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Professores e professoras: o estresse adquirido em sala de aula

Sabemos a importância do professor na vida de cada um de nós, reconhecemos as “marcas” que podem deixar em nossa vida. Sabemos que seu trabalho não para na sala de aula, mas mesmo assim, vemos o quanto são desvalorizados em sua missão em diversos aspectos.

Vivemos um momento em que muitos valores estão invertidos, onde a formação humana e a educação básica são vistas como “obrigação” da escola e não como um dever familiar. E essa falta de parceria escola/família tem prejudicado nossos professores em sala de aula, pois em muitos momentos precisam parar a aula, a explicação, para solucionar situações de conflitos relacionados à falta de educação, de interesse dos alunos, e até mesmo, algum tipo de atrito físico ou verbal. E quando solicitada a presença dos pais, esses apontam como um dever do professor mediar esses conflitos, sem incomodá-los, e ainda tiram de seus filhos a responsabilidade diante da falta de respeito com a autoridade do professor.

Diante dessa realidade, o desgaste físico e mental é inevitável no dia a dia dos professores que, aos poucos, acabam adoecendo, somatizando e, consequentemente, se afastando da sala de aula.

O estresse e o desgaste emocional passam a prejudicar o desempenho e o envolvimento do professor nas suas tarefas diárias e, com isso, pouco a pouco a qualidade do ensino vai sendo prejudicada e a cobrança sobre a capacidade do professor é posta à prova.

Contudo, nós, enquanto sociedade, precisamos valorizar nossos mestres e ensinar nossas crianças a respeitar o professor, porque ele não é apenas transmissor de conteúdo, mas formador referência para o senso crítico, o respeito mútuo e o desejo de fazer a diferença na sociedade.

O mesmo deve acontecer com os gestores, que precisam caminhar junto com seus professores e fazer com que se sintam fortes o bastante para enfrentar esses desafios e seguros de sua atuação, sendo valorizados, mesmo que tenham recursos limitados para desenvolver sua função.

Não existe motivo isolado para que os professores se estressem com a dinâmica de uma sala de aula, mas sim, uma somatória de situações que fazem com que eles se sintam incapazes, indiferentes, desmotivados, cansados, entre outros sentimentos que talvez seja muito difícil para eles descreverem.

Porém, o que não podemos esquecer é que a educação se constrói com amor, companheirismo, dedicação e, principalmente, valorização. Assim como o aluno precisa de reconhecimento para avançar no processo de ensino e aprendizagem, o professor precisa de motivação para não desistir nunca de sua bela vocação: transmitir conhecimento e formar cidadãos conscientes do seu papel na sociedade.

 

* Aline Tayná de Carvalho Barbosa Rodrigues é Licenciada e Graduada em Psicologia Pós Graduada em Psicopedagogia e Psicomotricidade. Atua como Psicóloga Escolar no Instituto Canção Nova, com crianças do Ensino Fundamental I

A IGREJA NOS CONVIDA A CONHECER MAIS A BÍBLIA

Setembro foi escolhido pelos Bispos do Brasil como o Mês da Bíblia em razão da festa de São Jerônimo, que viveu entre 340 e 420, foi secretário do Papa Dâmaso e por ele encarregado de revisar a tradução latina da Sagrada Escritura.

Em 2018, escolheu-se para estudo o Livro da Sabedoria que, para os cristãos católicos integra o conjunto bíblico chamado livros sapienciais. “’Sapienciais’ é o nome dado a cinco livros do Antigo Testamento: Jó, Provérbios, Eclesiastes, Sabedoria e Eclesiástico. A estes são acrescentados dois livro poéticos: Salmos e Cântico dos Cânticos, livros que apresentam a sabedoria e a espiritualidade de Israel. Em Israel, a sabedoria não é a cultura conseguida graças à acumulação de conhecimentos, mas o bom senso e o discernimento das situações adquiridos através da meditação e reflexão sobre a experiência concreta da vida. Trata-se de algo que se aprende na prática e que leva à arte de viver bem. Assim, nos livros sapienciais encontramos reflexões que brotam dos muitos problemas que povoam o dia a dia da vida de qualquer pessoa que busca o caminho da realização e felicidade. Os livros sapienciais mostram que a experiência comum do povo também é lugar da manifestação de Deus e da revelação de seu projeto: Deus fala através da experiência do povo. Estes livros, portanto, trazem o convite para também hoje darmos atenção à nossa vida cotidiana, a fim de aprendermos a articular nossa experiência da vida e da história”. (Bíblia Sagrada. Ed. Pastoral, Paulus, 1991).

“A religião verdadeira é mistério de fé e graça: o homem se entrega livre e gratuitamente a Deus; e Deus, mistério insondável, volta-se para o homem gratuitamente, a fim de estabelecer com ele uma comunhão que o leva para a vida”; “É preciso pensar a religião a partir da experiência de Deus e não de uma teoria a respeito dele”. (Jó, Introdução. Bíblia Sagrada, Edição Pastoral, Paulus, pág.605. 1991).C

ada comunidade escolhe a melhor forma de reunir os participantes; o importante é que todos os cristãos tenham a oportunidade de aprofundar seus estudos, partilhar experiências com respeito e alegria, como quem “sabe no que acredita como quem saboreia a procura constante de dançar a vida, na alegria da convivência humana na qual se dá a experiência de Deus”. Para o mês da Bíblia, alguns grupos de estudos elaboram seus roteiros e os disponibilizam aos interessados no assunto. Na paróquia São Miguel, Guanhães, o roteiro escolhido foi feito pelo CEBI-MG da Zona da Mata. “Tecendo Sabedoria” é o seu título e conta com texto-roteiro para cinco dias. Há uma participação significativa de cristãos que se interessam por este momento de estudos e aprofundamento dos ensinamentos do Mestre Jesus. Quanto mais conhecemos Jesus Cristo, mais o amamos e temos a possibilidade de testemunhar seus ensinamentos.
“Deus me conceda pensar, falar e agir com prudência” (Sb 7,15-16).

Texto: Mariza C. Pimenta Dupim – Guanhães.

Foto: fanpage Pascom Brasil

SÃO MIGUEL ARCANJO PADROEIRO DA DIOCESE DE GUANHÃES

Pode-se dizer que a história que levou São Miguel se tornar o Padroeiro da nossa Diocese inicia na cidade de Guanhães quando o proprietário da Fazenda Guanhães, o Guarda-Mor Antônio Feliciano, vendeu uma grande parcela de suas terras para o senhor José Coelho da Rocha, fiel devoto de São Miguel, que erigiu no alto do Bairro do Rosário a primeira Ermida de Guanhães que ficou pronta no ano de 1821.

No Decreto da criação da Diocese de Guanhães, datado em 01 de maio de 1986, assinado por São João Paulo II, então Sumo Pontífice, lê-se: “Ao mesmo tempo, mandamos que a nova sede da Diocese seja colocada na cidade chamada Guanhães; e a mesma Igreja paroquial ali existente dedicada a Deus em honra de São Miguel Arcanjo, elevamos a dignidade de Igreja Catedral…”

A imagem de São Miguel apresenta alguns símbolos tais como: Asas, Armadura, Espada, Balança e o demônio sob seus pés.

Podemos dizer que a Espada simboliza a nossa fé em Deus; com ela podemos vencer todo mal. A Balança, símbolo marcante que São Miguel também traz nas mãos nos remete ao significado do seu nome: “Quem como Deus?” Ela representa a Justiça de Deus, que nunca falha em seu combate contra o mal, representando e protegendo sempre o correto.

