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O SILÊNCIO: INDIFERENÇA, MEDO OU INSEGURANÇA?

A pobreza continua a castigar milhares de pessoas pelo país afora. Não há dúvida de que a existência de 14,83 milhões de pessoas pobres, segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), que viveram, em 2017, com 136 reais mensais, aproximadamente R$ 4,50 por dia, revela a situação da sociedade brasileira. Prevalece o reino da injustiça, da corrupção, do desamor. Prolifera o fenômeno, indigesto, da desigualdade social.

O número de cidadãos desempregados cresce. O desemprego atinge 12,7 milhões de pessoas (IBGE) no Brasil, hoje. Famílias inteiras são prejudicadas por isso. Os índices de violência aumentam em vários espaços sociais. As pessoas ficam inseguras, sem expectativas, desmotivadas, doentes. A pobreza e a miséria continuam vitimando crianças, adolescentes, jovens, adultos. Tirando-lhes a esperança. Matando-os em vida.

Considerando esse cenário de desalento, preocupa ainda mais o aumento dos sem voz, daqueles que não se indignam com tal situação. Instituições sociais que se mantinham ao lado dos injustiçados não advogam mais com tanta veemência. Parecem sem rumo, sem clareza, sem convicção. As lideranças políticas, religiosas, comunitárias precisam despertar desse sono profundo ou sucumbiremos todos/as.

Nos versos da irmã Cecília Vaz Castilho, cantamos: “Se calarem a voz dos profetas, as pedras falarão.” Infelizmente, outras vozes se levantam autoritárias, poderosas, e gritam por meio dos políticos corruptos, dos populismos travestidos de boas intenções, dos jovens negros assassinados nas periferias das grandes cidades, do patrão autoritário que desrespeita direitos e assedia mulheres, das crianças que choram nos hospitais, dos jovens que perdem suas vidas em acidentes de trânsito ou no tráfico, do trabalhador rural sem terra para plantar, das famílias despejadas e sem teto… Não, não. As pedras continuam emudecidas. E as nossas vozes, covardemente, silenciadas.

Luís Carlos Pinto

Professor de Educação Básica

 

Imagem da internet

Na contramão dos valores

A sociedade é radicalmente desafiada a reconhecer que seu curso está n

a contramão dos valores humanísticos, espirituais, morais e culturais. Esse reconhecimento é a base para que a humanidade possa se reerguer diante do atual quadro de crescente de

terioração do qualificado exercício da cidadania, que se manifesta, por exemplo, pelos “delírios públicos”, de grupos e de pessoas, aprisionados nos fundamentalismos, nas intolerâncias, na doentia ânsia de se emitir juízos sobre a conduta dos outros.  Esse fenômeno preocupante se revela na disseminação das notícias falsas, propagadas pelas redes sociais, que induzem tantas pessoas a admitirem como verdade uma mentira amplamente divulgada. Quem compartilha notícias enganosas – e outras formas de inverdades – contribui apenas para acirrar as intolerâncias.

Muitos interpretam, equivocadamente, que o direito de todos à manifestação de pensamento dispensa a competência para o diálogo, que inclui agir respeitosamente quando se fala sobre alguém ou quando se dirige ao outro. Consequentemente, o desespero toma conta. Incapazes de vivenciar o exercício da autocrítica, as pessoas não admitem que suas escolhas político-ideológicas podem ser questionadas. Desconsideram que sua visão de mundo indica uma perspectiva entre tantas outras. Não traduz a verdade absoluta. É um tipo de enrijecimento mental que conduz as pessoas e a sociedade rumo ao caos.

O pior é que não se percebe um movimento para flexibilizar essa rigidez, com o cultivo de mais tolerância e a busca pela convivência harmoniosa de perspectivas diferentes. Ao invés disso, coloca-se mais “lenha na fogueira”, nas verdadeiras brigas estabelecidas por quem pensa diferente. E a fumaça dessa fogueira impede a sociedade de enxergar as linhas de um horizonte novo e largo. Por isso, todos são convocados a compreender que o primeiro passo para superar os conflitos sociais é reconhecer o que – e quem – está na contramão de valores essenciais à boa convivência. E essa é uma elaboração crítica muito exigente, complexa.

