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O Dízimo como uma experiência de fé

A Experiência de partilha é, antes de tudo, uma experiência de fé, aliás, a segunda necessariamente precisa preceder à primeira: é pela fé que o cristão percebe a ação invisível da mão de Deus sobre a sua vida, tanto na ordem temporal como espiritual, em suas infinitas manifestações de misericórdia; e assim percebendo, pleno de gratidão, o homem numa atitude de fé, naturalmente busca partilhar; partilha que surge ipso facto, como uma necessidade de efusão indeclinável, decorrente, ela mesma, da natureza de uma autêntica experiência de fé.

Assim foi a experiência do jovem Zaqueu (Lc 19-1-10). Ele a nada foi forçado. A graça o assistiu, o amor o preencheu; ele, deste modo, pleno de alegria e boa vontade (Ecl 35,7 -8), entregou livremente o que possuía, porque havia conhecido Aquele que, simplesmente entregou-se a si mesmo por amor. Não há maior alegria do que fazer as coisas com liberdade e simplicidade de coração.

É Jesus, que sempre nos dá o cêntuplo (Mc 10, 28-31), isto é, infinitamente mais do que merecemos ou fazemos, se oferece para dormir na casa de Zaqueu, na sua morada, quer dizer no íntimo do seu ser; Jesus prepara a mesa e unge o seu coração de felicidade e amor por todos os dias de sua vida(Sl 23,6). E é por essa experiência ontológica que Zaqueu sente o inevitável desejo de partilhar.

O dízimo só pode ser partilha se for fruto de uma fé viva, tornando-se então, oferta perfeita.

As nossas partilhas e ofertas são ações da vida do cristão que chegam ao coração do Pai, quando se tornam um verdadeiro culto em espírito e verdade, isso é, quando a experiência da fé precede a partilha numa dinâmica santificante pela qual o cristão faz da sua vida um sacrifício perfeito; “Fazei de nós uma perfeita oferenda” (Oração eucarística III). Deste modo, o dízimo se torna a expressão mais concreta e autêntica do fruto do nosso trabalho e, juntamente com o pão e o vinho, será apresentado na celebração eucarística para ser transformado por Cristo e ofertado ao Pai como oferenda agradável .

(Maurílio Antônio Dias de Sousa –MEAC – Dias d’ Ávila –Bahia).
Enviado por Rosa Inácia e Silva,
da equipe diocesana da pastoral do dízimo
da diocese de Guanhães.

Ainda há espaço para as CEBs na igreja?

Pergunte a alguém da comunidade: ainda há espaço para as comunidades eclesiais de base na igreja?

Preciso de confirmação de testemunhas que viram nossa Igreja diocesana ser gestada, nascer, desenvolver-se e chegar à idade adulta, mas me resta um tiquinho de dúvida apenas sobre o que vou afirmar no início deste texto. Muitas lideranças sociais, políticas, religiosas nesta Diocese nasceram das experiências de fé das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs). Uma vivência que nasceu na zona rural, nas periferias, nas ruas e bairros das nossas cidades. Um protagonismo que encontra inspiração no Evangelho de Jesus de Nazaré.

As CEBs não perderam força como pensam alguns agourentos. Hoje, vejo a força das comunidades a partir da historieta que vou contar. Na minha casa tem um pé de pimenta biquinho plantada em um vaso. Durante meses comemos dessa deliciosa pimenta! Um dia, percebi que a plantinha parou de dar frutos, as folhas secaram, o caule foi se enfraquecendo, até que morreu. Perguntei para minha esposa: “Flor, o pé de pimenta morreu”? Ela me disse: “Não, não. Veja lá no vaso”. Quando me aproximei, vi muitas mudas, novinhas, vicejantes, que me saltaram aos olhos. Fiquei feliz e pensei: “Que bom! Logo, logo, novos frutos crescerão!”.

Na Diocese de Guanhães, as CEBs passam por esse processo da pimenteira. Há muitos desafios que exigem uma resposta corajosa da Igreja: os modos de produção do sistema produtivo e improdutivo ceifadores do meio ambiente e das comunidades tradicionais, a crise econômica que atinge as famílias de baixa renda, levando-as à miséria e à fome, a política partidária que carece de representatividade íntegra, responsável e ética, os problemas da urbanização etc. Nossa Senhora! Há inúmeras situações que as nossas comunidades experimentam dia a dia. Fica a certeza de que das CEBs sempre surgem vozes proféticas, ações transformadoras e modos de organização social onde a solidariedade sinalize a força da fé e a presença de Deus.

Luís Carlos Pinto
Professor de Educação Básica

Editorial: Estamos na “idade de Cristo”

A maioria das pessoas associa “33 anos de vida” à idade da morte de Jesus Cristo. Apesar de que a Sagrada Escritura não menciona a idade exata de Jesus em sua morte, os evangelhos Lucas e João nos ajudam a entender isso. Em Lucas 3,23, nos é relatado que Jesus tinha 30 anos de vida quando iniciou seu ministério; somado a essa citação, temos no livro de João a menção de quatro festas da páscoa após o início do ministério de Jesus (Jo 2,13-23; Jo 5,1; Jo 6,4) e a última páscoa quando ele foi crucificado.

Sabemos também que a páscoa dos judeus era realizada anualmente (Ex 34,18). Sendo assim, podemos chegar na idade de 33 anos. Se considerarmos que essa primeira páscoa (Jo 2,13-23) foi quando Jesus tinha 30 anos de idade, logo, com 31 anos foi a segunda páscoa (Jo 5,1); com 32 anos, a terceira páscoa (Jo 6,4) e com 33 anos a páscoa em que ele foi crucificado. Logo, nos parece razoável crer que Jesus tinha realmente por volta de 33 anos.

