CRISTÃOS LEIGAS E LEIGOS NA IGREJA E NA SOCIEDADE – Sal da Terra e Luz do Mundo (Mateus 5,13-14) CNBB DOCUMENTO 105 – Capítulo III

 

Documento 105

CAPÍTULO III- A AÇÃO TRANSFORMADORA NA IGREJA E NO MUNDO

Antes de deixar este mundo, Jesus Cristo enviou seus discípulos em missão: “Ide pelo mundo inteiro e anunciai a Boa Nova a toda criatura” (Marcos 16,15). Jesus envia seus discípulos como fermento, sal e luz ao mundo. O fermento, quando misturado à massa, desaparece. No entanto, a massa já não é mais a mesma. A ação dos cristãos leigas e leigos na caminhada da Igreja é história viva, sofrida e frutuosa.

IGREJA COMUNIDADE MISSIONÁRIA

A Igreja em “chave de missão” significa estar a serviço do reino, em diálogo com o mundo, inculturada na realidade histórica, inserida na sociedade, encarnada na vida do povo. Uma Igreja em saída entra na noite do povo, é capaz de fazer-se próxima e companheira, mãe de coração aberto, para curar feridas e aquecer o coração.

A Igreja é comunhão no amor, seguidora de Cristo e servidora da humanidade. Por isso a essência da Igreja é a missão, a Igreja é toda ela missionária. Igreja é a comunidade de missionários que age na terra segundo o modelo das três pessoas divinas, que tudo fazem em vista do Reino, do amor, justiça e paz.

O Papa Francisco quer uma Igreja de portas abertas, mais forte no querigma do que no legalismo. Uma Igreja da misericórdia mais do que da severidade.

O Papa Francisco diz que não podemos ficar tranquilos no templo, nem dizer que foi sempre assim. A vida é uma missão. Os cristãos leigos , motivados pelo Para Francisco, não terão medo de se sujar com a lama da estrada. Antes, terão medo de ficar fechados nas estruturas que criamos. Cada cristão é missionário na medida em que se encontrou com o amor de Deus em Cristo Jesus.

O Papa Francisco afirma que cada cristão, consciente do seu batismo, deve dizer: “Eu sou uma missão nesta terra e para isso estou no mundo”. Quando todos os cristãos, leigos, como também os ministros ordenados tiverem esta consciência faremos a passagem de uma pastoral de mera conservação para uma pastoral decididamente missionária.

O cristão discípulo missionário enfrentará como profeta, as realidades que contradizem o Reino de Deus e insistirá em dizer: Não a uma economia da exclusão. Não à cultura do descartável. Não à globalização da indiferença. Não à especulação financeira. Não ao dinheiro que domina ao invés de servir. Não à desigualdade social que gera violência. Não à fuga dos compromissos. Não ao pessimismo. Não à guerra entre nós Ficar na pastoral de mera conservação é não ter coragem para enfrentar estas situações. Embora não desgastados por este enfrentamento, as comunidades cristãs que primam só pela conservação com certeza perderão o entusiasmo, e a alegria que brota da verdadeira missão. Não nos deixemos roubar o entusiasmo missionário. Não deixemos que nos roubem a alegria da evangelização. Não deixemos que nos roubem a esperança. Não deixemos que nos roubem a comunidade. Não deixemos que nos roubem o Evangelho. Não deixemos que nos roubem o ideal do amor fraterno. Eis o que significa ser missionário no mundo globalizado, consumista e secularizado.

 

IGREJA POBRE, PARA OS POBRES, COM OS POBRES

Jesus se fez pobre para todos salvar. Por isso há que se afirmar sem rodeios que existe um vínculo indissolúvel entre a nossa fé e os pobres, O Papa Francisco afirma que a pior discriminação que sofrem os pobres é a falta de cuidado espiritual.

O Documento de Aparecida descreve que são estes pobres que precisam do cuidado espiritual: pessoas que vivem e moram nas ruas, os migrantes, os enfermos, os dependentes de drogas, os detidos nas prisões.

O que nos move à missão? Quando olhamos os rostos dos que sofrem, do trabalhador desempregado, da mãe que perdeu o filho para o narcotráfico, da criança explorada, quando recordamos estes rostos e nomes, estremecem nossas entranhas diante de tanto sofrimento e comovemo-nos. Isso nos comove e faz chorar e nos impele à missão, disse o papa Francisco no II Encontro Mundial de Movimentos Populares.

