Carta do papa Francisco Amoris Laetitie – CapítuloIII

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CAPÍTULO III —

Diante das famílias e no meio delas, deve ressoar sempre de novo o primeiro anúncio que deve ocupar o centro da atividade evangelizadora. O nosso ensinamento sobre o matrimónio e a família não pode deixar de se inspirar e transfigurar à luz deste anúncio de amor e ternura, se não quiser tornar-se mera defesa duma doutrina fria e sem vida.


1-Jesus recupera e realiza plenamente o projeto divino. O matrimônio é um «dom» do Senhor (1Cor 7, 7): «Seja o matrimônio honrado por todos e imaculado o leito conjugal» (Hb 13, 4).Este dom de Deus inclui a sexualidade: «Não vos recuseis um ao outro» (1Cor 7, 5). Jesus, «ao referir-Se ao desígnio primordial sobre o casal humano, reafirma a união indissolúvel entre o homem e a mulher, mesmo admitindo que, “por causa da dureza do vosso coração, Moisés permitiu que repudiásseis as vossas mulheres; mas, no princípio, não foi assim” (Mt 19, 8). A indissolubilidade do matrimónio não se deve entender primariamente como “jugo” imposto aos homens, mas como um “dom” concedido às pessoas unidas em matrimônio.
A família e o matrimónio foram redimidos por Cristo (Ef 5, 21-32), restaurados à imagem da Santíssima Trindade, mistério donde brota todo o amor verdadeiro. O matrimônio e a família recebem de Cristo, através da Igreja, a graça necessária para testemunhar o amor de Deus e viver a vida de comunhão. O Evangelho da família atravessa a história do mundo (Gn 1, 26-27; Ap 19, 9). «A postura de Jesus é paradigmática para a Igreja (…). Ele inaugurou a sua vida pública num banquete de núpcias (Jo 2, 1-11).Compartilhou momentos diários de amizade com a família de Lázaro (Lc10, 38) e com a família de Pedro (Mt 8, 14). Escutou o pranto dos pais pelos seus filhos, restituindo-os à vida (Mc 5, 41; Lc 7, 14-15) e mostrando assim o verdadeiro significado da misericórdia.Vê-se isto claramente nos encontros com a mulher samaritana (Jo 4, 1-30) e com a adúltera (Jo 8, 1-11), nos quais a noção do pecado é avivada perante o amor gratuito de Jesus».
A encarnação do Verbo numa família humana, em Nazaré, comove com a sua novidade a história do mundo. Precisamos mergulhar no mistério do nascimento de Jesus, no sim de Maria ao anúncio do anjo, quando foi concebida a Palavra no seu seio; e ainda no sim de José, que deu o nome a Jesus e cuidou de Maria; na festa dos pastores no presépio; na adoração dos Magos; na fuga para o Egito e, aos demais acontecimentos inerentes a estes fatos da Encarnação até a vida pública de Jesus (Mt 1,18-3, 17; Lc, 2,1-2,52).A aliança de amor e fidelidade, vivida pela Sagrada Família de Nazaré, ilumina o princípio que dá forma a cada família e a torna capaz de enfrentar melhor as vicissitudes da vida e da história. Sobre este fundamento, cada família, mesmo na sua fragilidade, pode tornar-se uma luz na escuridão do mundo. Aprendamos de Nazaré como é preciosa e insubstituível a educação familiar e como é fundamental e incomparável a sua função no plano social.
2-A família nos documentos da Igreja. O Concílio Ecumênico Vaticano II ocupou-se, na Constituição pastoral Gaudium et spes, da promoção da dignidade do matrimónio e da família (nn. 47-52). «Definiu o matrimônio como comunidade de vida e amor e enraizada no Cristo Senhor; constitui uma igreja doméstica e manifesta o mistério da igreja (Lumen gentium, 11.59); na (Humanae vitae,10) destacou o vínculo intrínseco entre amor conjugal e procriação; Na Exortação apostólica Evangelii nuntiandi, Paulo VI salientou a relação entre a família e a Igreja; a Carta às famílias Gratissimam sane e a Exortação apostólica Familiaris consortio 13, definiu a família «caminho da Igreja» e propôs as linhas fundamentais para a pastoral da família e para a presença da família na sociedade. «Bento XVI, na Encíclica Deus caritas est, retomou o tema da verdade do amor entre o homem e a mulher, que se vê iluminado plenamente apenas à luz do amor de Cristo crucificado (n. 2), o modo de Deus amar torna-se a medida do amor humano”(n. 11).Além disso, na Encíclica Caritas in veritate, destaca a importância do amor como princípio de vida na sociedade (n. 44), lugar onde se aprende a experiência do bem comum».
3-O sacramento do matrimónio. A Sagrada Escritura e a Tradição abrem-nos o acesso a um conhecimento da Trindade que Se revela com traços familiares. A família é imagem de Deus, que (…) é comunhão de pessoas. O matrimônio e a família recebem de Cristo, através da Igreja, a graça para testemunhar o Evangelho do amor de Deus. O sacramento é um dom para a santificação e a salvação dos esposos, a lembrança permanente daquilo que aconteceu na cruz, a resposta vocacional ao chamado de Deus. Por isso, a decisão de se casar e formar uma família deve ser fruto dum discernimento vocacional. O dom recíproco constitutivo do matrimónio sacramental está enraizado na graça do batismo, que estabelece a aliança fundamental de cada pessoa com Cristo na Igreja. O matrimónio cristão é um sinal que não só indica quanto Cristo amou a sua Igreja na Aliança selada na Cruz, mas torna presente esse amor na comunhão dos esposos. Vivida de modo humano e santificada pelo sacramento, a união sexual é, por sua vez, caminho de crescimento na vida da graça para os esposos. O valor da união dos corpos está expresso nas palavras do consentimento, pelas quais se acolheram e doaram reciprocamente para partilhar a vida toda. No sacramento do matrimônio, segundo a tradição latina da Igreja, os ministros são o homem e a mulher que secasam, os quais, ao manifestar o seu consentimento e expressá-lo na sua entrega corpórea, recebem um grande dom. O seu consentimento e a união dos seus corpos são os instrumentos da ação divina que os torna uma só carne. Por isso, quando dois cônjuges não-cristãos recebem o batismo, não é necessário renovar a promessa nupcial sendo suficiente que não a rejeitem, pois, pelo batismo que recebem, essa união torna-se automaticamente sacramental. O próprio direito canônico reconhece a validade de alguns matrimônios que se celebram sem um ministro ordenado.