Independente disso, esta idade marca não só a morte de Jesus, mas também a ressurreição. Podemos considerar a maturidade de sua missão: quando se cumpriu o tempo, Jesus retorna para o Pai; cumpriu um ciclo entre nós: veio do Pai e retorna ao Pai; desceu do céu e de novo sobe para lá (Jo 1,1-18; Jo 3, 13; 6, 62).

Esta é a idade da nossa diocese! 33 anos! Esta é “nossa idade” como Igreja e recebemos pela primeira vez um “bispo pronto”, elementos que nos inspiram a vislumbrar um novo ciclo em nossa diocese. Os 3 primeiros bispos eram padres que assumiram o terceiro grau do sacramento da ordem se tornando bispos para ensinar, governar e santificar o povo de Deus nesta igreja particular. Realizaram 5 Assembleias Diocesanas, ajudaram a imprimir uma identidade.

O quarto bispo vem com aproximadamente 2 anos e meio de ministério junto a Dom Walmor na capital mineira e vem “como Pastor da nossa Igreja Diocesana – conforme rezamos neste tempo de vacância – Que o Espírito Santo o ilumine e fortaleça para ser verdadeiramente um “Pastor que tenha o cheiro das ovelhas”, que caminha com o seu Povo, a serviço da Sua Igreja e de maneira especial, os pobres e necessitados”.

É oportunidade de iniciarmos um novo ciclo, amadurecermos, resgatarmos o que foi bom e corrermos atrás daquilo que ainda precisamos se concretizar. Em nossa prece, instruídos por Dom Darci José Nicioli – Adm. Apostólico -, rezávamos: “Estamos no tempo de esperança e mudança, mas também, vigilantes”. Continuemos assim: vigilantes e atentos às mudanças e assim, nos configurarmos cada vez mais a Jesus Cristo, Sumo Sacerdote e Pastor Eterno e proclamarmos “para mim o viver é Cristo” – “mihi vivere Christus est” (Fl 1,21).

Seja bem-vindo, Dom Otacílio! Seguimos “unidos na fé e na oração, na comunhão fraterna e participação ativa, em todas as paróquias e comunidades”, no firme propósito de superar os desafios que nos interpelam (de ordem espiritual e da natureza humana frágil), de uma transformação e conversão do coração. Pedimos ao Pastor Eterno, Jesus Cristo, que ilumine o seu episcopado.

Rezamos por um novo pastor e rezemos agora para que ele seja ajudado por Deus e Nossa Senhora em sua missão. A oração não pode parar. E não nos falte a intercessão e a proteção de São Miguel Arcanjo, que é nosso padroeiro.

 

Pe. Bruno Costa Ribeiro,
Diretor

São Pedro e São Paulo – Dia do Papa

São Pedro nasceu em Betsaida, seu nome de nascimento era Simão, filho de Jonas e irmão de André. Os irmãos se tornaram discípulos de Jesus e mais tarde apóstolos. Eram pescadores, após o chamado de Jesus, Simão continuou sua profissão, mas agora como missão, porém não mais com redes de pesca e sim, pregando a Palavra de Deus.

Jesus deu a São Pedro a missão de ser líder da Igreja, disse a ele: “tu és pedra, e sobre essa pedra edificarei a minha igreja”. Após seguir Jesus por três anos, recebeu o poder do Espírito Santo em Pentecostes, dali Pedro se tornou um grande líder e reunia multidões em suas pregações.

Por pregar o Evangelho destemidamente, São Pedro foi preso várias vezes. Depois de evangelizar e animar a Igreja em vários lugares, Pedro foi para Roma. Lá, liderou a Igreja que sempre crescia, apesar das perseguições.
Assim, os romanos descobriram seu paradeiro, prenderam-no e condenaram-no à morte de cruz por ser o líder da Igreja de Jesus Cristo. No derradeiro momento, São Pedro pediu para ser crucificado de cabeça para baixo, por não se julgar digno de morrer como seu Mestre.
Seu pedido foi atendido e ele foi morto na região onde hoje é o Vaticano. Seus restos mortais estão no altar da Igreja de São Pedro em Roma. A festa de São Pedro é celebrada em 29 de junho.

São Paulo, cujo nome antes da conversão era Saulo ou Saul, era natural de Tarso. Recebeu educação esmerada “aos pés de Gamaliel”, um dos grandes mestres da Lei na época. Tornou-se fariseu zeloso, a ponto de perseguir e aprisionar os cristãos, sendo responsável pela morte de muitos deles.
Converteu-se à fé cristã no caminho de Damasco, quando o próprio Senhor Ressuscitado lhe apareceu e o chamou para o apostolado. Recebeu o batismo do Espírito Santo e preparou-se para o ministério.

Tornou-se um grande missionário e doutrinador, fundando muitas comunidades. De perseguidor passou a perseguido, sofreu muito pela fé e foi coroado com o martírio, sofrendo morte por decapitação. Escreveu treze Epístolas e ficou conhecido como o “Apóstolo dos gentios”.

A solenidade de São Pedro e de São Paulo é uma das mais antigas da Igreja, sendo anterior até mesmo à comemoração do Natal. Já no século IV havia a tradição de, neste dia, celebrar três missas: a primeira na Basílica de São Pedro, no Vaticano; a segunda na Basílica de São Paulo fora dos muros e a terceira nas catacumbas de São Sebastião, onde as relíquias dos apóstolos ficaram escondidas para fugir da profanação nos tempos difíceis. São Pedro e São Paulo, juntos, fizeram ressoar a mensagem do Evangelho no mundo inteiro.