 

A IGREJA DO SERVIÇO, DA ESCUTA, DO DIÁLOGO

A Igreja se propõe a trabalhar na construção de uma cultura do encontro. Isso implica não se fechar na própria comunidade, no grupo de amigos, na própria religião, em si mesmo. Na cultura do encontro todos contribuem e recebem. Trata-se de uma postura aberta e disponível para a qual é necessária uma humildade social que considere, por exemplo, a importância das culturas e religiões e o respeito aos direitos autênticos de cada um. Trata-se de um desafio para toda a Igreja, passar de atitudes fechadas à formação de uma nova cultura, que constrói cidadania no diálogo e que não tem medo de acolher o que o outro, o diferente, tem a oferecer. Esse é o espaço aberto para os cristãos leigos, nesta sociedade dilacerada pelo desrespeito ao diferente, pela intolerância e pelo medo do outro.

 

UMA ESPIRITUALIDADE ENCARNADA

Uma espiritualidade encarnada caracteriza-se pelo seguimento de Jesus, pela vida no Espírito, pela comunhão fraterna e pela inserção no mundo. Não podemos querer um Cristo sem carne e sem cruz.. A espiritualidade cristã sempre terá por fundamento os mistérios da encarnação e da redenção de Jesus Cristo. Esse enfoque deve permear a formação laical desde o processo da iniciação cristã.

A partir de Jesus Cristo, os cristãos leigos infundem uma inspiração de fé e amor nos ambientes e realidade em que vivem e trabalham. Em meio a missão, como sal, luz e fermento, leigos e leigas, nos ambientes em que vivem no mundo, testemunham sua identidade cristã, como ramos na videira, na comunidade, na fé, oração e partilha.

Para que esta atitude esteja fortalecida, a oração e a contemplação são fundamentais. É preciso cultivar um espaço interior dinamizado por um espírito contemplativo que permita um encontro significativo com o Deus revelado por Jesus Cristo, que nos permite descobrir que somos depositários de um bem que humaniza, que nos ajuda a viver uma vida nova, portanto, a buscar esta vida nova para todos.

O verdadeiro trabalhador da vinha nunca deixa de ser discípulo. A experiência do encontro pessoal com Jesus Cristo sempre renovada é a única capaz de sustentar a missão. Por isso o discípulo missionário deve dedicar tempo à oração sincera, que leva a saborear a amizade e a mensagem de Jesus.

Em virtude do Batismo, que está na origem do sacerdócio comum dos fiéis, os cristãos leigos são chamados a viver e a transmitir a comunhão com a Trindade, fonte de nossa vida comunitária e do amor transbordante que devemos testemunhar.

O Apóstolo Paulo destaca o fundamento trinitário da vida em comunidade, feita de diversidades e de unidade. O Deus, uno e trino, é fonte e modelo de toda vida comunitária. Há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo. Há diversidade de ministérios, mas o Senhor é o mesmo. Há diferentes atividades, mas é o mesmo Deus que realiza tudo em todos (1 Crríntios 12,4-6).

Um desafio para os cristãos leigos é superar as divisões (Atos 2,42-45;4,32-35) e avançar no seguimento de Cristo, aprendendo e praticando as bem-aventuranças do Reino, o estilo de vida do Mestre Jesus: sua obediência ao Pai, compaixão diante da dor humana, amor serviçal até o dom de sua vida na cruz: “ Se alguém quiser vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Marcos 8,34).

 

ESPIRITUALIDADE DA COMUNHÃO E MISSÃO

Em sua inserção no mundo, os cristãos leigos são convidados a viver a espiritualidade de comunhão e missão. Comunidade missionária, a Igreja está voltada ao mesmo tempo para dentro e para fora. Para que este movimento seja eficaz, é necessária a espiritualidade da comunhão que gera a abertura ao diferente. O outro não é apenas alguém, mas um irmão, dom de Deus, continuação da Encarnação do Senhor. O outro é diferente de mim. E esta diferença nos distingue, mas não nos separa. Espiritualidade de comunhão e missão significa respeito mútuo, diálogo, proximidade, partilha, benevolência e beneficência.

A espiritualidade da comunhão e missão se comprova no esforço e na prática da misericórdia, do perdão da reconciliação e da fraternidade, até o amor aos inimigos. Sem a espiritualidade de comunhão e missão caímos nas “máscaras de comunhão” e damos espaço ao terrorismo da fofoca, às suspeitas, ciúmes, invejas que são sentimentos e atitudes destrutivas.

 

MÍSTICAS QUE NÃO SERVEM

Há certo cristianismo feito de devoções- próprio de uma vivência individual e sentimental da fé – que na realidade não corresponde a uma autêntica piedade popular. Alguns promovem estas devoções sem se preocupar com a promoção social e a formação dos fiéis, fazendo em alguns casos para obter benefícios econômicos ou algum poder sobre os outros.

