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230º Jubileu: Deus armou sua tenda entre nós!

 

De 13 a 24 de junho acontece em Conceição do Mato Dentro, Diocese de Guanhães, o 230º Jubileu do Bom Jesus de Matozinhos. Novamente a colina onde está o Santuário estará coberta com centenas de barracas, tendas onde habitarão milhares de romeiros que acorrem anualmente ao Bom Jesus. As ruas estarão repletas de visitantes, vendedores ambulantes, barraqueiros… uma transformação total! O coração da Diocese passa a bater em Conceição; para ali acorrem padres e bispo com um só desejo: ajudar o povo de Deus a encontrar a Palavra, a Eucaristia, a Misericórdia… a Paz!

Essa festa que ultrapassa dois séculos faz-me lembrar a festa judaica de Sucót, a festa das Tendas ou dos Tabernáculos, que acontece em Tishrei, o sétimo mês do calendário hebreu, e está prevista no Levítico (23, 33-36.39-43). Durante oito dias nossos irmãos judeus saem de suas casas e passam a viver nas tendas construídas ao redor da moradia, recordando o tempo da longa travessia do deserto, ocasião em que habitavam em tendas pobres que mostravam o céu. Celebram também, em Sucót, a festa da colheita, e agradecem a Deus os frutos da terra, plantados e colhidos com seu trabalho; agradecem também pela água necessária nos campos, no uso doméstico e no bem-estar em geral. No fim dessa festa, como nos relata o evangelista João, o Bom Jesus disse à assembleia de fiéis: “Se alguém tem sede, venha a mim e beba; aquele que crê em mim, do seu interior brotarão rios de água viva” (Jo 7, 37-38).

Os romeiros do Bom Jesus, como os judeus na festa das Tendas (sucót), não celebram simplesmente, de maneira rotineira, uma festa do calendário litúrgico, mas colhem, durante as liturgias, as incontáveis bênçãos do céu que se abre sobre os peregrinos e transborda com grande fartura sobre cada um.

O Jubileu do Bom Jesus é a festa mais antiga da Diocese de Guanhães. Começou em 1787, com ordem do Papa Pio VI. Essa festa tem raiz bíblica (Lv 25, 11; Lc 4, 18), e trata-se de um tempo de perdão das dívidas, perdão dos pecados, redistribuição das terras, etc. Tempo de ação de graças!

Quando os judeus, na Festa das Tendas, saem de suas casas confortáveis e passam a residir na tenda, estão a exercitar a humildade, estão a relembrar o quanto a nossa morada na terra é passageira. Os romeiros do Bom Jesus nem sentem o desconforto das barracas, o desnível do chão, o frio, o trabalho que dá para tomar banho. Tudo isso é nada diante da alegria de rever os companheiros de jubileu e, sobretudo, a graça de estar aos pés do Bom Jesus e receber as bênçãos d’Ele.

Durante os oito dias da Festa de Sucót, as ruas de Jerusalém ficam mais iluminadas do que em dias normais. O comércio e todos os setores da cidade entram em clima de festa, na espera das copiosas bênçãos que hão de se derramar do Altíssimo. Durante os onze dias do jubileu do Bom Jesus, as ruas de Conceição do Mato, sobretudo as do entorno do Santuário, se transformam para acolher tanta gente, vinda de tantos lugares diferentes. No último dia, o dia da bênção solene do Jubileu, as incontáveis velas formam um mar de luzes na colina do santuário, feito um extraordinário pentecostes. O cheiro maravilhoso do incenso recorda a presença de Deus Misericordioso a abençoar seus filhos e filhas, lembrando-nos que Ele habitou entre nós. Deus realmente armou sua tenda entre nós (João 1, 1-18).

Pe. Ismar Dias de Matos, sacerdote diocesano, professor de Filosofia e Cultura Religiosa na PUC Minas, em Belo Horizonte. E-mail: p. ismar@pucminas.br

Corpo e Sangue de Cristo: Como surgiu.

“O maior homem do mundo é aquele que se coloca de joelhos diante do seu criador”

(Côn. Manuel)

A origem da Solenidade do Corpo e Sangue de Cristo remonta ao século XIII. Ela foi instituída pelo Papa Urbano IV com a Bula ‘Transiturus’ de 11 de agosto de 1264, para ser celebrada na quinta-feira após a Festa da Santíssima Trindade, que acontece no domingo depois de Pentecostes. Urbano IV foi o cônego Tiago Pantaleão de Troyes, arcediago do Cabido Diocesano de Liège na Bélgica, que recebeu o segredo das visões da freira agostiniana, Juliana de Mont Cornillon, que exigiam uma festa da Eucaristia no Ano Litúrgico. Juliana nasceu em Liège em 1192 e participava da paróquia Saint Martin. Com 14 anos, em 1206, entrou para o convento das agostinianas em Mont Cornillon, na periferia de Liège. Com 17 anos, em 1209, começou a ter ‘visões’, (que retratavam um disco lunar dentro do qual havia uma parte escura. Isto foi interpretado como sendo uma ausência de uma festa eucarística no calendário litúrgico para agradecer o sacramento da Eucaristia). Com 38 anos, em 1230, confidenciou esse segredo ao arcediago de Liège, que 31 anos depois, por três anos, será o Papa Urbano IV (1261-1264), e tornará mundial a Festa de Corpus Christi, pouco antes de morrer. Diante deste quadro o Conselho Episcopal Pastoral (Consep) da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) após refletir sobre a realidade do Brasil em sua última reunião, dias 30 e 31 de maio, está convidado a todos para um momento de oração pelo Brasil, a ser realizada em todas as comunidades, paróquias, dioceses e regionais do país, no dia 15 de junho, data em que a Igreja celebra o Corpus Christi.

A ‘Fête Dieu’ começou na paróquia de Saint Martin em Liège, em 1230, com autorização do arcediago para procissão eucarística só dentro da igreja, a fim de proclamar a gratidão a Deus pelo benefício da Eucaristia. Em 1247, aconteceu a 1ª procissão eucarística pelas ruas de Liège, já como festa da diocese. Depois se tornou festa nacional na Bélgica. A festa mundial de Corpus Christi foi decretada em 1264, 6 anos após a morte de irmã Juliana em 1258, com 66 anos. Santa Juliana de Mont Cornillon foi canonizada em 1599 pelo Papa Clemente VIII. O decreto de Urbano IV teve pouca repercussão, porque o Papa morreu em seguida. Mas se propagou por algumas igrejas, como na diocese de Colônia na Alemanha, onde Corpus Christi é celebrada antes de 1270. O ofício divino, seus hinos, a seqüência ‘Lauda Sion Salvatorem’ são de Santo Tomás de Aquino (1223-1274), que estudou em Colônia com Santo Alberto Magno. Corpus Christi tomou seu caráter universal definitivo, 50 anos depois de Urbano IV, a partir do século XIV, quando o Papa Clemente V, em 1313, confirmou a Bula de Urbano IV nas Constituições Clementinas do Corpus Júris, tornando a Festa da Eucaristia um dever canônico mundial. Em 1317, o Papa João XXII publicou esse Corpus Júris com o dever de levar a Eucaristia em procissão pelas vias públicas.

O Concílio de Trento (1545-1563), por causa dos protestantes, da Reforma de Lutero, dos que negavam a presença real de Cristo na Eucaristia, fortaleceu o decreto da instituição da Festa de Corpus Christi, obrigando o clero a realizar a Procissão Eucarística pelas ruas da cidade, como ação de graças pelo dom supremo da Eucaristia e como manifestação pública da fé na presença real de Cristo na Eucaristia. Em 1983, o novo Código de Direito Canônico – cânon 944 – mantém a obrigação de se manifestar ‘o testemunho público de veneração para com a Santíssima Eucaristia’ e ‘onde for possível, haja procissão pelas vias públicas’, mas os bispos escolham a melhor maneira de fazer isso, garantindo a participação do povo e a dignidade da manifestação. A Eucaristia é um dos sete sacramentos e foi instituído na Última Ceia, quando Jesus disse: ‘Este é o meu corpo…este é o meu sangue… Fazei isto em memória de mim’ (Lc 19,22). Porque a Eucaristia foi celebrada pela primeira vez na Quinta-Feira Santa. O Corpus Christi se celebra sempre numa quinta-feira após o domingo depois de Pentecostes. Com esta nossa pesquisa queremos demonstrar que o “maior homem do mundo é aquele que se coloca de joelhos diante do seu criador”. Quem conhece o repertório das canções, que evangelizam, do Pe. Zezinho encontra este pensamento, vale dizer: “por um pedaço de pão e um pouco de vinho”, que para nós cristãos é Jesus Cristo presente sob as aparências do pão e do vinho, com seu corpo, sangue, alma e divindade. São vários os textos bíblicos que testemunham a instituição da Eucaristia. Temos: Mt 26, 26-29; Mc 14,22-25; 1Cor 11, 23-26. A Igreja sentiu necessidade de realçar a presença real do “Cristo todo” no pão consagrado. Seja um apaixonado da Eucaristia. Pense nisso.

Côn. Dr. Manuel Quitério de Azevedo

Prof. do Seminário de Diamantina e PUC

Membro da Academia de Letras e Artes de Diamantina (ALAD)

Membra da Academia Marial de Aparecida – SP

 

 

 

O Dia Mundial das Comunicações: O pontilhado e contínuo da linguagem

 

“Palavras são como o pêndulo do relógio, sempre trazem um novo tempo”

(Côn. Manuel)

 

Tenho refletido nas palavras da Sagrada Escritura, a Bíblia, quando dizem: “Quando vos entregarem, não vos preocupeis em como ou o que falar” (Mt 10, 19) e ainda: “… não se preocupem com a forma pela qual se defenderão, ou o que dirão” (Lc 12,11-12) e, com segurança testemunha: “Permaneça em vós o que ouviste desde o princípio” (1Jo 2, 24). Ao ler o livro de Arcângelo R. Buzzi, Filosofia para Principiantes, deparei-me com este pensamento: “a linguagem sinaliza a realidade”. Acredito que aqui se concentra uma realidade que não é difícil se encontrar no nosso dia a dia. Ao decompor em suas partes a palavra sinalizar, observei que ela tem o objetivo de exercer a função de sinal. Comparando palavra e sinal, vi que, tanto uma como a outra, são necessárias ao ser humano. Andando por nossas estradas e ruas, vemos que existem, curvas e contracurvas, voltas e mais voltas. Na comunicação também é assim. Se devermos ter prudência nas estradas e ruas da vida, na comunicação não é diferente. Em qualquer estrada que transitamos, sempre encontramos a faixa contínua e a faixa pontilhada. A comunicação também tem estas faixas. A faixa continua diz que não devo ultrapassar, pois o perigo pode ser eminente. Quando falamos devemos ter em mente a faixa contínua. Não ofereça perigo para você e para os outros. Não ultrapasses acreditando que tudo vai dar certo. O perigo pode visitar sua consciência, sentimentos e coração. Quando pensamos que temos a maturidade da comunicação rodados na ‘quilometragem da vida’, cuidado, o perigo não escolhe seu ilustre visitante. Surpresas podem acontecer.