São Pedro e São Paulo: Dia do Papa

Fonte: O São Paulo.

Presidente da CNBB analisa riscos de interpretação em julgamento da ADO 26

O arcebispo de Belo Horizonte (MG) e presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em artigo intitulado “Conflito Interpretativo” aponta riscos de interpretação no julgamento no Supremo Tribunal Federal da Ação de Inconstitucionalidade por Omissão (ADO 26) e da tramitação de Projeto de Lei 632/2019, no Senado Federal, para alterar a Lei 7.716/1989. Para o presidente da CNBB: “desconsiderar valores éticos e morais que estão acima de ideologias é um perigoso equívoco. É gerar grave conflito interpretativo”.

Acompanha, a seguir, a íntegra do artigo.

Conflito interpretativo

Tudo se desdobra em consequências para a vida: da caneta com a qual o juiz assina à atitude do cidadão. Por isso mesmo, a interpretação das diversas realidades é um constante desafio para o ser humano, exercício que vai muito além da simples manifestação de opinião. Interpretar os fatos e as situações é atividade exigente, requer a consciência sobre os impactos desse ato na vida das pessoas. É muito importante perceber que a emissão de juízos adquire ainda mais poder para gerar sérias consequências no contexto atual com as facilidades das redes sociais.
O reconhecimento de que não somos “donos da verdade” favorece em muito o acerto na tomada de decisões. É atitude humilde reconhecer-se suscetível a estreitamentos que podem levar ao distanciamento da verdade e, consequentemente, ao inadequado tratamento da realidade. Redobrar a atenção no exercício de se formular interpretações é necessário para evitar as costumeiras irracionalidades que promovem polarizações e outras obscuridades, entraves para a civilidade. De interpretações equivocadas nascem decisões que estão a serviço de interesses pouco nobres, desdobrando-se em manipulações, no enfraquecimento de instituições, na submissão a ideologias perversas que passam por cima de valores e princípios inegociáveis.
É responsabilidade de cada cidadão, particularmente dos que têm o dever de formular interpretações com ampla repercussão social, evitar o acirramento de conflitos a partir de suas decisões. A sociedade brasileira, de um modo geral, perde muito quando embates desnecessários são estabelecidos, com repercussões negativas para a vida de todos, principalmente dos que são mais pobres e indefesos. E torna-se importante sublinhar: conhecer profundamente o universo legislativo, as teorias e as técnicas de diferentes áreas do saber, não garante acerto no ato de interpretar a realidade, que exige, principalmente, sensibilidade.
A falta de sensibilidade e empatia no ato de interpretar, mesmo quando se domina elementos legislativos e técnicos de diferentes áreas do saber, tem provocado conflitos. Muitos avanços são impedidos, particularmente por não se encontrar respostas aos problemas. Tudo se contamina, ainda mais, com decisões judiciais, executivas, operacionais e existenciais nos parâmetros de estreitamentos que causam dó e a dor de amargar os prejuízos de ignorâncias e incompetências. Formular pareceres sobre determinado tema, de modo insensível às suas repercussões, aprisiona entendimentos e reflexões. Impede a sociedade de avançar rumo a novos patamares de desenvolvimento.
Conquistas científicas, condições ambientais favoráveis e avanços tecnológicos, sozinhos, não são suficientes para promover o bem de toda a sociedade. Escolhas lúcidas e assertivas, frutos da consciência tocada pela clarividência, é que permitem passos novos rumo aos progressos esperados pela humanidade. Sem luz na consciência, o ser humano naufraga em interpretações “estreitas”. E com o seu poder de decisão, passa a impor uma visão equivocada sobre a verdade, o que alimenta disputas.
A partir dessa constatação, a Igreja Católica, especialmente por sua Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), dedica especial atenção a um assunto de relevância para a sociedade: trata-se do julgamento no Supremo Tribunal Federal da Ação de Inconstitucionalidade por Omissão (ADO 26) e da tramitação de Projeto de Lei 632/2019, no Senado Federal, para alterar a Lei 7.716/1989.
Há um risco de interpretações equivocadas nesses processos. A Igreja Católica, em seus princípios éticos e morais, reafirma a importância do acolhimento solidário e respeitoso de toda pessoa. Não admite qualquer tipo de discriminação. Em fidelidade à sua Doutrina, tem também o dever de informar e orientar os seus fiéis sobre o matrimônio e a família na perspectiva cristã. Essa missão não pode ser considerada ofensa a pessoas ou grupos. Nesse sentido, a CNBB, em comunicado, pede mais clareza nos processos em curso no Judiciário, para que limites de intepretação não provoquem ataques a valores intocáveis, baseados na fé.
Espera-se que as autoridades competentes se reconheçam como peregrinos que buscam a verdade – e não os “donos da verdade”. Assim, percebam que a liberdade religiosa, garantida na Constituição Federal, pressupõe preservar códigos morais com raízes na fé. Desse modo, poderão respeitar a liberdade religiosa em decisões judiciais relacionadas à criminalização da homofobia. E sempre é oportuno reafirmar: a Doutrina da Fé Católica não semeia a violência, mas partilha um código de condutas comprometido com a promoção da vida, em todas as suas etapas, da concepção ao declínio com a morte natural. Desconsiderar valores éticos e morais que estão acima de ideologias é um perigoso equívoco. É gerar grave conflito interpretativo.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte
Presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB)

Corpo de Cristo: Corpo Humano

“Jesus acolheu as multidões, falava-lhes do Reino de Deus e curava todos os que precisavam” (v. 11).

O dia de “Corpus Christi”, tradicionalmente celebrado na quinta-feira depois da Trindade, é festa do Deus feito carne e sangue humano, é festa cristã da humanidade de Deus, da divindade do ser humano.Esta festa revela mil riquezas que deveriam ser realçadas no diálogo com a humanidade, afinal, o Corpo de Deus é, por Cristo, o ser humano inteiro, a humanidade completa; é festa cristã, mas que quer ser universal, a festa de todos aqueles que desejam vincular-se entre si, de um modo concreto, partilhando o pão, bebendo juntos o vinho da vida, em alegria e esperança, dispostos a colocar suas vidas a serviço da vida.

Festa do Corpo de Jesus e de todos os corpos; festa do pão e do vinho, frutos da terra e da comunhão de todos os seres. A Terra é um grande organismo vivento; o Universo, com suas estrelas e galáxias, é um corpo imenso. Corpo sagrado, porque habitado pela presença divina.

Celebremos nosso corpo, tão maravilhoso e vulnerável! Cuidemos do corpo, sem torturá-lo com nossas obsessões, sem submetê-lo à escravidão de nossas modas e medos! Respeitemos como sagrado o corpo do outro, sem explorá-los! Sintamos como próprio o corpo do faminto, do violentado, do refugiado, da mulher violada, maltratada, assassinada… É nosso corpo; é o Corpo de Jesus; é o Corpo de Deus.O corpo humano está, portanto, no centro da revelação cristã, pois se trata de algo assumido pelo mesmo Deus na Encarnação de seu Filho Jesus Cristo, que se faz corpo humano e habita entre nós.

Este gesto divino eleva e engrandece a corporeidade humana e a resgata para sempre, já que a divindade abraça a carne, acolhendo sua fragilidade para dentro de Si mesmo.Deus se revela encarnando-se, assumindo um Corpo que sente, que vibra, que tem prazer e que sofre, uma carne que treme, vulnerável ao frio e ao calor, à fome e à sede. Corpo que comunga com nossa mortalidade, padecendo dor, agonia e morte, sendo sepultado entre as trevas da terra como toda criatura.Frente a um contexto social e político que faz opção clara em favor da morte, os(as) seguidores(as) de Jesus proclamam em alta voz seu compromisso em favor da vida. É uma incoerência tremenda realçar o espírito da festa de Corpus Christi quando corpos são violentados, multidões são expostas à fome e miséria, pessoas e grupos são excluídos por preconceito, intolerância…Sim, “Corpo de Deus”! Deus é como o pulsar íntimo, a energia originária, a criatividade inesgotável, a possibilidade infinita, a força do bem, a comunhão universal, a Presença plena em cada ser humano, numa eterna evolução; Deus é infinitamente “mais” que a soma de todos os corpos que compõem a humanidade. Somos n’Ele. Ele é em nós, infinitamente mais que um Tu separado. Toma corpo no trigo que se transforma em pão ou na vinha que floresce nos campos e se transforma em vinho; corpo que se faz alimento e alegra o coração, na promessa de nos reconduzir às entranhas do amor do mesmo Deus.Jesus fez do universo seu corpo e se faz pão e vinho para nós. O pão suscita e cria Corpo…; Jesus não anuncia uma verdade abstrata, separada da vida, uma pura lei social, princípio religioso… Ao contrário, Jesus, Messias de Deus, é corpo, isto, é, vida expandida, sentida, compartilhada. O Evangelho nos situa desta forma no nível da corporalidade próxima: Jesus é corpo que quebra distâncias, acolhe o diferente e cria comunhão. Podemos dizer que Jesus desencadeia um “movimento corporal humanizador”; por isso, Ele se faz alimento que a todos sustenta, criando uma comunhão corpórea universal, pois ninguém está excluído.Sabemos que o corpo é identidade e comunhão, individualidade e comunicação, a vida inteira alimentada pelo pão.

A antropologia de Jesus não é dualista, que separa corpo e alma. A festa do Pão divino está nos revelando que corpo não é aquilo que se opõe à alma, exterioridade da pessoa, mas pessoa e vida inteira.Corpo é o mesmo ser humano enquanto comunicação e crescimento, exigência de alimento e possibilidade de morte: fragilidade e grandeza de alguém que pode viver o encontro com o outro, partilhando sua vida e suas energias, criando assim um “corpo” mais alto (comunhão) com todos.Nesse sentido, a Eucaristia se revela como centro da vivência cristã. A transformação das relações humanas se dá através do partir o pão e do passar o cálice de vinho; como o pão é um, comer desse pão nos faz todos um.

A Eucaristia faz de todos nós Corpo de Cristo. Daí o interesse da primitiva Igreja em que, na Eucaristia, todos comungassem do mesmo pão partido, com a finalidade de fazer visível essa unidade de todos.Ao dizer “tomai e comei, isto é meu corpo”, Jesus vem ao nosso encontro como alimento; não vive para impor-se sobre os outros ou explorá-los, mas, pelo contrário, para oferecer sua vida em forma de alimento, a fim de que todos se alimentem e cresçam com Sua vida.Tudo isto se expressa e se oferece em contexto de refeição entre amigos(as): não exige obediência, não impõe sua verdade, não se eleva acima dos outros, mas, em gesto de solidariedade suprema, se atreve a oferecer-lhes seu próprio corpo, convidando-os a partilhar o pão. Este oferecimento de Jesus só tem sentido para aqueles que interpretam o corpo messiânico, como fonte de humanidade dialogal, gratuita, expansiva…Assim fizeram seus(suas) seguidores(as): após a Ressurreição, Jesus foi “reconhecido ao partir o pão”; foi reconhecido não porque estava no templo ou ensinava na sinagoga, mas porque partia o pão nas casas.