O Papa Francisco alerta que a missão precisa do pulmão da oração, da mística, da espiritualidade, da vida interior. Todavia, continua o papa, “Não nos servem, para a missão, místicas desprovidas de um vigoroso compromisso social e missionário, nem os discursos e ações pastorais sem uma espiritualidade que transforme o coração”.

 

ESPIRITUALIDADE POPULAR

O povo se evangeliza a si mesmo iluminado pelo Espírito Santo. A religiosidade popular é fruto do evangelho inculturado, é um lugar teológico ao qual devemos prestar atenção porque tem muito para nos ensinar.

Pensemos na fé firme das mães rezando ao pé da cama de seus filhos doentes, na carga imensa de esperança contida numa vela acesa, no olhar que se volta para o crucifixo, para o céu, para Maria e os santos. A espiritualidade popular, que também precisa ser evangelizada, revelam a fé e o amor a Deus neste ambiente de secularização e de indiferença religiosa em que vivemos. A espiritualidade popular é uma confissão de fé que evangeliza filhos, vizinhos, parentes, amigos e toda a sociedade.

 

O MUNDANISMO ESPIRITUAL

Uma forma de mundanismo espiritual, segundo o Papa Francisco, consiste em só confiar nas próprias forças e se sentir superior aos outros por ser fiel a certo estilo católico, próprio do passado. O mundanismo espiritual atinge tanto a liturgia como a militância social: 1- há uma pretensão de dominar o espaço da Igreja com um cuidado exibicionista da liturgia; 2- por outro lado, o mundanismo espiritual se esconde atrás do fascínio de poder mostrar conquistas sociais e políticas.

 

A PRESENÇA E ORGANIZAÇÃO DOS CRISTÃOS LEIGOS NO BRASIL

Durante a primeira metade do século XX constatamos a presença das confrarias e associações que em geral eram conduzidas pelo clero. Em 1935, no Brasil, foi oficializada a Ação Católica Geral e, mais tarde, a Ação Católica Especializada, que acolhia a Juventude Agrária Católica, Juventude Estudantil Católica, Juventude Operária Católica, Juventude Universitária Católica e Ação Católica Operária. Articulada em âmbito nacional, a Ação Católica teve presença significativa na realidade da Igreja e social daquele período. Nos anos que antecederam o Concílio Vaticano II, os membros da Ação Católica descobriram que sua ação decorria do batismo recebido e não de um mandato do bispo. Esta nova consciência gerava o compromisso com a ação transformadora da sociedade, buscando impregná-la dos valores evangélicos. Neste período também foi sendo delineado os traços da teologia do laicato e por conseguinte o estatuto próprio do leigo na Igreja como iria aparecer mais tarde.

As Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), constituídas no Brasil, desde 1960, assumem como centro a Palavra sempre numa dimensão missionária que conduz ao engajamento nas lutas de transformação da sociedade na perspectiva do Reino de Deus.

Outro espaço privilegiado de participação dos cristãos leigos, são as Pastorais Sociais. Elas significam a solicitude e o cuidado de toda a Igreja missionária diante de situações reais de marginalização, exclusão e injustiça. A sua atuação deve ser profético-transformadora, indo além do assistencialismo.

Ressaltamos a participação do cristão leigo, jovem, na Igreja e no mundo através das diversas pastorais da juventude: Juventude Estudantil, Universitária, Rural, etc. Destacamos os incontáveis cristãos leigos que atuam nas universidades, escolas, hospitais, asilos, creches, ,meios de comunicação, onde quer que seja, evangelizando pelo testemunho e contribuindo para a expansão do Reino de Deus.

A participação e presença dos cristãos leigos acontecem também na dinâmica interna das comunidades nos conselhos econômicos, pastorais, na vida litúrgica, nas diversas pastorais, na catequese. São jovens, adultos, idosos e até crianças que se colocam à serviço da dinâmica da Igreja no ambiente interno da evangelização.

 

O CONSELHO NACIONAL DO LAICATO DO BRASIL

Nos anos de 1970, no Brasil, fruto do Concílio Vaticano II, criou-se o então Conselho Nacional dos Leigos, hoje Conselho Nacional do Laicato do Brasil. A partir de 1964, com o golpe militar e também conflitos com a hierarquia e outros segmentos leigos, resultou na extinção da Juventude Universitária Católica e da Juventude Estudantil Católica. Em 1970, na 11ª Assembleia Geral da CNBB foi aprovada, com a participação de leigos, o Secretariado Nacional do Apostolado Leigo que, em 1975 criou o Conselho Nacional dos Leigos.

