Vençamos o medo na travessia – XII Domingo do Tempo Comum

“‘Silêncio! Cala-te!’ O vento cessou

e houve uma grande calmaria. Então

Jesus perguntou aos discípulos:

“Por que sois tão medrosos?

Ainda não tendes fé?”

(Mc 4, 39-40)

Com a Liturgia do 12º Domingo do Tempo Comum (ano B), refletimos sobre a necessária confiança na presença e ação de Deus, que jamais nos abandona na realização de Seu Projeto de vida plena e salvação para a humanidade, bem como a realidade do sofrimento, das dificuldades e das adversidades presentes em nossa vida, e a manifestação amorosa de Deus, que quer de nós confiança e entrega total em Suas mãos, com toda humildade.

Na passagem da primeira Leitura (Jó 38,1.8-11), refletimos sobre o sofrimento de Jó e a inquietante interrogação: onde Deus está no sofrimento do inocente?

“Jó é convidado a aceitar que um Deus de quem depende toda a criação, que até submete o mar, que cuida da criação com cuidados de pai, sabe o que está a fazer e tem uma solução para os problemas e dramas do homem…

O homem, na situação de criatura finita e limitada, é que nem sempre consegue ver e perceber o alcance e o sentido último dos projetos de Deus… só Deus tem todas as respostas; ao homem resta reconhecer os seus limites de criatura e entregar-se nas mãos desse Deus onipotente e majestoso, que tem um projeto para o mundo. Ao homem finito e limitado resta confiar em Deus e ver n’Ele a sua esperança e salvação” (1)

A fé vivida por Jó nos permite afirmar que fé em Deus é compromisso contínuo, e não a busca de Deus como consolação imediata. É preciso entregar-se, abandonar-se nas mãos de Deus e não se isolar do mundo:

“O verdadeiro crente é aquele que, mesmo sem entender totalmente os projetos de Deus, aprende a entregar-se a Ele, a obedecer-lhe incondicionalmente, a vê-lO como a razão última da sua vida e da sua esperança”. (2)

A confiança em Deus não nos coloca numa postura de espera passiva, de modo que todos os problemas (terrorismo, violência, doenças, catástrofes, injustiças, insegurança etc.) devem nos inquietar em busca de respostas e saídas. Deus, que nos conduz através das armadilhas da história, nos ilumina nesta procura para que tenhamos vida plena e definitiva.

Na passagem da segunda Leitura (2 Cor 5,14-17), o Apóstolo Paulo nos apresenta o amor de Deus, que não nos abandona  e, por meio de Jesus, nos dá a vida nova: Deus não é indiferente, mas interveniente em nossa história, porque nos ama, e está presente ao nosso lado, indicando-nos o caminho da vida plena e feliz: Homens Novos e Nova Humanidade.

O Apóstolo, embora não tenha conhecido o Jesus histórico, fez a experiência do amor de Cristo Ressuscitado e deixou-se absorver por esse Amor, que o impeliu na missão, com coragem, ousadia e total fidelidade, até o extremo, no martírio.

Paulo consome-se em comunicar este Amor de Cristo a todas as pessoas, em todos os lugares, por isto é reconhecido como Doutor e Evangelizador das nações.

“Cristo morreu por todos, a fim de que os homens, aprendendo a lição do amor que se dá até as últimas consequências, deixassem a vida velha, marcada por esquemas de egoísmos e de pecado. Contemplando o Cristo que oferece a sua vida ao Pai e aos irmãos, os homens não viverão, nunca mais, fechados em si mesmos, mas viverão, como Cristo, com o coração aberto a Deus e aos outros homens”. (3)

Este encontro que o Apóstolo fez com o Senhor, é o mesmo que fizemos e que mudou a nossa vida, redimensionou nossos horizontes, como tão bem expressou o Papa Emérito Bento XVI:

Ao início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo”.

Reflitamos:

– Qual é a profundidade de nosso amor por Jesus?