Por isso, no primeiro dia da semana, reuniam-se todos nas casas, oravam juntos, recordavam a mensagem de Jesus, comiam o pão, bebiam o vinho e a Vida ressuscitava. A isso chamavam, ‘ceia do Senhor” ou “fração do pão”. Tudo era muito simples e despojado.Segundo os relatos dos Evangelhos, durante sua vida pública, Jesus transitou por muitas refeições, propôs a grande mesa da inclusão e, para culminar, organizou com seus amigos mais próximos uma ceia de despedida e de esperança. Ali, ao partir o pão e passar o cálice, pediu que se recordasse dele toda vez que comessem ou bebessem juntos, reavivando a esperança de construir o mundo que todos esperavam. Eles se transfigurariam e o mundo se transformaria em Comunhão toda vez que este gesto fosse repetido.Para isso, é preciso recuperar o lugar e o sentido da Eucaristia, para que não seja um rito puramente cultual. Para muitos cristãos, ela não é mais que uma obrigação e um peso que, se pudessem, tirariam de cima deles.

A Eucaristia acabou se convertendo em uma cerimônia rotineira, que demonstra a falta absoluta de convicção e compromisso. A Eucaristia era, para as primeiras comunidades cristãs, o ato mais subversivo que podemos imaginar. Os cristãos que a celebravam se sentiam comprometidos a viver o que o sacramento significava. Eram conscientes de que recordavam o que Jesus tinha sido durante sua vida e se comprometiam a viver como Ele viveu.Séculos depois, a simples refeição foi se complicando. A casa se converteu em templo, a refeição em “sacrifício”, a mesa em altar, o convite em obrigação, o rito em pompa, a partilha em exclusão…A festa de “Corpus Christi” pode ser ocasião privilegiada para voltarmos ao mais simples e pleno, para além dos cânones, rubricas e indumentárias que não tem nada a ver com Jesus. Basta nos reunir em um lugar qualquer, para recordar Jesus, compartilhar sua palavra, tomar o pão e o vinho, ressuscitar a esperança e alimentar o sonho do Reino.Essa é a Missa verdadeira, a verdadeira missão.

Texto bíblico: Lc 9,11-17

Na oração: Na sua comunidade, a celebração eucarística gera maior amor e compromisso em favor dos mais pobres ou se limita a ser um simples rito religioso obrigatório?- Quais iniciativas concretas sua comunidade poderia fazer para que a participação na Eucaristia seja mais ativa e dinâmica?- Sendo constituída por seguidores(as) de Jesus, como sua comunidade poderia se comprometer mais para levar aos outros o pão cotidiano, o pão do amor e da esperança, o pão do evangelho do Reino?

Pe. Adroaldo Palaoro sj

Como identificar sinais de que o relacionamento pode se tornar abusivo?

Como é gostoso se apaixonar, namorar, ter alguém. Nós, seres humanos temos inúmeras necessidades, e uma delas é a de se relacionar. Temos necessidade de nos relacionarmos amorosamente e, se possuímos marcas ou feridas na nossa história, corremos o risco de nos cegar diante de atitudes abusivas e viver a dor de uma escravidão.

E aqui está a questão, uma relação abusiva em que, normalmente, a “vítima”, não consegue perceber que está vivendo uma relação adoecida, devido a toda trama e domínio que o abusador consegue exercer sobre ela.

Vale ressaltar que este é um assunto muito singular para se tratar de forma generalista, por isso, me limitarei a apenas pontuar as possíveis formas de relação abusiva que existem hoje, para que você leitor tenha um pouco mais de clareza e conhecimento sobre o assunto.

Existem cinco tipos de relações abusivas: a física, verbal, financeira, emocional e tecnológica. A mais antiga e falada é a física, que deu origem a lei “Maria da Penha”, quando a pessoa abusada é uma mulher.

No entanto, o abuso físico não se dá apenas em mulheres, mas também em homens, e tem muita mulher batendo em homem por aí. Esta relação se dá quando o abusador quer impor sua vontade, condições e escolhas de forma agressiva, fisicamente.

O abuso verbal acontece quando um dos parceiros, com grande frequência, profere palavras pejorativas que diminuam e desencorajem o outro. Esta relação amarra sua vítima de tal forma que, normalmente, ela passa a acreditar na fala do abusador e paralisa diante da vida. É muito triste, pois gera também uma confusão sobre a verdadeira identidade, gerando pensamentos como: Ele tem razão, eu sou incompetente mesmo, não consigo fazer nada certo. E assim, o encorajamento de enfrentar a vida vai ficando paralisado e enfraquecido.

A dependência financeira, como o nome mesmo diz, está ligada ao dinheiro. O abusador(a) passa a administrar a conta bancária do parceiro(a), retendo todo o seu dinheiro, ficando com os cartões e dando apenas aquilo que julga ser necessário. Outra forma é quando o abusador não deixa nem mesmo seu parceiro trabalhar, o convencendo de que não é necessário, gerando assim, total dependência daquele que possui o dinheiro, o que, futuramente, pode vir a desenvolver, juntamente a dependência financeira, uma relação de abuso verbal.