Nosso Arcebispo Metropolitano e Presidente da Comissão Episcopal Pastoral para a Comunicação de CNBB, Dom Darci José Nicioli, CSsR fez um pronunciamento / carta para motivar e bem celebrar com alegria o 51.º Dia Mundial das Comunicações. Diz Dom Darci José: “O Papa nos fala para comunicar a esperança e a confiança em nosso tempo. Eu sou filho de uma tradição da Vida Religiosa que tem as marcas de um intrépido comunicador do século 18, Santo Afonso Maria de Ligório. Ele era cuidadoso e considerava de fundamental importância a formação dos seus missionários. Formação humana e cristã. Eu creio que esse permanece sendo um ensinamento de grande valor: só conseguiremos comunicar a esperança se trouxemos uma expressão clara das razões mais profundas dessa mesma esperança! Por isso, nos cabe a tarefa, como comunicadores, de nos empenhar sempre, no estudo da Sagrada Escritura, do Magistério da Igreja e das belas expressões dos valores humanos presentes na literatura laica”.  Com voz profética o Arcebispo de Diamantina assegura: “O painel diário montado pelas Grande Mídia, agora ampliado pelas Redes Sociais, nos leva a crer, facilmente, que no mundo só existem canalhas, ladrões, pilantras e hipócritas. A realidade não é esta. Precisamos denunciar essa fraude. Há uma riqueza humana enorme e majoritária sendo vilipendiada pela Mídia e quase ignorada nas principais manchetes … nós, comunicadores, precisamos prestar mais atenção nessas pessoas de bem ainda que não tenhamos delas declarações bombásticas e nem gestos de celebridades”.

Eis, pois, que nossa exposição quer visibilizar a faixa pontilhada legalizada na ultrapassagem da comunicação. É uma analogia, mas vale. Tenho visibilidade e, conseqüentemente, posso chegar ao destino do que quero comunicar. Quem já não ouviu a ‘celebre’ frase: “tenho que dirigir para mim e para os outros”. E eu. Será que inspiro toda a confiança ao outro? Nenhum motorista tem confiança no outro. Por quê? O que o outro tem de tão inteligente ou de perigo que me faz estar de alerta na confiança e na prudência? O outro também pensa isto de mim? Pois é. Quando comunicamos, nossa linguagem ‘pontilhada’, oferece condições para expressarmos nossas vontades. Mas, quem está na minha frente? Até com esta dose de liberdade, preciso ter prudência. Por que as coisas têm de ser assim? Será que a comunicação não está em suas mãos? Isto pode ser visto nas seguintes pessoas: as de estopim curto; as que não levam desaforo para casa e, sobretudo, as que sempre querem ter razão. A linguagem destas pessoas, a qualquer hora, pode ser contínua e pontilhada. Cuidado!

Quem já não encontrou buracos na estrada e, automaticamente, desvia a direção com a finalidade de evitar um acidente de menor ou maior proporção? Por muito eficazes que sejam os sinais, os buracos atestam mais nossa capacidade de dirigir e, como consequência, nossa atenção. Os (as) fofoqueiros (as) da vida são como as estradas com buracos. São o perigo sempre vigente. A ilustre e solene vibração com que passam um comentário, uma notícia, um acontecimento ou um fato, com a seriedade de seus conhecimentos, vislumbra a inteligência e sua astúcia. Frases, como estas, identificam estas pessoas: “estou passando as coisas como eu ouvi”; “não estou acrescentando nada”; “a pessoa que me contou é de confiança” e… tantas outras frases. Cuidado! Não atrase a viagem de sua vida ouvindo estas pessoas. Elas gostam de ver o “pneu” furado nos outros. O desejo delas é chegar primeiro, nem que para isso tenham que pisar quem lhes rodeia. Aconselho. Ame sua consciência. Seja fiel aos seus sentimentos, respeite seu coração. Sinalize sua comunicação. Pense nisso.

 

Côn. Dr. Manuel Quitério de Azevedo

Prof.º do Seminário de Diamantina e da PUC-MG

Membro da Academia de Letras e Artes de Diamantina – (ALAD).

Membro da Academia Marial – SP

 

Conselho de leigos e leigas?

“O que faz? O que faz? O que é? Quem pode participar?”

Leigos e leigas formam a grande parcela de cristãos que são chamados a viver a missão da Igreja na família e no meio do mundo. É para aprofundar sua vocação e missão na Igreja que lhe é destinada e também para entender melhor a sua identidade, o que é ser leigo, que os cristãos leigos e leigas se organizam em Conselho.

Os Conselhos de Leigos são organismos que buscam integrar os leigos e leigas dos movimentos, das pastorais, associações, inclusive os leigos e leigas que integram a organismos eclesiais (Políticos, profissionais liberais, intelectuais), daqueles que vivem sua vida comunitária numa paróquia ou comunidade, e dos que vivem sua fé cristã inseridos nas atividades da sociedade.

Os Conselhos de Leigos devem constituir-se como “sinal de comunhão e unidade”, “espaço de serviço”. Portanto, já na sua criação deve-se ter presente a importância do “acolhimento” a todos os segmentos leigos. Os Conselhos de leigos devem ser espaço para se trabalhar nossas diferenças, na busca do que temos em comum para o benefício de toda a Igreja.

A criação de um Conselho de Leigos e Leigas se dá de diversas formas, seja pela iniciativa do bispo diocesano, ou ainda pela disposição dos próprios leigos e leigas, que sentem a necessidade de se articularem para assim cumprir com mais eficácia sua missão batismal.  Fonte: CNLB – Conselho Nacional do Laicato do Brasil.

Na Diocese de Guanhães, a iniciativa de se articular a criação do CONSELHO DIOCESANO DE LEIGOS partiu de dom Jeremias Antônio de Jesus, bispo diocesano.

De 21 a 23 de abril próximo, leigos e leigas da diocese participarão da Assembleia Geral Ordinária, convocada pela presidência do CNLB-Regional Leste II, em Teófilo Otoni. A Assembleia e Encontro têm como tema “Leigos e Leigas nos tempos de Francisco” e o lema “Somos chamados a cuidar da Casa Comum” e possuem os seguintes objetivos: a) Celebrar a caminhada do CNLB Regional Leste II e; b) Aprofundar o estudo e propor formas de atuação na Igreja e na sociedade dentro da perspectiva da Ecologia integral: as relações com Deus, com o próximo e com a Terra.

(Continua nas próximas edições)

Equipe de Articulação para a criação do Conselho Diocesano dos Leigos da Diocese de Guanhães.

O culto de hiperdulia a Maria: O mês de Maio

“Eis aí a tua Mãe”

(Jo 19, 26)

 

Toda a Mariologia procede de um princípio fundamental baseado na Sagrada Escritura. O gesto mediante o qual Cristo confiou o discípulo à mãe e a mãe ao discípulo (Jo 19, 25-27) determinou uma relação estreitíssima entre Maria e a Igreja. A devoção e o culto mariano é um abandona-se aos planos de Deus, em Cristo, numa posição expressiva que indica relação com Maria. Por isso, a Igreja lhe dedica um culto todo especial, o da hiperdulia. A devoção a Maria favorece “a união imediata dos crentes com Cristo, ajudando a revelar, num certo modo, as supremas verdades da fé” (Lc 2, 19). A Igreja sempre nos ensinou que o culto que prestamos a Maria é um culto especial de veneração, hiperdulia. Sabemos que somente Deus é digno de culto e, somente a Ele são devidas as homenagens do homem e da mulher, como no-lo afirma São Paulo: “Só a Deus imortal, invisível e único sejam dadas honra e glória para todo o sempre. Amém” (1Tm 1,17). Todavia em homenagem ao mesmo Deus, honramos também os seus amigos mais queridos como os anjos e os santos. A esses, nós tributamos um culto de afetuosa servidão e devoção. Tal culto é chamado dulia, ou seja, simples serviço e veneração. É um testemunho da excelência dos santos, vale dizer, favor, serviço, benevolência, que lhes prestamos. Maria é “espelho” na qual se espelham de modo mais límpido “as grandes obras de Deus” (At 2,11). Daqui podemos entender que Maria, desde a sua adesão ao projeto de Deus, abraçou a obra do Filho e vem, insistentemente, derramando sobre a Igreja sua proteção maternal. Tanto Paulo como os evangelistas, procuram evidenciar a pessoa de Maria, não obstante o espaço a Ela dedicado.

Maria está presente nos momentos decisivos da vida de Jesus, desde a Encarnação até o da cruz. A função salvífica da sua maternidade divina e a santificação pessoal em Maria coincidem perfeitamente, de modo tal que a figura de Maria, em chave teológica, pode ser plenamente resumida na fórmula: Maria é a redimida de modo mais perfeito. Neste sentido, Maria na Igreja é venerada com um culto especialíssimo e mais solene do que se presta aos anjos e santos. É um culto de amorosa e filial reverência, que Jesus mesmo lhe prestou, por primeiro, aqui na terra, como no-lo afirma o evangelista Lucas: “Jesus voltou com José e Maria para Nazaré e lhes obedecia em tudo. Sua Mãe guardava todas as suas palavras em seu coração” (Lc 2,51). Através dos séculos, a Igreja, com amor sempre crescente, continuou a prestar-lhe esse culto que chamamos de hiperdulia, ou seja, de serviço e veneração preferencial. Desta proposição se deduzem os demais títulos marianos. Desde remota época a Igreja professa que Maria é sempre virgem. Esta verdade pertence ao patrimônio da fé. A Igreja, ao celebrar os mistérios da redenção, venera os santos, pela sua participação no mistério de Cristo. Entre estes santos sobressai de maneira única Maria, a Mãe de Deus e Nossa, pela direta ligação que tem com Jesus Cristo, seu Filho. Por isso, a dimensão do culto de hiperdulia na Igreja existe em virtude do lugar singular que a Virgem ocupa no coração dos cristãos.  Além dos cultos de dulia e hiperdulia, temos o de Latria, que compete unicamente a Deus e que se manifesta, principalmente, no reconhecimento de Deus como Supremo Senhor, em atos de adoração e no sacrifício.

