Antropologia Quaresmal

Há uma antropologia quaresmal presente nas práticas penitenciais da “oração, jejum e esmola” e só se podem entender estes ritos dentro do grande convite à conversão. Oração, jejum e esmola tocam o núcleo da pessoa humana: a oração se refere ao relacionamento com Deus; a esmola se refere ao relacionamento como próximo; o jejum se refere ao relacionamento com as coisas criadas. A harmonia nestes três âmbitos são reflexos da comunhão; já que “a libertação do pecado, fortalecida pela reconciliação com Deus, com o próximo e com a criação, permite aos cristãos chegar à verdadeira comunhão com seu Criador, que se tornou seu Salvador”, afirmam os teólogos da Comissão Teológica Internacional. Sendo assim os exercícios quaresmais são expressão externa da interioridade de modo que as práticas externas nos conduzem a conversão interior.

Toda a nossa vida deveria ser uma oração, ou seja, uma comunicação com o Divino em nós. A oração constitui uma abertura para Deus, para o próximo, para o mundo. É na oração que o homem melhor cultiva seu relacionamento de filho com Deus que é Pai.

Orando, a Igreja expressa profunda atitude de penitência, pois a oração é a expressão máxima de conversão. Da comunhão com Deus na oração o fiel passa à comunhão com os outros e a natureza. Aquele que tem fé manifesta pela oração sua obediência ao Pai.

O jejum atinge o relacionamento da pessoa humana com os bens criados na virtude da esperança. No seu relacionamento com a natureza criada, o homem é chamado a ser livre, a ser senhor da criação e não escravo das coisas. Através do rito do jejum, a Igreja convida aos fiéis a realizar um gesto de liberdade e de respeito em relação aos bens criados (por exemplo: economia do uso dos recursos naturais: água, alimento, até mesmo energia elétrica etc). O rito do jejum vale mais pelo que significa do que pelo que é. Na ação de comer e beber é que o homem mais se apodera e se apropria das coisas. Apoderando-se dela, às vezes, a ela se escraviza.

Jejuar é estabelecer o correto relacionamento do homem com a natureza criada. É atitude de liberdade e respeito diante do alimento e de tudo quanto envolve e pode escravizar o homem. Jejuar significa fazer espaço em si: fazer espaço para Deus (“não só de pão vive o homem”), fazer espaço para o próximo (“dá do teu pão ao que tem fome”).

O Jejum pode ramificar-se em diversas direções como: jejum da língua, jejum da visão (refere-se à TV, internet, celular etc.), jejum da audição, jejum como recolhimento, jejum como atenção para com quem me é difícil, jejum daquilo que me faz esquecer de Deus…

A esmola celebra o relacionamento do homem com seu próximo, na virtude teologal da caridade. Dar esmola significa dar de graça, dar sem interesse de receber de volta, dar sem egoísmo, sem pedir recompensa, em atitude de compaixão. Deus Criador e o Filho Redentor se definem como Aquele que se dá. Se Deus se dá de graça e se o homem é criado à imagem e semelhança de Deus, se Cristo se doou totalmente, dando sua vida, o cristão será capaz de dar e de doar-se gratuitamente também.

Quando, na quaresma, a Igreja convoca todos os fiéis a dar esmolas, ela convida os fiéis à atitude de abertura ao próximo. Convida os fiéis a servir o próximo com generosidade e desprendimento. Esta atitude de doação gratuita não compreende apenas bens materiais, mas o tempo, o interesse, as qualidades, o serviço, o acolhimento, a aceitação. E todo este mistério de abertura e gratuidade em favor do próximo imitando o Criador e Cristo passa pela linguagem ritual. Pelo gesto da esmola estamos comemorando a generosidade de Cristo que se doa aos irmãos e, tornamos Cristo presente em cada doação. Descobrimos, então, que no exercício da esmola está contida a atitude de conversão em relação ao próximo.

Em suma, a esmola manifesta a abertura de coração para o próximo; se traduz em disponibilidade, solidariedade para com o próximo. Oração é entrar em comunhão com Deus, como superação dos limites humanos e como projeção para o Absoluto; a oração me reorienta na relação com Deus. O jejum coloca-se no nível da relação do ser humano com as coisas; disciplina a relação com o cosmo, reorienta a relação com alimento; não é privação, mas organização.

Para ser santo é necessária uma relação coerente com o mundo (coisas materiais), com o outro e o Deus; tal relação é praticada de forma radical e pedagógica nas práticas quaresmais e deve ser vivida em sua eficácia (não como mera abstinência, mas durante todo o tempo afim de que o cristão se afirme como “Imagem de Deus”).

Padre Bruno Costa Ribeiro

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