Na noite do dia 23 de fevereiro de 2024, aconteceu o segundo encontro virtual de Dom Otacilio com os catequistas da Diocese. A live foi transmitida por Joel Fernandes da Assessoria da Comunicação da Diocese, inaugurando o novo estúdio da Ascom.
“Na escola de Jesus aprendemos a rezar” foi o tema da formação. Foi realmente uma noite memorável de espiritualidade e de catequese. A participação foi muito boa e muitos comentários dos catequistas fazendo ressoar as mensagens proferidas por Dom Otacilio e de gratidão a ele pelo carinho, zelo de pastor e pela rica e importante catequese.
Mensagens de sua autoria por ele desenvolvidas:
“Mestre, ensina-nos a rezar”
Reflexão sobre a Oração do “Pai-Nosso”, a fim de que ela seja sincera, pura, dialogal, confiante e frutuosa, e nos coloque numa relação filial para com Deus e de irmãos e irmãs entre nós.
A passagem da primeira Leitura (Gn 18,20-32) nos apresenta Abraão como alguém que sabe fazer da Oração um verdadeiro diálogo com Deus.
Coloca-se diante d’Ele com ousadia e confiança, apresentando suas inquietações, dúvidas, anseios, e procurando captar Sua vontade para a humanidade.
A passagem é uma catequese sobre o peso que o justo e o pecador têm diante de Deus; revela-nos a misericórdia divina que é maior do que a vontade de castigar.
A vontade que Deus tem de salvar é infinitamente maior do que a vontade de perder: Deus está sempre pronto a nos salvar. É preciso que nos abramos à Sua vontade.
Abraão nos ensina que é possível dialogar com Deus numa forma familiar, confiante, insistente e ousada. Revela-nos um Deus que veio ao encontro da humanidade, entrou em sua tenda, sentou-se à sua mesa, criando vínculos de comunhão, e ainda mais, realizando os sonhos daquele que O acolhe.
Com o pai da fé, aprendemos que Deus é alguém com quem se pode dialogar, com amor e sem temor; com uma Oração que brota de um coração humilde, reverente, respeitoso, confiante, ousado e cheio de esperança.
Abraão não repete palavras vazias e gravadas, sem ressonância na própria vida, mas estabelece com Deus um diálogo espontâneo e sincero.
A passagem da segunda Leitura (Cl 2,12-14), embora não se relacione diretamente ao tema, nos apresenta Jesus Cristo e Sua centralidade na vida de quem crê. Por Ele podemos dirigir ao Pai a nossa Oração, em comunhão com o Espírito Santo, e seremos ouvidos.
Na passagem do Evangelho de Lucas (Lc 11,1-13), Jesus nos ensina a rezar, de modo que a Oração daquele que crê deve ser um diálogo confiante, como uma criança em relação ao pai.
Deste modo, a Oração é o espaço do encontro pessoal e íntimo com o Pai e o momento fundamental para o discernimento de Sua Vontade, de Seu Projeto a ser realizado.
A caminho de Jerusalém, Jesus nos ensina a força e a importância da Oração na vida dos Seus seguidores, assim como foi fundamental em todos os grandes momentos decisivos do próprio Jesus, como tão bem nos apresenta o Evangelista Lucas na Eleição dos Doze (Lc 6,12); antes do primeiro anúncio da Paixão (Lc 9,18); na Transfiguração (Lc 9,28-29); após o regresso dos discípulos da missão (Lc 10,21); na última Ceia (Lc 22,32); no Getsemani (Lc 22,40-46); na Cruz (Lc 23, 34-46).
Jesus nos ensina a Oração do “Pai-Nosso” e nos coloca em atitude de diálogo com o Pai, como filhos, e ao mesmo tempo nos põe no caminho da realização do Seu Plano, na construção de um mundo novo, numa comunhão fraterna a ser construída cotidianamente.
