O povo merece respeito- Artigo escrito por Dom Walmor Oliveira de Azevedo

 

O respeito ao povo deve orientar o processo de reforma da Previdência. É fundamental escutar e considerar as diferentes perspectivas sobre essa proposta, para que não se cometam injustiças irreversíveis, um peso opressor sobre os ombros da população, com sacrifício ainda maior para os mais pobres. Esse diálogo deve envolver, de fato, os cidadãos, além de incluir entendimentos especializados, políticos e culturais, tudo balizado pela ética.

Quando se fala sobre essa “reforma”, obviamente deve-se lembrar de uma demanda inquestionável que envolve não somente o setor previdenciário, mas também muitos outros segmentos do Estado. São necessárias, por exemplo, as reformas do Judiciário, a fiscal e a tributária. Particularmente, uma urgência é a reforma política, que não avança porque muitos representantes do povo têm medo de perder privilégios. Há, também, um modo de atuação historicamente viciado na sociedade, como evidenciam os esquemas de corrupção envolvendo políticos e outros setores, o que inviabiliza a necessária reforma política. Uma força perversa que atrasa a superação da crise econômica e impõe verdadeiro caos social. Por isso mesmo, reconhecer a necessidade inadiável da reforma da Previdência não significa simplesmente adotar a perspectiva em debate no Congresso Nacional, encaminhada pelo Executivo, como visão única e hegemônica. Isso porque, há uma crise de credibilidade que atinge os representantes do povo.

Assim, não se pode desconsiderar a necessidade da reforma previdenciária, em busca de sustentabilidade e do bem do povo, o que também não significa compreender que o lugar de quem governa seja o único para definir os parâmetros da discussão. Embora se reconheça como prerrogativa do Congresso Nacional discutir e aprovar a proposta de reforma, os parlamentares não podem conduzir o assunto apenas entre eles. É preciso um amplo debate, incluindo o povo, pois a mudança que se espera deve acabar com os privilégios de uma minoria, o que envolve os próprios políticos.

 

Diante dos argumentos do governo federal para propor uma reforma previdenciária, muitos segmentos manifestaram-se contrariamente, dizendo que os dados apresentados para justificar as alterações constituem “uma farsa”. Há de se esclarecer esse impasse. Alguns defendem que não existe “rombo da Previdência”. Outros indicam um preocupante déficit. Onde e com quem está a verdade? Outro aspecto importante a se considerar refere-se à idade da aposentadoria. Essa definição considera a complexidade do contexto social e cultural da sociedade brasileira? São questionamentos que precisam ser respondidos, de modo claro, antes de qualquer passo definitivo na reforma previdenciária.

 

O entendimento sobre essas questões só pode ser alcançado a partir de um amplo debate, para que a reforma não se configure como um posicionamento unilateral e autoritário, em que representantes eleitos, ao invés de defender os direitos do povo, fazem o contrário.  Os parlamentares têm a obrigação moral de discutir o assunto com suas bases, clarificando todas as dúvidas, até a “última gota”, desse complexo e delicado tema. Fidelidades partidárias e interesses cartoriais não podem orientar as ações dos políticos em momento tão decisivo.

 

Não haverá sustentabilidade na Previdência Social se forem ignoradas as necessidades do povo, particularmente de quem é mais pobre e frágil.  A oportunidade dessa reforma precisa ser também a chance para corrigir situações vergonhosas na sociedade, historicamente organizada para favorecer alguns grupos, poucos privilegiados, prejudicando uma ampla maioria que não possui a mesma força no exercício dos poderes. Espera-se que o espírito da Constituição cidadã de 1988 não seja ferido. Não se pode, por exemplo, agir com “mão de ferro” ao lidar com os cidadãos comuns e tratar com “luvas de pelica” as empresas que devem à Previdência.

 

Agora é necessário investir nos entendimentos sociais e políticos, bases indispensáveis para uma nova aragem civilizatória na sociedade brasileira. A reforma da Previdência que precisa ser feita requer compromisso com a verdade e com a justiça. Para isso, os processos devem ser pautados no respeito que o povo merece.

