Na contramão dos valores

 

A sociedade é radicalmente desafiada a reconhecer que seu curso está na contramão dos valores humanísticos, espirituais, morais e culturais. Esse reconhecimento é a base para que a humanidade possa se reerguer diante do atual quadro de crescente deterioração do qualificado exercício da cidadania, que se manifesta, por exemplo, pelos “delírios públicos”, de grupos e de pessoas, aprisionados nos fundamentalismos, nas intolerâncias, na doentia ânsia de se emitir juízos sobre a conduta dos outros.  Esse fenômeno preocupante se revela na disseminação das notícias falsas, propagadas pelas redes sociais, que induzem tantas pessoas a admitirem como verdade uma mentira amplamente divulgada. Quem compartilha notícias enganosas – e outras formas de inverdades – contribui apenas para acirrar as intolerâncias.

 

Muitos interpretam, equivocadamente, que o direito de todos à manifestação de pensamento dispensa a competência para o diálogo, que inclui agir respeitosamente quando se fala sobre alguém ou quando se dirige ao outro. Consequentemente, o desespero toma conta. Incapazes de vivenciar o exercício da autocrítica, as pessoas não admitem que suas escolhas político-ideológicas podem ser questionadas. Desconsideram que sua visão de mundo indica uma perspectiva entre tantas outras. Não traduz a verdade absoluta. É um tipo de enrijecimento mental que conduz as pessoas e a sociedade rumo ao caos.

 

O pior é que não se percebe um movimento para flexibilizar essa rigidez, com o cultivo de mais tolerância e a busca pela convivência harmoniosa de perspectivas diferentes. Ao invés disso, coloca-se mais “lenha na fogueira”, nas verdadeiras brigas estabelecidas por quem pensa diferente. E a fumaça dessa fogueira impede a sociedade de enxergar as linhas de um horizonte novo e largo. Por isso, todos são convocados a compreender que o primeiro passo para superar os conflitos sociais é reconhecer o que – e quem – está na contramão de valores essenciais à boa convivência. E essa é uma elaboração crítica muito exigente, complexa.

 

Ora, de modo geral, cada um pensa estar com a razão, e não busca reavaliar seu próprio modo de agir e de enxergar a vida. Alimenta as próprias convicções por aproximar-se e receber o amparo dos outros que pensam de modo semelhante, constituindo grupos com potencial para transformar suas estreitezas em verdadeiras bandeiras, a serem defendidas até com ódio. Crescem, assim, as discriminações e as intolerâncias. Preocupante é constatar ainda que pessoas de mentes encurraladas estão por toda parte, em campos sociais estratégicos – na política, no ambiente religioso, nas instâncias que deveriam zelar pela educação, arte e cultura.

 

Gradativamente, todos passam a ser juízes de cada um, fazendo lembrar aquela conhecida passagem do Evangelho, quando Jesus faz referência, criticamente, a quem se preocupa em tirar “o cisco do olho do outro”, mas não tem competência para eliminar o que atrapalha a própria visão. Quando não são ampliados os modos de enxergar, todos correm o risco de navegar na contramão de valores indispensáveis e, consequentemente, prosseguir na viagem rumo ao precipício.

 

Qualificar os modos de ver o mundo, dedicando-se à autocrítica, é dever de cada pessoa. É preciso pôr fim à confusão gerada pela guerra de opiniões, temperada com a volubilidade nas decisões e escolhas. Quando se convive com a incoerência, indivíduos buscam consolidar o próprio poder nas burocratizações que mascaram incompetências e pareceres equivocados. Permanecem incapacitados para os diálogos determinantes na condução de instituições e da sociedade rumo a novos ciclos.

 

Não faltam simplesmente titulações ou informações às pessoas, pois, no atual contexto, de marcante presença das tecnologias digitais, conteúdos diversos estão disponíveis para consulta e aprendizado. A carência maior é de envergadura ético-moral que inspire ações fundamentadas nos valores que garantam qualificado exercício da cidadania. Para suprir esse déficit, cada pessoa precisa se capacitar não apenas para formular críticas ou acolhê-las.  Fundamental é fazer do recôndito da consciência uma instância capaz de presidir processos de autocrítica. Alcançam-se, com isso, mais equilíbrio e desenvolvimento integral, pois todos se tornam autênticos instrumentos a serviço do bem.

