Faça arder nosso coração, abra nossos olhos, Senhor! – Homilia para o 3º Domingo de Páscoa
Que a Boa Nova da Ressurreição de Jesus
Que a Boa Nova da Ressurreição de JesusCaminhemos com o Ressuscitado
“Não estava ardendo o nosso coração quando Ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?” (Lc 24,32)
No 3º Domingo da Páscoa (Ano A) é proclamada a passagem dos discípulos de Emaús (Lc 24,13-35), e refletimos sobre o itinerário para quem deseja descobrir a presença do Ressuscitado.
Descobrir o Senhor que conosco Se põe a caminho, para podermos confessá-Lo com palavras e obras, não nos curvando diante das problemáticas e dificuldades existenciais, com suas contradições, contrariedades.
Aquele que crê é sempre chamado a sair de si para o encontro com o Absoluto, Deus, que Ressuscitou e nos dirige Sua Palavra e nos comunica Sua amável presença, reconhecida no partir do Pão, em cada Banquete Eucarístico que participamos.
Como todo itinerário, temos etapas a serem vivenciadas em contínuo movimento:
– Repensar as experiências passadas, procurando reler os fatos, percebendo a presença de Deus em Sua aparente ausência. O que aparentemente se nos apresenta como derrota, pode se transformar em vitória; o caos que parece eterno pode ser iluminado com o esplendor da luz do Ressuscitado. Às possíveis situações em que não aparecem perspectivas, com asfixia eminente, aparece de repente uma fresta por onde o ar entra e nos revitaliza.
– Pôr-se em atenta escuta da Palavra do Senhor, sobretudo em vida comunitária. A comunidade cristã há que ser sempre o espaço privilegiado da escuta da Palavra do Senhor, que está sempre pronto a iluminar nossa vida, de modo que nossos horizontes se alarguem em conformidade com os desígnios divinos, superando quaisquer resquícios de individualismos e acomodações indesejáveis, com matizes de fechamentos e empobrecimentos, dor, sofrimento, luto e morte sem perspectivas de Ressurreição.
– E, assim, nesta escuta atenta, deixar ressoar a força da Palavra do Ressuscitado e deixar Sua chama ardente fazer arder nossos corações (como aconteceu aos discípulos de Emaús). O Encontro entre a Palavra e a vida torna-se fecundo, neste aquecimento desejável, porque nos ajuda a avaliar, rever, reorientar o caminho com novas perspectivas. Sem voltar para Emaús, mas voltar para Jerusalém, lugar do conflito, dos desafios, da continuidade, do não desistir do corajoso anúncio e testemunho do Ressuscitado – Emaús ou Jerusalém, qual é a nossa escolha?
– Desta escuta, vem um passo fundamental: a Oração – “Fica conosco Senhor”. É bom estar com o Senhor, permitir que Ele faça morada conosco e em nós. Como é bom estar do lado do Amado! Bem disse Pedro: “Só Tu tens Palavras de vida eterna”, e por isto o discípulo amado chegou primeiro ao túmulo para ver e acreditar na presença nova do Ressuscitado, que caminha com a comunidade.
– Chega-se ao momento ápice: o partir do Pão e o reconhecimento do Senhor Jesus, Ressuscitado, fazendo o mesmo gesto que tantas vezes fizera com eles. Uma anamnese maravilhosa “Anunciamos Senhor a vossa morte e proclamamos a vossa Ressurreição, vinde Senhor Jesus”, e como falamos na Missa, quando partimos o Pão: “Cordeiro de Deus que tirais o pecado do mundo, tende piedade de nós. Cordeiro de Deus que tirais o pecado do mundo, dai-nos a paz”.
A escuta da Palavra, a partilha do Pão preanunciando a Eucaristia (com as Mesas da Palavra e da Eucaristia) remete-se nos ao quotidiano, multiplicando gestos de amor, comunhão, partilha, compromisso e solidariedade.
A comunidade que ouve a Palavra e celebra a Eucaristia é agora aquela que continuará a Missão do Ressuscitado. Isto deve fazer transbordar nosso coração de alegria. Aleluia!
Continuar a missão do Ressuscitado, que mais Deus poderia nos confiar?
Renovemos em cada Banquete Eucarístico esta graça. Ele Se faz presente na comunidade, na Palavra proclamada, ouvida, acolhida, acreditada e vivida.
Ele Se faz presente na comunidade quando o Pão partilhado no Altar, levando-nos também à partilha do pão quotidiano com os que mais precisam.
De Banquete em Banquete caminhamos para o Encontro do Banquete Eterno quando O veremos face a face…
Celebrando o Tempo Pascal e o transbordamento da alegria da Ressurreição do Senhor, é tempo de nos sentirmos uma nova criatura, buscando as coisas do alto.