4-Sementes do Verbo e situações imperfeitas. Assumindo o ensinamento bíblico de que tudo foi criado por Cristo e para Cristo (Col 1, 16), os Padres sinodais lembraram que «a ordem da redenção ilumina e realiza a da criação. Assim, o matrimónio natural compreende-se plenamente à luz da sua realização sacramental: só fixando o olhar em Cristo é que se conhece cabalmente a verdade das relações humanas. O discernimento da presença dassemina Verbi nas outras culturas (cf. Ad gentes, 11) pode-se aplicar também à realidade matrimonial e familiar. Para além do verdadeiro matrimónio natural, há elementos positivos também nas formas matrimoniais doutras tradições religiosas,embora não faltem também as sombras. O olhar de Cristo, cuja luz ilumina todo o homem (Jo 1, 9; Gaudium et spes, 22), inspira o cuidado pastoral da Igrejapelos fiéis que simplesmente vivem juntos, que contraíram matrimónio apenas civil ou são divorciados que voltaram a casar. Na perspectiva da pedagogia divina, a Igreja olha com amor para aqueles que participam de modo imperfeito na vida dela: com eles, invoca a graça da conversão; encoraja-os a fazerem o bem, a cuidarem com amor um do outro e colocarem-se ao serviço da comunidade onde vivem e trabalham. (…) Quando a união alcança uma estabilidade notável por meio dum vínculo público – e se reveste de afeto profundo, responsabilidade pela prole, capacidade de superaras provações –, pode ser vista como uma oportunidade a encaminhar para o sacramento do matrimônio, sempre que este seja possível.
5-A transmissão da vida e a educação dos filhos. Também os esposos a quem Deus não concedeu a graça de ter filhos podem ter uma vida conjugal cheia de sentido, humana e cristãmente falando. Contudo, esta união está ordenada para a geração «por sua própria natureza». O bebê que chega «não vem de fora juntar-se ao amor mútuo dos esposos; surge no próprio coração deste dom mútuo, do qual é fruto e complemento». O filho pede para nascer, não de qualquer maneira, mas deste amor, porque ele «não é uma dívida, mas uma dádiva». A Igreja «apoia as famílias que acolhem, educam e rodeiam de carinho os filhos deficientes»; não posso deixar de afirmar que, se a família é o santuário da vida, o lugar onde a vida é gerada e cuidada, constitui uma contradição lancinante fazer dela o lugar onde a vida é negada e destruída. Os Padres quiseram sublinhar também que «um dos desafios fundamentais que as famílias enfrentam hoje é seguramente odesafio educativo, que se tornou ainda mais difícil e complexo por causa da realidade cultural atual e da grande influência dos meios de comunicação. Mas parece-me muito importante lembrar que a educação integral dos filhos é, simultaneamente, «dever gravíssimo» e «direito primário» dos pais. O Estado oferece um serviço educativo de maneira subsidiária, acompanhando a função não-delegável dos pais. A escola não substitui os pais; serve-lhes de complemento. A Igreja é chamada a colaborar, com uma ação pastoral adequada, para que os próprios pais possam cumprir a sua missão educativa.
6-A família e a Igreja. Com íntima alegria e profunda consolação, a Igreja olha para as famílias que permanecem fiéis aos ensinamentos do Evangelho, agradecendo-lhes pelo testemunho que dão e encorajando-as. Na família, “como numa igreja doméstica” (Lumen gentium, 11), amadurece a primeira experiência eclesial da comunhão entre as pessoas, na qual, por graça, se reflete o mistério da Santíssima Trindade. “É aqui que se aprende a tenacidade e a alegria no trabalho, o amor fraterno, o perdão generoso e sempre renovado, e sobretudo o culto divino, pela oração e pelo oferecimento da própria vida” (Catecismo da Igreja Católica, 1657).A Igreja é família de famílias, constantemente enriquecida pela vida de todas as igrejas domésticas. A salvaguarda deste dom sacramental do Senhor compete não só à família individual, mas a toda a comunidade cristã. A beleza do dom recíproco e gratuito, a alegria pela vida que nasce e a amorosa solicitude de todos os seus membros, desde os pequeninos aos idosos, são apenas alguns dos frutos que tornam única e insubstituível a resposta à vocação da família, tanto para a Igreja como para a sociedade inteira.

1. Considera que os ensinamentos de Jesus sobre a família são esperançosos, inspiradores, repletos de amor e ternura? 2. A linguagem dos documentos da Igreja comunica consigo? 3. Qual a sua opinião sobre a maneira como Francisco fala sobre «situações imperfeitas» e as «sementes do Verbo» noutras culturas? 4. Qual a sua opinião sobre a maneira como o papa escreve acerca da transmissão da vida e a educação das crianças? 5. Tem experimentado a Igreja como «família de famílias»?

Pe José Aparecido Santos

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