O culto de hiperdulia a Maria: O mês de Maio

“Eis aí a tua Mãe”

(Jo 19, 26)

 

Toda a Mariologia procede de um princípio fundamental baseado na Sagrada Escritura. O gesto mediante o qual Cristo confiou o discípulo à mãe e a mãe ao discípulo (Jo 19, 25-27) determinou uma relação estreitíssima entre Maria e a Igreja. A devoção e o culto mariano é um abandona-se aos planos de Deus, em Cristo, numa posição expressiva que indica relação com Maria. Por isso, a Igreja lhe dedica um culto todo especial, o da hiperdulia. A devoção a Maria favorece “a união imediata dos crentes com Cristo, ajudando a revelar, num certo modo, as supremas verdades da fé” (Lc 2, 19). A Igreja sempre nos ensinou que o culto que prestamos a Maria é um culto especial de veneração, hiperdulia. Sabemos que somente Deus é digno de culto e, somente a Ele são devidas as homenagens do homem e da mulher, como no-lo afirma São Paulo: “Só a Deus imortal, invisível e único sejam dadas honra e glória para todo o sempre. Amém” (1Tm 1,17). Todavia em homenagem ao mesmo Deus, honramos também os seus amigos mais queridos como os anjos e os santos. A esses, nós tributamos um culto de afetuosa servidão e devoção. Tal culto é chamado dulia, ou seja, simples serviço e veneração. É um testemunho da excelência dos santos, vale dizer, favor, serviço, benevolência, que lhes prestamos. Maria é “espelho” na qual se espelham de modo mais límpido “as grandes obras de Deus” (At 2,11). Daqui podemos entender que Maria, desde a sua adesão ao projeto de Deus, abraçou a obra do Filho e vem, insistentemente, derramando sobre a Igreja sua proteção maternal. Tanto Paulo como os evangelistas, procuram evidenciar a pessoa de Maria, não obstante o espaço a Ela dedicado.

Maria está presente nos momentos decisivos da vida de Jesus, desde a Encarnação até o da cruz. A função salvífica da sua maternidade divina e a santificação pessoal em Maria coincidem perfeitamente, de modo tal que a figura de Maria, em chave teológica, pode ser plenamente resumida na fórmula: Maria é a redimida de modo mais perfeito. Neste sentido, Maria na Igreja é venerada com um culto especialíssimo e mais solene do que se presta aos anjos e santos. É um culto de amorosa e filial reverência, que Jesus mesmo lhe prestou, por primeiro, aqui na terra, como no-lo afirma o evangelista Lucas: “Jesus voltou com José e Maria para Nazaré e lhes obedecia em tudo. Sua Mãe guardava todas as suas palavras em seu coração” (Lc 2,51). Através dos séculos, a Igreja, com amor sempre crescente, continuou a prestar-lhe esse culto que chamamos de hiperdulia, ou seja, de serviço e veneração preferencial. Desta proposição se deduzem os demais títulos marianos. Desde remota época a Igreja professa que Maria é sempre virgem. Esta verdade pertence ao patrimônio da fé. A Igreja, ao celebrar os mistérios da redenção, venera os santos, pela sua participação no mistério de Cristo. Entre estes santos sobressai de maneira única Maria, a Mãe de Deus e Nossa, pela direta ligação que tem com Jesus Cristo, seu Filho. Por isso, a dimensão do culto de hiperdulia na Igreja existe em virtude do lugar singular que a Virgem ocupa no coração dos cristãos.  Além dos cultos de dulia e hiperdulia, temos o de Latria, que compete unicamente a Deus e que se manifesta, principalmente, no reconhecimento de Deus como Supremo Senhor, em atos de adoração e no sacrifício.

Com esta explicação é fácil entender o culto a Maria no mês de maio. Esta nossa devoção, aliás, muito brasileira, consagrou, desde antigos tempos, o mês de maio ao culto a Nossa Senhora, Mãe da Igreja. Esta prática de devoção sempre foi motivo para muita gente se aproximar de Deus. Em nossas paróquias vemos grupos de vizinhos que se juntam para rezar o terço. Como é bonita esta devoção. Com esta prática religiosa vemos com clareza o que diz Pe. Zezinho: “Quem está perto de Maria, nunca está longe de Jesus”. Nos estudos e reuniões de grupo, hoje tão em voga nas paróquias, não se poderia aproveitar o mês de maio para estudar, conhecer e imitar Nossa Senhora? Enfim, não se pode omitir a tradicional e consagrada prática do Rosário de Nossa Senhora, oração popular que convém a todos e sempre recomendada pelos Papas. No término desta reflexão, gostaria de fazer uma referência toda particular à coroação de Nossa Senhora. É costume em muitos lugares fazer o encerramento do mês de maio com a festa da Coroação de Nossa Senhora. Nossas paróquias conservam esta tradição com muito esmero e carinho. O que vemos é uma homenagem singela, muito querida das crianças, que em procissão cantam, levam flores e expressam sua gratidão pelo amor materno de Maria. Podemos aprender com as crianças. Que nossas homenagens a Maria sejam sempre formas de culto de veneração a Maria. Que nossas procissões, ladainhas, novenas e coroações procurem inserir Maria Santíssima no mistério de Cristo e da Igreja. Maria é a chave para captar o sentido das coisas de Deus. Através do SIM de Maria à proposta divina de se humanizar, a ligou definitivamente a toda a humanidade. Maria faz parte do patrimônio da Revelação. Pense nisso.

 

Côn. Dr. Manuel Quitério de Azevedo

Prof.º do Seminário de Diamantina e da PUC-MG

Membro da Academia de Letras e Artes de Diamantina – (ALAD).

Membro da Academia Marial – SP

 

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