Nesses tempos difíceis onde a justiça parece minguar, principalmente para os pequenos do Reino, São Miguel vem nos apontar a justiça divina em favor de todos os seus filhos e filhas. A palavra Justiça aparece sete vezes no Evangelho de Mateus (Mt 3,15; 5,6.10.20; 6,1.33; 21,32). O ideal religioso dos judeus da época era “ser justo diante de Deus”. Os fariseus ensinavam: “A pessoa alcança a justiça diante de Deus quando chega a observar todas as normas da lei em todos os seus detalhes!”. Este ensinamento gerava uma opressão legalista e trazia muitas angústias para as pessoas de boa vontade, pois era muito difícil para o povo pobre observar todas as normas. Por isso, Mateus recolhe palavras de Jesus sobre a justiça mostrando que ela deve ultrapassar a justiça dos fariseus (Mt 5,20). “Para Jesus, a justiça não vem daquilo que eu faço para Deus observando a lei, mas sim vem do que Deus faz por mim, me acolhendo com amor como filho ou filha”.

O novo ideal que Jesus propõe é este: “Ser perfeito como o Pai do céu é perfeito!” (Mt 5,48). Isto quer dizer: eu serei justo diante de Deus, quando procuro acolher e perdoar as pessoas da mesma maneira como Deus me acolhe e me perdoa gratuitamente, apesar dos meus muitos defeitos e pecados.

Os anjos são “mensageiros” de Deus. Eles são enviados a terra trazendo uma mensagem de Deus às pessoas. Deus “desce” até nós por meio dos anjos (Rafael Tobias 5,4), (Gabriel Lucas 1, 26), (Miguel Daniel 10,13).

Um Deus que desce… No Primeiro Testamento, livro do Êxodo, a experiência que Moisés faz é muito bonita. Deus chama-o para “libertar o povo” que vivia oprimido pelo Faraó. E Deus revela a Moisés sua identidade: “Eu vi muito bem a miséria do meu povo que está no Egito. Ouvi o seu clamor e conheço os seus sofrimentos, por isso, desci para libertá-lo e fazê-lo subir dessa terra…” (Êxodo 3,7-8).

É um Deus presente na vida das pessoas e, para ajudar, Ele “desce”. De uma experiência “distante” para um Deus próximo, que “desce”.

O Evangelho de João destaca muito essa atitude de “descer”. Jesus “desce” e lava os pés dos discípulos. Eles não compreendem: “como pode Tu nos lavar os pés?”

Essa atitude da “descida” faz a gente rezar uma presença de Deus muito bonita. Deus nunca nos abandona. Nunca se esquece de nós. É aquele que transforma nosso “pranto em festa”.

Para os seguidores de Jesus, na espiritualidade do Deus revelado a Moisés, aprendemos uma atitude fundamental: se Deus desce, nós também precisamos descer. Quanto mais descemos, mais encontramos Deus!

Vamos nos desafiar cada vez mais a “descer” dos nossos egoísmos, dos nossos individualismos, ganâncias, soberbas, corrupções, mentiras… Descer do salto que nos faz “ser maior que os outros”. “Descer” também para encontrar os pobres, os sofredores, os doentes, os desempregados, as vítimas dos preconceitos, do machismo e algozes de tantas violências. Repito: quanto mais “descemos”, mais encontramos “um Deus que desce”.

Que São Miguel nos ajude a construir e viver a Igreja sonhada por “Francisco”!

Pe. Hermes F. Pedro/ Pároco da Paróquia São Miguel – Guanhães

Amado Papa Francisco

“Sem nada ter, tudo pode ser e cantar feliz”, eis a expressão de São João da Cruz que bem define a exemplar caminhada do Papa Francisco, na missão de promover a universalidade da Igreja. A partir de sua rica experiência de vida consagrada e pastoral, de sua proximidade e das palavras sempre pertinentes, o Papa Francisco nutre no coração da humanidade sinais de esperança. Assim, unem-se ao Papa multidões do mundo inteiro – clérigos, autoridades governamentais, formadores de opinião, líderes, membros de diferentes confissões religiosas, cidadãos de diferentes lugares. Todas essas vozes, a partir do pontificado de Francisco, formam um coro que canta a alegria de enxergar, no horizonte, uma “Igreja em saída”, que vai ao encontro de todos, superando molduras antiquadas para deixar brilhar a força da tradição – capaz de levar à interioridade de cada pessoa a luz do Evangelho de Jesus Cristo.

Importante reconhecer: valorizar a tradição não significa limitar-se ao apego cego a tudo o que é antigo, pois Deus, pela ação do Espírito Santo, gera sempre renovação. Zelar pela tradição da Igreja Católica é reconhecer a sua irrenunciável missão de fazer chegar a todos a luz incandescente do Evangelho. E o Papa Francisco ergue a tocha com essa luz, exercendo, com coragem e simplicidade, o seu ministério. A luminosidade do Evangelho incide sob seu rosto e permite, a cada pessoa, reconhecê-lo como sucessor do apóstolo Pedro. Por isso, o seu pontificado gera conversão, possibilitando que muitas pessoas assumam seus próprios pecados e fragilidades.

O Evangelho de Jesus Cristo, o diálogo com Deus, faz brotar no coração humano a sabedoria que permite compreender: não importam roupagens, títulos ou posições hierárquicas que, muitas vezes, garantem certas benesses e honrarias. O fundamental é cultivar uma autêntica vida cristã, um jeito de ser que é bem distante de qualquer tipo de postura egoísta. Na história bimilenar da Igreja Católica, admiráveis homens e mulheres, cristãos leigos e leigas, gente simples, mas também nomes reconhecidos – papas, bispos, padres, religiosos -, em diferentes lugares e culturas, nos mais variados momentos da história da humanidade, foram exemplares por serem autênticos cristãos. Hoje, o olhar volta-se para os que corajosamente se dedicam às frentes missionárias, chamados a testemunharem a fé no mundo contemporâneo. Liderando essa multidão de discípulos e discípulas de Cristo, está o amado Papa Francisco, que faz a cada pessoa um convite corajoso: aproximar-se mais da luz do Evangelho.

Acolher esse convite é a única possibilidade para a superação das muitas sombras, também na Igreja, em razão dos estreitamentos humanos e dos desafios do mundo atual. Há certas dinâmicas contemporâneas que estão na contramão do Evangelho. A lista é extensa, mas é importante, neste momento, dedicar atenção especial a um desses males: o moralismo perverso de certos indivíduos que, motivados por interesses pessoais e pouco evangélicos, sentem-se no direito de atacar outras pessoas. Esses indivíduos, quando criticam, não buscam promover correção ou conversão, pois são movidos pela mágoa. Em vez disso, não raramente, atacam para encobrir seus próprios limites. Adotam, pois, a estratégia de tentar destruir outras pessoas, distanciando-se da luz do Evangelho, que escancara escuridões. Quem busca seguir Jesus, nas muitas situações do cotidiano, pode gerar certo incômodo para os que, veladamente, arquitetam manobras e ilegalidades.

Para a Igreja, seguir Cristo não é opção, mas razão de existir, tarefa que se exerce dedicando-se ao mundo. É o que pede o amado Papa Francisco: uma Igreja cada vez mais servidora, muitas vezes ferida por debruçar-se, misericordiosamente, nas diferentes vicissitudes da vida humana. E o coro de vozes que se une ao Papa Francisco é muito grande. Deve crescer ainda mais, para que ninguém fique de fora. As vozes desse coro, unindo corações em um coração só, revelam que multidões cultivam a disposição corajosa de se deixar iluminar pelo Evangelho – a Tradição que é a herança intocável da Igreja. Permaneça, assim, viva a esperança de se construir um novo tempo, a partir do caminho indicado pelo amado Papa Francisco.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo

Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte

Ser Pai

Ser Pai
Hoje a paternidade física se faz até com bebê de proveta. Mas, ser pai é mais do que gerar filho na ordem natural, mesmo com a transmissão ideal da vida realizada com o casamento planejado e preparado. Este tem a perspectiva vocacional da união do amor humano com o divino. Assim, cria-se a condição de os filhos desenvolverem a afetividade na aceitação de si e dos outros mais harmonicamente.
Se o pai olhar o Pai de todos e se inspirar na paternidade divina, assumirá a responsabilidade de transmitir a vida e alimentá-la com a ternura, a afeição, a boa educação e a cooperação com a formação do bom caráter dos filhos. Isso se dá com seu exemplo de cidadão que vive os valores humanos da honestidade, verdade, ética, moral e perseverança na promoção do bem ao semelhante.
Como é bom os filhos terem pais que realmente os amam e sempre os orientam para serem pessoas que colocam as virtudes humanas acima de qualquer valor material! A formação da conduta para a vida em sociedade faz com que o pai inocule na consciência dos filhos a grandeza de tudo fazer para o serviço ao bem do semelhante, preparando-se, intelectual e moralmente para a prática da solidariedade, a exemplo do Filho de Deus Pai.
Ao mesmo tempo, os filhos aprendem a ter compaixão e misericórdia para quem vive na fragilidade dos próprios limites e na exclusão social. Assim, terão também compaixão pelos limites da pessoa humana do pai. Essa conduta é alimentada por Deus e repassada pelos filhos, que aprendem do bom pai a serem compassivos e colaboradores com quem vive em dificuldades.
A vocação para a paternidade responsável é ensinada e promovida aos filhos, que também saberão viver a vocação de resposta a Deus para o exercício da paternidade feliz.
O Pai Deus não deixa faltar aos filhos humanos o pão da vida, que é promovida na terra por todos os que aprenderam a ser verdadeiros pais que ensinam aos filhos a partilha e a solidariedade. Assim, não faltará, nem mesmo o pão material para todos. A natureza, criada por Deus oferece os meios de subsistência para toda a humanidade. Mas precisam ser usados e repartidos com justiça misericordiosa e verdadeira fraternidade. Precisamos formar mais o pai humano para treinar os filhos a serem verdadeiramente humanos e fraternos. A caminhada terrestre seria boa e justa para todos. Ninguém passaria necessidade material, psicológica, moral e espiritual. Quem segue o Filho Jesus, seria filha ou filho amoroso, que pensaria em tratar bem o semelhante, dando, cada um de si, para o bem do outro! Assim, todo pai humano seria feliz e deveria ser, porque todos os filhos também o seriam!
+ Dom José Alberto Moura
Arcebispo Metropolitano de Montes Claros
Fonte : www.cnbbleste2.org.br

Fonte: www.cnbbleste2.org.br

O Brasil necessário

O Brasil necessário

“Quando entrar setembro e a boa nova andar nos campos, quero ver brotar o perdão onde a gente plantou, juntos outra vez. “ Beto Guedes.
Setembro chegou e com ele a mudança de estação, a necessidade de repensar, celebrar e construir uma Pátria melhor. Mas o que é Pátria? Olavo Bilac em 1904 escreveu o lindo poema abaixo:

A PÁTRIA

Ama, com fé e orgulho, a terra em que nasceste!
Criança! não verás nenhum país como este!
Olha que céu! que mar! que rios! que floresta!
A Natureza, aqui, perpetuamente em festa,
É um seio de mãe a transbordar carinhos
Vê que vida há no chão! vê que vida há nos ninhos,
Que se balançam no ar, entre os ramos inquietos!
Vê que luz, que calor, que multidão de insetos!
Vê que grande extensão de matas, onde impera
Fecunda e luminosa, a eterna primavera!
Boa terra! jamais negou a quem trabalha
O pão que mata a fome, o teto que agasalha…
Quem com o seu suor a fecunda e umedece,
Vê pago o seu esforço, e é feliz, e enriquece!
Criança! não verás país nenhum como este:
Imita na grandeza a terra em que nasceste!

Mais de 100 anos separam a obra de Olavo Bilac da música escrita pelo compositor e músico Marcus Viana. Vejam:

Pátria Minas- Marcus Viana

Pátria
Pátria é o fundo do meu quintal
É broa de milho e o gosto de um bom café
Pátria
É cheiro em colo de mãe
É roseira branca que a avó semeou no jardim
E se o mundo é grande demais
Sou carro de boi
Sou canção e paz
Sou montanha entre a terra e o céu
Sou minas gerais

Sou minas gerais
Sou águas
Montanhas
E um fogão a lenha
A cerâmica
O canto do Jequitinhonha
São igrejas
São minas
É o barroco
Ouro preto
É a maria fumaça
Êta trem bão mineiro
Diamantina
Caraça
Gruta de maquiné
Casca d’Anta caindo
Congonhas do campo
São João del Rey
Sabará
Tiradentes
Igrejinha da Pampulha
E o belo horizonte

Se o mundo é grande demais
Sou carro de boi
Sou canção e paz
Sou caminho entre a terra e o céu
Sou minas gerais

O que há em comum entre uma obra e outra, cada leitor pode tirar sua própria conclusão mas quero nesse artigo ressaltar o que de urgente as duas clamam: Que cada um de nós ame com fé e orgulho o país em que vive. Dentro da sua casa, no quintal, no trabalho, na igreja, na rua pois um país é feito na pequenas atitudes do dia a dia.
É necessário, e urgente que saibamos ser pessoas melhores em todos os lugares pois gostamos de criticar o político corrupto e eu? Tenho cuidado bem da minha casa, dos meus compromissos?
Gostamos de ver o cisco no olho do outro mas temos dificuldade de enxergar a trave que existe em nossos olhos.
Que saibamos honrar e construir um Brasil melhor em nosso cotidiano procurando fazer melhor nossas obrigações familiares, profissionais, cristãs.
Como é feliz a nação
que tem o Senhor como Deus
o povo que ele escolheu para lhe pertencer! Salmos 33,12
A justiça engrandece a nação,
mas o pecado é uma vergonha
para qualquer povo. Provérbios 14,34
Pois, que grande nação tem um Deus tão próximo como o Senhor, o nosso Deus, sempre que o invocamos? Deuteronômio 4,7
Sem diretrizes a nação cai;
o que a salva é ter muitos conselheiros. Provérbios 11,14
Os pecados de uma nação fazem mudar
sempre os seus governantes,
mas a ordem se mantém
com um líder sábio e sensato. Provérbios 28,2
“Já choramos muito
Muitos se perderam no caminho
Mesmo assim não custa inventar
Uma nova canção
Que venha nos trazer
Sol de primavera
Abre as janelas do meu peito
A lição sabemos de cor
Só nos resta aprender”
Beto Guedes

Regina Coele Barroso Queiroz Santos
Catequista-butibarroso@yahoo.com.br
Sabinópolis-MG

FORMAÇÃO PRESBITERAL E A BUSCA DA FELICIDADE

Encontrei a Felicidade e ela me encontrou: quando eu andava na escuridão. A VERDADE me amou para que eu pudesse amá-la e entender os seus mistérios. Tal VERDADE me conduz à felicidade e me move em meio às diversidades situacionais. (Anderson Alves).

Na caminhada de formação presbiteral deparamo-nos com várias pessoas e também, com diferentes ideologias. A partir do mandato de Jesus: “Ide!”, somos convidados a uma meditação que provocará em nós uma revisão de vida. Desta reflexão, brota a necessidade de seguir sempre, de palmilhar os tortuosos caminhos, de anunciar sempre, de bradar aos quatro cantos a Boa Nova de Cristo Jesus Nosso Senhor. Para que este ato missionário surta efeitos, dê bons frutos, é imprescindível que estejamos de acordo com os desígnios de Deus, que é princípio e autor da Felicidade.

Sendo assim, a Igreja nos orienta através do novo documento para a formação presbiteral Ratio Fundamentalis, que o seminarista deve ser formado nas seguintes dimensões: Humana, Intelectual, Espiritual e Pastoral. A formação presbiteral se distingue duas fases: Inicial e Permanente. A Fase inicial está articulada em quatro etapas: Propedêutico, Filosofia, Teologia e Pastoral.

Na etapa inicial da formação os estudos filosóficos e teológicos não são os únicos a serem avaliados no caminho já percorrido pelo vocacionado ao ministério ordenado. Pois, cada etapa contribui para o crescimento vocacional. O período formativo é um tempo de prova, amadurecimento e sobretudo de discernimento, para assim conseguir chegar ao ministério ordenado de maneira convicta e feliz.

