A Palavra do Bispo

Mensagens e publicações do bispo diocesano, Dom Otacilio Ferreira de Lacerda.

O chamado divino e a nossa resposta – Homilia – Segundo Domingo do Tempo Comum ( Ano B)

Deus nos chama para que anunciemos a

Sua Palavra e não a nós mesmos, porque

nisto consiste a vocação do Profeta…

A Liturgia do 2º Domingo do Tempo Comum (ano B) nos convida a refletir sobre o chamado que Deus faz a cada um de nós, e a resposta esperada expressa em total disponibilidade, acolhendo também os desafios próprios daquele que se propõe a responder a este chamado.

A passagem da primeira Leitura (1 Sm 3,3b-10.19) nos apresenta o chamado que Deus fez a Samuel e a sua resposta, após quatro vezes ter ouvido o chamado.

A passagem nos revela que o chamamento é sempre uma iniciativa de Deus, que vem ao encontro da pessoa e o chama pelo nome, e o que Ele espera é uma atitude de total disponibilidade a este chamado.

Os primeiros capítulos do Livro, como o da Liturgia, retratam a fase pré-monárquica vivida pelo Povo de Deus com a experiência das tribos. É o início da sedução pela monarquia, e Samuel aparece neste tempo um tanto quanto caótico.

Destacam-se na passagem cinco pontos marcantes:

1 – A vocação é sempre uma iniciativa de Deus;

2 – Samuel foi chamado por Deus enquanto estava deitado, presumivelmente durante a noite, ou seja, é no momento do silêncio e da tranquilidade e da calma, que podemos ouvir a voz de Deus. A voz divina é mais audível quando o coração e a mente abandonam a preocupação com os problemas diários, e se tem maior possibilidade de entender os apelos de Deus.

3 – Samuel tem dificuldade de identificar a voz de Deus em meio a tantas vozes e diversos apelos que nos chamam a atenção e nos atraem: há a voz de Deus e outras vozes sempre em nossos ouvidos.

4 – O papel de Eli na descoberta vocacional do jovem Samuel. Muitas vezes as pessoas com quem convivemos têm um papel decisivo na descoberta de nossa vocação.

5 – A disponibilidade de Samuel de embarcar no desafio profético, ou seja, ser uma voz humana de Deus no mundo.

O Profeta não é Profeta pelo desejo próprio, mas pelo desejo de Deus que o chamou pelo nome e o enviou para uma missão própria: Deus nos chama para que anunciemos a Sua Palavra e não a nós mesmos, porque nisto consiste a vocação do Profeta, por isto precisará de tempo de recolhimento, espaço para a Oração, para a intimidade com Deus, para a descoberta do querer de Deus a seu respeito.

Na passagem da segunda Leitura (1 Cor 6,13c15a.17-20),     o  Apóstolo escrevendo à Comunidade de Corinto exorta para que seus membros, tendo vida nova que vem de Deus, vivam uma vida correta em atitudes e hábitos, e não uma vida dissoluta e que contratestemunhe a fé professada.

A cidade de Corinto era uma cidade nova e muito próspera, com características próprias de uma cidade portuária.

A comunidade, por sua vez, formada por pessoas de origem grega e humilde, com o perigo de corromper-se numa moral dissoluta.

Neste contexto, Paulo escreve às comunidades sobre as exigências para todo aquele que aderiu a Jesus Cristo, de modo que a este tudo é permitido, mas nem tudo convém (1 Cor 6, 12).

Como batizados, nos tornamos membros de um só Corpo (Cristo) e, consequentemente, membros do Espírito Santo, com novos pensamentos, ações e comportamentos.

Deste modo, glorificaremos a Deus pelo culto e pela própria vida, pelos pensamentos, palavras e ações; não poderemos separar o culto e o louvor da vida concretamente, vivendo e testemunhando o que fala e professa no quotidiano. Deus nos chama e espera de nós uma resposta coerente, com comportamento também coerente ao compromisso batismal.

O verdadeiro culto é a adesão incondicional a Jesus Cristo e ao Seu Projeto de vida plena para todos nós, numa vida marcada pelo amor, entrega, doação e respeito pelo outro.

Somente assim agirá quem assumir plenamente a proposta de uma vida nova, em total liberdade e fidelidade, e para tanto, haverá uma necessária contínua conversão a Cristo e aos Seus valores, que são os valores do Evangelho.

Na passagem do Evangelho (Mc 1,35-42), temos o chamado dos primeiros discípulos de Jesus, ou seja, daqueles que são capazes de reconhecer no Cristo que passa o Messias esperado, o Messias Libertador.

Interessante a postura de João que apresenta Jesus, o Cordeiro de Deus, para os Seus discípulos. João tem consciência que sua missão não é congregar à sua volta um grupo de adeptos, mas a preparação do coração dos homens para o acolhimento de Jesus e Sua proposta.

João Batista não procurou os “holofotes” para a sua própria pessoa, soube retirar-se discretamente para a sombra, para que os projetos de Deus viessem a se realizar.

Aprendemos com ele a nunca atrair sobre nós as atenções: aprendemos a ser testemunhas de Jesus e não de nós próprios, a não sermos palcos de nós mesmos.

Assim temos os primeiros discípulos que serão aqueles que seguirão no caminho de amor e entrega, com anúncio e testemunho próprio de quem encontrou Alguém que transformou todo o seu viver.

Os discípulos caminham atrás de Jesus, percorrem o mesmo caminho de amor e entrega, adotam os mesmos objetivos e colaboram prontamente na missão.

Na segunda parte, temos o diálogo de Jesus com os discípulos: chamamento e resposta.

Jesus lhes faz um convite à pergunta que a Ele dirigem – “Mestre onde moras?”, dizendo –“Vinde ver”.

André e o outro discípulo aceitaram o convite e fizeram a experiência da partilha da vida com Jesus; uma experiência tão marcante, que André passará de discípulo a testemunha, no relato da vocação de Pedro, no final da passagem do Evangelho.

Um verdadeiro encontro com Jesus nos faz necessariamente discípulos missionários d’Ele por toda a vida, de modo que será cristão aquele que acolheu o chamamento de Deus e deu a sua resposta numa adesão radical e absoluta ao Projeto divino, na realização do Reino de Deus.

Este encontro com Jesus insere-nos, inevitavelmente, numa vida comunitária, porque, uma vez feita a experiência do encontro e vida com Ele, sentimos o desejo de que todos tenham a mesma graça, porque é um encontro que muda e marca todo o nosso viver.

Reflitamos:

– Quando foi que ouvi a voz de Deus me chamar?

– tenho consciência da vocação profética que me foi confiada?

– Tenho momentos de silêncio e recolhimento para ouvir a voz de Deus e perceber quais são os Seus Planos e Projetos para que eu realize?

– Quem são os “Elis” que me ajudaram/ajudam a compreender a voz de Deus em minha vida, em meio a tantas vozes que existem no mundo?

– Qual é a história da minha vocação dentro do Plano de Deus?

Concluindo, a Liturgia nos pede uma resposta ao chamado de Deus e que ela seja como foi a de Samuel – “aqui estou”.

Urge rever nossas escolhas, renúncias e assumir as consequências de quem se pôs a caminho como discípulo missionário do Senhor, com total adesão a Ele e ao Seu Projeto, testemunhando uma vida marcada pelo amor, doação, entrega e serviço.

Um sim vivido na gratuidade e generosidade nos permitirá alcançar a verdadeira felicidade que tanto desejamos e que somente no Senhor e com o Senhor encontraremos, de modo que seremos homens e mulheres da Igreja no coração do mundo, homens e mulheres do mundo no coração da Igreja.

Na Igreja, celebramos e nutrimos a nossa fé para que na esperança de um novo céu e nova terra, vivendo a caridade, fermentemos um mundo novo, irradiando o Espírito Santo que em nós habita, e sendo sal da terra, procurando dar gosto de Deus a tudo e a todos.

Nada sem Deus, tudo com Ele, pois sem Deus somos sal sem sabor que para nada mais serve, a não ser pisado pelos homens, como o próprio Jesus disse (Mt 5,13-16).

A vida é bela quando temos gosto de Deus e damos gosto de Deus a tudo o que fazemos: das menores às maiores ações.

