Quando a ética e o sigilo fazem a diferença

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“O sigilo assegura o caráter ético”

(Côn. Manuel)

Fico pensando nas palavras de Paulo aos Romanos capítulo 14, versículo 13 quando fala da liberdade e caridade e não escandalizar. De um lado Paulo diz: “Acolhei quem fraqueja na fé, sem discutir suas opiniões” (Rm 14, 1) e, por outro: “Deixemos de julgar-nos mutuamente. Procurai antes não provocar o tropeço ou queda do irmão” (Rm 14, 13). Estas palavras do Apóstolo devem-nos fazer pensar. Diante desta realidade quem já não ouviu a seguintes palavras: “Eu sei que você não conta para ninguém”. Por isso, cada ação só é verdadeira se tem o tamanho de quem a diz. O ser humano não pode viver sem os outros da sua espécie e precisa deles para evoluir e tornar-se cada vez mais ético. É nos relacionamentos pessoais, profissionais, comunitários e outros que nós temos a grande oportunidade de conhecer alguém e receber dele informações que, num todo, nos alimentam, nutrem, afetam nosso comportamento, nossas opiniões e decisões. Toda pessoa tem o sagrado direito de se expressar, comunicar, expor suas idéias, executar seus argumentos, deliberar seus projetos/planos, estar contra ou a favor. Todavia, esses mesmos direitos, a outra pessoa os tem, e por isso, a cordialidade de ouvir os outros é algo tão sagrado quanto o direito que nos é outorgado.

Quem não lembra as negações de Pedro que tanto conheceu e esteve com Jesus (Lc 22, 54-62), (Mc 14, 66-72), (Mt 26, 69-75), (Jo 18, 25-27), que na sua metodologia foram uma falta de ética com Jesus. Contudo, elas nos ensinam que adentrar no campo da ética, visando-a como marco no crescimento humano, é tornar possível uma tomada de consciência de que o Eu-ético só é com Outro através de um processo que abrange desde o companheirismo até a autêntica comunhão, passando pelas etapas de amizade, afeto, conflito, negociações, vivenciando esclarecimentos até a certeza do caminhar sempre. Este é um dos processos que marca o ritmo do crescimento do ser humano e permite, aos poucos, reconhecer o Outro como diferente, como uma pessoa de quem devo me aproximar com respeito, sem invadir nem impor. Um autor desconhecido nos diz: “O importante se faz através de você”. Logo, o que lubrifica “o você” é o tornar-se sempre e cada vez mais humano, mais pessoa. Lembra-nos Fernando Savater: “uma vida humana boa é uma boa vida entre seres humanos; caso contrário, pode até ser vida, mas não será nem boa, nem humana”.

Dor maior para Jesus foi a traição de Judas (Mt 26, 47-50), (Mc 14, 43-45), (Lc 22, 47-48), (Jo 18, 2-9). Diante desta realidade, hoje, vivenciar um valor ético é uma arte que move a personalidade num compromisso que estimula a prudência nas ações, vale dizer, o sigilo. É sabido que não existem pessoas iguais e, é na riqueza da diferença que vemos a beleza da arte de viver, a criatividade dos outros e a alegria da convivência. O sigilo assegura o caráter ético, dá segurança ao valor da comunicação e objetiva o que é essencial num diálogo. Ele nos faz pessoas responsáveis e respeitadas no campo profissional e no ambiente no qual estamos envolvidos. É nesta trilha de ideias que vemos a grande glória do respeito. Ainda mais, o sigilo nos oferece as credenciais da fidelidade à instituição que trabalhamos ou convivemos, reforça nosso compromisso pessoal e social. No olímpico campo de ação na qual nos envolvemos, o sigilo só progride na ética, e esta só progride no sigilo, se nós nos auto-programamos e determinamos nossas palavras, comentários, nossos desejos de “eu sei que você não conta para ninguém”, em qualquer ambiente que estejamos. Com isso, não queremos fazer do sigilo um mistério ou algo infalível na cátedra da consciência. Nunca é demais ressaltar que entre todos os seres vivos, o ser humano é o que possui qualidades que merecem destaque. Entre elas, a linguagem prima pelo seu límpido agir quando valoriza o expressar das emoções e sentimentos. Um conselho: nunca conclua nada ouvindo só um lado, o Outro também tem algo a dizer. O sigilo tem sua verdadeira comunicação na hora certa. Só esperamos que ninguém tenha o dissabor de errar a hora. Pense nisso.

 

Côn. Dr. Manuel Quitério de Azevedo

Professor do Seminário Arquidiocesano de Diamantina e da PUC-MG

Membro da Academia de Letras e Artes de Diamantina

Membro da Academia Marial – Aparecida – SP

 

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