– “Santificado seja o Vosso nome” – que Deus Se manifeste como Salvador aos olhos de todos, através de nossa conduta, marcada pela justiça, bondade e santidade;
– “Venha o Vosso Reino” – que o mundo novo proposto por Jesus se torne uma realidade na vida da humanidade – Reino de amor, verdade, justiça e liberdade;
– “O pão de cada dia nos dai hoje” – Deus nos concede o essencial para vivermos. Oferece o pão material, mas acima de tudo o Pão espiritual. Com Deus nada nos falta. Ele nos dá o próprio Filho, o Pão da Vida que sacia a fome e a sede da humanidade: amor, alegria, perdão, comunhão, fraternidade;
– “Perdão dos pecados” – sem a experiência da misericórdia divina, somos incapazes de perdoar e pedir perdão. Acolhidos pela misericórdia e por ela perdoados, para também acolher e perdoar o irmão que pecou contra nós;
– “Não nos deixeis cair em tentação” – que nosso coração não seja seduzido por felicidades ilusórias e transitórias, mas que pautemos a nossa vida na busca da felicidade duradoura, eterna, a fim de que tenhamos vida plena e feliz.
A Oração do Pai Nosso, em síntese, pode ser assim apresentada:
– Que Deus seja reconhecido como Deus: um Pai misericordioso e nos trata como filhos e filhas;
– É um Projeto de Amor que Deus tem para a humanidade;
– Contém três pedidos fundamentais: pão para viver; perdão para amar e liberdade para ficar de pé e pôr-se sempre a caminho.
Pode parecer estranha a afirmação, mas na Escola de Jesus aprendemos a rezar verdadeiramente, em forma e conteúdo; de modo que, a Oração que Jesus nos ensina, transforma a vida de quem a reza e põe em prática.
Não podemos repetir a Sua Oração, sem saborearmos Palavra por Palavra de seu conteúdo vital e irradiador de alegria e luz, que plenifica com a Sua vida e a Sua graça, porque feita sob a ação e presença do Espírito, dirigida confiantemente ao Pai.
Uma Oração verdadeira precisa ser essencialmente Trinitária, nos inserindo nesta comunhão intensa e profunda de Amor.
Com isto, a Oração é, em sua exata medida, um diálogo intenso, profundo com a Trindade Santa, que nos envolve pela presença e ternura divinas.
PS: Liturgia do 17º Domingo do Tempo Comum – Ano C.
“Pai Nosso que estais nos céus…
Disse o Senhor na passagem do Evangelho de João (Jo 16,23b-28): “Em verdade, em verdade vos digo: se pedirdes ao Pai alguma coisa em meu nome, Ele vo-la dará” (Jo 16,23b).
Oportuno um aprofundamento sobre a autêntica oração, que deve acompanhar a vida do discípulo missionário do Senhor, pois esta, feita em Seu nome, deve nascer da profunda intimidade com Ele, de tal modo que, a Ele configurados, haveremos de ter mesmos sentimentos (Fl 2,1-11).
Tudo isto nós vemos e encontramos na mais bela oração que Ele mesmo no-la ensinou: o “Pai-Nosso” (Mt 6,7-15; Lc 11,1-4), que ora refletimos:
– A manifestação da glória do Pai – “Pai Nosso que estais nos céus, santificado seja o Vosso nome” – amar a Deus sobre todas as coisas; santificar Seu nome por uma vida que expresse nossa filiação, como imagem e semelhança D’Ele criados; profunda e perfeita sintonia com Deus em todos os momentos;
– A vinda do Reino de Deus – “Venha a nós o Vosso Reino” – o Reino de Deus, como assim rezamos no Prefácio da Missa da Solenidade de Cristo Rei: “Com óleo de exultação, consagrastes Sacerdote Eterno e Rei do universo Vosso Filho único, Jesus Cristo, Senhor nosso. Ele, oferecendo-Se na Cruz, vítima pura e pacífica, realizou a redenção da humanidade. Submetendo ao Seu poder, toda criatura entregará à Vossa infinita majestade um Reino eterno e universal: Reino da verdade e da vida, Reino da santidade e da graça, Reino da justiça, do amor e da paz…”
– A amorosa vontade divina – ―”Seja feita a vossa vontade assim na terra como nos céus”. Nada pode sobrepor à vontade divina, de modo que não podemos nos submeter à busca de fins mesquinhos e egoísticos. Ser capaz de sacrificar caprichos e vontades de tal modo que estas sejam cada vez mais em conformidade à vontade divina, que nem sempre poderá corresponder à nossa, na mais perfeita sintonia;