Ora, de modo geral, cada um pensa estar com a razão, e não busca reavaliar seu próprio modo de agir e de enxergar a vida. Alimenta as próprias convicções por aproximar-se e receber o amparo dos outros que pensam de modo semelhante, constituindo grupos com potencial para transformar suas estreitezas em verdadeiras bandeiras, a serem defendidas até com ódio. Crescem, assim, as discriminações e as intolerâncias. Preocupante é constatar ainda que pessoas de mentes encurraladas estão por toda parte, em campos sociais estratégicos – na política, no ambiente religioso, nas instâncias que deveriam zelar pela educação, arte e cultura.

Gradativamente, todos passam a ser juízes de cada um, fazendo lembrar aquela conhecida passagem do Evangelho, quando Jesus faz referência, criticamente, a quem se preocupa em tirar “o cisco do olho do outro”, mas não tem competência para eliminar o que atrapalha a própria visão. Quando não são ampliados os modos de enxergar, todos correm o risco de navegar na contramão de valores indispensáveis e, consequentemente, prosseguir na viagem rumo ao precipício.

Qualificar os modos de ver o mundo, dedicando-se à autocrítica, é dever de cada pessoa. É preciso pôr fim à confusão gerada pela guerra de opiniões, temperada com a volubilidade nas decisões e escolhas. Quando se convive com a incoerência, indivíduos buscam consolidar o próprio poder nas burocratizações que mascaram incompetências e pareceres equivocados. Permanecem incapacitados para os diálogos determinantes na condução de instituições e da sociedade rumo a novos ciclos.

Não faltam simplesmente titulações ou informações às pessoas, pois, no atual contexto, de marcante presença das tecnologias digitais, conteúdos diversos estão disponíveis para consulta e aprendizado. A carência maior é de envergadura ético-moral que inspire ações fundamentadas nos valores que garantam qualificado exercício da cidadania. Para suprir esse déficit, cada pessoa precisa se capacitar não apenas para formular críticas ou acolhê-las.  Fundamental é fazer do recôndito da consciência uma instância capaz de presidir processos de autocrítica. Alcançam-se, com isso, mais equilíbrio e desenvolvimento integral, pois todos se tornam autênticos instrumentos a serviço do bem.

Mas o bate-cabeça e os acirramentos ideológicos tornam-se mais intensos porque há um distanciamento dos valores ligados à verdade, à justiça, ao respeito e ao diálogo. Esses valores não podem ser tratados com subjetivismo, para não caírem nas relativizações mortais. O aperfeiçoamento humano é meta indiscutível. Para alcançá-lo, o primeiro passo é reconhecer, a partir de uma autoanálise e de reflexões sobre o mundo contemporâneo, que a sociedade está inserida em uma dinâmica suicida, pois age na contramão de valores inegociáveis.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo

Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte

Na contramão dos valores

 

A sociedade é radicalmente desafiada a reconhecer que seu curso está na contramão dos valores humanísticos, espirituais, morais e culturais. Esse reconhecimento é a base para que a humanidade possa se reerguer diante do atual quadro de crescente deterioração do qualificado exercício da cidadania, que se manifesta, por exemplo, pelos “delírios públicos”, de grupos e de pessoas, aprisionados nos fundamentalismos, nas intolerâncias, na doentia ânsia de se emitir juízos sobre a conduta dos outros.  Esse fenômeno preocupante se revela na disseminação das notícias falsas, propagadas pelas redes sociais, que induzem tantas pessoas a admitirem como verdade uma mentira amplamente divulgada. Quem compartilha notícias enganosas – e outras formas de inverdades – contribui apenas para acirrar as intolerâncias.

 

Muitos interpretam, equivocadamente, que o direito de todos à manifestação de pensamento dispensa a competência para o diálogo, que inclui agir respeitosamente quando se fala sobre alguém ou quando se dirige ao outro. Consequentemente, o desespero toma conta. Incapazes de vivenciar o exercício da autocrítica, as pessoas não admitem que suas escolhas político-ideológicas podem ser questionadas. Desconsideram que sua visão de mundo indica uma perspectiva entre tantas outras. Não traduz a verdade absoluta. É um tipo de enrijecimento mental que conduz as pessoas e a sociedade rumo ao caos.