 

Dom Walmor Oliveira de Azevedo

Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte

A Palavra do Pastor
O chamado divino e a nossa resposta – Homilia – Segundo Momingo do Tempo Comum ( Ano B)

O chamado divino e a nossa resposta – Homilia – Segundo Momingo do Tempo Comum ( Ano B)

Deus nos chama para que anunciemos a Sua Palavra e não a nós mesmos, porque nisto consiste a vocação do...
Read More
Viver o Batismo é seguir os passos de Jesus- Homilia para o Domingo do Batismo do Senhor-Ano B- Dom Otacilio 

Viver o Batismo é seguir os passos de Jesus- Homilia para o Domingo do Batismo do Senhor-Ano B- Dom Otacilio 

Com a Liturgia da Festa do Batismo do Senhor (ano B), refletimos sobre a revelação de Jesus Cristo, o Filho...
Read More
Sejamos um sim a Deus e ao Seu Projeto de Salvação! Homilia – 4º Domingo do Advento do Ano B

Sejamos um sim a Deus e ao Seu Projeto de Salvação! Homilia – 4º Domingo do Advento do Ano B

Com a Liturgia do 4º Domingo do Advento (ano B), damos mais um passo fundamental nesta caminhada de preparação para...
Read More
Confiança, esperança e alegria no Senhor – Homilia – Terceiro Domingo do Advento – Ano B

Confiança, esperança e alegria no Senhor – Homilia – Terceiro Domingo do Advento – Ano B

“João é a voz no tempo; Cristo é, desde o princípio, a Palavra eterna.” Ao celebrar o 3º Domingo do...
Read More
Advento: vigilância ativa e efetiva – Homilia de Dom Otacilio – Primeiro Domingo do tempo do Avento Ano B

Advento: vigilância ativa e efetiva – Homilia de Dom Otacilio – Primeiro Domingo do tempo do Avento Ano B

Com o primeiro Domingo do Tempo do Advento (ano B), seremos convidados à vigilância, numa frutuosa preparação para o Natal...
Read More
Alegres e convictos Servidores do Reino – Homilia e reflexões de Dom Otacilio para o XXXIII Domingo do Tempo Comum (Ano A)

Alegres e convictos Servidores do Reino – Homilia e reflexões de Dom Otacilio para o XXXIII Domingo do Tempo Comum (Ano A)

  Alegres e convictos Servidores do Reino (Homilia - XXXIIIDTCA) A Liturgia do 33º Domingo do Tempo comum (Ano A),...
Read More
Permaneçamos vigilantes – XXXII do Tempo Comum do Ano A.

Permaneçamos vigilantes – XXXII do Tempo Comum do Ano A.

Com a Liturgia, do 32º Domingo do Tempo Comum (Ano A), refletimos sobre a necessária vigilância ativa na espera do...
Read More
O Ministério do padre na hora mais difícil: a morte.

O Ministério do padre na hora mais difícil: a morte.

Finados: dia de recolhimento, oração e contemplação de nossa realidade penúltima, a morte; fortalecimento na fé sobre nossa realidade última,...
Read More
Bem-Aventuranças vividas, Santidade alcançada (Homilia Festa de todos os santos e santas)

Bem-Aventuranças vividas, Santidade alcançada (Homilia Festa de todos os santos e santas)

  A Solenidade de todos os Santos abre nosso espírito e coração às consequências da Ressurreição. Para Jesus, ela foi...
Read More
Amor a Deus e ao próximo, dois amores inseparáveis – 30º Domingo do Tempo Comum (Ano A)

Amor a Deus e ao próximo, dois amores inseparáveis – 30º Domingo do Tempo Comum (Ano A)

Amor a Deus e ao próximo, dois Amores inseparáveis O Mandamento do Amor é a essência da vida cristã Com...
Read More

Empresas que possibilitam este projeto: