A Palavra do Bispo

Mensagens e publicações do bispo diocesano, Dom Otacilio Ferreira de Lacerda.

A incomparável Compaixão Divina – Homilia – 16º Domingo do Tempo Comum ( Ano B)

Com a Liturgia do 16º Domingo do Tempo Comum (ano B), refletimos sobre o Amor e a solicitude de Deus para com o Seu rebanho, verdadeiramente, uma compaixão incomparável.

Deus mesmo é quem promete ser o próprio Pastor, conforme a primeira Leitura do Livro do Profeta Jeremias (Jr 23,1 -6).

O Profeta Jeremias é a voz incompreendida que clama pela conversão e fidelidade do Povo a Deus e ao Seu Divino Projeto Libertador. Por isto é considerado o “Profeta da desgraça”.

Ele denuncia a ação dispersiva dos pastores do seu tempo, e anuncia a pertença do Povo a Deus. Fala da intervenção divina através da repatriação dos exilados (a volta do exílio); a escolha de pastores exemplares e a vinda do Messias.

Já não mais ficarão perdidos e abandonados ao sabor dos ventos e dos mares, dos interesses inescrupulosos de seus pastores, de suas autoridades.

Com Jeremias, aprendemos a confiar em Deus mantendo, nas adversidades, a alegria, a serenidade, a esperança e a paz, e, de modo muito especial, a não usar o povo que nos foi confiado em benefício próprio.

Reflitamos:

– Como acolhemos e vivemos a proposta de Jesus no cuidado daqueles que nos foram confiados, dentro e fora da Igreja?

Na passagem da segunda Leitura (Ef 2,13-18), refletimos sobre a   missão dos discípulos, que são, por sua vez, continuadores da Missão do Senhor, unidos por amor, sem barreiras e divisões, porque estas foram superadas pela vida e missão do Senhor Jesus.

Da prisão, o Apóstolo Paulo escreve aos Efésios, e sua “Carta Circular” é enviada a várias Igrejas da Ásia Menor, através de Tíquico, o portador, por volta dos anos 58/60.

A Carta tem como tema central o que Paulo chama de Mistério do Projeto Divino para o Seu povo, desde a eternidade e o papel de Jesus Cristo neste Projeto: romper os muros que nos separam, formando um só povo.

Responder à proposta de Jesus é passar a integrar a comunidade dos santos, como homens novos, acolhendo e comunicando a salvação que se destina a todos.

É preciso edificar comunidades que se abram à proposta de Deus, deixando-se transformar por Sua proposta de Amor. Ser, de fato, uma comunidade de irmãos e irmãs que se amam, quebrando as barreiras, vivendo na unidade e na fraternidade universal.

Reflitamos:

– Quais são os muros a serem destruídos dentro e fora da comunidade?

– Quais são as pontes que devemos construir para solidificar a unidade e a fraternidade universal?

– Nossa comunidade deixa-se transformar pela proposta amorosa de Deus?

Na passagem do Evangelho (Mc 6,30-34), refletimos sobre o regresso dos discípulos que foram enviados em missão, entusiasmados pelos resultados, mas cansados, naturalmente.

Jesus compreende e os convida ao recolhimento, a gozar da intimidade com Ele, recuperando as forças, para não caírem num ativismo que esvazia a vida de sentido e dinamismo.

É preciso estar sempre refeito e disposto para colocar-se com alegria a serviço do rebanho sofrido do Senhor, e nisto consiste a essência de toda atividade pastoral. De modo que podemos dizer: “tal Cristo, tal cristão”.

Reflitamos:

– Vivemos num ativismo descontrolado?

– Nossas atividades não são, por vezes, de funcionários eficientes tão apenas?

– Nossas atividades são revigoradas por uma genuína espiritualidade?

– Qual o perigo da fadiga, cansaço, desânimo, diante dos muitos desafios e das respostas que devemos dar diante do povo?

– Diante do rebanho, temos a humanidade e a sensibilidade de Jesus?

– Nosso coração e consciência doem diante dos clamores que brotam da vida do povo simples de nossas comunidades?

– O que procuramos fazer em resposta a estes clamores?

Nisto consiste o eterno ciclo na vida do discípulo missionário do Senhor por força de seu Batismo: envio, missão, cansaço, descanso, renovação, continuidade.

Começar e recomeçar sempre, sem desânimo, revigorados no Banquete da Palavra e da Eucaristia, a serviço do Reino, até que alcancemos a glória da eternidade, e então brilharemos com os  justos no Reino do Pai, conforme o Senhor nos assegurou.

Alegria da missão e da vocação profética – Homilia do XV Domingo do Tempo Comum Ano B

“A missão de Jesus é a nossa missão”

A Liturgia da Palavra do 15º Domingo do Tempo Comum (ano B), convida-nos a refletir sobre a vocação profética que é um dom de Deus.

Com a passagem da primeira Leitura (Am 7,12-5), refletimos sobre a vocação e a corajosa atuação do Profeta Amós, que foi chamado por Deus, quando envolvido estava por suas atividades de pastor de gado e cultivador de sicômoros.

Amós não é um Profeta convencional, profissional e não vive da profecia. Para ele viver a vocação profética é a mais bela expressão de confiança e compromisso com o Projeto de Deus, que estava sendo desvirtuado através da prática da injustiça, violação do valor sagrado do culto, e do triste empobrecimento de tantos à custa do luxo e da suntuosidade de poucos.

A vocação profética é sempre um risco e pode ser acompanhada de rejeição e expulsão. Sendo o Profeta a autêntica voz de Deus muitas vezes tentarão calar sua voz, como aconteceu com Amós.

Entretanto como bem diz o refrão de um canto – “se calarem a voz dos Profetas, as pedras falarão” ­– Amós não se calou e levou a termo sua missão apontando a infidelidade e as indesejáveis e trágicas consequências que viriam pouco mais tarde.

A passagem da segunda Leitura (Ef 1, 3-14) é um hino Paulino de riqueza imensurável. Uma passagem bíblica que deve ser lida e relida incontáveis vezes. Em forma de hino e Oração, Paulo oferece uma síntese doutrinal de toda a Carta.

Ele nos fala do Mistério Divino que se revela na história em diversos momentos: na criação por meio de Jesus Cristo;  através dos Profetas Deus também Se revelou e instruiu a humanidade; na plenitude dos tempos Se revelou enviando o próprio Filho; Se revelou pela Palavra Encarnada, anunciada, crucificada, ressuscitada; Se revela na ação e missão da Igreja, até que possamos alcançar a glória da eternidade.