Já a formação permanente é um longo caminho em que o presbítero vai se configurando a Cristo Jesus: acolher os pequeninos, dispensar os sacramentos, acolher e escutar a todos, zelar pela vida espiritual da porção do povo de Deus à ele confiado. A partir dessa configuração o presbítero é convidado a se entregar cotidianamente e ajustar o seu ser inteiramente ao ser do Bom Mestre de Nazaré que é Cabeça, Pastor, Servo e Esposo da Santa Igreja.

Na conversão de Santo Agostinho, modelo para todo presbítero, percebe-se que a perseverança e a inquietação sempre fizeram parte do seu percurso vocacional. Em nossa caminhada de discernimento não é diferente, buscamos sempre a felicidade e a realização pessoal, que nos provoca inquietações. Porém, esse inquietar-se não deve se restringir apenas ao tempo de Seminário, ao tempo de formação, deve se estender por todo o tempo, por toda a vida. A ordenação, imposição das mãos do Bispo, não é como um passe de mágica que transforma e apaga no neo-sacerdote as fraquezas, as dúvidas, as incertezas, os vícios, ela confere sim poder que homem nenhum tem sobre a terra, parafraseando Santo Ambrósio “a dignidade do padre sobreleva à dos reis como o ouro ao chumbo.” É preciso que o presbítero esteja sempre com o coração ardendo de amor por Cristo Jesus, nossa Felicidade. Para alcançar a Felicidade e a realização pessoal é necessário curvarmos, num ato de humilhação, sempre nos voltarmos para Deus, suplicar seu patrocínio, suplicar sua graça, implorar pelo seu perdão e é imprescindível, que diariamente o padre se digne a dar o seu SIM a Deus.

Tomemos novamente como exemplo Santo Agostinho, que nos desperta na caminhada vocacional com seu exemplo de vida, principalmente na etapa inicial de nossa formação, que exige de nós disciplina para crescermos na fortaleza, no ânimo e nas virtudes humanas, para assim atingirmos uma sólida maturidade e sermos felizes na vocação ao ministério ordenado.

Ao direcionar nossa atenção para a essência humana, nos deparamos com uma infindável carência, uma busca constante, uma infelicidade profunda, pois o homem só confia em si próprio, a sua esperança está depositada sobre si mesmo. O homem retirou Deus de sua vida e se colocou no lugar d’Ele. O homem é seu próprio deus. O antropocentrismo impera!

Sendo assim, o processo de conversão é de máxima importância. Pois somente no inclinar-se para Deus conseguiremos a realização completa, pelo qual não tem outro caminho que o ser humano possa encontrar a satisfação de suas aspirações mais profundas. Deus não se impõe, Ele deixa os homens livres para que vá ao Seu encontro. Se deixando encontrar por aqueles que o procuram de coração sincero. Em Santo Agostinho, Deus é o princípio de tudo, e em nossa caminhada vocacional também temos que ter Deus como princípio norteador. Em Confissões, exterioriza isso muito bem:

“Eu nada seria, meu Deus, nada seria em absoluto se não estivesses em mim; talvez seria melhor dizer que eu não existiria de modo algum se não estivesse em ti, de quem, por quem e em quem existem todas as coisas? Assim é, Senhor, assim é. Como, pois, posso chamar-te se já estou em ti, ou de onde hás de vir a mim, ou a que parte do céu ou da terra me hei de recolher, para que ali venha a mim o meu Deus, ele que disse: Eu encho o céu e a terra? (AGOSTINHO Hipona – Cf. PESSANHA, J. A. M. Vida e obra. In: AGOSTINHO, Santo. Confissões. Tradução de J. Oliveira Santos e A. Ambrósio de Pina. São Paulo: Nova Cultural, 1996. Coleção Os Pensadores, p.282)

Desta forma, a caminhada vocacional é um chamado, um chamado diário, um sim renovado a cada momento, nas pequenas circunstâncias da vida, em meio às turbulências da época. É neste mundo contemporâneo, marcado pelas instabilidades, que somos chamados e desafiados a mergulhar profundamente na contemplação da pessoa de Jesus Cristo, pastor e guia do povo de Deus.

Devemos, pois, voltar os nossos olhos, voltar a nossa vida, depositar a nossa fé e a nossa confiança no “Bom Mestre de Nazaré”, exteriorizar essa paixão cumprindo o Seu mandato de estar sempre em saída, sem moradia fixa, sempre disposto a sair na direção daqueles que mais precisam. Assim, Ruben Alves recorda: “O segredo é não correr atrás das borboletas. É cuidar do jardim para que elas venham até você”. No entanto, a realização vocacional é uma busca contínua, é um cuidar do interior, é cuidar deste jardim, é ser sujeito de sua formação. Sabendo que mesmo tendo ramos embaraçosos, a Felicidade plena e a realização encontram-se na identificação do Infinito – Deus. Pois o ser humano é um ser finito e encontra, em Deus, a Verdadeira Felicidade.

Anderson Alves Rocha, Seminarista do 3º ano de filosofia

Moralidade, peso de ouro

A sociedade brasileira precisa estar convicta de que a moralidade é o “ouro primeiro” de todos os processos. Nem mesmo inteligências estratégicas, procedimentos bem articulados e as soluções para os graves problemas são capazes de resistir à falta de tradição moral, fundamental para a construção do bem comum que precisa ser respeitado e promovido. Isso porque, o equilíbrio e a identidade de uma nação dependem fundamentalmente de um conjunto de normas, valores e costumes que constituem o tesouro de uma rica tradição moral. Assim, a sociedade deve se conduzir pelos princípios de sua carta maior, a Constituição Federal, que reúne referências normativas com o objetivo de garantir a justiça e fomentar a construção de uma cidadania solidária. A letra da norma, aquilo que está explícito na lei, resulta de processos interpretativos e de desdobramentos socioculturais e religiosos. Processos capazes de inspirar os seres humanos – congregados em povos e culturas – a leituras e entendimentos que possibilitem a configuração de uma tradição moral que ordene vivências, convivências, procedimentos e funcionamentos. Assim, uma sólida tradição moral não se configura a partir de simples recursos de subjetividades ou de ideologias. É fruto da interação dos seres humanos que se articulam na importante tarefa de edificá-la pela essencialidade do relacionamento entre pessoas e pela referência dos valores morais e princípios éticos, inegociáveis e intocáveis – cláusulas pétreas. Uma exemplar singularidade dentre essas cláusulas é a inviolabilidade do dom e do direito à vida, que tem de ser respeitada em todas as suas etapas – da fecundação ao declínio, com a morte natural. Toda legislação em contrário fere e desestabiliza o tecido da tradição moral, com graves prejuízos para todos. Mas preservar o bem comum não é tarefa fácil, exige cuidado e atenção, uma verdadeira luta no interno da sociedade. Não se pode desconsiderar a tendência de se buscar, simplesmente, o interesse pessoal. O egoísmo tem força para fazer passar o interesse de um ou de determinado grupo e segmento em prejuízo do outro ou do bem comum. A perda da tradição moral representa grave comprometimento da autoridade. Nesse horizonte, a prioridade deve ser o investimento na formação de condutas pautadas no respeito a valores ético-morais – não se fala aqui, absolutamente, de moralismos e conservadorismos, mas de rever conceitos e comportamentos. É preciso investir na recuperação da moralidade, em todos os setores, envolvendo o conjunto dos cidadãos, para alavancar projetos de desenvolvimento integral, de qualificação da cidadania. Esse percurso de formar, recompor e manter a tradição moral, indispensável a uma nação, não pode ser fruto de subjetivismo ou imposição ideológica. Os processos educativos, formais, familiares e nas diferentes circunstâncias e processos que compõem a vida cotidiana, têm séria responsabilidade por contribuir significativamente para que esse tecido erodido por muitas causas e razões se recomponha. O comprometimento do tecido moral, particularmente quando considerados os esquemas de corrupção e depredação do erário, o modo irresponsável com que é tratado o bem público, requer a ação de bons gestores, que representem o povo nas suas instituições, e cidadãos honestos nas relações do dia a dia, nas mais comuns circunstâncias. O atendimento a essa demanda urgente exige que se considere a importância do tesouro em que a moralidade está inscrita, especialmente neste ano eleitoral quando a credibilidade de candidatos está em questão. A tradição moral na política está sucateada e por isso o preço do descrédito é grande. O mesmo ocorre na esfera religiosa e não menos, de modo preocupante, no mundo do judiciário e em outros tantos segmentos da sociedade. Assusta muito ver decisões, frutos de interpretações de leis e normas, com favorecimentos por conivência, por poder ou até mesmo por mediocridade em razão da pouca competência, não só acadêmico-científica, mas sobretudo pelo distanciamento de sólidas tradições morais. É necessário assimilar a convicção de que a moralidade é a alavanca única que pode sustentar, dar consistência e empurrar na direção certa. A sociedade precisa, em todos os ambientes e segmentos, contar com cidadãos e cidadãs que, acima de tudo e prioritariamente, considerem, vivam e testemunhem a moralidade a peso de ouro .

