Assessorado por Dom Otacilio Ferreira de Lacerda, aconteceu na manhã do dia 27 de fevereiro de 2024, no Espaço da PUC-Minas em Guanhães -MG, o encontro de espiritualidade com os servidores da Diocese. Pe José Aparecido do Santos, coordenador de pastoral iniciou o encontro desejando as boas-vindas aos presentes e agradecendo-lhes pela presença. Além dele, estiveram presentes outros padres e Dom Marcello Romano, bispo emérito de Araçuaí. Ao todo, 23 das 27 paróquias da Diocese enviaram seus servidores para este retiro quaresmal que teve como tema: A Oração do Pai- Nosso.
Na Oração Inicial, o Seminarista Gabriel Ferreira refletiu sobre a passagem do Evangelho de Mt 6, 1-18 e em seguida, Dom Otacilio conduziu o grupo à reflexão sobre a oração que Jesus nos ensinou, acentuando a bela catequese e a importância de rezá-la com seriedade e profundidade, orientando todo o nosso viver.
No terceiro momento, foi realizado um “deserto” para reflexão pessoal. Cada um (a) recebeu um trecho do texto da Apostila “A mais bela Oração que Jesus nos ensinou” Volume I – de Dom Otacilio e seguiu-se com depoimentos de alguns participantes que falaram da alegria por terem participado de um encontro tão enriquecedor e profundo.
Para finalizar, Dom Otacilio convidou aos padres presentes para darem juntos a bênção final.
Agradecemos aos padres que se fizeram presentes, a todos os servidores pela participação e ao Dom Otacilio pela ótima assessoria, o carinho de sempre, o zelo e o cuidado de pai para com todos os servidores e todo o clero.
Simone Mendanha / Secretária da Cúria.
Segue abaixo, na íntegra a reflexão realizada pelo seminarista Gabriel durante a Oração Inicial:
“Quando deres esmola, não toques a trombeta… quando orares, entra no teu quarto, fecha a porta, e reza ao teu Pai.. e quando jejuares, perfuma a cabeça e lava o rosto” (Cf. Mt 6, 1-18).
A passagem acima, do evangelho de quarta-feira de cinzas, foi retomada no encontro de espiritualidade diocesano que ocorreu na manhã da terça-feira, 27 de fevereiro, na sede da PUC, em Guanhães-MG.
Prezados, o evangelho que acabamos de ouvir, nos oferece algumas recomendações de Jesus acerca das práticas quaresmais. Certamente vocês já ouviram a interpretação convencional deste texto. Ela diz respeito aos modos de relação que estabelecemos com Deus (a oração), com o próximo (a esmola) e consigo (o jejum). Porque a oração é o modo de me relacionar com Deus; a esmola que julgo melhor compreendido por solidariedade e não caridade (transmite ideia de assistencialismo), tem a ver como minha relação com o outro; e o jejum trata da relação que estabeleço comigo mesmo. Sim, porque à imagem de Deus que somos, também a nós foi confiado o domínio sobre as criaturas, e mais que a capacidade de governar e administrar coisas, pessoas, ou empresas, para que somos preparados, nosso desafio maior é o domínio sobre si; sobre o corpo, as emoções e os afetos.
O jejum, a esmola e a oração parecem-me relacionados também com a nossa constituição antropológica, porque somos corpo, alma e espírito. E só é possível alcançarmos a realização pessoal se estiverem em harmonia estas três dimensões vitais e supridas todas as necessidades a elas inerentes. O corpo, como primeira identificação que temos, expressão visível das realidades temporais: casa, trabalho, vestuário, locomoção. Ligado ao Jejum, e consequentemente a nossa relação pessoal. Mas nem só de pão vive o homem e a mulher! A alma, nossa psique, é palco das tensões emocionais, sede dos afetos, da autoestima, aceitação social, ligada à relação com o outro, intermediada pela solidariedade (esmola). Por fim, o espírito, centro relacional que nos conecta com tudo o que transcende e obviamente com Deus. Ao contemplar uma paisagem exuberante, ao sentir uma música bem tocada, traduz-se também pela busca de uma vida virtuosa, a modéstia no vestir, o polimento no trato com as pessoas, a delicadeza e a sutileza ao se exprimir, enfim, a procura pelo Belo, Bom e Verdadeiro. Nossa vida em Deus! Nós temos sede de infinito!
Bom, esta é a leitura convencional da passagem que acabamos de ouvir! Com um detalhe Jesus faz a mesma advertência: tudo isso façais não para serem vistos! “Quando deres esmola, não toques a trombeta… quando orares, entra no teu quarto, fecha a porta, e reza ao teu Pai.. e quando jejuares, perfuma a cabeça e lava o rosto” (Cf. Mt 6, 1-18). Porque Deus sabe, você sabe, todos nós sabemos quando alguém de fato vive o que acredita. Não é necessário ver alguém rezando o terço para testemunhar que se trata de um homem, de uma mulher de oração, como aliás, não é necessário ver alguém com uma pilha de livros para saber que é algum doutor. Basta umas poucas horas num papo bem agradável e cá percebemos o grau de maturidade espiritual e o nível de formação. Afinal, a quem estamos enganando?
Lembro-me da velha história do palhaço, contada por Kierkegaard. Numa determinada aldeia da Dinamarca, o circo entra em chamas e o diretor pede ao palhaço que acabara de se fantasiar para comunicar ao vizinhos, pedindo que o ajudasse a conter o incêndio. A tentativa foi vã, pois os moradores riam do palhaço achando tratar-se de mais um de seus espetáculos. A discrepância entre a seriedade da mensagem e a aparência do comunicador revelam um fato perfeitamente observável: nós somos o único animal capaz de mentir. Ou o que os filósofos disseram: os sentidos nos enganam, e por isso mesmo o essencial nem sempre é visível aos olhos. Formas de dizer uma mesma coisa: “o primeiro na ordem de importância é o último em ordem de aparência”. Aquilo que é mais importante, torna-se o último a aparecer. O trabalho dos servidores de nossa diocese, como atenuou Dom Otacílio, serve de exemplo. A camisa está passada, as missas celebradas, por trás de um bom padre, uma equipe de servidores fiéis faz um trabalho importante e as vezes invisível. E cito outros exemplo, o mais importante neste prédio é o fundamento, ninguém o vê, como, para a confecção desta mesa o seu artífice. Um quadro, uma pintura, é a mesma coisa, embora o nome do autor venha escrito, nem sempre foi assim! Talvez seja fruto de uma sociedade, como na época de Jesus, que procurava também reconhecimento. E reconhecimento reivindicado não é reconhecimento! Quando se faz para ser visto, para ser elogiado não é reconhecimento.
Quer saber se está indo bem é quando você recebe aquele elogio por algo inesperado, não porque caprichou na planilha aquele dia, fez o almoço caprichado, mas quando a gratidão vem espontânea, e nem sempre por palavras. Basta num contato visual os dizeres: “te admiro muito” “você é incrível, competente no que faz” “Bom trabalho!” Isso é gratificante por si mesmo! Então façamos todos nós o melhor sempre, não para sermos vistos, elogiados… “para inglês ver”, mas porque vale a pena ter capricho! Vale a pena ter amor naquilo que se faz, e todo mundo sabe quando fazemos algo com gosto, com amor, ou quando fazemos tocado, por simples obrigação; e no fundo estamos enganando a nós mesmos. Este pode ser um bom princípio de conversão. Deus nos ajude, e nos livre da hipocrisia, amém!
Gabriel Ferreira Oliveira- Seminarista da Diocese de Guanhães.