A relação abusiva emocional é bastante comum em nosso meio, porém, não tão fácil de ser identificada. Aqui o abusador, com o passar o tempo, começa a restringir de forma bem sutil seus relacionamentos. Começa afastando os amigos de seu parceiro, normalmente com histórias de que eles na verdade não gostam dela, que têm inveja e que apenas ele de fato quer o seu bem. Posteriormente, inicia o processo de distanciamento da família e familiares, de forma que, ao final, o abusador consiga ter a atenção plena de seu parceiro, de maneira que somente ele passe a ser o foco da vítima. Aqui abro parênteses, pois este tipo de abuso não se restringe apenas à relação afetiva, mas tem acontecido muito em amizades, onde se vê este fechamento entre duas pessoas.

Por fim, temos uma nova forma de relação abusiva, que é a tecnológica, na qual o abusador, monitora todos os acessos virtuais de seu parceiro, whatsapp, redes sociais, e-mails, e demais plataformas de acesso ao mundo virtual. Podendo até mesmo bloquear os contatos de seu parceiro.

No entanto, um segredo que desejo revelar a você leitor, após ler todas estas possibilidades de abuso é que, numa relação abusiva, seja qual for, você é convocado a olhar para o abusador como de fato ele é, mesmo que seja difícil, enxergar a verdade que habita nele. E sabe qual é? Na maioria das vezes, se trata de uma pessoa insegura e medrosa, que usa deste tipo de força e comportamento para se esconder.

Você, sendo vítima, tem muito mais força que o abusador. Coragem! Esteja sempre atento(a) e pronto para encerrar esta relação abusiva, pois os relacionamentos existem para serem vividos de forma saudável.

*Aline Rodrigues é psicóloga,
especialista em saúde mental,
e missionária da Comunidade Canção Nova.
Atua com Terapia Cognitiva Comportamental;
no campo acadêmico, clínico e empresarial.

Homilia na Solenidade da Santíssima Trindade

Solenidade da Santíssima Trindade

Liturgia da Palavra:
I Leitura (Pr 8,22-31
Salmo 8
II Leitura Rm 5,1-5
Evangelho: Jo 16,12-15)

A Salvação em Cristo – A Obra do Espírito Santo – O Amor de Deus

Na Liturgia da Solenidade da Santíssima Trindade a Igreja se coloca diante do mistério do Amor de Deus, diante do qual cabe ao homem o silêncio e a contemplação. Na Segunda Leitura, São Paulo afirma que por meio da Salvação realizada pela Morte e Ressurreição de Cristo, todos têm acesso à presença e à graça de Deus. Já no Evangelho, Jesus afirma que a Obra do Espírito Santo é a de recordar aos discípulos as suas próprias Palavras, fazendo-os compreenderem e viverem o que Ele mesmo os ensinou. Por sua vez, a Leitura aos Romanos afirma que o Amor de Deus foi derramado no coração dos fiéis, por meio do Espírito Santo que lhes foi doado, como fruto da Salvação operada, por meio da morte e ressurreição de Cristo.

A Segunda Leitura aos Romanos tem início com uma afirmação do apóstolo Paulo que é fundamental para a vivência da Fé e contribui para a compreensão do Mistério da Trindade. Ele afirma que, por meio de Nosso Senhor Jesus Cristo, todos têm acesso à graça de Deus, ou seja, são inseridos na vida e comunhão divinas. De fato, Jesus oferece a sua vida fim de que a humanidade, incapaz de superar o pecado e, sobretudo a morte, pudesse ser inserida, uma outra vez, na comunhão divina. Esse dom da salvação em Cristo é oferecido gratuitamente à todos sem exceção, de modo que todos sejam acolhidos na grande família dos filhos e filhas de Deus. Pois, Ele oferece o Seu Filho para o perdão dos pecados dos homens, quando esses ainda eram pecadores, a fim de romper o muro que os separava. Sendo assim, por meio da morte e ressurreição de Cristo toda a humanidade é reconciliada com Deus, chamada à uma vida de profunda comunhão e intimidade com Ele. Um processo que teve seu início da Cruz de Cristo e continua a acontecer na vida de todos os que se abrem à graça que o Senhor continuamente derrama nos corações daqueles que com Ele vivem.

A palavra do apóstolo abre o caminho de salvação que os fiéis são chamados a trilhar, ou seja, apresenta uma estrada de seguimento para todos os que abraçam Cristo, por meio da profissão de Fé. Algo que se realiza no dia a dia da vida dos cristãos, como o próprio Paulo afirma, quando indica que as tribulações serão superadas, pela esperança que os mesmos trazem em seus corações. Tal esperança se baseia na experiência que cada um faz da Salvação em Cristo, isto é, no fato de reconhecerem a graça alcançada pela entrega de Cristo na Cruz. Ele veio para salvar a humanidade e oferecer à mesma o caminho de volta para a Casa do Pai, algo não mais restrito à uns poucos, mas oferecido gratuitamente a todos. Desse modo, por meio da Salvação realizada pela Cruz de Cristo a humanidade reconhece o Amor do Pai e recebe o Dom do Espírito, que deve agir no corações dos fiéis, tornando-os verdadeiras testemunhas da Ressurreição.

Os discípulos são enviados pelo Senhor como testemunhas de sua ressurreição, sinais claros do Reino e do Amor do Pai no mundo. Algo que somente podem realizar quando auxiliados pela força e pela presença do Espírito Santo, que é Aquele que recordará aos seus corações as Palavras do Mestre. Esta é a obra do Espírito, segundo o texto do Quarto Evangelho, ou seja, Ele é apresentado como Aquele que deve recordar aos cristãos as Palavras de Jesus, fazendo-os compreenderem a sua Missão e como deve ser o seu Testemunho. De fato, no Evangelho, Jesus afirma que o Espírito Santo conduzirá os discípulos à plena Verdade, não algo novo, mas, à compreensão plena de tudo o que Ele mesmo os comunicou. Sendo assim, graças à ação do Espírito Santo, os fiéis serão capazes de compreenderem a salvação realizada pela morte de Cristo e a sua ressurreição. Um evento que marca o início de um tempo novo, pleno da graça e da ação de Deus na vida de seus filhos e filhas.