É próprio do Amor de Deus revelar-se, dar-se a conhecer a quem se abre à Sua ação e presença. E ainda mais, Paulo nos fala que Deus desde o princípio nos predestinou e nos criou para sermos Santos e irrepreensíveis no amor para com Ele.

Deste modo, a vida cristã consiste em rejeitar o que não for digno para o cristão e abraçar tudo o que for digno deste nome. Nisto também consiste uma vida profética: saber discernir o que é bom e justo, santo e verdadeiro daquilo que não é bom e nos torna impermeáveis a graça e ao Amor transbordante de Deus para conosco, porque mergulhados na vida do pecado, escuridão e desamor.

Na passagem do Evangelho (Mc 6,7-13), Jesus, Profeta do Pai por excelência, envia os discípulos dois a dois para pregar a Boa Nova do Evangelho, anunciando a conversão, mudança de mentalidade e atitudes para a acolhida da chegada do Reino.

Não somente envia, mas lhes confere o poder que tem junto do Pai para expulsar demônios, curar os enfermos, inaugurar relações novas de vida e liberdade.

Há, porém, algumas exigências que devem marcar a vida dos discípulos do Senhor:

– Alegria da missão por Ele confiada; o despojamento, pobreza, simplicidade, liberdade total diante de tudo e de todos, confiança incondicional no poder e na providência divina, maturidade para suportar a rejeição e as adversidades.

Assim afirma o Missal dominical:

“Quem anuncia não deve ter nada que pese, deve ser leve e desembaraçado, não tanto de alforje e capa, mas antes, livre de interesses humanos, de ideologias a defender, de compromissos com as potências deste mundo. Essas coisas não lhe permitem estar livre, condicionam-no, embaraçam-lhe o trabalho, enfraquecem-lhe o zelo, impedem-no de merecer crédito”.

Aprendamos com os Apóstolos, os Santos e tantos quantos que deram testemunho de sua fé, que sem paixão por Jesus, fascínio por Ele e pelo Reino, não há apostolado, não há missão e tão pouco profecia.

Ninguém é Profeta por iniciativa própria, mas a vocação profética é prerrogativa divina. Em cada tempo Deus suscita Profetas para serem Sua voz, Sua Palavra, a vibração de Suas cordas vocais.

No coração do mundo, o Profeta é o pulsar do coração  de Deus, sua missão consiste em ajudar a construir relações que estejam em perfeita sintonia com o Projeto Divino.

A missão do Profeta não é fácil. Ele é alguém que antes de tudo escuta a Palavra de Deus, acolhendo-a no mais profundo de si mesmo para anunciá-la e testemunhá-la com credibilidade.

O Profeta tem a missão de tornar a vida uma bela canção, uma bela melodia, em perfeito tom e sintonia com o Projeto divino, na mais bela harmonia, um canto novo de alegria, vida, justiça e paz:

“Não só a Igreja na sua totalidade, mas também cada cristão deve sentir-se escolhido pessoalmente, chamado e enviado: cada um de nós faz parte de um projeto cósmico, a construção do Reino de Deus. O grande pecado seria sentirmo-nos sozinhos ou sentirmo-nos inúteis” (1)

Reflitamos:

– Como vivo a vocação profética recebida no dia do meu Batismo?

– Quais são as vozes proféticas no tempo presente?

– Como procuro viver a santidade e a filiação divina?

– Qual é a missão que Jesus me confia?

– Sinto alegria em realizá-la?

– Onde e quando sinto a presença e ação de Deus se revelando em minha vida?

É sempre tempo de reavivar a chama profética, crepitar ardente no coração, para que a alegria da missão torne visível o quanto nos configuramos ao Senhor, e assim geremos e formemos Cristo em nós e nos outros.

(1) Leccionário Comentado pág. 714 

Postado por Dom Otacilio F. Lacerda http://peotacilio.blogspot.com/2020/07/alegria-da-missao-e-da-vocacao.html

Vençamos o medo na travessia – XII Domingo do Tempo Comum

“‘Silêncio! Cala-te!’ O vento cessou

e houve uma grande calmaria. Então

Jesus perguntou aos discípulos:

“Por que sois tão medrosos?

Ainda não tendes fé?”

(Mc 4, 39-40)

Com a Liturgia do 12º Domingo do Tempo Comum (ano B), refletimos sobre a necessária confiança na presença e ação de Deus, que jamais nos abandona na realização de Seu Projeto de vida plena e salvação para a humanidade, bem como a realidade do sofrimento, das dificuldades e das adversidades presentes em nossa vida, e a manifestação amorosa de Deus, que quer de nós confiança e entrega total em Suas mãos, com toda humildade.

Na passagem da primeira Leitura (Jó 38,1.8-11), refletimos sobre o sofrimento de Jó e a inquietante interrogação: onde Deus está no sofrimento do inocente?

“Jó é convidado a aceitar que um Deus de quem depende toda a criação, que até submete o mar, que cuida da criação com cuidados de pai, sabe o que está a fazer e tem uma solução para os problemas e dramas do homem…

O homem, na situação de criatura finita e limitada, é que nem sempre consegue ver e perceber o alcance e o sentido último dos projetos de Deus… só Deus tem todas as respostas; ao homem resta reconhecer os seus limites de criatura e entregar-se nas mãos desse Deus onipotente e majestoso, que tem um projeto para o mundo. Ao homem finito e limitado resta confiar em Deus e ver n’Ele a sua esperança e salvação” (1)

A fé vivida por Jó nos permite afirmar que fé em Deus é compromisso contínuo, e não a busca de Deus como consolação imediata. É preciso entregar-se, abandonar-se nas mãos de Deus e não se isolar do mundo:

“O verdadeiro crente é aquele que, mesmo sem entender totalmente os projetos de Deus, aprende a entregar-se a Ele, a obedecer-lhe incondicionalmente, a vê-lO como a razão última da sua vida e da sua esperança”. (2)

A confiança em Deus não nos coloca numa postura de espera passiva, de modo que todos os problemas (terrorismo, violência, doenças, catástrofes, injustiças, insegurança etc.) devem nos inquietar em busca de respostas e saídas. Deus, que nos conduz através das armadilhas da história, nos ilumina nesta procura para que tenhamos vida plena e definitiva.

Na passagem da segunda Leitura (2 Cor 5,14-17), o Apóstolo Paulo nos apresenta o amor de Deus, que não nos abandona  e, por meio de Jesus, nos dá a vida nova: Deus não é indiferente, mas interveniente em nossa história, porque nos ama, e está presente ao nosso lado, indicando-nos o caminho da vida plena e feliz: Homens Novos e Nova Humanidade.

