunidade Política. Aqui fica muito evidente que a Igreja, fruto do Espírito, se interessa pela vida, pelo mundo e pela política.

No Brasil, os textos e temas das Campanhas da Fraternidade12 provocam a reflexão e a tomada de consciência sobre situações específicas de exclusão e de pecados contra a vida, a justiça, a dignidade humana, o meio ambiente. O homem, criatura de Deus, destinado a atuar na organização política da criação, aparece como primeiro responsável na tarefa de cuidar da casa comum. Daí o apelo das campanhas, anualmente, para mobilizar o maior número possível de pessoas, cristãs e não cristãs, em torno dos temas sociais e políticos. Só assim a Igreja, sinal visível do Espírito que atua no mundo, vai colaborando na transformação das realidades de injustiça, opressão e morte.

3.1 A constante conversão-atualização: dom do Espírito Santo

O ser humano, ungido pelo Espírito, não compactua com nenhum tipo de corrupção, alienação e má política. Ele se posiciona e age, pessoal e comunitariamente, nos assuntos que tocam a vida comum, de forma concreta:

É plenamente conforme com a natureza do homem que se encontrem estruturas jurídico-políticas, nas quais todos os cidadãos tenham a possibilidade efetiva de participar livre e ativamente, dum modo cada vez mais perfeito e sem qualquer discriminação, tanto no estabelecimento das bases jurídicas da comunidade política, como na gestão da coisa pública e na determinação do campo e fim das várias instituições e na escolha dos governantes. Todos os cidadãos se lembrem, portanto, do direito e simultaneamente do dever que têm de fazer uso do seu voto livre em vista da promoção do bem comum. A Igreja louva e aprecia o trabalho de quantos se dedicam ao bem da nação e tomam sobre si o peso de tal cargo, em serviço dos homens (GS, n. 75).

“O Deus que entregou o próprio Filho à morte por amor dos homens não pode querer o sofrimento humano!” (Forte, 1987, p. 176). Nesse sentido, pode-se dizer que pecar contra o Espírito é fomentar a indiferença política, é negar a participação dos mais pobres no que é justo, é ver a desigualdade acontecer e não agir, enfim, o pecado é isolar-se. Quem está repleto da unção do Espírito Santo não demoniza o mundo, mas atua nele, provocando verdadeiras transformações. Deus colocou no homem o sopro da vida para que ele, junto com os demais, fosse livre e feliz, afinal, a maior característica da Ruah é a liberdade.

Papa Francisco exorta, na Encíclica Laudato Si’, sobre a importância da política como princípio pelo qual os homens redescobrem que precisam uns dos outros, que todos têm responsabilidades para com os outros e o mundo, e que vale a pena ser bons e honestos.

Vivemos já muito tempo na degradação moral, baldando-nos à ética, à bondade, à fé, à honestidade; chegou o momento de reconhecer que esta alegre superficialidade de pouco nos serviu. Tal destruição de todo o fundamento da vida social acaba por colocar-nos uns contra os outros na defesa dos próprios interesses, provoca o despertar de novas formas de violência e crueldade e impede o desenvolvimento duma verdadeira cultura do cuidado do meio ambiente (LS, n. 229).

Pelas palavras do Pontífice, o amor civil e político acontece todas as vezes que não se perde a oportunidade duma palavra gentil, dum sorriso, de qualquer pequeno gesto que semeie paz e amizade, assim como uma ecologia integral é feita de simples gestos quotidianos, pelos quais quebramos a lógica da violência, da exploração, do egoísmo.

O amor, cheio de pequenos gestos de cuidado mútuo, é também civil e político, manifestando-se em todas as ações que procuram construir um mundo melhor. O amor à sociedade e o compromisso pelo bem comum são uma forma eminente de caridade, que toca não só as relações entre os indivíduos, mas também “as macrorrelações como relacionamentos sociais, econômicos, políticos”. Por isso, a Igreja propôs ao mundo o ideal duma “civilização do amor”. O amor social é a chave para um desenvolvimento autêntico: “Para tornar a sociedade mais humana, mais digna da pessoa, é necessário revalorizar o amor na vida social – nos planos político, económico, cultural – fazendo dele a norma constante e suprema do agir”. Neste contexto, juntamente com a importância dos pequenos gestos diários, o amor social impele-nos a pensar em grandes estratégias que detenham eficazmente a degradação ambiental e incentivem uma cultura do cuidado que permeie toda a sociedade (LS, n. 231).

Papa Francisco ensina que, quando alguém reconhece a vocação de Deus para intervir juntamente com os outros nestas dinâmicas sociais, deve lembrar-se que isto faz parte da sua espiritualidade, é exercício da caridade e, deste modo, ele pode amadurecer e se santificar. Nessa lógica, não é difícil reconhecer a importância da política e como é possível vivê-la desde as microrrelações até as macro. Viver a política e lutar pela sua efetiva realização entre os homes e mulheres é viver a missão que nasce em Pentecostes: anunciar o Ressuscitado.

3.2 Unidade: dom do Espírito na diversidade

Bem adverte Forte (Cf. 1987, p. 176) que toda opressão do homem pelo homem deturpa a imagem divina da qual é portador e ignora o seu Criador, pois a vocação humana é viver relações de reciprocidade na liberdade, que sejam relações justas para todos.

Trabalhar para a humanização do mundo é trabalhar para Deus, é desenvolver todo o homem em cada homem, isto é, em todos a imagem divina impressa desde a origem. Longe de ser “ópio dos povos” e “sedução dos espíritos”, o Deus que criou o homem no Espírito do amor e da liberdade é o Deus libertador, que ama na liberdade e liberta no amor, sustentando o empenho de quem quer que trabalhe pela liberdade, fazendo- o com amor… (Forte, 1987, p. 176).