O Espírito é envidado aos fiéis como o Dom da graça divina, apresentado como Aquele que conduzirá a comunidade dos discípulos à compreensão plena do mistério da salvação. Ele acompanhará os discípulos em seu caminho de seguimento do Senhor, tornando os seus corações capacitados para a Missão e o Testemunho. De fato, as Palavras de Jesus no Evangelho indicam que a obra do Espírito é necessária, a fim de que os discípulos possam sair de sua incompreensão, rumo ao entendimento pleno das Palavras e gestos de Jesus. De modo que sejam transformados em testemunha vigorosas da salvação realizada por meio de Sua morte e ressurreição. Sendo assim, somente por meio da acolhida de tão grande dom é que a comunidade dos discípulos poderia sair de sua apatia e medo, para assumir a Missão a ela confiada pelo próprio Jesus.

Segundo São Paulo aos Romanos, o Amor de Deus foi derramado no coração dos fiéis, por meio do Espírito Santo que receberam. Isto é, são inseridos na vida divina, pela graça do Espírito que a todos comunica o Amor do Pai manifestado na morte e ressurreição de Cristo, Desse modo, o apóstolo Paulo, dirigindo-se aos Romanos, reconhece que a humanidade inteira é inserida na comunhão profunda com o Pai, por meio de Cristo. De fato, em sua entrega na Cruz, sinal claro do Amor de Deus, todos são feitos filhas e filhos de Deus, isto é renascem para uma vida nova, fruto do amor divino. Uma obra do Espírito que continua a agir no coração dos fiéis, que são gradativamente mergulhados no mistério do Amor divino, que se derrama por meio de Cristo.

O fiel cristão deve se entender como filho do Amor, não somente por ter nascido em Cristo, como nova criatura, mas também, por receber gratuitamente do amor do Pai todos os dias. Desse modo, segundo São Paulo, o Espírito Santo é o que une e, ao mesmo tempo, conduz os filhos e filhas de Deus a fazerem a experiência profunda do Seu Amor. De fato, o Espírito é Aquele que, ao tocar os corações dos fiéis, desperta neles a verdade do Amor divino, de modo que todos sejam conduzidos por esse mesmo amor. Sendo assim, a filiação divina, dom gratuito do Amor de Deus, traz em si também uma vocação e missão, ou seja, implica num compromisso que deve ser assumido por todos. Os cristãos formados na escola do Amor do Pai são convidados a serem missionários deste mesmo divino Amor. De maneira especial, por meio de suas palavras e ações, sendo capaz de tocar a vida dos homens e mulheres com os gestos concretos de solidariedade e compaixão, frutos do Amor que recebeu do Pai, por meio da ação do Espírito que a todos foi dado.

Que a liturgia da Solenidade da Santíssima Trindade possa tocar nos corações de todos, a fim de que sejam capazes de reconhecer o gesto do Amor divino que em Cristo reconciliou o mundo consigo e a todos adotou como filhos e filhas. De modo que, cada fiel, mergulhado no Amor de Deus, derramado nos corações por meio do Espírito Santo, tornem-se sinais e testemunhas concretas do amor solidário e compassivo de Cristo.

Pe. Andherson Franklin Lustoza de Souza

Diocese de Cachoeiro de Itapemirim/ES.

Namorar pra quê?

Em quase todos os países, o dia dos namorados é comemorado no dia de São Valentim, o padroeiro dos namorados, em 14 de Fevereiro. Por aqui ficou famoso o dia 12 de Junho, uma comemoração criada no meio do século passado.  A data tem relação com a véspera de 13 de Junho, dedicado a Santo Antônio, que na cultura popular é casamenteiro. Mas a proposta partiu de publicitários, com o objetivo de aquecer a vendas em um mês onde elas tradicionalmente eram reduzidas.

Comércio ou devoção, o fato é que esta data já faz parte de nossa cultura. Ainda que movimente cifras milionárias, não tenho receio em dizer que o namoro não anda “essa coisa toda”. Está desfigurado e pouco valorizado como tempo de conhecimento e cultivo de uma amizade que aponta para o casamento. Muita propaganda, muita música falando de amor, mas na prática…

Um dia de grande oportunidade para uma boa reflexão. Há muita gente namorando, mas pouca gente se conhecendo de verdade. Talvez o namoro esteja sendo artificial e com a preocupação de se impressionar um ao outro, pouco dispostos a se conhecerem de verdade. Talvez esteja agitado demais com a rotina dos barzinhos, festas e casas de amigos, não sobrando tempo para uma conversa olho no olho. Ou ainda, os poucos momentos a sós podem estar servindo unicamente para a entrega imatura de seus corpos, sem compromisso verdadeiro e sem respeito ao projeto de Deus. Desenvolvem namoros “xoxos” que se arrastam para lugar nenhum.

Para onde caminha seu namoro?

Somente o conhecimento, fruto da convivência baseada no diálogo sincero, capaz de expor todos os sentimentos, quase um “virar ao avesso” de um namorado diante do outro é capaz desenvolver o amor que São Paulo nos exorta na carta aos Efésios, aquele de se entregar um pelo outro tal como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela.

