A Palavra do Bispo
Mensagens e publicações do bispo diocesano, Dom Otacilio Ferreira de Lacerda.
Mensagens e publicações do bispo diocesano, Dom Otacilio Ferreira de Lacerda.

Em tempos difíceis por que passamos, são iluminadoras e providenciais as palavras do Apóstolo Paulo aos Romanos:
“Gloriamo-nos também de nossas tribulações, sabendo que a tribulação gera a constância, a constância leva a uma virtude provada, a virtude provada desabrocha em esperança; e a esperança não decepciona, porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Rm 5, 3-5).
Urge caminharmos com o Senhor, contando com o Seu Espírito, a fim de edificar uma Igreja misericordiosa e missionária, confessando o Seu nome.
Há um longo caminho a percorrer, e em cada Eucaristia, renovamos nossas forças para superar as tribulações, inerentes ao caminho daqueles que se põem a seguir o Senhor com fidelidade, coragem, firmeza e generosidade.
Sejam derramadas no coração de todos de nossas comunidades eclesiais missionárias torrentes de graças que nos vêm do Coração de Jesus, fornalha ardente de caridade, em virtude provada, não deixando morrer a esperança, porque sabem e confirmam as palavras do Apóstolo, “a esperança não decepciona”.
Porém, a solidificação da fé e a renovação da esperança exigem que cresçamos cada vez na caridade, pois amamos a Deus nos irmãos e irmãs, e amamos os irmãos e irmãs em Deus, vivendo um amor de compaixão, sobretudo para com os que mais precisam – “Viu, sentiu compaixão e cuidou dele” (Lc 10,33-34).
O Apóstolo também disse aos Romanos: “Não fiqueis devendo nada um aos outros a não ser o amor mútuo, pois quem ama o outro cumpriu a Lei” (Rm 13, 8).
Deste modo, quanto mais nos abrirmos à ação do Espírito Santo, muito mais o amor de Deus será derramado sobre nós, e também, que eventuais prantos vespertinos se tornarão alegrias matutinas, porque a madrugada da Ressurreição foi precedida pelas tardes da escuridão e do vazio sepulcral, mas a vida venceu, de fato, a morte.
Dom Otacilio F. Lacerda
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“A esperança não decepciona”
Num mundo marcado por desorientações generalizadas, intolerância religiosa, angústias quotidianas, pandemias, diante de pequenos e grandes problemas ou desafios; o sentido da precariedade e da provisoriedade; da liquidez do tempo e da própria vida (modernidade líquida, segundo Zigmunt Bauman), e tantos outros fatos, que poderiam ser mencionados, como falar da esperança, ou mais ainda, como manter viva a esperança?
Nas páginas da Sagrada Escritura, encontramos o anúncio de um Deus que salva e liberta Seu povo, mantendo viva a Sua esperança, como vemos na passagem do Evangelho de Lucas (Lc 21,20-28).
É exatamente nos momentos difíceis, em que a perturbação e a angústia parecem querer nos apoderar, mantendo-nos prisioneiros de suas cadeias, é que temos que manter a coragem, firmados na esperança de que a libertação está próxima:
“Quando estas coisas começarem a acontecer, levantem-se e ergam a cabeça, pois a libertação de vocês está próxima”, nos disse Jesus, nosso Senhor” (Lc 21,28).
Manter viva a esperança contra toda a esperança, como nos falou o Apóstolo Paulo aos romanos (Rm 4,18), referindo-se a Abraão: “Esperando contra toda esperança, ele acreditou. E assim ele se tornou pai de muitas nações, como lhe fora dito”.
Portanto, não se trata de uma esperança ingênua e inconsequente, mas uma esperança que se apoia na constância e na perseverança, com seu fundamento em Cristo:
“Portanto, tendo sido justificados pela fé, estamos em paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo. Por meio d’Ele, através da fé, tivemos acesso a esta graça, na qual estamos firmes e nos gloriamos na esperança da glória de Deus. Mas não apenas isso. Nós nos gloriamos também nas tribulações, sabendo que a tribulação produz a perseverança, a perseverança produz a experiência comprovada, a experiência comprovada produz a esperança. E a esperança não decepciona, pois o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Rm 5,1-5).
Deste modo, cremos que somente por meio d’Ele a nossa esperança se torna atuação da libertação e a nossa vida se torna vida em liberdade (libertação de nós mesmos para a abertura necessária ao próximo e suas necessidades).
É possível falar e manter viva a esperança, porque sabemos em quem confiamos, e tudo podemos n’Aquele que nos fortalece (Fl 4,13).
Cremos que Deus é o nosso refúgio na tribulação, assim como é a nossa força em nossa fraqueza, e nos conforta no sofrimento, concedendo-nos o perdão de nossas culpas, reencontramos a alegria na experiência viva e contínua de Sua misericórdia, que nos renova, redime e nos recoloca no caminho, sem que nos curvemos diante das dificuldades e aparentes derrotas.
Crer na vida nova do Ressuscitado, é fazer da vida constantes passagens, até que façamos a mais importante de todas: a passagem definitiva da morte para a vida eterna.
Dom Otacilio F. Lacerda
Nas asas da Esperança…
A esperança nos permite ora voar,
Ora caminhar lentamente,
E, se preciso, passos mais largos,
Sem dispensar também os mergulhos
Nos Mistérios Divinos mais profundos.
Ela nos inquieta, nos desinstala,
Nos impele, para não sedimentarmos
Nas ideias mesquinhas e empobrecedoras,
Na falsa segurança do já conhecido.
A esperança nos serve como âncora,
Para que não percamos o foco do principal:
O Mandamento Novo do Amor que o Senhor nos deu,
Amar como Ele ama, eis a medida sem medida.
Amor vivido, esperança que nos impulsiona,
Fé que se testemunha e que a vida ilumina.
Creio nestas verdades que me acompanham.
Renovo, Senhor, em Ti, todos os dias,
A fragilidade e a pequenez de minha fé,
A indispensável e vital esperança,
Para que não se apague a chama
Que o Teu Amor, um dia,
Em mim, para sempre acendeu.
Dom Otacilio F. Lacerda
Somente Deus mata nossa sede
“Todo aquele que bebe desta água terá sede de novo.
Mas quem beber da Água que Eu lhe darei,
esse nunca mais terá sede.
E a água que Eu lhe der
se tornará nele uma Fonte de Água que jorra para a vida eterna” (Jo 4, 13-14).
A Liturgia do 3º Domingo da Quaresma (Ano A), traz como tema: O Senhor Jesus, e somente Ele, sacia a nossa sede de amor, vida e paz, damos mais um passo no Itinerário Quaresmal rumo à Páscoa do Senhor.
A Liturgia da Palavra nos revela que Deus está sempre presente na caminhada do Seu Povo, e o conduz à realização plena, na perfeita felicidade rumo à eternidade.
Na passagem da primeira Leitura (Ex 17, 3- 7), Deus presente na caminhada do povo hebreu pelo deserto do Sinai, apesar de provocado, suportando toda murmuração e contestação, infidelidade e pecado de Seu povo, não lhe nega a fidelidade, o Amor e a possibilidade da liberdade e felicidade.
O tema da água aparece tanto na Leitura como no Evangelho: água que sacia a sede como sinal da vida que Deus pode oferecer do rochedo. Este rochedo, depois, na releitura cristã, será o coração trespassado do Senhor, do qual jorrou Sangue e Água para nos fazer renascer, e também do mesmo lado o Alimento que nos redime, fortalece e nos salva (Jo 19,34).
Assim como o Povo de Deus, precisamos descobrir a presença e fidelidade do Senhor, que não nos abandona nunca, tão pouco nos momentos das dificuldades e sofrimentos, que são ocasiões propícias para o nosso crescimento e amadurecimento e fortalecimento na fé.
À medida que se avança, irmanados na fé, renovamos e nos transformamos, alargarmos horizontes, firmamos os passos, tornamo-nos mais responsáveis, conscientes, adultos e mais Santos, superando todo indesejável infantilismo espiritual, que também podemos incorrer, como aconteceu com o Povo de Deus na travessia do deserto.
Na segunda Leitura (Rm 5,1-2.5-8), o Apóstolo reforça a mensagem de que Deus é sempre presente e pronto para nos perdoar, apesar de todo pecado e infidelidade que possamos cometer. Assim como na primeira Leitura, o Apóstolo nos garante que Deus nunca abandona o Seu Povo em caminhada pela história.
Deus está sempre ao nosso lado, em cada passo que damos, oferecendo-nos por meio de Seu Filho e de Seu Espírito, gratuitamente, com pleno amor, a Água que mata a nossa sede de vida e felicidade.
Somente em Cristo nos tornamos criaturas novas, e é Ele quem nos plenifica de todos os bens e dons: paz, esperança e o Seu imprescindível Amor.
Contemplemos o Amor de Deus, que jamais desistiu de nós, e, por meio de Jesus, a máxima expressão de Sua presença e Amor por nós, vindo pessoalmente ao nosso encontro, para conosco caminhar, em tudo semelhante a nós, exceto no pecado, para dele nos libertar – “É para a liberdade que Cristo nos libertou” (Gl 5,1).
Na passagem do Evangelho (Jo 4, 5-42), no encontro de Jesus com a samaritana à beira do poço de Jacó, acolhemos a alegre mensagem: somente Jesus sacia nossa sede de vida eterna; acolher e aceitar o Dom de Deus, Jesus, o Salvador do mundo, nos faz homens novos.
Jesus é o “novo poço” no qual encontramos a água cristalina que sacia a sede da humanidade de vida plena e felicidade autêntica.
A água que Jesus tem a nos oferecer é a “Água do Espírito” que o é o grande dom de Jesus, derramado sobre toda a Igreja com Sua Paixão, Morte e Ressurreição.
Este Espírito, quando acolhido no mais profundo do coração do homem, impresso como um selo, renova, transforma e o torna capaz de amar a Deus acima de tudo, vivendo na paz e na concórdia com o próximo.
O diálogo de Jesus com a samaritana nos revela qual a missão de Jesus, que consiste em comunicar ao homem o Espírito Santo que dá vida. Seu Espírito desenvolve e fecunda o coração daquele que O acolhe, capacitando para viver um amor como Ele, Jesus, ama, um Amor imensurável.
Somente de Jesus, com Sua Palavra e Seu Espírito, água viva para a humanidade, é que nasce a comunidade dos Homens Novos, filhos de Deus que têm por missão ser a presença de Deus, com palavras e ação, em todos os âmbitos do mundo.