Cabe à Igreja, sinal sacramental do Amor de Deus no mundo, ajudar todo o povo de Deus, Templo vivo do Espírito, a encontrar meios de discernir os sinais dos tempos, não demonizar a política e não se acovardar diante das injustiças causadas pela corrupção. Ela deve ser presença no mundo dos excluídos, pois para ter credibilidade é necessário dar testemunho da vida em Cristo.

Considerações finais

Em tempos “líquidos”, é mais que oportuna uma reflexão teológica “sólida”, com significados práticos e que correspondam aos sinais dos tempos. Grandes pensadores já advertiram sobre os problemas da reflexão filosófico-teológica que não geram sentido, tornando-se inúteis. Por isso, relacionar a vida e as relações que nela se constroem ao desígnio de Deus significa dizer que o Espírito atua no mundo potencializando a ação política.

Sobre a política, ficou evidente a compreensão de que ela é o meio pelo qual o homem tem a possibilidade de relacionar-se com os demais, lutar por seus direitos, conhecer os seus deveres, promover a justiça e construir laços afetivos. Se Deus deu aos homens o Sopro-Espírito de vida, fazendo com que eles interagissem com o mundo e com seus semelhantes, Deus mesmo quis fazer de sua criatura um ser político.

Ao tornar o ser humano cheio do Espírito de Vida, Deus lhe delegou o direito de cuidar, multiplicar, conviver, celebrar e lutar por uma terra cada vez melhor, não aceitando a miséria, a injustiça e a falta de compromisso político. Assim, Ele sempre esteve junto dos mais pobres e abandonados e hoje continua, pela força do Paráclito, atuando na boa política sempre a favor da vida, da liberdade e da justiça.

Endereço dos Autores:
Aurea Marin Burocchi
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Diego de Lima Dias
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Citações:

* Professora do ISTA e da PUC Minas. Mestrado, Doutorado e Pós-Doutorado em Teologia Sistemática na Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE), de Belo Horizonte.
** Graduado em Filosofia, acadêmico do curso de Bacharelado em Teologia no Instituto Santo Tomás de Aquino (ISTA). Especialista em Psicopedagogia Clínica e Institucional. Funcionário público.

1. Basta considerar as famílias onde convivem membros de diferentes confissões religiosas. Nessas famílias têm aparecido divergências e conflitos políticos – não religiosos! –, que estão levando à desconfiança e a rupturas de relacionamentos familiares. Certamente, também temos presentes os fenômenos de intolerância religiosa que têm levado a agressões de templos e pessoas. A CNBB, reunida em Aparecida no mês de abril, enviou uma Mensagem da 56ª Assembleia Geral da CNBB ao povo brasileiro sobre as eleições: “Neste ano eleitoral, o Brasil vive um momento complexo, alimentado por uma aguda crise que abala fortemente suas estruturas democráticas e compromete a construção do bem comum, razão da verdadeira política”.
2. Podemos mencionar também as posturas radicais de grupos católicos ditos “conservadores”, que se manifestam contrários à grande maioria da própria Igreja católica e seus dirigentes.
3. Deixa a vida me levar, de autoria de Serginho Meriti e Eri do Cais. Interpretada por Zeca Pagodinho que a lançou em 2002.
4. Música: Eu adoro minha televisão. Compositores: Dinho Ouro Preto, Alvin L. Faz parte do décimo primeiro álbum da banda Capital Inicial.
5. Alusão feita à música Caviar. Composição: Trio Calafrio (Luiz Grande, Barbeirinho do Jacarezinho e Mauro Diniz). Interpretada por Zeca Pagodinho.
6. Mosca na sopa, do cantor e compositor Raul Seixas, lançada em 1973. Nesta canção, o músico indica que há um vínculo estabelecido entre a mosca e a sopa por uma relação de oposição, ou seja, um é contrário ao outro. O autor utiliza esses dois elementos para representar os cidadãos brasileiros (mosca) que incomoda e perturba os governantes (sopa) e que se opõem ao regime com os movimentos pela democracia, lutas, marchas em objeção à política de interesses. PAULA, F.F. de; SÁ, L.S.B.C. Análise da Canção “Mosca na Sopa”, p. 209-216.
7. Segundo o professor Luis Heriberto Rivas, desde as primeiras noções sobre o Espírito de Deus até a revelação da Trindade, são muitas as imagens e as manifestações do Espírito Santo nos livros do Antigo e do Novo Testamento. No grego, a palavra utilizada é πνεῦμα = pneuma, no hebraico, = רוַּה ruah, e no latim, spiritus = espírito. Tais palavras são identificadas muitas vezes por “vento”, “alento”, “sopro”, “respiro”, “fôlego”, “brisa”… A compreensão de que o Espírito Santo é uma pessoa divina será alcançada somente com os escritos do Novo Testamento, mediante a reflexão da Igreja e do seu Magistério. (cf. RIVAS, L.H. O Espírito Santo, p. 9-15).
8. Vale, desde já, esclarecer que as referências feitas à Sagrada Escritura e à Trindade são interpretações pós-pascais, ou seja, é uma reflexão teológica feita a partir do evento Páscoa–Pentecostes.
9. Música Axé. Composição: Vera Lúcia Nascimento.
10. Embora, na realidade, teólogos e exegetas prefiram, acertadamente, utilizar a designação de “vida pública” para se evitar confusões com “poder político”, coisa que Jesus evitou a todo custo. Utilizamos aqui a terminologia “política” no sentido proposto no início deste artigo.
11. Sociólogo, nascido na Polônia em 1925, falecido em 2017, em várias de suas obras Bauman usa a palavra “líquido” como metáfora para designar “incerteza em relação ao futuro, fragilidade da posição social e insegurança existencial” (BAUMAN, 2004, p. 132), instabilidade do mercado de trabalho, inconsistência dos compromissos e das parcerias. Na “líquida, consumista e individualizada sociedade moderna” (Idem, p. 87), existe grande dificuldade de manterem os vínculos afetivos, sociais e familiares, constata.
12. A Campanha da Fraternidade teve início em 1962 e segue, todos os anos, com temas pertinentes.