Todo este esforço para organizar a ação laical na Igreja e no mundo tem seus fundamentos. Na evangelização do mundo de hoje há questões às quais só os cristãos leigos oficialmente organizados podem dar respostas como Igreja inserida no mundo. O Documento de Aparecida, em seu número 215, destaca: “Reconhecemos o valor e a eficácia dos Conselhos paroquiais, Conselhos Diocesanos e nacionais de fieis leigos, porque incentivam a comunhão e a participação na Igreja e sua presença ativa no mundo”.

O tema do laicato retornou na Assembleia da CNBB em 1998, que gerou o Documento 62 sobre a Missão e Ministérios dos leigos. Este documento, no número 191, diz: “é desejável que em sua missão os cristãos leigos, superando eventuais divisões e preconceitos, busquem valorizar suas diversas formas de organização, em especial os Conselhos de Leigos em todos os níveis”

Em 2004 a CNBB aprovou o estatuto do Conselho Nacional dos Leigos do Brasil (CNLB). Além de ser um organismo de comunhão, o CNLB tem por objetivo criar e apoiar mecanismos de formação e capacitação que ajudem o laicato a descobrir sua identidade, vocação, espiritualidade e missão, com vistas à construção de uma sociedade justa e fraterna, sinal do Reino de Deus.

 

DIVERSAS FORMAS DE EXPRESSÃO LAICAL

Destacamos a presença muito viva das associações laicais nascidas a partir dos carismas das ordens e congregações religiosas, que contribuem para que muitos cristãos leigos vivam profunda espiritualidade e assumam presença junto aos mais pobres, numa perspectiva de assistência, promoção humana e no compromisso sociotransformador.

A Igreja conta hoje com uma gama variada de associações de fiéis que agregam leigos, outras que agregam leigos e clérigos e ainda aquelas que contemplam leigos consagrados. Há também as novas comunidades, que têm emergido com significativa força, centradas nos laços comunitários, que pedem de cada membro uma adesão estável visível e institucionalizada. Muitas delas configuram um espaço misto de vida leiga, religiosa e clerical.

Todas as formas de associação existem para a edificação da Igreja e para contribuir com a sua missão no mundo. Nesse sentido, são de grande atualidade as orientações dadas pelo Apóstolo Paulo à comunidade de Corinto: os dons existem para a edificação da Igreja e não podem servir como busca de poder religioso dentro da comunidade (1 Coríntios 12,28—13.14

 

A FORMAÇÃO DO LAICATO

Cada organização laical deve assumir a formação de seus membros como primordial, o que exige empenho de todos. Sem uma formação permanente, contínua e consistente, o cristão leigo corre o risco de estagnar-se em sua caminhada eclesial. A formação do sujeito eclesial, para ser integral precisa considerar as dimensões humana e espiritual, teológica e pastoral, teórica e prática.

 

A FORMAÇÃO DE SUJEITOS ECLESIAIS

A Igreja, particularmente os bispos e os presbíteros, tem a missão de formar cristãos leigos missionários, conscientes e ativos, de forma que cada qual venha a contribuir com a educação dos demais numa ação de aprendizagem mútua por todos os meios que sejam necessários.

A formação contínua dos cristãos leigos implica em amadurecimento contínuo da missão para que de fato a Igreja esteja sempre em saída, enfrentando os inúmeros desafios do século XXI.

 

FUNDAMENTOS DA FORMAÇÃO

A formação é uma exigência de nossa condição humana, pois convivemos com limitações. Isso exige de todo o Povo de Deus, e de cada um em particular, a busca permanente da compreensão e da vivência da nossa fé. Por essa razão, é necessário encontrar, em cada contexto, os meios mais adequados de compreensão e comunicação do Evangelho, recorrendo para tanto à teologia e as diversas ciências. As mudanças rápidas e profundas pelas quais passam a sociedade e a própria Igreja exigem cuidado especial para que uma formação adequada permita que mensagem se torne compreensível e promova o desejo de seguir o projeto de Jesus Cristo.

 

PRINCÍPIOS DA FORMAÇÃO DO LAICATO

A formação, entendida como educação permanente da fé, possui um aspecto espontâneo que acontece na vivência prática da própria fé. A formação possui também um aspecto sistemático e formal como atividade planejada e executada pela e na comunidade eclesial. Isso se refere a todas as modalidades de formação oferecidas em cursos regulares: formação básica oferecida a todos os sujeitos em suas respectivas comunidades, bem como formação específica relacionada a cada função e a cada grupo eclesial.

A formação deve contribuir para que os cristãos leigos vivam o seguimento de Jesus Cristo e deem resposta do que significa ser cristão hoje, no Brasil e no mundo, situando-os como cristãos no lugar e na época em que vivem. Para pensar a formação, devemos fazê-lo a partir dos sinais dos tempos, do nosso continente, marcado pela cultura cristã e pela pobreza.