Esta saciedade que a samaritana encontrou em Jesus a fez discípula missionária, e nos leva a nos questionar sobre o tempo presente, sobre a inquieta busca da felicidade, e o seu não encontro:
“A modernidade criou-nos grandes expectativas. Disse-nos que tinha a resposta para todas as nossas procuras e que podia responder a todas as nossas necessidades.
Garantiu-nos que a vida plena estava na liberdade absoluta, numa vida vivida sem dependência de Deus; disse-nos que a vida plena estava nos avanços tecnológicos, que iriam tornar a nossa existência cômoda, eliminar a doença e protelar a morte; afirmou que a vida plena estava na conta bancária, no reconhecimento social, no êxito profissional, nos aplausos das multidões, nos “cinco minutos” de fama que a televisão oferece…
No entanto, todas as conquistas do nosso tempo não conseguem calar a nossa sede de eternidade, de plenitude, dessa “mais qualquer coisa” que nos falta para sermos, realmente, felizes.
A afirmação essencial que o Evangelho de hoje faz é: só Jesus Cristo oferece a Água que mata definitivamente a sede de vida e de felicidade do homem”. (1)
Para reflexão:
– Onde e em quem buscamos a nossa felicidade?
– Sentimos a presença de Deus amante, atuante, que nos ama e conosco caminha?
– Nosso encontro pessoal com o Senhor, ou nosso encontro com Ele na Ceia Eucarística, tem saciado nossa sede de vida plena e feliz?
– A samaritana, saciando sua sede de eternidade em Jesus, tornou-se uma alegre discípula missionária. Assim também acontece conosco?
– Como e onde comunicar este encontro com o Senhor e a Sua Boa Nova que sacia a sede de humanidade?
– Quais são os poços que o mundo oferece para saciar nossa sede existencial?
– Sendo a Quaresma tempo favorável de nossa conversão, é possível que procuremos nossa felicidade na água que o mundo oferece, em vez da água pura e cristalina que o Senhor tem a nos oferecer?
Encerro com as palavras do Papa Emérito Bento XVI:
“Aqui, no poço de Jacó, encontramos Jacó como antepassado que tinha oferecido com o poço a água como elemento fundamental da vida.
Mas no homem encontra-se uma sede maior, que vai mais além da água da fonte, porque ele procura uma vida que está para além da esfera biológica”. (2)
(1) Citação extraída do site:
http://www.dehonianos.org/portal/default.asp
(2) Papa Bento XVI – in Jesus de Nazaré – p. 210
Dom Otacilio F. Lacerda
http://peotacilio.blogspot.com/2020/03/somente-deus-mata-nossa-sede-homilia-3.html?m=0
A Samaritana e a sede da humanidade…
No terceiro domingo da Quaresma (ano A), ouvimos a passagem do Evangelho de João (Jo 4,5-15.19b-26.39a.40-42), que nos apresenta o encontro de Jesus com a samaritana na beira do poço de Jacó.
É oportuna para refletirmos sobre consumismo, sexo, liberdade desenfreada, droga, poder, dinheiro, ciência sem ética nem limites, facilidades…, e a certeza de que nada disso sacia de modo definitivo o nosso coração!
Há sedes e sedes: sedes que geram vida e outras que matam…
Retomemos as palavras do Papa Bento em sua Mensagem para a Quaresma de 2011:
“O pedido de Jesus à Samaritana: «Dá-Me de beber» (Jo 4, 7), que é proposto na Liturgia do III Domingo, exprime a paixão de Deus por todos os homens e quer suscitar no nosso coração o desejo do dom da «água a jorrar para a vida eterna» (v. 14): é o dom do Espírito Santo, que faz dos cristãos «verdadeiros adoradores» capazes de rezar ao Pai «em espírito e verdade» (v. 23).
Só esta água pode extinguir a nossa sede do bem, da verdade e da beleza! Só esta água, que nos foi doada pelo Filho, irriga os desertos da alma inquieta e insatisfeita, «enquanto não repousar em Deus», segundo as célebres palavras de Santo Agostinho”.
Completando:
“Deus está apaixonado pelo ser humano, tem sede do pobre amor dos nossos corações. Nós pedimos de beber a alguém que afirma claramente que tem sede. Essa sede de Deus por cada pessoa humana ficou claramente expressada naquele grito que somente o evangelista João conservou no Evangelho: “Tenho sede” (Jo 19,28).
Deus tem sede de que nós tenhamos sede do Seu Espírito, da Sua vida, da Sua graça, da Sua glória. Ele tem água abundante, mas tem sede de que nós a bebamos…
É no Coração de Deus que nós encontramos o nosso descanso, a nossa paz, os nossos prazeres, a nossa felicidade, a nossa bem-aventurança.
Distanciarmo-nos d’Ele é sair do caminho da felicidade, é correr pelos prados da insensatez, é viver uma vida que só pode levar à escuridão mais profunda e ao pior absurdo da vida humana, não ser feliz.”
O Bispo Santo Agostinho referindo-se a este momento tão singular do Evangelho disse: “Veio uma mulher. Esta mulher é a figura da Igreja, ainda não justificada, mas já a caminho da justificação… Faz parte do simbolismo da narração que esta mulher, figura da Igreja, tenha vindo de um povo estrangeiro; porque a Igreja viria dos pagãos, dos que não pertenciam à raça judaica… Pede de beber e promete dar de beber. Apresenta-Se como necessitado que espera receber, mas possui em abundância para saciar os outros. Se tu conhecesses o Dom de Deus, diz Ele. O Dom de Deus é o Espírito Santo. Jesus fala ainda veladamente à mulher, mas pouco a pouco entra em seu coração, e vai lhe ensinando. Que haverá de mais suave e bondoso que esta exortação?…”
De fato, Jesus é Água que sacia nossa sede com o Dom do Espírito, em nós, derramado. Somente Deus é capaz de saciar as sedes mais profundas e autênticas de nossa existência. Sem Ele o deserto de nossa alma ficaria estarrecido, insuportável e os prados de nossa insensatez nos consumiriam sem perspectivas, com cansaços que exauririam todas as nossas forças; nada suportaríamos e nada encontraríamos a não ser o nosso nada, o vazio, a escuridão, o pecado, a secura da alma, e numa palavra, a morte!
Assim diz parte do Prefácio da Missa, quando é proclamado este Evangelho:
– “Ao pedir à Samaritana que lhe desse de beber, Jesus lhe dava o Dom de crer. E saciada sua sede de fé, lhe acrescentou o fogo do amor”.
A Samaritana fez o seu itinerário, e tornou-se Discípula Missionária do Senhor, abandonando o cântaro, começando uma nova etapa em sua vida. Quem o coração pleno de amor tem, de que mais precisa?
Oremos:
Tenho sede, Senhor,
sacia minha sede.
Dai-me o Vosso Espírito!
Fazei-me nova criatura
para que seja inflamado por Teu amor,
e viva com alegria
a missão de Discípulo do Senhor!
http://peotacilio.blogspot.com/2020/03/a-samaritana-e-sede-da-humanidade.html?m=0
Temos sede de amor, vida e paz
“Todo aquele que bebe desta água terá sede de novo.
Mas quem beber da Água que Eu lhe darei,
esse nunca mais terá sede.” (Jo 4, 13-14)
Sejamos enriquecidos por esta reflexão do Missal Dominical, no 3º Domingo da Quaresma (ano A),
“O tema da água que salva volta com frequência na Liturgia Quaresmal. A partir deste domingo, a Igreja oferece à comunidade cristã que revive seu Batismo uma síntese da história da salvação, servindo-se do rico simbolismo da água.
A água tem sua linguagem:
Necessária para a existência de todos os seres vivos, a água é um elemento ‘natural’ que nos é dado, não é fruto de trabalho: a água viva de uma fonte exprime também o milagre renovado da vida.
Fazendo brotar água da rocha, Deus se manifesta salvador de seu povo e o põe em condições de prosseguir a viagem até a terra prometida (1ª leitura – Êxodo 17, 3-7).
Repensando essas maravilhas de Deus, nos momentos mais obscuros e difíceis de sua história, Israel projeta para um futuro mais ou menos distante a posse de uma terra de águas abundantes, na qual o deserto se transformará em viçoso pomar.
A abundância de água se torna símbolo da abundante salvação que virá unicamente de Deus: um rio que brota do templo purificará o povo, saciará sua sede, fecundará a terra.
No Novo Testamento, a água exprime simbolicamente o dom do Espírito para a geração de uma humanidade nova. Cristo, sobre quem desceu o Espírito no momento do Batismo, anuncia um renascimento na água e no Espírito, promete uma abundância de água-Espírito para os que creem (Evangelho de João 4,5-42).
Sua pessoa Se identifica, pois, com a Rocha (como observava São Paulo, recapitulando os “sinais” do deserto, 1Cor 10,4), o novo Templo, a fonte que mata a sede na vida eterna. João vê o cumprimento do sinal na hora da morte-glorificação de Jesus, quando ele ‘entrega o Espírito’, e do Seu lado transpassado correm Sangue e Água.
A água do nosso Batismo:
A água do Batismo pode, portanto, lavar os pecados e fazer renascer os filhos de Deus em virtude do Sangue de Cristo, fonte de todo perdão.
Quem confessa que Cristo é o Messias, o enviado de Deus, aceita que a salvação se faça da maneira e no momento querido por Deus; compreende que sua sede profunda só é saciada pelo dom de Cristo; toma-se, para os que o cercam – como a mulher samaritana -, revelador da presença que tudo transforma (Evangelho).
No momento do Batismo, a Igreja, que através da catequese preparou a profissão de fé no Filho de Deus, recapitula em sua Oração os acontecimentos salvíficos relacionados com a água e cumpre a ordem de Cristo: batizai em nome da Trindade.
Assim, como gostava de repetir Agostinho, “pela união da palavra (da fé) com o elemento (água) realiza-se o Sacramento”, dom de Deus e livre resposta do homem.
Sede de valores numa sociedade de consumo
Encontramo-nos diante da sede de um povo no deserto, da sede de uma mulher no poço. A sede é símbolo de uma necessidade íntima, vital, torturante.
Além da sede fisiológica há uma sede mais profunda em todo homem, em toda sociedade, em toda comunidade do nosso tempo: buscamos cada vez mais “coisas” para saciá-la; nada nos basta, nada nos satisfaz.
