Em defesa da infância

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Há tempos, sabemos da importância da infância para uma vida adulta feliz e saudável. Recentemente, lendo furtivamente uma coluna que gosto muito, me deparei com um texto de Elika Takimoto que descrevia uma cena onde quatro amigos, todos com mais de 40 anos, conversavam alegremente num bar. Num determinado momento a única mulher do grupo solta a seguinte pergunta:

– Há dez anos , como estavam vocês nesse tempo?

O silêncio então reinou na mesa, seguido de uma série de muxoxos, caras feias e relatos infelizes. Houve até quem secasse discretamente uma lágrima no olho esquerdo. O mal estar só se dissolveu algum tempo depois quando, numa tentativa desesperada de se redimir, a mesma mulher perguntou novamente:

– Há trinta anos , o que vocês gostavam de fazer? Como estavam nessa época?

E todos riram, desenrolando uma série de comentários sobre as aventuras de criança, entre bolas, pipas, peões e brincadeiras diversas: Todos foram salvos pela infância.

O texto, somado à aproximação do “Dia das Crianças” me fez relembrar a importância da infância como “fonte” de nossas experiências.

Entretanto as lembranças infantis nem sempre são felizes. Há também situações muito duras experimentadas nessa primeira fase da vida. Um estudo divulgado no jornal científico JAMA Pediatrics, analisou um grupo de 494 garotos e suas mães de 1991 a 2010. Os resultados mostram que dificuldades enfrentadas até os seis anos de idade, como doença na família, separação dos pais, mudança de bairro, entre outras, estão relacionadas à internalização de sintomas de depressão e ansiedade que geram alterações na massa cinzenta no fim da adolescência (dos 18 aos 21 anos). “Devemos lembrar que se trata de uma escala de estresse.

Segundo os autores, o estudo é importante porque mostra que é possível prevenir diversos problemas, em vez de achar que depressão e ansiedade são causados apenas pela genética. “A descoberta de que as experiências da infância podem afetar o cérebro mostra que a primeira infância não é só um período de vulnerabilidade, mas também de oportunidade”, conclui. “Intervenções contra a adversidade podem ajudar a prevenir que crianças internalizem sintomas e as proteger contra o desenvolvimento anormal do cérebro.”

Sabemos que o estudo é apenas um “recorte” da realidade na qual estamos inseridos, entretanto nos leva a refletir sobre a maneira que estamos tratando a infância de nossas crianças. Não somos responsáveis por nossa infância e nem pelo que fizeram conosco. Sobre isso e para isso, utilizamos os recursos da psicologia e outras ciências, capazes de nos ajudar a resolver tais questões. Mas somos sim, totalmente responsáveis pela infância de nossos filhos.

Quer um filho saudável, feliz e bem sucedido? Proteja sua infância! Viva seus dias com ele e para ele. Destaco que as brincadeiras têm um importante impacto para o desenvolvimento saudável e para a vida psíquica das crianças, uma vez que a ajudam a desenvolver habilidades cognitivas, físicas, sócio-afetivas e morais. Além disso, auxiliam a estruturar suas vidas emocionais e funcionam como atividade prazerosa em si mesma e que leva à satisfação e realização pessoal.

A criança está pronta para aprender com seus pais e/ou responsáveis, absorvendo tudo, sem possibilidade de filtrar o que é bom e o que é ruim. Se na maioria das vezes, nem mesmo os responsáveis percebem o quão falhos são, não podemos esperar que elas deem conta dessa tarefa sozinhas.

Que todos os dias sejam “Dia da Criança” e possamos lembrar que além dos presentes, é preciso dedicar todo amor aos nossos pequenos. E se for necessário, vale buscar ajuda profissional, já que o assunto é tão sério, delicado e difícil.

Porque se acontecer na infância, esteja certo de que não ficará somente lá. Mas ficará… para a vida toda!

Marizélia Martins, psicóloga.

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