Postado por Dom Otacilio F. Lacerda em

http://peotacilio.blogspot.com/2020/01/o-chamado-divino-e-nossa-resposta.html

Viver o Batismo é seguir os passos de Jesus- Homilia para o Domingo do Batismo do Senhor-Ano B- Dom Otacilio 

Com a Liturgia da Festa do Batismo do Senhor (ano B), refletimos sobre a revelação de Jesus Cristo, o Filho Amado de Deus que veio ao mundo para salvar a humanidade, vivendo a nossa condição humana, igual a nós, exceto no pecado, assumindo nossa fragilidade e humanidade, para que, assim, nos libertasse do egoísmo e do próprio pecado, concedendo-nos vida em plenitude. Temos também a graça de refletir e renovar os compromissos batismais, que nos fez sacerdotes, profetas e reis.

A passagem da primeira Leitura é uma pequena passagem do “Livro da Consolação” (Is 42,1-4.6-7), nome dado convencionalmente pelos biblistas, e se refere ao primeiro Cântico do Servo de Javé.

Trata-se da fase final do Exílio, um período muito difícil vivido pelo Povo de Deus, e o Profeta anuncia a reconstrução de Jerusalém, uma cidade que a guerra reduziu às cinzas, mas Deus, na Sua infinita bondade, vai fazer voltar a reinar a alegria e a paz sem fim.

Vemos no Servo mencionado pelo profeta um instrumento através do qual Deus age no mundo para comunicar a salvação à humanidade:

“é alguém que Deus escolheu entre muitos, a quem chamou e a quem confiou uma missão – trazer a justiça, propor a todas as nações uma nova ordem social da qual desaparecerão as trevas que alienam e impedem de caminhar e oferecer a todos os homens a liberdade e a paz… O Servo contará com a ajuda do Espírito de Deus, que lhe dará a força de assumir a missão e de concretizá-la”

Mais tarde, este Servo será identificado como o próprio Jesus, que veio realizar esta missão, e os Seus discípulos darão continuidade a esta, não por iniciativa pessoal, mas certos de que a vocação profética é dom de Deus, e não uma iniciativa humana. É Deus quem escolhe, chama, capacita e envia para a missão e nos comunica o Seu  Espírito que nos fortalece, anima, ilumina…

A segunda Leitura é uma passagem do Livro dos Atos dos Apóstolos (At 10,34-38); a parte inicial do Querigma, em que nos é apresentado Jesus, Aquele que “passou pelo mundo fazendo o bem”, trazendo a libertação aos oprimidos.

Jesus passou pelo mundo fazendo o bem e curando todos os que se encontravam oprimidos pelo demônio e através de Seus gestos de bondade, de misericórdia, de perdão, de solidariedade e de amor, podemos ver o Projeto libertador de Deus se realizando.

Comprometidos com Jesus e com Sua missão, desde o nosso Batismo, também somos chamados o mesmo fazer, como discípulos missionários Seus.

Na segunda parte, nos fala da salvação que se destina a todos os povos da terra, com o Batismo de Cornélio, pois se trata do primeiro pagão admitido ao cristianismo por um dos Doze Apóstolos, revelando, assim, que Deus não faz acepção de pessoas, de modo que não há como disseminar discriminações por qualquer motivo.

Na passagem do Evangelho (Mc 1,7-11)temos a realização da promessa profética, e Jesus é apresentado como o Filho de Deus, o Servo de Javé, enviado pelo Pai, sobre o qual repousa o Espírito Santo, com uma missão muito concreta a ser realizada.

Temos o encontro de Jesus com João Batista, nas margens do rio Jordão, e Jesus recebe o Batismo de João (de purificação, arrependimento e perdão dos pecados), não porque necessitasse do mesmo, mas para revelar a Sua missão específica e a Sua verdadeira identidade: Jesus é o Messias anunciado pelos Profetas que Deus enviou para libertar o Seu Povo, comunicando vida plena e definitiva.

Jesus, ao receber o Batismo de João, Se solidarizou com o homem limitado e pecador, assumindo a sua condição e colocando-Se ao seu lado para sair desta situação. E neste sentido, Jesus cumpriu plenamente o Projeto do Pai.

O Que Deus espera de nós é que correspondamos ao Seu Amor, acolhendo e assumindo a Salvação que Jesus veio trazer, e este compromisso tem início com o nosso Batismo.

Inaugura-se um novo tempo para nós, para caminharmos com Jesus “que vai seguir, com toda a liberdade, o caminho de Jerusalém e nós iremos acompanhar, ao longo Ano Litúrgico, os Seus ensinamentos e redescobrir os sinais que Ele realiza.”

Concluindo: o Batismo de Jesus revela o início de Sua missão, e o nosso Batismo é a continuidade desta missão.

Vivamos o Batismo seguindo os passos de Jesus, vivendo em comunhão entre nós, tendo d’Ele mesmos pensamentos e sentimentos, como disse Paulo (Fl 2,5), vivendo na humildade e obediência incondicional a Deus, com a força do Espírito.

Fonte de pesquisa: www.Dehonianos.org/portal

Sejamos um sim a Deus e ao Seu Projeto de Salvação! Homilia – 4º Domingo do Advento do Ano B

Com a Liturgia do 4º Domingo do Advento (ano B), damos mais um passo fundamental nesta caminhada de preparação para o Natal do Senhor, e somos convidados a refletir sobre o Projeto de Salvação de Deus para todos nós.

A passagem da primeira Leitura (2Sm 7,1-5.8b-12.14a.16) nos fala da promessa da vinda do Messias, e esta expectativa messiânica se realiza com o Mistério da Encarnação de Jesus Cristo, vivenciada e nutrida por um milênio desde o Rei Davi.

Na passagem da segunda Leitura (Rm 16,25-27), o Apóstolo nos convida a refletir sobre o Projeto de Salvação que Deus tem para todos os povos, e este se realizou por meio de Jesus Cristo, que nos fez partícipes da herança por Sua vida, com Suas palavras, gestos, sobretudo com Sua Morte e Ressurreição.

A promessa messiânica realizada consistirá neste Projeto Divino com estabilidade, segurança, paz, abundância, fecundidade e felicidade sem fim. Deus vem sempre ao encontro da humanidade, ainda que alguns insistam em afirmar Sua morte com atitude de indiferença. Há que se reconhecer sempre a Sua onipotência e presença misericordiosa e libertadora.

Deste modo, não há razões para o temor do futuro. É preciso que estejamos sempre abertos e disponíveis, incondicionalmente, para realizar a vontade divina, participando de Seu Projeto de Salvação.

Na passagem do Evangelho (Lc 1,26-38), no diálogo do anjo Gabriel com Maria, contemplamos o “sim” de uma jovem para a realização do Projeto de Salvação para toda a humanidade.

De uma aldeia, de um lugar insignificante, Deus quis nascer e inaugurar uma nova história, contando com a participação de uma simples jovem, desconhecida do povo. Jesus, o Salvador, o Messias não nascerá em palácios e nem de notáveis.

Voltemo-nos para Maria: ela é cheia de graça, segundo o anjo, porque é objeto da predileção divina. “O Senhor está contigo”, significa que é vocacionada pelo Pai e conta com a ação e assistência do Espírito Santo, e a concepção de Jesus se dará por obra e ação do Espírito Santo.

Maria é amada, escolhida, e acolhe em seu coração a vontade de Deus, num diálogo sincero, aberto, sem máscaras, e coloca nas mãos do anjo mensageiro de Deus suas dúvidas, medos e incertezas.

Maria embarca numa aventura de amor, consciente, confiante e totalmente disponível, vivendo um “sim” incondicional ao Projeto de Deus com confiança plena e incontestável.

O diálogo com o Anjo possibilita também a contemplação da onipotência divina que conta, paradoxalmente, com a fragilidade humana, sintetizada de modo muito especial na figura de Maria.

Chegando ao final do Advento tomemos uma decisão que comprometa a nossa fé, intensificando momentos mais prolongados e profundos de Oração, para que possamos Deus ouvir e Sua vontade contemplar e realizar.

Mais do que nunca, Deus quer colocar Sua tenda entre os homens e mulheres, fazendo da humanidade o Seu Templo. Neste, as pedras que o constituem são homens e mulheres do “sim incondicional a Deus”. Maria é a primeira pedra viva da casa de Deus entre todos.

Deste modo, pelo sim de pessoas tão humildes e pobres, atentas à vontade de Deus, Jesus entra na História da Salvação da humanidade.

Seja concedida à Igreja, também, a fecundidade do Espírito Santo para que, a exemplo de Maria, acolha o Verbo e exulte de alegria como mãe de uma geração santa e irrepreensível na concretização da vontade divina, como instrumentos do Seu Reino.

Reflitamos:

– Qual é a minha disponibilidade de participação neste Projeto Divino de Salvação?

– Deus pode contar comigo?

– Qual a intensidade de esperança, alegria e gratidão por ser participante deste Projeto?

– Como tem sido a minha preparação para acolhida do Verbo?

– Qual é a profundidade da comunhão e sintonia com Deus e a Sua vontade em minha vida?

– Sei dar um sim incondicional para Deus para que a Sua vontade se cumpra?

Que o Natal seja a Festa da contemplação da presença do “Senhor Onipotente” em nosso meio, contando com nossa fragilidade e imperfeições, como servos inúteis que o somos.

Meditemos sobre o Sim de Maria, para que ele ressoe no mais profundo de nós:

“Eis aqui a serva do Senhor!

Faça-se em mim segundo a Tua Palavra”.

Confiança, esperança e alegria no Senhor – Homilia – Terceiro Domingo do Advento – Ano B

“João é a voz no tempo;

Cristo é, desde o princípio, a Palavra eterna.”

Ao celebrar o 3º Domingo do Advento (ano B), chamado de “Domingo da alegria”, refletimos sobre o Projeto de salvação e vida plena que Deus tem a nos oferecer.

Cremos que as trevas cederão lugar à luz, novos tempos viveremos com a vinda do Verbo que Se fez Carne em nosso meio, fez morada entre nós.

Na passagem da primeira Leitura (Is 61, 1-2a.10-11), vemos que o Profeta é ungido pelo Senhor e sobre ele repousa o Espírito Santo, sem o que sua missão seria um fracasso.

Num período muito difícil (pós-exílio), o Profeta tem a missão, ungido pelo Espírito, de anunciar um tempo novo para o Povo de Deus, suscitando a confiança e a esperança adormecidas.

São tempos muito difíceis e incertos; o povo está desanimado e sem esperança, não obstante, é preciso reconstruir Jerusalém.

O Profeta se dirige aos pobres, pacíficos, humildes, simples, piedosos, os que temem a Deus, porque é através destes que Deus reescreverá a história de amor e vida plena.

Estes, ontem e hoje, se entregam nas mãos de Deus, com fé, humildade e confiança para participarem da obra de Deus, superando toda forma de racismo, exclusão, violência, exploração, terrorismo, imperialismos, prepotências…

Também nós, pelo Batismo, precisamos viver a vocação profética e ser uma voz de Deus, um sinal vivo do Amor de Deus pelos pobres, com renovado empenho e com coragem para construirmos um mundo melhor.

É preciso corresponder à presença amorosa de Deus em nossa vida, em sérios e inadiáveis compromissos, com confiança e esperança de um novo céu e uma nova terra.

Na passagem da segunda Leitura, o Apóstolo Paulo se dirige à comunidade de Tessalônica (1 Ts 5,16-24) para que ela seja uma comunidade vigilante na espera do Senhor que virá gloriosamente, pela segunda vez.

É preciso que a comunidade seja viva, santa, seus membros irrepreensíveis, alegres, serenos, em constante atitude de louvor e adoração a Deus, porque esta é enriquecida pelos dons do Espírito Santo para enfrentar quaisquer desafios próprios da comunidade que professa a fé no Senhor.

Era uma comunidade viva, mas a formação ainda deixava algo a desejar, porque insuficientemente catequizada, devido ao contexto na qual se encontrava inserida (perseguição e provação).

Daí a mensagem de encorajamento e exortação para que a comunidade viva bem o tempo da espera, alegres na Oração, em ação de graças, de coração aberto ao Espírito sem desprezo pelos Seus dons, abrindo-se à novidade do Reino e afastando-se do mal.

A comunidade que professa a fé no Senhor é chamada a viver uma constante vigilância, a fim de que viva coerentemente os compromissos batismais. Percorrendo o caminho vigilante, confiante e mantendo viva a alegria, encontrará no final os braços amorosos de Deus.

Ela precisa orar sem cessar, dando graças a Deus em todas as circunstâncias, inclusive nas adversas, contando com a presença e ação do Espírito Santo que jamais a desampara.

Na passagem do Evangelho (Jo 1,6-8.19-28), temos mais uma vez a pessoa de João Batista, que tem a missão de preparar a humanidade para acolhida da Verdadeira Luz, Jesus, que vem trazer vida definitiva e liberdade para todos.

É o prólogo do Evangelho de João, no qual João Batista é “o apresentador” oficial de Jesus, num ambiente social muito difícil em todos os aspectos (político, religioso, econômico, social, ideológico).

Vive-se a espera do Messias libertador, e a mensagem de João incomoda as autoridades, e sua missão consiste em dar testemunho da Luz, Jesus. Não apenas o anúncio, mas o testemunho de João Batista é inquietante para os líderes religiosos judeus.

João é a voz, e é preciso que se dê atenção ao conteúdo da mensagem. João é a voz que comunica a Palavra eterna, que existiu desde sempre e por toda a eternidade, como afirmou Santo Agostinho.

Ontem e hoje, a voz de João ressoa em nosso coração:

– o que precisa ser endireitado em nossa vida?

– quais as mudanças que precisamos fazer em nível pessoal, familiar, comunitário e social para que celebremos o verdadeiro e santo Natal do Senhor?

– como vivemos a vocação profética que o Senhor nos concedeu no dia de nosso Batismo?

– Celebraremos o natal como o nascimento do Salvador, acolhendo também Sua Palavra de vida e salvação?

– Como faremos a luz de Deus brilhar mais fortemente através de nossa vida (pensamentos, palavras e obras, sem omissões)?

– Com João o que temos que rever e aprender para não nos anunciarmos, mas anunciarmos a Divina Fonte de Luz, Jesus?

Seja o Tempo do Advento para nós o tempo da “desinstalação”, o tempo de ir ao Encontro do Senhor que vem, renovando a confiança, a esperança e a alegria, para que se fortaleçam os vínculos fraternos de amor, e a vida plena, a felicidade, por Deus prometida e possível, alcançadas sejam.

Não seja o Natal uma mera lembrança de um acontecimento, mas a celebração de um fato que aconteceu, e mudou o rumo da história, porque Ele veio morar entre nós para que não caminhemos nas trevas, mas na luz, e na luz eterna vivamos.

Ontem Ele foi colocado em seu primeiro altar, lá no humilde presépio e na desconfortável manjedoura. Que Ele seja celebrado e acolhido em nossos Altares, nas Ceias Eucarísticas que celebramos, e também no altar indispensável do coração humano, em cada pessoa, onde Ele quis também fazer Sua morada.

Fonte: www.Dehonianos.org/portal

Postado por Dom Otacilio F. Lacerda

Advento: vigilância ativa e efetiva – Homilia de Dom Otacilio – Primeiro Domingo do tempo do Avento Ano B

