Liturgia e música- Texto refletido por Pe João Evangelista, na Área Pastoral de São João

VALE A PENA CONFERIR

cantoeliturgia

Os Cantos da Missa 

Uma celebração litúrgica é composta de uma série de ritos que tem, cada qual, uma função diferente, um significado e um objetivo na dinâmica celebrativa. Nenhuma peça musical pode ser introduzida na liturgia sem levar em conta a função ritual. Por exemplo, o “Cordeiro de Deus” acompanha a fração do pão, evocando o sacrifício de Cristo, o Cordeiro Pascal. A aclamação memorial “Eis o mistério da fé” atualiza a narrativa da última ceia. Cada função ritual exige o seu gênero musical. Assim, o canto de entrada não se canta na aclamação; antes do evangelho não se canta um responso, e sim uma aclamação; a aclamação ao evangelho é diferente de uma aclamação na oração eucarística; uma antífona não é um responso… Texto, melodia e ritmo devem estar de acordo e cumprir a função ritual, para que o rito possa alcançar seu objetivo espiritual nos participantes[1].

A música está a serviço da palavra de Deus na liturgia, como a serviço da oração da Igreja. Ela é veículo de comunicação no diálogo da aliança entre Deus e o seu povo. É linguagem de amor na relação Cristo/Esposo e a comunidade/esposa[2].

Quanto ao uso dos cantos na missa, assim fala a Instrução Geral do Missal Romano:

Dê-se grande valor ao uso do canto na celebração da missa, tendo em vista a índole dos povos e as possibilidades de cada assembleia litúrgica. Ainda que não seja necessário cantar sempre todos os textos de per si destinados ao canto, por exemplo, nas missas de dias de semana, deve-se zelar para que não falte o canto dos ministros e do povo nas celebrações dos domingos e festas de preceitos. Na escolha das partes que de fato são cantadas deve-se dar preferência às mais importantes e, sobretudo, àquelas que o sacerdote e a assembleia devem proferir simultaneamente[3].

Assim, temos três níveis de missa cantada, definidos pela instrução Musicam Sacram, da Congregação dos Ritos, de 1967.

1-O primeiro é o diálogo cantado entre o presidente ou os ministros e a assembleia. Aqui estão a saudação, a oração do dia, o diálogo do evangelho, as preces, a oração sobre as oferendas, a anáfora com suas intervenções e com o amém da doxologia final, sobretudo, o Pai Nosso com o seu embolismo, o rito da paz, a oração depois da comunhão, a bênção e a despedida. Entra também o canto dialogado da apresentação das oferendas.

2-O segundo nível é o diálogo do ordinário da missa, mais as partes ditas em comum. São o Kyrie, o glória, o creio, o santo e o Cordeiro de Deus.

3-O terceiro compreende o primeiro, o segundo e o próprio das missas diversas. Entram o canto de entrada, o salmo, a aclamação ao evangelho, o canto das oferendas, de comunhão, hino de louvor e agradecimento, ou canto após a comunhão, o canto devocional e o canto das próprias leituras e do evangelho[4].

3.3.1 – O canto de abertura

O canto de abertura tem como principal finalidade construir e congregar a assembleia. Estando ele bem integrado ao momento ritual, em sintonia com o tempo litúrgico, o tipo de celebração, as características da assembleia, entre outros, ele terá a função de unir a assembleia num mesmo sentimento. Ele leva a assembleia a se tornar um sinal sacramental da Igreja, corpo místico de Cristo, e estará preparada para escutar a palavra e para participar da mesa eucarística[5].

O missal romano diz assim: A finalidade deste canto é abrir a celebração, fomentar a união daqueles que se reuniram e elevar seus pensamentos à contemplação do mistério litúrgico ou da festa, introduzindo e acompanhando a procissão de sacerdotes e ministros. (…) é cantado alternativamente pelos cantores e pelo povo, ou por um cantor e pelo povo, ou inteiramente pelo povo, ou apenas pelos cantores[6].