O Apóstolo, embora não tenha conhecido o Jesus histórico, fez a experiência do amor de Cristo Ressuscitado e deixou-se absorver por esse Amor, que o impeliu na missão, com coragem, ousadia e total fidelidade, até o extremo, no martírio.

Paulo consome-se em comunicar este Amor de Cristo a todas as pessoas, em todos os lugares, por isto é reconhecido como Doutor e Evangelizador das nações.

“Cristo morreu por todos, a fim de que os homens, aprendendo a lição do amor que se dá até as últimas consequências, deixassem a vida velha, marcada por esquemas de egoísmos e de pecado. Contemplando o Cristo que oferece a sua vida ao Pai e aos irmãos, os homens não viverão, nunca mais, fechados em si mesmos, mas viverão, como Cristo, com o coração aberto a Deus e aos outros homens”. (3)

Este encontro que o Apóstolo fez com o Senhor, é o mesmo que fizemos e que mudou a nossa vida, redimensionou nossos horizontes, como tão bem expressou o Papa Emérito Bento XVI:

Ao início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo”.

Reflitamos:

– Qual é a profundidade de nosso amor por Jesus?

– Quando se deu este encontro?

– Como O anunciamos e O testemunhamos?

Na passagem do Evangelho (Mc 4,35-41), refletimos sobre a caminhada dos discípulos e as dificuldades encontradas: os discípulos nunca estão sozinhos no enfrentar das tempestades, que se levantam na travessia do mar da vida.

Não há nada a temer, porque Cristo está presente com Sua Pessoa e Palavra, e com Ele pode-se vencer as forças e ventos contrários, que se contrapõem ao Projeto de Salvação que Deus tem para a humanidade.

A simbologia do mar é sempre muito forte na mentalidade judaica: “para falar de realidade assustadora, indomável, orgulhosa, desordenada onde residiam os poderes caóticos que o homem não conseguia controlar e onde estavam os poderes maléficos que queriam destruir os homens…

Só Deus, com o Seu poder e majestade, podia por limites ao mar, dar-lhe ordens e libertar os homens dessas forças descontroladas do caos que o mar encerrava” (4).

Deste modo, a passagem do Evangelho é uma página catequética, em que a partir dos elementos simbólicos (mar, barco, tempestade, noite e o sono de Jesus), nos fala da comunidade dos discípulos de Jesus em sua desafiadora caminhada na história, haja vista que Marcos escreve o Evangelho numa época em que a Igreja estava enfrentando sérias “tempestades” e a mais desafiadora de todas, a perseguição de Nero, somado aos problemas internos causados pela diferença de perspectivas entre judeo-cristãos e pagano-cristãos.

Voltemo-nos para a simbologia:

Barco – na catequese cristã, é o símbolo da comunidade de Jesus que navega pela história.

Barco rumando para a outra margem, ao encontro das terras dos pagãos: a salvação se destina a todos os povos – universalidade da salvação.

O sono de Jesus – aparente ausência.

A tempestade – dificuldades, perseguição e hostilidades, que os discípulos terão de enfrentar ao longo do caminho até o fim dos tempos.

Jesus acalmando a fúria do mar e do vento com a Sua Palavra – manifestação da presença divina em sua Pessoa e Palavra.

Portanto, a grande pretensão do Evangelista é apontar o caminho da fé, que se expressa em total confiança na presença e Palavra do Senhor para enfrentar as “tempestades”, e em todos os tempos: a comunidade é chamada a fazer a experiência de adesão, confiança, obediência, em entrega total e incondicional nas mãos de Deus, que conduz a história.

A comunidade dos discípulos de Jesus, em plena fidelidade e confiança n’Ele, deve passar para a outra margem, ou seja, aqui é a dimensão missionária da Igreja que não pode se acomodar, mas deve se colocar a serviço da transformação do mundo, superando todo medo e acomodação como tão bem expressou o Papa Francisco:

Prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças. Não quero uma Igreja preocupada com o ser o centro, e que acaba presa num emaranhado de obsessões e procedimentos.” (n.49 – Alegria do Evangelho).

Reflitamos:

– Quem é Jesus para mim?

– Sinto a presença de Jesus na comunidade que participo?

– Confio na Palavra do Senhor para enfrentar as “tempestades” e os ventos contrários do dia a dia na travessia para a outra margem?

– Sinto a força divina que nos anima em todas as dificuldades?

– Como é minha adesão ao Senhor e acolhida de Sua Palavra?

– Acredito que, com a Pessoa de Jesus e Sua Palavra, as forças do mal não têm a última palavra?

Finalizando, é preciso encontrar-se com o Senhor e deixar-se transformar por Ele, numa relação de amor e confiança total n’Ele, para que assim vençamos todo medo e enfrentemos todas as “tempestades”, e a pior de todas as tempestades: não sentir a presença e o Amor de Deus, ou prescindir do Seu divino Amor.

Dom Otacilio F. de Lacerda

Fonte inspiradora e citações (1) (2) (3) (4):

http://www.dehonianos.org/portal

O Reino de Deus germina silenciosamente- Homilia 11° Domingo do Tempo Comum Ano B

O Reino de Deus germina silenciosamente

No 11º Domingo do Tempo Comum (Ano B), a Liturgia da Palavra nos convida a renovar a alegria de trabalhar pelo Reino de Deus, fiéis à Aliança que Ele faz conosco, da qual jamais se esquece.

A passagem da primeira Leitura (Ez 17,22-24) retrata o tempo do exílio, e o Profeta procura manter acesa a chama da esperança do povo pela fidelidade de Deus e Sua Aliança. É preciso afastar todo medo e pessimismo.

O Profeta tem a árdua missão de destruir as falsas esperanças, denunciar as infidelidades, levando o povo a confiar plenamente em Javé, pois somente com Ele construirá uma nova história.

Aparentemente nosso trabalho parece ser insignificante, desprezível, mas não o é aos olhos de Deus que tem sempre um Projeto de Vida para a humanidade.

Deus chama quem bem quer para a construção deste Projeto, o que não necessariamente corresponde à lógica dos homens. Tudo pode cair, tudo pode falhar, mas somente Deus não falha. Deus ama Seu povo e quer salvá-lo.

É preciso corresponder à vontade amorosa de Deus com nossa humilde disponibilidade e acolhida dos Seus apelos e desafios.

Na passagem da segunda Leitura (2Cor 5,6-10), o Apóstolo Paulo anuncia que somos  peregrinos no tempo,  vocacionados para a eternidade, à vida definitiva.

Não podemos nos curvar diante da cultura do provisório, do que é fácil e efêmero, mas caminhar com passos firmes para a eternidade, procurar o que é duradouro e nos assegure a vida definitiva.

Pela vida e palavras dos Apóstolos vemos que não é fácil seguir e servir o Senhor. A grandeza da missão comporta riscos, mas tem compensações sem medida.

Na passagem do Evangelho de São Marcos (Mc 4,26-34) encontramos duas Parábolas de Jesus sobre o Reino de Deus.

A Parábola é uma forma de linguagem que Jesus Se utiliza, acessível, viva, questionadora, concreta, desafiadora, evocadora e pedagógica, para semear a Palavra no coração e na mente dos Seus ouvintes. Fala coisas tão belas e profundas a partir de coisas simples do quotidiano.

Elas criam controvérsias, diálogo, questionamentos, num primeiro momento, depois se tornam provocadoras para novas atitudes e compromissos, mexendo com seus ouvintes.

Finalmente levam o ouvinte a tirar as consequências para a vida, pois ajuda a pensar e rever as atitudes, a própria vida, o compromisso com Jesus e o Reino.

“A primeira Parábola (da semente) afirma que o Reino de Deus é algo que uma vez semeado no coração da pessoa, germina e cresce por si só: tem uma força intrínseca (vv. 26-29). A segunda (do grão de mostarda) diz que o Reino de Deus é pequeno e aparentemente insignificante, mas crescerá até se tornar muito grande (vv. 30-32)” – Leccionário Comentado pp.518.

A grande mensagem destas duas Parábolas é que o Reino de Deus é uma iniciativa divina, e para que ele aconteça a comunidade precisa manter a serenidade, a confiança e a paciência. Importa lançar a Semente da Palavra do Reino no coração da humanidade.

A Parábola da semente tem sua mensagem própria: a nós cabe lançar a semente. Assim acontece o Reino, inaugurado e realizado na atitude da necessária paciência evangélica.

Deus não falha e no Seu tempo dará os frutos esperados, de modo que podemos afirmar categoricamente que o tempo d’Ele não é o nosso.

A Parábola da semente de mostarda, que se torna uma grande árvore, revela quão grande e belo é o Reino, que se inicia com pequenos gestos, daquilo que é aparentemente insignificante e desprezível.

Nos fatos aparentemente irrelevantes, na simplicidade e no transcorrer normal de cada dia, na insignificância e limites dos meios de que dispomos na evangelização, esconde-se o dinamismo divino que atua na história oferecendo e possibilitando à humanidade caminhos novos de vida plena e salvação.

“Jesus não é um homem de sucesso, de ibope. Ele lança uma sementinha, nada mais. E de repente, a sementinha brota. O que parecia nada, torna-se fecundo, árvore frondosa”, como nos fala o Pe. Joan Konings (SJ).

Digamos sempre: “Como é bom trabalhar na construção do Reino como Igreja que somos!”

Tenhamos a paciência evangélica para continuarmos com alegria, como Igreja, lançando sementes no coração da humanidade, para que possam florir na alegre presença do Reino que já está em nosso meio com a Pessoa e a Palavra de Jesus, que vemos e acolhemos em cada Eucaristia, quando a Palavra é proclamada, acolhida e vivida, e o Pão é comungado e o quotidiano Eucaristizado!

Urge que Palavra de Deus caia em nosso coração, germine, floresça e frutifique, na confiança, esperança, humildade e paciência, como a mais bela expressão de uma frutuosa relação de amor com Deus.

Concluo:

Venha, Senhor, o Vosso Reino, rezamos.

Venha, Senhor, o Vosso Reino, anunciamos.

Venha, Senhor, o Vosso Reino, testemunhamos.

Postado por Dom Otacilio F. Lacerda

Iluminados pela “Verbum Domini”, alegria Pascal transbordante

Vivendo o Tempo Comum, sejamos cada vez mais fortalecidos pela Palavra, que é fonte divina de nossa conversão, como discípulos missionários do Senhor, e assim, sejamos iluminados pela “Verbum Domini”, do Papa Emérito Bento XVI (2010).

É pecado de omissão se todos nós, sem exceção, não nos colocarmos diante do apelo da conversão que a Palavra de Deus faz, pois ela é imperativo para todos, ordenados ou não.

Nosso anúncio, sobretudo como presbíteros, seria sem ressonância alguma se antes não nos puséssemos, à escuta atenta do que o Senhor nos diz, sem ignorar as Escrituras, pois ignoraríamos o próprio Cristo, como bem disse São Jerônimo e São João Paulo II – “A Palavra de Deus é indispensável para formar o coração de um bom pastor, Ministro da Palavra” – VD 78.

Quanto aos fiéis cristãos leigos e leigas, afirma “Compete, sobretudo, aos fiéis leigos formados na escola do Evangelho intervir diretamente na ação social e política. Por isso o Sínodo recomenda uma adequada educação segundo os princípios da Doutrina Social da Igreja” – VD 100.

Urge que entendamos a conversão, não como um ponto de chegada em si, mas como um caminho permanente a ser percorrido.

Assim como pedimos o pão de cada dia na oração que o Senhor nos ensinou, podemos intuir que a graça da conversão também é suplicada quotidianamente, para que melhor correspondamos à vontade de Deus.

Para que possamos avançar neste santo e inadiável propósito, assim nos diz o Papa, que somente quem se coloca primeiro à escuta da Palavra é que pode depois tornar-se seu anunciador, e não se trata de qualquer anúncio, como ele mesmo nos diz:

“Não se trata de anunciar uma palavra anestesiante, mas desinstaladora, que chama à conversão, que torna acessível o encontro com Ele, através do qual floresce a humanidade nova” – VD 93.

Com isto, torna-se o aprofundamento de nossa familiaridade com a Palavra de Deus “ … O nosso relacionamento pessoal e comunitário com Deus depende do incremento da nossa familiaridade com a Palavra de Deus” – VD 124.

Deste modo, a Igreja será incansável neste anúncio –  “A Igreja, segura da fidelidade do seu Senhor, não se cansa de anunciar a boa nova do Evangelho e convida todos os cristãos a redescobrirem o fascínio de seguir Cristo.” – VD 96.

Imprescindível se faz a participação na Eucaristia, pois  “A Eucaristia abre-nos à inteligência da Sagrada Escritura, como esta, por sua vez, ilumina e explica o Mistério Eucarístico” – VD 55.