 

O pior é que não se percebe um movimento para flexibilizar essa rigidez, com o cultivo de mais tolerância e a busca pela convivência harmoniosa de perspectivas diferentes. Ao invés disso, coloca-se mais “lenha na fogueira”, nas verdadeiras brigas estabelecidas por quem pensa diferente. E a fumaça dessa fogueira impede a sociedade de enxergar as linhas de um horizonte novo e largo. Por isso, todos são convocados a compreender que o primeiro passo para superar os conflitos sociais é reconhecer o que – e quem – está na contramão de valores essenciais à boa convivência. E essa é uma elaboração crítica muito exigente, complexa.

 

Ora, de modo geral, cada um pensa estar com a razão, e não busca reavaliar seu próprio modo de agir e de enxergar a vida. Alimenta as próprias convicções por aproximar-se e receber o amparo dos outros que pensam de modo semelhante, constituindo grupos com potencial para transformar suas estreitezas em verdadeiras bandeiras, a serem defendidas até com ódio. Crescem, assim, as discriminações e as intolerâncias. Preocupante é constatar ainda que pessoas de mentes encurraladas estão por toda parte, em campos sociais estratégicos – na política, no ambiente religioso, nas instâncias que deveriam zelar pela educação, arte e cultura.

 

Gradativamente, todos passam a ser juízes de cada um, fazendo lembrar aquela conhecida passagem do Evangelho, quando Jesus faz referência, criticamente, a quem se preocupa em tirar “o cisco do olho do outro”, mas não tem competência para eliminar o que atrapalha a própria visão. Quando não são ampliados os modos de enxergar, todos correm o risco de navegar na contramão de valores indispensáveis e, consequentemente, prosseguir na viagem rumo ao precipício.

 

Qualificar os modos de ver o mundo, dedicando-se à autocrítica, é dever de cada pessoa. É preciso pôr fim à confusão gerada pela guerra de opiniões, temperada com a volubilidade nas decisões e escolhas. Quando se convive com a incoerência, indivíduos buscam consolidar o próprio poder nas burocratizações que mascaram incompetências e pareceres equivocados. Permanecem incapacitados para os diálogos determinantes na condução de instituições e da sociedade rumo a novos ciclos.

 

Não faltam simplesmente titulações ou informações às pessoas, pois, no atual contexto, de marcante presença das tecnologias digitais, conteúdos diversos estão disponíveis para consulta e aprendizado. A carência maior é de envergadura ético-moral que inspire ações fundamentadas nos valores que garantam qualificado exercício da cidadania. Para suprir esse déficit, cada pessoa precisa se capacitar não apenas para formular críticas ou acolhê-las.  Fundamental é fazer do recôndito da consciência uma instância capaz de presidir processos de autocrítica. Alcançam-se, com isso, mais equilíbrio e desenvolvimento integral, pois todos se tornam autênticos instrumentos a serviço do bem.

 

Mas o bate-cabeça e os acirramentos ideológicos tornam-se mais intensos porque há um distanciamento dos valores ligados à verdade, à justiça, ao respeito e ao diálogo. Esses valores não podem ser tratados com subjetivismo, para não caírem nas relativizações mortais. O aperfeiçoamento humano é meta indiscutível. Para alcançá-lo, o primeiro passo é reconhecer, a partir de uma autoanálise e de reflexões sobre o mundo contemporâneo, que a sociedade está inserida em uma dinâmica suicida, pois age na contramão de valores inegociáveis.

 

Dom Walmor Oliveira de Azevedo

Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte

Fé e Política – Violência que agride filhas, mães, esposas, avós

                                                       

                                               Após o período da Quaresma – Pensemos em gestos concretos – CF-2018! 

Não são poucos os relatos de mulheres vítimas da violência em nossa sociedade. Não estou me referindo apenas, o que já seria bastante trágico, aos abusos sexuais, castigos físicos e psicológicos que atentam contra a dignidade da pessoa. Lembro-me de um caso que me deixou perplexo. Uma mulher era obrigada a se relacionar com o marido bêbado enquanto ele apontava-lhe uma arma. Sem conseguir contar às pessoas o que ocorria, a mulher viveu mais de 30 anos escravizada dentro da própria casa, refém do homem com quem ela tinha se casado.