Com esta explicação é fácil entender o culto a Maria no mês de maio. Esta nossa devoção, aliás, muito brasileira, consagrou, desde antigos tempos, o mês de maio ao culto a Nossa Senhora, Mãe da Igreja. Esta prática de devoção sempre foi motivo para muita gente se aproximar de Deus. Em nossas paróquias vemos grupos de vizinhos que se juntam para rezar o terço. Como é bonita esta devoção. Com esta prática religiosa vemos com clareza o que diz Pe. Zezinho: “Quem está perto de Maria, nunca está longe de Jesus”. Nos estudos e reuniões de grupo, hoje tão em voga nas paróquias, não se poderia aproveitar o mês de maio para estudar, conhecer e imitar Nossa Senhora? Enfim, não se pode omitir a tradicional e consagrada prática do Rosário de Nossa Senhora, oração popular que convém a todos e sempre recomendada pelos Papas. No término desta reflexão, gostaria de fazer uma referência toda particular à coroação de Nossa Senhora. É costume em muitos lugares fazer o encerramento do mês de maio com a festa da Coroação de Nossa Senhora. Nossas paróquias conservam esta tradição com muito esmero e carinho. O que vemos é uma homenagem singela, muito querida das crianças, que em procissão cantam, levam flores e expressam sua gratidão pelo amor materno de Maria. Podemos aprender com as crianças. Que nossas homenagens a Maria sejam sempre formas de culto de veneração a Maria. Que nossas procissões, ladainhas, novenas e coroações procurem inserir Maria Santíssima no mistério de Cristo e da Igreja. Maria é a chave para captar o sentido das coisas de Deus. Através do SIM de Maria à proposta divina de se humanizar, a ligou definitivamente a toda a humanidade. Maria faz parte do patrimônio da Revelação. Pense nisso.

 

Côn. Dr. Manuel Quitério de Azevedo

Prof.º do Seminário de Diamantina e da PUC-MG

Membro da Academia de Letras e Artes de Diamantina – (ALAD).

Membro da Academia Marial – SP

 

As Reformas e os Direitos Sociais dos Trabalhadores no Brasil

 

Nesta semana comemoramos o Dia Internacional do Trabalhador, data que teve origem em um grande movimento de trabalhadores na cidade de Chicago, nos EUA, por melhores condições de trabalho no ano de 1886, fato que resultou na morte de dezenas de manifestantes. Desde então, o 1° de maio se internacionalizou como a data em que se rememoram as diversas lutas da classe trabalhadora pelo mundo.

Este ano, em especial, o Dia do Trabalhador no Brasil tem um significado maior, pois, estamos diante de um dos momentos mais críticos de nossa História no que se refere às ameaças de perdas significativas dos direitos sociais dos trabalhadores. A aprovação da Lei da Terceirização, juntamente com a aceleração dos projetos de Reformas das Leis Trabalhistas e Previdenciária, significa um duro golpe em conquistas históricas da classe trabalhadora deste país. Estas Reformas significam perdas reais de garantias legais, ao mesmo tempo em que deixaram os trabalhadores expostos à queda no rendimento salarial e desassistidos em momentos de maior vulnerabilidade.

A justificativa encontrada pelo atual governo ao promover essa usurpação dos direitos dos trabalhadores está na tão propagandeada crise. Sobre o pretexto da geração de empregos e do aumento da confiança dos investidores estão passando como um rolo compressor num acordo direto entre o executivo e o Congresso Nacional, ignorando por completo a sociedade brasileira. Pesquisa divulgada pelo Datafolha indica que 70% dos brasileiros são contra as reformas da maneira que estão apresentadas, portanto, algumas perguntas nos vêm: a quem interessa estas Reformas sem debate com a sociedade? Que garantias temos que com elas teremos geração de emprego? Qual a parte de sacrifícios da elite?

Para respondê-las não precisamos ser grandes conhecedores de economia e de algum outro conhecimento acadêmico, sabemos que quem pagará mais uma vez serão os pobres deste país. Enquanto na Reforma da Previdência não se toca nas anistias de dívidas e desonerações fiscais das grandes empresas, se impõe 49 anos de contribuição para um trabalhador ter integralidade ao benefício, ou a um trabalhador rural a idade mínima de 65 anos. Na mesma proporção, a Reforma Trabalhista coloca os acordos patronais com empregados acima da CLT, como se a relação Capital-Trabalho fosse simples e consensual em nosso país.

Diante do exposto, mostra-se necessária a mobilização popular na luta pela permanência e ampliação dos direitos da classe trabalhadora. A sociedade não pode ser deixada de lado destas proposições de reformas que afetarão diretamente o futuro dos mais carentes no Brasil. Várias instituições como OAB, a Igreja Católica, Tribunais de Justiça, têm levantado o debate e se posicionado contra as Reformas. Busque se informar e participe ativamente deste importante momento da História dos Direitos Sociais no Brasil.

 

Flávio Puff

Professor de História

IFMG/Campus São João Evangelista

FOI QUANDO A MÚSICA FEZ HISTÓRIA

Abril de 2012: 63 bandas inscritas. 72 músicas vindas de muitos lugares do estado de Minas Gerais e de alguns locais do país. Novembro de 2013: 39 bandas inscreveram 52 canções. E, de novo, chegavam a Guanhães músicas de muitos lugares. Agosto de 2014: Surpreendentes 28 bandas acompanhadas de 33 músicas. Agosto de 2015: 27 bandas compuseram o quadro geral. 35 músicas foram compostas cuidadosamente por músicos de várias regiões de MG. Julho de 2016: 19 bandas trouxeram 27 presentes. Cada um foi cuidadosamente aberto. Cada presente-música nos enchia da certeza de que o Festival da Música Cristã é o maior exemplo da bondade de Deus.

Perdoem-me os mais “durões”. Os números acima contam uma história de amor, de coragem, de perseverança. O sonho de ouvir a música cristã entoando, sem barreiras, por todos os cantos da cidade de Guanhães. Tudo bem! Vou contar como esse sonho surgiu. Quem o plantou, regou, cuidou, fez até vigília para não permitir que alguma erva daninha sufocasse o florescer contínuo. A história do Festival da Música Cristã se mistura à vida do Padre Saint-Clair, Padre Adão Soares, Célio Augusto, Edneia Pereira, Fabiana Martins, Luís Carlos, Mariza Pimenta, Marina Carvalho, Meire Ane Caldeira, Robertinho Zier, Sidimar, Taisson Bicalho… Você pode me perguntar: “Não é injusto, Luís, citar nomes”? Respondo: “Não, não é”. Essas pessoas aqui citadas transformaram o sonho do padre Saint-Clair de realizar um festival só com músicas cristãs uma realidade.

Meu Deus! Quantos músicos já passaram pelos palcos da Música Cristã?! Quantas pessoas conhecemos ao longo desses seis anos?! Quantas vezes estávamos ansiosos, na madrugada, aguardando resultados? Como já nos alegramos com cada conquista?! Já até choramos quando bandas foram desclassificadas! Ninguém sabe disto: todas as músicas cantadas ali contam a história de fé, de relação com Deus, de redenção vivida pelos músicos e cantores.

No palco da Música Cristã passam testemunhos de fidelidade a Cristo e comunhão com a Igreja. Ah! E não estamos nos referindo apenas aos cristãos católicos. Evangélicos (neo)pentecostais e protestantes comungam conosco da mesma fé religiosa. O Festival da Música Cristã constitui a celebração anual da fé fora das igrejas. Nosso maior objetivo é promover a comunhão por meio da arte. E temos conseguido. Ou melhor. Opa! Opa! Deus tem nos proporcionado, porque é Ele quem permite a realização de tudo (eu creio), dar testemunho de tão sublime ato de amor.

Peço desculpas aos que leem este texto. Vocês não podem exigir de mim coerência textual. O que descrevo/escrevo são memórias. Como não se lembrar do padre José Adriano cantando: “Hei!, cantai ao Senhor um cântico novo…” Todo mundo se lembra dessa linda composição do Padre Zé, não é? Como não se lembrar da presença marcante do padre Dilton Maria Pinto e do Fernando Araújo? Nesse percurso, os dois anunciaram 176 bandas mais 219 músicas que incendiaram, emocionaram, resgataram esperanças, confirmaram a certeza do amor de Deus por todos nós!

Estamos mais uma vez nos preparando para o Festival da Música. 2017 marca o 6º ano deste evento promovido pela Pastoral da Comunicação (Pascom) da Diocese de Guanhães.. Sozinha a Pascom nunca esteve. Os apoios foram muitos. A Rádio Vida Nova FM, com presença constante dos profissionais da emissora, anuncia o Festival para milhares de pessoas em todos esses anos. Sempre recebemos o apoio da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil no Regional Leste 2 (CNBB Leste 2). Já recebemos apoio de rádios da região, da Associação Comercial e Empresarial de Guanhães (Acig), da Gráfica Candonga, das paróquias da Diocese etc.

Como temos feito nesses anos, pedimos a dom Jeremias Antônio de Jesus, bispo diocesano e apoio incondicional do Festival, a bênção de Deus sobre todos os participantes deste evento. Nossa fé afirma que o Senhor Jesus está conosco e que o Espírito Santo garante a comunhão entre os filhos e filhas do Pai.

O 6º Festival da Música Cristã ocorrerá entre os dias 28 e 29 de julho, no pátio da igreja catedral, em Guanhães. Não deixe para a última hora. Realize as inscrições. Venha cantar conosco!

Acesse o site www.festivaldamusicacrista.com.br para mais informações.

Fraternalmente,

Luís Carlos Pinto

 

A festa da misericórdia de Deus. Uma reflexão

 

“A paciência de Deus é a sua misericórdia”.

