Permaneçamos vigilantes – XXXII do Tempo Comum do Ano A.

Com a Liturgia, do 32º Domingo do Tempo Comum (Ano A), refletimos sobre a necessária vigilância ativa na espera do Senhor que virá gloriosamente, Ele que veio, vem e virá.

O discípulo missionário do Senhor aguarda vigilante a Sua segunda vinda, pois ela se encontra presente no horizonte final da história humana, e, portanto, a necessidade de estarmos com o coração preparado para acolhê-Lo e com Ele caminhar.

Não podemos nos instalar em nosso egoísmo e autossuficiência, fechando nossos ouvidos aos apelos que o Senhor nos faz, de vigilância e espera de Sua chegada.

Na primeira Leitura, ouvimos uma passagem do Livro da Sabedoria, o Livro mais recente do Antigo Testamento, que apresenta a sabedoria como dom gratuito e incondicional de Deus para a humanidade, para conduzi-la à realização e felicidade (Sb 6,12-16).

Dois objetivos do autor do Livro: primeiro, ao dirigir-se aos seus compatriotas judeus (mergulhados no paganismo, na idolatria, na imoralidade), faz um convite para a redescoberta da fé dos pais e os valores judaicos; o segundo, ao dirigir-se aos pagãos para constatar o absurdo da idolatria, exortando a adoração e a adesão a Iaweh, o verdadeiro e único Deus.

A mensagem é explícita: somente Deus garante a verdadeira sabedoria e a verdadeira felicidade, no entanto pressupõe disponibilidade para acolhê-la e vivê-la.

Ouvimos, na segunda Leitura, a passagem da Carta de Paulo aos Tessalonicenses (1 Ts 4,13-18), na qual o Apóstolo Paulo fortalece a esperança na vinda gloriosa do Senhor, Ele  que virá novamente para concluir a história humana, inaugurando a realidade do mundo definitivo.

Importa que a comunidade fique vigilante e plenamente unida e identificada com o Senhor, para ir ao Seu encontro e com Ele permanecer para sempre.

Embora a Comunidade fosse entusiasta, ainda precisava de um amadurecimento catequético, e um dos temas era a questão da parusia, ou seja, o regresso de Jesus, no final dos tempos.

Daí o motivo do Apóstolo escrever aos tessalonicenses (entre o ano 50 ou 51), encorajando-os na fé e respondendo às suas dúvidas.

O Apóstolo confirma o que, provavelmente, já antes havia ensinado: “que Cristo virá para concluir a história humana; e que todo aquele que tiver aderido a Cristo e se tiver identificado com Ele, esteja morto ou esteja vivo, encontrará a salvação (vers. 14). Se Cristo recebeu do Pai a vida que não acaba, quem se identifica com Cristo está destinado a uma vida semelhante; a morte não tem poder sobre Ele… Isto deve encher de esperança o cristão, mantendo-o alegre, sereno e cheio de ânimo”. (1)

Deste modo, a certeza da ressurreição garante-nos que Deus tem um Projeto de salvação e de vida para todos nós; e que este está se realizando continuamente em nós até à sua concretização plena, quando nos encontrarmos definitivamente com Deus.

A comunidade que crê na Ressurreição e na vinda gloriosa do Senhor deve eliminar todo o medo e acomodação; o anúncio da Ressurreição implica no compromisso pela justiça e paz; compromisso com o mundo novo; uma caminhada confiante, ainda que no sofrimento e na dor.

Na passagem do Evangelho (Mt 25,1-13), somos exortados a nos preparar para acolher o Senhor que vem, vivendo na fidelidade aos Seus ensinamentos, com renovados compromissos com os valores do Reino, para participarmos do grande Banquete.