Nossa civilização só nos oferece “bens de consumo”, não valores espirituais. Convida-nos ao oportunismo, ao mais fácil, mais seguro, mais cômodo.
Os ideais de coerência, de sinceridade, de amor, que existem em todos os homens, são em geral frustrados, traídos por quem os propugna ou pelo indivíduo incapaz de resistir à pressão dos que o cercam.
Todos falam do valor da colaboração, todos reconhecem que somos globalmente responsáveis pelo caminho da humanidade; no entanto, o que encontramos é insensatez, orgulho, instintos de domínio, de grandeza, inclinação para a agressividade, para um prazer às vezes exacerbado, incontrolado e irracional.
Mas muitas vezes renunciamos, e justificamos a renúncia definindo os valores como “sonhos de adolescente”.
A revolta dos jovens tem sua raiz nessa sede não aplacada, nessa decepção por tudo que lhes é oferecido, tão distante das verdadeiras e profundas exigências do homem, que tem hoje maior consciência dos valores de fraternidade, justiça, amor, solidariedade.
Não é a primeira vez que, no decorrer da história, o homem enfrenta desafios que põem em discussão modos de pensar e pedem soluções inéditas.
Continuamente o homem faz a experiência de que aquilo que conquistou nunca é uma conquista definitiva. A técnica, as descobertas científicas não matam a sede de segurança, de esperança, de felicidade que todo homem sente.
Lentamente, descobre ou tem a intuição de que só um “Homem-infinito” pode dar-lhe o que busca no meio da confusão” (1)
Refletindo sobre nossas tantas “sedes”, fixemos nosso olhar e pensamento no Senhor e em Sua Palavra, pois somente com Ele e Sua Palavra e Seu Corpo e Sangue, encontramos a fonte divina para a sede do essencial: amor, vida e paz.
Oremos:
“Ó Deus, fonte de toda misericórdia e de toda bondade, Vós nos indicastes o jejum, a esmola e a Oração como remédio contra o pecado.
Acolhei esta confissão da nossa fraqueza, para que humilhados pela consciência de nossas faltas, sejamos confortados pela misericórdia. Por N. S. J. C. na unidade do Espírito Santo. Amém!”.
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Quero beber do Teu Cálice, Senhor!
“Não sabeis o que pedis. Podeis beber o
Cálice que hei de beber?” (Mt 20,22)
Quero beber do Teu Cálice, Senhor.
Assim como disseste à mãe de Tiago e João,
Sei que não cabe a Ti conceder, mas ao Pai,
Então, permita-me, Senhor, participar de Tua Paixão,
Morrendo contigo, para também contigo Ressuscitar.
Também contigo quero estar sempre em completa comunhão,
Na alegria e na dor, nos tropeços e reerguimentos.
Quero beber do Teu Cálice, Senhor.
Quero me unir à Tua imerecida Paixão,
Completando em minha carne o que possa faltar.
Assim, a Paixão contigo vivendo e assumindo,
Por amor a Igreja, totalmente me consumindo.
Em fidelidade comprovada, razão da esperança sempre dar,
E na rede de relações quotidianas a caridade testemunhar.
Quero beber do Teu Cálice, Senhor.
Consumir minha vida por Ti, logo, pelo Amor,
Marcada pela alegria da doação e do serviço.
Fazendo brilhar Tua luz, num mundo por vezes obscurecido e frio,
Pela palavra e pela ação, para que Teu nome glorifiquem.
Reconhecendo Tua terna e amável presença
Naqueles em que estás aparentemente invisível.
Quero beber do Teu Cálice, Senhor.
Numa fé em contínuo amadurecimento, acrisolamento,
Sem lamentar, mas com Tua força contar no sofrimento.
Caminhando peregrino longe de Ti, tão próximo, tão perto,
Até que possa ver Tua face reluzente, para sempre.
Rumando para a eternidade, com passos firmes,
Sem estagnações e recuos para de Ti não me distanciar.
Quero beber do Teu Cálice, Senhor.
Suportar, se necessário, por fidelidade a Ti,
O desprezo e a incompreensão ao invés da glória.
Com sincera humildade, ponho-me no último lugar
Aprendiz de Ti, servindo por amor, servo inútil me reconheço.
Amargar a incompreensão se preciso for,
Pelo bem feito, sempre será melhor sofrer.
Quero beber do Teu Cálice, Senhor.
Entranhando no mais profundo de mim Tua Palavra
De modo especial a que ressoa em cada Eucaristia.
Deixando-me por ela me moldar, transformar,
Para que Tua imagem melhor possa transparecer.
Da verdadeira Comida e Bebida me saciar;
Vigor, alegria, imortalidade alcançar.
Quero beber do Teu Cálice, Senhor.
Para que se cumpra em mim Tua Palavra,
No Evangelho, na mente e coração gravada:
“Quem come da minha Carne e bebe meu Sangue
permanece em mim e Eu n’Ele”.
Bebo do Teu Cálice, alimento-me de Teu Pão.
Permaneces em mim, Senhor, permaneço em Ti. Amém!
Quero beber do Teu Cálice, Senhor,
Minha cruz assumir contigo por amor…
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Voltemos nosso olhar para as grandes cidades, com diversos contrastes, dificuldades, colocando-nos frente a inquietantes questões. Entre elas, como e de que modo ser uma Igreja que evangeliza, neste contexto, comunicando a Boa-Nova do Reino que Jesus inaugurou?
A difícil realidade das cidades, de modo geral, em diversos âmbitos (política, econômica, educacional, cultural, social, infraestrutura, lazer etc.), exige que tenhamos uma força que nos impulsione; que não nos deixe submergir no mar das dificuldades, da desesperança, do desânimo.
Esta força, como discípulos missionários de Jesus, encontramos no amor que o Apóstolo Paulo se referiu à Comunidade de Corinto: “O amor de Cristo nos impulsiona… para que, os que vivem, não vivam mais para si mesmos, mas para Aquele que por eles morreu e ressuscitou” (2 Cor 5,14-15).
Deste modo, impulsionados pelo amor de Cristo, cremos que Deus vive na cidade, como nos disseram os Bispos reunidos na Conferência de Aparecida:
“A fé nos ensina que Deus vive na cidade, em meio às suas alegrias, desejos e esperanças, como também em meio às suas dores e sofrimentos. As sombras que marcam o cotidiano das cidades, como exemplo violência, pobreza, individualismo e exclusão, não nos podem impedir que busquemos e contemplemos o Deus da vida também nos ambientes urbanos.
As cidades são lugares de liberdade e oportunidade. Nelas, as pessoas têm a possibilidade de conhecer mais pessoas, interagir e conviver com elas. Nas cidades é possível experimentar vínculos de fraternidade, solidariedade e universalidade. Nelas, o ser humano é constantemente chamado a caminhar sempre mais ao encontro do outro, conviver com o diferente, aceitá-lo e ser aceito por ele.” (DAP – n.514).
Portanto, não podemos nos acomodar, refugiar, isolar e desistir. Deus mora na cidade, e quer contar com nossa colaboração para transformar sinais de desolação em consolação, de escuridão em luz, de tristeza em alegria, de angústia em esperança, de morte em vida. E somos capazes, porque, de fato, “o amor de Cristo nos impulsiona”.
E impulsionados por este amor, renovamos sagrados compromissos para a construção da “Cidade Santa”, a nova Jerusalém, que desce do céu, junto a Deus, “Vestida como noiva que se adorna para seu esposo”, que é a tenda que Deus instalou entre a humanidade, o novo céu e nova terra que esperamos, “onde as lágrimas serão enxugadas dos olhos, não haverá mais morte, nem luto, nem pranto, nem dor, porque tudo o que é antigo terá desaparecido”, porque Ele, o Cristo Ressuscitado, o Princípio e o Fim, faz novas todas as coisas (cf. Ap 21,1-6).
Impulsionados pelo amor de Cristo, vislumbramos, na reflexão e prática das obras de misericórdia corporais e espirituais, um caminho luminoso e indispensável para que tenhamos uma cidade mais humana e fraterna, com vida plena e feliz para todos, revelando a compaixão e a misericórdia divinas, empenhados na construção de um mundo mais justo e fraterno, promovendo a justiça e a paz.
Entretanto, somente edificaremos uma Igreja a serviço desta Cidade Santa, mediante a proclamação e a vivência da Palavra, nutridos pela Ceia da Eucaristia, fortalecendo os vínculos de comunhão fraterna, expressa em solidariedade e serviço, sobretudo aos excluídos, com os quais Cristo Se identificou.
Que o amor de Deus continue sendo derramado em nossos corações, pelo Espírito Santo (Rm 5,5), para que anunciemos e testemunhemos o Evangelho que Jesus nos confiou e nos enviou a pregar por todo o mundo, e assim, sal da terra, fermento na massa e luz do mundo seremos.

À luz dos parágrafos 451-458 da V Conferência Geral do Episcopado Latino-americano e do Caribe – Aparecida – 2007, reflitamos sobre a dignidade e a participação das mulheres na vida da Igreja e na sociedade.
A antropologia cristã ressalta a igual identidade entre homem e mulher, em razão de terem sido criados à imagem e semelhança de Deus, e o Mistério da Trindade nos convida a viver uma comunidade de iguais na diferença.
A sabedoria do plano de Deus exige que favoreçamos o desenvolvimento de sua identidade feminina, em reciprocidade e complementaridade com a identidade do homem.
Neste sentido, é significativa a prática de Jesus, em que ressalta a dignidade da mulher e o seu indiscutível valor. Uma prática fundamental para nosso contexto, marcado pelo machismo que ainda prepondera.
– Jesus falou com elas (cf. Jo 4,27);
– teve singular misericórdia com as pecadoras (cf. Lc 7,36- 50; Jo 8,11);
– as curou (cf. Mc 5,25-34);
– reivindicou a dignidade delas (cf. Jo 8,1-11);
– as escolheu como primeiras testemunhas de Sua Ressurreição (cf. Mt 28,9-10);
– foram incorporadas ao grupo de pessoas que lhe eram mais próximas (cf. Lc 8,1-3).
Ressalta-se a figura de Maria, discípula por excelência entre discípulos, fundamental na recuperação da identidade da mulher e de seu valor na Igreja.
O canto do Magnificat, em especial, mostra Maria como mulher capaz de se comprometer com sua realidade, e diante dela ter voz profética.