(Papa Francisco)

 

A festa da Divina Misericórdia se celebra no Segundo Domingo da Páscoa, no tempo solene que se segue ao Tríduo Pascal. Este culmina com o último dia da oitava da Páscoa, ao abrir-se ao amor e louvor da misericórdia divina. Sua Festa, na Igreja, quer exteriorizar a espiritualidade de sua divina misericórdia. Sua instituição aconteceu no Jubileu do ano 2000, quando o então Papa e, hoje, São João Paulo II, ao canonizar Santa Faustina, declarou: “de agora em diante na Igreja inteira tomará o nome de Domingo da Divina Misericórdia” (30.04.2000). A liturgia deste Domingo nos consola ao proclamar: “Dai graças ao Senhor, porque Ele é bom!‘Eterna é a sua misericórdia!’ (…) Este é o dia que o Senhor fez para nós, alegremo-nos e nele exultemos!” (Sl 118, 1.24). Por isso, sempre me fizeram pensar a palavras da carta aos Hebreus, ao proferirem: “Cheguemo-nos, pois, com confiança ao trono da graça, para que recebamos misericórdia e achemos graça, a fim de sermos socorridos no momento oportuno (Heb 4,16). Pedro afirma: “Pense na paciência do Senhor, como sua oportunidade de ser salvo”. (2 Ped 3, 15). O Salmo 103: 8, 10-14 é direto: “Compassivo e piedoso é o Senhor, lento para a cólera e abundante em amor, não nos trata segundo nossas iniqüidades”. (…) “Pois quanto o céu está elevado acima da terra, assim é grande o seu amor para com os que o temem; pois ele conhece a nossa estrutura, e se lembra de que somos pó”. A misericórdia sempre nos leva a reencontrar nossa dignidade. Só a misericórdia de Deus salva e perdoa. Veja o que diz Pe. Sopocho: “Um fator decisivo para a obtenção da misericórdia Divina é a confiança em Deus, sem hesitações nem fraquezas”.

A Sagrada Escritura tem as orientações necessárias a quem quer vivenciar e acolher a misericórdia de Deus. São muitas as parábolas, episódios e narrações que nos levam a pensar que o Pai sempre quer fazer a festa e jamais a história do pecado (Lc 15, 11 – 32). Eis a razão de recorrermos à misericórdia de Deus. A misericórdia não quer exaltar o pecado, mas quer festejar o retorno ao coração do Pai (Lc 15, 11-32).  Já nos diz Santa Tereza d’Ávila: “Uma prova de que Deus esteja conosco não é o fato de que não venhamos a cair, mas que nos levantemos depois de cada queda”. O pecado nos deixa sem rumo e até perplexos. Ficamos perdidos em nossa existência humana e cristã. Desequilibramos-nos perante a consciência e os sentimentos. Tudo o que fazemos parece não dar certo. O pecado se delícia em nos ver abatidos, tristes, inertes e, sobretudo, vazios em nossa personalidade, caráter e maneira e ser. O pecado é como a laranja lima, doce no começo, amargo no final. Lembre-se que nem sempre o relógio da vida te presenteia com a hora certa. O pecado te confunde com os minutos fazendo deles horas inteiras de arrependimento. As trila o pecado sempre nos leva a caminhos de amargura e tristeza. Lembremo-nos de Pedro (Mc 14, 66s; Lc 22, 54s; Jo 18, 15s). O pecado é como um tsunami arrasa a consciência, destrói a paz e deixa-nos num beco sem saída. Quem teima a ficar no pecado se fere e a qualquer hora pode ferir os outros. O Papa emérito Bento XVI nos alerta: “O pecado é sempre uma ‘droga’, mentira de falsa felicidade”. E ainda: “Sem orientação à verdade toda a cultura se desfaz, decai no relativismo e se perde no efêmero”. Por isso, temos O Sacramento da Reconciliação que sempre nos atualiza com Deus e conosco.

Uma atenta leitura da parábola da moeda perdia, abre o sentimento e clareia a misericórdia e (Lc 15, 8-10). É o sentido do prejuízo. Não existe nada pior do que ver o que conquistamos com tanto amor ser extraviado. A parábola fala de uma simples moeda. Isso demonstra que não é o muito que causa o desgosto, mas o dano que fazemos quando perdemos algo de precioso em nós. Uma palavra, telefonema, ofensa, desconfiança, traição… entre outros, podem trazer danos que para supri-los precisamos acender uma lâmpada, varrer a casa e procurar com cuidado até nos encontrar (Lc 15, 8). A lâmpada e o varrer nada mais é do que a misericórdia de Deus. São João Paulo II nos alerta: “Jesus é novidade de vida para quem abre o coração e, reconhecendo o próprio pecado, acolhe a sua misericórdia que salva”.  O Papa Francisco logo no inicio do seu Pontificado, disse: “Deus jamais se cansa de nos perdoar. Nós é que nos cansamos de pedir perdão”. “A paciência de Deus é a sua misericórdia”. O pecado gosta de nos ver na cruz. Não te esqueças que Jesus já morreu uma vez por todas na cruz e lá estava o meu e o teu pecado. Nunca te sintas abandonado. Você com Deus é maior do que o pecado. Os santos nos estimulam. Santo Afonso de Ligório, declara: “Deus é fácil e pródigo em usar de sua misericórdia para com todos e em  todos os tempos”. Santo Antônio de Lisboa, testemunha: “Misericordioso é aquele que tem compaixão da miséria alheia”. Santa Faustina, abre o coração e a mente da gente ao dizer: “Ó Jesus, o abismo da Vossa misericórdia derramou-se na minha alma, que é apenas o abismo da miséria”. Fazendo referência ao cardeal Walter Kasper, o Papa Francisco atesta: “A misericórdia muda tudo; torna o mundo menos frio e mais justo”. Recorra sempre à misericórdia de Deus. Diga a todo o momento: “Cantarei eternamente as misericórdias do Senhor” (Sl 89, 2). Pense nisso.

 

Côn. Dr. Manuel Quitério de Azevedo

Prof.º do Seminário de Diamantina e da PUC-MG

Membro da Academia de Letras e Artes de Diamantina – (ALAD).

Membro da Academia Marial – SP

Depois da Semana Santa: A Páscoa, a Eucaristia e a Ressurreição “Quem vive a Páscoa, ama a Eucaristia e anuncia Jesus Ressuscitado”

 

A riqueza espiritual da Semana Santa dentro das celebrações litúrgicas da Igreja, neste Ano Mariano, tem seu centro em Cristo. Cada ano se busca um novo vigor para revitalizar a vida dos cristãos para que permaneçam e caminhem no seguimento de Jesus (DA, cap 6). Todos vivem uma espiritualidade adentrando nos Evangelhos, vivendo as verdades da fé e o grande caminho para chegar ao Domingo de Páscoa. Cada um do seu jeito esforça-se para viver com gestos, palavras, oportunidades o que a humanidade jamais viu, os mistérios da Paixão Morte e Ressurreição de Jesus (Jo 18; 19; 20 e 21). Por isso, tenho pensado nas palavras de Jesus quando disse aos discípulos: “Desejei ardentemente celebrar esta Páscoa convosco” (Lc 22, 15). O Papa Emérito Bento XVI, comentando estas palavras nos diz: “Jesus inaugurou a celebração do seu último banquete e da instituição da sagrada Eucaristia. Jesus foi ao encontro daquela hora, desejando-a. No seu íntimo, esperou aquele momento em que haveria de dar-Se aos seus sob as espécies do pão e do vinho. Esperou aquele momento que deveria ser, de algum modo, as verdadeiras núpcias messiânicas: a transformação dos dons desta terra e o fazer-Se um só com os seus, para os transformar e inaugurar assim a transformação do mundo. A partir de Lucas e sobretudo de João, sabemos que Jesus, na sua oração durante a Última Ceia, dirigiu também súplicas ao Pai – súplicas que, ao mesmo tempo, contêm apelos aos seus discípulos de então e de todos os tempos”.

O Papa Francisco na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium diz: “A alegria do Evangelho, que enche a vida da comunidade dos discípulos, é missionária (n.º21). Por isso, na Páscoa, o grande Aleluia, que vivemos, precisa ser alimentado na fé e atuar no amor (Gl 5, 6). A palavra Aleluia na sua etimologia quer nos anunciar o grande cântico de alegria e louvor, freqüente nos salmos, adotado pela Igreja na liturgia, no tempo da Páscoa. É a grande expressão do sentimento de felicidade, culminando com a vitória de Jesus, sua Ressurreição (Lc 24, 1ss; Jo 20 1ss). Assim, caminhamos para o grande dia, o primeiro da semana, onde vemos o alvorecer deste cântico de louvor (Jo 20, 1). Como Batizados remamos com nossos barcos lançando as redes mar adentro, desejando comunicar o amor do Pai que está no céu e a alegria de sermos cristãos, para que proclamemos com audácia Jesus Cristo a serviço de uma vida em plenitude para nossos povos, mormente, os que nos foram confiados. Com as palavras dos discípulos de Emaús e com a oração do Papa Emérito Bento XVI em seu discurso inaugural do Documento de Aparecida digamos sempre com uma prece dirigida a Jesus Cristo: “Fica conosco porque é tarde e o dia declina” (Lc 24,29). A Páscoa a Eucaristia e a Ressurreição do Senhor oferecem a nós estas palavras todos os dias. Quem vive a Páscoa, ama a Eucaristia e anuncia Jesus Ressuscitado. Assim, teremos luz, voz, perfume, alimento. Jesus deu-nos esta oportunidade de estar conosco. Nas operantes palavras do São João Paulo II chegamos ao coração dessas palavras: “Embora possa parecer escuro o horizonte da humanidade, celebramos o triunfo esplendoroso da alegria pascal. Se um vento contrário dificulta o caminho dos povos, se o mar da história se torna borrascoso, ninguém deve ceder ao pavor nem ao desânimo. Que vençam os pensamentos de paz!”. Nunca desanimemos. Jamais olhe para baixo e para trás.

A Páscoa a Eucaristia e a Ressurreição do Senhor contêm todos os elementos seguros e autênticos para olharmos para frente, mesmo que as intempéries da vida nos desafiem. O Papa Emérito Bento XVI ao falar de Pedro nos diz: “Todos os seres humanos, à exceção de Maria, têm continuamente necessidade de conversão. Jesus prediz a Pedro a sua queda e a sua conversão. De que é que Pedro teve de converter-se? No início do seu chamamento, assombrado com o poder divino do Senhor e com a sua própria miséria, Pedro dissera: ‘Senhor, afasta-Te de mim, que eu sou um homem pecador’ (Lc 5, 8). Na luz do Senhor, reconhece a sua insuficiência. Precisamente deste modo, com a humildade de quem sabe que é pecador, é que Pedro é chamado. Ele deve reencontrar sem cessar esta humildade. Perto de Cesareia de Filipe, Pedro não quisera aceitar que Jesus tivesse de sofrer e ser crucificado: não era conciliável com a sua imagem de Deus e do Messias. No Cenáculo, não quis aceitar que Jesus lhe lavasse os pés: não se adequava à sua imagem da dignidade do Mestre. No horto das oliveiras, feriu com a espada; queria demonstrar a sua coragem. Mas, diante de uma serva, afirmou que não conhecia Jesus. Naquele momento, isto parecia-lhe uma pequena mentira, para poder permanecer perto de Jesus”. Se Pedro passou por tudo isso, imaginemos nós. São João Paulo II nos assegura: “Não tenhas medo de tuas fraquezas nem dos mistérios de Deus”. “Santo não é só aquele que cai, mas aquele que nunca desiste de se levantar”. Ame a Páscoa e a Eucaristia e serás um anunciador de Jesus Ressuscitado. Pense nisso.

