A sacralidade do Espaço Celebrativo

Percepções teológico-litúrgicas

Quando nos preparamos para edificar um espaço, as primeiras questões giram em torno da sua destinação. Perguntarmo-nos sobre o uso de uma construção implica considerar as relações que nela serão constituídas. Tratando-se de uma igreja ou capela, a resposta parece ser muito simples: é casa de Deus, um lugar para nos encontrarmos com ele. No entanto, o que isso significa do ponto de vista judaico-cristão e, mais especificamente, católico romano?

Para responder satisfatoriamente essas indagações é preciso voltarmos nosso olhar para as celebrações que se desenvolverão no ambiente a ser edificado. As celebrações não são outra coisa
senão um feixe de relações significativas para o sujeito que as realiza. No caso, o sujeito imediato é a Igreja concretizada numa comunidade reunida em assembleia. O sujeito mediado é Cristo que se manifesta no corpo da Igreja congregada. As relações das quais Cristo é sujeito são relações filiais e
também fraternas.

A tradição orante da Igreja nos ajuda a perceber de maneira profunda e adequada o sentido espiritual das celebrações cristãs, o que é determinante para projetar e construir um espaço celebrativo.

No 6º Domingo da Páscoa, depois que os dons do pão e vinho são apresentados e a mesa é preparada, aquele que preside reza, diante dos irmãos e voltado para o Pai: “Suba até vós, ó Deus, as nossas preces com estas oferendas para o sacrifício, a fim de que purificados por vossa bondade, correspondamos cada vez melhor aos sacramentos do vosso amor”.

A frase “preces com estas oferendas para o sacrifício” indica a ação ritual que está em jogo na missa inteira, mas sobretudo a anáfora. É a prece eucarística realizada sobre as oferendas – pão e vinho
– que converterá tais elementos em sacramento da vida entregue de Jesus (= sacrifício). O corpo e sangue do Senhor serão identificados com o pão e vinho somente depois de “eucaristizados”.

A oração sobre as oferendas os denominará “sacramenta pietatis”, que foi traduzido para o português do Brasil por “sacramentos do vosso amor”. Piedade em latim pode significar várias coisas e, dentre elas, destacase amor filial, isto é, amor dedicado aos pais. A prece eucarística é a magna expressão do da relação amorosa que Jesus Cristo, morto e ressuscitado, tem com o Pai. Nela e por ela, a obra da nossa redenção, isto é, sua oblação pascal, tornam-se atuantes no corpo da Igreja em oração.

A oração sobre as oferendas é concluída com uma súplica “purificados por vossa bondade, correspondamos melhor aos sacramentos do vosso amor”. A relação filial que os ritos eucarísticos providenciam no corpo de Cristo tem um impacto não apenas no pão e vinho sobre o altar, mas também
– e sobretudo – naqueles que as oferendas simbolizam, isto é, os fiéis.

Quem celebra a eucaristia deve se apropriar, adaptar e acomodar (verbo latino aptare, traduzido por corresponder) à relação que se desenrola entre Cristo e o Pai, isto é, a vida no amor filial. Este tipo de existência corresponde ao que chamamos de “vida no Espírito”. Mas esta vida segundo o Espírito de Cristo implica reconhecer aosoutros que oferecem conosco o sacrifício de louvor – como bem afirma o Canon Romano – de irmãos e irmãs. O amor filial de Cristo é que funda a fraternidade eclesial e também universal.

Projetar e construir uma nova Igreja ou reformar espaços já erigidos deve vislumbrar o amor filial de Cristo que se verifica na mediação ritual da assembleia. Deve dar condições para que os fiéis possam participar da intimidade trinitária que se derrama sobre em seus corações. E, por sua vez, deverá também favorecer a fraternidade consequente a este mesmo amor.

Pe. Márcio Pimentel – mestre em Liturgia
Paróquia São Sebastião e São Vicente – Arquidiocese de Belo Horizonte

Fonte: http://arquidiocesebh.org.br

A Palavra do Pastor
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