CAPÍTULO VI – ALGUMAS PERSPECTIVAS PASTORAIS – O Amor na família de Papa Francisco

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As diferentes comunidades é que deverão elaborar propostas mais práticas e eficazes, que tenham em conta tanto a doutrina da Igreja como as necessidades e desafios locais. Sem pretender apresentar aqui uma pastoral da família, limitar-me-ei a coligir alguns dos principais desafios pastorais.
1- Anunciar hoje o Evangelho da família.  As famílias cristãs são, pela graça do sacramento nupcial, os sujeitos principais da pastoral familiar, sobretudo oferecendo «o testemunho jubiloso dos cônjuges e das famílias, igrejas domésticas».  À luz da parábola do semeador (Mt 13, 3-9), a nossa tarefa consiste em cooperar na sementeira: o resto é obra de Deus. «Por isso exige-se a toda a Igreja uma conversão missionária: é preciso não se contentar com um anúncio puramente teórico e desligado dos problemas reais das pessoas».  A principal contribuição para a pastoral familiar é oferecida pela paróquia, que é uma família de famílias, onde se harmonizam os contributos das pequenas comunidades, movimentos e associações eclesiais. Há necessidade duma «formação mais adequada dos presbíteros, diáconos, religiosos e religiosos, catequistas e demais agentes pastorais». Os seminaristas deveriam ter acesso a uma formação interdisciplinar mais ampla sobre namoro e matrimônio, não se limitando à doutrina. Os laços familiares são fundamentais para fortificar a auto-estima sadia dos seminaristas. Tudo isto em nada diminui, antes integra, o valor fundamental da direção espiritual, dos recursos espirituais inestimáveis da Igreja e da Reconciliação sacramental.
2- Guiar os noivos no caminho de preparação para o matrimónio. É preciso ajudar os jovens a descobrir o valor e a riqueza do matrimônio. Convido as comunidades cristãs a reconhecerem que é um bem para elas mesmas acompanhar o caminho de amor dos noivos. Há várias maneiras legítimas de organizar a preparação próxima para o matrimônio e cada Igreja local discernirá a que for melhor, procurando uma formação adequada. Trata-se duma espécie de «iniciação» ao sacramento do matrimônio, que lhes forneça os elementos necessários para poderem recebê-lo com as melhores disposições e iniciar com uma certa solidez a vida familiar. Oferecer uma preparação remota que faça amadurecer o amor deles com um acompanhamento rico de proximidade e testemunho. Habitualmente, são muito úteis os grupos de noivos e a oferta de palestras opcionais sobre uma variedade de temas que realmente interessam aos jovens. Entretanto são indispensáveis alguns momentos personalizados, dado que o objetivo principal é ajudar cada um a aprender a amar esta pessoa concreta com quem pretende partilhar a vida inteira. Na realidade, cada pessoa prepara-se para o matrimônio, desde o seu nascimento.  Tanto a preparação próxima como o acompanhamento mais prolongado devem procurar que os noivos não considerem o matrimônio como o fim do caminho, mas o assumam como uma vocação que os lança para diante, com a decisão firme e realista de atravessarem juntos todas as provações e momentos difíceis.
2.1-A preparação da celebração.  A preparação próxima do matrimônio tende a concentrar-se nos convites, na roupa, na festa com os seus inumeráveis detalhes que consomem tanto os recursos econômicos como as energias e a alegria. Queridos noivos, tende a coragem de ser diferentes, não vos deixeis devorar pela sociedade do consumo e da aparência. Os agentes pastorais e toda a comunidade podem ajudar para que esta prioridade se torne a norma e não a exceção. Na preparação mais imediata, é importante esclarecer os noivos para viverem com grande profundidade a celebração litúrgica, ajudando-os a compreender e viver o significado de cada gesto. O significado procriador da sexualidade, a linguagem do corpo e os gestos de amor vividos na história dum casal de esposos transformam-se numa «continuidade ininterrupta da linguagem litúrgica» e «a vida conjugal torna-se de algum modo liturgia». Mas não seria bom chegarem ao matrimônio sem ter rezado juntos, um pelo outro, pedindo ajuda a Deus para serem fiéis e generosos, perguntando juntos a Deus que espera deles, e inclusive consagrando o seu amor diante duma imagem de Maria.
3- Acompanhamento nos primeiros anos da vida matrimonial. Muitas vezes o tempo de noivado não é suficiente, a decisão de casar-se apressa-se por várias razões. Assim os recém-casados têm de completar aquele percurso que deveria ter sido feito durante o noivado.  Por outro lado, quero insistir que um desafio da pastoral familiar é ajudar a descobrir que o matrimónio não se pode entender como algo acabado. É preciso pôr de lado as ilusões e aceitá-lo como é: inacabado, chamado a crescer, em caminho. Habitualmente ajuda sentar-se a dialogar para elaborar o seu projeto concreto com os seus objetivos, meios, detalhes. No noivado e nos primeiros anos de matrimônio, é a esperança que tem em si a força do fermento, que faz olhar para além das contradições, conflitos, contingências, que sempre faz ver mais além; é ela que põe em movimento a ânsia de se manter num caminho de crescimento. Em cada nova etapa da vida matrimonial, é preciso sentar-se e negociar novamente os acordos, de modo que não haja vencedores nem vencidos, mas ganhem ambos. No lar, as decisões não se tomam unilateralmente, e ambos compartilham a responsabilidade pela família; mas cada lar é único e cada síntese conjugal é diferente.
Uma das causas que leva a rupturas matrimoniais é ter expectativas demasiado altas sobre a vida conjugal. Quando se descobre a realidade mais limitada e problemática do que se sonhara, a solução não é pensar imediata e irresponsavelmente na separação, mas assumir o matrimónio como um caminho de amadurecimento, onde cada um dos cônjuges é um instrumento de Deus para fazer crescer o outro. Talvez a maior missão dum homem e duma mulher no amor seja esta: a de se tornarem, um ao outro, mais homem e mais mulher. Fazer crescer é ajudar o outro a moldar-se na sua própria identidade. Por isso o amor é artesanal (Gn2, 7). O amor faz com que um espere pelo outro, exercitando aquela paciência própria de artesão, que herdou de Deus.
3.1 – Alguns recursos.  Os Padres sinodais afirmaram que «os primeiros anos de matrimônio são um período vital e delicado, durante o qual os cônjuges crescem na consciência dos desafios e do significado do matrimónio (Fc, parte III). Nesta pastoral, tem grande importância a presença de casais de esposos com experiência para:
1- Encorajar os esposos para o acolhimento do grande dom dos filhos; sublinhar a importância da liturgia, celebrar o aniversário de matrimónio etc.
2- A programação dos momentos para estar juntos sem nada exigir, os tempos de recreação com os filhos, as várias maneiras de celebrar coisas importantes do cotidiano, os espaços de espiritualidade partilhada etc
3- É bom dar-se sempre um beijo pela manhã, benzer-se todas as noites, esperar pelo outro e recebê-lo à chegada, ter alguma saída juntos, compartilhar as tarefas domésticas.
4- Nós, pastores, devemos animar as famílias a crescerem na fé. Para isso, é bom incentivar a confissão frequente, a direção espiritual, a participação em retiros.
5- Pode acontecer que um dos cônjuges não seja batizado ou não queira viver os compromissos da fé. Neste caso, o desejo que o outro tem de viver e crescer como cristão faz com que a indiferença do cônjuge seja vivida com amargura. Seja como for, amar o cônjuge não crente, fazê-lo feliz, aliviar os seus sofrimentos e partilhar a vida com ele é um verdadeiro caminho de santificação.
