SERMÃO DO ENCONTRO- Por Dom Darci José Niciolli

Ó vós todos, homens e mulheres, jovens e crianças, religiosos e curiosos, fiéis e turistas, crentes e indiferentes… Vós todos que passais pelo caminho, olhai e vede se existe dor semelhante a minha dor!” (Lm, 1,12).

  1. Celebração piedosa do Encontro! Reunimo-nos hoje, neste lugar da cidade, para fazer memória daquela cena piedosa do Encontro do Bom Jesus dos Passos e da Senhora das Dores. Relembremos o cenário onde tudo aconteceu: Jesus trilha seu caminho de cruz, acompanhado de perto pela querida Mãe Maria, rumo ao Monte da Caveira, o Calvário. Uma multidão os acompanha, homens e mulheres, jovens e crianças, crentes e

Naquele burburinho de vozes e gemidos, entre gestos de aprovação e de indignação, surge um grupo de mulheres chorosas…

Ah! “Filhas de Jerusalém, não choreis por mim; chorai, antes, por vós mesmas e por vossos filhos!” (Lc 23,28). Chorar pela injustiça ali cometida e que segue acontecendo em cada inocente condenado!

Condenação legal e existencial, quando o ser humano – imagem e semelhança de Deus! – é condenado à marginalização, à miséria, à carência indigna da falta de teto, trabalho, segurança… Não à toa a lgreja no Brasil chama-nos à responsabilidade sobre Políticas Públicas na Campanha da Fraternidade deste ano, chama-nos ao compromisso cristão e à participação cidadã nos rumos deste País, de tantas e tão sofridas injustiças.

O justo condenado “clama aos céus”!

2. A cena do Encontro é criação da piedade popular... Há verdades de fé que são conservadas no coração, passadas de pais para filhos, um tesouro que a tradição religiosa nos deixou como herança bendita.

O Deus que se revela na Bíblia continua se revelando na vivência da fé do Povo fiel, no coração da Igreja peregrina que somos nós. A Palavra de Deus fala! A Vida da lgreja fala! Deus continua a falar nas circunstâncias da nossa vida! Quem tem ouvidos para ouvir, ouça! (Lc 8,8). Nossa religião não é uma religião do “livro”, mas professamos nossa fé numa pessoa, em Jesus Cristo, o Verbo encarnado, que entregou sua vida por amor. E não há “maior amor do que este: dar a vida por seus amigos” (Jo 15,13)

  1. Entre as mulheres lacrimosas está Maria, a Mãe das dores! Mulher corajosa, que acompanhou o Filho em todos os momentos da sua vida, no silêncio e sem se fazer notar, mas sempre atenta… Ela estava ali, naquelas circunstâncias trágicas da Paixão… E nem poderia ser diferente! Como a Mãe Bendita poderia ficar alheia ao sofrimento do Filho amado que Ela gerou e do qual se tornara discípula fiel, a primeira discípula-missionária?!
  2. Irmãos e irmãs, contemplemos Maria em sua dor…

“A quem te comparar, oh Mulher?! Quem se assemelha a ti, filha de Jerusalém? Quem poderá consolar-te, Virgem, filha de Sião? Grande como o mar é o teu desastre! Quem te curará?” (Lm 2,13). Quanta dor no rosto de Maria, dor de Mãe, como de resto todas as mães são sofredoras… Quem será capaz de medir a dor de uma Mãe que vê o seu filho se perder? Ou, que perde o seu Filho pela morte provocada? Conseguimos alcançar a dor das mães que tiveram seus filhos vitimados no desastre criminoso de Brumadinho, na escola em Suzano SP? Toda Mãe sofre antes, durante e depois do parto!

Também a Mãe de Jesus é toda dor, toda tristeza! Mas não desespero… Há em seu rosto sofrimento, mas nunca desesperança! A Senhora das dores é a Mãe da esperança! Aquela mulher chora o seu filho desfigurado, injustiçado, abandonado, humanamente desfigurado e reduzido a nada… “aniquilou-se a si mesmo, humilhou-se, fazendo-se obediente até a morte, e morte de cruz”(Fl2, 8). Mas olhemos atentamente o rosto de Maria aqui representado nesta imagem: quanta força, quanta dignidade, quanta coragem e determinação! Ela permanece em pé, apesar de tudo! Uma vez mais Maria reza: “Eis aqui a serva do Senhor, faça-se em mim segundo tua palavra” (Lc 1,38).

Meus irmãos e irmãs, nesta noite exaltamos a coragem, a fibra daquela que é a bendita entre todas as mulheres, porque se fez cúmplice, até o fim, junto ao seu Filho e Senhor. Ela chegou à maturidade da fé e compreende que sua maternidade se estende e abraça a humanidade inteira. Podemos sim proclamar: Maria é Mãe de Jesus e nossa! Mãe da humanidade sedenta de redenção! Mãe da misericórdia para todos aqueles que necessitam da ternura e do perdão de Deus.