Sendo a mulher corresponsável, junto com o homem, pelo presente e futuro de nossa sociedade humana, a reciprocidade deve marcar a relação entre aos mesmos, numa mútua colaboração, harmonização, complementação e empenho para somar todos os esforços.
É lamentado o fato de que inumeráveis mulheres, de toda condição, não sejam valorizadas em sua dignidade, estejam frequentemente sozinhas e abandonadas, não se reconheçam nelas suficientemente o abnegado sacrifício, inclusive a heroica generosidade no cuidado e educação dos filhos e na transmissão da fé na família.
Também é notável que muito menos se valoriza e não se promove, adequadamente, sua indispensável e peculiar participação na construção de uma vida social mais humana e na edificação da Igreja.
Some-se a isto que, ao mesmo tempo, sua urgente dignificação e participação são distorcidas por correntes ideológicas marcadas com o selo cultural das sociedades de consumo e do espetáculo, capazes de submeter as mulheres a novas formas de escravidão.
Faz-se necessário a superação da mentalidade machista, que ignora a novidade do cristianismo, onde se reconhece e se proclama a “igual dignidade e responsabilidade da mulher em relação ao homem”, na realidade da América Latina e do Caribe.
Num contexto em que as mulheres constituem, geralmente, a maioria de nossas comunidades, são as primeiras transmissoras da fé e colaboradoras dos pastores, os quais devem atendê-las, valorizá-las e respeitá-las, urge:
– escutar o clamor, muitas vezes silenciado, de mulheres que são submetidas a muitas formas de exclusão e de violência em todas as suas formas e em todas as etapas de suas vidas: as mulheres pobres, indígenas e afro-americanas têm sofrido dupla marginalização;
– que todas as mulheres possam participar plenamente na vida eclesial, familiar, cultural, social e econômica, criando espaços e estruturas que favoreçam maior inclusão.
– valorizar a maternidade como missão excelente das mulheres, sem que com isto se oponha ao seu desenvolvimento profissional e ao exercício de todas as suas dimensões, o que permite serem fiéis ao plano original de Deus, que dá ao casal humano, de forma conjunta, a missão de melhorar a terra.
Como Igreja é preciso:
– compartilhar, orientar e acompanhar projetos de promoção da mulher com organismos sociais já existentes;
– reconhecer o ministério essencial e espiritual que a mulher leva em suas entranhas: receber a vida, acolhê-la, alimentá-la, dá-la à luz, sustentá-la, acompanhá-la e desenvolver seu ser mulher, criando espaços habitáveis de comunidade e comunhão.
– reconhecer a vocação materna, que se cumpre através de muitas formas de amor, compreensão e serviço aos demais, pois a dimensão maternal também pode ser expressa na adoção de crianças e a elas oferecendo proteção e lar.
Algumas ações pastorais são propostas:
Concluindo, embora a mulher seja insubstituível no lar, na educação dos filhos e na transmissão da fé, não se exclui a necessidade de sua participação ativa na construção da sociedade e, para isto, é necessário propiciar uma formação integral, para que elas possam cumprir sua missão tanto na família como na sociedade.
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Mulher, não sei o teu nome…
“Mas Jesus disse à mulher:
Tua fé te salvou. Vai em paz!”
(Lc 7, 50)
Mulher, não sei o teu nome, mas sei que te prostraste por detrás dos pés do Senhor;
Banhando Seus pés com as próprias lágrimas de arrependimento, abundantemente vertentes;
Secando-os com teus cabelos, cobrindo-os de beijos, com perfumada unção.
Mulher, não sei o teu nome…
Mas sei que és a própria humanidade, que aos pés do Senhor se prostra;
És capaz de reconhecer e chorar teus pecados diante de quem pode perdoá-los,
Jesus, verdadeiramente Homem, verdadeiramente Deus.
Mulher, não sei o teu nome…
Mas, como não reconhecer tua coragem entrando na casa de Simão?
Sem mesmo ser convidada, corajosamente, ironias e comentários, sem compaixão,
Por ti escutados, na ânsia tão intensa de ser amada, suportaste.
Mulher, não sei o teu nome…
Sei que casa entraste, e audaciosa foste, “manchando” com teus pecados casa “tão pura”,
Bem sabias que pureza somente encontrarias se pelo Senhor foste perdoada,
Por isto lavaste, com tuas lágrimas, os pés de quem poderia lavar tua alma e coração.
Mulher, não sei o teu nome…
Sei que foste acolhida por Aquele que te olhou com ternura,
Que te viu além do que eras, olhando para além de tua miséria,
Comunicou-te a misericórdia. No perdão dado, a paz comunicada.
Mulher, não sei o teu nome…
Sei que te aventuraste na mais corajosa aventura indo ao encontro do Senhor,
Pois tinhas o desejo mais puro que se possa ter: ser acolhida por Deus, por amor,
Para, amada e perdoada, espalhar pelo mundo o suave perfume de Amor do Senhor.
Mulher, não sei o teu nome…
Sei que creste num Deus que é maior que o nosso coração, indubitavelmente,
Cuja benevolência tem entranhas maternas, e mais forte que nosso pecado;
Um Deus que nos ama como pecadores, destruindo em nós tão apenas o pecado que abomina.
Mulher, não sei o teu nome…
Sei tão apenas que foste ao encontro não de alguém para apagar teu passado,
Mas de alguém que pudesse renovar teu coração, comunicando um dom novo,
Que fizesse desencadear um amor indizível, jamais sentido.
Mulher, não sei o teu nome…
Mas, que aprendamos de ti a mesma atitude diante do Senhor tomar,
Aprendendo que a vida vale a pena quando por Ele nos deixamos amar,
E, por Ele amados e perdoados, o outro também amar e perdoar.
Dom Otacilio F. Lacerda
http://peotacilio.blogspot.com
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Jamais podemos nos tornar indiferentes aos desafios da Evangelização em nossa Cidade, como nos exortam as Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil (2019-2023):
“EVANGELIZAR no Brasil cada vez mais urbano, pelo anúncio da Palavra de Deus, formando discípulos e discípulas de Jesus Cristo, em comunidades eclesiais missionárias, à luz da evangélica opção preferencial pelos pobres, cuidando da Casa Comum e testemunhando o Reino de Deus rumo à plenitude”.
Como discípulos missionários do Senhor, precisamos ter presentes estas atitudes:
Acolher os irmãos e irmãs com alegria, como comunidade eclesial e missionária, que vive o mandamento do amor que Nosso Senhor nos deu, na alegria, fraternidade e ternura.
Revigorar a Família diante dos incontáveis desafios (fragmentação, desestruturação, falta de diálogo…), para que ela seja sacrário vivo da vida, espaço primeiro e privilegiado da formação humana, espiritual, psicológica, assimilação dos valores que devem nortear a vida de toda pessoa e a pessoa toda para sempre…
Catequizar e Evangelizar – Não é suficiente a catequese é preciso Evangelizar, permear a vida toda com o Evangelho, fazendo do mesmo princípio ético de conduta e promoção do bem comum, construção de uma sociedade justa e fraterna. Alargar os horizontes da Pastoral Paroquial, numa necessária conversão e revitalização.
Converter-se a Boa Nova de Jesus Cristo – conversão em todos os níveis e de todos os envolvidos na Evangelização: leigos (as), consagrados (as), ordenados. Conversão das estruturas para que se intensifique a comunhão e a participação, respondendo aos apelos da acolhida, realidade de pastoral urbana missionária e ecumênica.
Comunicar a Boa-Nova do Evangelho através dos Meios de Comunicação já existentes, e ampliar a necessária penetração em novos areópagos da cidade: Internet, rádio, TV, jornais, escolas, universidades, hospitais, shoppings; dar passos para o fortalecimento de Comunidades eclesiais Missionárias.
Viver a Caridade na defesa da vida, desde a sua concepção até o seu declínio natural, respondendo aos clamores que emergem na defesa da mesma, ressaltando sua dignidade e sacralidade. Defender a vida também enquanto meio ambiente, no fortalecimento de uma espiritualidade que nos ajude a dar passos para que tenhamos e vivamos uma Ecologia integral, como nos tem falado, insistentemente, o Papa Francisco.
Reavivar a evangélica opção preferencial pelos pobres no revigoramento e comprometimento sociopolítico, em busca de políticas públicas que assegurem vida, parcerias viáveis, fortalecimento dos diversos conselhos paritários.
Muitos são os desafios na atividade pastoral e ação evangelizadora, e precisamos encontrar corajosas respostas de todos nós, ministérios ordenados ou não.
Contamos com o mesmo Espírito que pousou sobre Jesus na Sinagoga de Nazaré, e que nos acompanhará, dando-nos os sete dons: sabedoria e discernimento, conselho e fortaleza, ciência, temor e piedade (Is 11,1-3a).
Sendo a fé viva quando são as obras que falam, deixemos as obras falarem no cuidado do rebanho, por Deus, a nós confiado! (1Pd 5,1-4).
Esteja sempre Maria, a Estrela da Evangelização, conosco nesta missão, ela que é a Mãe da Igreja e sempre nos acompanha para maior fidelidade à Palavra e à Missão pelo Filho a nós confiada, com a presença e ação do Espírito, que n’Ela pode agir e fazer maravilhas.
Dom Otacilio F. Lacerda
http://peotacilio.blogspot.com/2020/03/proclamar-e-testemunhar-o-evangelho-na.html?m=0
O caminho da glória eterna
passa, inevitavelmente, pela Cruz.Com a Liturgia do segundo Domingo da Quaresma (ano A), celebramos a Transfiguração do Senhor, dando mais um passo em nosso itinerário rumo à Páscoa.
A Transfiguração do Senhor é um convite à escuta atenta à voz de Deus e obediência total e radical ao Seu Plano, que Jesus realizou plenamente, por isto Ele é o Filho Amado que deve ser escutado no Monte Tabor e, com a força do Espírito, a Sua Palavra devemos realizar na planície do quotidiano, na história concreta, com suas alegrias e tristezas, angústias e esperanças…
Na primeira Leitura, (Gn 12,1-4) é nos apresentado Abraão, que é para todos nós, o modelo de crente, modelo daquele que crê, percebe e segue, de coração confiante, o Projeto de Deus, colocando a vontade de Deus acima da própria.
Abraão possui uma fé radical, confiança total e obediência incondicional às Propostas de Deus. Carrega dentro de si o sonho dos patriarcas: terra fértil e uma família numerosa, e em nenhum momento deixou de acreditar na promessa de Deus.