A Doutrina Social da Igreja oferece critérios e valores, respostas e rumos pra as necessidades, as perguntas e questionamentos da ordem social, em vista do bem comum. Lamentavelmente esta Doutrina ainda é muito desconhecida nos diversos setores da Igreja.

Fundamentada na Palavra de Deus e nos documentos do Magistério da Igreja, a formação do laicato católico terá as seguintes características:

1- Mistagógica- relacionada com a catequese, a liturgia e a vida para favorecer a conversão pessoal e pastoral.

2- Integral- para responder aos aspectos da fé, da razão, da emoção e da espiritualidade.

3- Missionária e Inculturada- para que os cristãos, conscientes da sua vocação e missão, vão ao encontro dos demais em sua realidade.

4- Articulada – de modo a superar as separações entre fé e vida, Igreja e mundo, clero e leigo.

5- Prática- de modo que o cristão leigo e leiga se insiram na realidade da sociedade como agentes de transformação.

6- Dialogante, que destrói os muros que separam as pastorais e as comunidades, superando isolamentos e autoritarismos eclesiais e sociais.

7- Específica- de modo que atenda às necessidades de cada ação pastoral na Igreja e na Sociedade.

8- Permanente e atualizada – capaz de acompanhar e responder com prontidão aos desafios advindos da realidade global e local, levando sempre em conta as orientações da Doutrina Social da Igreja.

9- Planejada- pedagogicamente organizada a partir de projetos tecnicamente elaborados com garantia de recursos capazes de responder aos proposto nos itens anteriores.

 

PROJETO DIOCESANO DE FORMAÇÃO

O Documento de Aparecida, no número 281, ressalta a necessidade de que cada diocese tenha um projeto de formação do laicato. As Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora na Igreja do Brasil 2015-2019 enfatiza um projeto diocesano de formação para os leigos que contemple:

1-objetivos, diretrizes, prioridades e meios articulados com o plano pastoral diocesano. 2-formação básica de todos os membros da comunidade; formação específica, conforme os campos da missão, especialmente de quem atua na sociedade e dos formadores. 3- aprimoramento bíblico-teológico dos cristãos leitos e leigas 4-presença de cristãos leigos na coordenação e execução do projeto. 5- diálogo com as diferentes formas organizativas dos cristãos leigos . 6- união entre fé, vida e liturgia para a autenticidade da vida comunitária e testemunho evangélico na transformação da sociedade.

 

A AÇÃO TRANSFORMADORA DO CRISTÃO LEIGO NO MUNDO

O Reino de Deus é dom e missão. Como dom deve ser acolhido e como missão deve ser buscado, testemunhado e anunciado. Para esta missão a Igreja contribui em comunhão com todos os homens e mulheres que buscam construir uma sociedade justa e fraterna.

A Igreja existe para o Reino de Deus. Dessa convicção ela se nutre e nessa direção se organiza em suas estruturas. Pela força do Espírito a ação da Igreja é direcionada para fora de si mesma como servidora do ser humano, buscando a transformação da sociedade através das graças do Reino de Deus.

 

MODOS DE AÇÃO TRANSFORMADORA

A ação transformadora do cristão leigo e leiga no mundo pode ter diferentes modos de realização, entre os quais destacamos:

1-O testemunho como presença que anuncia Jesus Cristo em cada lugar e situação onde se encontra, a começar pela família; 2- a ética e a competência no ambiente profissional; 3- o anúncio querigmático nos encontros pessoais, nas visitas domiciliares e no ambiente de trabalho; 4-Os serviços, pastorais e ministérios pelos quais os cristãos leigos marcam presença no mundo; 5-a inserção na vida social através das pastorais sociais; 6- os meios de organização e atuação na vida cultural e política com vistas para o mundo justo, sustentável e fraterno.

São João Paulo II lembra que: “Ao descobrir e viver a própria vocação e missão os fiéis leigos devem ser formados para aquela unidade de que está assinalada a sua própria situação de membros da Igreja e de cidadãos da sociedade humana”.

 

CRITÉRIOS GERAIS DA AÇÃO TRANSFORMADORA

O Papa Francisco sugere alguns critérios gerais para a ação transformadora dos cristãos leigos no mundo:

1- A ação evangelizadora inclui sempre a Igreja, a sociedade e cada pessoa individualmente. 2- A ação requer discernimento das realidades concretas. O mundo é uma realidade a ser constantemente discernida. Este discernimento deve ser iluminado pelos valores do Reino de Deus, sempre a partir da fé que ilumina as realidades do mundo. 3- Todos somos convidados a sair da própria comodidade e alcançar as periferias que precisam da luz do Evangelho. 4-A ação evangelizadora inclui a opção preferencial pelos pobres, a solidariedade, a defesa da vida humana, especialmente onde ela é negada ou agredida. 5- A ação de dialogar com o mundo social., cultural, religioso e ecumênico deve promover a cultura do encontro e a inclusão do outro na vivência da fraternidade. 6- A ação deve considerar a primazia do humano antes de qualquer outra, sob o risco de cair em idolatria.