 

Côn. Dr. Manuel Quitério de Azevedo

Professor do Seminário de Diamantina e da PUC – MG

Membro da Academia de Letras e Artes de Diamantina – MG

Membro da Academia Marial – Aparecida – SP

 

 

“Que a vivência da Ressurreição nos ressuscite e nos fortaleça em nosso compromisso com as pessoas empobrecidas e perseguidas. Somos chamados à vida plena!”

Estamos vivenciando o mistério de um Deus, que “renunciou ao direito de ser tratado como Deus. Pelo contrário, esvaziou-se a si mesmo e tomou a forma de servo… rebaixou-se a si mesmo, fazendo-se obediente até a morte, e morte de cruz. Por isso Deus o elevou ao posto mais alto” (Fl 2,6-9a). A paixão de Cristo continua acontecendo na vida dos pobres do mundo inteiro, que são vilipendiados pelos imperialismos. Que a solidariedade de Deus, por meio de Jesus Cristo, nos inspire a sermos solidários com todas as pessoas que sofrem, em especial com as/os cristãs/aos que sofrem perseguição em cerca de 50 países, atingindo, segundo a ONU, 250 milhões; cerca de 90 mil cristãos já foram mortos por não renegarem a sua fé. Mas, a força da vida é maior do que morte e ressurge, mesmo nas adversidades e com mínimas condições. Que a vivência da Ressurreição nos ressuscite e nos fortaleza em nosso compromisso com as pessoas empobrecidas e perseguidas. Somos chamados à vida plena!

 Sexta feira da Paixão
  Maria Antônia Marques

Fé e Política

 

O título deste artigo nos remete a relação entre duas esferas da ação humana que sempre geraram muitas controvérsias ao longo da História. Na defesa da Fé e do poder Político muitas guerras já foram realizadas ao longo dos tempos, entre elas as Cruzadas Medievais, a Revolução Gloriosa, na Inglaterra, a Guerra entre Israel e Palestina, entre outras.

No Brasil dos dias atuais estamos longe de viver uma guerra em decorrência de questões religiosas, mas nem por isso o tema não tem causado debates acirrados. Isso porque temos vivenciado cada vez mais a presença de políticos eleitos a partir do apoio explícito de grupos ou Igrejas cristãs.

Tal situação nos leva a alguns questionamentos…

Como a Igreja e seus fiéis devem vivenciar a prática política? Quais os limites das instituições religiosas no que tange a participação na política partidária? O Cristão deve se envolver com a Política? Como fundamentar a partir da Bíblia a ação política nos dias de hoje?

Estas e muitas outras perguntas em algum momento da nossa caminhada de Fé inquietaram-nos e nos fizeram refletir sobre o caminho a seguir. Em tempos, nos quais diversos seguimentos religiosos financiam e cooptam seus fieis a votarem em candidatos indicados pela agremiação religiosa, sob a argumentação de que “Cristão vota em Cristão”, vale muito a pena a reflexão.

Será que é esta a prática política que Jesus Cristo disseminou ao longo de peregrinação entre nós?

Ao conhecermos a vida de Jesus percebemos claramente que sua ação política sempre foi pautada no bem comum. E é exatamente para este tipo de política que o cristão é chamado. A luta por um atendimento médico digno, por educação de qualidade, por espaços de lazer para a população, saneamento básico, entre outras demandas de serviços públicos devem, obrigatoriamente, fazer parte da ação política de um cidadão de fé. Luta esta que passa muito longe dos conchavos políticos, das manipulações de eleitores, da busca de promoção própria e das agremiações religiosas as quais pertencem determinado candidato. A atuação política de um cristão deve estar pautada na ética e na busca de um mundo com mais justiça social.

 

Flávio Puff

Professor de História

IFMG/Campus São João Evengelista

TEMPO DE REAFIRMAR O DISCURSO SOBRE O DIREITO DOS MAIS POBRES

As reformas propostas pelo governo federal formam um pacote que mostrará claramente uma “opção preferencial pelos ricos”.

A crise política no nosso país serviu de ocasião para desenterrar velhas pretensões da aristocracia brasileira. O atual governo com a justificativa de adotar medidas austeras para fazer o país voltar a crescer está tomando medidas impopulares. Porém, isso terá um preço muito alto para os menos favorecidos economicamente.

O congelamento dos gastos públicos por 20 anos (Emenda Constitucional 95/2016), a lei da terceirização (Lei 13.429/2017) e a reforma da previdência (PEC 287/2016) formam um pacote que mostrará claramente uma “opção preferencial pelos ricos”. Porém, na posição do governo tudo se resolve com discursos rotulativos como se a rejeição dessas reformas fosse meramente intrigas da oposição.

O que nos decepciona é saber que os valores humanos na história política não são acumulativos, eles estão à mercê da alternância de poder. É lamentável que o país não tenha um projeto político para o ser humano como um todo, mas tem um para os ricos e outro para os pobres. Basta mudar o grupo político no poder que tudo que foi conquistado é desmantelado.

A posição do atual presidente trata homens como “ferramentas” que têm de se encaixar em um sistema político e econômico a todo custo. Reduzir gastos públicos em serviços essenciais como saúde e educação vitimiza os mais pobres. A terceirização transforma o trabalhador em marionetes, peças manipuláveis e descartáveis. E a exigência de 49 anos de contribuição para uma aposentadoria aos 65 anos dá o golpe final! O trabalhador é entregue totalmente aos desmandos do capital. A regra é viver para trabalhar, simplesmente. Isso desumaniza as relações e as condições de trabalho!

Retomando a expressão “discursos rotulativos”. Com ela quero dizer que a defesa do direito do trabalhador, do pobre e das minorias se transformou para muitos cidadãos meramente em “ideologia de esquerda”. Além de sucatear os direitos do trabalhador em nome do capital, os donos do poder querem calar um discurso, minimizando-o. A reivindicação desses direitos tem uma história consolidada, começa pelo Iluminismo, passando pela organização dos movimentos operários, até a Declaração dos Direitos Humanos e leis diversas que humanizam as relações de trabalho.

O discurso minimizador é grave! Temos de ir adiante e reafirmar o discurso sobre o direito dos mais pobres.  Não podemos nos acovardar! Precisamos de uma nação para todos, que se desenvolva, cresça, sem deixar os menos favorecidos à margem. Um país sem justiça é um país sem esperança!

 

José Aristides da Silva Gamito

Professor de Filosofia no Seminário Diocesano Nossa Senhora do Rosário, em Caratinga, MG

Imagem: reprodução/ Internet

REFORMAR OU DESTRUIR DIREITOS?

Em Rio Vermelho, manifestantes ocuparam as ruas da cidade contra a Reforma da Previdência.

Você já ouviu falar sobre a PEC 287, que tramita no Congresso Nacional? A PEC 287 propõe REFORMAR ou DESTRUIR DIREITOS?

A Proposta de Emenda Constitucional 287̸2016, intitulada PEC da Reforma da Previdência, foi proposta pelo Governo Michel Temer e tramita no Congresso Nacional, tornando-se preocupação para a população brasileira.

Ao analisar criticamente o conteúdo do texto da Reforma Proposta, percebe-se claramente tratar-se de uma Reforma pautada na DESTRUIÇÃO da Previdência. Uma reforma que não atende aos interesses da classe trabalhadora brasileira e desvaloriza as mulheres e os trabalhadores e trabalhadoras rurais. Ao falar da DESTRUIÇAO da Previdência Social Brasileira, merecem atenção os seguintes pontos:

  • A PEC 287 propõe a idade mínima de aposentadoria para homens e mulheres aos 65 anos de idade, desconsiderando a necessidade de uma atenção especial às mulheres que, na maioria das vezes, possuem uma jornada dupla de trabalho;
  • A aposentadoria integral será garantida aos 65, somente a homens e mulheres que comprovem 49 anos de contribuição;
  • A aposentadoria por idade será garantida aos homens e mulheres que completarem 65 anos mediante a comprovação de 25 anos de contribuição;
  • Os trabalhadores e trabalhadoras rurais somente aposentaram aos 65 anos de idade, o que representa um retrocesso aos direitos da população rural;
  • Extingue-se a aposentadoria especial para professor do ensino fundamental e médio e de policiais civis;
  • A aposentadoria por invalidez seguirá as regras da aposentadoria por idade ou por tempo de contribuição;
  • O Beneficio de Prestação Continuada – BPC, destinado à pessoa idosa e à pessoa com deficiência que não possuem renda e cujo grupo familiar possui uma renda inferior ou igual a 1/4, será desvinculado do salário mínimo e a idade da pessoa idosa passa de 65 para 70 anos. Ceifando assim mais um dos diretos previstos na Constituição Federal de 1988.

Mediante ao que está proposto pela PEC 287, percebe-se claramente o objetivo de ceifar direitos da classe trabalhadora, penalizando os setores mais vulneráveis da sociedade, coloca-se em risco direitos conquistas por luta de anos.

Com a Reforma da Previdência, votada como está proposta, podemos colher frutos amargos. Prever-se o aumento da pobreza, o aumento das desigualdades sociais, milhões de brasileiros terão benefícios inferiores ao salário mínimo.

Para refletir o momento em que vivemos, ouso usar as palavras da escritora Marilda Vilela Iamamoto:

O momento que vivemos é um momento pleno de desafios. Mais do que nunca é preciso ter coragem, é preciso ter esperança para enfrentar o presente. É preciso resistir e sonhar. É necessário alimentar os sonhos e concretizá-los dia-a-dia no horizonte de novos tempos mais humanos mais justos, mais solidários.

E não podemos desistir, temos que resistir, sonhar e lutar. Mais uma vez o população brasileira tem se organizado e saído às ruas. Devido aos diversos movimentos sociais a votação da tal PEC, prevista para 28/03/2017, foi adiada. Atualmente, a sociedade brasileira tem sido obrigada a sair às ruas, por motivos que jamais poderíamos imaginar em pleno século XXI. A população brasileira tem saído às ruas para não perder seus direitos adquiridos ao longo dos anos. Sendo um desses, o direito a Previdência Social. Não podemos desistir, temos que seguir em frente. Não podemos aceitar o desmonte da Previdência Social. É tempo de luta e resistência. Não permitiremos nenhum direito a menos.