Com o primeiro Domingo do Tempo do Advento (ano B), seremos convidados à vigilância, numa frutuosa preparação para o Natal do Senhor, em oração e revisão de nossos caminhos, na alegre espera d’Aquele que veio, vem e virá: Jesus.
Na passagem da primeira Leitura (Is 63,16b-7.19b; 64,2b-7), meditamos uma das mais belas orações da Sagrada Escritura.
No momento pós-exílio, o Profeta tem diante de si um povo desanimado, sem esperança e com a emergente necessidade de reconstrução de sua história.
É preciso que o povo reconheça que sua condição é fruto de sua infidelidade e abandono dos preceitos divinos, distanciamento de Deus e Seu Projeto. Com isto, mergulhou em situação de pecado e desolação.
Deste modo, o único caminho é voltar-se para o Deus e da Aliança, pois por si nenhum povo, ninguém consegue emergir de uma situação de dificuldade e escuridão.
O Profeta invoca a proteção e a intervenção de Deus, confiando em Sua Misericórdia e Onipotência. O novo na história do Povo de Deus acontecerá se todos se colocarem em Suas mãos como barro, pois Ele é o Oleiro que nos molda.
O profeta não tem dúvida de que a essência de Deus é amor e misericórdia, por isto Ele intervirá em favor da salvação de todo o Povo, no entanto, a misericórdia e a onipotência divinas esperam nossa resposta de amor, nossa interação. Deus não nos infantiliza no Seu relacionamento de Amor, antes, nos responsabiliza, leva-nos ao amadurecimento necessário.
Reflitamos:
– Como me coloco nas mãos de Deus?
– Qual o nível de minha fidelidade aos preceitos e Projeto de Deus?
– Confio em Sua onipotência e misericórdia?
Na passagem da segunda Leitura (1Cor 1,3-9), o Apóstolo   Paulo nos apresenta o caminho da vigilância: acolher a graça e a paz de Deus de coração aberto, multiplicar os dons que Ele concede à comunidade (carismas e dons são dados para o crescimento da comunidade).
Todos devem se esforçar para viver uma vida santa e irrepreensível aos olhos de Deus.
Reflitamos: 
– Como acolho a graça e a paz de Deus em minha vida?
– Sou um instrumento da paz de Deus no mundo?
– Quais os dons que possuo e como os coloco a serviço da comunidade?
– O que deve ser revisto e transformado em minha conduta para que possa acolher e celebrar um Santo e Verdadeiro Natal do Senhor?
O Evangelista São Marcos (Mc 13,33-37) dirige-se a uma comunidade que precisa de estímulo e alento.
Apresenta-nos um discurso escatológico, falando-nos dos finais dos tempos e a necessária atitude de vigilância na espera da segunda vinda gloriosa do Senhor.
Os discípulos são convidados a enfrentar a história com coragem, fidelidade, vigilância, determinação e esperança, animados pela esperança da vinda do Senhor, e com isto, viver o tempo de compromisso ativo e efetivo com a construção do Reino de Deus.
A Parábola exorta a coragem e a perseverança dos discípulos na fidelidade ao Senhor até que Ele venha.
A mensagem transparece claramente na parábola: o dono da casa que partiu (Jesus); o porteiro (os responsáveis pela comunidade, as lideranças) e todos devem ser ativos e vigilantes.
Advento é a mais bela notícia de que o Senhor vem ao nosso encontro. Alegremo-nos! É preciso reconhecer Sua presença na aparente ausência.
A vigilância consistirá, portanto, em assumir os compromissos batismais, não viver de braços cruzados numa espera passiva, esperando que Deus tudo resolva, ser uma voz ativa e questionadora no mundo (sal, luz, fermento – não se conformando a este século), lutar contra toda e qualquer forma de violação da vida, da concepção ao declínio natural.
Reflitamos:
 
– Como vivo os meus compromissos batismais?
– Sou uma voz ativa no meu dia a dia?
– Empenho-me corajosamente na construção de um mundo novo?
– A vinda do Senhor é hoje. Vivo cada dia de minha existência como se fosse o último?
– De que modo assumo e participo na missão evangelizadora?
– Qual deve ser a atitude dos discípulos diante das vicissitudes, dificuldades que marcarão a caminhada histórica da comunidade até que Ele venha para instaurar definitivamente o novo céu e a nova terra?
Seja o Tempo do Advento um novo recomeço para todos nós. E será, quando dermos os primeiros passos em preparação para um Santo Natal, cheio de luz, alegria, paz e amor.
Tempo do Advento: esperamos o Senhor, Aquele que veio, vem e virá.
Maranathá! Vem, Senhor Jesus!
Fonte de pesquisa:  www.Dehonianos.org/portal

Alegres e convictos Servidores do Reino – Homilia e reflexões de Dom Otacilio para o XXXIII Domingo do Tempo Comum (Ano A)

 

Alegres e convictos Servidores do Reino (Homilia – XXXIIIDTCA)

A Liturgia do 33º Domingo do Tempo comum (Ano A), damos um passo fundamental em preparação para a grande Solenidade de Cristo Rei e Senhor do Universo. Antes, porém, é preciso que façamos séria e frutuosa revisão de como testemunhamos e participamos da construção do Projeto Divino a fim de que sejamos conscientes, ativos e comprometidos, fazendo frutificar os talentos que Deus nos concede por Sua infinita bondade.

À luz da primeira Leitura (Prov 31,10-13.19-20.30-31), refletimos sobre a sabedoria necessária que deve nos acompanhar dia a dia na construção do Projeto de Deus.

Um poema alfabético, que retrata a mulher virtuosa; e quão belo é ver a Sabedoria comparada à imagem desta mulher.Trata-se de uma coleção de sentenças sobre a sabedoria, construída ao longo de vários séculos e atribuída a Salomão.

Ela sabe gerir a casa, é diligente, trabalhadora, possui um coração generoso, teme ao Senhor e não se preocupa com a aparência. Temos aqui o convite para refletirmos sobre os valores eternos que asseguram uma vida feliz e próspera: empenho, compromisso, generosidade e temor.

Outra boa nova que transparece nesta passagem: a dependência de Deus; que quando autêntica, amplia a nossa liberdade e nos realiza plenamente. A dependência autêntica de Deus não nos infantiliza, ao contrário, nos compromete e nos ajuda no amadurecimento necessário, ampliando e solidificando a verdadeira liberdade.

Reflitamos:

– Quais são os valores que nos movem e nos orientam no pensar, falar e agir, para que não nos percamos diante de valores efêmeros?

– Como vivemos a confiança em Deus e a solidariedade para com o próximo, no cumprimento da vontade de Deus?

Na passagem da segunda Leitura (1Ts 5,1-16), o Apóstolo Paulo nos exorta a esperar o Senhor atentos e vigilantes, com empenho ativo e incansável na construção do Reino, sem jamais cruzarmos os braços.

A volta de Jesus se dará no final dos tempos, na parusia, mas enquanto isto, na espera, os dias sejam passados na vigilância e não no esmorecimento, deserção, fuga, mas vivendo coerentemente as opções do Batismo.

Sendo assim, é preciso que os membros da comunidade vivam como filhos da luz: vigilantes, sóbrios, com os olhos no futuro, esperando a chegada da vinda verdadeira, numa vida marcada por uma esperança com corpo e conteúdo.

A vigilância consiste em não negligenciar as questões do mundo e os problemas do homem e da mulher, sem jamais fugir dos desafios que nos interpelam.

Ao contrário, é procurar caminhos e respostas para os mesmos, vivendo os ensinamentos de Jesus: os valores eternos para que o mundo seja transformado, no mais belo sentido da esperança, que é a serena expectativa.

Na passagem do Evangelho (Mt 25,14-30), refletimos sobre a Parábola dos talentos.

Num contexto do esquecimento e perda do entusiasmo inicial, a comunidade se instalara na mediocridade, rotina, comodismo, facilidades, desânimo, desinteresse e deserção.

O Evangelista acena para o horizonte final da história humana: a segunda vinda do Senhor, mas enquanto isto é preciso multiplicar os talentos que Ele nos confiou, pois Ele voltará e nos julgará conforme nosso comportamento em Sua ausência.

É o nosso tempo. Com nosso coração o Senhor continuará amando os últimos, os pecadores que estão a nossa volta. Com nossas palavras, acompanhadas de testemunho, é que Ele animará, consolará, fortalecerá os entristecidos e desanimados.

É preciso construir uma comunidade alerta e vigilante que não se acomode; que não caia numa mórbida e indesejável passividade; que não fique de mãos erguidas e olhos postos aos céus, sem compromissos concretos e solidários. É preciso envolver-se, comprometer-se.

Com nossos braços estendidos e mãos abertas o Senhor acolherá os que vivem na miséria, na busca do sentido, da acolhida, de um pedaço de pão, porque é com nossos pés que Ele continuará Se dirigindo ao encontro de cada pessoa que mais precisa.

Reflitamos:

– Há o tempo de Sua presença e comunicação dos dons; o tempo de Sua ausência e confiança em nós depositada e haverá o tempo de Sua volta. O que temos para apresentar?

– Não há lugar para cristãos apáticos e acomodados, é preciso ter coragem de arriscar. O que faço para que Cristo seja conhecido e amado?

– Quais são os talentos que Deus me confiou?

– Como desenvolvo estes talentos?

Vivendo intensamente a missão por Deus a nós confiada, revelaremos ao mundo inteiro a Face de Cristo, gerando Cristo em nós, e tão somente assim os talentos serão multiplicados e não covardemente enterrados, e seremos alegres e convictos servidores do Reino por Jesus inaugurado.

 Dom Otacilio F. Lacerda

O Senhor colocou o futuro em nossas mãos (XXXIIIDTCA)

O Senhor colocou o futuro em nossas mãos

No 33º Domingo do Tempo Comum (Ano A), refletimos sobre o tema da vigilância, que consiste na espera do Senhor que vem, multiplicando os talentos que Ele nos confiou, com sabedoria, criatividade, enfrentando os riscos necessários, com indispensável esforço de nossa parte para que o Reino de Deus aconteça.

Na passagem da primeira Leitura (Pr 31,10-13.19-20.30-31), vemos a imagem da mulher perfeita, um modelo de sabedoria e comportamento, que deve estar presente em todos aqueles que esperam e participam da construção do Reino de Deus: felicidade conjugal, trabalho, autenticidade de valores.