Apresenta-nos Maria, como modelo de escuta crente da Palavra Divina que muito pode nos ajudar na conversão e vivência da Palavra Divina: “No nosso tempo, é preciso que os fiéis sejam ajudados a descobrir melhor a ligação entre Maria de Nazaré e a escuta crente da Palavra Divina” – VD 27.

Tenhamos a Palavra de Deus como centro de nossa espiritualidade, pois ela é fonte da Evangelização, inseparavelmente da Eucaristia que celebramos.

Jamais nos acomodemos no Seu conhecimento, acolhimento e vivência. Palavra de Deus não apenas para ser conhecida, mas acolhida, encarnada e vivida, como sementes que se plantam para florescer já no tempo presente, reconstruindo o Paraíso, não como estéril saudosismo, mas como compromissos intransferíveis.

Vivamo-La, dando razão de nossa esperança ao mundo; artífices da caridade porque crentes na força e eficácia da Palavra (Hb 4,12).

Que a conversão seja para nós o eterno começo na abertura e acolhida da Palavra, tendo como anseio mais profunda a glória da eternidade.

Por ora, como peregrinos longe do Senhor e com Ele mais perto de nós, do que nós a nós mesmos caminhemos sem hesitação para meta: “Convertei-vos e crede no Evangelho…”, e ainda: “Convertei-vos porque o Reino de Deus está perto…”. 

Caminhemos com Ele, vivo e glorioso em nosso meio: “…Por que procurais entre os mortos Aquele que vive? Ele não está aqui; ressuscitou…” (Lc 24,5-6).  Aleluia! 

 

Postado por Dom Otacilio F. Lacerda em:

http://peotacilio.blogspot.com/2020/04/iluminados-pela-verbum-domini.html

O desafio da Evangelização na rede – Dom Otacilio F. de Lacerda

Retomando a citação do Papa Emérito Bento XVI em que ele ressalta a missão da Igreja que é chamada a “… descobrir, também na cultura digital, símbolos e metamorfoses significativas para as pessoas, que possam ser uma ajuda para falar do Reino de Deus ao homem contemporâneo.”, faço uma breve reflexão.

Tenho experimentado a força deste espaço… Quanto bem tem levado a muitas pessoas, conhecidas ou não (esta é uma das múltiplas faces da cultura digital, que nos desafia e nos aproxima).

Evidentemente, tanto aqui como no contato pessoal, com pequenos grupos ou grande número de pessoas em Assembleias, a Palavra é a mesma a ser anunciada e deve ser feito sempre com o mesmo amor.

A cultura digital tem seu fascínio, seu encanto, mas não dispensa o contato pessoal. Impressionante a intuição e a coragem do Papa na busca da compreensão da cultura digital, mais ainda a motivação para que não nos furtemos dela, não sejamos omissos. Haveremos de ser criativos e usar os meios lícitos e pertinentes para comunicar a Boa Nova do Evangelho, sem jamais o trair.

Quais símbolos e metamorfoses significativas haveremos de descobrir e utilizar para que cada letra, cada palavra, cada texto postado ou quaisquer outros trabalhos maiores realizados favoreçam a conversão e a transformação das pessoas, como alegre sinal do Reino a ser anunciado e construído?

Como ajudar, através da cultura digital, a realização do homem contemporâneo sem jamais se distanciar da verdade de Jesus Cristo, da Igreja e do homem?

Por isto manifesto mais uma vez meu anseio que o leitor não apenas visite este blog- http://peotacilio.blogspot.com – mas faça dele um momento forte de oração revitalizando-se no essencial de Deus que é o Amor, e assim amar como Ele ama.

O mundo será mais belo se aprendermos a amar como Deus nos ama, sem nenhum acréscimo e nenhuma complicação. Amar na medida do Amor de Deus, se é que podemos falar em medida…

Ter Sal em nós é preciso para dar ao mundo novo sabor. Ser Luz nas mais diversas situações obscuras, nas “cavernas sombrias e escuras” da existência. Não podemos esconder a luz sob a mesa, tão pouco deixar o sal perder seu sabor, há muito Ele nos advertiu.

Anunciar a Boa Nova do Evangelho é preciso, sobre os telhados, como já anunciara o Senhor.

Quais os esforços que realizamos para a compreensão da cultura digital?

De que modo ela com seus símbolos e recursos beirando o infinito podem ajudar a tornar homens e mulheres mais felizes?

Como tornar na cultura digital o Evangelho verdadeiramente uma Boa Nova para homem e mulher contemporâneos?

Alguns princípios não podemos perder de vista, que são acima de tudo pautados no Evangelho e dentre os quais destacamos: amor, verdade, justiça, liberdade, fraternidade, comunhão, respeito, solidariedade, paz, felicidade…

Que a cultura digital não contratestemunhe a própria cultura, que consiste em criar laços de comunhão, no respeito às diferenças, promovendo a realização da pessoa consigo mesma, com o outro e com Deus.

Há um imenso mar a ser descoberto. E, assim é o mar: quanto mais profundo for o mergulho, mais belos e encantadores serão seus mistérios.

PS: Citação extraída da mensagem intitulada “Verdade, anúncio e autenticidade de vida na era digital”, do 45º Dia Mundial das Comunicações Sociais (2011)

http://peotacilio.blogspot.com/2020/06/o-desafio-da-evangelizacao-na-rede.html

 

A Amizade Divina e a felicidade desejada – Homilia- 10º Domingo do Tempo Comum -Ano B.

A Amizade Divina e a felicidade desejada
A Liturgia do décimo Domingo do Tempo Comum (ano B) nos convida a refletir sobre o Projeto de Deus oferecido à humanidade e a liberdade de nossa resposta. Podemos optar pelo bem ou pelo mal, pela pertença ou não de Sua família; tendo como critério para a pertença a realização da Sua vontade.
A passagem da primeira leitura (Gn 3,9-15) retrata a criação de uma forma essencialmente catequética, a partir dos nossos primeiros pais (Adão e Eva), nos oferece a oportunidade de  refletir sobre o que acontece quando rejeitamos as propostas de Deus e preferimos os caminhos do egoísmo, do orgulho e da autossuficiência.

Inevitavelmente quando vivemos à margem de Deus trilhamos caminhos amargos de sofrimento, destruição, infelicidade e morte.

