239 anos de fé e tradição: Jubileu do Senhor Bom Jesus de Matosinhos
Entre cavaleiros, amazonas, romeiros e peregrinos vindos de diversas regiões, o 239º Jubileu do Senhor Bom Jesus de Matosinhos reúne milhares de fiéis em Conceição do Mato Dentro para um tempo de oração, conversão e encontro com Deus, inspirado pelo tema: “Senhor Bom Jesus, fazei-nos instrumentos de vossa paz”

Foto: Pascom Santuário.
Pelas estradas de Minas, cavaleiros e amazonas seguem guiados pela fé e pela esperança rumo ao Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, em Conceição do Mato Dentro. Alguns percorrem dezenas de quilômetros; outros, centenas. Todos movidos pelo mesmo propósito: participar do Jubileu do Senhor Bom Jesus, realizado anualmente entre os dias 13 e 24 de junho.
Não menos impressionante é o testemunho dos peregrinos que realizam o percurso a pé. Enfrentando o frio, o calor, o cansaço e as dores da caminhada, muitos percorrem longas distâncias como forma de agradecimento, penitência ou súplica ao Senhor Bom Jesus. Ao chegarem ao Santuário, não é raro encontrar romeiros buscando sacos de gelo para aliviar os pés castigados pela jornada. Cada passo percorrido torna-se expressão concreta da fé e da confiança depositadas naquele que, há gerações, atrai multidões à montanha sagrada.

do Santuário.
Nos arredores do Santuário, inúmeras barracas abrigam romeiros vindos de diversas regiões de Minas Gerais e até mesmo de outros estados. Durante os dias jubilares, esses peregrinos transformam a montanha em um grande espaço de oração, convivência fraterna e testemunho de fé.
Nos semblantes desses homens e mulheres, há algo em comum: a alegria genuína de quem está prestes a se encontrar com Deus; a esperança de alcançar uma graça; e a disposição para partilhar histórias, experiências e gestos de ajuda mútua, fortalecendo os laços de fraternidade que marcam a espiritualidade do Jubileu.

Altar do Santuário. Foto: Joel Fernandes.
Neste ano de 2026, a tradicional celebração chega à sua 239ª edição inspirada pelo tema “Senhor Bom Jesus, fazei-nos instrumentos de vossa paz”. A proposta dialoga com o Ano Jubilar Franciscano e convida os fiéis a renovarem seu compromisso com a construção da paz, da fraternidade e da reconciliação, à luz do Evangelho.
A edição deste ano possui ainda um significado especial para a Diocese de Guanhães, que celebra seu Jubileu de 40 anos de criação, e recorda os 80 anos da Páscoa do Padre Frei Vicente de Licodia, frade capuchinho cuja história permanece profundamente ligada ao Santuário e à devoção ao Senhor Bom Jesus de Matosinhos.
Desde a abertura do Jubileu, no dia 13 de junho, milhares de fiéis têm participado das celebrações e momentos de espiritualidade. A programação diária reúne missas, confissões, adoração ao Santíssimo Sacramento, recitação do Terço da Divina Misericórdia, momentos marianos, novena e pregações que conduzem os peregrinos à reflexão sobre a paz, a oração e a vivência do Evangelho.
A Abertura do 239º Jubileu

A programação teve início no dia 13 de junho, Festa de Santo Antônio, tradicionalmente reconhecido como patrono dos pregadores do Jubileu. Pela manhã, foi celebrada a Santa Missa que marcou a abertura do Ano Jubilar pelos 80 anos da Páscoa do Padre Frei Vicente de Licodia, frade capuchinho cuja história permanece profundamente ligada ao Santuário e ao povo conceicionense.
Ao meio-dia, os sinos anunciaram oficialmente o início do 239º Jubileu do Senhor Bom Jesus de Matosinhos. A solenidade contou com a bênção do Santíssimo Sacramento, a consagração ao Senhor Bom Jesus e momentos de oração que reuniram peregrinos e devotos vindos de diferentes regiões.