Referências

Axé. [S.l.], 2014. Conteúdo do Youtube. Interpretação: Banda Pj e Raiz. Disponível em <https://www.youtube.com/watch?v=j3Po-JR3t5A>. Acesso em: 23 set. 2017.
BAUMAN, Z. Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Zahar, 2004.
Bíblia Sagrada: Edição Pastoral. São Paulo: Paulus, 1990.
BOFF, L. A Santíssima Trindade é a melhor comunidade. São Paulo: Vozes, 1988.
BUROCCHI, A.M. Uma proposta de sentido para o homem de hoje na teologia trinitária de Bruno Forte. Belo Horizonte, 2008. Dissertação de Mestrado. FAJE (Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia), sob a orientação do Prof. Ulpiano V. Moro. Belo Horizonte.
CELAM. A evangelização no presente e no futuro da América Latina: conclusões – Puebla. São Paulo: Loyola, 1979.
CNBB. Mensagem da 56ª Assembleia Geral da CNBB ao povo brasileiro sobre as eleições. Aparecida, 19 abr. 2018.
CODINA, V. Creio no Espírito Santo: pneumatologia narrativa. São Paulo: Paulinas, 1997.
CONCÍLIO VATICANO II. Gaudium et Spes. Petrópolis: Vozes, 1966.
CONGAR, Y. Revelação e experiência do Espírito. São Paulo: Paulinas, 2005.
Deixa a vida me levar. Direção: Universal Music. São Paulo, 2010. Conteúdo do Youtube (3:37 min.). Interpretação: Zeca Pagodinho. Disponível em <https://www.youtube.com/watch?v=oTREAvZbmME>. Acesso em: 01 out. 2017.
Eu adoro a minha televisão. [S.l.], 2014. Conteúdo do Youtube. Interpretação: Capital Inicial. Disponível em <https://www.youtube.com/ watch?v=tqufdxfK7Ww>. Acesso em: 23 set. 2017.
FORTE, B. A Trindade como história: ensaio sobre o Deus cristão. São Paulo: Paulinas, 1987.
HAIGHT, R. Dinâmica da teologia. São Paulo: Paulinas, 2004.
LIBANIO, J.B. Introdução à vida intelectual. São Paulo: Loyola, 2001
_______. Teologia da revelação a partir da modernidade. São Paulo: Loyola, 2005.
MURAD, A. Este cristianismo inquieto. São Paulo: Loyola, 1994.
PAULA, F.F. de; SÁ, L.S.B. de C. Análise da canção “Mosca na Sopa” pela semântica de Pottier. Mimesis, Bauru, v. 36, n. 2, p. 209-216, 2015.
RIVAS, L.H. O Espírito Santo nas sagradas escrituras. São Paulo: Paulinas, 2001.
ROHDEN, C.C.S. A reflexão teológica como obra do amor. 2001. Tese de Doutorado em cumprimento parcial das exigências do Instituto Ecumênico de Pós-Graduação em Teologia, Escola Superior de Teologia para obtenção do grau de Doutor em Teologia. São Leopoldo.

 

 

 

UM SANTO DESCENDENTE DO BLUETOOTH

Quem nunca ouviu falar de Bluetooth? Bluetooth é uma norma de comunicações que permite a troca bidirecional de dados a curta distância, servindo-se de ondas de rádio UHF; tem por objetivo simplificar as conexões entre aparelhos eletrônicos, suprimindo os cabos e fios. O termo advém do apelido dado a Haraldo I, Rei da Dinamarca, que possuía um dente de cor azulada, e é uma homenagem a ele que foi o primeiro rei viking católico no século X.

O nome foi proposto pelo engenheiro Jim Kardach em 1996, como homenagem ao rei Haraldo I que reuniu os povos da Dinamarca e unificou o país. O símbolo da conexão Bluetooth são as duas primeiras letras rúnicas do nome do homenageado. Haraldo Bluetooth é o pai de Sveno I, que é o pai da princesa Astrid Svendsdotter, mãe de Sveno II, Rei da Dinamarca, que por sua vez é o pai de São Canuto IV, Rei da Dinamarca, martirizado em 1086. Dia 19 de janeiro, a Igreja celebra o martírio deste descendente do Bluetooth.

Como cristão modelar, o rei Canuto IV, acompanhado de pequeno séquito, rezava na igreja de Santo Albano, em Odense, pelo sucesso de uma expedição, quando foi surpreendido por um bando de pagãos revoltados em maior número. Os sediciosos se lançaram sobre o rei, mataram-no e a alguns dos seus, derramando sangue humano numa igreja, o que é um sacrilégio terrível e uma profanação no senso próprio do termo, que torna a igreja interditada para ofícios litúrgicos, necessitando reconsagrá-la.

São Canuto IV é padroeiro da Dinamarca e foi muito venerado em seu país até que o absolutismo, aliado ao paganismo da Renascença, criou o protestantismo, que separou a Dinamarca da Igreja. Mas essa história ainda não acabou, sobretudo não na Dinamarca, o país do BLUETOOTH, o primeiro rei viking católico.

 

Marcelo de Souza e Silva

ENTRE A CRUZ E A ESPADA?

Aos 15 de janeiro de 2019, o presidente Jair Bolsonaro assinou decreto que facilita o porte de armas. O direito à posse é a autorização para manter uma arma de fogo em casa ou no local de trabalho (desde que o dono da arma seja o responsável pelo estabelecimento comercial).