 

PRINCÍPIOS PARA A AÇÃO TRANSFORMADORA

O Papa Francisco elenca explicitamente quatro princípios específicos que visam contribuir para a construção de um povo em paz, justiça e fraternidade.

1-O tempo é superior ao espaço: É necessário planejar e esperar os resultados da ação em um horizonte mais amplo, dentro do qual a paciência aguarda os frutos amadurecerem, a esperança supera todos os desânimos e a fé transcende os imediatismos da ação. 2- A Unidade prevalece sobre os conflitos: A ação se depara sempre com situações conflitantes. A convicção de que a unidade é um princípio superior que norteia a ação permite encarar de frente o conflito e buscar caminhos de superação. 3- A realidade é mais importante que as ideias: A ação transformadora ocorre a partir de um ideal transformador. Contudo, esse ideal não pode dispensar a realidade, lugar da encarnação da Palavra de Deus. 4- O todo é superior à parte: É necessário ter sempre como horizonte maior a pessoa de Jesus Cristo e seu Reino. Desse modo se evitarão todas as formas de isolamentos locais e de relativismos individualistas.

 

A AÇÃO DOS CRISTÃOS LEIGOS NOS AREÓPAGOS MODERNOS

O Apóstolo Paulo, depois de ter pregado em numerosos lugares, chega a Atenas e vai ao areópago, onde anuncia o Evangelho, usando uma linguagem adaptada e compreensível para aquele ambiente (Atos 17, 22-31). O areópago que representava o centro da cultura do povo ateniense é tomado como símbolo dos novos ambientes onde o Evangelho deve ser proclamado.

Os cristãos leigos são os primeiros membros da Igreja a se sentirem interpelados na missão junto aos areópagos – essas grandes áreas culturais ou mundos ou fenômenos sociais ou, mesmo, sinais dos tempos. O Papa emérito Bento XVI ofereceu-nos luzes e encorajamento para o profetismo dos leigos na missão junto a esses areópagos. Diz o Papa: “O sacramento da Eucaristia tem um caráter social. A união com Cristo é ao mesmo tempo união com todos os outros a quem ele se entrega. Eu não posso ter Cristo só para mim. É necessário explicitar a relação entre o mistério eucarístico e o compromisso em prol da justiça, à vontade de transformar também, as estruturas injustas. A Igreja não deve ficar à margem da luta pela justiça”.

A partir da Eucaristia nasce a coragem profética. Não podemos ficar insensíveis diante dos processos de globalização que faz crescer a distância entre ricos e pobres. É impossível calar diante dos grandes campos de deslocados ou refugiados, amontoados em condições precárias. Basta dizer que menos da metade das somas globalmente destinadas a armamentos poderia tirar de modo estável da indigência o exército ilimitado dos pobres. Isso interpela a nossa consciência.

 

A FAMÍLIA: AREÓPAGO PRIMORDIAL

A família, comunidade de vida e amor, escola de valores e Igreja doméstica, é a grande benfeitora da humanidade. Nela se aprendem as orientações básicas da vida: o afeto, a convivência, a educação para o amor, a justiça e a experiência de fé. O mundo se torna uma grande família onde os cristãos leigos são protagonistas da evangelização, que deve sempre primar pela valorização da família, que as jovens gerações também desejam constituir.

Reafirmamos e defendemos a dignidade, a inviolabilidade e os direitos do embrião humano. O aborto é uma violação do direito à vida, uma crueldade e grave injustiça contra os inocentes e indefesos. Recomendamos aos leigos que assumam com alegria e dedicação o cuidado da família e a transmissão da fé aos filhos em sintonia com o plano de Deus e os ensinamentos do Magistério da Igreja.

O MUNDO DA POLÍTICA

Deixemo-nos tocar pelo que nos ensina o Papa Francisco sobre os leigos e a política: “Peço a Deus que cresça o número de políticos capazes de entrar num autêntico diálogo que vise efetivamente a sanar as raízes profundas dos males do nosso mundo. A política, tão denegrida, é uma sublime vocação, é uma das formas mais preciosas da caridade, porque busca o bem comum. Temos de nos convencer que a caridade é o princípio não só das microrrelações, mas também das macrorrelações como relacionamentos sociais, econômicos, políticos. Rezo ao Senhor para que nos conceda mais políticos que tenham verdadeiramente a peito a sociedade, o povo e a vida dos pobres”.

