O amor que permanece: uma senhora, Dom Felippe e a homenagem silenciosa dos pobres

Durante as celebrações de acolhida e sepultamento dos restos mortais do primeiro bispo de Guanhães, a presença de uma senhora junto à urna emocionou Dom Marcello Romano e deu origem a uma profunda reflexão sobre o amor, a dignidade e a memória dos mais pobres.
Entre os momentos de fé e emoção que marcaram as celebrações de acolhida e sepultamento dos restos mortais de Dom Antônio Felippe da Cunha, SDN, primeiro bispo diocesano de Guanhães, uma presença simples e silenciosa despertou uma reflexão especial.
Uma senhora permaneceu próxima à urna funerária, procurando conservar seu lugar em meio à movimentação das pessoas. Sua atitude chamou a atenção de Dom Marcello Romano, bispo emérito de Araçuaí e um dos sacerdotes que receberam a ordenação presbiteral das mãos de Dom Felippe.
Ao contemplar aquela cena, Dom Marcello recordou o amor que o primeiro bispo de Guanhães dedicava aos pobres. Em seu testemunho, encontrou naquela presença uma expressão da reciprocidade desse amor: Dom Felippe amava os pobres, e os pobres também o amavam.
Em uma reflexão marcada pela sensibilidade pastoral, escreveu:
Tocou-me profundamente a presença daquela senhorinha junto à urna de Dom Felippe.
Sabemos o quanto Dom Felippe amava os pobres. Mas, naquele momento, sua presença me fez pensar que aquele amor era correspondido: os pobres também amavam Dom Felippe. E ela estava ali para nos dizer isso, sem precisar pronunciar uma única palavra.
Sua presença persistente, silenciosa e quase obstinada trouxe-me à memória os anawim, os pobres de Javé, de quem tanto ouvi falar quando estudava teologia no seminário. Aquela senhora, para mim, já não era apenas uma pessoa. Era a representação de um povo inteiro: um povo tantas vezes invisível, deslocado, tratado como alguém que está sempre fora do lugar. Um povo que parece não encontrar espaço neste mundo, como se não coubesse nele.
Havia algo de profundamente simbólico naquela cena. Ela nos empurrava, tentando encontrar lugar, enquanto nós, apressados, também a empurrávamos, querendo que nos deixasse passar. Mas ela não cedeu. Permaneceu ali. Não reivindicava privilégios, não fazia discursos, não pedia atenção. Queria apenas estar perto, prestar sua última homenagem, dar seu último adeus. E ela ficou.
Naquela pequena senhora, vi a dignidade e a resistência dos pobres. Vi um amor que não precisava de palavras e uma fidelidade que não se deixava deslocar. Talvez, sem perceber, ela tenha nos oferecido uma das mais bonitas homenagens a Dom Felippe: mostrou-nos que o amor que ele dedicou aos pobres deixou marcas profundas e encontrou morada no coração deles.
No fim, fiquei pensando que, enquanto muitos de nós estávamos ali para nos despedir de Dom Felippe, aquela senhora parecia estar ali para testemunhar que os pobres não se esquecem de quem os ama.
+ Dom Marcello Romano
Um testemunho de fé e devoção
A mesma senhora também compartilhou com uma agente da Pastoral da Comunicação uma experiência pessoal durante sua permanência junto à urna de Dom Felippe.
Em suas palavras, o perfume que sentia era o mais cheiroso que já havia percebido. Para ela, Dom Felippe tinha “cheiro de santidade”.
A expressão, nascida de sua experiência de fé e devoção, acrescenta outra dimensão à cena descrita por Dom Marcello: enquanto o bispo reconheceu naquela presença silenciosa um testemunho do amor dos pobres, a senhora manifestou, com suas próprias palavras, o carinho e a veneração que guardava pelo primeiro pastor da Diocese.
Não são necessárias grandes explicações para compreender a força daquele momento. De um lado, a memória de um bispo conhecido por sua simplicidade, proximidade com as comunidades e compromisso com os mais necessitados. De outro, a presença de uma mulher que desejava permanecer junto dele para prestar sua homenagem.
Naquele encontro entre memória, gratidão e fé, uma das mensagens mais profundas deixadas por Dom Felippe pareceu ganhar novamente vida: o amor cristão não se limita às palavras, mas se manifesta na proximidade, na perseverança e no cuidado com o próximo.
Dom Felippe amou seu povo. E, tantos anos depois, seu povo continua encontrando maneiras de demonstrar esse amor.