Ele abre a celebração, cria comunhão da assembleia pela união de vozes e corações no encontro com Cristo, introduz o mistério do tempo ou festa litúrgica e acompanha a procissão de entrada. É a resposta dos filhos convocados pelo Pai a se unirem, ouvirem a sua palavra, e o louvarem como único Senhor. A letra, portanto, deve falar do motivo da celebração, ser um convite à celebração, e o quanto possível, ser uma fala direta com Deus. “Este canto tem de deixar a assembleia em estado de ânimo apropriado para a escuta da palavra de Deus” [7].

3.3.2 – Senhor, tende piedade de nós

Este é um canto ordinário da missa. A Instrução Geral do Missal Romano lembra que o kyrie eleison é uma invocação e aclamação da misericórdia do Senhor, o Kyrios. Embora seja difícil precisar a invocação “Senhor, tende piedade de nós” e sua inclusão no rito da missa, testemunhos antigos no revelam que os “kyrie”s estavam relacionadas com a resposta da oração dos fiéis, na liturgia da Palavra. O povo respondia a cada invocação com as mesmas palavras. Mais tarde este canto foi incluído nos ritos iniciais da missa, após o ato penitencial, ou como uma variante deste[8].

A mesma Instrução Geral do Missal Romano recomenda a participação de toda a assembleia neste ato. Ele é uma aclamação a Cristo Senhor, e não uma forma de invocação trinitária. É o canto da assembleia reunida que invoca e reconhece a infinita misericórdia do senhor (Kyrios é o nome mais comum dado a Cristo ressuscitado, pelos primeiros cristãos)[9].

A sua finalidade é preparar a assembleia para a escuta da Palavra de Deus e a celebrar dignamente os santos mistérios (IGMR 24). Celebra a misericórdia divina e leva a comunidade a reconhecer-se pecadora e necessitada de perdão. Fora uma oração de louvor ao Cristo ressuscitado, mas acabou fazendo parte do momento de reconciliação. A sua simplicidade reflete melhor o arrependimento. O canto, a música e a expressão corporal aqui devem propiciar o encontro com o Pai misericordioso[10].

Por si, este canto não é um ato penitencial, mas uma doxologia ou proclamação da misericórdia de Deus. A tradução mais fiel seria “Senhor, piedade”, ou “Senhor, vós sois piedade”. Piedade é uma atitude do Pai em relação aos Filhos. Não constitui um pedido de perdão. Tanto que o lugar destas palavras é após a “absolvição” geral. Este ato para toda a assembleia é característico do pós Vaticano II. Antes ele era reservado aos ministros.

3.3.3 – O glória

O canto do glória remonta aos primeiros séculos da era cristã. Assim o descreve a Instrução Geral do Missal Romano:

O glória é um antiquíssimo e venerável hino que a Igreja, congregada no Espírito Santo, glorifica a Deus Pai e ao Cordeiro, e lhe apresenta suas súplicas. É cantado ou pela assembleia dos fiéis ou pelo povo em alternância com os cantores, ou ainda, só pelos cantores[11].

Por sua própria estrutura literária latina, que mesmo traduzida conserva seu fraseado com ritmo, o glória é especialmente rico em possibilidades de solução musical. Ele pode ser cantado de forma direta, ou alternado entre o coro e o povo, ou com um verso responsorial, que seria normalmente o verso inicial.

Portanto, o glória é um hino doxológico (de louvor e de glorificação) que canta a glória do Pai e do Filho. Porém, o Filho se mantém no centro do louvor, da aclamação e da súplica. Movida pela ação do Espírito Santo, a assembleia entoa este hino que tem a sua origem naquele canto que os anjos entoaram nos ouvidos dos pastores de Belém, na noite do nascimento de Jesus[12].

Nos seus primórdios, o glória fazia parte do ofício da manhã. Foi por volta do século IV que ele começa a aparecer na liturgia eucarística do natal do Senhor, sendo entoado apenas pelo bispo. Assim foi por muitos anos. Só no final do século XI é que se tem notícias do seu uso em todas as festas e domingos, exceto na quaresma, entoado, inclusive, pelos presbíteros[13].