Grande impulso foi dado pelo Papa emérito Bento XVI a respeito da ação política dos leigos: “O leigo cristão é chamado a assumir diretamente a sua responsabilidade política e social. Dirijo, pois, um apelo a todos os fiéis para que se tornem realmente obreiros da paz e da justiça”.

É urgente que as dioceses busquem:

1- estimular a participação dos cristãos leigos na política. Há necessidade de romper o preconceito de que a política é coisa suja. Ao contrário, ela é essencial para a transformação da sociedade. 2- impulsionar os cristãos leigos na participação dos mecanismos de controle social e da gestão participativa (conselhos municipais). 3- Incentivar e preparar cristãos leigos a participarem de partidos políticos e serem candidatos para o executivo e o legislativo, contribuindo para a transformação social, 4- Mostrar aos membros das nossas comunidades que há várias maneiras de tomar parte na política: nos conselhos paritários de políticas públicas, movimentos sociais, conselhos de escola, coleta de assinaturas para projetos de lei de iniciativa popular. 5- Incentivar e animar a constituição de cursos ou escolas de Fé e Política ou Fé e Cidadania. 6- Acompanhar os cristãos que estão com mandatos (executivo ou legislativo), no judiciário e no ministério público a fim de que vivam também aí a missão profética, promovendo reuniões, encontros, momentos de oração, reflexão e retiros.

 

O MUNDO DAS POLÍTICAS PÚBLICAS

As Diretrizes Gerais para a Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil 2015-2019 sugerem aos leigos cristãos que colaborem com os movimentos populares e entidades da sociedade civil em favor da implantação e da execução de políticas públicas voltadas para a defesa e a promoção da vida e do bem comum.

Nos Conselhos de Direitos há um grande espaço para os cristãos leigos se empenharem por políticas públicas em favor da saúde e da educação, do emprego e da segurança, da mobilidade urbana e do lazer. Esses Conselhos de Direitos são um lugar privilegiado de participação de cristãos leigos na vida política.

 

O MUNDO DO TRABALHO.  As Dioceses se esforcem para:

1- Criar e fortalecer as pastorais do mundo do Trabalho urbano e rural. 2- Criar e motivar grupos de partilha e de reflexão para os diferentes profissionais e empresários, estimulando-os a serem discípulos missionários em sua atuação profissional. 3-Promover a formação para uma autêntica espiritualidade do mundo do trabalho, na efetivação do progresso terreno e no desenvolvimento do Reino de Deus. 4-Animar e manifestar nossa solidariedade aos trabalhadores na conquista e preservação de seus direitos. 5- Incentivar os cristãos leigos a participarem dos sindicatos e outras organizações e a se articularem em vista de avanços nas políticas públicas em prol do bem comum. 6- acolher os trabalhadores em nossas comunidades. 7- apoiar e participar de iniciativas de combate ao trabalho escravo.

 

O MUNDO DA CULTURA E DA EDUCAÇÃO. As Dioceses e Paróquias se esforcem para:

1-criar círculos de partilha e reflexão entre os diversos campos do saber e da ciência, estimulando-os a serem aí discípulos missionários. 2- Implantar a Pastoral da Cultura e divulgar a importância do “Átro dos Gentios” que é o espaço do encontro entre crentes e não crentes em torno do tema Deus. 3- Animar os comunicadores e os formadores de opinião a manifestarem os valores do Reino através dos meios de comunicação. 4-Incentivar e apoiar os cristãos leigos para que, nos diferentes campos das artes e da cultura popular, apontem para o sentido da vida e da sua transcendência para a obra evangelizadora.

É urgente que a Pastoral da Educação e a Pastoral Universitária se tornem viva expressão nas paróquias e dioceses.

 

PASTORAL DA COMUNICAÇÃO

Todos nós na Igreja precisamos ser conscientizados a respeito da necessidade, prioridade e urgência da comunicação em todos os seus níveis. Aquilo que não é comunicado, não é conhecido. As Boas Obras sejam comunicadas para a glória do Pai, o bem da sociedade, a divulgação do Evangelho e para o bom exemplo, incentivo e alegria de todos. Daí a necessidade das Paróquias e Dioceses implantarem a Pastoral da Comunicação.

 

O CUIDADO COM A NOSSA CASA COMUM

Pela nossa realidade corpórea, Deus nos uniu tão estreitamente ao mundo que nos rodeia, que a desertificação do solo é como uma doença para cada um, e podemos lamentar a extinção de uma espécie como se fosse uma mutilação. Por isso os cristãos leigos devem assumir com coragem a busca de uma comunhão com a criação, a defesa da água, do clima, das florestas e dos mares, como bens públicos a serviço de todas as criaturas.