– Quando se deu este encontro?

– Como O anunciamos e O testemunhamos?

Na passagem do Evangelho (Mc 4,35-41), refletimos sobre a caminhada dos discípulos e as dificuldades encontradas: os discípulos nunca estão sozinhos no enfrentar das tempestades, que se levantam na travessia do mar da vida.

Não há nada a temer, porque Cristo está presente com Sua Pessoa e Palavra, e com Ele pode-se vencer as forças e ventos contrários, que se contrapõem ao Projeto de Salvação que Deus tem para a humanidade.

A simbologia do mar é sempre muito forte na mentalidade judaica: “para falar de realidade assustadora, indomável, orgulhosa, desordenada onde residiam os poderes caóticos que o homem não conseguia controlar e onde estavam os poderes maléficos que queriam destruir os homens…

Só Deus, com o Seu poder e majestade, podia por limites ao mar, dar-lhe ordens e libertar os homens dessas forças descontroladas do caos que o mar encerrava” (4).

Deste modo, a passagem do Evangelho é uma página catequética, em que a partir dos elementos simbólicos (mar, barco, tempestade, noite e o sono de Jesus), nos fala da comunidade dos discípulos de Jesus em sua desafiadora caminhada na história, haja vista que Marcos escreve o Evangelho numa época em que a Igreja estava enfrentando sérias “tempestades” e a mais desafiadora de todas, a perseguição de Nero, somado aos problemas internos causados pela diferença de perspectivas entre judeo-cristãos e pagano-cristãos.

Voltemo-nos para a simbologia:

Barco – na catequese cristã, é o símbolo da comunidade de Jesus que navega pela história.

Barco rumando para a outra margem, ao encontro das terras dos pagãos: a salvação se destina a todos os povos – universalidade da salvação.

O sono de Jesus – aparente ausência.

A tempestade – dificuldades, perseguição e hostilidades, que os discípulos terão de enfrentar ao longo do caminho até o fim dos tempos.

Jesus acalmando a fúria do mar e do vento com a Sua Palavra – manifestação da presença divina em sua Pessoa e Palavra.

Portanto, a grande pretensão do Evangelista é apontar o caminho da fé, que se expressa em total confiança na presença e Palavra do Senhor para enfrentar as “tempestades”, e em todos os tempos: a comunidade é chamada a fazer a experiência de adesão, confiança, obediência, em entrega total e incondicional nas mãos de Deus, que conduz a história.

A comunidade dos discípulos de Jesus, em plena fidelidade e confiança n’Ele, deve passar para a outra margem, ou seja, aqui é a dimensão missionária da Igreja que não pode se acomodar, mas deve se colocar a serviço da transformação do mundo, superando todo medo e acomodação como tão bem expressou o Papa Francisco:

Prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças. Não quero uma Igreja preocupada com o ser o centro, e que acaba presa num emaranhado de obsessões e procedimentos.” (n.49 – Alegria do Evangelho).

Reflitamos:

– Quem é Jesus para mim?

– Sinto a presença de Jesus na comunidade que participo?

– Confio na Palavra do Senhor para enfrentar as “tempestades” e os ventos contrários do dia a dia na travessia para a outra margem?

– Sinto a força divina que nos anima em todas as dificuldades?

– Como é minha adesão ao Senhor e acolhida de Sua Palavra?

– Acredito que, com a Pessoa de Jesus e Sua Palavra, as forças do mal não têm a última palavra?

Finalizando, é preciso encontrar-se com o Senhor e deixar-se transformar por Ele, numa relação de amor e confiança total n’Ele, para que assim vençamos todo medo e enfrentemos todas as “tempestades”, e a pior de todas as tempestades: não sentir a presença e o Amor de Deus, ou prescindir do Seu divino Amor.

Dom Otacilio F. de Lacerda

Fonte inspiradora e citações (1) (2) (3) (4):

http://www.dehonianos.org/portal

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