 

Mas o bate-cabeça e os acirramentos ideológicos tornam-se mais intensos porque há um distanciamento dos valores ligados à verdade, à justiça, ao respeito e ao diálogo. Esses valores não podem ser tratados com subjetivismo, para não caírem nas relativizações mortais. O aperfeiçoamento humano é meta indiscutível. Para alcançá-lo, o primeiro passo é reconhecer, a partir de uma autoanálise e de reflexões sobre o mundo contemporâneo, que a sociedade está inserida em uma dinâmica suicida, pois age na contramão de valores inegociáveis.

 

Dom Walmor Oliveira de Azevedo

Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte

A Palavra do Pastor
A Glória é precedida pela Cruz – Homilia – Segundo Domingo do Tempo Quaresmal – Ano B

A Glória é precedida pela Cruz – Homilia – Segundo Domingo do Tempo Quaresmal – Ano B

O segundo Domingo da Quaresma (ano B), identificado como “O Domingo da Transfiguração do Senhor”, é um convite a escutarmos...
Read More
Evangelização e acolhida do sopro do Espírito

Evangelização e acolhida do sopro do Espírito

“Ai de mim se seu não evangelizar” (1 Cor 9,16). A Evangelização na cidade tem inúmeros e grandes desafios, de modo...
Read More
“Não nos deixeis cair em tentação” – Homilia do Primeiro Domingo da Quaresma- Ano B

“Não nos deixeis cair em tentação” – Homilia do Primeiro Domingo da Quaresma- Ano B

No 1º Domingo da Quaresma (Ano C), repensamos nossas opções de vida, tomando consciência das tentações que nos impedem de...
Read More
Libertos pelo Senhor para amar e servir – VI Domingo do Tempo Comum Ano B – Homilia

Libertos pelo Senhor para amar e servir – VI Domingo do Tempo Comum Ano B – Homilia

“Jesus, cheio de compaixão, estendeu a mão, tocou nele e disse:  “Eu quero: fica curado!”. No mesmo instante  a lepra...
Read More
O particípio e o infinitivo da vida do Presbítero – VI Domingo do Tempo Comum do Ano B

O particípio e o infinitivo da vida do Presbítero – VI Domingo do Tempo Comum do Ano B

“Irmãos, cuidai cada vez mais de confirmar a vossa vocação e eleição. Procedendo assim, jamais tropeçareis. Desta maneira vos será...
Read More
Jesus: Sua Palavra e ação nos libertam- Homilia para o Quarto Domingo do Tempo Comum (Ano B) – Dom Otacilio F de Lacerda

Jesus: Sua Palavra e ação nos libertam- Homilia para o Quarto Domingo do Tempo Comum (Ano B) – Dom Otacilio F de Lacerda

“O que é isso? Um ensinamento novo, dado com autoridade... Ele manda até nos espíritos maus, e eles obedecem!” Com...
Read More
O chamado divino e a nossa resposta – Homilia – Segundo Domingo do Tempo Comum ( Ano B)

O chamado divino e a nossa resposta – Homilia – Segundo Domingo do Tempo Comum ( Ano B)

Deus nos chama para que anunciemos a Sua Palavra e não a nós mesmos, porque nisto consiste a vocação do...
Read More
Viver o Batismo é seguir os passos de Jesus- Homilia para o Domingo do Batismo do Senhor-Ano B- Dom Otacilio 

Viver o Batismo é seguir os passos de Jesus- Homilia para o Domingo do Batismo do Senhor-Ano B- Dom Otacilio 

Com a Liturgia da Festa do Batismo do Senhor (ano B), refletimos sobre a revelação de Jesus Cristo, o Filho...
Read More
Sejamos um sim a Deus e ao Seu Projeto de Salvação! Homilia – 4º Domingo do Advento do Ano B

Sejamos um sim a Deus e ao Seu Projeto de Salvação! Homilia – 4º Domingo do Advento do Ano B

Com a Liturgia do 4º Domingo do Advento (ano B), damos mais um passo fundamental nesta caminhada de preparação para...
Read More
Confiança, esperança e alegria no Senhor – Homilia – Terceiro Domingo do Advento – Ano B

Confiança, esperança e alegria no Senhor – Homilia – Terceiro Domingo do Advento – Ano B

“João é a voz no tempo; Cristo é, desde o princípio, a Palavra eterna.” Ao celebrar o 3º Domingo do...
Read More

Empresas que possibilitam este projeto: