Ninguém nos amou como Ele

 

Contudo um dos soldados

Lhe furou o lado  com uma lança,

e logo saiu Sangue e Água” (Jo 19,34)

Hoje, dia em que celebramos a Paixão e Morte do Senhor, a Igreja nos enriquece com a Catequese do Bispo São João Crisóstomo (séc. IV) sobre o poder do Sangue de Cristo.

“Queres conhecer o poder do Sangue de Cristo? Voltemos às figuras que o profetizaram e recordemos a narrativa do Antigo Testamento: Imolai, disse Moisés, um cordeiro de um ano e marcai as portas com o seu sangue (cf. Ex 12,6-7).

Que dizes, Moisés? O sangue de um cordeiro tem poder para libertar o homem dotado de razão? É claro que não, responde ele, não porque é sangue, mas por ser figura do Sangue do Senhor.

Se agora o inimigo, ao invés do sangue simbólico aspergido nas portas, vir brilhar nos lábios dos fiéis, portas do templo dedicado a Cristo, o Sangue verdadeiro, fugirá ainda mais para longe.

Queres compreender mais profundamente o poder deste Sangue? Repara de onde começou a correr e de que fonte brotou. Começou a brotar da própria Cruz, e a sua origem foi o lado do Senhor.

Estando Jesus já morto e ainda pregado na Cruz, diz o Evangelista, um soldado aproximou-se, feriu-Lhe o lado com uma lança, e imediatamente saiu Água e Sangue: a Água, como símbolo do Batismo; o Sangue, como símbolo da Eucaristia.

O soldado, traspassando-Lhe o lado, abriu uma brecha na parede do Templo Santo, e eu, encontrando um enorme tesouro, alegro-me por ter achado riquezas extraordinárias. Assim aconteceu com este Cordeiro. Os judeus mataram um Cordeiro e eu recebi o fruto do sacrifício.

De Seu lado saiu Sangue e Água (Jo 19,34). Não quero, querido ouvinte, que trates com superficialidade o segredo de tão grande Mistério. Falta-me ainda explicar-te outro significado místico e profundo. Disse que esta Água e este Sangue são símbolos do Batismo e da Eucaristia.

Foi destes Sacramentos que nasceu a santa Igreja, pelo banho da regeneração e pela renovação no Espírito Santo, isto é, pelo Batismo e pela Eucaristia que brotaram do lado de Cristo. Pois Cristo formou a Igreja de Seu lado traspassado, assim como do lado de Adão foi formada Eva, sua esposa.

Por esta razão, a Sagrada Escritura, falando do primeiro homem, usa a expressão osso dos meus ossos e carne da minha carne (Gn 2,23), que São Paulo refere, aludindo ao lado de Cristo. Pois assim como Deus formou a mulher do lado do homem, também Cristo, de Seu lado, nos deu a Água e o Sangue para que surgisse a Igreja. E assim como Deus abriu o lado de Adão enquanto ele dormia, também Cristo nos deu a Água e o Sangue durante o sono de Sua Morte.

Vede como Cristo Se uniu à sua esposa, vede com que Alimento nos sacia. Do mesmo Alimento nos faz nascer e nos nutre. Assim como a mulher, impulsionada pelo amor natural, alimenta com o próprio leite e o próprio sangue o filho que deu à luz, também Cristo alimenta sempre com o Seu Sangue aqueles a quem deu o novo nascimento.”

Com esta Catequese, sejamos mais uma vez elevados com as maravilhas que Deus realiza em nosso favor, porque é bondoso, compassivo, clemente e cheio de misericórdia.

Façamos deste dia de silêncio, Oração, jejum, recolhimento, ocasião propícia para vivermos intensamente o Tríduo Pascal, ontem iniciado com a Missa da Ceia do Senhor, em que Jesus instituiu a Eucaristia, como memorial da Nova e Eterna Aliança, também instituiu o Sacerdócio e o nos deu o Seu Novo Mandamento: “Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei”.

Com a contemplação dos Mistérios Dolorosos, seja  profundamente tocada nossa alma, para que renovemos nosso compromisso com os crucificados da história, que possuem tantos rostos e nomes.

Contemplemos, de modo especial, o Coração trespassado do Senhor, do qual nascemos e nos nutrimos: Água que é como soro do pericárdio ou exsudação pleural. O que mais, por nós, poderia Deus ter feito? Quem suportaria tanta dor, senão movido por um Amor que nos ama e nos ama até o fim?

Retomemos as palavras do Bispo:

“Estando Jesus já morto e ainda pregado na Cruz, diz o Evangelista, um soldado aproximou-se, feriu-Lhe o lado com uma lança, e imediatamente saiu Água e Sangue: a Água, como símbolo do Batismo; o Sangue, como símbolo da Eucaristia”.

Seja este dia favorável para meditação sobre o Supremo Amor de Deus pela humanidade, que de tanto Amor não poupou o próprio Filho, para que, n’Ele crendo, alcancemos a Vida Eterna.

Deste modo, não nos ocupemos por demais em compreender o Amor de Deus, mas muito mais em vivê-lo, pois somente amando a Deus como Ele nos ama é que encontraremos a felicidade. Somente nos amando mutuamente, como Deus nos ama, é que viveremos a desejada fraternidade.

Mistério da Paixão e Morte contemplado, acreditado e vivido num contínuo movimento, edificando a Igreja e escrevendo uma nova História, confessando o Cristo que não foge da Cruz, mas a assume para a redenção da Humanidade.

Mistério da Paixão e Morte, assim vivido tão intensamente, é certeza de que a fraqueza dará lugar à força divina, a escuridão cederá lugar à luz e a morte à vida.

Caminhemos em passos silenciosos, mais que meditativos, contemplativos, para que possamos exultar de alegria na madrugada da Ressurreição, entoando o grande Aleluia!

Postado por Dom Otacilio F. Lacerda em

http://peotacilio.blogspot.com/2020/04/ninguem-nos-amou-como-ele.html?m=0

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