Santo Antônio. Foto: Pascom Santuário.
Já no período da noite, a imagem de Santo Antônio foi conduzida em procissão da Igreja Matriz até o Santuário, preparando os fiéis para a celebração eucarística presidida pelo bispo diocesano de Guanhães, Dom Otacilio Ferreira de Lacerda. A Santa Missa reuniu romeiros, moradores e peregrinos no alto da montanha, marcando o início das celebrações jubilares.
Após a celebração, os fiéis participaram da tradicional bênção e distribuição dos pães de Santo Antônio, encerrando o primeiro dia do Jubileu em clima de oração, fraternidade e devoção.
O que já aconteceu

Desde o dia 14 de junho, as reflexões do Jubileu vêm sendo conduzidas pelo missionário redentorista Padre Vinícius Ponciano, C.Ss.R., responsável pelas pregações desta primeira etapa das celebrações. Inspiradas pela espiritualidade franciscana e pelo tema do Jubileu deste ano, suas mensagens têm convidado os fiéis a percorrerem um caminho de conversão, paz e renovação da esperança.
A cada dia, os peregrinos são chamados a meditar aspectos distintos da vida cristã. As reflexões já abordaram o chamado de Deus para “reerguer as ruínas do mundo”, a necessidade de permitir que Cristo imprima em cada coração as marcas do seu amor, a busca da verdadeira alegria cristã e a importância da oração como fonte da ação evangelizadora. Nesta quinta-feira (18), os fiéis refletem sobre o tema: “Ensina-nos a rezar, e seremos repletos do teu Espírito”.

profissionais da Limpeza Urbana.
Foto: Pascom Santuário.
Ao longo destes primeiros dias, diversos grupos tiveram seus jubileus celebrados de forma especial. A programação contemplou a Juventude, os profissionais da saúde, os enfermos e idosos, os trabalhadores da limpeza pública, os motoristas e profissionais do trânsito, além dos assistidos pela APAE.
Entre os momentos de maior participação esteve o Jubileu da Juventude, realizado no dia 14 de junho. Jovens de várias paróquias da Diocese de Guanhães reuniram-se no Santuário para uma jornada marcada pela oração, animação, convivência fraterna e celebração da fé. A caminhada da juventude, os momentos de louvor, a adoração ao Santíssimo Sacramento e as celebrações eucarísticas transformaram a montanha do Bom Jesus em um testemunho vivo da presença e do protagonismo dos jovens na vida da Igreja.

Ainda no domingo, 14 de junho, Dom Otacilio presidiu a missa das 16h, com a investidura dos Ministros Extraordinários da Sagrada Comunhão.
Também merecem destaque as celebrações dedicadas aos profissionais da saúde, aos enfermos e idosos, que participaram da Missa com a Sagrada Unção; aos trabalhadores da limpeza pública, reconhecidos pelo serviço prestado diariamente à sociedade; aos motoristas e profissionais do trânsito, que confiaram ao Senhor Bom Jesus seus caminhos e jornadas; e aos assistidos pela APAE, que têm seu jubileu celebrado nesta quinta-feira (18), em um momento de acolhimento, inclusão e valorização da dignidade humana.
Paralelamente às celebrações, centenas de peregrinos têm buscado o Sacramento da Reconciliação na Casa dos Romeiros. Desde as primeiras horas da manhã até o final da tarde, sacerdotes acolhem os fiéis para as confissões, reforçando uma das dimensões mais profundas do Jubileu: a experiência do encontro com a misericórdia de Deus e a renovação da vida cristã.
Nos próximos dias
A programação do 239º Jubileu do Senhor Bom Jesus de Matosinhos prossegue até o dia 24 de junho, reunindo milhares de peregrinos em torno da oração, da Palavra de Deus e da celebração dos sacramentos.

Foto: Divulgação CNBB.
A partir desta sexta-feira (19), as pregações passam a ser conduzidas por Dom Messias dos Reis Silveira, bispo da Diocese de Teófilo Otoni, que acompanhará os fiéis durante três dias de reflexão e aprofundamento espiritual. Entre os destaques da programação estão o Jubileu dos profissionais da educação e dos servidores públicos, o Jubileu do homem e da mulher do campo e o Jubileu dos trabalhadores e profissionais dos diversos segmentos produtivos.