Roga por nós, oh Virgem Maria! Ajuda-nos atravessar esse “vale de lágrimas…” Roga pelas mães que sofrem por seus filhos, roga pelos lares destroçados, roga pelos filhos que caem nas drogas e que são vitimados pela corrupção, roga pelos filhos sem lar, roga por todos nós, pecadores, agora, aqui, hoje… E na hora da nossa morte!

Cantando… o andor da Senhora da Dores “passeia” em meio ao povo, enquanto se canta:

BENDITA SEJAIS, SENHORA DAS DORES! OUVI NOSSOS ROGOS, MÃE DOS PECADORES!

  1. Ó Mãe dolorosa, que aflita chorais, repleta de angústia, bendita sejais!
  2. A voz de Simeão no templo escutais, cruéis profecias, bendita sejais!
  3. O céu manda um Anjo, dizer que fujais, da fúria de Herodes, bendita sejais!
  4. Voltando do Templo, Jesus não achais, que susto sofrestes, bendita sejais!
  5. Que dor indizível, quando O encontrai, com a cruz às costas, bendita sejais!
  6. .A dor ainda cresce, quando contemplais, Jesus expirando, bendita sejais!
  7. No vosso regaço, seu corpo abrigais, com ele abraçada, bendita sejais!
  8. Sem filho e tal filho então suportais cruel solidão, bendita sejais!
  9. A todos que passam tristes perguntais, se há dor como a vossa, bendita sejais!

5. Este mundo sofrido, despedaçado, cujas lágrimas a Senhora das Dores vem enxugar, é fruto do egoísmo, corrupção… É consequência do pecado pessoal e social! Por isso os cristãos são chamados à construção de um mundo melhor…

Caríssimos, “a fé autentica nunca é cômoda nem individualista, comporta sempre um profundo desejo de mudar o mundo, transmitir valores, deixar a terra um pouco melhor depois da nossa passagem por ela”, nos ensina o Papa Francisco! É da força do mal que Jesus veio nos libertar! Ele quis servir-se das “mãos carinhosas de Maria” e conta, também, com a nossa resposta de Fé.

  1. Irmãos e irmãs, “por Maria a Jesus!”.. Contemplemos o Senhor dos Passos com a Cruz!

A cruz aponta para a obra da reconciliação que Jesus veio realizar em nosso favor, Jesus está no centro! Ele está no centro de nossas vidas e entrega se por toda a humanidade. Ao seu lado está cada um de nós, necessitados e pedintes… Jesus é Deus conosco, nunca se esquece de nós no “vale de lágrimas das nossas vidas”, particularmente quando nossa fé pouca apequena a esperança e os medos nos fazem desesperar!!

Estamos aqui para nos lembrar de Cristo e para que Ele se lembre de nós… Triste seria estar aqui, partilhar desse drama e não se deixar tocar pelo carinho da Graça de Deus.

Por quem Jesus carrega a pesada cruz? Disse ele: “.. .desci do céu não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me  enviou é esta: que eu não perca nenhum daqueles que Ele me deu” (Jo 6,38s)

Hoje temos medo de desmoronar diante do sofrimento. Até nos rebelamos contra Deus por causa da dor que nos atinge…Gente boa coloque a cruz entre você e o sofrimento A cruz ajudará você a passar pelo vale da dor, sem esmorecer. Ainda que a cruz termine na morte, ela aponta para a ressurreição, para a transformação do pior sofrimento possível em esperança e  eternidade, em vida indestrutível! Se crermos que a cruz é a vitória  do Ressuscitado, também em nossas vidas Deus transformará todas as mortes em vida nova. Num mundo ameaçado pela violência, pela dor e pela aflição, a cruz nos diz que não há sofrimento que não possa ser superado, não há desespero que näo possa ser convertido em esperança, não há trevas que não possam ser iluminadas,  nem

sofrimento que não possa ser redentor. Na cruz de Jesus, toda fraqueza foi convertida em força invencível! Jesus se entregou voluntariamente à sua Paixão; não se sentiu

esmagado por forças contrárias a Ele: “ninguém tira a minha vida, eu a dou livremente”

“(Jo 10,18). Foi o próprio Jesus que, acolhendo a vontade do Pai, compreendeu que havia chegado a hora: dar a vida para salvar a humanidade!