É hora de colocar o namoro na balança e avaliar se ele tem se baseado no diálogo sincero. Quantas vezes vocês têm falado de suas vidas, sentimentos, projetos, inseguranças e medos? Já questionaram o caminhar do próprio namoro? Até mesmo um ateu sabe que sem diálogo o namoro não vai a lugar algum. O filósofo existencialista Nietzsche dizia que a pergunta mais importante a ser feita a quem pensa em casamento é se continuará a ter prazer em conversar com o cônjuge até a velhice. Já pensou que várias características externas de seu namorado (ou namorada) vão se alterar nos próximos anos?  Sua fisionomia vai mudar, as rugas vão chegar, o ânimo para as baladas vai se reduzir. Nem se sabe se terão dinheiro e saúde para tudo o que planejam viver. A característica que os atraiu poderá não mais existir. Mas se foram atraídos por algo interior ou se deixaram conhecer para criar uma verdadeira amizade, o relacionamento não se enfraquecerá sob os efeitos do tempo. O amor baseado na amizade, fruto do conhecimento constante, cresce na mesma medida que nosso exterior envelhece.

O que mantém vocês namorando?

 Além das comemorações, dos presentes, dos beijos e abraços, use também este dia para fazer duas perguntas. Se estão cultivando, de verdade, uma amizade baseada no conhecimento e se sabem para onde caminham. Se uma das respostas for não (mais ainda se as duas forem não!) é hora de tomar atitude. Ou investe seu tempo na construção de uma casa sobre a rocha ou interrompe a construção de uma casa sobre a areia, pois o desabamento poderá ser mais traumático. Namoro não é brincadeira. Feliz dia dos namorados! Feliz construção de uma família!

 

André Parreira

Autor de vários livros sobre namoro, matrimônio e família.

 

A sacralidade do Espaço Celebrativo

Percepções teológico-litúrgicas

Quando nos preparamos para edificar um espaço, as primeiras questões giram em torno da sua destinação. Perguntarmo-nos sobre o uso de uma construção implica considerar as relações que nela serão constituídas. Tratando-se de uma igreja ou capela, a resposta parece ser muito simples: é casa de Deus, um lugar para nos encontrarmos com ele. No entanto, o que isso significa do ponto de vista judaico-cristão e, mais especificamente, católico romano?

Para responder satisfatoriamente essas indagações é preciso voltarmos nosso olhar para as celebrações que se desenvolverão no ambiente a ser edificado. As celebrações não são outra coisa
senão um feixe de relações significativas para o sujeito que as realiza. No caso, o sujeito imediato é a Igreja concretizada numa comunidade reunida em assembleia. O sujeito mediado é Cristo que se manifesta no corpo da Igreja congregada. As relações das quais Cristo é sujeito são relações filiais e
também fraternas.

A tradição orante da Igreja nos ajuda a perceber de maneira profunda e adequada o sentido espiritual das celebrações cristãs, o que é determinante para projetar e construir um espaço celebrativo.

No 6º Domingo da Páscoa, depois que os dons do pão e vinho são apresentados e a mesa é preparada, aquele que preside reza, diante dos irmãos e voltado para o Pai: “Suba até vós, ó Deus, as nossas preces com estas oferendas para o sacrifício, a fim de que purificados por vossa bondade, correspondamos cada vez melhor aos sacramentos do vosso amor”.

A frase “preces com estas oferendas para o sacrifício” indica a ação ritual que está em jogo na missa inteira, mas sobretudo a anáfora. É a prece eucarística realizada sobre as oferendas – pão e vinho
– que converterá tais elementos em sacramento da vida entregue de Jesus (= sacrifício). O corpo e sangue do Senhor serão identificados com o pão e vinho somente depois de “eucaristizados”.

A oração sobre as oferendas os denominará “sacramenta pietatis”, que foi traduzido para o português do Brasil por “sacramentos do vosso amor”. Piedade em latim pode significar várias coisas e, dentre elas, destacase amor filial, isto é, amor dedicado aos pais. A prece eucarística é a magna expressão do da relação amorosa que Jesus Cristo, morto e ressuscitado, tem com o Pai. Nela e por ela, a obra da nossa redenção, isto é, sua oblação pascal, tornam-se atuantes no corpo da Igreja em oração.

A oração sobre as oferendas é concluída com uma súplica “purificados por vossa bondade, correspondamos melhor aos sacramentos do vosso amor”. A relação filial que os ritos eucarísticos providenciam no corpo de Cristo tem um impacto não apenas no pão e vinho sobre o altar, mas também
– e sobretudo – naqueles que as oferendas simbolizam, isto é, os fiéis.

Quem celebra a eucaristia deve se apropriar, adaptar e acomodar (verbo latino aptare, traduzido por corresponder) à relação que se desenrola entre Cristo e o Pai, isto é, a vida no amor filial. Este tipo de existência corresponde ao que chamamos de “vida no Espírito”. Mas esta vida segundo o Espírito de Cristo implica reconhecer aosoutros que oferecem conosco o sacrifício de louvor – como bem afirma o Canon Romano – de irmãos e irmãs. O amor filial de Cristo é que funda a fraternidade eclesial e também universal.

Projetar e construir uma nova Igreja ou reformar espaços já erigidos deve vislumbrar o amor filial de Cristo que se verifica na mediação ritual da assembleia. Deve dar condições para que os fiéis possam participar da intimidade trinitária que se derrama sobre em seus corações. E, por sua vez, deverá também favorecer a fraternidade consequente a este mesmo amor.

Pe. Márcio Pimentel – mestre em Liturgia
Paróquia São Sebastião e São Vicente – Arquidiocese de Belo Horizonte

Fonte: http://arquidiocesebh.org.br

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