Na passagem da segunda Leitura (1Ts 5,1-6), o Apóstolo Paulo nos exorta, como partícipes do plano de Deus, para que “não durmamos como os outros”, empenhados em multiplicar os próprios talentos, sem acumular uma fortuna para si, tão pouco usar as próprias capacidades unicamente para si, menos ainda com desperdício.

É através do trabalho que produzimos a criação divina, como prolongamento da obra da criação.

Nas atividades quotidianas, experimentamos nossas capacidades transformadoras, a necessária fantasia criativa, que não pode prescindir da verdadeira Sabedoria, para não promover e se deixar seduzir pela desordem do pecado, em dimensão pessoal, social e  estrutural.

Vejamos o que nos diz o Missal Dominical:

“A vida nos nossos dias é muito dura para a maior parte dos homens, a concorrência é desumana, não existe segurança profissional para ninguém, o relaxamento dos costumes cresce de maneira inquietadora, os homens confiam cada vez menos uns no outros.

Aumenta a delinquência, o sofrimento não poupa ninguém e a morte continua a ser o pavor de todos. Pesa sobre a humanidade o perigo de guerras: reina ainda na terra o estado da injustiça, que clama vingança, e no qual se encontra o Terceiro Mundo.

Todos experimentam, às próprias custas, quais as consequências, quando o pecado domina. Quem pode sentir-se em segurança?

Entretanto, Cristo age nesta humanidade como força de renovação, difundindo dons e talentos a homens livres que saibam fazê-los frutificar corajosamente.

Deus não tem o hábito de transformar as leis da natureza ou de agir em nosso lugar; não organiza nenhum sistema de segurança nem mesmo para os que creem n’Ele; mas o Espírito de Deus nos impele a tornarmo-nos homens novos, isto é, homens que, apesar dos contragolpes e oposições, continuam a edificar com amor um futuro mais sorridente”. (1)

Na Parábola proclamada na passagem do Evangelho de Mateus (Mt 25,14-30), temos a figura do um terceiro servo, que jamais deve ser para nós um modelo, pois tem medo do Senhor, um medo que o cristão não deve ter, desde que no Batismo se tornou  filho de Deus.

Esperando vigilantes a segunda vinda do Senhor, abertos à Sabedoria divina, que é revelada aos pequeninos e escondida aos sábios e entendidos, é preciso que nos empenhemos em descobrir quais os talentos que o Senhor nos confiou para colocá-los a serviço do outro, por “um futuro mais sorridente”.

Sem preguiça, omissão e medo, mas, com maturidade, viver o risco da fé, a entrega, a confiança, a disponibilidade para o serviço e promoção do bem comum.

A genuína fé no Senhor tem pertinentes apelos e compromissos que dela emergem, e tão somente assim, daremos razão de nossa esperança, num contínuo esforço de tornar concreta, afetiva e efetiva a virtude da caridade.

De fato, o Senhor coloca sempre o futuro em nossas mãos: memória e esperança nos acompanham. Importa, também, o conteúdo do tempo presente, o que se fez e o que se faz para que tenhamos um futuro feliz, e assim, estaremos, de fato, preparando a segunda vinda gloriosa do Senhor, e poderemos aclamá-Lo como Senhor e Rei do Universo.

(1) Missal Dominical – Paulus, 1995 – p.860.

 Dom Otacilio F. Lacerda

O Senhor virá nos julgar com equidade e verdade (XXXIIIDTCA)

O Senhor virá nos julgar com equidade e verdade

A Liturgia do 33º Domingo do Tempo Comum (ano A) nos convida à vigilância na espera do Senhor que vem, permanecendo firmes na fé, e com sabedoria multiplicar os dons que foram confiados por Deus.

A Igreja nos oferece um dos comentários sobre os Salmos do Bispo Santo Agostinho (Séc. V), em que ele nos exorta a não oferecermos resistência à Sua primeira vinda para não termos de recear a segunda vinda gloriosa.

“Então todas as árvores das florestas exultarão diante da face do Senhor porque veio, veio julgar a terra (Sl 95,12-13). Veio primeiro e virá depois.

Esta Sua palavra ressoou pela primeira vez no Evangelho: Vereis sem demora o Filho do homem vir sobre as nuvens (Mt 26,64).

Que quer dizer: Sem demora? O Senhor não virá depois, quando os povos da terra se lamentarão? Veio primeiro em Seus pregadores e encheu o mundo inteiro. Não ofereçamos resistência à primeira vinda, para não termos de recear a segunda.

Que, então, devem fazer os cristãos? Usar do mundo; não servir ao mundo. Como é isto?

Possuindo, como quem não possui. O Apóstolo diz: De resto, irmãos, o tempo é breve; que os que têm esposa sejam como se não a tivessem; os que choram, como se não chorassem; os que se alegram, como se não se alegrassem; os que compram, como se não possuíssem; e os que usam do mundo, como se não usassem; pois passa a figura deste mundo. Eu vos quero sem inquietações (1Cor 7,29-32).

Quem não tem inquietações, aguarda com serenidade a vinda de Seu Senhor. Pois, que amor ao Cristo é esse que teme Sua chegada? Irmãos, não nos envergonhamos? Amamos e temos medo de Sua vinda. Será que amamos? Ou amamos muito mais nossos pecados?

Odiemos, portanto, estes mesmos pecados e amemos Aquele que virá castigar os pecados. Ele virá, quer queiramos, quer não. Se ainda não veio, não quer dizer que não virá. Virá em hora que não sabes; se te encontrar preparado, não haverá importância não saberes.

E exultarão todas as árvores das florestas. Veio primeiro; depois virá para julgar a terra; encontrará exultantes aqueles que creram em sua primeira vinda, porque veio.

Julgará com equidade o orbe da terra, e os povos em Sua verdade (Sl 95,13). Que significam equidade e verdade?

Reunirá junto a si Seus eleitos para o julgamento; aos outros separá-los-á dos primeiros; porá uns à direita, outros à esquerda.

Que de mais justo, de mais verdadeiro do que não esperarem misericórdia da parte do juiz, aqueles que não quiseram usar de misericórdia antes da vinda do juiz? Quem teve misericórdia, será julgado com misericórdia.

Os colocados à direita escutarão: Vinde, benditos de meu Pai, recebei o Reino que vos foi preparado desde a origem do mundo (Mt 25,34). E aponta-lhes as obras de misericórdia: Tive fome e me destes de comer, tive sede e me destes de beber etc. (Mt 25,34-46).

Por sua vez, que se aponta aos da esquerda? Sua falta de misericórdia. Para onde irão? Ide para o fogo eterno (Mt 25,41). Esta Palavra suscita grande gemido.

Que diz outro salmo? Será eterna a lembrança do justo; não temerá escutar palavra má (Sl 111,6-7).

Que quer dizer: escutar palavra má? Ide para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos (Mt 25,4). Quem se alegra com a palavra boa, não temerá escutar a má. É esta a equidade, a verdade.

Porque és injusto, não será justo o juiz? Ou porque és mentiroso, não será veraz a verdade? Se queres, porém, encontrar o Misericordioso, sê tu misericordioso antes de Sua chegada: perdoa, se algo foi feito contra ti, dá daquilo de que tens em abundância. Donde vem aquilo que dás, não é d’Ele? Se desses do que é teu, seria liberalidade; quando dás do que é d’Ele, é devolução.

Que tens que não recebeste? (1Cor 4,7). São estes os sacrifícios mais aceitos por Deus: misericórdia, humildade, louvor, paz, caridade.

Ofereçamo-los e com confiança esperaremos a vinda do Juiz que julgará o orbe da terra com equidade, e os povos em Sua verdade (Sl 95,13).”

Assim, aguardemos a vinda gloriosa do Senhor. Enquanto Ele não vem, é tempo de multiplicarmos os talentos que nos foram confiados, a cada um conforme a capacidade, como o Senhor nos falou em na Parábola dos talentos.

Não importa tanto a quantidade, porque nada nos falta. Antes, importa todo esforço para que eles sejam multiplicados, sem preguiça, medo, lentidão…

Um dia seremos julgados e haveremos de prestar contas dos bens que o Senhor nos confiou. Que possamos ouvir o que os dois primeiros ouviram da boca do patrão, que serão as próprias Palavras do Senhor aos que forem justos no tempo presente:

“Muito bem, servo bom e fiel! Como foste fiel na administração do tão pouco, eu te confiarei muito mais. Vem participar da minha alegria” (Mt 25, 21 e Mt 25, 23).

