Se o desperdício não morrer… a vida não brotará

Busco inspiração no Evangelho de João, mais exatamente na narrativa do encontro entre Jesus e a Samaritana na fonte, na nascente, digo no poço de Jacó para um alerta relativo ao Dia Mundial da Água, comemorado anualmente em 22 de março. Se no texto bíblico a graça da salvação é comparada por Cristo com a Água da Vida, só isso já elevaria a nossa preocupação com o que fazemos com o precioso líquido, sem o qual definhamos, secamos… sem o qual não há vida neste planeta água chamado Terra.

Diante da atual campanha da fraternidade que nos leva a refletir sobre a fraternidade e políticas públicas, o tema ganha uma dimensão agigantada e urgente. Já que muitos de nós, só nos lembramos da responsabilidade individual com as fontes, com a natureza em si – dons que recebemos do Criador – quando a escassez nos assusta. Assim, sob o foco do “serás libertado pelo direito e pela justiça”, cabe lembrar que o direito de todo cidadão é apenas um dos lados do conjunto que nos leva à justiça, à democracia e à liberdade numa vida em sociedade.

Mergulhemos então, novamente na Água da Vida! Conhecido como “príncipe dos pregadores”, Charles H. Spurgeon um destacado evangelista cristão do século 19, em um de seus sermões diria que “a Graça de Deus no mundo mental e espiritual é exatamente o que a água é no mundo natural”. A analogia usa o elemento essencial para a vida no mundo natural, para facilitar o entendimento do que a Graça Divina é para o ser humano.

Refletindo sobre a cena da Samaritana diante da fonte da Água da Vida, Spurgeon dizia que o ser humano, depende da água já que parte de seu corpo físico é formado por ela e, sem ela é pó. No entanto, já sabemos que mesmo assim, em certas ocasiões pode até negligenciá-la, desperdiçá-la, poluí-la, secá-la, crucificá-la quando alaga nossas casas. Em outras ocasiões a água é uma necessidade imperativa. Devemos beber ou morrer.

O famoso pregador, dizia que a Graça de Deus é como a água em nada menos do que em oito sentidos. O principal é que sacia a sede. No entanto o ser humano é tão tolo que não sabe, o que seu corpo e seu espírito necessitam, mas ele sente que precisa de algo… Se tem conhecimento exato ou não de suas necessidades, o fato é que levado por tantos outros interesses, costumamos deixar de lado tanto a Graça quanto a Água. Desperdiçamos, usamos com ganância, sem respeito às leis da natureza e as regras do meio ambiente em que vivemos.

Mas não estamos aqui eternamente. Se a chance de receber a Graça de Deus, para nós tem tempo curto, penso que as fontes de água deste planeta Terra, podem acabar se secando para nós. Exagero? Não seria nada cristão pensar assim. Isso nos leva a não compartilhar, a não pensar que depois de nós, outros vão precisar do poço, da nascente, da fonte de H²O.

No ano passado, a ONU – Organização das Nações Unidas, focou as reflexões sobre o Dia Mundial da Água, no uso de soluções baseadas no próprio meio ambiente para resolver problemas de gestão dos recursos hídricos. Com a campanha “A resposta está na natureza”, reforçou estratégias de preservação e restauração ambiental para proteger o ciclo da água e melhorar a qualidade de vida da população.

Segundo dados da ONU, o uso doméstico da água doce representa apenas 10% do consumo total, e a proporção de água potável que é bebida pela população equivale a menos de 1%. Por outro lado, a agricultura é responsável por 70% do consumo de recursos hídricos — a maior parte vai para a irrigação das plantações. O que aumenta em áreas com maior densidade populacional e falta d’água. O campo é seguido pela indústria, que responde por 20% da água utilizada em atividades humanas.

Com as transformações do clima e a manutenção de padrões insustentáveis de produção e extração de minérios, a poluição e a desigualdade na distribuição vão se agravando, bem como os desastres associados à gestão da água.
Hoje, 1,9 bilhão de indivíduos vivem em áreas que poderão ter escassez severa de água. Até 2050, o número pode chegar a cerca de 3 bilhões. Aproximadamente 1,8 bilhão de pessoas já são afetadas pela degradação da terra e pelo fenômeno conhecido como desertificação.

O território brasileiro contém cerca de 12% de toda a água doce do planeta. Ao todo, são 200 mil microbacias espalhadas em 12 regiões hidrográficas, como as bacias do São Francisco, do Paraná e a Amazônica (a mais extensa do mundo e 60% dela localizada no Brasil). É um enorme potencial hídrico, capaz de prover um volume de água por pessoa 19 vezes superior ao mínimo estabelecido pela ONU. Apesar da abundância, os recursos hídricos brasileiros não são inesgotáveis. O acesso à água não é igual para todos. As características geográficas de cada região e as mudanças de vazão dos rios afetam a distribuição.

Dito isso, creio que os leitores já encontraram a justificativa do título que usei para este artigo, que faz uma referência a outro trecho do Evangelho de (João 12:23-25). Ele fala da necessidade do grão de trigo, morrer ao cair na terra, para poder germinar e contribuir com uma nova vida. Assim, peçamos a Deus que nos ajude a enterrar o desperdício de água, que deixando o desperdício na terra frutifiquemos mais estratégias de restauração e preservação ambiental. Que ao sepultar o costume do desperdício deixemos germinar a proteção ao ciclo da água da qualidade de vida.

Evandro José de Alvarenga é Jornalista –
Vereador em Guanhães e oficineiro voluntário no CRAS

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