Deus é fiel e nunca nos abandona… Ele é presença certa nas encruzilhadas da vida! “Os justos clamam e o Senhor os ouve, e os livra de todas as suas angústias. O Senhor está perto dos que têm o coração ferido e salva os de ânimo abatido” (Sl. 34,18)

  1. A entrega de Jesus, livremente, para viver a sua paixão, reclama de todos nós uma resposta. Diante desse mistério a humanidade não pode mais ficar indiferente: “ou quente ou frio, pois os mornos serão cuspidos da boca de Deus”. (Ap.3,16) Meu irmão e minha irmã, não seja indiferente ao Deus que tanto nos ama, ao Deus que pisou o chão duro que pisamos, e que por nós se entregou…

Busquemos com sinceridade, a conversão: (Todos rezando em repetição…) Perdão,Senhor,por nosso amor tão frio e descompromissado! Perdão pelas infidelidades do _nosso coração velhaco! Perdão por nossa preguiça espiritual! Perdão pela nossa fé medíocre! Perdão, Senhor! Pecamos!

Cantando… o andor do Senhor dos Passos vai ao encontro do andor da Senhora da Dores, enquanto se canta:

PEQUE, SENHOR, MISERICORDIA!

  1. Tem piedade, Senhor, e sê clemente, tua bondade apague meu pecado e lava-me de toda a minha culpa, purifica-me da minha iniquidade.

R: Pequei, Senhor, misericórdia

  1. Reconheço a minha maldade, à minha frente está sempre o meu pecado; foi contra Ti, só contra Ti que eu pequei cometi o que é mau aos teus olhos.
  2. Cria em mim um coração imaculado, renova na minha alma a fortaleza; não me expulses da tua presença, nem retires de mim teu santo espírito. 

O andor do Senhor dos Passos se coloca de frente ao andor da Senhora das Dores… 

Reflexão final:

Caríssimos irmãos e irmãs, estamos na Semana Santa, a Semana

maior. Vivamos este tempo como um retiro sem que nos retiremos do cotidiano.

Durante os trabalhos e nas preocupações es que temos, usando do tempo livre que a oportunidade desses dias nos oferecerá, no contato com pessoas próximas e outras que há muito não encontrávamos, nas liturgias e celebrações piedosas, coloquemo-nos o desafio da atenção, da vigilância, que outra coisa não é senão, ver melhor, sentir melhor, escutar melhor o que Deus quer nos revelar. Entremos na escola de Deus, na escola do amor!

Irmãos e irmãs, eis Jesus e Maria unidos também no caminho do Calvário. E diante do Senhor dos Passos e da Senhora das Dores, não podemos  ficar parados, não temos o direito de nos acovardar diante dos desafios na construção de um mundo melhor, mais digno e mais humano.

O Papa Francisco, não se cansa de alertar o mundo sobre a urgência de construir “ a Cultura do Encontro”. O Papa alerta que em nosso mundo ganhou espaço e cultura da exclusão, a cultura do descartável. Não há lugar para o idoso, nem para o Filho indesejado; não há tempo para compaixão com o pobre da rua. A escola distanciou-se da Família, o Estado se desencontrou da sociedade.. Somente no encontro e no acolhimento de todos, na solidariedade e na fraternidade nascerá uma nova civilização, verdadeiramente, humana.

Caríssimos, o testemunho do Senhor dos Passos e da Senhora das Dores não permite  omissão ou acomodação, uma prática religiosa em que a fé esteja desvinculada da vida. Os dias de hoje são difíceis, o pecado é abundante na sociedade e na própria Igreja, mas o amor da Mãe e do seu Filho Redentor nos garante: “Onde é abundante o pecado, mais abundante é a graça de Deus!” (Rm 5,20). Aprendamos com o sacrifício de Cristo: A graça é maior que o pecado!

Jesus não se deteve diante do mal, mas venceu o mal pelo bem! Ele seguiu firme o seu caminho, não correu da cruz, mas fez dela instrumento de salvação!

O “Sim” de Maria foi igualmente generoso! Assim, também nós precisamos seguir perseverantes, sem esmorecer, sem desespero e sem perder a esperança… Sigamos, confiantes, os passos de Jesus e de Maria… Amém!

(Cantando…)

  1. A morrer crucificado,/ teu Jesus é condenado por teus crimes, pecador. Por teus crimes, pecador
  2. Pela Virgem dolorosa,/vossa Mãe tão piedosa,/ perdoai-me, meu Jesus, Perdoai-me, meu Jesus.
  3. Das matronas piedosas, de Sião filhas chorosas,/ é Jesus consolador. É Jesus consoladorl
  4. De Maria lacrimosa,/ no encontro lastimosa,/ vê a viva compaixão. Vê a viva compaixão!
  5. Sois por mim na cruz pregado,/ insultado, blasfemado./ comcegueira e com furor. Com cegueira e com furor!
  6. Meu Jesus, por vossos passos,/ recebei em vossos braços/ a mim pobre pecador. A mim pobre pecador!

Fotos Vida Nova FM

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