Este canto possui algumas partes de fácil percepção: o canto dos anjos no natal de Jesus, os louvores ao Pai, os louvores, súplicas e aclamações a Cristo, e um majestoso final que inclui o Espírito Santo (o que não implica um louvor ao Espírito Santo). O Espírito está relacionado com o Filho, pois os louvores e as súplicas se concentram nele. Ele é o Senhor que desde todos os tempos habita no seio da Trindade[14].

Os glórias que não podem ser cantados por toda a assembleia devem ser evitados, assim como os abreviados (glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo). Também, não se deve colocar um hino de louvor que não seja “o glória” no lugar deste. Pode-se cantá-lo também alternado entre o coral e a assembleia, ou em coros. Porém, há de se lembrar que não se deve cantá-lo na quaresma e no advento, pois este não está em sintonia com tempos penitenciais.

3.3.4 – O salmo de resposta

Desde os primeiros séculos os cristãos cantam os salmos em suas liturgias. Este foi um costume herdado do judaísmo. Os Santos Padres falam com muita eloquência da beleza deste canto, também considerado como leitura cantada. Este costume foi resgatado pelo Concílio Vaticano II, sendo ligado ao sentido teológico da primeira leitura. Assim, o salmo ocupa um espaço significativo como resposta, pois é cantado dialogalmente (salmista e assembleia) e responde à palavra de Deus. Sua principal função é prolongar poeticamente a mensagem da primeira leitura. A resposta da assembleia faz a leitura se prolongar em forma de eco e de oração[15].

De preferência o salmo deve ser cantado de forma dialogal, feito da mesa da Palavra, e não deve ser substituído por outro canto de meditação, nem mesmo omitido. Também não pode ser substituído por outro salmo que não contemple e responda de alguma forma à leitura que o precedeu.

3.3.5 – Aclamação ao Evangelho

Aclamar é aplaudir, aprovar com entusiasmo, saudar calorosamente, reconhecer solenemente, proclamar[16]. Na Igreja, toda e qualquer aclamação se refere ao mistério de Deus que se manifestou plenamente em Jesus. A assembleia, reunida no Espírito Santo, vibra e aclama com admiração, alegria, amor e fé Aquele que está sentado no trono do Cordeiro, pois só a eles pertencem o louvor, a honra, a glória e o poder pelos séculos dos séculos (cf. Ap. 5,13)[17].

Portanto, a aclamação é como se fosse “um verdadeiro viva ao Verbo de Deus” [18]. Não é obrigatório e pode ser omitido. Sendo feito, deve ser uma aclamação pessoal e comunitária ao Senhor, que nos tirou das trevas da morte, introduzindo-nos no reino da vida. Além de acompanhar a procissão do livro dos evangelhos até a mesa da Palavra, “prepara o coração dos fiéis para a escuta  d’Aquele que traz a salvação[19].

A aclamação deve ser vibrante, com vigoroso ritmo e brilhante melodia. Deve gerar um clima de expectativa e prontidão para a escuta da Palavra do Senhor. Os instrumentos e as vozes devem soar com um máximo de eloquência.

Cantar o “Aleluia” é cantar um “louvor a IAHWEH”, ou louvar a Palavra de Deus que liberta e salva os homens[20]. Este deve ser omitido na quaresma.

Além do Aleluia, a aclamação possui uma antífona, presente nos lecionários, sempre ligada ao evangelho a ser proclamado.