 

INDICATIVOS E ENCAMINHAMENTOS DE AÇÕES PASTORAIS

Neste tópico queremos retomar indicativos e propor encaminhamentos para as Dioceses, Paróquias e outros organismos da Igreja:

1-Despertar os cristãos leigos para a sua vocação espiritualidade e missão que brotam do batismo; 2- convocar os cristãos leigos para as assembleias paroquiais, diocesanas e regionais e nacionais da CNBB. Incentivá-los e efetivá-los nos Conselhos de Pastoral , econômico, missionário e outros; 3- Divulgar o esforço da CNBB na realização as assembleias das Igrejas e encontros dos organismos eclesiais; 4- Reconhecer a dignidade da mulher e sua indispensável contribuição para a Igreja e a sociedade, ampliando sua presença nos conselhos eclesiais; 5- incentivar os cristãos leigos na participação social e política; 6-aprofundar a questão dos ministérios leigos, estimulando a criação de novos; 7 apoiar ou implantar a Pastoral familiar para que esteja atenta às famílias vulneráveis e fragilizadas, assim como às novas formas de convivência familiar; 8- Criar ou fortalecer as Pastorais Sociais, em espírito missionário e que lutem por políticas públicas e de inclusão social; 9-incentivar a juventude a participar nas instâncias decisórias da Igreja e da sociedade;10- cuidar para que as pessoas idosas sejam atendidas pastoralmente e tenham espaço e condições de participar das atividades da Igreja; 11-incentivar os cristãos, leigos , bem como os ministros ordenados, a que, inseridos numa sociedade pluralista do ponto de vista cultural e religioso, vivenciem e construam caminhos de diálogo ecumênico e inter-religioso, de cooperação com o diferente e com as novas culturas.

 

COMPROMISSOS

Antes de concluir este documento, queremos incentivar nossas comunidades a assumirem estes compromissos:

1-Envolver todos os cristãos na reflexão e aplicação deste documento. 2-Celebrar o dia dos Cristãos Leigos na solenidade de Cristo Rei, a cada ano. 3- Estimular que no decorrer do mês de novembro haja ampla discussão sobre a vocação dos leigos cristãos na Igreja e na Sociedade 4-Celebrar o dia 1º de maio – São José Operário –como valorização do trabalho e denuncia de tudo o que contradiz a dignidade do trabalhador. 5- Recuperar e divulgar os cristãos leigos mártires e daqueles que viveram o seu compromisso batismal no cotidiano da vida e se tornaram ou são referências. 6- Criar ou fortalecer os Conselhos Regionais e Diocesanos de Leigos. 7- Fortalecer e ampliar o diálogo e o trabalho junto às diferentes formas de expressão do laicato. 8- Realizar o Ano do Laicato, que terá como eixo central a presença e a atuação dos cristãos leigos como ramos, sal, luz e fermento na Igreja e na Sociedade.

 

CONCLUSÃO

Incentivamos os irmãos leigos a acreditarem na própria vocação, como sujeitos de uma missão específica. Reconhecemos o direito e a autonomia das diferentes formas de organização e articulação do laicato expressos nos documentos do Vaticano II. Conclamamos, de modo especial, os irmãos e irmãs religiosos e religiosas e a todos os consagrados e consagradas, que buscam viver na alergia seus votos de castidade, pobreza e obediência, a manter viva, também nos irmãos leigos e leigas, a consciência do valor das coisas que passam, sem descuidar dos bens que não passam. Pedimos aos irmãos diáconos permanentes que, em sua maioria, vivem a realidade do matrimônio e do trabalho, que se dediquem a todos os cristãos leigos e leigas e às famílias, motivados pela graça de terem recebido os sacramentos do Matrimônio e da Ordem. Incentivamos e encorajamos os irmãos presbíteros, indispensáveis colaboradores dos bispos, a serem cada vez mais amigos dos irmãos leigos e leigas. Como bispos nos propomos a acolher cada vez mais com coração fraterno a todos os cristãos leigos e leigas, valorizando sua atuação na Igreja e no mundo, ouvindo suas opiniões e sugestões, confiando-lhes responsabilidades e ministérios.

Pedimos a Maria, mãe da Igreja, cheia de fé e de graça, totalmente consagrada ao Senhor, exemplo de mulher solícita e laboriosa, que acompanhe a todos os leigos e leigas, seus filhos e filhas, em cada dia da vida. Sob sua maternal proteção ecoem em nossos corações as suas palavras: “Fazei tudo o que ele vos disser” (João 2,5).

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