Ser ou não ser hipócrita

Evandro Alvarenga

Sei muito bem que, no mais profundo do meu coração, trago comigo muita coisa que se não vivesse em sociedade não traria, nem com o orgulho de quem tem uma riqueza incomensurável, nem como “um espinho na carne” do qual tento me livrar.

Eu, neste caso, sou um ser humano como todos os outros. Eu, neste caso, sou o que redige, ou o que lê, o que edita esse texto… Enfim, “eu somos nós”, criaturas do “Grande Eu Sou”, com tudo aquilo que temos de semelhança e diferença, que herdamos do criador e dos nossos genitores. Uma mistura fina de genética, energia, cultura e exercício. De teoria e prática. Fé e sentimento, contato e carinho, dor e cura.

Então, “eu” sei que se não tivesse nascido na família que nasci, se não tivesse sido educado e instruído, na teoria e na prática pela minha família e pela minha sociedade, dificilmente seria “eu”, como sou hoje. Nem por isso gosto nem defendo o pensamento de que somos produto do meio. Há sempre um momento para o livre arbítrio. Há sempre o momento em que assumo a tal mistura fina e com ela abro meu caminho. É nessas horas que individualmente trilhamos rumo a salvação ou à condenação de nossas almas.

Se temos uma dúzia de ovos (independente de como esses ovos chegaram até nós) podemos produzir omeletes, ou bolos, ou gemadas, claras em neve, doces, cremes, podemos também jogá-los em alguém, ou podemos não fazer nada disso. Podemos também deixar que sejam chocados e perpetuem a sua espécie, pensando em produção e riqueza… Podemos todas as coisas, somos livres! Podemos até fazer e dizer que não fizemos. Podemos também não fazer nada e assumir a dor ou a delícia de ser o que não somos. Ser ou não ser hipócrita? Eis a questão de agora.

Quantas vezes já ouvimos na rua ou em outros locais alguém dizer: ‘Para ser católico como aquele é melhor ser ateu!’ É isto o escândalo, que destrói, que manda abaixo.” Eis um trechinho de uma homilia recente do Papa Francisco numa missa no Vaticano. Essa semente foi acolhida por diversos tipos de solos. Dos mais férteis aos mais áridos e desérticos.  Muitos acolheram a mensagem, entenderam imediatamente a questão da autenticidade da vida cristã. Outros assustaram-se, sentiram-se acusados e perguntavam: “então é melhor ser ateu que cristão hipócrita?” ou “então o Papa está desestimulando os católicos ou os cristãos?”  A palavra no contexto em que foi anunciada, mesmo essencialmente “evangélica” falava da necessidade de ter a sinceridade e o comportamento  de uma criança. Do exemplo do amor vivido na prática, não apenas na aparência fingida de quem apenas se preocupa com a aparência, com o crescimento perante a opinião pública de uma instituição religiosa.

Neste espaço, eu o cronista sei que estou longe da autenticidade dos verdadeiros mestres cristãos. Sou praticamente um ateu. Não falo de não frequentar missas ou cultos ou cerimônias religiosas. Não falo de professar publicamente que acredito em Deus ou que tenho a convicção de coisas que não se vêm… Falo de viver o sim, sim e o não, não! Falo de amar o próximo e o distante… Até chegar no inimigo, que não nada mais que “eu”, um ser como eu mesmo, cujas razões eu desconheço, ou não compreendo. Falemos de um dos mestres que a bíblia nos mostra.

Um ateu chamado Saulo que perseguia os Cristãos e era terrível. Fazia um trabalho exemplar para o grupo ao qual pertencia. Via nos seguidores de Cristo uma ameaça para os governantes… Era poderoso e temido por que tinha grandes qualidades pela forma que foi criado e educado. Era fiel, convicto aos extremos. Um radical! Um homem culto, forte, corajoso e acima de tudo convicto, autêntico. Hipócrita? Ah! Isso não…

Alguém diria que ele seria hoje um grande líder político, do tipo “salvador da pátria” seja num país das maravilhas ou numa nação em crise. O fato de perseguir os cristãos não era exatamente o grande defeito desse “ateu”. Hoje pelo susto que esta palavra provoca tenho a impressão de que os ateus, ou os que não creem é que são perseguidos, até mesmo pelas imposições dos religiosos até nas cartas magnas das nações. Não quero ser advogado de Saulo. Mesmo por que Saulo, depois de seu encontro com algo muito superior a seus conhecimentos, preparação e convicção passou a se chamar Paulo. Mas não podemos dizer que Saulo (o ser como nós) tenha deixado de existir.

Afinal, nascer de novo, não é voltar ao ventre materno. Não é deixar de ser… é mudar de atitude. ATITUDE! Não somente de discurso, ou de grupo, nem de maneira de se vestir, ou se alimentar…

Penso eu que o líder Cristão, que espalhou o evangelho para todo o mundo. Que de perseguidor passou a ser perseguido. Que sofreu naufrágios e prisão… Que se não tivesse sido preso, talvez muitos princípios cristãos não seriam conhecidos por nós hoje, por meio das cartas ou epístolas que ele escreveu no cárcere.