Em recente conversa com os padres Saint-Clair Ferreira e Wanderlei Rodrigues, da paróquia de São João Evangelista, discutimos sobre os inúmeros casos de violência que afligem muitas mulheres. Dados que, infelizmente, não foram coletados pelos institutos de pesquisa. Por exemplo, o Datafolha divulgou, em março de 2017, que 16 milhões de mulheres, no país, já sofreram algum tipo de violência física ou verbal; 12 milhões foram ameaçadas verbalmente, 5 milhões receberam ameaça de apanhar, 4,6 milhões foram perseguidas, por exemplo, depois do fim de um relacionamento, 4,4 milhões levaram algum empurrão ou chute de pessoas conhecidas. Os agressores são, na maior parte das vezes, os homens. Segundo o instituto, 23 milhões de mulheres dizem ter sido vítimas de assédio; 20 milhões já foram alvo de comentários desrespeitosos na rua, 6,9 milhões, no trabalho; 5,2 milhões já sofreram assédio físico no transporte público e 2,8 milhões já foram abordadas agressivamente em festas noturnas.

Os dados são alarmantes e exigem de nós coragem de criarmos espaços de escutas dessas vítimas. No âmbito paroquial, por meio dos serviços pastorais, não há dúvida de que algo pode ser feito. Imagino as histórias que se mantêm no submundo, castigando física e emocionalmente tantas mulheres. A justiça brasileira já prevê punição para os agressores, mesmo assim as situações ainda permanecem às escondidas. A Lei Maria da Penha, sancionada em 2006, cria mecanismos para coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher. Infelizmente as estatísticas apontam aumento crescente da violência.

Fico pensando que nos espaços onde vivemos, trabalhamos, passeamos com a família e nos divertimos, temos a missão de combater a cultura da violência. Tomemos cuidado com nossas palavras, gestos e ações. Não nos esqueçamos de que “Em Cristo somos todos irmãos” (Mt 23,8). Essa frase constitui um imperativo ético e pode ser compreendida como um projeto de vida em sociedade. No Evangelho estão os princípios fundamentais para uma convivência melhor. Eis a nossa esperança!

Luís Carlos Pinto

É Manhã, Ressurreição

Verdadeiro homem novo ressurgiu da cruz, ressuscitou Jesus! Eis a Páscoa para toda a humanidade, aleluia! Eis a Páscoa, eis a grande novidade.do Senhor, aleluia.

     Pe. Frei Luiz Turra, OFM

Às vezes, fico a pensar se as pessoas se lembram do real significado da Páscoa. Páscoa é tempo de mudança, de renovação e de esperança, de vida nova. É nascimento, é novidade, é aurora, é ressurreição.

Páscoa é tudo isso, mas como centralidade, é a gratuidade de Deus por meio de seu Filho Jesus para conosco manifestada na salvação da humanidade. E pensando assim, a Páscoa nos motiva e nos convida à mudança radical de nossa vida, cuja meta passa a ser o ressuscitado. Mude, pois somente o que está morto não muda. E nós estamos vivos, pois Cristo nos trouxe vida nova. Fomos banhados n’Ele, por isso somos novas criaturas.

Vivenciamos 40 dias de experiência de deserto, mortificação e preparação. Passados esses dias nos quais vivemos e celebramos a espiritualidade do êxodo, chegamos ao dia que o Senhor fez para nós, o dia central da fé cristã; a Ressurreição de Jesus, como sinal do amor e pleno de Deus para conosco.

Deus nos fez numa atitude de amor infinito, por isso desde sempre Ele quis ficar bem próximo de nós para nos dar afeto, realização e sentido de existência. E Jesus é o Filho de Deus, homem da graça e do amor, que percorreu os caminhos e os limites de nossa humanidade para experimentá-la, tomando parte dos sofrimentos humanos e libertando os filhos e filhas de Deus de toda e qualquer situação de opressão, principalmente do Pecado e das atitudes exclusivistas da cultura da época. Exatamente por causa de sua atitude amorosa e libertadora que o Messias foi condenado pelo poder político e religioso.

Ao celebrar a paixão do Senhor na sexta-feira maior, como fazemos memória, o Salvador do mundo não perdeu sua vida no madeiro, Ele a doou por livre e inteira vontade, despojando-se, algo que é próprio de quem ama e se entrega para que a vida seja resgatada e tenha seu sentido renovado com aspecto de proximidade, de serviço e da comunhão, como Ele mesmo nos ensinou no gesto do lava-pés que celebramos na liturgia da quinta-feira maior. Assim chegamos à conclusão que, de Deus viemos; e em Cristo, para Ele iremos retornar, porque somos filhos da criação-redenção, revelada na Ressurreição de Jesus, verdadeira Páscoa de todos.