Dom Walmor Oliveira de Azevedo

Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte

A solução é descriminalizar o aborto?

Cardeal Dom Odilo Scherer fala sobre o aborto.

“A lei que penaliza o aborto provocado está a serviço de um valor altíssimo, que é a vida do nascituro, seu primeiro e mais fundamental direito”, afirma o cardeal Odilo Scherer, arcebispo de São Paulo. Ele publicou artigo sobre o tema no jornal “Estado de São Paulo”, no sábado, 11 de agosto. Confira:

As audiências públicas promovidas pelo Supremo Tribunal Federal (STF) sobre o aborto deram ocasião a muitas manifestações favoráveis ou contrárias à descriminalização do aborto voluntário. Após ouvir a sociedade, o Supremo deverá responder à pergunta se os artigos 124 e 126 do Código Penal, que qualificam o aborto como crime e preveem sanções correspondentes, são contrários à Constituição de 1988 ou não.

Desejo participar desta reflexão e peço ao leitor que me dê o crédito da sua leitura. Como cardeal da Igreja Católica, eu poderia tratar o aborto do ponto de vista moral e religioso; mas aqui pretendo refletir apenas com argumentos compartilháveis também por quem não tem a mesma fé religiosa.

O motivo da existência de leis é a preservação de valores e bens de alto apreço. O bem patrimonial privado e público é um valor a ser preservado por leis, e o atentado contra ele leva o legislador a prever a lei que protege este bem e manda o julgador aplicar sanções que penalizem quem desrespeita o legítimo patrimônio. E não achamos isso estranho. Assim há leis para regular o trânsito e penalizar seus infratores; leis para preservar o ambiente e penalizar quem as desrespeita. E não é preciso ir mais além nesse raciocínio. Alguém pensa que a aplicação da lei ao infrator é uma injustiça contra ele?

O feto humano, desde a sua concepção, já é um ser humano

A lei que penaliza o aborto provocado está a serviço de um valor altíssimo, que é a vida do nascituro, seu primeiro e mais fundamental direito. Sei bem que existem diversas percepções sobre o início da vida humana. Penso que o feto humano, desde a sua concepção, já é um ser humano, sujeito de direitos. Não consigo pensar que ele se torne “humano” apenas num estágio posterior do seu desenvolvimento no útero da mãe. A mulher, da mais inculta à mais letrada e conhecedora dos segredos da ciência, quando tem a notícia do início de uma gravidez, exclama “estou esperando um filho!”. E quem diria que não é assim ou que ela está iniciando a gestação de “algo” indefinido, que apenas depois, mais tarde, se tornará um filho seu, um ser humano como ela? O embrião é humano, desde o primeiro instante de sua gestação. Se não o fosse, não haveria lei alguma, ou Constituição de país nenhum, capaz de torná-lo “humano”, em momento posterior. Não é uma concessão da lei; é um fato da natureza, que precede à própria legislação positiva.

Argumenta-se que o bebê em gestação ainda não seria sujeito dos mesmos direitos dos já nascidos e dos adultos, e isso é verdade. No entanto, sendo “humano”, ele já tem o direito à proteção dos adultos e de leis que lhe assegurem direitos proporcionais à sua condição, como a saúde, a proteção contra a violência e, sobretudo, o direito à vida. É da percepção mais elementar da condição humana que os adultos protejam e defendam os humanos mais fracos e indefesos, como é o caso das crianças desde a mais tenra idade. Seria cínico e desumano não reconhecer a dignidade humana do nascituro e aprovar atitudes agressivas contra ele, sobretudo a iniciativa de lhe tirar a vida.

Claramente, penso que apenas numa condição o aborto poderia ser visto com indiferença pela sociedade e suas leis: só se o bebê, em qualquer fase de sua gestação, não fosse um ser humano. Mas quem o poderia afirmar, sem esconder a mais elementar verdade científica? Sendo o nascituro um ser vivo da mesma espécie de quem o gerou, o aborto interessa à sociedade como um todo e cabe à comunidade humana civilizada fazer leis e cuidar de sua aplicação, quando se trata de proteger e defender os inocentes e indefesos. Do contrário, ela deixa de ser civilizada e humana.

Preservar o “valor”, que é a vida 

Então o aborto deve continuar a ser tipificado como crime no Código Civil? Minha resposta vem como uma nova pergunta: existe algum modo de proteger e preservar o “valor”, que é a vida dos nascituros, sem que haja uma lei expressa que o estabeleça e que também preveja sanções para quem, de modo direto ou indireto, provoca o aborto voluntariamente? A finalidade da lei não é, antes de tudo, a penalização da mulher que o faz, mas a proteção do seu filho e dela mesma. Existe alguma possibilidade diversa de conseguir esse objetivo, sem ser por uma lei adequada, contrária ao aborto?

A gestante também deve ter a proteção da sociedade mediante uma legislação adequada e políticas que a implementem de maneira eficaz. Mas o preço pela falta ou pela ineficácia de leis que assegurem a dignidade e os legítimos direitos da mulher não deve jamais ser cobrado do filho dela, inocente e indefeso.

Argumenta-se, também, que a lei que qualifica o aborto voluntário como crime limita os direitos fundamentais da mulher e desrespeita a sua autonomia, sua dignidade e sua integridade física e psíquica. Sinceramente, não me parecem argumentos que justifiquem a desproteção legislativa do nascituro. Não é belo e não é adequado ver no filho um “agressor” de sua mãe…

As questões em relação aos direitos e à dignidade da mulher podem e devem ser resolvidas sem suprimir a vida dos bebês ainda por nascerem. A maternidade não é doença nem mácula para a dignidade da mulher. A liberdade dela é preciosa, mas também está vinculada à responsabilidade que lhe corresponde. A gravidez inesperada pode ser prevenida com meios adequados, sobretudo com a educação e a informação. A falta de condições econômicas para criar os filhos deve ser tratada com seriedade e a mulher que se torna mãe tem o direito ao apoio da sociedade para encaminhar bem o filho na vida. Mas a injusta pobreza de muitos não pode ser argumento para eliminar o inocente e indefeso. As cifras presumidas de abortos clandestinos e os custos das complicações decorrentes devem ter uma solução que, honestamente, não poderia ser a legalização do morticínio de bebês ainda no ventre de suas mães.