6- As paróquias, os movimentos, as escolas e outras instituições da Igreja podem desenvolver várias mediações para apoiar e reavivar as famílias: reuniões de casais vizinhos ou amigos, breves retiros para casais, conferências de especialistas, centros de aconselhamento conjugal, agentes missionários…
7- É verdade que muitos casais de esposos desaparecem da comunidade cristã depois do matrimónio, mas com frequência desperdiçamos algumas ocasiões e nas quais poderíamos tornar a propor-lhes, de forma atraente, o ideal do matrimónio cristão e aproximá-los a espaços de acompanhamento. Refiro-me, por exemplo, ao batismo dum filho, à Primeira Comunhão, ou quando participam num funeral ou no casamento dum parente ou amigo.
4-Iluminar crises, angústias e dificuldades. Deixo aqui uma palavra àqueles que, no amor, já envelheceram o vinho novo do noivado. É a fidelidade da espera e da paciência.
a)- A história duma família está marcada por crises de todo o gênero, que são parte também da sua dramática beleza. Cada crise esconde uma boa notícia, que é preciso saber escutar, afinando os ouvidos do coração. Numa crise não assumida, o que mais se prejudica é a comunicação.
b)- Há crises comuns que costumam verificar-se em todos os matrimônios (conciliar as diferenças, desligar-se dos pais; chegada do filho, educá-lo, a adolescência exigindo muitas energias; a crise do «ninho vazio», fixar o olhar um no outro; a velhice dos pais dos cônjuges). A estas crises, vêm juntar-se as crises pessoais com incidência no casal, relacionadas com dificuldades econômicas, laborais, afetivas, sociais, espirituais. Saber perdoar e sentir-se perdoado é uma experiência fundamental na vida familiar».
c) Velhas feridas. É compreensível que, nas famílias, haja muitas dificuldades, quando um dos seus membros não amadureceu a sua maneira de relacionar-se, porque não curou feridas dalguma etapa da sua vida. A própria infância e a própria adolescência mal vividas são terreno fértil para crises pessoais que acabam por afetar o matrimónio. O amor torna-se insaciável, grita e chora quando não obtém aquilo que deseja. Uma relação mal vivida com os seus pais e irmãos, que nunca foi curada, reaparece e danifica a vida conjugal. Então é preciso fazer um percurso de libertação, que nunca se enfrentou.
d) Acompanhar depois das rupturas e dos divórcios. É preciso reconhecer que «há casos em que a separação é inevitável. Por vezes, pode tornar-se até moralmente necessária, quando se trata de defender o cônjuge mais frágil, ou os filhos pequenos, das feridas mais graves causadas pela prepotência e a violência, pela humilhação e a exploração, pela alienação e a indiferença». Mas «deve ser considerado um remédio extremo, depois que se tenham demonstrado vãs todas as tentativas razoáveis». Tem-se de acolher e valorizar sobretudo a angústia daqueles que sofreram injustamente a separação, o divórcio ou o abandono, ou então foram obrigados, pelos maus-tratos do cônjuge, a romper a convivência. Daí a necessidade duma pastoral da reconciliação e da mediação. Ao mesmo tempo, «as pessoas divorciadas que não voltaram a casar (que são muitas vezes testemunhas da fidelidade matrimonial) devem ser encorajadas a encontrar na Eucaristia o alimento que as sustente no seu estado. A comunidade local e os pastores devem acompanhar estas pessoas com solicitude, sobretudo quando há filhos ou é grave a sua situação de pobreza». Quanto às pessoas divorciadas que vivem numa nova união, é importante fazer-lhes sentir que fazem parte da Igreja, que «não estão excomungadas» nem são tratadas como tais, porque sempre integram a comunhão eclesial. Os meus dois documentos recentes sobre tal matéria levaram a uma simplificação dos procedimentos para uma eventual declaração de nulidade matrimonial. Por isso, «a aplicação destes documentos é uma grande responsabilidade para os Ordinários diocesanos, chamados eles próprios a julgar algumas causas e a garantir, de todos os modos possíveis, um acesso mais fácil dos fiéis à justiça.