Iara Santos

Assistente Social

É TEMPO DE AGIR, (RE)AGIR E RESISTIR

Para se aposentar, o trabalhador rural precisa comprovar que atingiu a idade de aposentadoria realizando atividades no campo.

A sociedade brasileira vive atualmente um momento crucial em sua história. Isso porque vem sofrendo os impactos do sistema capitalista avassalador responsável por expropriar não apenas os direitos, mas a própria vida dos trabalhadores e trabalhadoras que constituem as classes mais afetadas. Situação que pode ser observada a partir da principal estratégia adotada pelo governo Temer, que tem por objetivo quebrar a espinha dorsal da classe trabalhadora. Eis que nos deparamos com a continuidade do golpe!

Não há limites ao livre desenvolvimento do capital e é exatamente na ausência desses limites que consiste o cerne das crises econômica, social, política, hídrica, do sistema penitenciário e tantas outras que vivemos na atualidade.

Nesse cenário, quando o atual governo traz à tona pautas como a reforma da previdenciária e a trabalhista, se verifica como principal objetivo o desmonte da previdência e o fim da CLT, com terceirização das atividades fins, seja no setor público ou privado.

Diante de tais circunstancias, somos todos chamados a grande desafio que diz respeito a consolidação de um movimento de resistência, em que conste a presença maciça dos trabalhadores, dos assentados, dos atingidos por barragens, dos desempregados, dos diversos sujeitos oprimidos, que são os principais afetados por todas essas reformas, mas que ainda não fazem resistência. Afinal, como bem nos lembra Paulo Freire (1977), “quem melhor que os oprimidos, se encontrará preparado para entender o significado terrível de uma sociedade opressora?”[1]

Por tudo isso, é tempo de agir, (re)agir e resistir. Tempo de resgatar o trabalho de base e alcançar os oprimidos que ainda não se somaram ao movimento de resistência, para que juntos possamos resistir! Tempo de levantar bandeiras de luta em defesa da manutenção de direitos e contra tamanhos retrocessos que brutalmente ameaçam os direito historicamente conquistados pela classe trabalhadora. É tempo de resistir!

Dalva Eliá da Silva

Mestre em Política Social pela Universidade Federal Fluminense (UFF)

 

 

[1]Paulo Freire, Pedagogia do Oprimido (1977)

 

Imagem: Reprodução/ Internet

MANIFESTO CONTRA A REFORMA PREVIDENCIÁRIA

Professoras da rede pública de ensino durante assembleia estadual, em Belo Horizonte.

Aos 28 de março, no pátio da Assembleia Legislativa de Minas Gerais, em Belo Horizonte, realizou-se uma assembleia estadual promovida pelo Sindicato Único dos Trabalhadores em Educação de Minas Gerais (Sind-UTE/ MG). O evento contou com mais de 10 mil manifestantes, motivados pela mesma luta: impedir a aprovação da reforma previdenciária e exigir o cumprimento dos acordos assinados pelo governo de Minas gerais com os profissionais da educação básica.

Os trabalhadores, durante a assembleia, decidiram pela continuação da greve. O movimento grevista faz parte de uma série de manifestações, agendadas pelos profissionais da educação em todo o país, contra a Proposta da Emenda Constitucional nº 287/2016 (PEC da Previdência). Este documento estabelece novas regras para a aposentadoria, como a exigência de idade mínima de 65 anos para o recebimento integral do benefício, além de 49 anos de contribuição com a Previdência Social.

Esta foi a maior assembleia, desde 2011, de acordo com a coordenadora geral do Sind-UTE/MG, Beatriz Cerqueira, realizada por profissionais da educação no Estado.  No evento ficou claro que a luta é coletiva e não haverá retrocessos ou recuos da parte dos grevistas. O ato contou com a participação de vários movimentos sociais, sindicatos do setor privado e, em especial, de muitos jovens e de cidadãos que já se aposentaram. Estes, em especial, afirmaram que continuarão a luta em nome de seus filhos e netos.

Neste mesmo dia, 28/04, estava marcada para ocorrer na Câmara Federal a votação, em 1º turno, para aprovação da Emenda Constitucional 287/16 (PEC da Previdência). No entanto, os movimentos grevistas pelo país impediram essa ação parlamentar. Os movimentos sociais devem seguir firmes, as atividades devem ser permanentes. Acredita-se que somente através de muita luta e persistência derrubar-se-á esta Reforma que visa tirar os direitos do trabalhador.

É necessário que a comunidade entenda e apoie. O movimento é sério. Não podemos permitir que direitos, até aqui conquistados, se percam. O brasileiro está a escrever sua história. Que este seja um movimento de vitória para ser contado às futuras gerações!

“A classe trabalhadora não aceita nenhum direito a menos”!

 

Enilza Santos Miranda

Professora de Língua Portuguesa

NENHUM DIREITO A MENOS

Há consenso de que a PEC/287 retira direitos dos trabalhadores brasileiros.

No dia 15 de março, teve início um movimento da sociedade civil, articulado pelos professores da rede estadual de Minas Gerais, contra a Reforma da Previdência Social. Conscientes da sua importância no contexto social, os professores tem reunido forças no sentido de despertar a população guanhanense para a luta de direitos adquiridos ao longo de anos e contestar através de manifestações diversas a proposta de Reforma da Previdência encaminhada pelo Presidente da República à Câmara Federal.

As mobilizações tiveram início aos 8/3, quando mulheres foram às ruas de Guanhães chamar a atenção da população para a causa feminina, e ganharam força, aos 15/3, quando representantes de diferentes classes trabalhadoras foram às ruas em passeata, dizendo não à PEC 287/2016. Em seguida, professores se organizaram em reuniões diárias para debaterem sobre o tema e articulação de ações concretas para promover, na sociedade local, o entendimento da situação social e política do Brasil nesse contexto obscuro forjado pelos grandes veículos de comunicação.

Professores distribuíram-se em diferentes grupos para mobilização das instituições e das suas lideranças. Foi proposto, aos 24/3, um Seminário sobre o tema para ajudar a esclarecer à população sobre o aspecto técnico e a conjuntura política diante da proposta de Reforma da Previdência. Na terça-feira, 28, uma caravana de professores sairá rumo à capital mineira, juntando-se a outros trabalhadores, para protestar na Assembleia Legislativa.

O momento é de luta! A conjuntura sociopolítica é delicada e nós, cidadãos trabalhadores, temos de unir forças para garantirmos que as batalhas, enfrentadas por tantos cidadãos que nos antecederam em busca de direitos sociais, não sejam vencidas pela nossa inércia. Cada um no seu lugar, onde se encontra, tem muito a fazer. Venha para a luta!

Dalila Duarte

Professora de História

“Entre São José e Deus não vemos e não devemos ver senão Maria, por sua divina Maternidade”. “São José, depois de Maria, é o maior de todos os Santos”

     “Eu gostaria de dizer a vocês também uma coisa muito pessoal. Eu gosto muito de São José porque é um homem forte e de silêncio. No meu escritório, eu tenho uma imagem de São José dormindo, e dormindo, ele cuida da Igreja. Quando eu tenho um problema ou uma dificuldade, eu o escrevo em um papelzinho e o coloco em baixo de São José, para que ele sonhe sobre isso. Isso significa: para que ele reze por este problema” – Papa Francisco.

O Papa Pio XI, em 08 de dezembro de 1870, proclamou São José Patrono Universal da Igreja, disse: “Entre São José e Deus não vemos e não devemos ver senão Maria, por sua divina Maternidade”. “São José, depois de Maria, é o maior de todos os Santos”.

Em 1956, o Papa Pio XII (1939-1958) instituiu a festa de São José Operário, a ser celebrada em rito duplo de primeira classe no dia 1º de maio, Dia Universal do Trabalho.

São Mateus afirma em seu Evangelho que São José “era um homem justo” (Mt 1,19). Isto, na linguagem bíblica, significa um homem repleto de todas as virtudes, de santidade completa, perfeito. Jesus quis ter um pai na terra: O anjo do Senhor, aparecendo-lhe em sonho, diz-lhe: “José, filho de Davi, não temas receber Maria, tua esposa, pois o que ela concebeu é obra do Espírito Santo” (Mt. 1,20).

Coube a São José a grande honra de dar o nome ao Filho de Deus humanado. O Anjo lhe disse: “Ela dará à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus, porque ele salvará o seu povo de seus pecados. Tudo isto aconteceu para que se cumprisse o que o Senhor falou pelo profeta” (Mt 1, 21-22).

Em uma aparição a Santa Margarida de Cortona, disse Jesus: “Filha, se desejas fazer-me algo agradável, rogo-te não deixeis passar um dia sem render algum tributo de louvor e de bênção ao meu Pai adotivo São José, porque me é caríssimo”.

Santo Afonso de Ligório (†1787), doutor da Igreja, garantia que todo dom ou privilégio que Deus concedeu a outro Santo também o concedeu a São José.

São Francisco de Sales (†1655), doutor da Igreja, diz que “São José ultrapassou, na pureza, os Anjos da mais alta hierarquia”.

São Jerônimo (†420), doutor da Igreja, diz que: “José mereceu o nome de “Justo”, porque possuía de modo perfeito todas as virtudes”.

São Bernardo (†1153), doutor da Igreja: “De sua vocação, considerai a multiplicidade, a excelência, a sublimidade dos dons sobrenaturais com que foi enriquecido por Deus”.

Se São José foi escolhido para Esposo de Maria, a mais santa de todas as mulheres, é porque ele era o mais santo de todos os homens. Se houvesse alguém mais santo que José, certamente seria este escolhido por Jesus para Esposo de Sua Mãe Maria. Nós não pudemos escolher nosso pai e nossa mãe, mas Jesus pôde, então, escolheu os melhores que existiam.

São Francisco de Sales disse ainda: “Oh! que divina união entre Nossa Senhora e o glorioso São José; união que tornava José participante de todos os bens de sua cara Esposa e o fazia crescer maravilhosamente na perfeição, pela contínua comunicação com Ela, que possuía todas as virtudes em grau tão alto, que nenhuma criatura o pode atingir”.

Testemunho de Santa Teresa de Ávila (†1582), doutora da Igreja, devotíssima de São José. No “Livro da Vida”, sua autobiografia, ela escreveu:

“Tomei por advogado e senhor ao glorioso São José e muito me encomendei a ele. Claramente vi que dessa necessidade, como de outras maiores referentes à honra e à perda da alma, esse pai e senhor meu salvou-me com maior lucro do que eu lhe sabia pedir. Não me recordo de lhe haver, até agora, suplicado graça que tenha deixado de obter. Coisa admirável são os grandes favores que Deus me tem feito por intermédio desse bem-aventurado santo, e os perigos de que me tem livrado, tanto do corpo como da alma. A outros santos parece o Senhor ter dado graça para socorrer numa determinada necessidade.”