A Polícia Federal decidirá se o cidadão tem ou não direito à posse, desde que cumpridos os requisitos de efetiva necessidade: ser agente público (ativo ou inativo) do setor de segurança (agente penitenciário, por exemplo), ser militar (ativo ou inativo), residir em área rural, residir em área urbana de estados com índices anuais acima de dez homicídios por 100 mil habitantes, ser dono ou responsável legal de estabelecimentos comerciais ou industriais, ser atirador, caçador ou colecionador, devidamente registrado no Comando do Exército.

Os cidadãos que quiserem o direito à posse de armas de fogo precisarão cumprir algumas exigências: obrigatoriedade de cursos para manejar a arma; ter ao menos 25 anos; ter ocupação lícita; não estar respondendo a inquérito policial ou processo criminal; não ter antecedentes criminais nas justiças Federal, Estadual (incluindo juizados), Militar e Eleitoral.

Agora, vejamos algumas informações publicadas em jornais do país, disponíveis para quaisquer cidadãos: • 61% dos brasileiros defendem que a posse de armas seja proibida (Estadão); • O Brasil registrou 67 mil homicídios em 2017 (Valor Econômico); • Mulheres de todos os cantos do país sofrem ameaças contra a vida (Portal G1); • Em 2017, 193 mil mulheres registraram queixas de agressões em casa (Portal R7).

 Postos esses dados, cabem algumas perguntas: A circulação de armas vai aumentar; mais armas significam mais ou menos mortes? Se a maioria da população está contra a posse de armas, o decreto tem legitimidade? Houve discussão sobre o assunto no Congresso e na sociedade para tornar efetivo o decreto? A posse de armas traz melhoria para a segurança pública? O poder público está se omitindo quando assina o decreto? Haverá controle das condições psicológicas e dos antecedentes criminais de quem tem a posse de arma?

Não acho que essa discussão se encerra por aqui. Mas tenho de citar aqui textos bíblicos que nesses dias me fizeram pensar sobre a “efetiva necessidade” de um cidadão possuir uma arma de fogo em casa ou no trabalho. “Guarda a tua espada (a tua arma). Pois todos os que usam a espada, pela espada morrerão” (Mt 26,52). “Ele é a nossa paz. (…) Em sua carne, derrubou o muro de inimizade que separava os povos e quis assim formar um só homem novo, estabelecendo a paz” (Ef 2, 14-15). Eu, porém, vos digo: “Amai a vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam, e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem” (Mt 5, 44).  “Um novo mandamento vos dou: que vos ameis uns aos outros; assim como Eu vos amei; que dessa mesma maneira tenhais amor uns para com os outros” (Jo 13, 34).

Luís Carlos Pinto

        Políticas públicas: fazer acontecer

   

 Imagem da internet

            A Campanha da fraternidade 2019 nos convida a aprofundar a temática da dignidade humana. Ela nos traz alguns questionamentos: O que são políticas públicas? Como são construídas? Que contribuição podemos dar, à luz do Evangelho, para que esse processo se realize?

O tema bíblico escolhido foi tirado do livro do Profeta Isaías: “Serás libertado pelo direito e pela justiça” (Is1, 27). “Direito” designa a ordem justa da sociedade. “Justiça” é a obrigação moral do direito em favor dos mais necessitados.

As Políticas públicas afetam a todos os cidadãos, de todas as escolaridades, independente de sexo, raça, religião ou nível social. O bem-estar da sociedade está relacionado a ações bem desenvolvidas e à sua execução em áreas como saúde, educação, meio ambiente, habitação, assistência social, lazer, transporte e segurança, ou seja, deve-se contemplar a qualidade de vida como um todo.

Portanto, políticas públicas são conjuntos de programas, ações e decisões tomadas pelos governos (nacionais, estaduais ou municipais)  que visam assegurar determinado direito de cidadania para todos.  Ou seja, correspondem a direitos assegurados na Constituição.

Um programa da prefeitura que esteja beneficiando seu bairro, por exemplo, é uma política pública.

A Campanha da Fraternidade 2019 é um convite para que todos participem da elaboração de políticas públicas que visam à construção de uma sociedade baseada no direito e na justiça, livre de qualquer desigualdade. O que podemos fazer? Como vamos fazer? O que a lei nos garante?

Será isso uma utopia? Isso não vai dar em nada, não adianta lutar. Isso é muito difícil…

No Evangelho de Lucas, capítulo 9,51 diz que Jesus tomou a firme decisão de partir para Jerusalém. Ele sabia muito bem o que lhe aconteceria naquela cidade, a cruz o esperava. Mas ele não teve medo.

Em Jerusalém também Jesus ressuscitou! Jesus venceu as maldades e as contradições de Jerusalém. O poder matou-O, mas a morte não teve a última palavra.

Só foi possível fazer experiência da Ressurreição por causa dessa decisão de “ir a Jerusalém”. Para viver como “ressuscitados” é necessário sempre ter clareza da “nossa Jerusalém”.

Chico Buarque foi cantando: “apesar de você, amanhã há de ser outro dia… Inda pago pra ver, o jardim florescer, qual você não queria…”.

Projota, na música Samurai, canta: “Quando cortaram os meus braços eu chutei,/ Quando cortaram minhas pernas eu dei cabeçada,/Quando cortaram minha cabeça, eu mordi na jugular e não soltei por nada, não soltei por nada!/Quando cortaram os meus braços eu chutei,/Quando cortaram minhas pernas eu lutei… como Samurai!”

A maior resposta é resistir com criatividade, organização e esperança – sem perder a ternura e o a(fe)to. Quando “largamos mão de tudo”, estamos fazendo aquilo que os piores da história querem.