O mal no mundo não tem origem em Deus, mas resulta de nossas escolhas erradas, do mau uso de nossa liberdade, de modo que é impossível o encontro da felicidade quando se prescinde de Deus, da Sua amizade, do Seu bem querer para todos nós: a felicidade plena e eterna.
Prescindir de Deus leva a duas consequências extremamente negativas: a hostilidade para com o outro e a inimizade com toda a criação.
Sem uma relação profunda e sincera com Deus, nos desencontramos e nos perdemos em relação a nós mesmos, em relação ao outro e ao mundo que nos cerca. Numa palavra, sem Deus não há felicidade possível.
Sem a amizade divina, somos imersos num lamaçal de mediocridade e infelicidade; na areia movediça do orgulho, do vazio, da inutilidade, da depressão, da vida sem sentido.
Sem a amizade divina, o encontro sofrível com a escuridão eterna. Rejeitar o Amor de Deus é fechar a porta para a felicidade e a eternidade.
Na passagem da segunda Leitura (2Cor 4,13-5,1), com o Apóstolo Paulo, aprendemos que viver somente tem sentido na perspectiva da Ressurreição, numa vida cristã coerente, agindo como verdadeiros discípulos missionários do Senhor.
O Apóstolo ainda nos assegura que a fé no Ressuscitado, crer em Sua presença, contando com a força e a vida do Espírito, na fidelidade a Deus que nos criou e nos ama, nossa esperança é sustentada e nossa caridade animada, na provisoriedade e brevidade de nossa existência.
Com a passagem do Evangelho (Mc 3,20-35), contemplamos a ação de Jesus em favor da vida, com aceitação de uns, rejeição e incompreensão de outros.
A cena se passa numa casa: há os que ficam do lado de fora e os que estão dentro. Há sempre aqueles que são arredios, os que ficam à porta, são os que chamamos de “católicos não praticantes”. Há aqueles que fazem parte da família de Deus, porque compreenderam a lógica desta pertença, que consiste em fazer a Sua vontade em qualquer tempo e em qualquer lugar.
Com a passagem do Evangelho, refletimos sobre a liberdade que Deus nos concede,  fazer a melhor escolha, ou seja, tudo fazer para pertencer à família de Deus, crendo na Vida Trinitária, inseridos e comprometidos com esta Comunhão Maior, promovendo e fortalecendo as outras tantas comunhões necessárias, na família, no mundo e em todo lugar.
Somente no fazer a vontade de Deus nossa felicidade se realiza. Somente neste “fazer” é que seremos autênticas testemunhas do Ressuscitado e viveremos a relação de nossos pais no Paraíso, não mais como saudade de algo que se perdeu, mas como algo que pode ser reconquistado, vivido e no céu eternizado.
Nunca voltar ao paraíso pela saudade, mas tê-lo na mente e no coração, para que nos alavanque para águas mais profundas. Jardins belos e férteis, Deus nos tem preparado, pois foi para isto que, pelo Filho, nos criou.
Somente quem entra no movimento do Espírito, o Movimento do Amor, redescobre que o Paraíso existe e é possível; de modo que, usando a liberdade que Deus nos deu, façamos nossas escolhas, saibamos a vontade de Deus realizar.
http://peotacilio.blogspot.com/2020/02/a-amizade-divina-e-felicidade-desejada.html

Ó precioso e admirável Banquete de Amor e Eternidade! – Corpus Christi

Aprofundemos sobre o inesgotável Mistério da Eucaristia, à luz das Obras do Presbítero Santo Tomás de Aquino (Séc. XIII).

“O unigênito Filho de Deus, querendo fazer-nos participantes da Sua Divindade, assumiu nossa natureza, para que, feito homem, dos homens fizesse deuses.

Assim, tudo quanto assumiu da nossa natureza humana, empregou-o para nossa salvação. Seu corpo, por exemplo, e o ofereceu a Deus Pai como sacrifício no Altar da Cruz, para nossa reconciliação; Seu sangue, Ele o derramou ao mesmo tempo como preço do nosso resgate e purificação de todos os nossos pecados.

Mas, a fim de que permanecesse para sempre entre nós o memorial de tão imenso benefício, Ele deixou aos fiéis, sob as aparências do pão e do vinho, o Seu Corpo como Alimento e o Seu Sangue como Bebida.

Ó precioso e admirável Banquete, Fonte de salvação e repleto de toda suavidade!

Que há de mais precioso que este Banquete? Nele, já não é mais a carne de novilhos e cabritos que nos é dada a comer, como na antiga Lei, mas é o próprio Cristo, verdadeiro Deus, que Se nos dá em Alimento.

Poderia haver algo de mais admirável que este Sacramento? De fato, nenhum outro Sacramento é mais salutar do que este; nele os pecados são destruídos, crescem as virtudes e a alma é plenamente saciada de todos os dons espirituais.

É oferecido na Igreja pelos vivos e pelos mortos, para que aproveite a todos o que foi instituído para a salvação de todos.

Ninguém seria capaz de expressar a suavidade deste Sacramento; nele se pode saborear a doçura espiritual em sua própria fonte; e torna-se presente a memória daquele imenso e inefável Amor que Cristo demonstrou para conosco em Sua Paixão.

Enfim, para que a imensidade deste amor ficasse mais profundamente gravada nos corações dos fiéis, Cristo instituiu este Sacramento durante a última Ceia, quando, ao celebrar a Páscoa com Seus discípulos, estava prestes a passar deste mundo para o Pai.

A Eucaristia é o memorial perene da Sua Paixão, o cumprimento perfeito das figuras da Antiga Aliança e o maior de todos os milagres que Cristo realizou. É ainda singular conforto que Ele deixou para os que se entristecem com Sua ausência”. (1)

                                                                                                 Ó precioso e admirável Banquete de Amor e Eternidade!

Como não mergulhar na profundidade desta afirmação:

“De fato, nenhum outro Sacramento é mais salutar do que este;
nele os pecados são destruídos, crescem as virtudes
e a alma é plenamente saciada de todos os dons espirituais”?

Ó precioso e admirável Banquete de Amor e Eternidade,

no qual nossos pecados são destruídos,

nova criatura nos tornamos,

porque pelo Sangue purificados e redimidos!

Ó precioso e admirável Banquete de Amor e Eternidade,
no qual crescem as virtudes que nos assemelham mais ainda

Àquele que nos criou, Àquele que nos salvou,

Àquele que nos santificou: Trindade Santíssima!

Ó precioso e admirável Banquete de Amor e Eternidade,
no qual nossa alma é plenamente saciada de todos os dons espirituais.
Nada nos falta porque na Eucaristia temos o Todo e o Tudo,

por isto fonte e ápice de nossa vida.

Ó precioso e admirável Banquete de Amor e Eternidade…

Quem a Deus no coração contempla nada lhe falta:

É plenamente feliz, saciado, divinizado!

