Cuidados com a cultura

A vida é dom especial que não pode ser compreendida como um simples contar dos dias. Um frágil dom de valor inestimável. Bem diz o apóstolo Paulo: a vida é um tesouro carregado em vaso de barro. Por muito pouco, esse dom pode ser atingido em sua sacralidade, gerando prejuízos irreversíveis comumente causados pelas perigosas relativizações. Relativizar valores e princípios, de forma inadequada, significa desconsiderar muitos aspectos do cotidiano que requerem atenção especial. A vida merece ser reconhecida como um tesouro. Assim, é preciso cuidar da cultura que sustenta a vida – todo um conjunto de valores, práticas, hábitos e costumes que definem o jeito de ser da pessoa e de uma sociedade.

Muitos consideram que o sistema político é o campo determinante para que uma nação conquiste avanços. Também se fala da decisiva influência das relações econômicas e de tantos outros campos na vida de um povo.  Entretanto, de modo particular, vale prestar atenção, analisar e compreender as características culturais que definem o contexto social. A cultura tem força para influenciar todas as áreas da sociedade. O tecido cultural, com sua incidência nas muitas ações que integram o cotidiano, é decisivo para alcançar avanços, ou mesmo sofrer com atrasos. Por isso, nos processos educativos, vale estudar, analisar e compreender as singularidades da cultura. Isso permite conhecer com mais profundidade a realidade, gerenciar melhor as dinâmicas da vida.

Nesse sentido, para se alcançar o desenvolvimento integral não bastam os êxitos políticos ou as conquistas da área econômica. É preciso investir na qualificação do tecido cultural, torná-lo base consistente para avanços sociais. Analisar criticamente esse tecido permite selecionar e promover tudo o que faz um povo progredir. Possibilita também eliminar ou substituir características e jeitos de ser que alimentam atrasos. Traços culturais determinam jeitos de enxergar, sentir e elaborar a autoconsciência, indispensáveis para a participação cidadã. Por isso mesmo, é sempre preocupante quando os indivíduos aprendem que as coisas, os jeitos e os lugares dos outros, sobretudo dos que são de fora, são melhores.

A consequência é o comprometimento da autoestima, as perdas do sentido de pertencimento e do reconhecimento do próprio valor como povo e cultura. Convive-se com a falta de determinação, de objetividade, de lucidez e de produtividade. Nasce, assim, uma generalizada incapacidade para promover avanços, mesmo tendo à disposição as riquezas singulares do lugar onde se habita. As condições favoráveis, até privilegiadas, do próprio território são desconsideradas por descompassos na dinâmica cultural e se desdobram na incompetência humana para agir com transparência e coragem, principalmente no tratamento de assuntos que exigem objetividade para gerar avanços.

Diante da necessidade de se buscar o desenvolvimento integral, há uma demanda óbvia em toda sociedade: investir cuidadosamente no tecido da cultura para se alcançar transformações sociais mais profundas. Isso exige que todos os cidadãos sejam reverentes à própria história e aos seus antepassados. Assumam com coragem a tarefa de criar melhores condições de vida nos dias atuais, considerando, também, o bem-estar das gerações futuras. Particularmente, investir no tecido da cultura é agir com prudência para não se equivocar diante das relativizações que vão cobrar um alto preço. Aqui, vale recordar-se do campo da arte, em discussão neste momento.  Quando a arte abandona o bom gosto, faz valer os absurdos das apelações e comparações inadmissíveis. Tudo em nome de liberdades que permitem a qualquer pessoa desconsiderar que a cultura é um processo de assimilação e vivência, substrato sustentador de um jeito de ser, da vida, que é dom. Essa é uma tendência perigosa, principalmente quando se reconhece que é preciso cuidar da cultura.

 

Dom Walmor Oliveira de Azevedo

Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte

  

 

A Palavra do Pastor
Pedro e Paulo, o Amor de Cristo os seduziu – Homilia

Pedro e Paulo, o Amor de Cristo os seduziu – Homilia

Pedro e Paulo, o Amor de Cristo os seduziu Celebramos a Solenidade dos Apóstolos Pedro e Paulo, que viveram total...
Read More
Livres para seguir o Senhor – XIII Domingo do Tempo Comum Ano C

Livres para seguir o Senhor – XIII Domingo do Tempo Comum Ano C

A Liturgia do 13º Domingo do Tempo Comum (Ano C) nos convida a refletir sobre o discipulado na fidelidade ao...
Read More
Assumir a Cruz quotidiana com a força da Oração – 12º Domingo do Tempo Comum

Assumir a Cruz quotidiana com a força da Oração – 12º Domingo do Tempo Comum

A Liturgia do 12º Domingo do Tempo Comum (Ano C) nos interroga a respeito de Jesus: Quem é Ele para...
Read More
Pentecostes: O Espírito Santo de Deus nos foi enviado 

Pentecostes: O Espírito Santo de Deus nos foi enviado 

“Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós. Recebei o Espírito Santo” Com a Solenidade de...
Read More
Ascensão: irradiar amor, vida e alegria – Homilia – Solenidade da Ascensão do Senhor

Ascensão: irradiar amor, vida e alegria – Homilia – Solenidade da Ascensão do Senhor

“Ali ergueu as mãos e abençoou-os” (Lc 24,50) A Solenidade da Ascensão aponta para o fim último de todos nós,...
Read More
A promessa do Paráclito- Homilia VI Domingo da Páscoa – Ano C

A promessa do Paráclito- Homilia VI Domingo da Páscoa – Ano C

A promessa do Paráclito A Liturgia do 6º Domingo da Páscoa (Ano C) tem como mensagem a promessa de Deus...
Read More
Amar como Jesus Ama: desafio e missão – Homilia – V Domingo da Páscoa – Ano C

Amar como Jesus Ama: desafio e missão – Homilia – V Domingo da Páscoa – Ano C

Amar como Jesus Ama: desafio e missão “Vede como eles se amam” (Tertuliano) A Liturgia do 5º domingo da Páscoa...
Read More
A voz do Bom Pastor – Homilia 4º Domingo da Páscoa – Ano C

A voz do Bom Pastor – Homilia 4º Domingo da Páscoa – Ano C

“Eu sou o Bom Pastor. Conheço as minhas ovelhas, e elas me conhecem,  assim como o Pai me conhece e Eu...
Read More

“Ele está no meio de nós!” Aleluia! – Homila III Domingo de Páscoa Ano C

“Ele está no meio de nós!” Aleluia! Com a Liturgia do terceiro Domingo da Páscoa (Ano B), refletimos sobre o modo de...
Read More
A Fé no Ressuscitado é missão de paz! Segundo Domingo Tempo pascal – Ano C

A Fé no Ressuscitado é missão de paz! Segundo Domingo Tempo pascal – Ano C

A Liturgia do 2º Domingo da Páscoa (ano C), também chamado de Domingo da Misericórdia, nos convida a refletir sobre...
Read More

Empresas que possibilitam este projeto: