Espiritualidade em tempos de crise

Machucados e maculados estão a política, a ética, a cidadania, a representação parlamentar, embora a economia dê sinais de recuperação

FREI BETTO 16/09/17 – 04h30

O Brasil se parece, hoje, a uma pessoa atropelada por um caminhão e que, apesar de graves ferimentos, escapa viva. Machucados e maculados estão a política, a ética, a cidadania, a representação parlamentar, embora a economia dê sinais de recuperação, malgrado os 14 milhões de desempregados. Dizia Santo Agostinho que a esperança tem duas filhas diletas: a indignação e a coragem. A indignação, para contestar o que não está bem. A coragem, para mudar a situação.

Frente a tão nefasta conjuntura, associada à crescente violência (homicídios, assaltos, drogas), a nação reage com indignação (em conversas e redes digitais) e apatia (nas ruas e movimentos sociais).

A indignação se manifesta em expressões de ódio e desprezo; a apatia, na sensação de que é inútil protestar nas ruas, já que se tirou um governo ruim para dar lugar a outro pior…

O que isso tem a ver com espiritualidade? Ora, dela depende o nosso ânimo. Quando nos deixamos levar pelo niilismo somos tragados pela inércia e pelo individualismo. Essa indiferença corrói a nossa subjetividade, e objetivamente legitima o poder que nos submete a seus degenerados propósitos.

Toda a narrativa bíblica é um libelo à resistência e à esperança. Não há nela um único livro que não retrate o conflito histórico e o embate entre opressores e oprimidos. No entanto, Javé suscita o novo quando em volta tudo parece decrépito: da gestação de Sara, já idosa, à ação libertadora de Moisés contra o faraó em cuja família ele cresceu; da brisa suave de Elias ao pequeno Davi, de quem nada se esperava.

Deus se encarnou em uma conjuntura profundamente conflituosa. A Palestina estava submetida pelo Império Romano. Herodes promoveu o infanticídio. José, Maria e Jesus se refugiaram no Egito. João Batista, assassinado pelo governador Herodes Antipas. Jesus, criticado por fariseus e saduceus; expulso da sinagoga; traído por um dos discípulos; preso, torturado e julgado por dois poderes políticos e executado na cruz. Sua ressurreição, entretanto, comprovou que a justiça prevalecerá sobre a injustiça e a vida sobre a morte.

Tempos de crise requerem a espiritualidade do grão de mostarda: pequeno e insignificante, mas dele pode brotar o que, no futuro, mudará o rumo da história. Espiritualidade do tesouro escondido e de quem sabe que vale a pena cavar o terreno até encontrá-lo. Espiritualidade do cego Bartimeu que, por confiar na ação divina, voltou a ver com clareza.

A espiritualidade é uma atitude subjetiva de paciência histórica e atuação confiante para mudar o atual estado de coisas. Não basta o protesto; urge ter propostas. Não é suficiente reclamar, é preciso agir. De nada vale odiar, falar mal, criticar. Mais vale arregaçar as mangas e, como dizia João Batista, empunhar o machado e centrá-lo na raiz da árvore apodrecida.

A espiritualidade impede introjetar-nos o que ocorre à nossa volta. Não somatizar a realidade circundante. Ao contrário, desse distanciamento brechtiano reunir energias para transformar o velho em novo, o arcaico em moderno, o ceticismo em esperança.

Nos anos de 1960, eu pensava que o meu futuro pessoal haveria de coincidir com o tempo histórico. Hoje, sei que não participarei da colheita, mas faço questão de morrer semente.

O futuro será sempre fruto do que semearmos no presente. Não há saída pela inesperada irrupção de um avatar político nem pelo retrocesso ao passado. A espiritualidade em tempos de crise exige cabeça fria, mente alerta, coração solícito. Não se deixar afogar nas marés negativas.

A História está repleta de exemplos de homens e mulheres que tinham tudo para se enclausurar em seus nichos familiares e profissionais e, no entanto, ousaram erguer a bandeira de um futuro melhor: Gandhi, Luther King, Mandela, Chico Mendes, Zilda Arns e a albanesa Anjezë Gonxhe Bojaxhiu, mais conhecida como madre Teresa de Calcutá.

Aos olhos de seus contemporâneos, Jesus fracassou. Aos olhos da história, marcou definitivamente a História humana. Porque confiou que a menor das sementes se transforma na mais frondosa árvore.

A Palavra do Pastor
Graça e perseverança na missão

Graça e perseverança na missão

 “Tende entre vós o mesmo sentimento que existe em Cristo Jesus” (Fl 2,5) Retomo as iluminadoras palavras do Papa Francisco na...
Read More
Sejamos curados pelo Senhor – Homilia – XXIII Domingo do Tempo Comum

Sejamos curados pelo Senhor – Homilia – XXIII Domingo do Tempo Comum

“Olhando para o céu, suspirou e disse:  “Effatha!”, que quer dizer “abre-te!” No 23º Domingo do Tempo Comum (ano B),...
Read More
Paróquia: Escola de Comunhão e de Amor

Paróquia: Escola de Comunhão e de Amor

Como Igreja que somos, precisamos testemunhar a nossa Fé, dando solidez à Esperança, na vivência concreta e eficaz da Caridade,...
Read More
Nossa prática religiosa é agradável a Deus? Homilia – 22º Domingo do Tempo Comum – Ano B – Dom  Otacilio F. de Lacerda.

Nossa prática religiosa é agradável a Deus? Homilia – 22º Domingo do Tempo Comum – Ano B – Dom Otacilio F. de Lacerda.

Com a Liturgia do 22º Domingo do Tempo Comum (ano B), aprofundamos como deve ser uma verdadeira religião que agrade...
Read More
“Só Tu tens Palavras de vida eterna” – Homilia 21º Domingo do Tempo Comum

“Só Tu tens Palavras de vida eterna” – Homilia 21º Domingo do Tempo Comum

“A quem iremos, Senhor?” Com a Liturgia do 21º Domingo do Tempo Comum (ano B), refletimos sobre nossas opções, sobre o discernimento que...
Read More
A missão e o Alimento indispensável – Homilia 19º Domingo Comum – Ano B

A missão e o Alimento indispensável – Homilia 19º Domingo Comum – Ano B

A Liturgia do 19º Domingo do Tempo Comum (ano B), continuamos a refletir sobre um tema de extrema importância: Jesus...
Read More

Temos fome e sede de Deus – XVIII Domingo do Tempo Comum

Com a Liturgia do 18º Domingo do Tempo Comum (ano B), refletimos sobre o Jesus, o Pão da Vida, e,...
Read More
A insustentabilidade dos horizontes fragmentários

A insustentabilidade dos horizontes fragmentários

“Qual é o lugar que concedemos a Deus na nossa vida? Na cultura contemporânea está presente um indubitável processo de...
Read More
Eucaristia: O milagre do amor e da partilha XVII Domingo do Tempo Comum do Ano B

Eucaristia: O milagre do amor e da partilha XVII Domingo do Tempo Comum do Ano B

Com a Liturgia do 17º Domingo do Tempo Comum (ano B), contemplamos a ação de Deus: é próprio do Seu...
Read More
“Confirma a caridade para consolidar a unidade”

“Confirma a caridade para consolidar a unidade”

“Confirma a caridade para consolidar a unidade” Reflitamos à luz deste parágrafo do Sermão sobre os pastores, escrito pelo Bispo...
Read More

Empresas que possibilitam este projeto: