Memória de Dom Antônio Felippe da Cunha, primeiro bispo da Diocese de Guanhães

Na edição de setembro e outubro de 2026 da revista Coisa Nossa, dos Missionários Sacramentinos de Nossa Senhora, o Pe. José Estevam de Paiva, SDN, recorda a trajetória e a personalidade de Dom Antônio Felippe da Cunha, SDN, primeiro bispo da Diocese de Guanhães. Em um testemunho marcado por lembranças pessoais, o sacerdote apresenta aspectos de sua vida religiosa, missionária e episcopal, destacando sua proximidade com as pessoas, sua dedicação à formação e seu jeito acolhedor de exercer o ministério.

A publicação ganha significado especial neste ano em que a Diocese de Guanhães celebra os 40 anos de sua instalação. Como parte das comemorações jubilares, no próximo dia 31 de outubro, os restos mortais de Dom Felippe serão trasladados do Santuário do Bom Jesus, em Manhumirim, para a Catedral São Miguel, em Guanhães, onde serão definitivamente sepultados. A ocasião será marcada por celebração solene às 10h.

Após obter as autorizações necessárias junto aos órgãos competentes, a Diocese encontra-se na fase final de construção da cripta da Catedral, preparada para acolher os restos mortais de seu primeiro bispo. O gesto deseja preservar sua memória e aproximar novamente Dom Felippe da Igreja Particular que ele foi chamado a pastorear nos primeiros anos de sua história.

A seguir, reproduzimos, na íntegra, o artigo do Pe. José Estevam de Paiva, SDN, publicado no periódico Coisa Nossa:

DOM ANTÔNIO FELIPPE DA CUNHA, SDN

Pe. José Estevam de Paiva, SDN
Paróquia Nossa Senhora do Bom Despacho

“Mais do que máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo estará perdido”

(Charles Chaplin)

Louvamos a Deus pelos mártires e santos do passado longínquo. Mas, entre nós Missionários Sacramentinos de Nossa Senhora, temos um testemunho de AMOR E SACRIFÍCIO, de um missionário Sacramentino, de um passado recente: Dom Antônio Felippe da Cunha, SDN. Sua vida resume o pensamento de Charles Chaplin dito acima. Um homem que por vivência primava pela “afeição e doçura”.

Conheci o Dom Felippe bem de perto. Pessoa impoluta, aconchegante, junto às pessoas e bem missionário. Desde janeiro de 1959 no pátio do Colégio Pio XI lá estava o Frater Felippe (junto com outros fratres: José Martins, Sebastião Braz, José Hipólito, Tonaco e outros…) muito alegre e jovial (de batina cinza), simpático e elegante.

Mais tarde quando entrei para o Educandário Sacramentino (Seminário) de Espera Feliz, encontrei-me de novo com ele. Estava entre nós, o Pe. Felippe (o Felipão), como professor e auxiliar na formação. Era aquela presença que espargia ânimo e alegria no meio de nós. Pe. Felippe era próximo dos seminaristas de então.

Como Padre por onde passou, era aquela presença missionária e muito animado com o povo. Sabia se aproximar das pessoas animando as lideranças e criando laços. Sabia usar seus dons humanos para melhor levar o evangelho e atrair o povo para a Igreja.

Nas paróquias por onde esteve, deixou um caminho aberto para o povo, emoldurando as comunidades do jeito de ser eucarístico-mariano. Tinha um apreço muito grande no atendimento às comunidades, na formação de lideranças e das comunidades, incentivava a juventude.

Ainda nos meus primeiros anos como padre, em Espera Feliz, ele me convidou para orientar um retiro para os nossos formandos (de Filosofia e Teologia). Foi durante um Capítulo Geral. Ele apenas me entregou o livro MOSTRA-ME O TEU ROSTO, (de Inácio de Larrañaga). Apenas assim e nada mais. Nunca orientei um retiro na minha vida. Com disposição e vontade coloquei-me à serviço. Entre os formandos daquele tempo estavam José Raimundo da Costa, Domício Herculano, Élcio Gorini e etc. Eram 18 formandos.

O Pe Felippe tinha uma postura missionária que falava à Igreja da época e influenciava a Vida Consagrada. A CRB Nacional sabendo de seu testemunho na Congregação o convidou para ser membro da Diretoria Nacional. Por alguns anos esteve junto nas reuniões no Rio de Janeiro e assembleias, animando a Vida Religiosa do Brasil. Era muito querido na Diretoria Nacional e por onde passava. Sempre que ia para as reuniões levava algum agrado para os membros da CRB Nacional.

A Igreja, através da CNBB, sabendo de sua presença muito missionária, sobretudo na Diocese de Caratinga e no Governo Geral dos Missionários Sacramentinos de Nossa Senhora, o indicou para o Episcopado. E um tempo depois foi ordenado Bispo de Guanhães-MG.

No pouco tempo de Bispo de Guanhães, deixou marcas de um Bispo Pastor, acolhedor e bem missionário, próximo de seu rebanho. Um Bispo acolhedor com gestos fraternos com o seu clero. Mas, bem no início do seu pastoreio em Guanhães, foi acometido de uma doença que o abateu depressa, infelizmente. E tomando consciência de sua fragilidade ele me ligou perguntando se poderia voltar para Manhumirim e morar conosco na Casa-Mãe (nossa Casa Geral). Ficou conosco apenas alguns meses.

Na época eu estava exercendo a função de Superior Geral e indo visitar as comunidades do Oeste de Minas (Dores do Indaiá e Bom Despacho), fiz um convite a ele para me acompanhar e ele aceitou. Porém, na véspera de nossa viagem, à tardinha, ele me gritou da Praça da Matriz de Manhumirim, que naquela noite viajaria para Belo Horizonte de ônibus, pois no dia seguinte iria conversar com o Pe. Sebastião (seu primo e Psicólogo). Ele me disse assim: “vou antes para conversar com o Pe. Sebastião para que ele me dê alguns ajustes psicológicos e assim poder viver mais algum tempo”. E viajou. No dia seguinte eu o apanharia em Belo Horizonte rumo ao Oeste de Minas. Ainda bem de manhã, quase saindo em viagem, chegou a notícia do seu falecimento. Foi um momento de muita comoção para todos nós.

Concluo com algumas características marcantes do Pe. Antônio Felippe da Cunha, como Superior Geral: uma pessoa muito humana; e de grande dedicação à obra congregacional; amava a Congregação e se entregou por ela de corpo e alma; sabia ouvir os religiosos e as pessoas na missão, com calma, atenção e respeito. Fez tudo para transformar nossa Congregação, tornando-a bem missionária. Seu ministério era envolto de misericórdia. Como Superior Geral dava uma atenção especial às Casas de Formação.

Coloquei ainda alguns aspectos vivenciais da pessoa do saudoso e inesquecível Dom Felippe. Ele me inspirou muito na minha Vida Consagrada Sacramentina.

Fonte: PAIVA, José Estevam de, SDN. Dom Antônio Felippe da Cunha, SDN. Coisa Nossa, ano LII, n. 267, set./out. 2026, p. 6-7. Órgão Informativo dos Missionários Sacramentinos de Nossa Senhora.

Posts Similares