3.3.6 – O canto das oferendas

Pode também ser chamado de canto da procissão das oferendas (quando há procissão), ou da preparação das oferendas (quando não há procissão), ou da apresentação das oferendas, quando o presidente canta a oração da bênção. O missal não traz este canto, os textos das antífonas, como faz com o canto de abertura e de comunhão. Porém, se cantar, que o canto possa criar um ambiente de alegria de partilha e de louvor. Deve sensibilizar os fiéis para a generosidade e a gratuidade, uma vez que os seus dons são apresentados ao Pai, em nome de Cristo, no Espírito Santo, simbolizados pelo pão e pelo vinho. O canto da apresentação dos dons do pão e do vinho (bênção) é o mais apropriado, uma vez que o texto constitui o próprio rito[21].

Este canto serve de introdução à liturgia eucarística, à refeição memorial do Senhor. Não é necessário, nem desejável, sobretudo quando não há procissão. A sua letra não precisa falar necessariamente de pão e de vinho, ou de ofertório[22].

Não é um canto para oferecer o sacrifício: a única oferenda é Jesus Cristo, e nós “por Ele, com Ele e n’Ele”, em sacrifício vivo e santo[23]. Ajuda a recolher os motivos de ação de graças, o sentido do pão e do vinho e água, símbolos que se tornarão o Corpo e o Sangue de Cristo. Dispõe os corações dos fiéis a entrar na atitude de Cristo diante do Pai, na oferta de sua vida a Deus e aos homens no sacrifício da cruz. Prepara os corações para o sacrifício em comunhão com o sacrifício de Cristo.

3.3.7 – A oração eucarística

Valorizando a centralidade da oração eucarística, a CNBB recomenda o canto de toda a oração, tanto a parte do presidente quanto as partes da assembleia, ou seja, desde o diálogo inicial até o Amém da doxologia final[24].

A prece eucarística é um grande canto de ação de graças que a assembleia, congregada no Espírito Santo, entoa com Cristo, por Cristo e em Cristo, ao Pai. Desde o início do cristianismo se tem notícia desta prece cantada[25]. Este costume remonta, de modo eloquente e expressivo, àquele solene canto de bênção da refeição e do “Hallel” entoados por Jesus e seus discípulos na última ceia (cf. Mt 26,30). Nas liturgias orientais esta é uma tradição muito apreciada, o que eleva o canto a um gesto eucarístico. No ocidente há uma tendência e forte tentativa de retomar o valor desta prece, cantando-a, superando a pouca expressividade que ela tomou, sobretudo pelos presidentes, ao longo dos tempos[26].

Por esta prece o evento salvífico da paixão-morte-ressurreição de Cristo é proclamado como a plenitude das maravilhas de Deus realizadas em favor da humanidade. Isso aparece eloquentemente no prefácio, que leva o canto para junto dos anjos e dos santos proclamando a santidade tripla do Senhor. Invoca-se o Espírito Santo sobre os dons em favor do Corpo Místico de Cristo, a Igreja. Segue-se a narrativa da instituição e a aclamação anamnética. Após as intercessões, a prece eucarística atinge o ponto culminante da ação de graças, com a doxologia, seguida do grande amém. Porém, a oração é um todo harmonioso. Portanto, deve receber uma corpagem musical mais homogênea, com tonalidade única, o que levaria a uma melhor compreensão por parte dos fiéis[27].

Deve-se tomar o cuidado para não fazer do canto desta oração mais um simples canto. Não se pode perder de vista que esta é uma oração, ao mesmo tempo uma grande memória, um grande ofertório de vidas. Neste momento estamos unidos com todos os anjos e com todos os santos. É a unidade da Igreja celeste com a Igreja terrestre para celebrar o mesmo mistério. A mística deve estar presente em todos os sentidos: no ritmo, na melodia, no uso dos instrumentos e etc. Tudo deve contribuir para levar a comunidade celebrante a mergulhar na espiritualidade do mistério.

3.3.8 – O santo

Este canto tem a finalidade de aclamar, exaltar e bendizer o Santo de Deus. É a grande aclamação que conclui o prefácio da oração eucarística. A sua origem bíblica reproduz o louvor celeste dos Serafins, conforme Is 6,3 e, desde o século II é usado na liturgia sinagogal judaica. No cristianismo, é possível que esta tradição só tenha ganhado espaço por volta do século quarto, no Oriente, e do século V no Ocidente[28]. É a glorificação do Deus transcendente, o Santo, o Altíssimo. Diante dele toda a humanidade se reconhece pequena.

A segunda parte (Bendito o que vem…) lembra a euforia do povo acolhendo o Messias[29]. É o Deus imanente que vem para salvar.

A Igreja recomenda que toda a assembleia cante com o presidente, e que o tom do prefácio seja o mesmo do santo. O seu texto não deve ser substituído por versões livres que não correspondam à doxologia bíblica.

3.3.9 – Aclamação memorial

Expressa o anúncio do mistério pascal, comemorando o abaixamento e a glorificação do Senhor, e pedindo a sua vinda. Textos alternativos que expressam a fé na presença real naquele tempo devem ser excluídos por alterar o sentido litúrgico do mistério celebrado. É o momento do memorial, do anúncio do mistério pascal, e não devoção à presença real. Que seja cantada por todos em resposta à introdução (eis o mistério da fé…) do presidente[30].É uma proclamação de fé em tom aclamatório, fazendo memória de todo o mistério pascal de Cristo, enquanto se aguarda a sua nova vinda.

A anamnese foi inserida na prece eucarística após o Concílio Vaticano II. Até então só havia o cânon romano, sem aclamação. Hoje são 143. A mais importante para a inserção desta aclamação é a centralidade do mistério pascal de Cristo. A assembleia, Corpo Místico de Cristo, proclama a morte e a ressurreição do senhor e, ao mesmo tempo, reafirma a sua fé no mesmo mistério que continua acontecendo em nossa realidade atual. É a “páscoa de Cristo na páscoa do povo, e a páscoa do povo na páscoa de Cristo”: duas realidades inseparáveis fazendo parte do único mistério da fé. Até a realidade futura é trazida ao presente “até que ele venha” [31].

A aclamação é uma grande ressaltação do caráter pascal da celebração eucarística. É desejável que toda a assembleia responda com voz forte esta aclamação. Que, na medida do possível seja cantada com muito vigor.

3.3.10 – A doxologia final

É o louvor final que conclui a narrativa das maravilhas e benefícios de Deus pelo seu Povo. Não é aclamação, por isso não é proclamada por toda a assembleia, e sim por quem preside. Em resposta toda a assembleia responde o amém (aleluia ou outra aclamações segundo o missal) de forma solene, vibrante, repetida, sinal de adesão, compromisso, concordância, comunhão.

O amém é a resposta de toda a assembleia à prece eucarística. Por isso deve ser feito com entusiasmo, alegria, força. É a manifestação da assembleia de que está feliz por celebrar este mistério, e que concorda com tudo o que fora dito pelo presidente em seu nome. É a resposta daquela que também foi oferecida ao Senhor, por quem também foi feita oração, e quem também faz parte do Corpo Místico de Cristo.

Já nos primeiros séculos do cristianismo, era comum uma fórmula de louvor explícito a Deus no final de uma prece. A Didaqué, que é o catecismo dos primeiros cristãos, traz esta fórmula: “… pois tua é a glória e o poder, por meio de Jesus Cristo, para sempre” [32]. A doxologia é uma síntese da prece eucarística, assim como de toda a celebração: tudo é oferecido ao Pai, pela mediação do Filho. É a oferenda da Igreja congregada “na unidade do Espírito Santo”. O louvor que sobe a Deus é de toda a assembleia. A elevação do pão e do vinho eucaristizados com bastante expressividade mostra o sentido teológico deste momento. A assembleia pode erguer as mãos com as palmas para cima, expressando o desejo de se tornar, ainda mais, uma oferenda ao Pai, a exemplo de Jesus Cristo[33].

3.3.11 – O Pai nosso

Esta é uma oração comum aos cristãos desde o início do cristianismo. Tornou-se o modelo de oração cristã, resumo de todo o evangelho e, consequentemente, a oração da Igreja. É rezado na missa desde o século VII, marcando o início do rito da comunhão, fazendo uma ponte entre a prece eucarística e a ceia. Ao ser cantado, não convém substituir a letra, nem colocar melodias adaptadas ou importadas.