– A súplica pelo pão cotidiano – “O pão nosso de cada dia nos dai hoje” – é preciso pedir o pão cotidiano, porque a salvação atua neste mundo e na história. Peçamos O Pão de Eternidade, O Pão da Eucaristia e com ele o amor, a vida, a alegria, a paz, a solidariedade, a salvação. Podemos e devemos, como cristãos, também, pedir as coisas temporais, mas desde que sejam fundamentais para o nosso viver com sobriedade, numa vida fugaz, sem ficarmos presos às armadilhas do consumo supérfluo, sem critérios ou sem medidas, numa insaciabilidade prejudicial a si mesmo, sem a solidariedade com os mais empobrecidos do essencial para uma vida digna;
– O perdão dos pecados – “Perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido” – Suplicar o perdão divino é necessário, mas não nos dispensa de viver o mesmo em relação ao nosso próximo. Se experimentarmos o amor e o perdão divinos, verdadeiramente, poderemos viver a graça do perdão também concedido – “Pois, se perdoardes aos homens os seus pecados, também Vosso Pai celeste vos perdoará: mas se não perdoardes aos homens, vosso Pai também não perdoará vossos delitos” (Mt 6,14);
– Preservação e libertação da tentação – “Não nos deixeis cair em tentação” – as tentações do Maligno, que Nosso Senhor venceu no deserto (ter, poder e ser – acúmulo, domínio e prestígio respectivamente) – (Mt 4,1-11; Mc 1,12-13; Lc 4,1-13), e nos ensinou o mesmo a fazer, para que vivamos na liberdade, pois é para ela que Ele nos libertou, para que sejamos verdadeiramente livres (Gl 5,1); e ainda nos falou o Senhor:
– “Se permanecerdes na minha Palavra, sereis verdadeiramente meus discípulos e conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” (Jo 8, 31-32);
– A libertação do mal – “Mas livrai-nos do mal” – para isto precisa da ação e presença dos dons do Espírito Santo para o discernimento, orientação dos passos e perseverança no testemunho das virtudes divinas (fé, esperança e caridade). Aqui lembramos as palavras que rezamos na conclusão do Pai Nosso ao celebrar a Santa Missa: “Livrai-nos de todos os males, ó Pai, e dai-nos hoje a vossa paz. Ajudados por vossa misericórdia, sejamos sempre livres do pecado e protegidos de todos os perigos, enquanto aguardamos a feliz esperança, a vinda do nosso Salvador, Jesus Cristo. Vosso é o Reino, o poder e a glória para sempre. Amém!”.
Concluímos com a leitura orante da passagem da Carta de São Paulo aos Gálatas (Gl 5,1-26), na qual ele nos exorta a viver a verdadeira liberdade e caridade, que devem ser marcas fundamentais dos discípulos missionários do Senhor, não satisfazendo os desejos da carne, mas conduzidos pelo Espírito.
Fonte: Missal Cotidiano – Editora Paulus – 1998 – pp. 468-469.
“O Pão nosso de cada dia nos dai hoje…”Pai Nosso, o Pão nosso de cada dia nos dai hoje.Aquele mesmo Pão que foi “semeado na Virgem Maria”,Uma concepção por obra do Espírito Santo,Como fora anunciado pelo Arcanjo Gabriel,Acompanhado do seu “sim” no Mistério da Encarnação.O Pão que foi ”levedado na carne”,Um Deus que se fez Carne e habitou entre nós.O divino que desceu ao nosso encontro,Para elevação de nossa pobre condição humanaDecaída e corrompida pelo pecado e infidelidade.O Pão que foi “amassado na paixão”,No Mistério kenótico de esvaziamento da condição divina,Em despojamento total, até a morte,A humilhante e crudelíssima morte na Cruz,Ápice de um amor que nos amou até o fim.O Pão “cozido no forno do sepulcro”Descendo à mansão dos mortos,Para libertar todos que se encontravamAcorrentados na espera de quem os redimisse,Não somente a estes, mas a toda a humanidade por todo o sempre.O Pão “guardado em reserva na Igreja,“levado aos altares”, e que generosamente,“fornece cada dia aos fiéis um alimento celeste”,Recebido na Santa Eucaristia, quando comungamos,Pão de Imortalidade, antídoto para não morremos. Amém.
(1) Fonte: São Pedro Crisólogo (séc V).