Ouso dizer que é impossível alguém afirmar que é Cristão (seguidor de Cristo, independente da forma como manifesta isso) sem ter, pelo menos ouvido falar de algum dos ensinamentos transmitidos por Paulo. Sendo assim, por que ele se tornou tão importante para o mundo cristão?

Não quero discutir tais questões históricas ou bíblicas, nem mesmo sua teologia. O que quero ao mencionar o ateu que se tornou cristão de forma tão radical é que aquele ser fez tudo com a mais extrema dedicação, fidelidade.  Tanto o perseguidor, quanto o perseguido se fizeram com a mesma massa corpórea,  sempre na raiz, no fundamento de um ponto de vista. Foi fiel acima de tudo, jamais um hipócrita. Um falso… Alguém que tentava convencer alguém do que não era.

Desde os relatos do livro de Atos dos Apóstolos, quando conhecemos o terrível Saulo até a sua derradeira carta, em momento algum, deixamos de perceber os traços da personalidade daquele ser. Talvez você discorde de mim, mas eu, este cronista Evandro José de Alvarenga, entendo que Paulo só se tornou o apóstolo que foi – mesmo não tendo sentado à mesa com Jesus, justamente, por não ser hipócrita. As qualidades do ateu Saulo, tais como, coragem, instrução, intrepidez, fidelidade… fundamentaram o caminho do pregador Paulo, do verdadeiro pregador das multidões…

Digo mais: o encontro com Cristo, fez Saulo abrir seus horizontes como ser humano. Ele entendeu bem o que recebeu de graça, a salvação. Que nada que fizesse poderia conseguir tal graça. Sua pregação então era fiel não para perseguir os antigos perseguidores, ou para condenar ateus ou pagãos. Queria viver para Cristo, não pela glória, mas pelo alegria que os novos horizontes lhe trouxeram. Não por dinheiro, poder, nem por aparência.

Hoje talvez Paulo seria um “divergente”, justamente pelos fundamentos da mensagem do evangelho à qual foi fiel até a morte. Tentou viver então sem hipocrisia os fundamentos de sua fé, como antes vivia sua descrença. A diferença: onde abundou o pecado, superabundou a graça! Isso não veio dele, é dom de Deus.

Então, quando leio entrevistas do Papa Francisco, mesmo quando noto que algumas de suas afirmações, por um mundo unido, chegam a assustar muita gente arraigada demais em costumes, percebo ali que os Paulos ainda existem. Da mesma forma, quando leio a obra do “ateu” José Saramago (Levantados do Chão, Ensaio sobre a Cegueira, Evangelho segundo Jesus Cristo…) tenho vontade de gritar: aleluia glória a Deus! Os Saulos, os autênticos ainda existem! Poucos cristãos conseguiram me ensinar de forma tão poderosa sobre humanidade, amor, aceitação, solidariedade, ética e democracia como Saramago, um ateu português.

Caio Fábio, um pastor cristão dos dias de hoje, chegou a dizer que deixou de ser “evangélico” para viver e pregar o evangelho. Assustou muita gente. Só quem percebeu que não se tratava de ação midiática, pode compreender e notar a autenticidade disso. O título dessa crônica, aliás é inspirado pela fala do papa Francisco que já citei acima. Boa parte dos católicos e dos cristãos não católicos perceberam a fala somente como fundamento de um “igrejismo exacerbado” quase tolo. Apenas faço a você leitor a pergunta que já me fiz antes de escrever esse comentário: a questão é ser católico? É ser cristão? É ser ateu? Ou ser hipócrita?

Sinto que o Papa, como vários outros anunciadores de Cristo neste mundo dito moderno estão nos convidando para fugir da hipocrisia. Ela é fruto da mentira, da corrupção do ser humano. Chamam todos nós (você, e e eles) para multiplicar os dons e características que recebemos de Deus e sejamos autênticos. Sem imitar, sem fazer cara de santo.

Tudo isso me fala de ser criança e assim viver um “Cristianismo puro e Simples”, como já diria em seu famoso livro, o escritor C.S.Lewis autor de Crônicas de Nárnia, aliás, um outro “ateu” que nos indica que a questão é ser autêntico, antes de tudo. Fala daquela pergunta da criança sorridente, da canção do Padre Zezinho que “… perguntou no meio de um sorriso, o que é preciso para ser feliz?” .  A resposta? Você a tem… todos nós, talvez, mesmo que não a adotemos.  A questão que importa é SER humano e não TER título, posição, status…

Então façamos perguntas e questões que nos levem a fugir da demagogia, dos preconceitos e da imposição dos poderosos. Para você que me acompanhou até aqui nessa crônica, e pensa em tudo isso, sugiro um conselho interessante do livro do Eclesiastes: “O que as suas mãos tiverem que fazer, que o façam com toda sua força, pois na sepultura, para onde você vai, não há atividade nem planejamento, não há conhecimento nem sabedoria”. (Eclesiastes 9:10 – Biblia na Nova Versão Internacional).

Então, voltemos à velha indagação do teatro Shakesperiano: Ser ou não ser, eis a questão!

 

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