Agindo assim, seremos verdadeiramente filhos da luz, filhos do dia, na vigilante espera do Senhor que vem, e não sabemos nem o dia nem a hora, mas importa que estejamos vigilantes, atentos e os dons multiplicando até que mereçamos entrar na alegria celestial.

Oremos:

“Senhor nosso Deus, fazei que a nossa alegria consista em Vos servir de todo o coração, pois só teremos felicidade completa, servindo a Vós, o Criador de todas as coisas. Por N. S. J. C. Amém”.

Dom Otacilio Ferreira de Lacerda

Permaneçamos vigilantes – XXXII do Tempo Comum do Ano A.

Com a Liturgia, do 32º Domingo do Tempo Comum (Ano A), refletimos sobre a necessária vigilância ativa na espera do Senhor que virá gloriosamente, Ele que veio, vem e virá.

O discípulo missionário do Senhor aguarda vigilante a Sua segunda vinda, pois ela se encontra presente no horizonte final da história humana, e, portanto, a necessidade de estarmos com o coração preparado para acolhê-Lo e com Ele caminhar.

Não podemos nos instalar em nosso egoísmo e autossuficiência, fechando nossos ouvidos aos apelos que o Senhor nos faz, de vigilância e espera de Sua chegada.

Na primeira Leitura, ouvimos uma passagem do Livro da Sabedoria, o Livro mais recente do Antigo Testamento, que apresenta a sabedoria como dom gratuito e incondicional de Deus para a humanidade, para conduzi-la à realização e felicidade (Sb 6,12-16).

Dois objetivos do autor do Livro: primeiro, ao dirigir-se aos seus compatriotas judeus (mergulhados no paganismo, na idolatria, na imoralidade), faz um convite para a redescoberta da fé dos pais e os valores judaicos; o segundo, ao dirigir-se aos pagãos para constatar o absurdo da idolatria, exortando a adoração e a adesão a Iaweh, o verdadeiro e único Deus.

A mensagem é explícita: somente Deus garante a verdadeira sabedoria e a verdadeira felicidade, no entanto pressupõe disponibilidade para acolhê-la e vivê-la.

Ouvimos, na segunda Leitura, a passagem da Carta de Paulo aos Tessalonicenses (1 Ts 4,13-18), na qual o Apóstolo Paulo fortalece a esperança na vinda gloriosa do Senhor, Ele  que virá novamente para concluir a história humana, inaugurando a realidade do mundo definitivo.

Importa que a comunidade fique vigilante e plenamente unida e identificada com o Senhor, para ir ao Seu encontro e com Ele permanecer para sempre.

Embora a Comunidade fosse entusiasta, ainda precisava de um amadurecimento catequético, e um dos temas era a questão da parusia, ou seja, o regresso de Jesus, no final dos tempos.

Daí o motivo do Apóstolo escrever aos tessalonicenses (entre o ano 50 ou 51), encorajando-os na fé e respondendo às suas dúvidas.

O Apóstolo confirma o que, provavelmente, já antes havia ensinado: “que Cristo virá para concluir a história humana; e que todo aquele que tiver aderido a Cristo e se tiver identificado com Ele, esteja morto ou esteja vivo, encontrará a salvação (vers. 14). Se Cristo recebeu do Pai a vida que não acaba, quem se identifica com Cristo está destinado a uma vida semelhante; a morte não tem poder sobre Ele… Isto deve encher de esperança o cristão, mantendo-o alegre, sereno e cheio de ânimo”. (1)

Deste modo, a certeza da ressurreição garante-nos que Deus tem um Projeto de salvação e de vida para todos nós; e que este está se realizando continuamente em nós até à sua concretização plena, quando nos encontrarmos definitivamente com Deus.

A comunidade que crê na Ressurreição e na vinda gloriosa do Senhor deve eliminar todo o medo e acomodação; o anúncio da Ressurreição implica no compromisso pela justiça e paz; compromisso com o mundo novo; uma caminhada confiante, ainda que no sofrimento e na dor.

Na passagem do Evangelho (Mt 25,1-13), somos exortados a nos preparar para acolher o Senhor que vem, vivendo na fidelidade aos Seus ensinamentos, com renovados compromissos com os valores do Reino, para participarmos do grande Banquete.

Trata-se da parábola das dez virgens, sendo cinco jovens “insensatas”, que não levaram azeite suficiente para manter as suas lâmpadas acesas enquanto esperavam a chegada do noivo, e as cinco ”prudentes”: “O Reino de Deus é, aqui, comparado com uma das celebrações mais alegres e mais festivas que os israelitas conheciam: o banquete de casamento. As dez jovens, representam a totalidade do Povo de Deus, que espera ansiosamente a chegada do Messias (o noivo)… Uma parte desse Povo (as jovens previdentes) está preparada e, quando o Messias finalmente aparece, pode entrar a fazer parte da comunidade do Reino; outra parte (as jovens descuidadas) não está preparada e não pode entrar na comunidade do Reino” (2).

Lembremos o contexto em que Mateus escreveu: finais do séc. I (década de 80): já tinha passado a “febre escatológica” e os cristãos já não esperavam a vinda iminente de Jesus, e uma vez passado o entusiasmo inicial, “a vida de fé dos crentes tinha arrefecido e a comunidade tinha-se instalado na rotina, no comodismo, na facilidade… Era preciso algo que abanasse os discípulos e os despertasse de novo para o compromisso com o Evangelho”.   (3).

Vigilantes na espera do Senhor, enquanto Ele não vem,  a comunidade precisa viver a sua fé com coerência e entusiasmo, na fidelidade aos ensinamentos de Jesus e comprometidos com a construção do Reino: escutar Suas Palavras, acolhê-las no coração e viver de forma coerente com os valores do Evangelho; viver na fidelidade aos projetos do Pai, amando os irmãos, até mesmo com o dom da vida, em todos os momentos.

A comunidade, portanto, não pode descuidar da vigilância, o que levaria ao enfraquecimento do compromisso com os valores do Reino, levando ao comodismo, instalação, adormecimento e o descuido, reduzindo a uma fé sem compromisso e pouco coerente.

Importa ser uma “Igreja em saída”, como tem insistido o Papa Francisco, uma Igreja em estado permanente de missão, que se alimenta da Palavra e da Eucaristia, e se coloca a serviço do Reino, com irrenunciáveis e sagrados compromissos.

Estejamos preparados para a chegada do Senhor, que vem ao nosso encontro todos os dias, e espera que nos empenhemos e nos comprometamos na construção de um mundo novo – o mundo do Reino:

“Ele faz ecoar o seu apelo na Palavra de Deus que nos questiona, na miséria de um pobre que nos interpela, no pedido de socorro de um homem escravizado, na solidão de um velho carente de amor e de afeto, no sofrimento de um doente terminal abandonado por todos, no grito aflito de quem sofre a injustiça e a violência, no olhar dolorido de um imigrante, no corpo esquelético de uma criança com fome, nas lágrimas do oprimido”

Reflitamos:

– Estamos vigilantes e preparados para a  vinda gloriosa do Senhor?

– Estamos preocupados com o imediato, o visível, o efêmero (o dinheiro, o poder, a influência, a imagem, o êxito, a beleza, os triunfos humanos…), negligenciando os valores autênticos do Reino?

– Estamos abertos à sabedoria divina, dom que nos é dado para bem conduzirmos nossa vida, em fecunda e ativa vigilância na espera do Senhor que vem?

Caminhando para o final de mais um ano Litúrgico, à luz da Liturgia da Palavra, é tempo favorável de revermos o caminho que fizemos; se, ao longo do ano, na espera do Senhor, vivemos uma caridade esforçada, uma fé atuante e uma firme esperança em ver o Reino de Deus acontecendo.

É tempo de avaliar de que modo conduzimos e orientamos a nossa vida, iluminados pela Sabedoria divina, que deve ser procurada desde a aurora e ir sempre à frente de nossas decisões, para que nossas “lâmpadas” estejam sempre acesas para quando o “noivo chegar”, o Senhor Jesus, que virá, gloriosamente, numa segunda vinda.

Quando? Não importa. Antes, importa que estejamos verdadeiramente vigilantes e ativos na ansiosa espera de Sua chegada.

Fonte: www.Dehonianos.org/portal

Postado por Dom Otacilio F. Lacerda em

https://peotacilio.blogspot.com/2019/11/permanecamos-vigilantes.html

O Ministério do padre na hora mais difícil: a morte.