                                                                            Pe. Hermes F. Pedro

 

Maria, mãe intercessora, modelo de mulher apostólica, discípula e missionária

O primeiro milagre realizado por Jesus, a transformação da água em vinho em Caná da Galileia, aceito pela Igreja católica, marca o início da vida pública de Jesus e destaca a preocupação de Maria com o bem-estar das pessoas e a autoridade da mãe sobre seu filho já adulto.

Maria, sentindo-se tocada pelo constrangimento a que os noivos foram submetidos devido à falta de vinho na festa do casamento, pede a Jesus para interferir e ajudar a resolver a situação. Primeiramente, ele vacila: “Ainda não é chegada a minha hora…” Ela insiste  e Ele a atende.  Segundo Dom Filippo Santoro, “Maria educou Cristo a ter essa ternura, esse coração aberto diante da necessidade do outro, especialmente dos pobres”.  “Ao fazer o Senhor se comover com o infortúnio do casal nas bodas, ela acelerou um processo”.

Maria intercessora traz presente nesse fato o amparo, cuidado e proteção diante da necessidade do outro, tornando-a modelo e exemplo para todos nós, discípulos missionários do Reino. Assim como Maria, na Visitação à sua prima Santa Isabel, deveremos levar conforto, solidariedade, consolação e práticas promovedoras do bem-estar de todos. Como Maria “caminheira”, Mãe da solidariedade, devemos saber ler e celebrar no Magnificat o que Deus faz em favor dos pobres e oprimidos, conclamando uma sociedade mais justa e mais fraterna.

Na CF-2019, a Igreja busca estimular a participação em Políticas Públicas, à luz da Palavra de Deus e da Doutrina Social da Igreja para fortalecer a cidadania e o bem comum, sinais de fraternidade, e, como Maria, assumirmos o nosso protagonismo no serviço ao Reino, lutando por políticas públicas que resgatem a cidadania e façam valer os direitos sociais. Que nós, aprendizes na Escola de Maria, possamos ser de fato luz do mundo, sal da Terra, fermento transformador do mundo, sinais de esperança, justiça e solidariedade.

Eliana Maria de Alvarenga Guimarães

“Competir ou Cooperar”.

A análise da realidade nunca é totalmente imparcial. Somos condicionados por muitos fatores. Herdeiros da tradição cartesiana e do racionalismo, evoluímos muito no domínio do conhecimento para o avanço da ciência, da técnica, da robótica e da informática. Hoje já se prospecta a geração 4.0. Muitas pesquisas têm revelado significativos dados que possibilitam maior qualidade de vida e domínio sobre constantes ameaças que abalam a vida e o planeta. É preciso, contudo, ser crítico sobre o modo de pensar que muitos têm quando abstraem os valores subjetivos, as relações interpessoais e menosprezam as dimensões do transcendente, priorizando somente o que é empírico e verificável por métodos que descartam outras dimensões humanas como a arte, a música, a religião, a sensibilidade e a espiritualidade.

A sociedade contemporânea, em acelerado processo de mudança, está dispersa e desprovida de referenciais. Há um vácuo racional e ontológico fundamental. O individualismo é um princípio que decorre da racionalidade moderna. Ele gera uma moral que individualiza o direito e dá caráter de tensão às relações sociais: “o seu direito termina onde começa o meu”. O limite do direito individual é a presença do outro indivíduo e não a convivência social. Cresce o clima de tensão, concretizado na criminalidade e na violência urbana. A insegurança social parece ser uma característica “natural” da sociedade moderna. Na verdade é a busca desordenada pela sobrevivência diante de uma ética individualizante e competitiva. O ser humano se animaliza: reage com o instinto de defesa diante do ataque violento.

Na tentativa de estabelecer os fundamentos da nova concepção sobre a vida, há de se buscar novos conceitos. A subsistência da vida humana na Terra não se deve à competição, mas sim à cooperação. O ser humano depende dessa atitude comunitária para superar a fragmentação da realidade da forma como é concebida atualmente.

Todos os seres criados são solidários entre si porque se originaram da mesma matéria primordial. Todos são criados por Deus para que cresçam na harmoniosa multiplicidade do universo. A pessoa, nesse contexto, tem uma cidadania universal, cósmica, que se realizará cada vez mais que se mover livremente em direção ao próprio projeto do Criador para todo o cosmos.  O humano é o único ser para o qual a vida é uma tarefa, porque ela não se reduz ao dado somático-psíquico. Ele tem uma existência inacabada, não só do ponto de vista biológico, mas também espiritual e, principalmente, enquanto unidade pessoal.

+ Dom Leomar Brustolim – Bispo auxiliar da Arquidiocese de Porto Alegre/RS.

Ser cristão no 3º milênio – Dom Dom Walmor

Impacta sempre, e muito, a fugacidade do tempo. Nada tem força para deter a voracidade do tempo, que passa inexoravelmente. Só o horizonte da eternidade, para aqueles que têm a fé no Filho de Deus – Salvador e Redentor da humanidade – consola e é certeza da vitória definitiva sobre a fugacidade do tempo. As abordagens filosóficas e antropológicas sobre o tempo carregam riquezas preciosas, lições que, aprendidas, qualificam o existencial humano e dá ao tempo que passa sentido consistente. Desenham o horizonte de uma vida marcada para o desabrochamento que a eterniza

Buscar uma qualificada razão para viver é dinâmica intrínseca da condição humana, com incidência não apenas no cotidiano de indivíduos, mas em toda a sociedade. Neste momento em que se completam duas décadas deste terceiro milênio, exercício indispensável é uma avaliação pessoal capaz de identificar quais mudanças são necessárias à própria vida. Com os instantes que transcorrem, marcados por incontáveis e impactantes avanços tecnológicos, torna-se urgente conceber equivalentes progressos humanísticos e espirituais, tão necessários a este tempo.

A realidade se sobrepõe a qualquer argumento ao demonstrar que os importantes avanços tecnológicos e cibernéticos são insuficientes para garantir qualidade de vida a todos. A base para a evolução da humanidade alicerça-se em pilares humanísticos e espirituais, que devem fazer frente a diferentes ideologias – linhas de pensamento que deterioram valores éticos e morais, resultando em graves prejuízos para todos. A perda desses valores gera intolerância, permissividade, desrespeito e desfiguração de identidades – de indivíduos e instituições – produzindo diferentes formas de violência.

É preciso buscar o que está faltando para reverter as dinâmicas que deterioram a vida humana, pois as duas primeiras décadas deste terceiro milênio ainda não ofereceram sinais de melhoras dos males que marcaram o século XX. Os processos educativos formais, até mesmo nos grandes centros acadêmicos e científicos, não estão dando conta de promover ampla qualificação humanística, com incidências transformadoras na realidade. Há, pois, nesse campo, insubstituível meta, que deve ser assumida por todos: promover e reconhecer a preciosidade da vida humana, razão pela qual o Verbo de Deus se fez carne e veio morar entre nós, para salvar a humanidade.

Todos têm responsabilidade nessa missão de promover os princípios éticos e morais. De modo especial, é tarefa dos cristãos superar disputas entre si, com ou sem razões confessionais, no sentido de oferecer ao mundo uma fonte inesgotável de valores humanísticos: a Palavra de Deus, que tem força para combater o relativismo defendido por ideologias, com a troca de certos princípios por uma liberdade ilusória. Ouvir e acolher o Evangelho produz frutos e qualifica a interioridade humana. Buscá-lo é atitude essencial para fazer da terceira década deste milênio bem mais do que simplesmente um tempo promissor.

Na escuta do Evangelho, vale dedicar-se de modo especial ao Sermão da Montanha, com a sua força transformadora. Quem busca essa Palavra coloca-se diante de Deus, em atitude de escuta que faz reverberar o sentido de fraternidade solidária, a partir da consciência de que todos são filhos de Deus. Ouvir a Palavra causa impacto, é uma experiência que permite aprender misticamente a imprescindível lição que vem do coração de Deus. “Ouvistes o que foi dito: amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem”. O cristão tem, pois, uma grande contribuição a oferecer nesta corrida contra o tempo: partilhar os valores do Evangelho neste terceiro milênio.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo

Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte

Epifania é abrir caminhos

“…voltaram para sua terra por outro caminho” (Mt 2,12)

“Por que é que os homens se deslocam em vez de ficarem quietos”? Esta pergunta do escritor Bruce Chatwin nos reconduz ao centro do mistério do próprio ser humano. Somos seres de travessia. As viagens nunca são apenas exteriores. Não é simplesmente no espaço geográfico que o ser humano viaja. Isso significaria não perceber toda sua a profundidade; deslocar-se implica uma mudança de posição, uma ampliação do olhar, uma abertura ao novo, uma adaptação a realidades e linguagens diferentes, uma expansão da sensibilidade, um confronto, um diálogo tenso ou deslumbrado…, que deixam necessariamente impressões muito profundas.

A experiência da viagem é a experiência de fronteira e do horizonte aberto, de que o ser humano precisa para ser ele mesmo. Nesse sentido, a viagem é uma etapa fundamental da descoberta e da construção de sua própria identidade e do conhecimento do mundo que o cerca. É a sua consciência que perambula, descobre cada detalhe do mundo e olha tudo de novo como da primeira vez. A viagem é uma espécie de propulsor desse olhar novo. Por isso, é capaz de introduzir na sua vida elementos sempre inéditos que o incitam a uma mudança contínua. Nada mais anti-humano que uma vida estabilizada em posições fechadas, ideias atrofiadas, visões limitadas pelo medo do diferente…

Mais do que viajantes, aos poucos vamos nos descobrindo peregrinos. Quando fazemos uma peregrinação, muitas vezes nos interrogamos onde é que ela termina, porque uma das coisas que experimentamos é que, à medida que caminhamos, a realidade torna-se sempre mais aberta e nós nos enriquecemos muito mais. A peregrinação não tem propriamente um fim: tem uma extraordinária finalidade. No caso dos Magos é o encontro com o “Rei de Israel”.

Na noite de Natal, Jesus se manifestou aos pastores, homens pobres e humildes, que foram os primeiros a se deslocarem para levar um pouco de calor à fria gruta de Belém. Agora são os Magos que chegam de terras longínquas, também eles atraídos misteriosamente por essa Criança. Os pastores e os Magos são muito distintos entre si; mas uma coisa tem em comum: o céu.

Os pastores de Belém foram correndo para ver o menino Jesus não porque fossem particularmente devotos, mas porque velavam de noite e, levantando os olhos ao céu, viram um sinal e escutaram uma mensagem. Assim também os Magos: investigavam os céus, viram uma nova estrela, interpretaram o sinal e se puseram a caminho. Os pastores e os Magos nos ensinam que para encontrar Jesus é necessário saber levantar o olhar para o céu, não fixar-nos em nós mesmos, ter o coração e a mente abertos ao horizonte de Deus, que sempre nos surpreende, saber acolher suas mensagens e responder com prontidão e generosidade.

O termo “magos” tem uma considerável gama de significados; mas, certamente, em Mateus são sábios cuja sabedoria religiosa e filosófica os põe em caminho; é a sabedoria que leva a Cristo. Somente homens de uma certa inquietude interior, homens de esperança, em busca da verdadeira estrela da salvação, seriam capazes de colocar-se em caminho e percorrer a longa distância entre Oriente e Belém.

Chama a atenção a prontidão da resposta dos Magos. Com simplicidade expressam como no preciso mo-mento em que perceberam a indicação do céu, imediatamente reagiram e a seguiram. A estrela que os guiava era uma estrela nova, superior, peregrina, que despertava assombro e atraía àqueles que a contemplavam. Os caminhos deste novo astro, orientam à salvação divina para toda a humanidade.