“Ao glorioso São José tenho experiência de que socorre em todas. O Senhor quer dar a entender com isso como lhe foi submisso na terra, onde São José, como pai adotivo, o podia mandar, assim no céu atende a todos os seus pedidos. Por experiência, o mesmo viram outras pessoas a quem eu aconselhava encomendar-se a ele. A todos quisera persuadir que fossem devotos desse glorioso santo, pela experiência que tenho de quantos bens alcança de Deus…De alguns anos para cá, no dia de sua festa, sempre lhe peço algum favor especial. Nunca deixei de ser atendida”.

No Evangelho consta que São José era carpinteiro: “Não é este o filho do carpinteiro?”(Mt 13, 55). Mas a expressão é mais genérica, pois diz “filius fabri”, quer dizer, filho de artesão.

A vocação de São José foi a de representante do Pai Eterno junto a seu Filho Unigênito na terra. Por isso os autores místicos o chamam de “Sombra do Pai Celeste”; um privilégio especial só a ele concedido. Isto nos faz lembrar a palavra que diz: “Eu sou o Senhor, esse é meu nome, a ninguém cederei minha glória, nem a ídolos minha honra” (Is 42,8).

São Basílio Magno (330-369), doutor da Igreja, diz: “Ainda que José tratasse sua mulher com todo afeto e amor e com todo o cuidado próprio dos cônjuges, entretanto se abstiveram dos atos conjugais” (Tratado da Virgem Santíssima, BAC, Madri, 1952, p. 36).

Papa Leão XIII disse na Encíclica Quam quam pluries: “Muitos Padres da Igreja, de acordo com a Sagrada Liturgia, acreditam que o antigo José, filho do Patriarca Jacó, tenha figurado a pessoa e o ministério do nosso São José, e simbolizado, com o seu esplendor, a grandeza e a glória do futuro Custódio da Sagrada Família.”

Eis o que diz a respeito São Bernardo, doutor a Igreja: “Lembra-te do grande Patriarca vendido para o Egito, e sabe que ele não só lhe herdou o nome, mas imitou-lhe também a castidade, mereceu-lhe a inocência e a graça. E se aquele José, vendido por inveja dos irmãos e conduzido ao Egito, prefigurou a venda de Cristo, o nosso José, fugindo da inveja de Herodes, levou Cristo para o Egito”.

Papa João Paulo II: “Precisamente em vista da sua contribuição para o mistério da Encarnação do Verbo, José e Maria receberam a graça de viverem juntos o carisma da virgindade e o dom do matrimônio. A comunhão de amor virginal de Maria e José, embora constitua um caso muito especial, ligado à realização concreta do mistério da Encarnação, foi todavia um verdadeiro matrimônio” (cf Exort. Apost. Redemptoris custos, 7).

São José é o patrono da boa morte: Santa Teresa, narrando a morte de suas filhas, devotas do Santo, dizia:

“Tenho observado que, no momento de exalar o último suspiro, gozavam inefável paz e tranqüilidade; sua morte assemelhava-se ao doce repouso da oração. Nada indicava que estivessem interiormente agitadas por tentações. Essas divinas luzes me libertaram o coração do temor da morte. Morrer parece-me agora o que há de mais fácil para uma alma fiel”.

 Enviado pelo seminarista Daniel Bueno.

                                                                     Com José – pensar novas masculinidades

Confesso que a figura de José me deixa inquieto. Uma mistura de encanto e angústia. Olho para o padroeiro aqui da nossa Catedral de Erechim, de tantas comunidades e da Igreja universal e sinto que, talvez, a imagem que é passada é de um homem cabisbaixo e triste. Tem a letra de uma música cantada pela Rita Lee chamada “José” que fala um pouco sobre isso. Num dos trechos diz:

Me lembro as vezes de você

Meu bom José, meu pobre amigo

Que desta vida só queria

Ser feliz com sua Maria!

Parece que faltou algo a José. Por outro lado, parece que ele teve tudo. Teve Maria. Teve Jesus. Teve fé. Teve trabalho. Teve silêncio. Não é minha vontade aprofundar as características de José, até porque, sobre ele se sabe muito pouco. Sabe-se mais do seu silêncio do que de sua palavra. Sabe-se mais da sua inquietude do que da sua vida. Sabe-se mais da sua sensibilidade do que do seu trabalho.

Talvez, algo que mereça destaque, é como São José nos ajuda a pensarmos novas masculinidades. Imaginemos: numa época machista, patriarcal em que sequer mulheres e crianças eram contadas, José se apresenta como um homem da escuta, do diálogo, da paciência e sensível a Maria e a situação da época. Maria aparecera grávida. Antes de apontar o dedo, antes de julgar, mesmo inquieto, José silencia e busca discernimento. Poderia, como era costume, julgar, condenar, “fazer o diabo” se quisesse… não o fez! Discerniu e “sonhou”. Deus ajudou nesse discernimento. O resultado foi acolhida, foi companheirismo, escuta e fidelidade.

Ainda vivemos marcas profundas do patriarcado. As instituições, de maneira geral, preservam grandes marcas machistas. As mulheres não tem acesso a muitos espaços ainda. Damos passos. José, com isso, nos ajuda sermos homens “novos” para reconhecermos o espaço da mulher. Necessariamente isso é critério: homens “velhos”, ou, noutras palavras, consciência velha, não vai ajudar dar passos. A postura de José ajuda. É, contudo, contraditória e provoca a pensar. Homem mesmo quem é? É o “pegador de todas”? É o dominador? É o “chefão”? É o julgador? É o dono da casa? José vai em outra direção: sensibilidade, inquietude, diálogo, harmonia, silêncio. Talvez o verdadeiro homem.

Valei-nos José! Ajude-nos a sermos “homens de verdade” e a repensarmos nossa postura masculina numa cultura que ainda mantém características bastante machistas e transforma isso em sutil consciência de grandiosidade. Que o 19 de março nos ajude a celebrar sua memória, mas, sobretudo, repensar nossa postura.

                                                                                                                                                    Pe Maicon A Malacarne

Dom Mol: a guinada conservadora ameaça os pobres

 

Os brasileiros precisamos ter a consciência da gravidade do momento político, social, econômico e moral que vivemos nos últimos meses. No difícil ano de 2016, o país viu-se diante de projetos e decisões congressuais – alguns já implementados – que claramente trarão em curto e médio prazos consequências graves para os trabalhadores e os pobres. O rotundo silêncio do presente contrasta, inexplicavelmente, com o rotundo barulho do ontem.

A conscientização e mobilização contra a chamada PEC 241 na Câmara Federal e PEC 55 no Senado, que mereceu nossa atenção e apoio, não lograram resultado. Como compreender a lógica do corte no social e na educação e ao mesmo tempo o aumento nos ministérios, nos salários de algumas categorias já bem enriquecidas em relação à grande massa de assalariados e desempregados no país? Assuntos outros como a polêmica reforma do ensino médio, a redução da maioridade penal, a reforma da Previdência Social, a transferência da responsabilidade pela demarcação das terras indígenas do Poder Executivo para o Legislativo, como inapetência do Estado frente ao contínuo agravamento das condições de vida das populações indígenas, as mudanças no estatuto do desarmamento, as alterações em leis trabalhistas, o preenchimento de inúmeros cargos importantes com políticos, empresários e juristas sob suspeita ou em adiantado processo de investigação apontam, infelizmente, para sérios retrocessos em diversas conquistas que resultaram da mobilização de milhões de brasileiros desde tempos antigos como o da Constituinte, por exemplo.

É inegável que são propostas que, a despeito das fartas justificativas e explicações de natureza econômica e financeira, significarão ainda mais riscos, perdas e sacrifícios para os pobres. Mas não apenas estes. Famílias da chamada classe média veem rapidamente diminuir seu poder de compra, tendo que adiar sonhos como o de possuir o imóvel próprio, aumentar a família, formar os filhos na universidade ou que seja viajar e descansar da rotina de trabalho, cada vez mais massacrante e, com a pretendida reforma da previdência, com perspectivas muito longínquas de aposentadoria. A mortalidade precoce ronda cada vez mais as micro e pequenas empresas, que mal conseguem pagar os salários de seus poucos funcionários.

Mas a reação governamental a isso tem sido, por um lado, a defesa dos interesses do grande capital e, por outro, a exigência de sacrifícios dos mais pobres e a agudização das condições de sobrevivência da microeconomia e da própria economia doméstica. Mais do que poupado, o sistema financeiro é novamente privilegiado. Como no mundo todo, os bancos vão bem melhor que o país. Aliás, difícil lembrar no Brasil algum momento em que banqueiros tenham reclamado de decisões econômicas. A mais terrível síndrome brasileira da Casa Grande & Senzala arraigada no modus operandi, faciendi e vivendi sociopolítico, governamental, empresarial e, assombremo-nos todos, também do Judiciário.

Se a economia é que, em geral, mais impacta as pessoas, não devemos nos distrair em relação aos outros setores da vida social. Um fenômeno que parece, ao mesmo tempo, se dar também em vários países do mundo, o Brasil testemunha neste momento uma triste desaceleração e recuo em iniciativas de resgate da dignidade popular. Somada à crise econômica que, como sempre, atinge de modo mais draconiano e covarde os empobrecidos, observamos, claramente, no país, na política e nos direitos sociais, uma guinada conservadora e neoliberal.

Importantes conquistas em termos dos dispositivos e dinâmicas de participação democráticas nas políticas públicas e diretamente nos governos dos municípios e estados via associações de bairros, de categorias profissionais, grupos sociais e redes de apoio comunitário vão se fragilizando e desmaterializando. É lamentável observar como a cidadania no Brasil, mantida historicamente em situação anêmica e emudecida, volta a ser constrangida, na exata hora em que se reanimava e reunia forças para erguer a cabeça e caminhar.

Pode-se mencionar aqui as paradoxais medidas de imputar penalmente os adolescentes – pessoa adulta em formação – e permitir que os recém-adultos possam portar armas de fogo, o que certamente não significará a diminuição ou maior controle da violência. Pelo contrário, tudo sugere que aumentará a verdadeira guerra civil que, anualmente, dizima dezenas de milhares de brasileiros em mortes por arma de fogo, especialmente os mais jovens e negros, muitos pelas forças que deviam proteger a população. Tragédia sobre a qual a sociedade simplesmente silencia.