+ Dom Odilo Pedro Card. Scherer – Arcebispo de São Paulo

Artigo publicado no Jornal “O Estado de S.Paulo”, ed. 11/8/2018

Títulos de Nossa Senhora celebrados no mês de agosto, em nossa Diocese e uma compreensão da pessoa de Maria

A vinculação de Maria com o mistério de Cristo leva a teologia a explicitar cada vez mais o importante papel da Virgem Mãe na história da Salvação. Ensina São Luís Grignion de Montfort que Deus quis servir-Se de Maria na Encarnação como o mais perfeito meio para o Verbo vir até nós e operar a Redenção. Esta vinculação de Maria com todo o mistério de Cristo – o mistério de seu ser e de sua missão – levou a teologia a explicitar cada vez mais a persuasão de que a Virgem Mãe ocupa um lugar importantíssimo na história da Salvação. E por esta razão a Igreja A coloca numa posição de superioridade com relação a todos os Santos, prestando-Lhe o culto de hiperdulia. Em inteira consonância com o ensinamento dos Papas e dos Doutores, cantam os fiéis na Espanha e na Hispano-América um hino muito antigo, nascido da piedade popular, cujo estribilho diz: “Maior que Vós, só Deus, só Deus…

Nesse artigo abaixo, relembramos a pessoa de Maria como grande colaboradora com o mistério da salvação e pelo fato de várias paróquias de nossa diocese celebrar Nossa Senhora nesse mês de agosto, tendo referencia maior, o dogma da Assunção celebrado no dia 15. segue os inúmeros títulos celebrados em nossa diocese: Nossa Senhora da Pena (Rio Vermelho), Nossa Senhora Mãe dos Homens (Materlândia), Nossa Senhora do Rosário (Sabinópolis), Nossa Senhora do Patrocínio (Virginópolis), Nossa Senhora do Amparo (Braúnas), Santa Maria Eterna (Santa Maria do Suaçuí) Nossa Senhora do Pilar (Morro do Pilar), Nossa Senhora do Porto (Senhora do Porto) e Nossa Senhora da “Glória ou Assunção” (Divinolândia de Minas).  Nessa oportunidade de celebrar Maria, transpomos abaixo esse belo artigo do Frei Jonas, na Revista Pastoral.

Boa leitura!

Maria de Nazaré: aspectos bíblicos, eclesiais e devocionais

Introdução

São incontáveis as vozes que diariamente dizem “Ave, Maria!”. Saudando a Mãe de Jesus, cada uma delas traz presentes as Sagradas Escrituras, por meio das palavras do anjo (cf. Lc 1,28) e de Isabel (cf. Lc 1,42), como também traz o senso eclesial do papel materno-messiânico de Maria e um pedido pela sua contínua intercessão pelo povo de Deus em peregrinação. Tudo isso numa singela oração, uma das primeiras que aprendemos, a qual, não obstante sua simplicidade, apresenta a Virgem Maria em seus aspectos mais fundamentais.

Esses aspectos fundamentais, que nos dão a conhecer a Mãe de Jesus, devem estar bem unidos uns aos outros. Parece desnecessário dizer isso, mas existe o perigo de que “um falso exagero, como também de [uma] demasiada pequenez de espírito” (LG 67) venham a dividir a Virgem em “três Marias”, ou seja, a Maria encontrada nos evangelhos, a que encontramos nas definições dogmáticas e nas elaborações teológicas e, por último, a Maria venerada pela piedade popular (BALIC, 1973, p. 174).

Tal divisão é insustentável quando tomamos o texto que é a base de nossa mariologia contemporânea, o Capítulo VIII da Lumen Gentium, intitulado “A Bem-Aventurada Virgem Maria, Mãe de Deus, no mistério de Cristo e da Igreja”. Nesse texto do magistério da Igreja, não encontramos uma divisão da pessoa de Maria, mas uma progressão no conhecimento de sua pessoa e missão, partindo da “economia da salvação” presente nas Escrituras, passando pelas questões mariológicas relevantes ao nosso tempo e concluindo com as orientações sobre o culto mariano e a contemplação de Maria como um sinal de esperança e de consolação.

Na trilha metodológica da Lumen Gentium, queremos apresentar nossa reflexão mariana, destacando alguns aspectos bíblicos da fisionomia de Maria, para depois vermos como se harmonizam com os dogmas relacionados a ela e, por último, como todo esse conjunto “deságua num rio de afeto” à Virgem traduzido pela piedade popular.

  1. Aspectos bíblicos

É comum escutarmos que as Sagradas Escrituras falam pouco de Maria. De fato, quantitativamente falam muito pouco e, no pouco que falam, não nos trazem detalhes sobre sua pessoa, como aparência, costumes cotidianos e datas significativas. Contudo, nesse pouco que nos é transmitido, encontramos excepcional densidade que relaciona a Mãe de Jesus com a história da salvação, pensada, sobretudo, a partir da encarnação – Páscoa – Pentecostes (VALENTINI, 2007, p. 21). Assim, “Maria, que entrou intimamente na história da salvação, de certo modo reúne em si e reflete as maiores exigências da fé […]” (LG 65).

Por ela reunir em si e refletir as exigências da fé é que lançamos o olhar ao Antigo Testamento não procurando a pessoa Maria de Nazaré, mas os contornos de sua espiritualidade, que é a espiritualidade do povo de Deus, vivida, sobretudo, na história das mães de Israel e de outras corajosas mulheres que não hesitaram em pôr a própria vida em risco por causa da Aliança que Deus fez com seu povo e que deve ser mantida. Nesse sentido, falamos de prefigurações marianas do Antigo Testamento: imagens retiradas desse conjunto textual que servem para compreendermos a espiritualidade de Maria de Nazaré enquanto Filha de Sião e enquanto a Nova Jerusalém em atitude de acolhimento ao seu Messias libertador.

Mas por que os textos bíblicos não se dedicaram a falar mais de Maria, deixando essas poucas informações, na maioria encontradas nos chamados “Evangelhos da Infância”, ou seja, nos dois primeiros capítulos de Mateus e Lucas? Não podemos nos esquecer de que as primeiras comunidades tiveram um desafio muito grande: explicar como Aquele que morreu da forma mais humilhante é o Senhor da glória. Isso constitui um objeto prioritário na explicitação de sua fé, de modo que a figura de Maria está a serviço dessa proclamação do Crucificado como o Senhor vivo e presente na comunidade e na história.

Nesse sentido, Maria é a imagem do povo de Deus que professa Jesus como o Messias, o ungido de Deus Pai com a força do Espírito Santo. Enquanto imagem do povo em atitude de abertura/acolhimento, ela aponta para um mistério maior que sua vida: “a Palavra se fez carne e veio morar entre nós” (Jo 1,14). Maria é a testemunha privilegiada de que essa Palavra se fez carne, pois se fez verdadeiramente humano em seu ventre. Ela é chave privilegiada de contemplação da humanidade de Jesus, garantindo-nos que ele nasceu, entrou em nossa história, se fez um de nós, com exceção do pecado.

À luz desse testemunho messiânico de Maria no Novo Testamento, gostaríamos de destacar brevemente três dimensões: Maria concebe Jesus na força do Espírito Santo, sua condição de mulher pobre em Nazaré e sua fé no Deus de Israel.

O Novo Testamento reconhece em Jesus o Messias, o Cristo de Deus Pai, pois ele é, por excelência, o ungido de Deus Pai com o Espírito Santo. Sendo assim, sua entrada na história da humanidade, como humano, é evento pneumatológico. É na força do Espírito Santo que Maria concebe Jesus. Essa afirmação está em consonância com todos os evangelhos que apresentam Jesus como Aquele que está “cheio do Espírito Santo”. É curioso observar que aquele que foi concebido pelo Espírito Santo também ressuscita no poder do Espírito Santo. Desse modo, Maria é apresentada como a terra virginal do paraíso que, sob a sombra do Altíssimo, concebe um novo mundo, uma nova criação em Jesus, seu filho.

A relação de Maria com o Espírito Santo apresenta uma singularidade toda nova, contudo essa realidade não a retira da história concreta de seu tempo. A mãe do Messias, marcada pelo Espírito Santo, é uma jovenzinha da cidade de Nazaré. Lembrar a cidade de Nazaré não é mera curiosidade quanto ao lugar de origem de Maria, mas informação que acentua a opção preferencial de Deus pelos pobres, pois essa cidade, que nem sequer existia no mapa de seu tempo, era marcada profundamente pela pobreza. Tanto que, ao levarem Jesus ao templo, Maria e José oferecem um par de pombinhos (cf. Lc 2,24), o sacrifício oferecido pelos pobres segundo o livro do Levítico (cf. Lv 12,8).