Finados: dia de recolhimento, oração e contemplação de nossa realidade penúltima, a morte; fortalecimento na fé sobre nossa realidade última, a Vida Eterna!

Quantas vezes nós, padres, somos chamados para rezar pelos falecidos e familiares. Muitas vezes anônimos e desconhecidos de nossas comunidades; distantes de nossos altares! Quantas vezes são crianças revelando a dura realidade da dor que a morte provoca! Quantas vezes amigos, parentes, agentes!

Não há hora, dia, cansaço, compromissos, nem chuva ou sol que justifique nossa ausência. Ainda que de modo breve, uma breve mensagem da Palavra de Deus, um refrão, um canto, a água que nos lembra o Batismo e comunica a presença divina. O olhar, o abraço, a terna acolhida.

A morte deixa um vazio; um silêncio; uma abertura para que a Palavra naquela hora seja semeada; plantada. Uma ferida, uma chaga a ser curada, com o bálsamo da oração, da esperança anunciada, pela Palavra proclamada.

Nós Presbíteros temos uma importância indescritível na vida daquela família ao redor do caixão, daquele corpo estendido, revelando a limitação da existência humana, levando-nos a reconhecer nossa limitação/finitude.

Padres enamorados por Cristo, Homens da Palavra e do Pão; arautos da Páscoa Morte/Ressurreição, sabem que a solidariedade vivida é caminho de salvação; que a solidariedade naquele momento é o desabrochar das forças para a vida continuar e a cruz retomar, para que um dia possamos com aquele e com tantos outros que nos antecederam novamente nos encontrar; e a face divina, com os anjos e santos contemplar.

Uma paciente terminal assim disse:  “Abraço a morte, Ela não é eterna. Quando nos encontramos com Deus, nos tornamos belos”.

Momento privilegiado de acolhida e fortalecimento, para não deixar o medo, do coração conta tomar. Quem sabe momento para renovação da chama do primeiro amor, retorno à vida da Comunidade, participação perseverante no banquete da Eucaristia?

Nas Exéquias (celebração de encomendação dos fiéis falecidos), ou numa Missa de sétimo dia, nós, padres, temos uma oportunidade imperdível de acolhida, carinho e solidariedade.

É verdade que muitas vezes parecem não compreender nossos ritos, são participantes da “ocasião”, que sejam! Eis momento de graça, de favorável acolhida. Manifestar a beleza de ser Igreja, de não estarmos nunca sós: nem na vida, nem na morte.

Também o acompanhamento pela comunidade depois da esperança celebrada é indispensável. Paulo disse que não podemos perder nenhuma oportunidade de evangelizar.

Esta é uma entre tantas oportunidades que não podemos perder. Sou testemunha e admirador de diversos padres e fiéis leigos que jamais se omitem neste momento.

A Igreja tem rituais maravilhosos; Leituras Bíblicas apropriadas; prefácios profundamente bíblicos e teológicos; bênçãos riquíssimas; textos incontáveis…

Há muitos tesouros a serem oferecidos, e é necessário que sejamos sinais do Bom Pastor junto ao povo sofrido! Sinais de amor, solidariedade e compaixão; anunciadores da Boa Nova da Ressurreição!

PS: Artigo escrito para o jornal “Folha Diocesana” – Guarulhos – edição nº150 (novembro/2010).

 Dom Otacilio F. Lacerda – do seu blog:

https://peotacilio.blogspot.com/2019/11/o-ministerio-do-padre-na-hora-mais.html

Bem-Aventuranças vividas, Santidade alcançada (Homilia Festa de todos os santos e santas)

 

A Solenidade de todos os Santos abre nosso espírito e coração às consequências da Ressurreição. Para Jesus, ela foi ao terceiro dia, para nós, seus amigos, será mais tarde.

Com esta Solenidade celebramos todos os que amaram a Deus e aos irmãos, canonizados ou não. Quer nomes inscritos no calendário ou não, mas antes inscritos no Coração de Deus.

Fazemos sair do anonimato e vivemos aquilo que professamos toda vez que rezamos o Creio: “… Creio na comunhão dos Santos”. Esta Solenidade nos faz viver intensamente a realidade mais profunda e misteriosa da Igreja, que ainda peregrina na terra, saboreia e vive dos bens do céu.

Para que a santidade seja sólida, há um caminho a ser trilhado: o caminho das Bem-aventuranças, que é na exata medida, o caminho da santidade.

Jesus sobe ao monte para nos dar a Lei que já tinha dentro de Si, para inscrevê-la no coração da humanidade, para que esta encontre o verdadeiro caminho da felicidade, que é o caminho da santidade. Ele faz das Bem-aventuranças um programa de vida para Seus discípulos.

Santos são aqueles que percorreram o caminho das Bem-aventuranças, acolheram o Cristo e o Seu Reino e agora estão na glória celeste.

As Bem-aventuranças vividas nos fazem pobres, mansos, misericordiosos e pacificadores. Elas portam ao mesmo tempo o fascínio e a angústia. Firmados da esperança da eternidade, firmaram passos com coragem, firmeza, fidelidade, sem vacilar no imperativo do testemunho.

Assim nasceram e viveram os Santos: quanto mais perto da luz mais visíveis foram as sombras da existência. Vivendo na fragilidade da existência, abriram-se plenamente à graça divina, pois sabem que nada podemos e nada somos Sem Deus e sem a Sua força, graça, ternura, poder e bondade…

Por isto rezamos no Prefácio da Missa: “Peregrinos da cidade Santa, para ela caminhamos na fé e na alegria, ao vermos glorificados os ilustres filhos da Igreja que nos destes como exemplo para nossa fragilidade”.

Para vivermos a santidade temos de ser corajosos peregrinos do quotidiano, ou seja,  pessoas em marcha, apaixonadas pelo Evangelho que não desviam do caminho da verdade e da liberdade, anunciando e testemunhando o que lhes faz viver, o que lhes motiva a viver: um amor por Deus, incondicional.

Com o Batismo, somos inseridos no caminho das Bem-aventuranças, e vivê-las implica em assumir riscos, alcançar a alegria, como fruto da liberdade, como podemos contemplar na passagem da primeira Leitura (Ap 7,2-4.9-14). Contemplamos a descrição de uma visão da condição celeste. Há esperança na provação.

Refletimos sobre a paradoxalidade do Cordeiro Imolado que é o vitorioso, o vencedor, revelando-nos que o caminho de morte dos que O seguem não é o caminho da derrota, mas daqueles que foram transformados e estão de pé diante d’Ele.

O autor de Apocalipse fala de 144.000 (12x12x1000) que significa o Novo Povo de Deus, que nasce dos doze Apóstolos de Cristo. Soma-se a multidão imensa que venceu a prova. A cor branca das túnicas reflete a glória celeste e as palmas nas mãos, o martírio, a vitória e a alegria.

Na passagem da segunda Leitura (1Jo 3,1-3) refletimos sobre o nosso futuro, que tem marca de eternidade e o nosso destino como criação divina: foi para a felicidade eterna que fomos criados. A maior glória é sermos semelhantes a Deus e um dia podermos contemplar Sua face.  

“Deus é Amor” (1Jo 4,8.16) e nós podemos amar, “mas amamos, porque Deus nos amou primeiro” (1Jo 4,19). A santidade se mede pelo amor: quem mais ama é mais Santo; quem menos ama é menos Santo; quem não ama nada, não é Santo.

Santidade! Esse é o segredo que o cristão deve ter para aproximar muitas pessoas de Deus. Jamais santidade rima, em forma e conteúdo, com coisa esquisita, rara, estranha, alienada, medonha, impossível, inalcançável.

Deste modo, santidade não é algo exterior, não é caricaturesca, rígida, sombria ou até mesmo triste. Não! O Santo é uma pessoa com uma profunda vida interior, com uma grande unidade de vida, coerente, flexível, cheia de luz e de alegria.

Uma pessoa Santa é um ser humano bem normal no seu dia a dia, que  leva dentro de si algo diferente – o Amor de Deus atuante e que faz novas todas as coisas – ou seja, uma pessoa que revela ao mundo inteiro a Face de Cristo.

PS: Fontes: www.presbiteros.com.br/, Liturgia Dominical – Ed. Vozes – Johan Konings, Missal Dominical.