Foto: Pascom Santuário.
No sábado (20), a programação reserva um momento especialmente aguardado pelos romeiros: a bênção dos cavaleiros e amazonas. A celebração recorda uma tradição que atravessa gerações e mantém viva a presença daqueles que fazem da cavalgada uma expressão de fé, devoção e peregrinação ao Senhor Bom Jesus.

Foto: Pascom Santuário.
Já nos dias 22, 23 e 24 de junho, as pregações serão conduzidas por Frei Ismail Lisboa de Miranda, OFMCap. Nesse período, também serão celebrados o Jubileu dos profissionais da segurança pública e privada, o Jubileu das Pastorais e Movimentos e diversas atividades voltadas aos romeiros que participam da reta final das festividades.
Entre os momentos mais aguardados estão a Caminhada das Mulheres, no dia 23, e a Caminhada Penitencial dos Homens, no dia 24, expressões de fé que tradicionalmente mobilizam grande número de peregrinos e reforçam o caráter penitencial e espiritual do Jubileu.

O encerramento acontecerá no dia 24 de junho, Solenidade da Natividade de São João Batista. Após a celebração presidida por Dom Otacilio Ferreira de Lacerda e concelebrada pelos sacerdotes presentes, os fiéis participarão da Solene Procissão do Santíssimo Sacramento da Igreja Matriz até o Santuário. Em seguida, será concedida a Bênção do Santíssimo Sacramento, a Indulgência Papal e a bênção dos objetos de devoção, concluindo mais uma edição de uma das mais tradicionais manifestações de fé de Minas Gerais.
O Jubileu do Senhor Bom Jesus de Matosinhos: mais de dois séculos de fé e peregrinação
A história do Jubileu do Senhor Bom Jesus de Matosinhos remonta ao século XVIII e constitui uma das mais antigas e expressivas manifestações religiosas de Minas Gerais. Desde 1787, milhares de fiéis sobem a colina sagrada do Santuário para agradecer graças recebidas, apresentar suas intenções e renovar sua confiança em Cristo.

A tradição tem origem em uma narrativa preservada pela memória popular. Conta-se que Antônio Angola, um homem escravizado, encontrou uma imagem de Cristo em meio à mata. Levada para a igreja, a imagem teria retornado diversas vezes ao local onde foi encontrada, despertando a atenção dos moradores e fortalecendo a devoção ao Senhor Bom Jesus.
Outro personagem importante dessa história é o português José Correia. Sofrendo de uma grave enfermidade, fez a promessa de construir um abrigo para a imagem caso alcançasse a cura. Tendo recebido a graça pedida, cumpriu sua promessa, contribuindo para o nascimento de uma devoção que cresceria ao longo dos séculos.
A tradição registra ainda que, durante um período de forte estiagem, uma procissão com a imagem do Senhor Bom Jesus foi realizada em oração pela chuva. Após a manifestação de fé do povo, teria começado uma chuva abundante e duradoura, fato que fortaleceu ainda mais a devoção dos romeiros.
Desde então, o Jubileu tornou-se um tempo privilegiado de encontro com Deus. Ao longo de doze dias, o Santuário acolhe milhares de peregrinos que participam das celebrações eucarísticas, novenas, procissões, momentos de adoração, confissões e diversas expressões de piedade popular.

Extraordinários da Sagrada Eucaristia.
Foto: Pascom Santuário.
Mais do que uma tradição centenária, o Jubileu permanece como um testemunho vivo da fé do povo de Deus. Geração após geração, homens, mulheres, jovens e crianças continuam percorrendo estradas e caminhos para chegar ao Santuário, trazendo consigo esperanças, agradecimentos e pedidos de intercessão. Assim, o Senhor Bom Jesus de Matosinhos segue reunindo multidões e renovando, ano após ano, uma história marcada pela oração, pela perseverança e pela confiança na misericórdia divina.
Frei Vicente de Licodia: o construtor de sonhos e da fé