Também Maria foi uma mulher de fé (cf. Lc 2,45). Acreditou na palavra de Deus expressa na tradição de Israel, na palavra do anjo, acreditou em seu Filho e, mesmo depois de sua morte e ressurreição, está reunida, na comunhão da Igreja nascente, em oração. E na condição de mulher de fé, fez de toda a sua vida uma oração inserida no seu cotidiano de mãe e esposa, de mãe de um jovem perseguido e morto na forma humilhante da cruz, de uma seguidora do próprio Filho à espera do Espírito Santo.

Poderíamos elencar outros elementos que o Novo Testamento tem para nos oferecer, contudo esse breve elenco de elementos nos remete ao que queremos destacar dos textos neotestamentários: em Maria não há dicotomia entre fé e vida, entre o Espírito de Deus e a história da humanidade; entre sua profunda comunhão com Deus em sua intimidade e a profunda comunhão com Deus na fraternidade do movimento de Jesus. Maria é a mulher toda de Deus na história concreta da humanidade.

  1. Aspectos eclesiais

A Igreja conservou essa discreta singularidade de Maria, encontrada no Novo Testamento, de diferentes modos, desde pinturas até o culto mariano. Contudo, o lugar em que mais se concentra a percepção eclesial dessa singularidade são os dogmas relacionados a Maria.

São quatro os dogmas que se relacionam com sua pessoa, a saber: maternidade divina, virgindade perpétua, imaculada conceição e assunção ao céu. Todos eles estão intimamente ligados pela profissão de fé em Jesus como o Filho de Deus. Vejamos o primeiro dogma.

Em 431, o Concílio de Éfeso se ocupou em esclarecer a forma como a humanidade e a divindade de Jesus se relacionam em sua pessoa. Compreende-se que Jesus é todo humano e todo divino, sem que primeiro fosse humano e depois a divindade pousasse sobre sua humanidade como que num templo. Logo, podemos dizer que Maria é verdadeiramente Mãe de Deus “segundo a carne” assumida pelo Verbo.

Mas como Maria viveu essa real maternidade? Existe uma singularidade nela? Essa singularidade é a virgindade perpétua de Maria, que, num sentido mais profundo da afirmação, nos diz que Maria viveu totalmente consagrada ao projeto de Deus Pai, em nada incorrendo em qualquer forma de idolatria; ela é uma criatura totalmente de Deus. Sendo toda de Deus, sua vida é de total abertura à ação do Espírito Santo, e por essa acolhida ao Paráclito é que professamos, com o Credo Niceno-Constantinopolitano, que o Verbo “se encarnou pelo Espírito Santo no seio da Virgem Maria”. Sua virgindade corporal e espiritual (ausência de qualquer idolatria) foi consagrada com a maternidade do Verbo; logo, sua virgindade não é algo periférico ou instrumental, mas uma dimensão visceral do seu ser, de modo que o Concílio de Constantinopla II, em 553, irá nos dizer, em conformidade com o que a grande Igreja já dizia, que a Mãe de Jesus é a “sempre-virgem (aei-parhenos) Maria”.

Quando falamos de virgindade, é sempre muito importante deixar claro que a virgindade é um dom de Deus e uma resposta humana que implica uma atitude de abertura amorosa e liberdade psicológica, pois do contrário seria endurecimento de coração e algum tipo de patologia.

Maria é a maior e melhor expressão da virgindade, porque esta é vivida na fecundidade do Espírito Santo. Desse modo, sua virgindade está a serviço da ação do Espírito, que nos atesta a dupla origem de Jesus: a divina, na condição de “Verbo do Pai” (Jo 1,18), e a humana, pois nos referimos a alguém “nascido de mulher” (Gl 4,4). A maternidade virginal de Maria é radical consagração a Deus Pai, na história da salvação centrada em Jesus Cristo, a serviço e na força do Espírito Santo.

Ao dizermos que Maria é radicalmente consagrada a Deus, podemos incorrer em grave erro: não reconhecer a iniciativa de Deus em direção a ela. Criação, salvação e santificação são sempre uma ação de Deus em direção à humanidade, um transbordamento de seu amor que atinge todo o universo, numa clara manifestação da sua bondade e gratuidade. Toda a criação está marcada pela graça desde os primórdios. Logo, a graça é anterior ao pecado. E como expressão do primado da graça de Deus é que a Igreja afirma, com o dogma da Imaculada Conceição de Maria, proclamado por Pio IX em 1854, que, em virtude da encarnação do Verbo, Maria foi preservada do pecado original, ou seja, “foi redimida de modo mais sublime” (LG 53), para acolher no seu seio o Filho de Deus e para testemunhar a redenção universal de todos os fiéis, recebendo por graça a “redenção preventiva”. Podemos dizer, então, que a Imaculada Conceição “é o triunfo unicamente da graça de Deus: sola gratia” (LAURENTIN, 2016, p. 173).

Mas tal triunfo se encerra com a morte de Maria? Qual foi o destino último daquela que nos trouxe o Salvador? Uma das primeiras vozes na Igreja a se perguntar sobre o fim da vida terrena de Maria foi o bispo de Salamina, santo Epifânio, numa carta do ano de 377 (LAURENTIN, 2016, p. 76 e 90). A partir dessa pergunta inicial, a Igreja foi tomando maior consciência de que Maria foi a primeira pessoa a ser assumida pelo poder da ressurreição de Cristo (cf. Fl 3,10) e de um modo singular, sendo totalmente assumida por Deus, em toda a sua realidade de pessoa, ou seja, assumida por Deus em “corpo e alma”. Com isso, Maria não fica separada da vida concreta de nossa história, mas se torna nossa companheira na caminhada como um sinal de esperança em Deus. É o que o documento de Puebla nos diz: “Maria, por sua livre cooperação na nova aliança de Cristo, é junto a Ele protagonista da história. Por esta comunhão e participação, a Virgem Imaculada vive agora imersa no mistério da Trindade, louvando a glória de Deus e intercedendo pelos homens” (CNBB, n. 293).

Assim, em 1950, Pio XII proclama que “a imaculada [Mãe de Deus], sempre virgem Maria, completado o curso da vida terrestre, foi assumida em corpo e alma na glória celeste” (DENZINGER; HÜNERMANN, n. 3.903).

Resumindo a questão dos dogmas relacionados a Maria, é mister evidenciar que os dogmas da Maternidade Divina e da Virgindade Perpétua relacionam-se diretamente com a pessoa de Jesus e sua missão messiânico-soteriológica; logo, são dogmas cristológicos e, num segundo momento, marianos. Já os dogmas proclamados por Pio IX e Pio XII são mais específicos em seus enunciados sobre a pessoa, o papel e o destino de Maria, mas não deixam de falar sobre algo que é comum a todos nós, pois todos, pelo batismo, somos resgatados pela graça original e nos é dada a condição de filhos e filhas de Deus, destinados à salvação na glória celeste (PERRELLA, 2003, p. 56). Neste sentido é que falamos que o dogma da Imaculada Conceição é um dogma mariano e soteriológico e que o dogma da Assunção de Maria é mariano e escatológico.

  1. Aspectos devocionais

Só houve um desenvolvimento dogmático em torno da Mãe de Jesus porque, primeiramente, compreender o papel de Maria na história da salvação é uma forma de compreender Jesus como o Messias e o Filho de Deus. Mas também porque, no coração da Igreja, se foi desenvolvendo um verdadeiro amor para com a Mãe de Jesus, amor que se traduziu em expressões de devoção.

Tal devoção mariana e popular ganhou grande impulso, sobretudo, depois do Concílio de Éfeso, mas já antes temos elementos importantíssimos dessa relação de devoção à Mãe de Jesus. É o que inferimos quando deparamos com o afresco da Virgem e o Menino Jesus, pintado nas catacumbas de Priscila, em Roma, de aproximadamente 150 d.C. Ou ainda com a oração Sub tuum praesidium (“Sob a vossa proteção”), datada do final do século III ou início do século IV.