Trata-se da parábola das dez virgens, sendo cinco jovens “insensatas”, que não levaram azeite suficiente para manter as suas lâmpadas acesas enquanto esperavam a chegada do noivo, e as cinco ”prudentes”: “O Reino de Deus é, aqui, comparado com uma das celebrações mais alegres e mais festivas que os israelitas conheciam: o banquete de casamento. As dez jovens, representam a totalidade do Povo de Deus, que espera ansiosamente a chegada do Messias (o noivo)… Uma parte desse Povo (as jovens previdentes) está preparada e, quando o Messias finalmente aparece, pode entrar a fazer parte da comunidade do Reino; outra parte (as jovens descuidadas) não está preparada e não pode entrar na comunidade do Reino” (2).

Lembremos o contexto em que Mateus escreveu: finais do séc. I (década de 80): já tinha passado a “febre escatológica” e os cristãos já não esperavam a vinda iminente de Jesus, e uma vez passado o entusiasmo inicial, “a vida de fé dos crentes tinha arrefecido e a comunidade tinha-se instalado na rotina, no comodismo, na facilidade… Era preciso algo que abanasse os discípulos e os despertasse de novo para o compromisso com o Evangelho”.   (3).

Vigilantes na espera do Senhor, enquanto Ele não vem,  a comunidade precisa viver a sua fé com coerência e entusiasmo, na fidelidade aos ensinamentos de Jesus e comprometidos com a construção do Reino: escutar Suas Palavras, acolhê-las no coração e viver de forma coerente com os valores do Evangelho; viver na fidelidade aos projetos do Pai, amando os irmãos, até mesmo com o dom da vida, em todos os momentos.

A comunidade, portanto, não pode descuidar da vigilância, o que levaria ao enfraquecimento do compromisso com os valores do Reino, levando ao comodismo, instalação, adormecimento e o descuido, reduzindo a uma fé sem compromisso e pouco coerente.

Importa ser uma “Igreja em saída”, como tem insistido o Papa Francisco, uma Igreja em estado permanente de missão, que se alimenta da Palavra e da Eucaristia, e se coloca a serviço do Reino, com irrenunciáveis e sagrados compromissos.

Estejamos preparados para a chegada do Senhor, que vem ao nosso encontro todos os dias, e espera que nos empenhemos e nos comprometamos na construção de um mundo novo – o mundo do Reino:

“Ele faz ecoar o seu apelo na Palavra de Deus que nos questiona, na miséria de um pobre que nos interpela, no pedido de socorro de um homem escravizado, na solidão de um velho carente de amor e de afeto, no sofrimento de um doente terminal abandonado por todos, no grito aflito de quem sofre a injustiça e a violência, no olhar dolorido de um imigrante, no corpo esquelético de uma criança com fome, nas lágrimas do oprimido”

Reflitamos:

– Estamos vigilantes e preparados para a  vinda gloriosa do Senhor?

– Estamos preocupados com o imediato, o visível, o efêmero (o dinheiro, o poder, a influência, a imagem, o êxito, a beleza, os triunfos humanos…), negligenciando os valores autênticos do Reino?

– Estamos abertos à sabedoria divina, dom que nos é dado para bem conduzirmos nossa vida, em fecunda e ativa vigilância na espera do Senhor que vem?

Caminhando para o final de mais um ano Litúrgico, à luz da Liturgia da Palavra, é tempo favorável de revermos o caminho que fizemos; se, ao longo do ano, na espera do Senhor, vivemos uma caridade esforçada, uma fé atuante e uma firme esperança em ver o Reino de Deus acontecendo.

É tempo de avaliar de que modo conduzimos e orientamos a nossa vida, iluminados pela Sabedoria divina, que deve ser procurada desde a aurora e ir sempre à frente de nossas decisões, para que nossas “lâmpadas” estejam sempre acesas para quando o “noivo chegar”, o Senhor Jesus, que virá, gloriosamente, numa segunda vinda.

Quando? Não importa. Antes, importa que estejamos verdadeiramente vigilantes e ativos na ansiosa espera de Sua chegada.

Fonte: www.Dehonianos.org/portal

Postado por Dom Otacilio F. Lacerda em

https://peotacilio.blogspot.com/2019/11/permanecamos-vigilantes.html

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