3.3.12 – O Cordeiro de Deus

É uma prece litânica (em forma de ladainha), entoada durante o rito da fração do pão. A invocação “Cordeiro de Deus que tirais o pecado…” pode ser repetida enquanto durar o rito da fração do pão. Na última repetição se responde “dai-nos a paz”. O Cordeiro recorda o cordeiro pascal de Ex 12 e de 1Cor 5,7, que neste, é Cristo. João Batista, em Jo 1,29.36, apresenta Jesus como o “Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”[34].

No século VII já se tem notícia do uso deste rito na liturgia romana. A invocação “dai-nos a paz” veio por volta do século IX, visto que este canto acompanhava o ósculo da paz. Nas missas dos defuntos, no lugar de “tende piedade de nós” se dizia “dai a ele o repouso eterno”. O Concílio Vaticano II decretou que este canto acompanhasse o rito da fração do pão, indicando que Cristo é o Cordeiro Pascal, e que o banquete eucarístico do qual participamos prefigura o banquete eterno que Cristo, o Cordeiro de Deus, preparou para todos nós[35].

Não é necessariamente um canto do povo, e pode ser recitado, ou cantado, apenas pelo coral[36]. Não constitui um ato penitencial e sim uma súplica, ou breve ladainha. Não se pode mudar a sua letra.

3.3.13 – O canto de comunhão

É um dos cantos mais antigos e importantes da celebração. Ele deve exprimir a união espiritual dos que comungam e, ao mesmo tempo, demonstra a sua alegria pascal pela união com o Ressuscitado[37].

Para que esta comum-união aconteça plenamente, é necessário que no momento da partilha do Corpo e do Sangue do Senhor, se evite colocar cantos cujas letras apresentem excessivas doses de subjetivismo. Este canto deve expressar a eclesialidade da assembleia que celebra, que também é sinal sacramental do Corpo Místico de Cristo, a Igreja. Não se devem usar também hinos de adoração, pois são impróprios por ressaltarem apenas a fé na presença real de Cristo na Eucaristia, e carecem de outras dimensões essenciais do mistério da fé[38].

Este canto deve, ainda, pelo menos em festas e solenidades, estar em consonância com o evangelho do dia. É o evangelho que dá o tom com o qual o Cristo se dirige a nós em cada celebração eucarística.

É um canto processional. É bom que seja feito de forma dialogada entre o solista, ou o coral e a assembleia, para que os comungantes não precisem se preocupar com a folha de canto. Não é necessário prolongá-lo por todo o tempo da comunhão.

A letra não se reduza a expressão excesivamente subjetiva, individualista, intimista e sentimentalista da comunhão. Que ela projete a assembleia como um todo, e cada uma das pessoas que participam, para a constituição do Corpo Místico de Cristo. Em certas oportunidades, favoreça mais ao recolhimento, a fim de evitar um comungar puramente rotineiro e inconsciente. Em outras, sobretudo nas ocasiões das festas maiores, faça desabrochar a alegria e a exaltação, como se diz da experiência eucarística das primeiras comunidades cristãs (cf.At 2,46)[39].

É um canto mais contemplativo, mais sereno, mais de comunhão. É também sacrificial por levarem os fiéis a entrarem no mistério de Cristo. É canto de compromisso com a construção do Reino.

3.3.14 – Outros cantos

Toda a celebração eucarística pode ser cantada, desde que usem a melodia, a letra, o ritmo e os meios mais adequados para cada situação. Assim são as leituras, o evangelho, as orações e etc. Mas é sempre importante valorizar também o silêncio litúrgico nos momentos precisos como: minutos antes da missa, nos ritos iniciais (ato penitencial, oração do dia), liturgia da Palavra para que esta possa penetrar os corações, após a homilia, após a comunhão e na oração eucarística, sobretudo quando esta é rezada. Existem alguns refrões meditativos que ajudam a criar um clima orante, além de levar todos a se introduzir no mistério que é celebrado. Que sejam feitos de forma serena, orante, com um interlúdio instrumental, ajudando a assembleia a se colocar diante do Pai e dialogar com ele.