Ó precioso e admirável Banquete de Amor e Eternidade!

Exclamemos incansavelmente!

Amém!

(1) Lit. das Horas – Vol.III – pág. 550-551.

Pentecostes: O Espírito Santo de Deus nos foi enviado -Homilia.

“Assim como o Pai Me enviou, também

Eu vos envio a vós. Recebei o Espírito Santo”

Com a Solenidade de Pentecostes, celebramos o nascimento da Igreja e acolhida do Espírito Santo para acompanhá-la, conduzi-la e assisti-la em sua missão.

O Espírito Santo é o Dom dado por Deus a todos que creem, comunicando vida, renovação, transformação, possibilitando o nascimento do Homem Novo e a formação da Comunidade Eclesial – a Igreja.

Com a Sua presença a Igreja testemunha a vida e a vitória do Ressuscitado, nisto consiste a missão da comunidade: realizar com a presença e ação do Espírito Santo, que é a fonte de todos os dons, colocando-os a serviço de todos e não para benefício pessoal.

Lucas, na passagem da primeira Leitura (At 2,1-11), nos apresenta a comunidade que nasce do Ressuscitado, que é assistida pelo Espírito Santo e chamada a testemunhar a todos os povos o Projeto Libertador do Pai.

A Festa de Pentecostes que antes era uma festa agrícola (colheita da cevada e do trigo), a colheita dos primeiros frutos, ganhou novo sentido, tornou-se a festa histórica da celebração da Aliança, da acolhida do dom da Lei no Sinai e a Constituição do Povo de Deus. Mas, o mais belo e verdadeiro sentido é a celebração da acolhida do Espírito Santo.

Contemplemos o grande Pentecostes cinquenta dias após a Páscoa. O Espírito é apresentado em forma de língua de fogo, que consiste na linguagem do amor. Verdadeiramente a linguagem do Espírito é o amor que torna possível a comunhão universal.

Caberá à comunidade construir a anti-Babel, a humanidade nova, que pauta a existência pela ação do Espírito Santo que reside no coração de todos como Lei suprema, como fonte de amor e de liberdade.

Reflitamos:

– Somos uma comunidade do Ressuscitado?

– Nossa comunidade é marcada por relações de amor e partilha?

– Empenhamo-nos em aprender a língua do Espírito, a linguagem do Amor?

– Qual é o espaço do Espírito Santo em nossas comunidades?

– Temos sido renovados pelo Espírito, orientando e animando nossa vida por Sua ação e manifestação?

– Somos uma comunidade que vive a unidade na diversidade, com liberdade e respeito?

Na passagem da segunda Leitura (1 Cor 12, 3-b-7.12-13), o Apóstolo nos fala de uma comunidade viva, fervorosa, mas com partidos, divisões e rivalidades entre os seus membros, e até mesmo certa hierarquia de categoria de cristãos.

Também aponta à importância da diversidade dos carismas. Porém, um só é o Senhor, um só é o Espírito do qual todos os dons procedem.

Insiste na unidade da comunidade como um corpo, onde todos têm sua importância, sua participação, cientes de que é a ação do Espírito que dá vida ao Corpo de Cristo, fomenta a coesão, dinamiza a fraternidade e é fonte da verdadeira unidade.

Afasta-se com isto toda possibilidade de prepotência e autoritarismo dentro da Igreja:

“O dom do Espírito habilita o crente batizado a colocar as suas qualidades e aptidões ao serviço do crescimento e da vitalidade da Igreja.

Ninguém é inútil e estéril na Igreja quando se deixa guiar pelo Espírito de Deus que atua para o bem de todos.

O único obstáculo à ação vivificadora do Espírito é a tendência a considerar os seus dons como um direito de propriedade e não um compromisso ao serviço e à partilha recíproca”. (1)

Reflitamos:

– Verdadeiramente, o Espírito Santo é o grande Protagonista da ação evangelizadora da Igreja?

– Colocamos com alegria os dons que possuímos a serviço do bem da comunidade e não a serviço próprio?

Na passagem do Evangelho (Jo 20,19-23), o Evangelista nos apresenta a manifestação do Ressuscitado e a Sua presença que enriquece a Igreja reunida com o dom da paz, da alegria e do Espírito Santo para gerar relações de perdão que cria a humanidade nova.

Deste modo, a comunidade deve romper os medos, as incertezas, as inseguranças, pois o Ressuscitado entra, mesmo que as portas estejam fechadas. Nada pode impedir a Sua ação, coloca-se no centro, pois somente Ele deve ser o centro de nossa vida e de nossa comunidade.

E ainda mais: não adoramos um Deus em que as Chagas Dolorosas tiveram a última palavra, mas adoramos ao Deus das Chagas Vitoriosas do Ressuscitado. A vida venceu a morte, e n’Ele e com Ele somos mais que vencedores (Rm 8,37-39).

Contemplemos as maravilhas de Deus, que são inesgotáveis e indizíveis:

– podemos contar com a ação e o sopro do Espírito Santo, com Sua força e defesa em nossa missão evangelizadora;

– a presença do sopro rejuvenescedor do Espírito Santo, que não permite o envelhecimento e a perda da vitalidade da Igreja por Cristo fundada, e por amor, continuamente, na Eucaristia alimentada;

– confia-nos a continuidade da graça da missão do Ressuscitado, com a força do Espírito, como Suas autênticas testemunhas;

– a graça de participarmos dos Mistérios Sagrados da Igreja, que aos poucos se nos revelam como maravilhoso Mistério incandescente; Mistério da presença da Chama viva de Amor revelada pelo Espírito Santo de Deus.

Embora não tenhamos visto Jesus Ressuscitado, nem O tenhamos tocado, n’Ele cremos, Sua Palavra anunciamos, em Sua Vida e presença em nosso meio acreditamos, a força e a vida nova do Espírito continuamente experimentamos e testemunhamos.

Celebremos, exultantes, a Solenidade de Pentecostes, de modo que a alegria divina transbordará em nosso coração, e nosso coração será inflamado do Seu Amor;

Alegremo-nos e exultemos no Senhor Ressuscitado, que nos comunica o Seu Espírito para maior fidelidade ao Projeto de vida e de Amor do Pai.

(1) Lecionário comentado – Tempo da Páscoa – p.660.

Postado por Dom Otacilio F. Lacerda

Ascensão: Jesus caminha conosco! Homilia – Solenidade da Ascensão do Senhor

 “Foi elevado ao Céu e sentou-Se

à direita de Deus” (Mc 16,19)

A Solenidade da Ascensão aponta para o fim último de todos nós, a comunhão com Deus, o Céu.

