Diocese de Guanhães- 32 anos – “Que estejamos todos firmes e atentos para abraçar nosso destino, sendo solo fértil para germinar a resposta exata entre o que temos no coração com as sementes que o vento traz…”

 O personagem Hamlet – um dos mais complexos e completos de toda a literatura mundial, o chamado poeta nacional da Inglaterra, dizia ao amigo Horácio, um estudante que buscava o sentido da vida: Há mais coisas no céu e terra, Horácio, do que foram sonhadas na sua filosofia. Até hoje, toda vez que alguém lê um poema de Shakespeare, que viveu apenas 52 anos, entre abril de 1564 e abril de 1616, é levado ao espanto. Toda vez que alguém assiste a uma peça dele, ou que tenta teatralizar seus escritos, será obrigado a se confrontar com essa grande questão: nosso conhecimento é tudo?

 E cada vez que ousarmos ser sábios teremos motivos para descobrir que estamos muito longe, não só da verdade de todos os fatos, mas principalmente da verdade que liga o que sentimos, ao que somos: corpo, alma e espírito a procura de um encontro talvez com nós mesmos.  Quando leio Shakespere e ouço Bob Dylan penso que somos todos ao mesmo tempo, caminhante, caminho e destino, que um dia descobriremos que somos nada mais que o pó da estrada, o pó que é levado pelo vento… aí sim descansaremos em paz e eterna alegria. Penso, por isso não desisto.

Que vento O músico Bob Dylan, um dos maiores ícones da música moderna mundial, na canção com a qual entramos nesta prosa se questionava: Quantas estradas um homem precisa andar, Antes que possam chamá-lo de homem? Quantos mares uma pomba branca precisa sobrevoar, Antes que ela possa descansar na areia? Sim, e quantas balas de canhão precisam voar, Até serem para sempre banidas?A resposta, meu amigo, está soprando ao vento…

E agora, nós nos perguntamos que vento é esse que traz respostas que não ouvimos? Não seria o vento que sopra agora nos levando, ou seja, levando o pó desta terra de São Miguel e Almas de Guanhães? Não estaria portanto, a resposta, em nós mesmos que somos pó? Em mim, em você, em cada um de nós seres humanos?

Não seria o vento o tempo que passa por nós todos os dias, trazendo chuva em pleno outono, mostrando as mais diversas possibilidades de paisagens que vemos mas não sentimos?

Na última terça-feira, li um trecho da homilia de posse de dom Felippe, o primeiro Bispo da diocese de Guanhães. No dia primeiro de maio de 1986, no dia em que oficialmente foi criada esta diocese, ele falava sobre a importância do ser humano. Sobre o direito de cada ser humano, de cada trabalhador se reunir e se organizar para não se tornar escravo num mundo capitalista. Falava que o ser humano ético que dá dignidade a tudo que faz, seja como trabalho remunerado, de onde tira seu sustento, seja como trabalho voluntário em prol da comunidade.

Pois é há 32 anos, em Guanhães, muito antes da emissora – Guanhães FM se tornar Rádio Vida FM por meio da Diocese ligada a forma católica de anunciar as boas novas, Dom Felippe já falava, como profeta de fato, das coisas reais. Coisas que na época costumavam passar despercebidas por muitos de nós, que agora sentimos na pele. O medo da fome, do desemprego, o medo da desigualdade cada vez maior, o medo da violência, o medo do preconceito, da falta de garantia para os direitos sociais e constitucionais… Tudo isso, além é claro da necessidade de organização do povo de Deus para produzir, caminho, respostas enquanto caminhantes, marcou os primeiros anos desta diocese.

No nono ano da criação da Diocese de Guanhães, no começo de fevereiro de 1995, Dom Felippe renuncia ao governo, ou seja, deixou as suas funções por causa de graves problemas de saúde. Um mês depois da renúncia, a segunda edição do jornal Folha Diocesana dava adeus ao seu primeiro Bispo. Naquele ano de 1995, Guanhães sofria um tipo de recessão ampliada, provocada, coincidentemente por uma gestão equivocada e lastimável do Naquele ano, quando políticos auto-proclamados como pais dos pobres abusavam da boa fé das pessoas simples,a Diocese de Guanhães já atuava por meio de suas pastorais, dentre elas a carcerária, a da saúde e a multidisciplinar pastoral da criança, como verdadeiro hospital preventivo, como escola alternativa, e como assistência social permanente. E quantos de nós, hoje, não fomos mantidos longe da desnutrição graças ao trabalho daqueles leigos que todo mês nos pesavam, nos forneciam algum tipo de complemento alimentar, orientavam nossas famílias sobre a importância do leite materno, da alimentação natural e sobre a cura de doenças por meio das plantas?