O canto da paz deve ser sempre breve, pois o abraço deve ser um gesto simbólico. O canto é facultativo e pode ser entoado apenas pelo coral. Não pode abafar o Cordeiro de Deus[40].

O creio é a profissão de fé, e não pode fugir da letra. Sendo cantado, que seja numa simples “cantilena”, evitando estrutura musical complicada.

O canto final não está referido na Instrução Geral do Missal Romano. Aqui o coro pode intervir ou usar música instrumental.

O ideal seria o próprio “Ide em paz…”, ou fórmula que lhe corresponda, sendo cantado pelo diácono, ou cantado e respondido pelo canto da assembleia que se vai. Durante a saída do povo, o mais conveniente seria o acompanhamento de música instrumental[41].

A oração universal também pode ser cantada pelo diácono, o cantor ou algum outro, com uma súplica, com a finalidade de favorecer a unidade. O canto de ação de graças após a comunhão não é necessário e, às vezes, nem desejável, visto que toda a Eucaristia é ação de graças. A acolhida do livro dos evangelhos provoca atitude de alerta e exultação na assembléia. Devem ser curtos e animados[42].

Concluindo

Embora cada música tenha o seu estilo, o seu ritmo, a sua função, a função maior e ministerial da música na liturgia é unificar os corações dos fiéis num júbilo cordial e prepará-los, pelos versos inspirados pelo Espírito Santo, para a grande manifestação de amor. A música litúrgica nos leva a viver a Igreja como sacramento de Cristo e a viver os mistérios do mesmo Cristo em profundidade.

O ser humano faz uso da arte dos sons, em especial, a música, o canto, para externar os sentimentos mais íntimos. Quem canta mostra o interior da alma, expressando alegria, tristeza, saudade, nostalgia, enfim, a profundidade do ser.

Em se tratando do canto religioso, por ele o homem manifesta a sua relação com Deus, tanto individual como comunitariamente. Essa manifestação é feita em forma de louvor, ação de graças, memória e reflexão, pela força do Espírito Santo, voltando-se ao Pai, celebrando os mistérios revelados no e pelo Filho.

Portanto, a celebração litúrgica é trinitária. E o canto litúrgico deve expressar essa trinitariedade. É a celebração do ato salvífico do Pai, que tem o seu ápice na páscoa de Jesus Cristo que, pela força do Espírito Santo que nos leva a atualizar o mistério, conduz-nos à glorificação e à construção do Reino prometido.

Para que esse sentido seja presente é necessário valorizar a fonte de inspiração e revelação, que é a sagrada Escritura. Por ela se vive o memorial celebrativo, ou o ritual do serviço salvífico. Não somos nós que fazemos a liturgia. É a Trindade que a realiza em nós.

A Igreja celebra, faz memória e atualiza o mistério pascal. E a música, que deve estar a serviço da liturgia, deve ser a expressão profunda deste mistério.

 

“Cantar a liturgia e não cantar na liturgia”

 

1-Adquira o CD: partes fixas da missa. Será uma ótima ajuda para a liturgia. Procure o escritório paroquial e se informe;

2-Atenção ao passar em frente ao ALTAR. Ele representa o Cristo. Faça uma profunda VÊNIA. Evite passar entre o presidente e o altar durante a celebração;

3-Estar sempre atento para não prolongar o canto, além do necessário. Evite cantos longos;

4-Acompanhar e responder as aclamações da Oração Eucarística ajuda no clima Orante da Liturgia;

5- Alguns minutos antes de iniciar a celebração poderá haver ensaio dos cânticos com a assembleia.