Nesses simples exemplos elencados, temos dois elementos característicos de toda piedade mariana do primeiro milênio da Igreja: a imagem de Maria sempre unida a seu Filho e a sua intercessão na Igreja.

Ambos parecem ser de uma obviedade muito grande, mas merecem ser destacados a par de expressões piedosas pouco salutares que encontramos nos dias de hoje. No primeiro milênio do cristianismo, Maria era sempre representada com Jesus, com raras e pontuais exceções. Pensar Maria sempre unida a seu Filho é entendê-la no seu papel materno-messiânico, encontrado nos evangelhos e na proclamação de Maria como Theotokos (431). Ela é toda relativa a Jesus, mostrando-o como o “caminho, a verdade e a vida” (Jo 14,6). Tal compreensão contrasta com afirmações surgidas a partir da Idade Média segundo as quais Maria seria como que uma segunda instância de salvação, em que a Mãe bondosa bloqueia a ira do Filho enquanto juiz terrível. Ou como alguém que mereça os mesmos louvores (não adoração) dirigidos a seu Filho, recebendo um culto todo paralelo à liturgia, muitas vezes mesclado de superstições.

O segundo tema que destacamos é a intercessão de Maria. Ela, voltada a Deus Pai, com o Filho e no Espírito Santo, apresenta-se como o ícone da Igreja em oração. Mergulhada no mistério de Deus, na comunhão dos santos, permanece unida a toda a Igreja de Jesus pelo laço da oração e do afeto.

A intercessão de Maria desperta em nós o impulso de repensar algumas questões que o cenário teológico atual retoma com renovado interesse. Por exemplo, o papel do Espírito Santo na oração, pois é ele quem une todos nós na oração, em diferentes tempos e lugares. Sendo ele o laço de amor que une Deus e a humanidade, podemos dizer que é com sua mediação que todos nós rezamos, pois sem o Espírito Santo nossa oração seria um gemido calado no peito, e não um lançar-se no mistério de Deus, vinculado à fraternidade eclesial. É porque Maria está unida ao Espírito Santo que ela recebe nossos pedidos de oração e reza conosco.

Pensar o Espírito Santo como Aquele que nos une a Deus e entre nós em fraternidade ajuda-nos a corrigir a excessiva ênfase dada a Maria que obscureceu o lugar, o papel e a pessoa do Espírito Santo na Igreja ocidental. Nas palavras de René Laurentin: “Foi dito muitas vezes que Maria é toda relativa a Cristo. Não foi dito o suficiente que é toda relativa ao Espírito Santo” (LAURENTIN, 2016, p. 186).

Tal destaque dado a esses dois elementos da piedade mariana do primeiro milênio não implica o desprezo a toda expressão devocional que surgiu a partir do segundo milênio. Lembremos expressões piedosas que constituíram verdadeiras “escolas de santidade”, como a oração e devoção do rosário.

A questão é que não podemos pensar uma piedade mariana desvinculada da Tradição da Igreja e das orientações recebidas do Concílio Vaticano II, orientações essas retomadas com muita propriedade e sabedoria pela Marialis Cultus, de Paulo VI. Hoje, não se pode desconsiderar, numa autêntica piedade mariana, a dimensão bíblica, assim como sua relação com a liturgia e com a sensibilidade ecumênica, à qual todos devemos estar atentos.

Outro desafio da piedade mariana é libertar Maria de imagens machistas, coloniais e triunfalistas. Recuperar sua compreensão como mulher e como irmã de todos nós, o que em nada diminui sua virgindade e maternidade eclesial.

Conclusão

O pontificado do papa Francisco nos traz grandes e necessários desafios, sobretudo o de “uma Igreja em saída”. Perguntando pela contribuição da mariologia para esse plano eclesial, deparamos com um urgente desafio: construir uma “mariologia em saída”. Felizmente, alguns significativos passos já estão sendo dados, os quais merecem todo o esforço da comunidade eclesial. Vejamos os “mais urgentes”.

Uma mariologia ecumênica: já não é possível pensar que Maria pertence apenas aos católicos latinos e ortodoxos. Ela é de toda a Igreja de Jesus. Celebrando os 500 anos da Reforma, percebemos que um passo que precisa ser mais bem trabalhado é a mariologia. Ainda estamos longe de alcançar um consenso mariológico, sobretudo em relação aos dois últimos dogmas de 1854 e 1950, mas podemos alcançar a harmonia na busca de formas comuns de expressar o mistério da encarnação, valorizando a singularidade daquela que mais profundamente o experimentou.

Uma mariologia latino-americana: merece destaque nesse empenho o trabalho de Ivone Gebara e Maria Clara L. Bingemer, com o livro Maria, mãe de Deus e mãe dos pobres. Contudo, precisamos de novas pesquisas. A figura de Maria como conquistadora, nos moldes europeus e colonialistas, ainda é muito presente, não permitindo que a força libertadora que ela traz consigo alcance com maior vigor os pobres, as mulheres e todas as vítimas da opressão em nosso chão. É preciso que em nossas Igrejas permitamos que a Virgem do Magnificat erga seus braços e cante a libertação que começou em Jesus e deve continuar como um processo sociotransformador pautado no evangelho.

Uma mariologia das bem-aventuranças: essa expressão mariológica toma como base o Evangelho de Mateus (5,1-10), percebendo Maria como uma mulher pobre no espírito, que chora, mansa, que tem fome e sede de justiça, misericordiosa, pura de coração, promotora da paz e perseguida, sempre na perspectiva do Reino de Deus. Muitas vezes nos esquecemos que Maria viveu também na perspectiva do Reino de Deus inaugurado em Jesus, o que a deixou à sombra de seus privilégios. Os privilégios de Maria se pautam na sua inegável singularidade na história da salvação, mas não a desligam dessa história, pois ela é nossa companheira de viagem na luta por um mundo mais justo para todas as pessoas.

Que cada “ave, Maria”, emergindo de um coração sincero, brote nos lábios como um desejo de seguir Jesus como ela o seguiu, de se abrir à grandeza suave do Espírito Santo como ela se abriu, de modo que o Pai receba o louvor e a ação de graças de seu povo santo e sacerdotal.

Bibliografia

BALIC, Carlo. La Chiesa e Maria Santissima. In: VAN LIERDE, Pietro Canisio G. et al. Lo Spirito Santo e Maria Santissima. Città del Vaticano: Tipografia Poliglotta Vaticana, 1973.

CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL (CNBB). Puebla: a evangelização
no presente e no futuro da América Latina. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 1979.

DENZINGER, H; HÜNERMANN, P. Compêndio dos símbolos, definições e declarações de fé e moral. São Paulo: Paulinas/Loyola, 2007.

DOCUMENTOS do Concílio Vaticano II (1962-1965). São Paulo: Paulus, 1997.

GEBARA, Ivone; BINGEMER, Maria Clara L. Maria, mãe de Deus e mãe dos pobres: um ensaio a partir da mulher e da América Latina. Petrópolis: Vozes, 1987.

LAURENTIN, René. Breve trattato sulla Vergine Maria. Cinisello Balsamo: San Paolo, 2016.

PAULO VI. Marialis Cultus. São Paulo: Paulinas, 1974.

PERRELLA, Salvatore M. Maria Vergine e Madre: la verginità feconda di Maria tra fede, storia e teologia. Cinisello Balsamo: San Paolo, 2003.

VALENTINI, Alberto. Maria secondo le Scritture: Figlia di Sion e Madre del Signore.
Bologna: EDB, 2007.

Jonas Nogueira da Costa, OFM(Ordem dos Frades Menos)

Frade franciscano, pertence à Ordem dos Frades Menores. Doutorando em Teologia Sistemática (ênfase em Mariologia) pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje). Professor no Instituto Santo Tomás de Aquino (Ista), em Belo Horizonte-MG, e no Seminário Diocesano Nossa Senhora do Rosário, em Caratinga-MG. E-mail: nogueira905@gmail.com

Fonte: http://www.vidapastoral.com.br/edicao/maria-de-nazare-aspectos-biblicos-eclesiais-e-devocionais/

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