“Eu não merecia não, ser divulgador do céu”.

A música do Padre Zezinho, cuja letra intitula esse texto, revela algo profundo: o verdadeiro discípulo e missionário não evangeliza a partir de suas próprias forças, pois não é seu merecedor; a missão é de Deus.

Fazer parte da vinha, portando um chamado específico não significa pertencer a um estado superior aos demais membros de uma comunidade. Pelo contrário, é serviço constante que favorece a concretização do sonho de Jesus Cristo: todos sejam um (cf. Jo 17, 21). Isso só será possível segundo a intimidade com o Espírito Santo, cuja ação é misteriosa e surpreendente. Nesse sentido, é perceptível que a vocação do missionário não nasce de si mesmo, mas é um dom ofertado gratuitamente por Deus. Cabe ao evangelizador escutar, discernir e se prontificar.

Escutar o Senhor que chama é sentir a mesma convocação feita ao povo de Israel: “escuta Israel! O Senhor é nosso Deus, o Senhor é um. Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e com toda a tua força” (cf. Dt 6, 4-5).  O convite feito a Israel é o mesmo que se estende a todos quantos se sentem interpelados pelo anúncio do Reino que, aliás, é para todos. A responsabilidade que nasce do sim dado a Deus será renovada no mesmo altar que ocorreu o chamado, porém, não realizada apenas com sacrifícios (Hb), mas com louvor e ação de graças, porque a vida totalmente ofertada é agradável aos olhos do Senhor.

Discernir o chamado só será possível na intimidade com o Senhor. É por isso que o Deus de Jesus Cristo, o mesmo Senhor e guia de Israel, nunca enviou alguém sem antes convocá-lo à intimidade, pois o missionário não se pertence (Sl 100 (99), 3). Ora! Os doze só são enviados depois de terem com o mestre uma relação de entrega e aprendizado: chamou-os pelo nome, tirando-os dos corriqueiros afazeres (Mt 4, 18-22) para introduzi-los na missão divina cujo centro é a própria Trindade. Quando perguntam ao mestre onde mora, a resposta de Jesus é o indicativo que não se anunciará aos povos outra morada senão aquela que Ele mesmo indicar, por isso exorta: “vinde e vereis” (Jo 1, 39). Assim, o missionário será sempre interpelado a experimentar acolhida nesse lugar, nessa missão sustentada por Deus mesmo.

Depois de se sentir acolhido, ouvindo Aquele que chama, o missionário se perceberá interpelado a discernir a proposta no encontro pessoal com Jesus. Feito isso, poderá responder, colocando-se em prontidão como discípulo e missionário do Evangelho que cura, mas compromete; liberta e novamente inquieta numa tensão cotidiana cujo desejo central é o de ver aquele filho de Deus, sem vez e sem voz, libertado de suas amarras. Contudo, isso não é mérito do missionário, do ministro ou do dirigente da comunidade, pois é a ação do próprio Deus que antes de enviar o missionário, já está presente em todas e quaisquer localidades, denominadas terras de missão. É puro dom e graça! Cabe ao servidor continuar sua missão sem esperar alguma recompensa que lhe afague a vaidade sem desanimar. Porque aquele que chama é fiel e sustenta sempre (1 Ts 5, 24).

Mesmo em meio a esse tripé, pode-se ter algum cristão que ainda maldiga todas as iniciativas em prol do ardor missionário em sua localidade concreta. Entretanto, é importante observar se aquele que se dispõe e está no caminho, colabora com os projetos e sonhos, ajudando a sanar as dúvidas para juntos vencerem as dificuldades que toda a vinha do Senhor apresenta, porque a “missão da Igreja ainda está no começo” como afirma João Paulo II na sua carta encíclica, Redemptoris missio (n.2). E sendo assim, a comunidade evangelizadora ainda é carente de homens e mulheres engajados e que comunguem do mesmo objetivo: levar o evangelho aos que se encontram no cotidiano, mas também àqueles que estão noutros cantos (Mt 28, 19s). Seria bom cantar testemunhando com a vida — “é missão de todos nós, Deus chama, eu quero ouvir sua voz” (música de Zé Vicente)!

Partindo da intrigante verdade cantada por Padre Zezinho, o missionário é chamado por livre iniciativa de Deus, por isso não mereceria ser divulgador do céu. Nesse sentido, o evangelizador não tem méritos frente ao serviço que presta, mas a responsabilidade de anunciar o Evangelho sem reservar-se à vaidade, frisando por vezes os fracassos das iniciativas missionárias. O que se encontra de estabelecido e edificado na missão é fruto da graça sempre operante, mas também do esforço e colaboração de quem verdadeiramente ouviu e quis discernir, comprometendo-se com o convite que lhe foi feito. Cabe, portanto, ao findar o mês tematicamente missionário, um exame de consciência (mea maxima culpa) a todos os missionários, observando se de fato o amor de Deus foi testemunhado, porque diante do que se viu e ouviu não se poderá ficar calado (At 4, 20).

Filipe Ferreira Coelho, 4º ano de Teologia.

REFERÊNCIAS

BÍBLIA SAGRADA. Tradução oficial da CNBB. 2ª ed. 2019.

PADRE ZEZINHO. Cantiga de Sacerdote. Disponível em: <Padre Zezinho, scj – Cantiga de sacerdote – YouTube> acesso em: 24 Out. 2021.

PAPA JOÃO PAULO II. Redemptoris Missio: sobre a validade permanente do mandato missionário. Disponível em: <Redemptoris Missio (7 de dezembro de 1990) | João Paulo II (vatican.va)>  acesso em: 24 Out. 2021.

ZÉ VICENTE. Missão de todos nós. Álbum: Nas horas de Deus amém. Disponível em: <Zé Vicente Ft. Dalva Tenório – Missão de todos nós – YouTube> acesso em: 24 Out. 2021.

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