no Altar do santuário. Foto: Joel Fernandes.
Entre os nomes mais importantes da história religiosa de Conceição do Mato Dentro, destaca-se o de Frei Vicente de Licodia. Nascido na Itália, em 1882, com o nome de Giuseppe Trombino, ingressou ainda jovem na Ordem dos Frades Menores Capuchinhos, movido pelo desejo de dedicar sua vida ao Evangelho e ao serviço da Igreja.
Ordenado sacerdote em 1905, pediu para ser enviado como missionário ao Brasil. Chegou ao país no ano seguinte e iniciou sua missão em Itambacuri, onde se destacou não apenas pelo trabalho pastoral, mas também pela promoção humana, especialmente por meio da educação e do ensino agrícola.
Em 1916, foi transferido para Conceição do Mato Dentro. A partir de então, sua história passou a se confundir com a história da cidade e do Jubileu do Senhor Bom Jesus de Matosinhos. Durante mais de três décadas, exerceu seu ministério sacerdotal junto ao povo conceicionense, tornando-se referência de dedicação, caridade e serviço.

sepultado no Santuário do Bom
Jesus de Matosinhos. Foto: Joel Fernandes.
Foi responsável por importantes obras religiosas e sociais, entre elas a fundação do Ginásio São Francisco, do Asilo São Joaquim, do Hospital Imaculada Conceição e, sobretudo, pela construção do atual Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos. Como diretor espiritual da Irmandade do Senhor Bom Jesus, dedicou grande parte de sua vida ao fortalecimento da devoção ao Cristo Crucificado.
Os testemunhos da época descrevem Frei Vicente como um homem de profunda espiritualidade, disciplinado na oração, próximo do povo e sempre disposto a acolher aqueles que buscavam conselho, conforto ou ajuda. Sua vida simples e sua fidelidade ao carisma franciscano marcaram gerações.
Em 13 de junho de 1947, justamente no início do Jubileu, sofreu um grave mal-estar enquanto celebrava a Santa Missa. Mesmo debilitado, concluiu a celebração. Horas depois, faleceu, deixando um legado que permanece vivo na memória dos fiéis. Seus restos mortais repousam no Santuário que ajudou a erguer e que continua sendo destino de milhares de peregrinos todos os anos.
São Francisco de Assis: o homem que escolheu a paz

Conceição do Mato Dentro. Foto: Joel Fernnades.
O tema do 239º Jubileu do Senhor Bom Jesus de Matosinhos — “Senhor Bom Jesus, fazei-nos instrumentos de vossa paz” — remete diretamente ao legado espiritual de São Francisco de Assis, um dos santos mais amados da Igreja e fundador da família franciscana à qual pertencia Frei Vicente.
Nascido na cidade de Assis, na Itália, no final do século XII, Francisco viveu uma juventude marcada pelos sonhos de riqueza e prestígio. Contudo, após uma profunda experiência de encontro com Cristo, decidiu abandonar seus bens e dedicar-se inteiramente ao serviço de Deus e dos irmãos.
Seu testemunho foi marcado pela simplicidade, pela fraternidade e pelo amor aos mais pobres. Francisco compreendeu que o Evangelho deveria ser vivido de forma concreta, através da humildade, da misericórdia e da promoção da paz. Via em cada pessoa um irmão e em toda a criação um reflexo do amor de Deus.

Francisco de Assis
no Altar do Santuário.
Foto: Joel Fernandes.
Sua mensagem atravessou os séculos porque continua atual. Em um mundo frequentemente marcado por divisões, São Francisco recorda que a verdadeira transformação começa no coração humano. Sua vida foi um convite permanente à reconciliação, ao perdão, ao respeito pela dignidade de cada pessoa e à construção da paz.
Ao celebrar o Ano Jubilar Franciscano e o Jubileu do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, os fiéis são convidados a renovar esse compromisso de serem instrumentos da paz de Cristo em suas famílias, comunidades e ambientes de convivência.
Quer saber a programação completa do 239º Jubileu do Senhor Bom Jesus de Matosinhos? Acesse aqui.
Por: Joel Fernandes – Assessoria de Comunicação/ Diocese de Guanhães