6- Nunca improvisar. Estudar permanentemente favorece o repertório e a OR

[1] Cf Ione Buyst e José Ariovaldo Silva, O mistério celebrado: memória e compromisso I, Paulinas, São Paulo, Sequem, Valência, Espanha, 2003, p. 143-150.

[2] Idem

[3] IGMR 40

[4] Alberto Beckhäuser, Os fundamentos da sagrada liturgia. Vozes, Petrópolis, RJ 2004, p. 211-220.

[5] Joaquim Fonseca, Função ministerial do canto de abertura, em Revista de liturgia n. 160, julho-agosto de 2000, p. 27.

[6] IGMR 25-26.

[7] MLB 313

[8] O missal romano atual apresenta fórmulas que são concluídas com “Senhor, tende piedade de nós”, suprimindo o uso deste a seguir. Cf. artigo de Joaquim Fonseca, ofm, senhor tende piedade de nós, em Revista de Liturgia, n. 165, ano 28, maio/junho de2001, p. 32-33.

[9] Joaquim Fonseca, ibidem.

[10] MLB 307.

[11] IGMR 31.

[12] Idem.

[13] Cf. Joaquim Fonseca, ofm, O glória, em Revista de Liturgia, n. 166, julho/agosto de 2001, p. 27-31.

[14] Idem.

[15] Cf. Joaquim Fonseca, ofm, em Função Ministerial do salmo de resposta, em revista de liturgia n. 162, novembro/dezembro de 2000, p. 27.

[16] Novo dicionário Aurélio, verbete aclamar. Nova fronteira, 2 ed. 1986.

[17] Joaquim Fonseca, ofm, função ministerial do canto de aclamação ao evangelho, em Revista de Liturgia, n. 162, novembro/dezembro de 2000, p. 30.

[18] Pe Joãozinho, scj, Curso de liturgia, Loyola, São Paulo, SP, 1995, p. 132.

[19] Cf. o primeiro parágrafo deste item e a citação bíblica.

[20] Pe Joãozinho, scj. Curso de Liturgia, pág. 132.

[21] Joaquim Fonseca, ofm, Função ministerial do canto das oferendas, em Revista de Liturgia, n. 163, janeiro/fevereiro de 2001. p. 27.

[22] MLB 318.

[23] Cf. CELAM. Manual de Liturgia II, p. 288.

[24] Cf. CNBB. Animação da vida litúrgica no Brasil, doc. 43, p. 303- 306

[25] Cf. J. Galineau. Canto e música no culto cristão, vozes, 1968, p. 45.

[26] Cf. Joaquim Fonseca, ofm, Um canto para a prece eucarística, em Revista de Liturgia, n. 169, janeiro/fevereiro de 2002, p. 27.

[27] Ibidem

[28] Cf. Joaquim Fonseca, ofm, O santo, em Revista de liturgia n. 167, setembro/outubro de 2001, p.34.

[29] Cf. Sl 118,26; Mt 21,9; Mc 11,9; Lc 19,38; Jo 12,13.

[30] MLB 304

[31] Cf. Joaquim Fonseca, ofm, Aclamação memorial da prece eucarística, em Revista de Liturgia, n.170, março/abril de 2002, p.29-30.

[32] Didaqué, cap. IX

[33] Cf. Ione Buyst, A missa; memória de Jesus no coração da vida. Vozes, Petrópolis, RJ, 1997, p. 93.

[34] Cf. Joaquim Fonseca, ofm, Cordeiro de Deus, em Revista de Liturgia, n. 198, novembro e dezembro de 2001, p. 33-34.

[35] Idem

[36] MLB 310

[37] IGMR, n. 56

[38] Cf. Joaquim Fonseca, ofm, Função ministerial do canto de comunhão, em Revista de Liturgia, n. 164, março/abril de 2001, p. 33.

[39] MLB 315.

[40] MLB 322.

[41] Cf. MLB 324.

[42] Cf. MLB 312, 320 e 321.

Enviado por Pe José Aparecido dos Santos

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