e) Algumas situações complexas. As questões relacionadas com os matrimônios mistos requerem uma atenção específica. Embora os esposos tenham em comum os sacramentos do batismo e do matrimônio, a partilha da Eucaristia pode apenas ser excepcional e, em todo o caso, devem-se observar as disposições indicadas. Os matrimônios com disparidade de culto constituem um lugar privilegiado de diálogo inter-religioso (…). Comportam algumas dificuldades especiais quer em relação à identidade cristã da família quer quanto à educação religiosa dos filhos. (…). Enfrentam desafios peculiares os casais e as famílias, nos quais um dos cônjuges é católico e o outro não-crente. Em tais casos, é necessário testemunhar a capacidade que tem o Evangelho de mergulhar nestas situações para tornar possível a educação dos filhos na fé cristã. Acesso ao batismo de pessoas que contraíram uma união matrimonial estável, num tempo em que pelo menos uma delas ainda não conhecia a fé cristã. Os bispos são chamados a exercitar, nestes casos, um discernimento pastoral cônsono ao bem espiritual delas. Com os Padres sinodais, examinei a situação das famílias que vivem a experiência de ter no seu seio pessoas com tendência homossexual, experiência não fácil nem para os pais nem para os filhos. Por isso desejo, antes de mais nada, reafirmar que cada pessoa, independentemente da própria orientação sexual, deve ser respeitada na sua dignidade e acolhida com respeito, procurando evitar «qualquer sinal de discriminação injusta» e particularmente toda a forma de agressão e violência. Quanto aos projetos de equiparação ao matrimônio das uniões entre pessoas homossexuais, que não existe fundamento algum para assimilar ou estabelecer analogias, nem sequer remotas, entre as uniões homossexuais e o desígnio de Deus sobre o matrimónio e a família. As famílias monoparentais têm frequentemente origem a partir de «mães ou pais biológicos que nunca quiseram integrar-se na vida familiar, situações de violência em que um dos progenitores teve de fugir com seus filhos, morte de um dos pais, abandono da família por um dos progenitores e outras situações. Seja qual for a causa, o progenitor que vive com a criança deve encontrar apoio e conforto nas outras famílias que formam a comunidade cristã, bem como nos organismos pastorais paroquiais.
5- Quando a morte crava o seu aguilhão
Às vezes, a vida familiar vê-se desafiada pela morte de um ente querido. Não podemos deixar de oferecer a luz da fé para acompanhar as famílias que sofrem em tais momentos. Abandonar uma família atribulada por uma morte seria uma falta de misericórdia, seria perder uma oportunidade pastoral, e tal atitude pode fechar-nos as portas para qualquer eventual ação evangelizadora. Compreendo a angústia de quem perdeu uma pessoa muito amada, um cônjuge com quem se partilhou tantas coisas. O lamento de quem perdeu um filho? E às vezes chega-se até a dar a culpa a Deus! Quantas pessoas – compreendo-as – se chateiam com Deus. Àqueles que já não podem contar com a presença de familiares a quem se dedicar e de quem receber carinho e proximidade, a comunidade cristã deve sustentá-los com particular atenção e disponibilidade, sobretudo se vivem em condições de indigência.
No luto, há momentos em que é preciso ajudar a descobrir que, embora tenhamos perdido um ente querido, existe ainda uma missão a cumprir e não nos faz bem querer prolongar a tristeza, como se isto fosse uma homenagem.  Consola-nos saber que não se verifica a destruição total dos que morrem, e a fé assegura-nos que o Ressuscitado nunca nos abandonará (Sb 3, 2-3; Fl 1, 23; 1Cor 2, 9). Uma maneira de comunicarmos com os seres queridos que morreram é rezar por eles (2Mac 12, 44.45). Se aceitarmos a morte, podemos preparar-nos para ela. O caminho é crescer no amor para com aqueles que caminham conosco, até ao dia em que «não haverá mais morte, nem luto, nem pranto, nem dor» (Ap 21, 4). Quanto melhor vivermos nesta terra, tanto maior felicidade poderemos partilhar com os nossos entes queridos no céu.

Que preparação teve para o matrimônio? Ajudou-o? Como é que pode ser melhor? Como é que Francisco encoraja os casais a enfrentar as crises? Como é que lidou com as crises na sua família?

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