A Páscoa, entendo-a como passagem; no sentido bíblico-teológico é sempre passagem de uma situação de sofrimento e dor para uma situação de vida e alegria plena. Com a celebração da Ressurreição de Jesus, no Domingo de Páscoa, inauguramos um novo tempo na vida litúrgica da Igreja: o tempo pascal, quando experimentamos o Cristo glorioso, ressuscitado, mas o testemunho do sofredor que se humilhou diante de todos para garantir-nos vida nova, vida plena e definitiva.

Ao Senhor Ressuscitado, peçamos que, por meio de seu Espírito, nos leve a uma experiência profunda de seu evangelho e do seu testemunho de comunhão e doação, fazendo crescer em nós e em nossa realidade de cristãos, a profunda vontade de mergulhar no mistério de nossa fé.

Feliz Páscoa!

  Michel Araújo

(Michel Hoguinele Frazão Araújo, nascido em Materlândia, reside em Belo Horizonte, atualmente trabalha na Livraria Paulinas.

SEREMOS ESCRAVOS DA VIOLÊNCIA SE PROCURARMOS ENTRE OS MORTOS AQUELE QUE ESTÁ VIVO

Aqui estou “partilhando” neste espaço! Novamente, sobre Campanha da Fraternidade. Honrado. Não com a segurança do salmista, mas como o menino Davi,motivado pela fé, firme fundamento das coisas que não vejo, mas espero. Sou o caipira-pirapora daquela canção. Sem palavras, diante da divindade, “só queria mostrar

o meu olhar”!

Diante do gigante violento armado com espada, lança, escudo, Davi disse: “…eu venho a ti em Nome do SENHOR dos Exércitos.” Mas diante dele o Rei,

Salmista, o que sou? Um “Bartimeu” vindo de Jericó pra Guanhães, gritando por luz.

“JESUS, FILHO DE DAVI, tem misericórdia de mim!” Tem misericórdia de nós, que de tanta violência, de tanto acreditar na lei do mais forte, de tanta espada e chibata, de tanto arrancar dentes por dente… Não temos visão alguma, nem um olho sequer para mostrar! De tanto ver triunfar a injustiça, estamos cegos nesta

sociedade perdida num tiroteio universal, sem fim!

“Eu não tenho ouro nem prata, mas o que tenho te dou”! É o que nos ensina o discípulo Pedro, do alto de sua maturidade… Justamente do discípulo que quando

andava com Jesus, era criticado, por sua insegurança, medo e ímpetos de violência. Quem nunca o criticou que espere o galo cantar e fique calado diante do sangue vertido da orelha de um soldado, depois me perdoe!

Há um ano, refletindo aqui sobre a preservação do bioma, falamos do Parque Estadual da Serra do Candonga. Foi lá que eu conheci um Davi, digo, um Curumim Pataxó. Preocupado com a preservação das espécies nativas naquela mata, eu lhe perguntei se ele não tinha medo de caminhar por ali e encontrar uma onça parda. Ele riu afirmando que não! Perguntei se ele carregava algum bodoque, um estilingue para enfrentar a fera. Ele levantou os braços, como se dispusesse para uma revista policial. Intrigado, perguntei se ele não tinha medo da onça parda. Ele olhou seu avô, do outro lado da clareira e me segredou:

_ O meu avô me disse que o medo é da natureza da gente, e isso também é bom. Mas o que vem de Deus não ameaça o ser humano, não…

Eis-me aqui tentando aprender a lição do Parque do Candonga, para não ter medo de perdoar quem me ofende. Aprendendo não atacar ninguém por medo do que vejo e nem sempre entendo. Tentando aprender a mudar meus conceitos, para perdoar o meu irmão, não só sete, mas, sete vezes o universo de vezes que for preciso. Afinal, o perdão vem de Deus e o que vem d´Ele não me ameaça, só me preserva.Tento amadurecer como o perdoado Pedro. Pois como o Bartimeu, lá dos evangelhos, eu também sou curado, amado e perdoado pelo mesmo Jesus Cristo, filho de Davi, que foi preso político, torturado e crucificado por nós. Só posso então pedir que tentemos isso, juntos. Essa fraternidade, de fato, pode superar a violência trazendo luz para os povos. Penso que cada um de nós precisa acender em seu coração a chama do perdão que Cristo nos deu.