A mensagem que nos ilumina: Deus não desiste da humanidade e continua a construir com ela uma história de salvação, e Abraão é a pura e máxima expressão desta confiança na promessa divina.
Abraão é o homem que encontra Deus, que está atento aos Seus sinais e os interpreta, procurando responder aos desafios de Deus com total obediência e entrega.
Reflitamos:
– O que Abraão nos ensina em nossa caminhada de fé?
– Vivo um sim incondicional à vontade de Deus?
– Vivo uma fé instalada e acomodada?
– O que significa, como Abraão, pôr-se sempre a caminho e a Deus oferecer-se, e n’Ele confiar totalmente, entregando-lhe o que de melhor se possui?
– Deus vem, sempre por Amor, ao nosso encontro. Como correspondo ao Seu Amor e Projeto de Salvação?
Na segunda Leitura (2 Tm 1,8b-10), Paulo exorta Timóteo, e toda a comunidade, a manterem-se fiéis no discipulado, deixando de lado todo medo, acomodação, instalação e distração.
Na vida dos discípulos missionários não pode haver lugar para o desânimo e vacilo na fé. É preciso manter o ânimo, com fortaleza, enfrentar e superar as dificuldades, com fidelidade total no testemunho da fé n’Aquele que nos chamou, Jesus.
Tomando consciência da presença amorosa e preocupação de Deus para conosco, continuar no bom combate, no testemunho da fé. É preciso sempre levar a sério a vocação para a qual Deus nos chama, superando toda e qualquer forma de timidez, medo, insegurança…
No Evangelho (Mt 17, 1-9), contemplamos a Transfiguração do Senhor, e a manifestação da antecipação de Sua glória, mas que é precedida pelo caminho da doação da vida, do Mistério de Sua Paixão, Morte e Ressurreição. O caminho da glória eterna passa, inevitavelmente, pela Cruz.
A experiência vivida no Monte Tabor é a antecipação da glória eterna, para que, quando da experiência da morte de Cruz de Jesus, os discípulos não desanimem, e continuem firmes na fé, no testemunho.
Virá a inquietante pergunta: “Vale a pena seguir um Mestre que nada mais tem para oferecer do que a morte na Cruz?”.
A Transfiguração é a resposta: o aparente fracasso da Cruz é a nossa vitória. Deus Ressuscitou Seu Filho e não permitiu que a morte tivesse a última palavra.
Lembremo-nos das palavras do Apóstolo Paulo aos Gálatas – “Quanto a mim, que eu não me glorie, a não ser na Cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, por meio do qual o mundo foi crucificado para mim, e eu para o mundo.” (Gl 6,14).
A Transfiguração é, portanto, uma teofania, ou seja, uma manifestação de Deus. Os sinais, os dados são relatos teofânicos do Antigo Testamento: monte, voz do céu, aparições, vestes brilhantes, nuvem, o medo e a perturbação dos três discípulos (João, Pedro e Tiago).
Jesus é o novo Moisés, e com Ele uma nova libertação. Com Ele Deus sela uma nova e eterna Aliança.
Moisés recebeu a Palavra, a Lei no Monte Horeb, Jesus é a própria Palavra do Pai a ser ouvida e acolhida.
A Transfiguração é uma mensagem catequética inesquecível na vida dos discípulos: Jesus é o Filho Amado de Deus, que realiza com Sua vida, doação, paixão e morte de Cruz, o Projeto de salvação divina. Ele apresenta um Projeto a quantos queiram ouvi-Lo e segui-Lo.
O caminho que Ele fará e fez é também o caminho daqueles que o seguirem. O aparente e provisório fracasso será uma eterna e verdadeira vitória.
A Transfiguração é uma mensagem de confiança e esperança – a Cruz não será a palavra final, pois no fim do caminho de Jesus, e na vida dos discípulos que O seguirem, está a Ressurreição, a vida plena, a vitória sobre a morte.
Pela Transfiguração do Senhor, testemunha-se que uma existência feita como dom não é fracassada, ainda que culmine na Cruz. A vida plena e definitiva se vislumbra no horizonte, bem no final do caminho, para todos aqueles que, como Jesus, colocarem sua vida a serviço dos irmãos.
Na planície por vezes também podemos ser tentados pelo desânimo, e é nesta hora que a Transfiguração do Senhor não permite que nos entreguemos, recuemos.
Avançar sempre para águas mais profundas. A Transfiguração é como um grito ecoado no alto do Monte Tabor: “Não desanimem, pois Deus não permite que nossa vida seja uma marca de fracasso. Creiamos na Ressurreição, busquemos a vida definitiva, a felicidade sem fim, com coragem, carregando a cruz em total fidelidade ao Senhor.”.
Escutar Sua Palavra no Monte Sagrado não basta, é preciso vivê-la na planície, no autêntico testemunho da fé. Viver a religião não como evasão, fuga, distanciamento de compromissos concretos de amor e solidariedade.
Sendo assim, a religião jamais será um ópio a nos entorpecer, mas um sagrado compromisso com Deus, e, portanto, com Sua imagem e semelhança, com a humanidade, obra de Suas mãos, e com o mundo que nos entregou para cuidar, desde as primeiras páginas da História da Salvação.
Uma citação indispensável sobre a Transfiguração:
“A vida é combate. O primeiro ato do ser humano no seu nascimento é um grito. Ele deverá lutar para viver. Muitos doentes sabem que devem lutar contra o mal, o sofrimento, o desencorajamento, a lassidão.
Desistir de lutar é sintoma de uma doença que se chama depressão. Podemos lutar para nos curarmos fisicamente. Podemos lutar para nos mantermos de pé na provação. A vida espiritual também é um combate.
O Senhor é Alguém que Se deixa procurar. Segui-Lo supõe, por vezes, escolhas radicais.
Nesta semana, aceitemos conduzir um combate. Não para ser os melhores, nem para esmagar os outros, mas para viver e fazer viver.
A vitória neste combate é-nos anunciada neste domingo, em que nos juntamos ao Senhor Transfigurado. Mas Ele diz-nos que, antes de Ressuscitar, deve passar pelo combate da Paixão. A Ressurreição é a vitória do combate pela vida” (1)
A Eucaristia é, portanto, o momento em que sentimos fortemente a presença de Deus, e refazemos nossas forças, porque no Banquete Eucarístico nossa fé é nutrida, nossa esperança é dilatada e nossa caridade é fortalecida.
(1) Citação extraída do site:
http://www.dehonianos.org/portal/default.asp
Dom Otacilio F. Lacerda
A Sagrada Escritura e a missão de cada dia
A Sagrada Escritura, se lida, meditada e, no coração, acolhida, é indispensável em nossa caminhada de fé, pois brilha como um farol na escuridão da noite, tornando-a clara como a luz do dia.
Ontem, hoje e sempre, ecoa a palavra do Papa São Paulo VI, que nos leva a refletir sobre a missão do cristão leigo e de todo batizado no mundo:
“Os leigos, a quem a sua vocação específica coloca no meio do mundo e à frente de tarefas as mais variadas na ordem temporal, devem também eles, através disso mesmo, atuar uma singular forma de evangelização…
O campo próprio da sua atividade evangelizadora é o mesmo mundo vasto e complicado da política, da realidade social e da economia, como também o da cultura, das ciências e das artes, da vida internacional, dos “mass media” e, ainda, outras realidades abertas para a evangelização, como sejam o amor, a família, a educação das crianças e dos adolescentes, o trabalho profissional e o sofrimento.”. (Evangelli Nuntiandi, n.º 70)
Somos pessoas da “montanha sagrada”, na escuta atenta do Filho Amado – Jesus, pessoas da contemplação, da oração, da espera de um novo céu e de uma nova terra. Mas, como cristãos, somos também “cidadãos na planície”, no anúncio e no testemunho, no serviço à vida a fim de que a vida plena não seja promessa apenas para a eternidade: o céu começa aqui!
Bíblia na mão, na mente e no coração. A genuína espiritualidade cristã não nos dispensa de reais e efetivos compromissos, para que um de tantos divórcios não se repita e nem se multiplique: o divórcio entre a fé e a cidadania.
Anunciar a Boa Notícia do Senhor em todo e qualquer lugar, porque ela é a luz indispensável, sobretudo os momentos difíceis e sombrios que estamos vivendo.
Que o Espírito do Senhor nos acompanhe, para que, a partir da Sagrada Escritura, saibamos reler os fatos e trilhar os caminhos que promovam a dignidade da vida, para que o pranto da tarde nosso combate seja acompanhado pela alegria que nos vem saudar no amanhecer, como tão bem expressou o Salmista (Sl 29/30):
“Eu Vos exalto, ó Senhor, pois me livrastes,
e preservastes minha vida da morte!…”
Dom Otacilio Ferreira de Lacerda
Transfiguração: o olhar da fé foi purificado
No 2º Domingo da Quaresma (ano A), ouvimos as seguintes passagens: Gn 12,1-4a); 2 Tm 1,8b-10; Mt 17,1-9.
Façamos uma breve reflexão à luz da primeira Leitura e do Evangelho, para que vivamos frutuosamente a Quaresma:
“Chamando-nos à conversão, a Igreja nos chama, na realidade, a repetir e ornar nossa a expressão de Abraão e aquela dos apóstolos no Tabor: sair, descer, ir. Sair da rotina da vida – de nossa Ur da Caldeia – na qual estamos confortavelmente instalados, a mente cheia de projetos e de desejos terrenos. Ir ‘para a terra que o Senhor nos indica’, isto é, para o futuro da fé, abrindo-nos às promessas que Deus nos faz e às obras que nos pede” (1).
Voltemo-nos mais uma vez para Abraão, nosso pai da fé:
“Abraão foi chamado a desenraizar-se de um passado sereno e de um presente certo, para ir para um futuro indeterminado, para uma terra que jamais apertará nas suas mãos, para uma inumerável descendência, paradoxal para um velho marido de uma esposa anciã estéril. Daí em diante, só o ponto de partida será certo” ( 2).
Também temos a nossa história marcada por luzes e sombras, certezas e dúvidas, decisões a serem tomadas; estabilidades e instabilidades; seguranças e medos; turbulências pelos ventos contrários e a serenidade pelas brisas suaves que também nos acompanham.
E sejam favoráveis ou adversos, é tempo de nos deixarmos conduzir pelas virtudes divinas que nos acompanham: fé, esperança e caridade.