 Dom Otacilio F. Lacerda

http://peotacilio.blogspot.com/2019/11/bem-aventurancas-vividas-santidade.html

Amor a Deus e ao próximo, dois amores inseparáveis – 30º Domingo do Tempo Comum (Ano A)

Amor a Deus e ao próximo, dois Amores inseparáveis

O Mandamento do Amor é a essência da vida cristã

Com a Liturgia do 30º Domingo do Tempo Comum (ano A) refletimos sobre a inseparabilidade do amor a Deus e ao próximo, que são os maiores Mandamentos da Lei Divina.

Amor que está no centro da experiência cristã, pois Deus espera que cada coração humano esteja submergido no Seu Amor.

É preciso a imersão no Amor de Deus para transbordar, comunicar o amor ao próximo: eis o sentido do existir e do ser cristão em todo tempo.

A primeira Leitura (Êxodo 22,20-26) nos remete ao “Código da Aliança” que se trata de um conjunto de prescrições, soluções, disposições justas, sãs e sólidas que norteiam, orientam a conduta humana nas mais diversas situações.

Esta passagem é como um extrato deste Código: a defesa do pobre e da viúva (desprotegidos); a acolhida do estrangeiro (desenraizado); a defesa do pobre (carente e em extrema necessidade).

Somente a defesa destes é que manterá viva a Aliança de Deus com a humanidade.

A dura experiência vivida no exílio leva ao aprendizado e a compromissos renovados, para que a vida e a liberdade sejam resplandecentes em cada amanhecer, de modo que é preciso ver no rosto do pobre, do órfão, da viúva e do estrangeiro o rosto de Deus.

Reflitamos:

– Onde estão eles em nossas comunidades?

– Como os amamos e os defendemos?

– Quais os espaços que ocupam em nossas preocupações, organizações e pastorais?

– Como não compactuar com situações que favoreçam o roubo da vida e da dignidade dos pobres?

Na passagem da segunda Leitura (1Ts 1,5c-10), voltamos a refletir sobre a comunidade de Tessalônica: uma comunidade entusiasta e exemplar, pela fé ativa, caridade esforçada e de firmeza na esperança.

A comunidade é convidada a dar mais um passo, ou seja, manter a alegria apesar dos sofrimentos, das dificuldades, das perseguições, pois este é necessariamente e inevitavelmente o dinamismo do Evangelho.

A alegria e o sofrimento fazem parte do dinamismo da missão evangelizadora, de modo que na obscuridade, o Evangelho é luz. Na secura, Água Cristalina. Na fome de amor e vida, o Pão. Em situações de opressão, a Palavra que liberta…

A comunidade de Tessalônica, apesar de toda dificuldade, não é uma ilha. Confiando em Deus ela se tornou a semente de fé e de amor que gerou frutos em outras comunidades.

De fato não somos uma ilha, pois a fé nos faz uma só Igreja: missionária, misericórdia, viva e solidária.

Na passagem do Evangelho (Mt 22,34-40), mais uma vez, Jesus enfrenta os líderes religiosos de Seu tempo.

Após as questões polêmicas do tributo a César e da Ressurreição (não acreditada pelos Saduceus), Jesus é interrogado sobre qual é o maior Mandamento.

Consideremos que os fariseus conservavam 613 mandamentos (sendo 365 proibições e 248 prescrições). Um verdadeiro emaranhado de preceitos e prescrições.

Evidentemente, os pobres estavam impossibilitados deste conhecimento, e por eles eram considerados impuros e distantes de Deus.

A resposta de Jesus unifica e equipara os dois Mandamentos: “’Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda tua alma e de todo o teu entendimento!’ Esse é o maior Mandamento.

O segundo é semelhante a esse: ‘Amarás ao teu próximo como a ti mesmo’”. Com isto podemos afirmar que toda revelação de Deus se resume no amor: amor a Deus e ao próximo. A Lei e os Profetas são apenas comentários, desdobramentos destes dois Mandamentos.

O Mandamento do Amor é o resumo de toda Lei, pois a vida cristã consistirá em amar como Jesus ama ao Pai, com Seu Espírito – o Amor Trinitário.

Tudo que Deus faz é simplesmente por amor, e esta é essencialmente a marca de Seu agir. Assim, tudo quanto fizermos, tanto os gestos mais grandiosos de fidelidade quanto os menores, se ausente o amor, perdem a sua beleza e consistência.

Na verdade, os dois Mandamentos são o resumo de toda a Bíblia: que a vontade de Deus seja feita, numa entrega quotidiana de amor em favor do Reino, fazendo da vida um dom total de si mesmo, como Jesus o fez – o Missionário amado pelo Pai, na força do Espírito, o Amor que nos acompanha em todo momento.

Amando a Deus escutaremos Sua palavra e haveremos de nos empenhar no cumprir da vontade divina. No amor aos irmãos haveremos de nos solidarizar com todos os que encontrarmos pelo caminho. O amor, a solidariedade, o serviço, a partilha, o dom da vida em favor do outro nos fazem adoradores de Deus, em espírito e verdade.

Na vivência do Amor a Deus e ao próximo Jesus fez cair as máscaras da hipocrisia de Seus opositores, que conhecedores da Lei, do Mandamento divino, mas tão apenas conhecedores, pois não os colocavam em prática, como Ele o fez em relação aos pequeninos, aos pobres, aos enfermos, aos marginalizados.

Bem sabemos que este Amor que ama até o fim incomodou aqueles bem estabelecidos, porque com os preferidos de Deus jamais comprometidos.

Concluo com a afirmação do Missal Dominical:

“O Mistério de Cristo, no seu todo, é vivido na Igreja, no conjunto de seus membros em todos os séculos.

O contemplativo serve aos homens servindo a Deus; o ativo serve a Deus servindo aos homens…

O Santo Cura D’Ars suspirava por um convento e pela solidão, enquanto se dedicava inteiramente aos homens; e os conventos deram à Igreja grandes Papas, Bispos, Reformadores e Missionários, que passaram da contemplação e da solidão à ação mais perseverante e ininterrupta”.


Missal Dominical – Ed. Paulus – p. 841

Postado por Dom Otacilio F. Lacerda em

http://peotacilio.blogspot.com/2019/10/amor-deus-e-ao-proximo-dois-amores.html

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Somente Deus nos concede a verdadeira riqueza – Homilia para o XXVIII Domingo do Tempo Comum – Ano B.

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No 28º Domingo do Tempo Comum (ano B), somos convidados a refletir sobre o essencial e o efêmero em nossa...
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Somos um povo peregrino e evangelizador .

Somos um povo peregrino e evangelizador .

“Nós vimos o Senhor” (Jo 20,25) Na Exortação Evangelii Gaudium, o Papa afirma que “A Evangelização é dever da Igreja. Este sujeito da...
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O Sacramento do Matrimônio no Plano de Deus – Homilia do XXVII Domingo do Tempo Comum do Ano B

O Sacramento do Matrimônio no Plano de Deus – Homilia do XXVII Domingo do Tempo Comum do Ano B

  No 27º Domingo do Tempo Comum (Ano B), refletimos sobre a aliança matrimonial que, no Projeto de Deus, consiste...
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Graça e perseverança na missão

Graça e perseverança na missão

 “Tende entre vós o mesmo sentimento que existe em Cristo Jesus” (Fl 2,5) Retomo as iluminadoras palavras do Papa Francisco na...
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Sejamos curados pelo Senhor – Homilia – XXIII Domingo do Tempo Comum

Sejamos curados pelo Senhor – Homilia – XXIII Domingo do Tempo Comum

“Olhando para o céu, suspirou e disse:  “Effatha!”, que quer dizer “abre-te!” No 23º Domingo do Tempo Comum (ano B),...
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Paróquia: Escola de Comunhão e de Amor

Paróquia: Escola de Comunhão e de Amor

Como Igreja que somos, precisamos testemunhar a nossa Fé, dando solidez à Esperança, na vivência concreta e eficaz da Caridade,...
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Nossa prática religiosa é agradável a Deus? Homilia – 22º Domingo do Tempo Comum – Ano B – Dom  Otacilio F. de Lacerda.

Nossa prática religiosa é agradável a Deus? Homilia – 22º Domingo do Tempo Comum – Ano B – Dom Otacilio F. de Lacerda.

Com a Liturgia do 22º Domingo do Tempo Comum (ano B), aprofundamos como deve ser uma verdadeira religião que agrade...
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“Só Tu tens Palavras de vida eterna” – Homilia 21º Domingo do Tempo Comum

“Só Tu tens Palavras de vida eterna” – Homilia 21º Domingo do Tempo Comum

“A quem iremos, Senhor?” Com a Liturgia do 21º Domingo do Tempo Comum (ano B), refletimos sobre nossas opções, sobre o discernimento que...
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