As Leituras proclamadas nos convidam à superação da passividade alienante. É preciso ir para o meio do mundo, como sal, luz e fermento. Levar a humanidade a viver a comunhão querida por Deus, a fim de que todos sejamos um em Cristo Jesus.

Deste modo, é preciso assumir com coragem, no tempo presente, a missão por Deus a nós confiada: anunciar o Evangelho a todos os povos, empenhados decididamente no Projeto de Salvação Divina.

À Igreja portadora da plenitude de Cristo nada falta para cumprir esta missão.A ida de Jesus para o Céu, não é a afirmação de Sua partida e ausência, mas é a garantia de Sua eterna presença conosco até que Ele venha pela segunda vez, como afirmamos na Missa: “Anunciamos Senhor a Vossa morte e proclamamos a Vossa Ressurreição, vinde Senhor Jesus”.

A passagem da primeira Leitura (At 1,1-11) retrata uma comunidade que vive num contexto de crise, desilusão e frustração. O tempo vai passando e não vê realizar o Projeto Salvador. Quando será enfim realizado?

São Lucas, autor dos Atos dos Apóstolos, escreve em tons de catequese sólida, substancial, para que a comunidade não vacile na fé, não esmoreça na esperança e nem esfrie na caridade.

A construção do Reino exige empenho contínuo e nisto consiste o papel da comunidade formada por aqueles que creem e se afirmam cristãos.

Lucas escreve a Teófilo (aqueles que são amados por Deus = amigos de Deus) apresentando o Protagonista maior da Evangelização que é o Espírito Santo e conta com a participação e ação dos Apóstolos.

Ele apresenta a Ascensão quarenta dias depois da Ressurreição. Quarenta é um número simbólico, define o tempo necessário para que um discípulo possa aprender e repetir com fidelidade e coragem as lições do Mestre.

Os sinais e palavras nos revelam mensagens maravilhosas:

– A elevação aos céus – trata-se do culminar de uma vida;

– A nuvem – sempre um sinal teofânico (manifestação de Deus);

– Olhar para o céu – acena para a segunda vinda de Cristo, que não devemos esperar de braços cruzados;

– Dois homens vestidos de branco – anunciam o mundo de Deus.

A Festa da Ascensão é, portanto, a urgência de não ficar apenas admirando, mas nos colocarmos constantemente a caminho, com renovados compromissos com o Projeto da Salvação.

Reflitamos:

– Tenho sido fiel à missão que o Senhor me confiou?

– O que gero com o meu testemunho nos diversos âmbitos em que vivo?

– Quais são meus compromissos solidários na transformação do mundo?

– Fico a olhar para o céu ou me comprometo com a transformação em todos os níveis?

A passagem da segunda Leitura (Ef 1,17-23) é uma Carta em que encontramos a síntese da teologia paulina. Paulo fala da comunidade como um corpo. Cristo é a cabeça e a Igreja é o corpo. Nisto consiste o “pleroma”, ou seja, na Igreja reside a plenitude, a totalidade de Cristo.

A Igreja é a habitação onde Cristo Se torna presente no mundo. Estando Cristo presente neste Corpo, Ele enche o mundo e atrai a Si o universo inteiro, até que Ele “seja tudo em todos” (Ef 1, 23).

A Ressurreição/Ascensão/Glorificação de Jesus é a garantia da nossa própria ressurreição/glorificação, por isto é preciso avançar no caminho superando as dificuldades.

Neste sentido, entendemos a conclusão do Evangelho proclamado (Mc 16,15-20). Possivelmente um acréscimo posterior à redação, escrito com o intuito de afastar todo medo da comunidade, para ajudá-la a superar a sua acomodação, instalação, afastando também toda perspectiva de recuo, desistência na árdua e maravilhosa missão do anúncio da Boa Nova.

Jesus voltando para o Pai, e ficando para sempre no meio dos Seus discípulos, confia a eles a continuidade da missão.

Deste modo, com a Ascensão podemos afirmar que Jesus cumpriu plenamente a Sua missão e reentrou na comunhão do Pai, e assim dá início a nossa missão.

Ele sentou-Se à direita do Pai para reinar sobre tudo e todos, através da missão dos discípulos.

Que a Solenidade da Ascensão seja a nossa tomada de consciência do quanto Deus em nós confia.

Reflitamos:

– Tenho consciência da universalidade da missão?

– Como discípulo, procuro aprender, assimilar e viver os ensinamentos de Jesus para que a missão tenha crédito e seja uma luz para o mundo?

– A vida dos discípulos não está livre da desilusão, sofrimento, frustração… Mas também está presente uma certeza que alimenta a coragem do que cremos: “Eu estarei convosco até o fim dos tempos”. Tenho viva esta certeza em meu coração?

– No seguimento de Jesus não podemos nos instalar. Ser cristão é ser pessoa do tempo, sem medo de novidades. Estou instalado, acomodado, de braços cruzados, ou fascinado por Cristo e pela missão confiada?

– Procuro a sabedoria e força do Espírito para corresponder à altura?

– Ser cristão é ser alguém que deixou se levar pelo grande sopro do Espírito; é saber que pode contar com Ele na missão.

– Quais são os medos que temos a enfrentar no desempenhar na missão evangelizadora?

– Sentimos a presença do Ressuscitado em nossa missão?

– Temos sentimentos de gratidão pela confiança de Deus em nós depositada para levar adiante a missão?

Celebrar a Solenidade da Ascensão do Senhor é afirmar uma bela verdade de nossa fé: A Ascensão do Senhor liga-se, necessariamente, à Sua Encarnação, e comunica o seu significado autêntico: O Filho de Deus tornou-Se como nós para nos tornar como Ele.

Mais claramente celebraremos esta presença na Festa de Pentecostes, quando o Espírito Santo nos for derramado, como dom de Amor do Pai, para continuarmos, fiéis na Missão do Cristo, na mais profunda e frutuosa vivência do Amor e da Vida Trinitária.

Como pessoas que creem, deixemos de olhar para o céu, não façamos do cristianismo uma “agência de serviços sociais”, não meçamos esforços para encontrar Cristo, tanto na Palavra como na Eucaristia e nos demais Sacramentos, para que então renovados, revigorados, nos empenhemos apaixonadamente por Cristo na construção do Reino de Deus com a presença e ação do Espírito Santo.

Postado por Dom Otacilio F. Lacerda

http://peotacilio.blogspot.com/2020/05/ascensao-jesus-caminha-conosco.html

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