Evandro José de Alvarenga

QUARESMA E A CONVERSÃO

Como sinal sacramental da salvação, a quaresma abre, progressivamente, o ciclo pascal e, cada ano, descortina-nos um caminho espiritual no qual retomamos nosso batismo rumo à Páscoa, ponto alto do ano litúrgico, mistério fundamental de nossa fé, cuja expressão máxima é a Vigília Pascal. Durante 40 dias, a Quaresma nos encaminha para a Páscoa, ajudando-nos a reviver a experiência do povo de Deus, que amadureceu sua fé na travessia do deserto, e a experiência de Jesus que, após intenso tempo de oração e jejum no deserto, assume sua missão com solidária e total entrega.

Neste “tempo favorável” buscamos a conversão. A quaresma é tempo oportuno de penitência e de conversão. A palavra conversão significa ao mesmo tempo radical mudança de direção do caminho e radical transformação interior que acompanha a mudança de direção da vida. Segundo a imagem da parábola do filho pródigo, a

conversão marca o nosso retornodadispersão para a nascente inesgotável da vida, que é a Páscoa de Jesus, nossa verdadeira “casa paterna”.

A quaresma é uma pedagogia de Deus. Há que se ter disposição para a festa (sair de nós) e há que se ter disposição para o silêncio, o recolhimento, a oração (entrar em nós).

Na verdade, penso eu que precisamos superar uma “tradição” que coloca o tempo quaresmal na “gaveta” da tristeza, do desânimo, da falta da alegria… A quaresma não pode (não é da sua origem) ser apenas um devocionismo ou piedosismo individual. Talvez o exercício mais bacana deste tempo seja da “refontalização”.

Quaresma é voltar às fontes. Aquilo que o Apocalipse chama de “amor primeiro”. Por que mesmo eu tenho fé? Por que sou cristão? Qual o sentido disso? Tem sentido? E isso, obviamente, tem um duplo significado – olhar para trás e olhar para frente: nesse tempo, o que significa jejuar? O que significa esmola? O que significa rezar? Aquilo

que está na tradição responde a nossa experiência quaresmal? É possível ressignificar o sentido da quaresma?

Pe. Hermes F. Pedro

O PERIGO PODE ESTAR AO LADO

 

Tenho refletido bastante sobre o tema da Campanha da Fraternidade 2018 – Fraternidade e superação da violência. Tive algumas oportunidade, neste ano, de conversar com membros de pastorais e líderes comunitários sobre o assunto. O tema proposto pela Igreja, para a nossa reflexão-ação, nos tira da zona de conforto em que muitas vezes nos metemos. Acostumados com os noticiários na TV, não paramos para observar os casos de violência que ocorrem cotidianamente em nossas casas, locais de trabalhos, em ruas e bairros, nas comunidades rurais, enfim, em nossas cidades.

Em um dos encontros, disse aos participantes que temo por essa violência silenciosa que vai sendo disseminada em nosso meio sem que percebamos os ruídos de destruição. Ações de violência que mais parecem um vírus a corroer as estruturas sociais. Os principais alvos são as famílias, as escolas, os espaços de convivência e de construção de identidade onde se encontram os cidadãos. Os relacionamentos vão sendo deteriorados.

Precisamos estar atentos, por exemplo, ao crescente caso de crianças maltratadas em seus lares, oprimidas, desrespeitadas e ultrajadas. A violência sexual está destruindo infâncias, histórias, relações familiares. Violência silenciosa que quebra a unidade da pessoa e que a obriga a arrastar por anos e anos dores insuportáveis. Meninos e meninas que se não forem bem cuidados, orientados por profissionais especialistas em saúde mental, podem não resistir ao trauma, às feridas físicas e emocionais.