Concluo apresentando uma súplica para nos ajudar neste santo propósito, que renovamos a cada Quaresma que celebramos e vivenciamos intensamente com toda a Igreja.
Supliquemos:
Senhor Deus, concedei-nos a coragem de “sair, descer e ir” para onde quiserdes nos enviar e a Vossa divina vontade realizar, sem fixar âncoras nas aparentes seguranças que já tenhamos alcançado.
Concedei-nos também a graça de não cairmos na tentação de nos instalarmos num passado sereno, ou presente tão certo e seguro, mas termos a coragem de nos levantarmos, descermos e partirmos para o indeterminado, tão apenas confiando em Vosso Projeto, sem sombras de dúvidas ou de medo, guiados pelo Vosso Espírito, na fidelidade ao Vosso Amado Filho.
“Sair, descer e ir”, não fixando em nossa Caldeira de Ur, tão pouco fixando moradas no Monte Tabor, como desejaram Vossos Apóstolos, mas com os olhos da fé devidamente purificados, descermos à planície ao encontro dos desfigurados, Vossos pobres prediletos, até que mereçamos a visão da Trindade Santa e Eterna, plenitude de amor e luz: céu.
Senhor Deus, ainda que o Mistério da Cruz se faça presente em nossa vida, a experiência do Tabor pelos Apóstolos vivida, conosco compartilhada e nela acreditada, seja a força que nos impulsione a caminhar adiante, colocando nossa vida inteiramente ao Vosso dispor, para que renovemos sagrados compromissos com Vosso Reino.
Oremos:
“Ó Deus, que nos mandastes ouvir o Vosso Filho amado, alimentai nosso espírito com a Vossa Palavra, para que, purificado o olhar de nossa fé, nos alegremos com a visão de Vossa glória. Por N.S.J.C. Amém.”
(1) O Verbo Se faz Carne – Raniero Cantalamessa – Editora Vozes – 2013 p.57
(2) Lecionário Comentado – Editora Paulus -Lisboa – p.91
Dom Otacilio F. Lacerda
A Sagrada Escritura e a missão de cada dia
A Sagrada Escritura, se lida, meditada e, no coração, acolhida, é indispensável em nossa caminhada de fé, pois brilha como um farol na escuridão da noite, tornando-a clara como a luz do dia.
Ontem, hoje e sempre, ecoa a palavra do Papa São Paulo VI, que nos leva a refletir sobre a missão do cristão leigo e de todo batizado no mundo:
“Os leigos, a quem a sua vocação específica coloca no meio do mundo e à frente de tarefas as mais variadas na ordem temporal, devem também eles, através disso mesmo, atuar uma singular forma de evangelização…
O campo próprio da sua atividade evangelizadora é o mesmo mundo vasto e complicado da política, da realidade social e da economia, como também o da cultura, das ciências e das artes, da vida internacional, dos “mass media” e, ainda, outras realidades abertas para a evangelização, como sejam o amor, a família, a educação das crianças e dos adolescentes, o trabalho profissional e o sofrimento.”. (Evangelli Nuntiandi, n.º 70)
Somos pessoas da “montanha sagrada”, na escuta atenta do Filho Amado – Jesus, pessoas da contemplação, da oração, da espera de um novo céu e de uma nova terra. Mas, como cristãos, somos também “cidadãos na planície”, no anúncio e no testemunho, no serviço à vida a fim de que a vida plena não seja promessa apenas para a eternidade: o céu começa aqui!
Bíblia na mão, na mente e no coração. A genuína espiritualidade cristã não nos dispensa de reais e efetivos compromissos, para que um de tantos divórcios não se repita e nem se multiplique: o divórcio entre a fé e a cidadania.
Anunciar a Boa Notícia do Senhor em todo e qualquer lugar, porque ela é a luz indispensável, sobretudo os momentos difíceis e sombrios que estamos vivendo.
Que o Espírito do Senhor nos acompanhe, para que, a partir da Sagrada Escritura, saibamos reler os fatos e trilhar os caminhos que promovam a dignidade da vida, para que o pranto da tarde nosso combate seja acompanhado pela alegria que nos vem saudar no amanhecer, como tão bem expressou o Salmista (Sl 29/30):
“Eu Vos exalto, ó Senhor, pois me livrastes,
e preservastes minha vida da morte!…”
Dom Otacilio Ferreira de Lacerda

Evangelho de Mateus (Mt 25, 31-46).
Esta prática da misericórdia é caminho de santidade, que precisa ser vivida, como assim desejou e nos exortou o Senhor: “Sejam perfeitos como é perfeito seu Pai, que está nos céus” (Mt 5,48).
Santidade que se destina a todas as pessoas, como tão bem expressou a “Lumen Gentium”: “Todos, pois, na Igreja, quer pertençam à hierarquia ou sejam por ela conduzidos, são chamados à santidade, conforme a palavra do Apóstolo: ‘A vontade de Deus é que sejam santos’ (1Ts 4,3, Ef 1,4).
A santidade da Igreja se manifesta de direito e de fato nos muitos variados frutos da graça, que o Espírito faz brotar nos fiéis, quando tendem para a perfeição do amor em suas vidas” (n.39).
Na purificação do templo (Jo 2,13-22), Jesus se apresentou como o Templo de Deus, que é o Seu próprio corpo, e todo aquele que n’Ele for batizado, viver e crer, faz parte deste Templo, pois Ele quis fazer de cada pessoa uma morada Sua, em quem podemos encontrá-Lo (Mt 25, 31-46).
A santidade implica em sentir-se pertencente deste Templo, colocando toda a existência a serviço por amor ao próximo, como expressão máxima da adoração e amor a Deus sobre todas as coisas, com toda alma, força, coração e entendimento.
Amando a Deus, estaremos cumprindo o primeiro Mandamento na ordem do preceito, e, amando ao próximo, estaremos cumprindo o primeiro na ordem da execução, como falou o Bispo Santo Agostinho.
Neste sentido, encontramos inspiração nos testemunhos de tantos Santos e Santas, que viveram a santidade, alimentando-se no Templo do Senhor, mas prolongando a sua espiritualidade Eucarística na vivência da Palavra proclamada, no serviço ao outro.
Santidade também implica em não fecharmos nossos olhos e ouvidos para a realidade política, passada as Eleições.
Nossa fé é autêntica quando não se omite diante das questões sociais, e quando não medimos esforços participando dos diversos espaços de expressão de cidadania, a fim de que aqueles que detêm o poder coloquem em prática a política na sua máxima expressão e grandeza: a promoção do bem comum.
A santidade é fragilizada, manchada, quando não nos comprometemos para que a política cuide de cada cidadão, respeitando e promovendo a sua dignidade, da concepção ao seu declínio natural.
Quando a santidade anda de mãos dadas com a sacralidade do Templo, vemos no outro um templo sagrado, e tornamos nossa fé ativa, nossa caridade esforçada e mais firme, sólida e frutuosa a nossa esperança, como tão bem expressou o Apóstolo Paulo (1 Ts 1, 3).
No empenho constante no crescimento da santidade, cuidando do Templo e dos templos, exorto, de modo especial, os Agentes das diversas Pastorais, Movimentos e Serviços, para que, com a luz do Santo Espírito, façam a revisão do caminho trilhado na evangelização; avaliem com serenidade, à luz da Palavra de Deus e da Exortação do Papa “Evangelii Gaudium”, os objetivos, métodos e estratégias, para que sejamos uma Igreja que não fica confortavelmente dentro das paredes do Templo, mas, como Igreja em saída, vá ao encontro dos templos que clamam por uma Palavra de amor, vida, alegria e paz.
Membros da Igreja, pedras vivas e escolhidas que somos, temos que ser no mundo sinal de santidade, pautando nossa vida pelos valores da verdade, justiça, liberdade, fraternidade e impelidos pelas virtudes divinas, sendo a mais importante, porque eterna, o amor (1Cor 13, 8).
Amando a Deus e ao próximo, vivamos a santidade em estreita e inseparável relação com o Templo e os templos, e tão somente assim superaremos a cultura de morte e violência, e seremos promotores da cultura da vida e da paz, uma nova civilização, a civilização do amor.

No 1º Domingo da Quaresma (Ano A), a Liturgia da Palavra nos convida à conversão, recolocando Deus no centro de nossa existência, aprofundando nossa comunhão com Ele, na acolhida e vivência de Sua Palavra, vencendo todas as tentações que possam nos afastar de Seu Projeto de Vida e Salvação.
Na passagem da primeira Leitura (Gn 2,7-9; 3-17) encontramos uma bela página catequética que, muito mais do que ensinar como o mundo e o homem apareceram, nos lembra que a origem da vida e da humanidade é obra divina. A vida do homem e da mulher procede de Deus diretamente.
Um texto escrito num tempo árduo, em que o povo sentia pesar constantemente sobre si a ameaça do deserto árido, o ideal de felicidade seria um lugar com muitas árvores e muita água.
Homens e mulheres como obra do Criador, colocados no centro da criação, ocupando lugar especial, pois para eles o mundo foi criado e deve ser preservado. Criados por Deus para a felicidade, alcançada tão somente na plena comunhão com Ele.
O grande pecado de nossos pais foi a renúncia desta comunhão, e o desejo de ser como deuses. A Árvore do fruto proibido, a serpente, a nudez, que aparecem na Leitura, são para expressar que Deus criou o homem para ser feliz e trilhar um caminho de imortalidade e vida plena, mas muitas vezes se escolhe o caminho do orgulho, da autossuficiência, vivendo-se à margem de Deus e de Suas Propostas. Aqui se encontra a gênese de todo mal que destrói a harmonia do mundo, a alegria e a paz.
Deus nos criou para o Paraíso e nos deu a liberdade. Somente quando aceitamos nossa condição de criaturas diante do Criador, que nos criou por amor, é que podemos construir uma existência fraterna e harmoniosa, um Paraíso onde se encontra a vida, a realização e a felicidade.
Na passagem da segunda Leitura (Rm 5,12-19), o Apóstolo Paulo nos apresenta sua clara mensagem, falando de Adão e de Jesus. Por meio de Adão entrou no mundo o pecado, que insere a pessoa no esquema que gera egoísmo, sofrimento e morte. De outro lado, por meio de Jesus, nos vem a Salvação, vida plena e definitiva. Somente através de Jesus Cristo, que Se faz oferta de Salvação para todos, a vida de Deus chega a nós.