A experiência dos Magos nos exorta a não nos contentar com a mediocridade, a não permanecer adormecidos e estáticos, mas a buscar o sentido das coisas, a perscrutar com paixão o grande mistério da vida. Eles nos ensinam a não nos escandalizar frente à pequenez e à pobreza, mas a reconhecer a majestade na humildade e sabermos ajoelhar diante dela. O deslocamento dos Magos ajuda a nos deixar guiar pela estrela do Evangelho para encontrar Aquele que é Luz, e despertar a luz que nos habita. Assim, poderemos levar aos outros um raio de sua luz e compartilhar com eles a alegria do caminho.

Os Magos vêm do Oriente e caminham para a luz. Estão orientados. Oriente significa onde nasce o sol, a luz. A desorientação é a perda do sentido, do caminho, é viver na escuridão. A verdadeira luz está mais presente na gruta despojada que nos palácios e templos de Jerusalém.

Epifania, portanto, é abrir caminhos; Epifania é buscar e caminhar para a luz.

Mateus termina seu relato notando que, uma vez que os magos se encontraram com o Menino Jesus, “regressaram por outro caminho”. E não mudam de caminho para evitar Herodes, mas porque encontraram o Caminho: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida”. Deus, a Luz, não está presente nos caminhos e pretensões de Herodes (e existem muitos Herodes e faraós soltos pela história), mas naquele que é frágil e está deitado em um presépio.

Como os Magos, levantemos e voltemos à casa por outro caminho!

Quem se encontra com Jesus voltará à sua casa, ao seu trabalho, às suas ocupações, mas já não será o mesmo. Voltará de outra maneira, por outro caminho, com um coração dilatado e um espírito renovado. Quem se encontra com a Criança de Belém, dá-se conta de que os caminhos de Herodes, do poder, do prestígio, da riqueza, são caminhos que levam à morte. E Epifania é o caminho da vida, da acolhida e do encontro. O itinerário espiritual, portanto, pode ser descrito como uma viagem da cabeça ao coração; é uma viagem longa, difícil, mas apaixonante.

Por diferentes motivos, também hoje vivemos uma grande mobilidade; precisamos ser espertos em mover-nos entre o diferente, o que nos confunde, o mistério, o que nos questiona… Sempre caminhando. Esta é a atitude daquele que segue um Deus sempre maior, sempre surpreendente, que está sempre mais além de onde estamos. Então, que sigamos, sempre adiante… mas façamos isso juntos, sem deixar ninguém fora!

Este e o dinamismo que deve perpassar nossa vida: da instalação ao crescimento, da acomodação ao deslocamento contínuo. Partimos da realidade de que a tendência natural é amparar-nos nas “zonas de conforto”; elas nos dão mais segurança; é mais cômodo; requer menos energias.

A inércia leva a viver o ordinário, o repetitivo; custa-nos admitir e saborear o excepcional, o extraordinário; muitas vezes nos movemos em meio a um certo ceticismo vital, sem paixão pela vida e pela missão. Mas o caminho da fé nos leva de assombro em assombro, de graça em graça, de alegria em alegria.

“Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos” (Fernando Pessoa).

Texto bíblico: Mt 2,1-12

Na oração: Esse “outro caminho” é o caminho que deve direcionar para Deus nossa vida.

O que importa é pôr-se a caminho nas pegadas dos Magos, fazer escolhas e recusar desvios.

– Há alguma “estrela” abrindo horizontes para você?

– O que há de “herodiano” em sua realidade e em seu mundo interior? quais são as causas, as manifestações e os efeitos das suas inseguranças, do fixismo em torno do próprio eu, dos seus medos?

– conserve-se em movimento interior, sempre; nada de roteiros rígidos que sufocam o Espírito, matam a criatividade, prendem à rotina e empobrecem o dinamismo de uma vida em transformação.

Pe. Adroaldo Palaoro sj

Maria: Mãe de Deus

Pela fé, Maria aderiu ao plano de Deus e aceitou ser a Mãe do Verbo Encarnado. Tornou-se, na verdade, a Mãe de Deus.

Desde os primeiros séculos da Igreja, esta verdade foi bem aceita, pois, por ocasião de sua visita a Isabel, esta, cheia do Espírito Santo exclamou: “Como me é dado que venha a mim a mãe do meu Senhor?” (Lc 1, 43).

Houve muita objeção quanto a tal assertiva, mas no Concílio de Éfeso foi proclamada solenemente a Maternidade divina de Maria, e, sendo confirmada nos Concílios de Calcedônia e Constantinopla, quando das discussões acerca das duas naturezas de Cristo e sua única pessoa.

A Bíblia Sagrada afirma não só que Maria é Mãe de Jesus, como ainda que o Filho concebido em suas entranhas é mesmo Filho de Deus, o Verbo eternamente gerado pelo Pai, e Deus como Ele. “Eis que engravidarás e darás à luz um filho, e lhe darás o nome de Jesus. Ele será grande e será chamado filho do Altíssimo” (Lc 1, 31-32). “No início era o Verbo, e o Verbo estava voltado para Deus, e o Verbo era Deus… (…) E o verbo se fez carne e habitou entre nós e nós vimos a sua glória; glória essa que, Filho único cheio de graça e de verdade, ele tem da parte do Pai” (Jo 1, 1. 14).

A maternidade divina de Maria é o fundamento de todos os seus privilégios. Mãe que o foi sem deixar de se virgem. Deus preparou Maria para esse fim.

A vida terrestre de Maria se desenvolve à sombra da fé que nada enxerga, que não compreende, mas confia nos desígnios impenetráveis de Deus. Reside ai a verdadeira grandeza de Maria: Vida de fé.