O bom semeador nem sempre está em destaque na sociedade, ele é o que, mesmo chorando e sofrendo lança a semente, aproveitando o vento, digo o tempo. Ele é o que ceifa e faz com que toda uma geração possa colher também, com alegria. Esta diocese tem sido isso nos seus 32 anos de história. Basta uma breve leitura nos arquivos da diocese, em especial às nas cartas de Dom Felippe,às edições do jornal folha Diocesana, para se ter a exata dimensão dela.

Aliás, a Folha Diocesana desde suas primeiras edições, foram editadas e diagramadas pelos jovens seminaristas e jovens padres, quase todos incentivados e inspirados pelo trabalho do primeiro nosso primeiro Bispo Diocesano . Hoje, a Comunicação que também é uma pastoral, segue como fruto do trabalho inicial do editor chefe, Padre Ismar e tantos outros colaboradores. Abrem espaço para a conscientização política, questões ambientais, combate à violência, defesa da democracia e dos direitos humanos e sociais, enfim para debater as principais questões que afetam o ser humano de nossa região.

Também fruto disso, a Rádio Vida nova FM, tem destacado durante a programação desta semana que antecede ao aniversário da Diocese, entrevistas recentes com todos os principais coadjuvantes desta história.  Destaco aqui, de forma bem oportuna trechos da sexta edição da Folha Diocesana, publicada em outubro de 1995 – a entrevista realizada pelo redator chefe, padre Ismar Dias de Matos com o padre Saint Clair Ferreira Filho, pároco de Guanhães desde 1990, que foi administrador diocesano após o afastamento de Dom Felippe, vigário Geral da Diocese por um bom período e hoje pároco São João Evangelista.

Sobre sua inquietude, sobre sua insegurança sobre a preparação no seminário e sobre a convivência com o Bispo que o inspirou e ordenou, Saint Clair disse ainda em 1995: “Minha preparação foi tão fraca… e as esperanças de Dom Felippe eram tão fortes.Tudo isso animava e assustava. Acredito que aí já estão os desafios e dificuldades dos tempos de seminário, foi um tempo de fortes mudanças; costumes centenários caíram por terra, não apenas por serem centenários, mas porque não tinham mais sentido. Exemplo: a mesa dos padres separada, com comidas diferentes por quê?Por que era costume. A mesa acabou desativada. Hoje sinto orgulho por ter participado dessas resoluções à época… Fui considerado questionador, rebelde, mas onde está o erro? Jesus Cristo também foi considerado revolucionário… e morreu por isso”.

Chamou a minha atenção ao ler a entrevista no velho jornal, no começo desta semana este outro trecho da entrevista do ainda jovem padre Saint Clair: “Quantas vezes ele falou sobre a necessidade de um trabalho de equipe de pastores e missionários. Seu sonho, e seu exemplo de fé, não podem ter sido e vão. Enfim, tenho hoje a certeza e alegria de realmente ter convivido com um homem de Deus, que muito ajudou no crescimento da minha fé”.

Hoje, 26 de abril de 2018, aqui estou eu, um cronista voluntário, inspirado pelo pouco que conheço pessoalmente desta história, mas com base no testemunho de minha mãe dona Lucica, junto às pastorais da criança e da saúde, e também na ação incansável militância dos leigos e leigas que convivo, reconhecendo-me como fruto dos bons semeadores que aqui aproveitam o seu tempo.

Se posso fazer parte da dupla comemoração do próximo primeiro de maio, aqui em Guanhães, devo salientar, além do trabalho do semeador padre Saint Clair, a sabedoria do Dom Jeremias. Afinal, entre a semeadura e a colheita há que se regar, adubar, separar o joio do trigo e refazer a refazer o plantio. Para que ninguém perca a chance de caminhar, construir seu caminho e encontrar-se com o Deus que leva dentro de si. Para que ninguém perca o momento antes de ser levado pelo vento como semente encontre solo fértil para germinar as respostas que buscamos, enquanto caminhamos.

Que estejamos todos firmes e atentos para abraçar nosso destino, sendo solo fértil para germinar a resposta exata entre o que temos no coração com as sementes que o vento traz…

Um abraço!

Evandro José de Alvarenga

Crônica exibida pela Rádio Vida Nova FM em 26/04/2018

 

 

 

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