Ouvidos que a Palavra acolhem, coração que arde,
olhos que se abrem, mãos que também assim o fazem,
pés que se põem a caminho para o alegre anúncio
e testemunho do Ressuscitado.
Com Ele morramos, com Ele ressuscitemos.
Amém. Aleluia!
Dom Otacilio F. de Lacerda
http://peotacilio.blogspot.com/2020/04/caminhemos-com-o-ressuscitado-ivdtpa.html
O Ressuscitado caminha conosco. Alegremo-nos!
A passagem dos discípulos de Emaús marca profundamente nossa Espiritualidade genuinamente Pascal, e por nos sentirmos, por vezes, profundamente com eles identificados, sejamos enriquecidos por este Comentário.
“A caminhada dos dois discípulos de Emaús coloca-nos perante o Mistério da Ressurreição de Jesus e o nosso modo de O reconhecermos.
É importante, em primeiro lugar, não banalizar esta realidade central do cristianismo com representações insuficientes: a Ressurreição de Jesus não é como a de Lázaro, o qual regressa à vida com um corpo igual ao precedente, para depois morrer de novo.
Neste caso, os discípulos teriam certamente reconhecido o Homem que até três dias antes tinham visto vivo, se a Sua Ressurreição fosse semelhante à de Lázaro. Pelo contrário, Jesus Ressuscitado entrou numa condição radicalmente nova e inconcebível para os recursos humanos apenas, à qual Ele dá origem precisamente com a Sua Páscoa.
Jesus está vivo para sempre e por isso pode aproximar-Se de cada homem. É verdade que a Sua aproximação e o Seu caminhar conosco não é reconhecível por nós só com os olhos do corpo: é preciso que o próprio Ressuscitado nos abra os olhos fazendo-nos percorrer um caminho de conversão […].
O texto quer refletir precisamente acerca disto: como podemos encontrar o Ressuscitado, cuja presença não nos é dada na forma de uma realidade que podemos ver e tocar?
Os olhos do corpo já não bastam (como não foram suficientes para os discípulos da primeira hora), e então é preciso refletir sobre a condição mediante a qual o Ressuscitado Se apresenta, sobre o modo no qual Ele concede também a nós que O reconhecemos […].
Os discípulos estão dominados pelas suas desilusões, mas ao mesmo tempo compreende-se que a sua vida não fora até então uma vida de pessoas superficiais: eles tinham-se deixado inflamar pelo Projeto de Jesus (“Esperávamos”; Lc 24,31).
Ambos representam uma Humanidade que procura, deseja ou que pelo menos soube a certa altura desejar coisas grandes; são pessoas dispostas a gastar a sua vida por coisas grandes, e embora na desilusão não se fecham, confessam a sua tristeza (“entristecidos”: Lc 24,17), aceitam qualquer palavra que possa eventualmente chegar até eles e abrem espaço a um desconhecido que se intromete e se põe a caminho com eles. […]
É importante então compreender que os olhos não veem, não porque o Ressuscitado não está realmente presente, mas porque estão ainda prisioneiros e devem ‘adaptar-se’ à nova luz, porque o coração ainda não sabe arder.
Não veem porque ainda não descobriram a fulgurante sabedoria divina da Cruz, de um Deus que Se ofereceu aos homens sofrendo e morrendo de modo que compreendessem toda a Sua ‘Paixão’ por eles.
Pois bem, só a familiaridade com a Palavra de Deus pode introduzir-nos nesta sabedoria. A Escritura é a meditação contínua dessa Palavra que nos torna acessível o conhecimento do Amor Crucificado por Deus; a Escritura não tem mais para dizer senão o Amor do Pai em todas as suas cambiantes.
É depois na Fração do Pão que nos é entregue, num modo real e imediato, o gesto que abrange e exprime o sentido da vida de Jesus, inteiramente marcada pelo dom total de Si mesmo.
Com estes meios, ainda hoje Jesus Ressuscitado liberta os olhos e o coração do homem e permite-lhe reparar n’Ele, o Vivente, que partilha a caminhada conosco.” (1)
Concluindo, que sintamos renovar em nosso coração, o desejo de caminhar com Jesus Ressuscitado, com a comunidade, espaço privilegiado para ouvir, acolher Sua Palavra, e nos alimentarmos de Sua Divina presença no Pão da Eucaristia, que se partilha na mais bela Mesa da comunhão e da Vida Plena: o Altar do Senhor.
(1) Lecionário Comentado – pp. 441/443.
Dom Otacilio F. Lacerda
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