Santidade e finitude – Pe Ismar Dias de Matos

“Eu sou Javé, o Deus de vocês. E vocês foram santificados e se tornaram santos, porque eu sou santo” (11, 44).

 

santidade

Poucas são as nossas certezas, aliás, pouquíssimas. Duas delas: a de que estamos vivos, e a de que somos finitos e vamos morrer. E a nossa vida possui um destino comum: somos chamados à santidade.

Chamados à santidade

O dia de Todos os Santos, 1º de novembro, para ser mais solene, será transferido para o primeiro domingo, dia 06. São lembrados não apenas os que já foram canonizados, os que entraram para o calendário litúrgico, mas todos. Afinal, santos (as) são todos(as) aqueles(as) que viveram de modo heroico as virtudes cristãs, seguindo o convite/mandato do Senhor: “Sede perfeitos [santos], como o vosso Pai Celestial é perfeito” (Mt 5, 48). É, pois, uma multidão incontável!

Santidade é a única vocação a que todos, em todas as épocas, somos chamados a viver, e sua fonte é o próprio Deus, como nos ensina a Oração Eucarística III: “Na verdade só vós sois santo, ó Deus do Universo […], porque dais vida e santidade a todas as coisas”. Nossa santidade é participação na única santidade divina, como também nos recorda o Levítico: “Eu sou Javé, o Deus de vocês. E vocês foram santificados e se tornaram santos, porque eu sou santo” (11, 44).

A etimologia de santo tem o sentido de “separado ou distinto do comum”. A palavra faz referência a tudo o que é divino, sagrado e numinoso.  Santo(a) é alguém que vive intensamente neste mundo, é solidário com todos, e não se deixa contaminar com o que é pecado e nocivo. Muitos pensam que o(a) santo(a) é alguém que vive alheio ao que acontece ao seu redor. Pelo contrário, é alguém antenado a tudo o que acontece a todos, e se mostra fraterno(a) e solidário(o). A santidade acontece durante a vida de uma pessoa, não depois de sua morte. E a vida do(a) santo(a) é celebrada no dia de sua morte, no dia de sua partida para a Casa d’Aquele que é a Fonte de toda a Santidade.

Nosso fim comum

Outra comemoração, no início de novembro, é a de “Todos os fiéis defuntos”, ou seja, Finados, dia 02. Vem de longa data o costume de se rezar pelos mortos, e teve início entre os monges beneditinos, na França, no final do primeiro milênio.

A origem bíblica de Finados está no 2º livro de Macabeus, quando Judas, após uma batalha em que morreram diversos soldados seus, muitos deles com amuletos dos inimigos presos na mão fechada, manda oferecer um culto pelos seus combatentes, invocando de Deus o perdão pela possível idolatria, e também cultuando a memória heroica de seus homens. Judas Macabeu, “depois, tendo organizado uma coleta individual, enviou a Jerusalém cerca de duas mil dracmas de prata a fim de que se oferecesse um sacrifício pelo pecado; agiu assim absolutamente bem e nobremente, com o pensamento na ressurreição. De fato, se ele não esperasse que os que haviam sucumbido iriam ressuscitar, seria supérfluo e tolo rezar pelos mortos” (2 Mc 12, 43-44).

No livro de Tobias também temos outro fundamento: o Arcanjo Rafael diz a Tobias: “Quando tu e Sara fazíeis oração, era eu quem apresentava vossas súplicas diante da Glória do Senhor e as lia; eu fazia o mesmo quando enterravas os mortos” (Tb 12,12). Enterrar os mortos, eis aí uma tradição que revela a esperança na ressurreição dos mortos. No Evangelho, Mateus fala de um “mundo vindouro” (Mt 12, 32), que é a Casa do Pai.

Outro motivo de celebrarmos Finados está no Credo: “Creio na ressurreição da carne, e na vida eterna”. Há uma grande esperança de que a vida não termine com nossa existência terrena, breve e passageira. A fé, sobretudo aquela centrada nas Escrituras, fortalece os que creem na vida eterna, como diz um canto litúrgico: “A vida, para quem acredita, não é passageira ilusão; e a morte se torna bendita, porque é nossa libertação! Nós cremos na vida eterna, e na feliz ressurreição”.

A etimologia de “defunto” designa aquele que cumpriu a sua missão, a sua função (functio), e agora está livre, desimpedido de tudo (de functus). Para com essas pessoas, resta-nos celebrá-las, torná-las sempre vivas em nossa memória. E a Missa, memorial do Senhor Ressuscitado, é o presente maior que aos nossos mortos podemos oferecer.

 

Ismar Dias de Matos, professor de Filosofia e Cultura Religiosa na PUC Minas

p.ismar@pucminas.br

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