Na antítese da mensagem do Apóstolo: Adão é a figura da humanidade que prescinde de Deus e das Suas Propostas, escolhendo um caminho de egoísmo, de orgulho e de autossuficiência.
De outro lado, Jesus vive em permanente escuta de Deus e, em total obediência realiza Seus Projetos.
É exatamente este caminho que Jesus veio propor à humanidade: a comunhão com Deus expressa acolhida, obediência e vivência do Seu Projeto, exclusivo caminho que levará a humanidade em direção à vida plena e definitiva, e à Salvação que se deseja.
A conclusão a que se chega: uma história construída sem Deus, e à margem de Suas propostas, conduz inevitavelmente ao egoísmo, à injustiça, à prepotência, ao sofrimento e à morte.
Quando deixamos de dar ouvidos a Deus, somos seduzidos a dar ouvidos ao que produz sofrimento e morte. Isto ocorre quando se dá ouvidos ao lucro fácil, com a destruição da natureza, exploração de outros homens, promoção e conivência com o tráfico de corpos e de órgãos, a destruição dos biomas, como nos alerta a Campanha da Fraternidade. Abre-se espaço para a injustiça e prepotência com o sacrifício em proveito próprio da vida do outro.
Como nos falou o Papa Francisco em uma de suas Mensagem para a Campanha da Fraternidade, anos passados, quando se vende a dignidade do outro é porque antes se vendeu a própria.
Na passagem do Evangelho (Mt 4, 1-11) refletimos sobre as tentações do Maligno (tentações diabólicas), que Jesus enfrenta no deserto: ter, poder e ser.
Enfrentando as tentações matriciais no deserto, Jesus nos ensina a confiar na Palavra de Deus para vencermos as tentações que destroem e nos afastam do Verdadeiro e Deus e, consequentemente, do próximo.
Todo abandono e afastamento de Deus é abandono e afastamento de si mesmo e do outro, pois Deus habita no mais profundo de cada um de nós.
Ao contrário da primeira Leitura que nos falava do Paraíso para o qual Deus nos criou, o Evangelho nos apresenta o cenário do deserto, da privação e da provação.
Neste tempo quaresmal, é preciso que aprofundemos cada uma das tentações e como vencê-las. Não podemos esquecer o final do Evangelho – “O diabo se retirou para voltar no tempo oportuno”.
Tentação do ter (v.3-4): Vencendo a primeira tentação, Jesus nos ensina que não é a escolha de um caminho de realização e satisfação material que nos fará plenamente felizes. Não é o ter mais que nos faz felizes, tão pouco o acúmulo de coisas materiais. Não é a lógica da acumulação, mas da partilha – “Nem só de Pão vive o homem, mas de toda Palavra que sai da boca de Deus”, respondeu Jesus a Satanás.
Tentação do ser (v. 5-7): Vencendo a segunda tentação, Jesus nos ensina a não procurar um caminho de êxito fácil. Não é a lógica do prestígio, da glória, da fama e do sucesso, mas a lógica da humildade e da gratuidade – “Não tentarás o Senhor teu Deus”, foi a resposta de Jesus.
Tentação do poder (v.8-10): Vencendo a terceira tentação, Jesus nos ensina o caminho do poder serviço, doação, diferente da lógica do poder diabólico, que é a de domínio e exploração – “Adorarás somente ao Senhor teu Deus”, foi a Sua resposta.
Jesus nos ensina a não trilhar o caminho de uma vida sem Deus, que leva ao egoísmo, ao orgulho e autossuficiência. Somente a adesão e fidelidade incondicional à Proposta de Salvação que Deus tem para nós, é que nos levará ao encontro da felicidade, porque na plena e perfeita comunhão com a Fonte da Vida, da alegria e da paz.
Reflitamos:
– Somos conduzidos pela tentação dos bens materiais, do acúmulo, ou pela lógica de Jesus?
– Somos conduzidos pela tentação da procura do êxito pessoal, do prestígio, aplausos, ou pela lógica de Jesus?
– Somos conduzidos pela tentação do poder domínio, com prepotência, intolerância, autoritarismo, humilhando e magoando os pobres e humildes pelos quais Deus tem predileção, ou pela lógica de Jesus?
Entremos com o Senhor no deserto, e façamos também nós quarenta dias intensos de penitência, acompanhados de Oração, jejum e partilha.
Alimentados pela Palavra Divina e nutridos pelo Pão Eucarístico, podemos vencer as tentações do Maligno como Jesus nos ensinou. E, somente com Ele e n’Ele é que também poderemos vencê-las, e a liberdade tão sonhada e desejada viver.
Reconstruir o Paraíso ou viver para sempre no deserto da privação e do sofrimento depende de nós.
Somente suportando as agruras de um deserto é que o Paraíso se torna possível, jamais sem Deus e Sua Palavra.
Enfrentemos a travessia do deserto necessário para que o Projeto de Deus se torne uma grande realidade, sonho e compromisso com o Paraíso.
Enfrentemos a travessia do deserto necessário para que o Projeto de Deus se torne uma grande realidade, sonho e compromisso com o Paraíso, na construção de um mundo mais justo e fraterno.
Postado por Dom Otacilio F. Lacerda
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“O combate de santidade”
Sejamos enriquecidos pelo Sermão do Papa São Leão Magno (séc V), com vistas ao 1º Domingo da Quaresma (ano A), em que é Jesus enfrenta as tentações do Maligno.
“Entramos, amadíssimos, na Quaresma, isto é, em uma maior fidelidade ao serviço do Senhor. Vem a ser como se entrássemos em combate de santidade.
Portanto, preparemos nossas almas às investidas das tentações, sabendo que, quanto mais zelosos nos mostremos em nossa salvação, mais violentamente nos atacarão nossos adversários.
Porém, Aquele que habita no meio de nós é mais forte que aquele que luta contra nós. Nossa fortaleza vem d’Ele, em cujo poder temos posto nossa confiança. O Senhor permitiu que o tentador lhe visitasse, para que nós recebêssemos, além da força de Seu socorro, o ensinamento de Seu exemplo.
Acabais de ouvi-Lo: venceu o Seu adversário com as Palavras da Lei, não com o vigor de Seu braço. Sem dúvida, Sua humanidade obteve mais glória e foi maior o castigo do adversário ao triunfar do inimigo dos homens como mortal, em vez de como Deus.
Combateu para ensinar-nos a combater após Ele. Venceu para que nós, do mesmo modo, sejamos também vencedores. Pois não há, amadíssimos, atos de virtude sem a experiência das tentações, nem fé sem prova, nem combate sem inimigo, nem vitória sem batalha.
A vida transcorre em meio à emboscadas, em meio de sobressaltos. Se não queremos ver-nos surpreendidos, devemos vigiar. Se pretendermos vencer, temos de lutar. Por isso disse Salomão quando era sábio: ‘filho, se entras no serviço do Senhor, prepara tua alma para a tentação’.
Cheio de ciência de Deus, sabia que não há fervor sem esforço e combates. E prevendo os perigos, os adverte a fim de que estejamos preparados para repelir os ataques do tentador.
Instruídos pelo ensinamento divino, amadíssimos, entremos no estádio escutando o que o apóstolo nos disse sobre este combate: ‘nossa luta não é contra a carne e o sangue, mas contra os principados, contra as potestades, contra os dominadores deste mundo de trevas’.
Não nos enganemos: estes inimigos que desejam perder-nos compreendem muito bem que contra eles se encaminha todo o nosso esforço em favor de nossa salvação. Por isso, cada vez que desejamos algum bem, provocamos ao adversário. Entre eles e nós existe uma oposição entranhada, fomentada pelo diabo, porque, tendo eles sido despojados dos bens que nos advêm da graça de Deus, nossa justificação lhes tortura.
Quando nós nos levantamos, eles submergem. Quanto revitalizamos nossas forças, eles perdem a sua. Nossos remédios são as chagas de Cristo, pois a cura de nossas feridas os entristece: estejam, portanto, alertas, diz o apóstolo; ‘cingi vossos rins com a verdade, revestidos da couraça da justiça e os pés calçados de prontidão para anunciar o Evangelho da paz. Embraçai a todo o momento o escudo da fé, com que possais apagar os dados inflamados do maligno. Tomai, enfim, o capacete da salvação e a espada do espírito, que é a Palavra de Deus’.
Foi-nos dado o escudo da fé para proteger todo o corpo, colocou em nossa cabeça o capacete da salvação, colocou em nossas mãos a espada, ou seja, a Palavra da verdade. Assim, o herói da luta do espírito não somente está resguardado das feridas, mas também pode lesar a quem o ataca.
Confiando nestas armas, entremos sem preguiça e sem temor na luta que nos é proposta, e, neste estádio em que se combate pelo jejum, não nos contentemos apenas em abster-se da comida. De nada serve que se debilite a força do corpo, se não se alimenta o vigor da alma.
Mortifiquemos algo ao homem exterior, e restauremos ao interior. Privemos a carne de seu alimento corporal, e adquiramos forças na alma com as delícias espirituais.
Que todo cristão observe-se detidamente e, com um severo exame, esquadrinhe o fundo do seu coração” (1)
Trilhar o itinerário Quaresmal é, verdadeiramente, pôr-se num combate de santidade contra as forças do Maligno, confiante na Palavra de Deus para vencê-Lo.
Revigorados neste bom combate da fé, como discípulos missionários, sejamos curados de nossas fraquezas pelas “chagas de Cristo”, os nossos remédios, como bem falou o Papa.
Sejamos também mais que vencedores, com Jesus e Sua Palavra e como Ele assim o foi, lembrando as palavras do Sermão:
“Pois não há, amadíssimos, atos de virtude sem a experiência das tentações, nem fé sem prova, nem combate sem inimigo, nem vitória sem batalha”, portanto, cinjamos nossos rins com a verdade, revistamos a couraça da justiça e tenhamos os pés calçados de prontidão para anunciar o Evangelho da paz.
Tenhamos como proteção constante, o escudo da fé, coloquemos o capacete da Salvação e com a espada do Espírito, que é a Palavra de Deus, e tão somente assim, venceremos as propostas sedutoras do Maligno.
Não recuemos na vida de fé, empenhemo-nos corajosa e decididamente no combate de santidade, começando nossa caminhada quaresmal, e poderemos celebrar, exultantes, a alegria Pascal.
(1) Lecionário Patrístico Dominical – Editora Vozes – 2013 – pp.55-58
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Com Jesus aprendemos a confiar em Deus
Dando os primeiros passos em nosso itinerário Quaresmal rumo à Páscoa do Senhor, sejamos enriquecidos pela reflexão apresentada pelo Missal Dominical.
“Cristo é conduzido pelo Espírito ao deserto para repetir a prova: nele se concentra a fidelidade de Deus a Seu plano e a fidelidade do homem que lhe responde.
Apoiando-se inteiramente na Palavra de Deus (“está escrito”). Cristo sai vitorioso da provação; é uma antecipação da obediência incondicional do Filho bem-amado que Se torna o Primogênito da nova humanidade, fiel a Deus e chamado à Sua intimidade (Evangelho).
Todo homem, como toda geração e toda comunidade, é chamado a reviver a mesma opção fundamental.
‘A mais temível tentação não é a que nasce da carne e do mundo, mas a que nasce de uma situação em que a bondade de Deus não entra no nosso campo de percepção.
O cristão pode então dizer: ‘Onde então está Deus? Só encontra indiferença e silêncio: Deus se mostra tão distante que ele sente o abandono de Cristo’.
Vive naquela situação-limite em que viveram Abraão quando Deus lhe ordenou que sacrificasse Isaac, Jó durante a doença, e Cristo na agonia.
‘A confiança incondicional é o único meio de salvação, mas ela toca as raias da revolta contra Deus. Tais situações são a tentação suprema para o espírito. Atacam a fé em sua própria raiz, e se compreende por que Cristo pede aos cristãos que fujam em caso de perseguição: a não intervenção de Deus é sentida então de modo tão cruel que poderia destruir a fé.
Não é, pois, de admirar que a Igreja e os cristãos orem todos os dias para que Deus saia de Seu silêncio, que abrevia o tempo em que não manifesta Seu poder'” (C. Duquoc).
A Quaresma é o tempo do teste para nossa fidelidade na resposta ao Plano de Deus; pode acontecer que o tenhamos traído, mutilado ou enterrado, e isso por covardia, interesse, hipocrisia, fraqueza, porque não soubemos vencer as tentações que hoje se nos oferecem.
Toda civilização inclui elementos bons e elementos nocivos, expressão de sua ambiguidade, sua incapacidade para salvar-nos.
Hoje esses elementos nocivos são a apatia diante das realidades espirituais, seu sufocamento ‘mórbido”‘ para que não constituam mais problema e sejam relegados para os recantos da consciência e da vida; a total absorção no terrestre, nos valores e bens que nos são oferecidos em quantidade cada vez mais crescente e alienante: o ‘eficientismo’, gerado pelo ídolo do produzir-consumir e consumir-produzir, esse círculo vicioso implacável e destruidor de todo valor humano; o egoísmo e o espírito de opressão, a luta pela própria carreira, que reduz o próximo unicamente a mais um adversário a eliminar, um concorrente a superar, um degrau pelo qual subir” (1)
Sejamos revigorados, neste tempo intenso de penitência, silêncio orante, para que acompanhado do jejum nos leve à prática da caridade ativa, que nos faz mais configurados a Jesus.
Renovemos a total e incondicional confiança em Deus, como Jesus o fez, contando sempre com a presença, ação e força do Espírito que sobre Ele pairava, e sobre toda a Igreja paira, porque não nos deixou órfãos. Sua promessa se cumpriu!
Sejamos fortalecidos neste santo propósito de vencer as tentações do Maligno, pois a liberdade por Deus nos foi concedida, e é preciso saber usá-la, e assim também viveremos a Campanha da Fraternidade com o tema: “FRATERNIDADE E VIDA: dom e compromisso”; e o lema: “Viu, sentiu compaixão e cuidou dele” (Lc 10,33-34).
Oremos:
“Concedei-nos, ó Deus onipotente, que, ao longo desta Quaresma, possamos progredir no conhecimento de Jesus Cristo e corresponder a Seu amor, por uma vida santa. Por N. S. J. C. Amém!”
(1) Missal Dominical, Editora Paulus, (pp. 147-148).
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Uma reflexão sobre a “A Doutrina Social da Igreja à luz da misericórdia divina”, e da passagem do Evangelho sobre o Bom Samaritano (Lc 10, 25-37).
Vejamos o que nos dizem os Padres da Igreja, e também o Papa Francisco, para melhor vivermos as obras de misericórdia corporais e espirituais:
Orígenes (séc. III):
“Para que entendas que este samaritano descia por disposição de Deus para cuidar do que foi atacado pelos ladrões, deves observar que já trazia consigo as faixas, o vinho e o azeite, isto me parece que ocorreu não somente em atenção a este homem meio-morto, mas por todos aqueles que, feridos, necessitam Suas faixas, de Seu vinho e Seu azeite.
Carregou o ferido sobre o jumento, sobre Seu próprio corpo, o que somente significa que Se dignou assumir a nossa humanidade. Este samaritano lavou os nossos pecados, sofreu por nós, carregou o homem meio-morto, levou-o para a pousada, isto é, a Igreja, que recebe a todos e que não nega o seu auxílio a ninguém, e à qual nos convoca Jesus, dizendo: Vinde a mim todos vós que estais cansados e sobrecarregados, que Eu vos aliviarei.
Tendo-o levado à pousada, não foi embora imediatamente, mas ficou com ele um dia inteiro, cuidando-o dia e noite… Quando chegou a manhã seguinte quer partir, dá de Seu bom dinheiro dois denários e encarrega ao posseiro, aos Anjos de Sua Igreja, que cuidem e levem ao céu aquele que ele tinha cuidado nas angústias deste tempo” (1)
Clemente Alexandrino (séc. III):
“Quem poderia ser este próximo senão o próprio Salvador? Quem mais do que Ele teve piedade de nós que estávamos para ser mortos pelos dominadores deste mundo de trevas com as muitas feridas, os medos, as paixões, as iras, as dores, os enganos, os prazeres?
De todas estas feridas o único médico é Jesus. É Ele que derrama sobre nossas almas feridas o vinho que é sangue da videira de Davi, é Ele que doa copiosamente o óleo que é a piedade do Pai” (2)
O Bispo e Doutor da Igreja, Santo Ambrósio (séc. IV):
“Enquanto descia, pois, este samaritano – quem é este que desceu do céu, senão o que sobe ao céu, o Filho de Deus que está no céu –, tendo visto a um homem semimorto, ao qual ninguém quis curar – o mesmo que aquela que padecia do fluxo de sangue e que tinha gastado em médicos toda a sua renda-, aproximou-Se dele, ou seja, compadecido de nossa miséria, tornou-Se nosso íntimo e nosso próximo para exercitar Sua misericórdia conosco.
E enfaixou suas feridas untando-as com óleo e vinho. Este médico tem uma infinidade de remédios, mediante os quais alcança, ordinariamente, suas curas. Medicamento é a Sua Palavra; esta, algumas vezes, enfaixa as feridas, outras, serve de óleo, e outras atua como vinho; enfaixa as feridas quando expressa uma ordem de dificuldade mais exigente; suaviza perdoando os pecados, e atua como o vinho anunciando o juízo” (3)
São Severo de Antioquia (séc. VI):
“Sobre as nossas chagas derramou vinho, o vinho da Palavra, e, como a gravidade dos ferimentos não suportava toda a Sua força, misturou-o com o óleo da Sua ternura e do Seu amor pelos homens. Em seguida, conduziu o homem à estalagem.
Chama estalagem à Igreja, que se tornou o lugar de morada e de refúgio de todos os povos. Chegados à estalagem, o Bom Samaritano teve para com aquele que tinha salvo uma solicitude ainda maior; o próprio Cristo ficou na Igreja, concedendo-lhe todas as graças… E, ao partir, isto é, ao subir ao céu, deixou ao dono da estalagem – símbolo dos apóstolos, dos pastores e dos doutores que lhe sucederam – duas moedas de prata, para que ele cuidasse do enfermo.
Estas duas moedas são os dois Testamentos, o Antigo e o Novo, o da Lei e dos Profetas, e aquele que nos foi dado pelos Evangelhos e pelos escritos dos Apóstolos… No último dia, os pastores das Igrejas santas dirão ao Senhor que há de vir: Senhor, confiastes-me dois talentos, aqui estão outros dois que ganhei, através dos quais fiz aumentar o rebanho. E o Senhor irá responder-lhes: Muito bem, servo bom e fiel, foste fiel no pouco, muito te confiarei. Entra no gozo do teu Senhor”. (4)
Retomemos as reflexões acima, e sejamos fortalecidos em nossa fidelidade ao Senhor, para que edifiquemos uma Igreja mais samaritana, que se aproxime dos que mais precisam, porque são sinais visíveis e tangíveis da presença de Deus em nosso meio.
Finalizo com o parágrafo n.15 da Bula “Misericordiae Vultus”, escrita pelo Papa Francisco para o Ano Santo extraordinário da Misericórdia (8/12/2015 à 26/11/2016):
“Neste Ano Santo, poderemos fazer a experiência de abrir o coração àqueles que vivem nas mais variadas periferias existenciais, que muitas vezes o mundo contemporâneo cria de forma dramática.
Quantas situações de precariedade e sofrimento presentes no mundo atual! Quantas feridas gravadas na carne de muitos que já não têm voz, porque o seu grito foi esmorecendo e se apagou por causa da indiferença dos povos ricos.
Neste Jubileu, a Igreja sentir-se-á chamada ainda mais a cuidar destas feridas, aliviá-las com o óleo da consolação, enfaixá-las com a misericórdia e tratá-las com a solidariedade e a atenção devidas.
Não nos deixemos cair na indiferença que humilha, na habituação que anestesia o espírito e impede de descobrir a novidade, no cinismo que destrói.
Abramos os nossos olhos para ver as misérias do mundo, as feridas de tantos irmãos e irmãs privados da própria dignidade e sintamo-nos desafiados a escutar o seu grito de ajuda. As nossas mãos apertem as suas mãos e estreitemo-los a nós para que sintam o calor da nossa presença, da amizade e da fraternidade.
Que o seu grito se torne o nosso e, juntos, possamos romper a barreira de indiferença que frequentemente reina soberana para esconder a hipocrisia e o egoísmo”.
(1) Lecionário Patrístico Dominical – p.678-679
(2) O Verbo Se faz Carne – p. 676
(3) Lecionário Patrístico Dominical – pp.675-676
(4) Lecionário Patrístico Dominical – 677