Maria pode e deve ser chamada Mãe de Deus, haja vista que Cristo é Deus. Isso está presente em toda a Bíblia. Maria está presente do Gênesis ao Apocalipse.

Podemos e devemos chamar a Virgem Maria de “Mãe de Deus” porque o objeto-termo de toda maternidade é a pessoa. Não se diz que a mãe é mãe da natureza do filho, mas da sua pessoa, e, a pessoa em Cristo, é a segunda na Santíssima Trindade, o Filho de Deus. Deus escolheu Maria desde a eternidade e não podemos menosprezar essa escolha.

Maria é Mãe de Deus, pois Jesus é verdadeiro Homem e Verdadeiro Deus (CIC 484-507). Maria teve em seu ventre o Homem e Deus e não há como separar o corpo do espírito. Ela não deu à luz um monte de ossos, mas um corpo com carne e espírito, deu à luz o Filho de Deus: Jesus.

Jesus Cristo, o Filho de Maria, é Deus e homem verdadeiro e, embora seja Deus e homem, não são dois, mas um só Cristo. Emanuel, Deus-conosco, possui duas naturezas, a divina e a humana, unidas em uma só pessoa: Jesus Cristo Nosso Senhor. Sendo verdadeira Mãe de Jesus Maria, com toda justiça deve ser chamada “Mãe de Deus”, porque não se separa a natureza humana da natureza divina na pessoa de Cristo.

Ao fazer-se homem, nada perdeu da divindade e, sendo Deus assumiu em sua integridade a natureza humana. Para mostrar que era homem, quis nascer de uma mulher; mas para assinalar que era Deus, quis nascer de uma Virgem.

Diác. Daniel Bueno Borges

É tempo de limpeza espiritual. É Natal.

O Nascimento de Jesus, chamado também de Natividade, é uma referência aos relatos do nascimento de Jesus presentes principalmente nos evangelhos de Lucas e Mateus, mas também em alguns textos apócrifos.

Os evangelhos canônicos de Lucas e Mateus contam que Jesus nasceu em Belém, na província romana da Judeia de uma mãe ainda virgem. No relato do Evangelho de Lucas, José e Maria viajaram de Nazaré para Belém para comparecer a um censo e Jesus nasceu durante a viagem numa simples manjedoura. Anjos o proclamaram salvador de todas as pessoas e pastores vieram adorá-lo. No relato de Mateus, astrônomos seguiram uma estrela até Belém para levar presentes a Jesus, nascido o “rei dos judeus”. O rei Herodes ordenou em seguida o massacre de todos os garotos com menos de dois anos da cidade, mas a família de Jesus conseguiu escapar para o Egito e, depois que Herodes morreu, voltou para Nazar

Muitos acadêmicos defendem que as duas narrativas são não-históricas e contraditórias. Outros estudiosos cristãos defendem o contrário, ou seja, que não há contradição alguma e destacam as similaridades entre os relatos. Finalmente, há os que entendem que a discussão sobre a historicidade dos evangelhos é secundária, argumentando que eles foram escritos como documentos teológicos e não como cronologias históricas.

A principal celebração religiosa entre os membros da Igreja Católica e de diversos outros grupos cristãos é o serviço religioso da Véspera de Natal ou o da manhã do Dia de Natal. Durante os quarenta dias que levam ao Natal, a Igreja Ortodoxa pratica o Jejum da Natividade, enquanto que a maioria das congregações cristãs (incluindo a Igreja Católica, a Comunhão Anglicana, muitas igrejas protestantes e os batistas) iniciam a observância da temporada litúrgica do Advento quatro domingos antes do Natal — para todos, o período é de limpeza e renovação espiritual para a celebração do nascimento de Jesus.

Na teologia cristã, o nascimento é a encarnação de Jesus como segundo Adão, a realização da vontade de Deus com o objetivo de desfazer o dano provocado pela queda do primeiro Adão. As representações artísticas da Natividade têm sido um grande tema para os artistas cristãos desde o século IV. A partir do século XIII, o presépio enfatiza a humildade de Jesus e promove uma imagem mais terna de Jesus, um importante ponto de inflexão em relação às mais antigas imagens do Jesus “Senhor e Mestre”, o que acabou por influenciar o ministério pastoral do cristianismo.

As informações acima são encontradas na Wikipédia sobre o nascimento de Jesus.

A poetisa mineira, Adélia Prado, assim descreve o natal:

“Que noite bonita é esta
Em que a vida fica mansa,
Em que tudo vira festa
E o mundo inteiro descansa?
Esta é uma noite encantada,
Nunca assim aconteceu,
Os galos todos saudando:
O Menino Jesus Nasceu!

Natal é um período de limpeza espiritual, de renovação da fé e da esperança. Eis o “RECADO DA ESPERANÇA”

Nas provações que te surjam
Ergue a fonte e segue em frente,
Aceita, firme e contente,
O caminho tal qual é…
De pensamento tranquilo,
Não pares. Segue e não temas,
Sem crises e sem problemas
Ninguém sabe se tem fé.

Contratempo, desencanto,
Infortúnio, prejuízo,
Tribulações de improviso,
Dificuldade no lar…
Tudo isso se resume
Na escola que nos ensina
A entender a Lei Divina
Que nos impele a marchar.

Esquece os males do mundo,
Mesmo os mais rudes e amargos
Abraça os próprios encargos
Por íntimos cirineus;
Onde estiveres, relembra
Que o mérito vem da prova,
Que o sofrimento renova
E a dor é bênção de Deus. (Maria Dolores)

Feliz Natal, renova-te a fé, a esperança e recomeça a viver um novo tempo.

Regina Coele Barroso Queiroz Santos-Sabinópolis – butibarroso@yahoo.com.br.

foto: presépio da Catedral de Guanhães

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