Em dados divulgados em 2016, o Sinam (Sistema de Informações do Ministério da Saúde) registrou 22,9 mil atendimentos a vítimas de estupro no Brasil. Segundo informações desse órgão governamental, em mais de 13 mil deles – 57% dos casos – as vítimas tinham entre 0 e 14 anos. Dessas, cerca de 6 mil vítimas tinham menos de 9 anos. Participam, infelizmente, desses números familiares ou pessoas conhecidas, isto é, em muitos casos a criança sofre violência sexual por pessoas com as quais mantêm algum tipo de vínculo.

Em nossas comunidades paroquiais precisamos conversar mais sobre o assunto, procurar informações nos órgãos competentes, formar parceria com instituições sociais e com profissionais que atuam na defesa dos direitos da criança e do adolescente, a fim de evitar que casos assim continuem proliferando. A CF 2018 nos convida a identificar esse mal e exterminá-lo. Crianças e adolescentes não podem seguir sofrendo abusos, violência sexual, sem que nada seja feito, sem que algum grito revele essa chaga social.

Luís Carlos Pinto

 

Novos líderes novos

A sociedade clama por renovação. É preciso encontrar respostas novas capazes de libertar as instituições políticas, culturais, empresariais, educacionais e também as religiosas dos engessamentos e dos funcionamentos que são pesados, custam muito e apresentam resultados insatisfatórios.

Esse é um fenômeno de ordem mundial e se explica pelas proporções das crises de todo tipo que se abatem sobre o conjunto da humanidade, criando cenários que comprovam ineficiências e incompetências. São preocupantes a indiferença e a falta de intuição para encontrar o caminho que pode fazer alcançar as metas das inovações e das respostas eficazes.   

Na sociedade brasileira, verifica-se a falta de credibilidade nas instituições de referência, o que pode ser explicado por fatores diversos como a caducidade do parlamento, na esfera federal, e das instâncias de representatividade popular nos contextos estaduais e municipais. O funcionamento é viciado e pautado por formas que impedem o desabrochar do novo. Essa realidade, que se pode atribuir ao ideológico não praticado, por exemplo no contexto pluripartidário, apresenta diversos aspectos. Um deles é a ineficácia e a ausência de assertividade na fomentação do diálogo para articular a pluralidade, dificultando o aproveitamento das diferenças amalgamadas que poderiam ser instrumentos na construção de novas respostas. Ao contrário, o ideológico praticado no âmbito partidário serve apenas para a defesa de interesses, manipulações e incompetente tratamento dos processos. Constatam-se insensibilidades e morosidades nos procedimentos para atender às necessidades do povo.

Há uma manemolência nos processos operacionais de governos, das diferentes esferas, também no atendimento das demandas de infraestrutura. Realidade reconhecida pelo Judiciário ao fazer o “mea culpa” sobre a velocidade e a qualidade das respostas institucionais. A sociedade brasileira vai ficando para trás. Vai ficando para trás em razão de governanças, exercícios e representatividades que não conseguem intuir o novo e encontrar o rumo das novas respostas. Esse mal se derrama sobre o conjunto da sociedade, atingindo também as esferas privadas, religiosas e particulares. O preço pago pela sociedade é muito alto. Vê-se uma crescente degradação social, particularmente atestada pelo recrudescimento da violência, já em muitos lugares, produzindo passivos que não serão superados senão a longuíssimo prazo.

A saída é a possibilidade do surgimento de novos líderes: não é uma questão etária e meramente cronológica. A exigência, em vista do atendimento de demandas urgentes, é a aposta no surgimento e desabrochar de novos líderes novos no lugar das lideranças comprometidas pelos vícios. Nenhuma instituição, seja ela qual for, dará conta de muita coisa sem líderes audaciosos, generosos, capazes de intuitir novos caminhos. Líderes prudentes e respeitosos, propositivos e inovadores, além de cônscios da importância das raízes e tradições. Ao se contemplar horizontes eleitorais, para além do mecanismo de apertar botões, é hora de refletir, apostar e apoiar o surgimento de novos líderes.

Novos líderes novos são os que podem, talvez por não estarem ocupando cargos há muito tempo, dar conta de gerir processos de forma adequada. Atribuição que inclui preparação científica e acadêmica, não dispensa experiências, mas exige sobretudo equilíbrio emocional e psicológico para formatar decisões próprias, agir com ética e responsabilidade, sem baixar a guarda, sem medo e  lamentações.