Assim como também a mídia e a maior parte da sociedade não se pronunciam sobre o gravíssimo momento enfrentado pelas populações indígenas brasileiras. Nesses quase 30 anos de vigência da Constituição, que estabeleceu avanços importantes de proteção aos direitos indígenas e das populações tradicionais, essas comunidades estejam enfrentando hoje, talvez, os riscos mais graves do que em qualquer outro momento dessas três décadas. É a conclusão de um relatório apresentado ao Conselho de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas. O relatório chama a atenção para um aspecto que parece bem sintomático do Brasil atual, em que o Estado insiste em viver divorciado da sociedade civil. O país dispõe de uma série de disposições constitucionais exemplares em relação aos povos indígenas, mas não as aplica, e o que se percebe é a deterioração intensa das condições de vida desses povos.

Nenhuma nação pode realizar-se em meio a tanta desigualdade. É papel precípuo da Universidade não só expressar sua solidariedade às massas de pobres, trabalhadores empregados ou não, homens e mulheres de boa vontade e de todas as idades, como também contribuir para a formação da consciência crítica, cidadã, ecológica integral, progressista, ética, arejada, humanizada, inclusiva, justa e livre.

Professor Dom Joaquim Giovani Mol Guimarães
Reitor da PUC Minas e Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Belo Horizonte

Fonte: Canal Aberto – Newsletter da Reitoria – Março/Abril de 2017, n. 27.

 

Ética civil soberana

Dom Walmor Oliveira de Azevedo

Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte

 

A sociedade convive com a lamentável perda da soberania da ética que, gradativamente, deixa de presidir a conduta cidadã e os funcionamentos institucionais diversos. E quando se desconsidera a soberania da ética, perde-se a credibilidade e a possibilidade de corrigir rumos. As consequências são as derrocadas que vão corroendo o tecido social e político. Não se confia mais no que deveria ser inquestionável: a palavra das pessoas, inclusive de líderes. Tornam-se escassos os que são merecedores de reconhecimento. E cada vez mais raras são as práticas alicerçadas em princípios que convençam os indivíduos, no mais recôndito de suas consciências, a agir conforme os valores que refletem o respeito incondicional à soberania da ética.

Hoje, infelizmente, vale tudo, conforme conveniências e interesses. Perde-se o rumo, pois quando se abandona a soberania da ética, a sociedade tende a descompassar-se violentamente. São produzidos cenários abomináveis que danificam a identidade social e política de uma nação. Tudo em consequência do desrespeito de governos e de segmentos variados que pautam seus funcionamentos nos interesses cartoriais e partidários. Por isso mesmo, o noticiário está repleto de referências aos esquemas de corrupção, às muitas formas de violência, às abomináveis ações que revelam a perda do sentido de respeito e de sacralidade da dignidade humana.

Considerações subjetivas, com a força arbitrária de relativização negativa, impactam no sistema de valores que deveriam ser capitaneados pela ética. Isso provoca uma deterioração do núcleo da consciência e escancara as portas para atos ilícitos. Assim, constata-se a falta de ética nas escolhas, nas decisões e nas atitudes. Uma situação ainda mais preocupante quando se considera que a formação da consciência cidadã requer longo percurso, com práticas cotidianas e a exemplaridade de testemunhos. Já a deterioração dessa consciência cidadã ocorre “da noite para o dia”, desencadeada pela hegemonia que se confere aos interesses relacionados à patológica ganância por dinheiro, às condutas que revelam mesquinhez e indiferença com o que é digno. Por isso, urgente é promover a recuperação da ética civil, com investimentos na dimensão moral da sociedade.

Sem esses investimentos, as reformas da sociedade ficam enfraquecidas. A racionalidade que poderia produzir avanços e garantir conquistas torna-se ineficaz pela ausência da ética civil.  Há, pois, urgência em priorizar a moralidade na sociedade contemporânea.  O pluralismo não pode jamais dispensar o compromisso e a responsabilidade de todos, particularmente de dirigentes, líderes e formadores de opinião, em colaborar com um projeto legítimo e unificador: o resgaste do gosto de ser honesto. Envergonhar-se das dinâmicas prejudiciais ao bem comum, com atentados à dignidade humana.  Se esse projeto unificador não for assumido, os segmentos sociais e políticos continuarão a gastar suas maiores e mais importantes forças na tentativa de recuperar os prejuízos da corrupção.

Toda a sociedade está desafiada a redesenhar ou retomar o horizonte ético e moral, que deve orientar desde as práticas mais simples do cotidiano até o respeito incondicional a leis e normas. Trata-se de caminho para garantir a justiça e a paz. Nesse sentido, é importante pautar a ética civil como prioridade e razão dos investimentos. É hora de assumir os valores próprios de uma ética civil soberana.

 

 

Quaresma: Consciência e conversão para os Biomas brasileiros – Uma reflexão

Côn. Dr. Manuel Quitério de Azevedo

(Amazônia, Cerrado, Caatinga, Mata Atlântica, Pantanal e o Pampa, nossa casa comum)

(CF – 2017)

A Sagrada Escritura nos diz: “No princípio, criou Deus o céu e a terra” (Gn 1, 1), e para continuar a aprofundar e cuidar de sua obra Deus disse: “Façamos o homem à nossa imagem e semalhança” (Gn 1, 26). Por isso, entre muitos atributos que diferenciam o ser humano dos demais, como por exemplo, a razão, moral, honestidade, respeito, entre outros, certamente, a fraqueza humana não o deixa fora de todas estas características qualitativas . Assim, o tempo da quaresma com suas orientações pedagógicas, presenteia o cristão convidando-o a viver as mais ricas reflexões de fidelidade à Deus, de obediência à sua palavra e a jogar-se na sua misericórdia. É a grande oportunidade que nos é oferecida. Para engrandecer este tempo tão propício aos cristãos temos a Camapanha da Fraternidade que este ano nos orienta para uma de nossas grandes riquezas, a ecologia. Assim temos: “Fraternidade: Biomas Brasileiros e Defesa da Vida”. O lema, fundamentado na Sagrada Escritura, nos orientando para a ordem do Criador: “Cultivar e guardar a criação.” (Gn 2,15). No Brasil, nossa grande casa comum, é notório que este grande  jardim que Deus criou por amor, o homem está degradando por ganância. Há uma velocidade acentuada na destruição da natureza e uma lentidão na sua recuperação. Biomas, para quem na sabe, são regiões que no seu todo formam um conjunto de vida vegetal, animal, climática e bacias hidrográficas. Tudo está interligado. No Brasil temos seis regiões-biomas, a saber: Amazônia, Cerrado, Caatinga, Mata Atlântica, Pantanal e o Pampa. Todas as regiões estão sendo depredadas. O homem que devia ser cuidador da nossa casa comum tornou-se destruidor. O Meio Ambiente está cheio de chagas causadas pelo sistema econômico mundial e os modelos de crescimento. Eis, pois, a urgência da conversão ecológica que consiste em passar do consumo ao sacrifício, da avidez à generosidade, do desperdício à partilha. Precisamos cultivar o sentimento de casa comum e de família.

O lançamento da Campanha da Fraternidade no tempo da Quresma é muito oportuno. Neste tempo forte ouvimos palavras como penitência, arrependimento, jejum, conversão, que ao serem ouvidas por nós, quer nas liturgias eucarísticas, textos bíblicos, via sacras, pregações, palestras e nos meios de comunicação de caráter religioso, querem também nos interligar, ou seja, Igreja e sociedade, a começar pela comunidade onde estamos inseridos. Tudo isso são fontes maravilhosas que nos levam a um encontro com Deus e nós mesmos. Santo Antônio nos seus dizeres atesta: “a caridade é a alma da fé”. O grande taumaturgo assevera: “Quem não possui a caridade, mesmo que faça tudo muito bem feito, sempre trabalha em vão”. Quem pratica a caridade sempre está orando sem cessar. Por isso, o tempo da Quaresma é especial em sua metodologia espiritual. Neste tempo litúrgico encontramos à nossa disposição a misericórdia de Deus que no dizer do Papa Francisco “jamais se cansa de perdoar; nós é que nos cansamos de pedir perdão”. A Campanha da Fraternidade leva-nos a pedir perdão. Ela nos conscientiza do perigo e das conseqüências maléficas do “pecado cósmico”. Já nos diz São Paulo Apóstolo que “a criação geme e sofre dores de parto” (Rm 8,22). Que o texto base da Campanha da Fraternidade nos oriente. Todo nosso cuidado com a natureza tem seu fundamento no amor do Criador. Ele está presente em todo o Universo desde as pequeninas criaturas. Tudo o que existe é sinal da providência, sabedoria, beleza e amor de Deus.

O Papa Francisco, profeta de nossos tempos ao se dirigir a nós que habitamos o Planeta Terra, nos convida a uma “conversão ecológica, uma cultura ambiental e uma espiritualidade defensora da natureza”. A terra transformou-se num “depósito de lixo”, diz o Papa, e lamenta que muita gente ainda  tenha atitude  de indiferença, desinteresse, resignação, diante de tanta destruição. Na sua mensagem para a Campanha da fraternidade de 2017 na Igreja do Brasil o Pontífice nos diz: “O objetivo da Campanha da Fraternidade deste ano, inspirado na passagem do Livro do Gênesis (cf. Gn 2,15), é cuidar da criação, de modo especial dos biomas brasileiros, dons de Deus, e promover relações fraternas com a vida e a cultura dos povos, à luz do Evangelho. Como “não podemos deixar de considerar os efeitos da degradação ambiental, do modelo atual de desenvolvimento e da cultura do descarte sobre a vida das pessoas” (LS, 43). Este, precisamente, é um dos maiores desafios em todas as partes da terra, até porque as degradações do ambiente são sempre acompanhadas pelas injustiças sociais”. Vamos juntos nesta quaresma buscar o melhor para nossa santificação pessoal e social, não esquecendo nosso ecossistema, vale dizer: Cuidar do meio ambiente a flora, fauna os microrganismos que nele habitam, e que incluem os fatores de equilíbrio geológico, atmosférico, meteorológico e biológico. Onde há luta, há coroa”. São João de Cruz conclui: “Não fujas dos sofrimentos, porque neles está a tua saúde”. Quaresma é isso. Pense nisso.

 

Côn. Dr. Manuel Quitério de Azevedo

Professor do Seminário de Diamantina e da PUC – MG

Membro da Academia de Letras e Artes de Diamantina – MG

Membro da Academia Marial – Aparecida – SP

 

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