É hora de a sociedade brasileira repensar e redefinir processos. Há um novo que precisa ser encontrado, mas não se pode fazer isso com instrumentos obsoletos e com as costumeiras dinâmicas. É hora de encontrar novos líderes, novos em isenção de vícios nos funcionamentos institucionais, novos pela audácia de ousar nas inovações, novos pela leitura competente da realidade, novos pelo gosto de governar para servir ao povo, transformando o quadro social, político e cultural. Assim, as instituições poderão ser instrumentos da construção de uma nova sociedade, de uma cultura de maior alcance em razão de suas raízes profundas e qualificadas, por vezes desconhecida ou pouco valorizada.

É a hora dos novos líderes novos.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte

 

Desafio das violências

As diferentes formas de violência crescem assustadoramente em todo o mundo, exigindo da humanidade urgência na busca pela paz. Uma tarefa árdua que não se realiza com promessas ou decisões simplistas, pois se trata de um fenômeno complexo: requer análises multidisciplinares, vontade política e o envolvimento de toda a sociedade.

As estatísticas, os números assustadores, delineiam um amplo quadro de perversidades. Além disso, há de se considerar também as muitas histórias compartilhadas nas redes sociais e as notícias que revelam situações absurdas, verdadeiros atentados contra a vida. Reconhecendo a importância dos números, das informações e das providências governamentais no âmbito da segurança pública, é preciso enfrentar a violência a partir de suas raízes que têm origem na compreensão do ser humano a respeito da vida e do que significa cada pessoa. Trata-se de um conjunto de valores que configura o próprio exercício da cidadania.

Nessa realidade, são inadiáveis os investimentos para se estabelecer um tecido socioantropológico capaz de restaurar uma referência inegociável: a compreensão da vida de todos, não apenas da própria vida, como dom de Deus. O investimento a ser feito toca os mais diferentes campos que integram a existência humana – o contexto familiar, escolar, a religiosidade, as práticas e os costumes, que constituem a cultura de um povo. Esses campos devem estar unidos na configuração de uma nova mentalidade. Afinal, sem o reconhecimento da sacralidade de cada pessoa, prevalecem a banalização da vida e a consequente expansão das violências.

Mais importante que todas as medidas reconhecidamente necessárias para combater a violência, o que se espera é uma verdadeira mudança de mentalidade, com força para fazer emergir novas posturas. Assim, a sociedade poderá superar o atual cenário, em que inúmeras mortes são provocadas por motivos banais – atenta-se contra a vida de alguém para apropriar-se de um bem material, por exemplo. É a verdadeira banalização do mal o que se vive na contemporaneidade. Por isso mesmo, embora sejam importantes as análises de especialistas, pois permitem o conhecimento mais aprofundado sobre as diferentes situações de violência, há um desafio que é de todos na busca pela paz.

Esse desafio contempla assumir as próprias responsabilidade e deixar de delegar sempre ao outro a atribuição de superar o mal. Deixar de acreditar que apenas as instituições ligadas à segurança pública têm o dever de vencer a violência. Urge contribuir para que todos partilhem uma nova compreensão a respeito da vida, do sentido de viver, que leve à prevalência das relações fraternas e solidárias. É assim que se alcança nova dinâmica cultural alicerçada na paz.

Para superar a violência, o percurso a ser seguido contempla muitas ações: cultivar a solidariedade, conhecer e respeitar a própria história, se perceber como alguém que realmente pertence a um povo, assumindo o compromisso de cuidar das pessoas que estão ao redor. Essas atitudes são contrárias às banalizações de todo tipo que alimentam o mal – das ações exclusivamente motivadas por interesses econômicos sedutores, manipuladores, aos comportamentos cotidianos que revelam falta de limite ético-moral.

Vale prestar atenção redobrada e cultivar valores fundamentais capazes de fazer surgir a fraternidade como princípio que ordena os diferentes modos de viver. Nesse sentido, todos os segmentos da sociedade partilham a responsabilidade de reavaliar as próprias atitudes, as posturas, para serem capazes de redesenhar um novo horizonte. Tarefa que exige sólido arcabouço ético-moral e a espiritualidade que reconfigura a vivência humana, na superação do desafio das violências.  Esta deve ser a nossa grande batalha diária pela paz.

 

Dom Walmor Oliveira de Azevedo

Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte

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